Lindiwa, porém, era uma mulher nova, o sangue corria-lhe impaciente nas veias, desejava ser amada, acordar todos os dias nos braços de alguém, como o capim debaixo da cacimba.
[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 64]
“Cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio” (R. Nassar)
Março 5th, 2005 — Marcelo Panguana, Rue Catinat
Lindiwa, porém, era uma mulher nova, o sangue corria-lhe impaciente nas veias, desejava ser amada, acordar todos os dias nos braços de alguém, como o capim debaixo da cacimba.
[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 64]
Março 5th, 2005 — Marcelo Panguana, Rue Catinat
“Ngungunhanha acordou nessa manhã bastante sobressaltado, ergueu-se vagarosamente da sua campa, pousou os pés no chão, colocou as mãos no queixo e assim permaneceu durante algum tempo, até que viu se aproximar um tal de Aleixo, o homem que estava encarregue de cuidar zelosamente da sua campa. Espreitou a poeira que lhe cobria o corpo, arrumou-se vagarosamente e ficou esperando que esse homem que lhe dedicava uma enorme afeição se fizesse perto. O branco chegou perto dele, gesticulou, tentando lhe dizer algo, nada, porém, saíu da sua boca. O antigo rei dos vátuas viu o rosto do coveiro encharcar-se de lágrimas enquanto abria com os dedos trémulos o jornal que trazia entre as mãos e leu a seguinte notícia: “O Imperador regressa a casa”. Só isso! Depois sentou-se sobre a campa e desfez-se em prantos. Comovido, o antigo rei dos vátuas colocou-lhe as mãos nos ombros, incapaz naquele momento de inventar alguma palavra de consolo….”
[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 3]
Novembro 7th, 2004 — Ciro Pereira, Cooperação, Gemuce, Guita Junior, Idasse, José Craveirinha, Marcelo Panguana, Rui Assubuji, Suleiman Cassamo
IDENTIDADES é um belo projecto de articulação, centralizado na Cooperativa Gesto (Porto), na Faculdade de Belas Artes do Porto e na Escola de Artes Visuais (Maputo). Desde 1996 que tem desenvolvido as suas actividades, de modo constante. E com muito boa onda. Rara. Para além das manifestações artísticas e da interligação pedagógica, esta muito frutuosa, o IDENTIDADES conseguiu por ora incluir a Faculdade de Arquitectura do Porto no projectar da futura Escola de Artes Visuais aqui.
Muito honestamente Paiva e sua gente, bem como a EAV, têm dado um exemplo de como com algum apoio institucional, nada faraónico, se podem produzir belos e duradouros frutos na “cooperação” cultural. E, repito, têm muito boa onda. Em linguagem mais séria, entenda-se mais política, dir-se-á que têm a atitude correcta para quem faz coisas num estrangeiro muito especial. Um estrangeiro mútuo. Enfim, são um case-study. Aliás a ser feito. Que venha a servir para consulta aos candidatos a profissionais!

“IDENTIDADES é um movimento artístico, iniciado em 1996, com um programa de intercâmbio cultural entre Moçambique e Portugal. Desde aí tem cumprido diversos projectos e realizações, partilhadas também por pessoas de Brasil e Cabo Verde, países ligados pela língua portuguesa.
Em 200, o IDENTIDADES inicia a sua actividade editorial em livro com o lançamento da “Colectânea Breve da Literatura Moçambicana“. Este livro reúne prosa e poesia (inédita ou não) de escritores moçambicanos, quer jovens, quer consagrados. (…)
A teia de relações que se estabeleceu … animou-nos para a continuação da actividade editorial… Nesta nova obra invertemos a corrente: a imagem foi realizada primeiro, por 50 artistas plásticos…A partir das imagens, os escritores desafiados escreveram 50 textos inéditos, sendo que ficou estabelecido que os “duetos” não deveriam ser formados por pessoas da mesma nacionalidade (…)
Identidades, 2004″.
Do livro retiro algumas ilustrações, ao meu gosto. Para provar que vale a pena? Sim, mas acima de tudo por prazer. E amizade. Assim aqui ficam pequenos excertos, de onde há muito mais.
O Velho ainda legou este:
Minha pausada forma de respirar.
(José Craveirinha)
Meu impestanável silêncio absorto.
A cabeça inclinada para o lado inverso
e nos lençóis a imobilidade dos dedos
não significa para a jovem nua deitada à esquerda
que o Zé da viagem aos cios do grande rio Zambeze
regressa ao Zé dos imenso lago Niassa do tédio?
Suleiman Cassamo está, e é sempre bom sabê-lo na escrita. Faz falta. Em especial quando vem dizer: “Agora, o menino ranhoso que mijava no ntehê, nas costas da mãe, é dono do seu nariz. Acredita não ter inventado não só a vela mas também o vento da sua errante navegação. Revê-se na aranha, traçando o seu destino cósmico com a matéria da própria saliva“.
Guita Jr. numa prosa até longa que lhe desconhecia, com a bela história de “Jesuíno Zaqueu, o Zaqueu para toda a gente da pequena e humilde cidade do sul, cantava cego o seu refrão para os transeuntes surdos da sua canção…Uma existência de total remissão. De pecado.”
Panguana também veio, para acabar: “E de vez em quando um pássaro que irrompe casa adentro e ensaia um cântico sempre que o poeta, triunfante, olha para o poema acabado e grita: Eureka!”
(Idasse, fragmento)
E muitos outros, daqui e não.
Confesso que estes livros, coisas objecto, colectâneas-encomendas, nunca me dizem assim nada, quase sempre falham. Coisa diferente aqui. Alquimia. Talvez a alquimia do IDENTIDADES.
Dezembro 14th, 2003 — Marcelo Panguana
[ou se calhar tens razão, talvez por isso tantos andemos a teclar.]