Anos depois do encerrar o seu Apassarado o Eduardo White, por ora em Lisboa, deixa aviso de que regressa a estas blogandanças: abriu o Meu Quintal Dividido. Um abraço!
Entries Tagged 'Eduardo White' ↓
Eduardo White
Março 8th, 2008 — Bloguismo Moçambique, Eduardo White
Eduardo White e a Ilha de Moçambique
Fevereiro 26th, 2008 — Eduardo White, Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique
De Eduardo White não tenho notícias há muito - em Portugal, sussurram-no alguns conhecidos comuns. Aqui deixo um texto dele (ele que, infelizmente, se desmaschambou) sobre a Ilha de Moçambique. A lembrar-me que o conheci em tempos de abrir janelas sobre o Índico …
A ILHA
Um pássaro revolve as asas por dentro do azul esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas sobre a espuma amarelecida dos navios cargueiros, que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas. A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha. As redes que sobre o chão encontramos estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode por dentro a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg, porque Deus descansa aqui ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que por teimosia não quer morrer. Vão longe a navegar os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros democráticos reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que os poemas não dizem, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem, entretanto, entender o que eles explodem e dóiem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores. Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e talvez será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives e os olhos aluadores e viajantes das suas crianças. Por isso o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá talvez aqui amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável, de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que aqui, até hoje, não sabem ler.
Eduardo White
Agosto 10th, 2007 — Eduardo White, Teatro Moçambique
“Atirei o Pau ao Pato”: Eduardo White , Wantsongo, Chico António e Paíto Tcheco.
CREISPU na sexta-feira , dia 10 de Agosto , pelas 19.30 horas.
Agosto 10th, 2005 — Eduardo White, Malangatana
White e o velho Malangatana aqui.
Patraquim e White
Janeiro 24th, 2005 — Eduardo White, Luís Carlos Patraquim
Prémio José Craveirinha 2004
Dezembro 22nd, 2004 — Armando Artur, Eduardo White
Este machambeiro teve hoje o prazer de beber uma (ou talvez um pouco mais) cerveja com os laureados. Este machambeiro tinha camisola vestida neste prémio, mas isso também não é muito importante. Meras opiniões.
Eduardo White
Outubro 24th, 2004 — Eduardo White
MANUAL DAS MÃOS (excerto)
Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.
Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.
Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.
Vejo-a:
Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.
A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.
As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.
Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.
Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.
Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.
Mas era para lá que eu queria partir.
Eduardo White: O Poeta
Julho 7th, 2004 — Eduardo White
Um poeta que anda descalço, sobre a língua, tem muitos sonhos na cabeça e não tem cabeça nenhuma. Tem o céu, que é, por isso, estrelado, vinte quatro horas por dia e que azula sempre que aquele adormece. Vadio em si, o poeta é uma rua longa dentro do peito que não tem normalmente saída tal como ele. Empobrecido, o poeta escreve normalmente o que não lhe pagam para isso mas o que lhe pagam para ele continuar a sê-lo. Imagine-se um poeta que não tivesse dentro de si um homem com vencimento? Morreria, não de fome mas por falta de empregado assalariado que o ajudasse a exercê-lo.
O poeta tem lebres por entre os dedos quando escreve e curandeiros dentro da boca a fumar rapé e a tossir muito por de entre os versos. Geralmente amalucado, o poeta consulta não os seu falecidos mas os falecidos que são ele e que toda a gente vê e tenta matar uma segunda vez. Um poeta está literalmente nu se escreve e vestido quando ama. Desabotoada a nudez dos seus papéis o poeta é todo uma longa lapiseira a rebolar-se pela lisura da escrita ou, então, quando se veste, gosta da tontura da profunda escuridão onde mergulha.
O poeta não é um fingidor. Foi. E isso, há muito tempo. O poeta, agora, é um não fingidor a tentar mostrar que é muito mais sério do que parece. Não tendo verdades, nem terríveis nem altíssimas, o poeta é um vulto que está sempre a perguntar por onde é que andam os outros. Mais fingidores que o fingidor que lhe atribuem, menos clarividentes que o tonto com que o rotulam. O poeta não é um chato. O poeta é um chato nos chatos dos outros. Um chato que se chateia com a chatice dos chatos que têm chatos onde o poeta é chato.
Um poeta não é para se perceber, é para sentir-se. Por essa razão tem muita gente que não entende um poeta, nem a razão porque anda nas nuvens, nem a razão porque está sempre enuvoado, nem a certeza das suas luas nem a estranheza de ser aluado. Alguém perceberá porque usará um poeta, óculos escuros à noite? Por certeza que não. É que o poeta gosta de se bronzear a essa hora, porque a mudez é um segredo e os banhistas são muito mais verdadeiros no sol onde se situam. O poeta, ao contrário dos outros, por essa altura, pode até pôr um chapéu e uma gabardina que o proteja do calor do sol. É que o poeta não tem razão de suar, tem a razão como sua.
Um poeta pode ver numa formiga um leão e fugir apavoradamente dele. Chamar-lhe-ão, por esse facto, de delirante ou de um louco escrevinhador. O que não sabem os que assim agem é que não foge o poeta da grandeza do leão mas da pequenez da formiga. Sendo pequeno, um verdadeiro poeta, e tendo disso consciência, como poderia ele não assustar-se com a minusculidade dos que lhe chamam louco ou de delirante? Um poeta é um libertador, não de causas, mas de firmezas. É um soldado a devastar a estratégia dos libertadores. E isto só porque ele sabe, que as mesmas prisões do escravizador são as mesmas do acorrentador. Um poeta é um silêncio que é um comovido gritador. É uma existência que embora não cante vive apenas do seu cantor.
Por isso, os poetas são poucos, muito poucos, muito embora hajam muitos que se percebam poetas. É que embora a poesia seja um movimento encantador é uma espécie de movimento que no poeta é só dor. E sendo assim, silêncio dentro do texto, silêncio, um poeta não é uma espécie de estratagema, é uma espécie que odeia os estratagemas, não dos textos mas dos que encontram nele as razões dos seus pretextos.
Ora, deste modo, se reafirma: o poeta não é um fingidor, é uma dor que finge não ser poeta. E não é isso encantador?
Eduardo White
Eduardo White: Requerimento…
Julho 6th, 2004 — Eduardo White
por Eduardo White
Ilustríssima Senhora Vida
Distinta,
Quero um poço fundo para morrer. Um poço fundíssimo onde morto eu não me possa rever. Um poço escuro, Ilustríssima senhora, um poço que arda entre o silêncio e a escuridão, um poço que doa só de nos vermos na sua vertigem, um poço que abra as vísceras terrenas da solidão. Quero um poço fundo, um fundo poço para morrer e não outro poço que seja este em que me estou a perder. Longo, obtuso, fantasmagórico, com chamas que queimem, que subam aos olhos de quem me queira reaver.
Um poço por favor, é tudo o que estou a pedir-lhe, é tudo o que eu pretendo ter, um poço onde morra intranquilo como me condenou a viver. Porra que quero um poço, é tão difícil um poço onde a morte me possa merecer? Então dê-me, com urgência, com a veemência concreta de um ódio qualquer, mas que seja puro e mau e perverso e tenha lanças que me trespassem a barriga e me partam em absoluto a minha espinha dorsal.
Eu quero um fundo, um poço fundíssimo, um poço escuro para que possa morrer tão perfeito e completamente como nunca assim pude viver. Porra, um poço. E isso custa dar-me sem pedir-lhe deferimento? Custa tanto autorizar o que a faz rir? Senhora minha e Ilustríssima, um poço bem mais fundo que o seu, bem mais escuro, bem mais vertiginoso, bem mais lamacento que o corpo com que a ele me vou atirar. Um poço, Digníssima, onde morto eu não a oiça nem falar nem tão pouco doer-se de respirar. Um poço que seja talqualmente este fosso de onde lhe requeiro isto e onde a vida, depois que demitida, seja em si um sólido quisto.
Atenciosamente
Um baixíssimo cidadão
Eduardo White
Poema da Perguntação, de Eduardo White
Maio 15th, 2004 — Eduardo White
Trecho do apassarado
Abril 12th, 2004 — Eduardo White
Blog Ilustre
Abril 12th, 2004 — Bloguismo Moçambique, Eduardo White
Para quem venha doutros lados, e assim não saiba, Eduardo é o poeta em Moçambique.
Março 18th, 2004 — Eduardo White
***************
Súbitos, os olhos culimam uma mashamba na Internet. Há ali, num belo retracto, algum sangue redesenhando o luzidio dos batons e as femininas línguas apalpando o quinino, o limão e o Gin.
Descapulanizados, os amores, fazem corajosamente diplomacia por entre tiros e assaltos. É fresco o quintal ou a sala, apesar dos 30 e tal graus com que, descalços, uns pés rasgados em Michafutene agarram o pilão no verde da matapa.
Entre a água morna na moringa e os pingos de suor a lavarem-lhe o rosto, dona Fátima faz suspiros para esquecer o medo da violência com que todos os dias o país a acorda pela velha esteira. E sem diplomacia nem nada, nem gelo, nem fraquitos gins, iça o velho balde de água nas duas mãos gémeas que, sem coserem, fazem a moda das suas companheiras a provar, nos jardins, as verduras da sua machamba fritas e enroladas na massa das chamussas diplomáticas.
Não há assalto pior que o que faz a Pátria, todos os dias, à alma lúcida de Dª Fátima sob os olhares incrédulos e bem grávidos das recepções nas embaixadas
Fevereiro 22nd, 2004 — Eduardo White
Eduardo White, aí metido nos seus vinte anos de vida literária, lançou um novo livro, colectânea de textos alguns já por aí ouvidos. Ou lidos. Alguns merecem mesmo ser relidos, hei-de citar um bocadito só para aguçar.
O lançamento foi na sexta-feira, lá na Fortaleza de Maputo. Foi também de sua homenagem, Ungulani fê-lo. E ele próprio afirmou-se “o poeta incómodo”. Contou com o Presidente da República, vários ministros, o edil máximo da cidade, e muito do poder. Vinte anos são vinte anos.
Assim rápido, e porque nesta cidade tão racialista cito:
“Podem dizer-me ou insultar-me a cor que visto e, no entanto, eu amo-a, desde a origem mistura com que me pensou e talhou até a estas inacabadas sempre cores múltiplas com as quais vou estando aqui. Sou um arco íris por vocação e não me cinjo nem à ardósia e nem ao giz, e são minhas as geografias dos lugares que desconheço mas que pelas veias respiro“
(Carta a alguns menos esclarecidos sobre o meu pardo mestiço Eduardo White)
Fevereiro 20th, 2004 — Eduardo White
Nessa noite Eduardo White leu um extraordinário poema escrito para ali, nada encomiástico. E orgulhou! Nessa noite Cabaço, Salimo, Stewart, Chitzondzo (?, olhem, não estou certo) e outros cantaram um pouco, ali para mostrar. Nós todos gostámos. No fim Gilberto Gil cantou umas quatro músicas, e aqueceu. E todos nós gostámos. Depois prometeu que viria cá “com mais tempo” em Março. Cantar mais.
Não mais se ouviu falar disso. Está-se à espera. Se vier talvez chegue mais triste ou desencantado dessas coisas de ministro. Não terá razões para tal.
Pois não há nada de novo neste mundo. “Same old scene” era uma música romântica quando eu era novo.
