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Novembro 22nd, 2007 — Carlos Cardoso, Literatura Moçambique, Mia Couto

“Cardoso era um defensor da fronteira que nos separa do crime, dos negócios sujos, dos que vendem a pátria e a consciência. (…) O sentimento que nos fica é o de estarmos a ser cercados pela selvajaria, pela ausência de escrúpulos dos que enriquecem à custa de tudo e de todos. Dos que acumulam fortunas à custa da droga, do roubo, do branqueamento de dinheiro e do tráfico de armas. E o fazem, tantas vezes, sob o olhar passivo de quem devia garantir a ordem e punir a barbárie.”
(Mensagem na cerimónia fúnebre de Carlos Cardoso, Maputo, Novembro de 2000)
Novembro 8th, 2007 — João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique
Leónidas Ntsato de visita à ilha Nhamichendjeze (Rio Zambeze, Província de Tete).
“Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas - tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto.
E assim era porque Leónidas Ntsato se encontrava deitado com a face pousada na areia da pequena praia fluvial.”
(João Paulo Borges Coelho, As Duas Sombras do Rio, Maputo, Ndjira, 2003)
Novembro 4th, 2007 — Adelino Timóteo, Literatura Moçambique
Blog in Beira. Mui péssimo almoço no Miramar (como é possível tão mau peixe face ao mar?), salvo pela rara companhia da Fernanda Q. Súbito, pois passando ali diante, finalmente a conhecer o Adelino Timóteo, aquele homem do aqui excêntrico “Viagem à Grécia Através da Ilha de Moçambique“. Valeu. Depois a ir ao Clube Náutico descobrir-lhe a coisa autodidacta de pintar - e olhando para o Sitoe. Abraço, até ao (próximo) lançamento do seu muito próximo romance “Mulungu” (Texto Editora, aquela editora dos lançamentos literários para o jet-set político-económico. Piripiri depois, ó Timóteo?).
Novembro 4th, 2007 — Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Nelson Saute
Outubro 7th, 2007 — Armando Artur, Francisco Noa, Literatura Moçambique
Como as ligações aos textos nos jornais têm tendência a serem perecíveis aqui fica a transcrição do texto com o qual Francisco Noa apresentou o último livro de Armando Artur. (Foi retirado do Notícias)
Já agora: que a actual moda de lançamentos de livros procure a elegância, como este livro lançado na última quinta-feira, num dos hotéis mais significativos da nossa capital. Perante uma plateia de luxo que abarrotava a sala que acolhia gente importante do nosso universo cultural e político. Dando um grande valor ao acto que se realizava. não é defeito. Posso argumentar que dar valor ao acto de edição é ler o livro, mas também acho que o “povo bonito” se calhar compra e, até, pode patrocinar - ainda assim fico-me com a minha saudade das sessões com escassas chamussas e vinhos suspeitos (e com a memória do Navarro, praticante do tinto, ordinário que fosse), onde se podiam encontrar caras amigas menos do quotidiano.Agora que os livros sejam lançados e passados quinze dias ainda não se encontrem nas livrarias é que acho mesmo estranho - por exemplo, nem sei que editora publicou este “No Coração da Noite” - ou será que se edita só para o dia do lançamento?
Enfim, depois do resmungo, aqui fica o texto do Francisco Noa:
“No Coração da Noite”, de Armando Artur
Ao prefaciar “Os Dias em Riste” de Armando Artur, em 2002, sublinhei, na altura, alguns aspectos que caracterizavam a forma do autor fazer e de estar na poesia: constância, intimismo, leveza, equilíbrio e simplicidade, mas sempre com um apurado sentido de profundidade.
Lendo, hoje, passados cinco anos, “No Coração da Noite”, seu último livro, entendo que se os aspectos atrás referidos continuam presentes – o que valoriza sobremaneira a sua obra, do ponto de vista de permanência e de uma fidelidade intrínseca –, outros elementos há que emergem e que representam uma curva evolutiva da sua escrita.
Em relação à obra que temos, neste momento, em mãos, começaria, em primeiro lugar, por me referir à composição obtida na articulação entre a palavra e a imagem, onde os poemas se casam com os desenhos da autoria de um poeta da imagem que dá pelo nome de Ídasse Tembe.
Aí, surpreendemos um diálogo cúmplice e interactivo que obriga o leitor a procurar e a encontrar múltiplos e desconcertantes sentidos entre os versos e os traços das figuras representadas, numa envolvente demonstração de que a poesia enquanto expressão da modernidade é uma experiência permanente sobre os materiais que lhe dão forma, isto é, sobre os seus próprios processos de construção.
O segundo elemento que vejo destacar-se, nesta obra, assenta no poder figurativo da metáfora. Alguns exemplos: “No Coração da Noite”, suor dos mangais (p. 12), perfume de cio (p. 13), oferenda divina (p. 34), grinalda de quimera (p. 41), janela da tarde (p. 52), etc.
Metáfora transversal e estruturadora de toda a obra é certamente aquela que dá título à obra: “No Coração da Noite”. Esta acaba por cumprir múltiplas funções:
Celebração da vida e da poesia pois é aí onde tudo parece começar, terminar e recomeçar e que faz desse lugar-tempo uma dimensão privada, profana mas também sagrada onde se esconde e se revela o mistério da criação: “É no coração da noite/ Que tudo principia” (p. 12).
Lugar de dispersão, de exílio, de partidas, mas também de regressos: “No coração da noite/ Recomeça o exílio voluntário […] Sobre os limites da vida/ E da morte, eis-me pois/ Nos carreiros do regresso” (p. 49)
Lugar de transições entre a vida e morte, entre a palavra e o silêncio, entre a esperança e o nada, entre a solidão e o mundo, entre o esquecimento e a memória: “No coração da noite/ Há uma lembrança em contracção./ E há lágrimas sobre a capulana rota./ O soluço e a solidão agonizam/ Sob o tecto falso” (p. 19).
O terceiro elemento relevante neste livro de Armando Artur tem a ver com a convocação de alguma memória literária, aquilo a que nos habituamos a chamar de intertextualidade. É uma memória que nos surge ora de forma explícita, com a nomeação de autores de referência, ora de forma implícita, através de insinuações de títulos, versos e palavras emblemáticos resgatados dessa mesma tradição literária. Trata-se, no essencial, de uma expressão celebrativa das leituras do poeta e que são, ao mesmo tempo, legado pessoal e colectivo.
Finalmente, não podia deixar de fazer referência àquele que considero o grande salto da poesia de Armando Artur e que se prende com o apuramento da escavação interior, representando singulares inquietações filosóficas e existenciais.
Para uma rápida percepção deste facto, basta rastrearmos, por um lado, a profusão da interrogação ao longo da obra, uma espécie de consciência da erosão das certezas e das verdades absolutas que caracteriza o nosso tempo: “Mas como folhear estas laudas/ Com as mãos exangue?” (p. 16); “Senão há certeza/ Do lado de lá, por que não nos cantos/ E recantos da nossa homilia?” (p. 25); “(Afinal, para se ser/ não basta apenas nunca ter sido?)” (p. 30).
Outro indicador das inquietações lavradas nos poemas encontra-se na proliferação de termos ou expressões como “alhures”, “regresso ao nada”, “engulho do nada”; “nada”; “sensação do nada”, “parte nenhuma”, “nenhures”, etc.
O “nada” é ao mesmo tempo vácuo, angústia, busca, mas é sobretudo espaço de passagem, brancura de papel e da imaginação onde, como fogo de artifício, detonam as palavras que confluem No Coração da Noite. Sem cair no nilismo ou na radicalidade negativa nitzscheana, o sujeito parece claramente perseguir sentidos que melhor o situam na poesia e na vida, especialmente aquela que se processa interiormente.
Esta é, pois, uma obra cujo gesto criador, celebrativo e questionador faz da poesia de Armando Artur uma experiência sempre renovada de fruição e de aprendizagem. Para ele e para nós.
Outubro 6th, 2007 — Daniel da Costa, Literatura Moçambique
Lendo Xingondo, anterior obra de Daniel da Costa.
(entrada colocada originalmente em Maio de 2004)
Setembro 19th, 2007 — Literatura Moçambique, Nelson Saute
Amanhã, quinta-feira, 20 de Setembro, às 18 horas, no Instituto Camões, Nelson Saúte falará sobre a poetisa Noémia de Sousa. Até lá …
Setembro 19th, 2007 — Fotografia Moçambique, Ilha de Moçambique, João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique, Luis Abelard, Paulo Varela Gomes, Sérgio Santimano
Setembro 14th, 2007 — Daniel da Costa, Literatura Moçambique

Acabado de lancar este “A Ciência de Deus e o Sexo das Borboletas” (Ndjira), o segundo livro do excelente Daniel da Costa, o seu primeiro de contos (chama-lhe “estórias”).
Lembro que o Daniel da Costa é um autor muito cá de casa.
Setembro 1st, 2007 — Alberto de Lacerda, Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique, Livros Moçambique
Estava eu ali, na “A Minha Ilha“, “Ilha onde os cães não ladram e onde as crianças brincam/No meio da rua como peregrinos/Dum mundo mais aberto e cristalino“, ainda que vendo-a diferente e sem minha ser, mesmo que na “Ponta da Ilha” sinta como no hoje o sei sentir isso dos “Ó corpos dados com melodia / As melodias do meu ardor!/ Ó pretas lindas! Ponta da Ilha! / Vestem soberbos panos de cor. / Deles se despem com grã doçura, / Vénus despida do próprio mar. / É com doçura que negras, lindas, / Desaparecem no meu calor.”quando se foi, sei-o agora, quem deixou estas palavras do seu tempo sobre o que lhe foi berco e a alguns vai sendo refugio
L’ Isle JoyeuseÓ festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas dum branco rosa
Dum tempo antigo que aqui ficou
Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes para mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os deuses gregos orientais
Marcaram a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais
(Poemas retirados de

Nelson Saúte & António Sopa (coords.), A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas, Edições 70, 1992)
Julho 25th, 2007 — Eduardo Pitta, Literatura Moçambique
Crónica do final de uma era:
“A família Mousaco estava radicada em Moçambique havia três gerações, desde os tempos áureos da Sena Sugar Estates onde o avô deixara marca da sua passagem. O pai exercia com bonomia e low profile o cargo de administrador de um próspero entreposto do ramo automóvel. Além da filha, e de uns primos afastados residentes em São Martinho, não tinha qualquer ligação a Portugal. As visitas a Lisboa eram raras, estritamente relacionadas com negócios, quase sempre em trânsito para a RFA. O filho Pedro vivia no Cabo, formara-se na Graduate School of Business e já não saiu de lá. Na Beira, onde fizera toda a sua vida, salvo nos anos distantes da Wits Business School, em Joanesburgo, Ilídio Mousaco sempre fora tido por esquerdista, labéu reforçado a partir do dia em que, entrevistado pela emissora local a pretexto da crise cambial de 1973, objurgou sem disfarce o levantamento da população branca contra a tibieza das forças armadas na luta contra o terrorismo. É verdade que conhecia as razões de queixa da população, sobretudo da que vivia nos bairros da periferia – a guerrilha frelimista tinha rockets soviéticos e morteiros de 82 milímetros às portas da cidade e, mesmo assim, o blasé do Exército roçava o descaso -, mas não era menos verdade que também conhecia Jorge Jardim. A juntar a tudo isso, o comportamento do governador Souza Teles, um militar que não tivera pejo em apoiar publicamente a Fronda de caserna, revelava-se iníquo. A débâcle era indisfarçável. Costa Gomes chegou com soluções peregrinas: aumento do contingente militar, instalação do Quartel-General na cidade, com a consequente criação de um sub-comando em Vila Pery, e reforço de verbas para a defesa civil. Também pôs o acento tónico no conceito de auto-defesa. Quem o ouviu ficou gelado. O facto de propor trocar Nampula pela Beira significava um recuo inadmissível, uma intolerável confissão de derrota. Enfureceu as pessoas e foi insultado nas ruas. Se dúvidas houvesse quanto ao estado da guerra bastava olhar o mapa. E, claro, falar com as pessoas.
Menos de três meses depois da visita de Costa Gomes deu-se o 25 de Abril.”
(Eduardo Pitta, Cidade Proibida, Quidnovi, 2007, pp. 46-47)
Julho 25th, 2007 — Carlos Gil, Literatura Moçambique

Já passaram anos desde que o Carlos Gil editou o seu Xicuembo, memórias daqui e nao so, uma imensidao de saudades daqui, uma coisa que em blog e no livro sempre parece a entreolhar um qualquer outro talvez:
“Para mim, o Aeroporto de Mavalane foi só uma porta de saída, atrás dela ficou uma vida que podia ter sido talvez assim, e hoje é, naturalmente, assado“.(116)
Ler o Gil, e para alem do encanto de ver como as vezes aparece mesmo nu la no meio das paginas, ‘e ler essas saudades de um outro tempo mocambicano, saudades pesadas ate. Mas nunca saudosistas, um olhar para tras mas sem la querer estar:
“Nunca ouvi falar num negro milionário no período colonial. Agora, parece que os há aos pontapés e, por infeliz norma, aceito que a regra é obtida com percursos escuros nesse enriquecimento pessoal, em detrimento dum país que já foi o mais pobre do mundo. Só que, antes, não se conhecia ou ouvia falar de algum. Zero. Classe média? Só se for média lá para o muito baixo, a roçar o nível do desenrascanso diário.
E isto na cidade e sua periferia, pois não recordo antes do final de 1974 qualquer negro a viver nas “Polanas” das cidades de Moçambique. (…)
Tanta coisa que estava errada e só em 25 de Abril de 1974 se tornou visível para uma certa população que olhava, no seu global, só de soslaio para as injustiças que, sob esses olhos, corriam a céu aberto, Eu, inclusive.“(76-78)
Depois, as saudades dao-lhe tambem para moralizar. E ai discordamos no tom - e ainda bem, que isto de concordar em tudo daria em nada
“Todos nós, hemisfério norte europeu, branco e rico, devemos algo muito importante a África, negra e pobre. Durante séculos foi o nosso quintal de férias e banco estrangeiro, a Europa possui obrigações que secular incúria gerou, e não pode olvidá-las“(121)
(Carlos Gil, Xicuembo, Pé de Página, 2005)
Julho 12th, 2007 — Blogs, Carlos Gil, João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique
Na apresentação do Campo de Trânsito, não muito concorrida e sem chamussas, aparece um tipo que me parece conhecido. Vindo de propósito para o evento de Almeirim (assim como da Manhiça a Maputo), não haja dúvida o Carlos Gil está na estrada outra vez. E é um gajo porreiro, pena os jantares muito concorridos nunca darem para grandes conversas. Até à próxima ó mangusso …
Junho 28th, 2007 — João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique

Lancamento em Lisboa, 4 de Julho as 18 horas, no Auditorio Caminho (?, sera assim que se chama?), na Avenida Gago Coutinho. Como nessa semana estarei em Lisboa irei, com toda a certeza, comprovar da qualidade dos ansiados rissois (havera chamussas?).
Apresentacao a cargo de Fatima Mendonca.
Junho 20th, 2007 — Literatura Moçambique, Nelson Saute
Nelson Saute no A Sombra dos Palmares. E o bom de saber um livro de poesia tao rapidamente esgotado … venha a reedicao para mais leitores