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Mia Couto e as concepções políticas africanas

É no Entre as Brumas da Memória que encontro (elogiosa) referência a este texto de Mia Couto. Fico estupefacto: com a argumentação de Mia Couto – talvez apenas “mais um artigo” -, e com a aceitação que tem, esta talvez pelo acriticismo que as unanimidades tendem a recolher, em particular quando as causas parecem justas.

O Mia quer abordar as concepções de cidadania e de poder vigentes nos países africanos e em Moçambique em particular. Que são elas contextuais deveria ser óbvio (mas não é, e daí o mérito da sua interrogação). Particulares produtos históricos, frutos de reflexões locais, acima de tudo constituídas em processos políticos conflituais. Por isso tantas das ineficiências quando se transportam, como se intocáveis, conceitos políticos para aplicar em práticas diferenciadas. Nada disso é novo para quem pensa, tudo isso é desconhecido por quem se esforça por não pensar.

Mas o que Mia faz é tornear essa dimensão, e refugiar-se numa “culturalização” da questão, encontrando no celebrado “véu da cultura” uma razão para as diversas práticas e concepções políticas, para os défices que considera encontrar. Confesso o meu espanto, até por vindo de quem vem, diante disto:

“A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra “democracia”? Num idioma em que “Presidente” se diz “Deus”? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é “hossi”. Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa.”.

Francamente. Não temos nós, falantes de português, o “senhor” como terminologia da divindade, do rei, do nobre e amo, do chefe, até do mero interlocutor? Não é explícito para quem utiliza o “senhor” sobre quem refere? Não é o termo utilizado contextualmente, com perfeito e estratégico conhecimento dos locutores, associado ao seu manuseamento através de entoações, mímicas, diminutivos [o "chô", o "sôr", p.ex.]?

Ora se para nós, falantes de português, a palavra que também refere a divindade tem uma extensão semântica que muito bem entendemos (de tal modo que nem atentamos que a utilizamos para um espectro tão alargado de interlocutores) como presumir que os falantes de outras línguas que têm similares processos de extensão semântica o fazem sob o signo da confusão?

Ou seja, utilizamos nós a nossa língua através de categorias lógicas e os outros (neste caso os falantes do sul de Moçambique) estão submersos numa mentalidade pré-lógica, incapaz?

Um momento (muito) menos feliz. Desconseguido, por assim dizer.

Terra Sonâmbula

 

Ontem aqui houve estreia – num aparte: não seria altura de acabar com a pinderiquice das “ante-estreias” a la xenon?, meia-dúzia de vestidos compridos, um ou outro grilo andante, tapete vermelho já algo acinzentado e os tipos da inenarrável tvzine a coleccionarem minifotos de pessoas a quem não conhecem o nome? e o resto da rapaziada em dia normal, na chamussa e afins (sofríveis) e no vinho (mui decente), (sor)rindo destes sem-propósitos? Ainda não deu para ver que não pega o modelo? para aligeirar a coisa?

Adiante ontem houve estreia do Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, co-produção luso-moçambicana – a primeira verdadeira co-produção luso-moçambicana, discursou o co-produtor moçambicano Camilo de Sousa, o que nele é significativo. Camilo é um tipo muito afável mas convicto, como o anunciou na TVM nas comemorações dos trinta anos de independência, que a maioria dos portugueses ainda está em guerra com Moçambique. Nesse registo é agradável ter notícia de que encontrou algum(ns) patrício(s) que dessa já desistiram (“maus fígados, jpt …” hão-de resmungar ao ler, “o caraças!” [ou aparentadas fonias] seria a minha resposta se ouvindo os resmungos).

O filme é de festival, objecto bonito, sensível, até mensageiro. Certo que quando vou a um filme português todas as minhas expectativas baixam. Mas também por isso posso ser surpreendido como ontem. Lento como um livro – e por demais preso ao texto, um tricô de analepses que é questão de argumentista, mas são opções. Estéticas para os autores, dolorosas para os espectadores. Mas bonito, que a beleza pode ter a dor lá. Vive também dos actores – excelente Aladino Jasse, excelente mesmo, idem para o cameo de Filimone Meigos tal como a grande Magaia. Mas também muito frágeis outros, de cá e de lá. Em registo que exige autores isso desiquilibra.

Finalmente, em filme que se anseia objecto estético não tem qualquer justificação um registo sonoro tão pobre, a exigir uma supra-atenção para entender os diálogos, a requerer legendagem imediata. Inenarrável descuido.

Estrelas (a la crítico de cinema)?: três (uma retirada por causa do tal não-som, outra por incongruências de realização – um cabrito que se desloca no ar, gente que não corre no mato por terror das minas e no plano a seguir faz o oposto, minudências assim). Portanto? A ver.

A Ilha de Moçambique de Mia Couto

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Ilha de Moçambique

Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.

A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.

E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.

A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.

Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.

Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.

Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.

(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)

O preço dos livros

É o fim da minha bibliofilia. A surpresa, entrar na livraria e ver dois novos livros, um de poesia de Mia CoutoIdades, Cidades, Divindades“, o outro a novela ”Hinyambaan” de João Paulo Borges Coelho

Deste último ainda lamento o descuido gráfico - as obras dos autores moçambicanos da editora Caminho/Ndjira estiveram durante anos condenadas a serem publicadas com capas de estilo “étnico”, nestes casos um afro-hippie muito anos 60 (não discuto a qualidade do trabalho de ilustração – do qual não gosto, mas isso é apenas o meu gosto – mas sim a sua pertinência ideológica). Assim como se o Roth ou o Vidal tivessem que ser editados sob motivos ameríndios new age ou os latino-americanos com reconstruções pré-colombianas. Finalmente foram libertadas desse espartilho. Mas agora ao ver a capa deste “Hinyambaan” vejo uma tolice – para além de feia basta ler para perceber a preguiça do ilustrador. Ou seja, não leu, nem o resumo. A editora a trabalhar mal. Em época de mudança a começar mal.

Mas o fundamental está noutro local. Custo de ambos os livros: 550 meticais (25 dolares). Em dois ou três meses as novas edições da Ndjira dobraram o preço (preço normal anterior 275, 300 meticais). A excelente colectânea de poesia de Fernando Couto, saída recentemente, bem maior do que o livro de Mia Couto custa 300 meticais. As reedições das obras de Mia Couto e Paulina Chiziane que a Ndjira está a fazer custam abaixo dos 300 meticais. Ou seja, se a Ndjira pode produzir livros em edição moçambicana (não sei onde as imprime) a preços bem mais baixos por que importa as edições conjuntas Caminho/Ndjira, nas quais só muda o logotipo e o nome da editora, colocando os livros tão mais caros?

30 a 50% de aumento no preço de capa em três meses? É uma decisão empresarial, não posso protestar, apenas lamentar. Mas a 25 dolares cada livrinho paro. Se comprava tudo o que saía de ficção e poesia nem pensar em continuar, não posso. É o fim da minha bibliofilia. Alguém me empresta os livros? Nem que seja para reproduzir as capas e colocá-las aqui…

Cardoso era um defensor da fronteira que nos separa do crime, dos negócios sujos, dos que vendem a pátria e a consciência. (…) O sentimento que nos fica é o de estarmos a ser cercados pela selvajaria, pela ausência de escrúpulos dos que enriquecem à custa de tudo e de todos. Dos que acumulam fortunas à custa da droga, do roubo, do branqueamento de dinheiro e do tráfico de armas. E o fazem, tantas vezes, sob o olhar passivo de quem devia garantir a ordem e punir a barbárie.”

(Mensagem na cerimónia fúnebre de Carlos Cardoso, Maputo, Novembro de 2000)

De regresso aos blogs:

O fim do Xitonhana: um abraço ao António, que sei por vezes aqui. “Ilha de Moçambique”, poema de Mia Couto. “Mesquita Grande” da Ilha, de Rui Knopfli, no Petromax. O texto de Mia Couto apresentando “A Ciência de Deus e o Sexo das Borboletas, de Daniel da Costa, transcrito no Mãos de Moçambique. Postais antigos de Moçambique no Kafe Kultura A propósito do Prémio Boa Governação José Medeiros Ferreira anuncia relato de uma conversa com Joaquim Chissano, havida em 1976 na ONU. Será aquando da entrega do Prémio. Fica-se à espera, presume-se que significativa a conversa, interessante o relato. [via Lusofolia] O nada lento minguar da economia do continente africano, em estudo da Oxfam [meros 15% ao ano na última década e meia ...]via Causa Africana. O shoppingcentrismo e seu mais moderno mamarracho, devastando a Baixa de Maputo, segundo o Chapa 100 O Machado da Graça, implacável sobre o processo de recenseamento eleitoral em curso (?). Nota sobre o genocídio ucraniano nos anos 30.

A lembrar-me que ha exactamente oito anos assisti ao lancamento deste livro.

No Agreste foram deixados elos (sim, elos) para uma entrevista de Mia Couto no Brasil.

Chega-me via e-mail (presumo que numa corrente), mas vem apropriada a citação:

” (…) O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (…)

(Mia Couto, O Fio das Missangas , Lisboa, Editorial Caminho)

A Fome em Moçambique

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Está aí, coisa da seca persistente. A do ano passado, a que parece continuar este ano. Fome dita a Sul. Mas também a Norte. Essa que encontrei no litoral do norte nos meados deste ano, já então grandes distribuições de farinha para populações muito carenciadas. Da seca à pouca produção, daí à inexistência de reservas familiares. 650 mil sofredores, aventa o governo, 800 mil em perigo enchem-se os jornais. E, provavelmente, mais, muitos mais. No combate da vida, contra este nada. E, também, contra o silêncio.

Entretanto sobre o assunto um texto de Mia Couto. Excelente. Sobre a fome e sobre o pensar: “Outra Fome” ["Mais", Outubro 2005]

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Para quem não tem acompanhado: Mia Couto no Ideias Para Debate [e neste último pequeno texto em cúmulo de elegância].

O meu colega Patrício Langa colocou um excelente texto no Ideias Para Debate: Os Alienados do Mia, uma reflexão obrigatória para quem se interesse sobre a sempre referida “moçambicanidade”. Assim, no súbito do in-blog, um passo à frente na discussão sobre processos de produção identitária.

A Morte de uma Revista

Chegou-me ontem às mãos a nova Proler, o nº 12.

Incluindo um texto de Armando Jorge Lopes, bem actual, “Língua, Língua: homogeneizar, heterogeneizar?”, um artigo de Russel Hamilton sobre José Craveirinha, a continuação do dossier que Artur Minzo apresentou sobre a relação da literatura oral e da escrita. E uma muito bela entrevista a Mia Couto, na qual ele fala de literatura (“Os meus adversários moram todos dentro de mim”), de pluri-identidades (“a literatura tem a grande capacidade de viajar pelas identidades que existem dentro de nós, cada um de nós é uma mistura”) e da (sua) cidadania, a qual exerce, muito e de modo corajoso, diga-se (“…ficar calado não me apetece”).

A Proler, cume da imprensa cultural em Moçambique, anuncia o seu encerramento, após 13 edições (12+especial Craveirinha). Compreendo o seu final, mas lamento-o, empobrecerá a sério a reduzida divulgação cultural aqui. A revista do Francisco Noa tem alguns anos e uma particularidade: foi melhorando, conteúdo e grafismo, ao longo do tempo. E isso é de referir. Fácil é ter umas ideias e alguns fundos e avançar. Para depois ir minguando, à falta de energia. Difícil foi construir este projecto, passo a passo, dificuldade a dificuldade (e tantas foram). E, egoísta, lamento-o pessoalmente, em 40 anos a Proler foi o único sítio que me pediu para publicar textos meus. E, imagine-se, pagou-mos.

Texto de Mia Couto no Savana

O leitor “Mossuril” (bom gosto de alcunha) usou os comentários de apontamento anterior para reproduzir um texto de Mia Couto, publicado no jornal Savana de 2 de Abril, anteontem. Dedicado à questão do eco jornalístico dos acontecimentos de Nampula. Trago-o para a página principal, enquanto agradeço ao citado leitor.
Há no texto uma frase problemática, que não quero transcrever sem referir: “O assunto é a capacidade que é reconhecida a um país para ser o produtor da sua própria informação“.

Assim descontextualizada pode parecer apelo a uma radical autarcia informativa. Não concordaria. Mas estou mais do que certo que é uma frase/argumento a ler no contexto, e que não é passível de leitura literal. Mas sim como crítica a este tipo de abordagem e às interpretações que provoca. Crítica a uma informação desinformativa.

Assim sendo aqui segue o

A ASA DA LETRA (Mia Couto)
Desastres

— Então aquilo em Moçambique é que está um desastre!?

O meu coração congela, empalidecido pelo susto. Estou em Lisboa, numa manhã fria de Março. Amanhã vai ser lançado o meu livro de contos. Acordei tarde, o homem do táxi tira proveito do meu cansaço. Mal digo que sou fora, ele dispara a observação sobre o estado desastroso do meu país. Agito-me no banco de trás enquanto as perguntas se atropelam na minha cabeça: Um desastre? Que tragédia abalou o meu país? Novas cheias?

— Desculpe, estou fora há alguns dias, não tenho acesso ao noticiário. Que desastre é que se está a referir?

— Andam por lá a cortar tudo o que é órgão e a vender miúdos. Que barbaridade, no nosso século, ainda acontecerem coisas dessas !

Entendi, então. O homem falava de Nampula, do caso do alegado tráfico de órgãos humanos. Ou por outra: ele não falava de Nampula. Mas de Moçambique. Esse mundo que ele ignorava mas que imaginava como um universo onde todas as atrocidades são possíveis. As notícias que ele não entendia bem eram prova desse palco natural de selvajaria.

— Não acredita, meu senhor? Está em tudo que é jornal !

Quando me retirei da viatura fui, de imediato, comprar jornais para beber da fonte onde o taxista poderia ter bebido. E lá estavam, de facto, os cabeçalhos, as grandes reportagens, as chamadas de primeira página. Li as principais reportagens. E fiquei surpreso. Nenhuma delas era conclusiva sobre fosse o que fosse. Sem factos, sem provas. Mas cada um dos artigos alimentando esse doentio desejo do escândalo. Equipas inteiras de repórteres exportadas para Nampula com o pomposo título de “enviados especiais” remexendo em neblina, poeira e em ecos de rumores. Era como se, de repente, as mais elementares normas daquilo que é o bom jornalismo tivessem sido esquecidas. Falei, nesse instante, com outros jornalistas portugueses que confirmaram a minha impressão sobre esse empolamento.

No regresso, apanhei o mesmo taxista. O homem quis saber se eu tinha lido os jornais. Respondi que sim, que os tinha lido. Não disse mas apeteceu–me perguntar-lhe:

— Então, em Portugal, isto é que vai um desastre !?

E poderia falar da pedofilia que atingiria tudo e todos, envolvendo até os mais altos dirigentes da nação. Fazendo tábua rasa de tudo aquilo que as autoridades de justiça portuguesa pudessem ou não ter comprovado. Porque a lógica do escândalo não se destina a comprovar factos, mas a alimentar um.

Não defendo que não existam problemas a serem esclarecidos em Nampula. Como existirão em outras províncias de Moçambique. E em outros países. Mas o assunto não é esse. O assunto é a capacidade que é reconhecida a um país para ser o produtor da sua própria informação. O direito soberano das suas legítimas instituições de produzirem confirmações ou desmentidos. Senão o que fica desta campanha histérica é a sedimentação do mito da gente diabólica, a desacreditação das autoridades moçambicanas, a promoção da instabilidade e da xenofobia. Um investidor, menos avisado, acredita que algo de nebuloso pode sempre ocorrer num país tão vulnerável. Um turista, menos informado, risca da sua agenda a ideia de escolher Moçambique como destino.

Talvez alguns dos jornalistas portugueses possam repensar este assunto à luz da sua própria experiência doméstica. De tanto elegerem o lado escabroso da história da pedofilia, algum do jornalismo em Portugal agrediu profundamente o seu próprio prestígio dentro e fora do país. Se tomássemos por certo o tratamento que fizeram do assunto da pedofilia acreditaríamos, nós em Moçambique, que Portugal fosse um país de abusadores de crianças. Mas Portugal não é a Casa Pia. Nem Moçambique é um território de selvagens traficantes.

Pequenas gaffes (sobre Mia Couto)

Leio sobre a bronca de Bush, que ao discursar por ocasião da semana da Mulher saudou a libertação de uma líbia opositora ao governo após dois anos de cativeiro, apontada (entre outras) como exemplo da luta das mulheres por…etc., etc., etc. Só que a senhora afinal era um homem. Esta é das ficam como anedota para gozar com o homem, ainda que seja óbvio que se limitou a ler um discurso: erro de assessor, nada mais.

Mas fez-me lembrar uma gaffe do género, à qual pude assistir. Daquelas que volta e meia regressa à conversa, sempre levando ao riso.

Há anos o primeiro-ministro Guterres visitou Moçambique. Foram então condecoradas algumas personalidades moçambicanas (penso ser um hábito nestas ocasiões). Lembro-me que Mutola, Rangel e Naguib o foram, o que não me parece ter sido nada má escolha (e, sem desprimor, achei óptimo condecorarem Rangel). E também Mia Couto foi condecorado com um grande colar rutilante.

Estavam pois nas entregas, de cujos preparos se encarregava alguém do protocolo português. Diante de plateia apinhada e até cerimoniosa este lá ia lendo perfis e atributos respectivos, e à chamada cada um avançava à vez.

Estava-se nisto quando se ouve na sala um sonoro, grave (aquele som cavo protocolar, imagine-se) e bem com-pas-sa-do “Senhora Dona Mia Couto”, e tudo a entreolhar-se em sorrisos quasi-explodidos enquanto lá avançou o Mia, com aquele ar de suave traquinice a dar o pescoço ao colar, como se nada fosse [ainda hoje imagino o que terá pensado o orador quando se deparou com aquela barba, mesmo que rala].

O que nos rimos com aquilo tudo, depois. E aos mais agrestes, daqueles do “como é que isto é possível! que ignorância, etc e tal” também só valia dizer um alçar de ombros, um “acontece, o homem enganou-se” coisas tão mais graves por aí. E que não deixam estas memória de sorrisos.