Archive for the ‘Literatura Moçambique’ Category

Expresso em Moçambique

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

Só agora, e por via de uma oferta do “nosso” PSB, tive acesso a esta edição da revista “Única” (Expresso, 5.6.2010), dedicada a África a propósito do Mundial de futebol na África do Sul. O meu interesse prendia-se pela inclusão da reportagem “Moçambique, o País dos Mil Caminhos”, de Ricardo Marques. Um jornalista de quem li, já há anos, o livro Moçambique, o Regresso dos Soldados, reportagem sobre as viagens de saudade dos soldados portugueses que aqui fizeram a guerra. Livro agradável e provido de um bom olhar sobre o real, entenda-se uma atitude nua de paternalismos, culpabilizações, exaltações e/ou saudosismos, algo rara em patrícios mas ainda mais em jornalistas. Agora, e de novo, o Ricardo Marques meteu uma boa lente para viajar no país. Ou seja, tem a arte de escrever sobre Moçambique sem fazer actuar a panóplia de preconceitos recorrentes. Uma pena que não esteja disponível na internet – ainda para mais sendo texto de jornal, em assim sendo tornado supra-perecível. Algo que um jornal como o “Expresso” poderia resolver, dignificando os textos dos seus repórteres. Mas visitável é a galeria de fotos da reportagem, da autoria do confrade António Silva.

Na mesma publicação encontro um artigo de Mia Couto, “Esta África que não é“. Também indisponível na internet, mas neste caso provavelmente virá a ser integrado em futura colectânea de textos do autor. Uma frase cristalina, arguta: “A ideia do bom selvagem foi incorporada na vista que os africanos têm de si mesmos“. É apenas uma generalização, mas assim assumida. Total concordância com ela. Obstáculo, legitimador, de entendimento e acção. E, quantas vezes, partilhada pelo exo-africanos, uma (afinal não tão) estranha simbiose.

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COM 35 ANOS DE USO

Sábado, Julho 3rd, 2010

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

No dia em que moçambicanos um pouco por toda a parte celebravam 35 anos de independência, o jornal angolano Zwela Angola noticiou a efeméride com um artigo até interessante e bem escrito, texto que no entanto refere ter ido buscar a uma tal Opera Mundi, que é um portal brasileiro, por sinal até muito interessante. É tão bom, tão bom, que até já tem a sua própria entrevista ao Mia Couto, esta feita por e-mail.

E ainda tem uma recensão ao livro do Mia Venenos de Deus, Remédios do Diabo. Com o título “romance de Mia Couto leva personagem e leitor à loucura, como os ‘tresandarilhos’ “. Um título sugestivo, sem dúvida.

Claro que deu um tiro no pé ao capear um texto sobre as cerimónias de despedida do escritor José Saramago com o título “Portugal recebe com honras militares corpo de Saramago”.

Portugal inteiro recebeu? com honras militares? O José Saramago? em Lisboa? o quê? aqueles tropas a quem mandaram tirar o caixão do avião e meter no carro funerário? só se foi isso. Mas acho que os caras da Opera Mundi se espalharam ligeiramente nesta.

O que me chamou a atenção para esta peça do Zwela Angola, no entanto, não foi o texto mais ou menos laudatório.

Foi a escolha da bandeira acima para ilustrar e capear o artigo alusivo à independência moçambicana em 1975.

Agora…hum…será que os nossos brothers angolanos não poderiam ter assinalado o mais nobre feriado moçambicano com uma bandeira menos rota? o país ainda está em convalescença e ainda não tem petróleo (vai ter em breve, segundo as minhas fontes) mas há por aí bandeiras em bom estado e à mão de semear.

Aliás, agora com três voos por semana entre Luanda e Maputo, surgiu a oportunidade de os angolanos finalmente conhecerem o novo Moçambique. Da última vez que estiveram lá, era 1895 e estavam na primeira e na segunda linha do quadrado de Marracuene. Do que li, então salvaram o pêlo aos portugueses e o Sul de Moçambique dos britânicos.

Hoje heróis todos eles, claro.

Presumo.


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25 de Junho: dia da independência de Moçambique (2)

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Hoje são 35 anos de independência de Moçambique. Na data do trigésimo aniversário aqui deixei este poema de José Craveirinha, poema também momento que foi, que agora reproduzo.

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[Zé Craveirinha, fotografado por Sérgio Santimano, fotografia recolhida no seu blog]

Saborosas Tangerinas d’Inhambane

Serão palmas induvidosas todas as palmas
que palmeiam os discursos dos chefes?
Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?
Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios.
E nas repletas “bichas”? São ou não bizarros
os sigilosos susssurros?

Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores.
Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário.
Não bastam nos gabinetes os incompetentes?
Ainda mais alcatifas e ares condicionados?

Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas.
Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas
prosperamente deficitárias ou por causa das secas
ou porque veio no jornal que choveu de mais
ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso
ou talvez porque um polícia de trânsito não multou Vasco da Gama
ao infringir os códigos na rota das especiarias de Calicute.

E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios?
Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos?
Uma população que não fala não é um risco?
Aonde se oculta o diapasão da sua voz?

E quanto ao mutismo dos fazedores de versos?
Não sai poesia será que saem dos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa?
Quem é o mais super na metereologia das infaustas notícias?
Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa?

II

Na berma das avenidas asfaltizadas olhemos perplexados
os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói?
Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras
e de rastos estudar no chão?
E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos
que a trabalhar só desfabricam?
E o que é que se passa com engordecido responsável director
sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das europas?
Ou então no espólio das noites de vigilância e de saco cheio
vale mais a carência nacional que ter um pide
vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir?

III

Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens
tragam as saborosas tanjarinas d’Inhambane ao custo das ciladas
mas que descarreguem primeiro nos hospitais
nas creches e nas escolas que o futuro do País
também fica mais doce na doçura das tanjarinas d’Inhambane
e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas d’amor e não de preços.

Mas os auspiciosos maduros cajus purpurinos
já não nos dão os gostosos tincarôsse porquê?
Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes?
E ilegalidade só é ilegalidade nos outros? Hiena só é quizumba no mato?
Então juro que tanjarinas d’Inhambane é tanjarina d’Inhambane!

Eu adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos
das magníficas tanjarinas d’Inhambane. Adoro mesmo!
E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d’Inhambane?
Se não gostam, então, os que abjuram os sagrados frutos da terra-mãe
que façam lá um pai e uma mãe; Que façam tios e sobrinhos;
Que façam lá irmãos e irmãs; Que façam lá amigos e amigas;
Que façam lá colegas e camaradas;
E com a incompreensão façam lá nascer a ternura
o amor e a paz se são capazes!

IV

Pois é! As orientações de alguns directores desorientam os juízos
(deles também) mas quem é que disse que não tenho pena
dos seus conjuntos safaris embrulhando-os fresquinhos
e sem problemas de suores originários deste instabilizado clima tropical?

Quem é que disse que não lamento vê-los penosamente saindo dos “Ladas”
com as suas poses e as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer
abrir-se a porta e assentados esperarem que o motorista irrevogavelmemtne
dê a a volta ao mundo do fatalismo e cumpra hereditariamente essa tarefa?
Mas quem é que disse que não tenho pena?
Mas quem foi que disse que não sinto esse drama?

V

Depressa você Madalena vai bichar lenha, deixa bicha de carapau.
Tu vovó sai da bicha de capulana vai bichar pão.
E Toninho com Quiristina vai os dois bichar água.
Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo.
Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez … NADA!
Aontem tomar chá não tomou … foi no serviço.
Aoje não toma? Vai tomar amanhã.
Não toma amanhã toma outro dia.
Ou quando encontra toma de noite.
E quando não encontra de noite então dorme.
Mas quando sonhar amendoim já tomou chá, já comeu.

VI

Sim. A gente faz favor quer cascar com unha do dedo grande
as tanjarinas d’Inhambane.
Olha lá! Você estás cansado da tua terra? Salta arame … vaaaaaiiii…
Você não gostas bandeira? Leva documento … FAMBA!!!
Antigamente ‘panhava mais fome mas não ficava aqui?
Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva?
Antigamente sapato não corrente de ferro? Agora quer “Adidas”, não é?
Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu?
Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal
só p’ra dizer que pão não presta. Comia qual pão antigamente?
Antigamente encontrava passaporte? Agora se não ‘panha passaporte
logo fica muito triste, fica muito zangado. Faz barulho.
Antigamente não era só caderneta?
Sim! Agora come carapau. Não é peixe? Batata-doce e mandioca
agora não é comida? Porquê?
Nossa barriga alembra bife com batata frita e azeitona. Alembra bacalhau mais grelos, mais aquele azeite d’oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado.
Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? Era nossa casa? Qual casa?
Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p’ra noss cu pró cu dos outros?
Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras numa sentina? A gente tinha balde mais o quê?

VII

É verdade; chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir.
É verdade a gente come couve com couve, carapau com carapau, farinha com farinha. Mas senta na mesa. Família toda senta.
Senta em casa no prédio. Amigo também senta. Senta ou não senta?
Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui? Ir aonde? Capaz!
Mudar moçambicano ficar o quÊ? Mudar a cara ficar qual cara?
Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.
Homem quando é homem é só um coração. Não é dois.

VIII

Agora mesmo que não tem senha de gasolina não faz mal
Não há crise. Candonga tem.
Mas quem disse aquelas saborosas tanjarinas d’Inhambane não vem mais?
É preciso? A gente vai fazer estratégia de mestre Lenine
e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás
moçambicanissimamente objectivas
concretissimamente bem moçambicanas.

IX

Agora alerta camarada Control. Vem aí camião com tanjarinas d’Inhambane.
Tira dedo do gatilho e faz uma aceno d’alegria ao estóico motorista.
Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça
ele está guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar.
Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila.
Camarada Control: Vila é vila não é cidade.
Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito.
Camarada Control: Distrito é distrito não é província.
Camarada Control: Província é província não é nação.
Camarada Control: Control é control não é Governo.
Camarada Control: Território nacional é lá no primeiro
grão d’areia em Cabo Delgado até no último milímetro da Ponto D’Ouro.
Camarada Control: Abre teu mais fraterno sorriso no meio da estrada
e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique
nossas preciosas tanjarinas d’Inhambane.
Agora escasca uma tanjarina e prova um gomo.
É doce ou não é doce camarada Control?

Pronto!
Muito obrigado Camarada Control!
E viva as saborosas tanjarinas d’Inhambane…
VIVA!!!

[Versão em Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, Lisboa, D. Quixote, 2004, p. 103]


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Askaris

Sábado, Junho 5th, 2010

O Petromax gostou de ler o O Olho de Hertzog de João Paulo Borges Coelho. E daí que está a colocar uma série de imagens de “askaris“, nome dado às tropas africanas recrutadas pelo regime colonial alemão, e que são evocadas nesta obra literária. Aqui lhe “ofereço” uma imagem.

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Texto de Eugénio Lisboa

Sexta-feira, Junho 4th, 2010

Recomendável leitura a deste interessante texto de Eugénio Lisboa (intelectual muito ligado à história da literatura em Moçambique, já agora): “O Fim das Humanidades?” 1, 2, 3.

Não se presume uma total concordância. No meu caso tenho, em relação aos vários argumentos avançados, algumas dificuldades. Muito em particular o de nele se retirar a “economia” (ciência económica) das “humanidades”. Mas é questão de menor importância. O texto não se reduz a uma citação. Mas deixo um excerto. Não sem lhe acrescentar um sentido, onde se lê “departamentos de humanidades” junto-lhe “institutos estatais”:

“É por isso que”, dizíamos nós no texto que há pouco dedicámos a este tema, “mais do que estar [criminosamente] a transformar os departamentos de humanidades em ‘escolas de línguas’, para os ‘salvar’ de forma pífia, haveria que utilizar o saber dos seus docentes, no sentido de se poder ensinar aos alunos de todos os departamentos da Universidade aquele ‘sistema de ideias vivas que o tempo possui’ (Gasset) e dá pelo nome de …cultura.”

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Publicação de livro de Hilário Matusse

Quarta-feira, Maio 19th, 2010

Na próxima sexta-feira será colocado à venda este livro, “Sete Estórias de Meter Medo” da responsabilidade de Hilário Matusse, jornalista que agora se atreve à ficção. A ler irei. E não só por causa das boas memórias – espero que mútuas – de quando foi ele, e durante um bom par de anos, secretário-geral do SNJ. A edição é da Associação de Escritores Moçambicanos, em cuja sede ocorrerá a sessão de lançamento.

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A nova Índico

Quarta-feira, Maio 5th, 2010

[Índico, Série III, nº.1, Maio-Junho 2010]

Este é o primeiro número da nova série (a terceira) da Índico, a revista das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). Que passou a ser editada por Nelson Saúte, o qual logo a tornou algo distinta. Se a série anterior era muito capaz, enquanto mera revista de bordo, o novo formato eleva a Índico à revista cultural moçambicana, com toda a certeza a coleccionar (assinar?, ou a ir pedir às delegações da LAM?), algo que muito faltava no país. Veja-se este primeiro número, que surge com artigos evocando o mundial de futebol que o vizinho albergará e o trigésimo aniversário da companhia, neste caso com texto de José Luís Cabaço. Mas depois, e para além de alguns textos de ocasião sobre destinos turísticos, surge o núcleo duro. Luís Bernardo Honwana revelando-se como surpreendente fotógrafo. E textos de Eduardo White, Marcelo Panguana, Mia Couto, Nelson Saúte, Paulina Chiziane, Júlio Carrilho, Ungulani Ba Ka Khosa, uma selecção nacional das letras moçambicanas. E um cuidado, sempre discutível mas cuidado, roteiro da capital. Para além de escaparates dedicados à edição livreira e musical, bem como aos ateliers de artistas plásticos.

A desejar bons mares e bons ares à Índico. Para que assim se mantenha.

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Na morte de Albino Magaia

Domingo, Março 28th, 2010

Morreu Albino Magaia, jornalista novelista e poeta. E é esta sua última faceta que mais me cativou a atenção, ele autor do poema-nacional “Tiko-Moçambique” – um esboço de epopeia que não terá hoje em dia o relevo no seio da literatura nacionalista moçambicana que me lhe parece devido. Do autor conheço estes quatro livros, mas não posso afiançar que assim esgote as suas publicações: “Malungate“, novela dos tempos da resistência ao regime colonial, “Yô Mabalane!“, reportagem ficcional do rapto e encarceramento de um largo conjunto de refugiados moçambicanos na Swazilândia, facto ocorrido em meados da década de 1960. E dois livros de poesia, “Assim no Tempo Derrubado“, poemas de juventude escritos entre 1964 e 1976, e “Trilogia de Amor“.

[Albino Magaia, Assim no Tempo Derrubado, INLD/Edições 70, 1982]

[Albino Magaia, Trilogia de Amor, Maputo, Publicações GrafiMat, 1997]

[Albino Magaia, Yô Mabalane!, Maputo, Cadernos Tempo, 1987, 2ª edição]

[Albino Magaia, Malungate, Maputo, Associação de Escritores Moçambicanos, 1987]

Convirá regressar à sua obra. A sua poesia é exemplar quanto às tensões que as primeiras décadas da literatura moçambicana encerravam, a desvalorização do indivíduo face ao colectivo a fazer emergir. Disso notório exemplo é a sua “Nota Introdutória” ao “Assim no Tempo Derrubado“, texto de 1976 que é um verdadeiro mea culpa pela dimensão individualista, até mística (o poema “Peregrinação“), um escapismo então decerto que ideologicamente inaceitável. E mesmo derrotista “sou um deserto seco estéril queimado“, defeito/pecado máximo nessa época voluntarista nada atreita a caminhos como “Lá vai o homem triste pelas estradas do burgo / … Nem vê o mundo que dança à sua volta,” (“O Homem Triste“) que alguns dos poemas percorriam. “Nota Introdutória” essa que para tais caminhos poéticos aventava causas contextuais sociopolíticas (a vivência colonizada do autor) que lhe poderiam justificar, afinal, um lirismo tão típico [Amor: Quero beber a luz dos teus olhos / ... Amor: / Quero renascer todos os dias nos teus braços ("Delírio")] e que a década seguinte, só a década seguinte, viria a re-legitimar por via da revista “Charrua”. Caminhos esses que Magaia rodeou nesse início de independência em poemas voluntaristas como “Ku Lima” e “Um Pacto de Não Agressão“, que culminam esse primeiro livro, o qual nessa sequência bem demonstra o caminho de então da poesia, feita discurso, em Moçambique.

Desse “Assim no Tempo Derrubado” deixo um poema dos inícios de 1974, ainda antes da revolta portuguesa de Abril. Que mostra, com tantos dos elementos recorrentes nestas formulações em que transpira um olhar romântico-etnográfico,  um ideal nacional mesclado de uma cristandade marxista que viria a ser recorrente [Meu irmão não tem cor / nem nasceu do ventre da minha mãe / Não tem cor / mas tem olhos vidrados pelo sofrimento ("Meu Irmão")]  - o qual veio depois a ser conhecido, reclamado, até (e paradoxalmente) individualizado como o ideário de Samora Machel:

MEU PAÍS

Pátria moçambicana repleta de gente de toda a cor
eu amo-te meu País.
Terra de caju e de Maconde
pátria de algodão e de Macua
pais de canhu e de Changane
de Sena e de açúcar
de coco e de Ronga
de Bitonga e de mar
Pátria moçambicana
repleta de gente de toda a cor
tu és terra de branco
de branco e de mulato
de mulato e de chinês
e nem falta no teu coração
descendente de Paquistão.

Nas tuas mãos abertas como um Pai
entram tribos do Norte e do Sul
raças de todos os continentes
porque teu solo é grande.
Tens mandioca para todas as bocas
e tens mapico. Tens marrabenta
e teu peito pulsando ao ritmo de chigubo
tem leite de branco de preto e de mulato
És fértil
minha Pátria beijada pelo Índico.
Eu amo-te meu País.

[...]

Meu País beijado pelo mar
terra de savanas e montanhas
de chuvas calor e cacimbo
de rios e matas amigas
das tuas entranhas nasce uma voz
que sobe e fere os tímpanos de todos os pontos cardeais
falando de uma filha querida de África.

Magaia foi homem que escreveu “poema de luto e sofrimento / poema para perdoar (mas não esquecer)” (“Tiko-Moçambique“). E que nesse registo é autor desse poema-ícone, porventura o seu mais lido e declamado, o Descolonizámos o Land-Rover” (publicado no “Trilogia de Amor“)

 
 

Na sua morte eu fico com um modo (de juventude [1969]) que ele deixou cair, e onde se lhe reconhecem os mestres, as leituras. Mas também onde se reconhece uma excerto da vida que lhe foi fugindo sua escrita:

MADJUBA

No pick-up arranha-se um disco importado do Djhôni.
É Madjuba!
Músicos de viola tocada com dedo eléctrico
música de negra de bairro
que junta ventre com seio e sorri a dançar …
Madjuba!
Ancas sobem e descem imitando mar
corpo de rapaz vibra e sofre de grande desejo
enquanto menina de bairro dança com perna bonita
fecha olhos com êxtase de deusa
porque música que toca é Madjuba!
Mamanas não dançam porque anca não aguenta
e cocuana também não porque vida já se foi.
Madjuba é música de gente nova
gente que pode juntar ventre com peito
e fazer anca subir e descer como se fosse mar.
E música que marca tempo
porque no futuro toda a gente dirá:
“No tempo de Madjuba!”

Há 45 anos Magaia, quando a morte lhe era longínqua, Magaia escreveu “Quando Eu Morrer“. A oscilação – que acima referi – já lá estava. No seu íntimo. Como é comum entre os homens. Como leria ele agora este seu texto?

 
 

 

jpt 


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Efeitos do Prémio Leya

Sábado, Março 27th, 2010

Eduardo Pitta, no Da Literatura transcreve o texto que publicou no Público. E Ana Cristina Leonardo, no Meditação na Pastelaria transcreve (em versão mais longa) o texto que publicou no Expresso. No jornal i, uma entrevista a Bruno Vieira do Amaral. João Paulo Borges Coelho é assim alvo de uma extensa divulgação mediática em Portugal, em particular se considermos o habitual para um escritor moçambicano. Inusitada, com a excepção de Mia Couto, cuja prosa muito particular ganhou mercado vasto há já muito tempo.

Ao longo dos anos JPBC aqui foi muito referido. Por três razões: porque gosto dos livros; porque acho que (até agora) sempre foi muito deficientemente divulgado e distribuído pelas suas editoras; e, fundamentalmente, porque dele sou amigo. Ou melhor, ele faz o favor de me deixar ser seu amigo. Talvez por essa insistência bloguística muita gente me tem perguntado o que dele deve ler ou por onde começar. Ora isto dos livros deve ser a cada um como cada qual. E há também os críticos para nos conduzirem, se assim o entendermos (eu entendo, procuro as leituras segundo a tradição – o cânone -, as críticas e, também, as capas. Às vezes, muito às vezes, pelo tradutor – “se este tipo traduziu deve valer a pena”).

Ainda assim para quem me tem perguntado esclareço que o livro que prefiro é, apaixonadamente, este. Se consultarem o post perceberão as razões literárias (e se tiverem curiosidade nos detalhes poderão pressionar a fotografia que ela engrandece).

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Os Poemas de Reinaldo Ferreira

Sexta-feira, Março 26th, 2010

[Reinaldo Ferreira, Poemas, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960]

Leitor amigo na Austrália (malhas que o facebook tece) enviou-me capa (com ilustração de Diane Lidchi) desta edição original dos “Poemas” de Reinaldo Ferreira ["Mínimo sou / Mas quando ao nada empresto / a minha elementar realidade / o nada é só o resto"], aquele que Guilherme de Melo chamou “o mais europeu dos poetas portugueses acontecidos em Moçambique”  - e que teve o dado biográfico, talvez apelativo para os menos dados às coisas da poesia, de ser filho do homónimo jornalista, o célebre Repórter X.

Esta edição original integrou quatro partes (Livros): “Um voo cego a nada“, “Poemas Infernais“, “Poemas do Natal e da Paixão de Cristo“, ”Dispersos“. Porque póstuma acolheu vários textos enquadradores: a “Extensa Nota Explicativa” ao livro II de Fernando Ferreira, e a “Nota Explicativa” ao livro III de Victor Evaristo, que vieram a ser re-editadas. E uma introdução e notas explicativas aos Livro I e IV  da autoria de Eugénio Lisboa, que lamentavelmente foram amputadas (presumo que por desacordo editorial) na edição mais recente (Vega, 1998), a qual aqui referi - a propósito da celebérrima canção “Uma Casa Portuguesa” da qual Reinaldo Ferreira foi co-autor (letrista).

Então aí deixei o meu poema preferido do livro, o “Receita para fazer um herói“. Agora incluo aqui, em forma de abraço agradecido ao co-austral ma-schambiano, uma dupla do “Um voo cego a nada” (porventura o título que o poeta teria escolhido para o livro), cruelmente actuais. Um que fala do dia de sempre. E o outro que fala de tantos d’hoje, alguns até do quotidiano, arrogantemente acantonados nesses jardins blogo-internéticos …

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos, dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha do Van Gogh …
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

 

O FUTURO

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve …
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

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Vai formosa e… segura

Segunda-feira, Março 22nd, 2010

(por AL insone)

Um dos tema em destaque no recente congresso da CPLP em Lisboa foi o HIV/SIDA. Lembrei-me de um pequeno filme de Rogério Manjate, que ganhou o prémio de 2009 do festival Africa in Motion, que aborda exactamente o tema da prevenção contra o HIV/SIDA.

Googlei, youtubei, mas não consegui o link ao vídeo. Pode, no entanto, ser visto nesta página da UNESCO, ou nesta do site Jamati, que inclui uma entrevista com o realizador. Vale a pena clicar; são somente 3 minutos.

Adenda: O nosso comendador JPT conseguiu postar aqui o filme. Aqui fica com os meus (nossos) agradecimentos. Não é em vão que se é comendador…


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O LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE JOÃO PAULO BORGES COELHO

Sexta-feira, Março 19th, 2010

Da esq. para a dta: gen Custer, Fernando Rosas, JPBC e o Senhor da Leya. Em primeiro plano e de costas à esquerda, o embaixador de Moçambique em Lisboa

por ABM (Lisboa, 19 de Março de 2010)

A partir do anúncio e desafio da exma Sra Baronesa, e como referi, dirigi-me ontem ao fim da tarde para a cerimónia que marca o lançamento do mais recente livro de João Paulo Borges Coelho, O Olho de Hertzog.

Típico dela, a exma Sra Baronesa acabou por não aparecer, tendo gravações ilegais de telefonemas pela Judiciária e divulgadas nos vespertinos revelado que ela teve que ficar em casa a tomar conta do neto recém-nascido ( o Maschambinha) pois a filha tem um emprego etc e tal.

Uma pena.

Mas felizmente que o contingente Maschambiano presente estava presente, para dar conta dos eventos.

Apesar do escarcel feito no piso superior por um alegre grupo de convivas da Sociedade de Geografia de Lisboa, a cerimónia foi leve e interessante.

Na mesa, em frente à audiência que me parecia ser composta por fãs e caçadores de autógrafos, entre alguns distintos como Kok Nam, Luis Patraquim, Stewart Sukuma e S.Exa Miguel Mkaima, Embaixador de Moçambique em Portugal, estavam o autor, o historiador e político (Bloco da Esquerda?) Fernando Rosas, um representante da editora Leya e um senhor que não sei quem era mas que tinha a cara chapada do general americano Custer (news flash: JPT precisa que é Zeferino Coelho, ilustre editor da Caminho).

A cerimónia começou pouco depois das sete da noite com um discurso preparado pelo senhor da Leya, que fez uma simpática prelecção sobre quem era a Leya, quando começou a Leya, o que fazia a Leya, que a Leya era fantástica, que a Leya estava em toda a parte, que a Leya era porreira, e que a Leya marcava mais um ponto com o livro de JPBC. Breve, previsível e dentro da praxe, até porque, do pouco que sei, este cavalo já ganhou a corrida. Tudo indica que o livro é bom, lê-se bem e vão ganhar dinheiro.

A seguir falou Fernando Rosas, que referiu ter andado já por Moçambique, que conhece JPBC o historiador e agora tinha a surpresa de o conhecer como ficcionista, ainda que um ficcionista com mira de historiador. Para nervosismo do senhor da Leya, que pela postura parecia que lhe queria dar com uma cópia do livro na cabeça, Rosas ia revelando quase todo o enredo da obra (mas assim ninguém compra o livro, ò Fernando!) mas no último segundo lá se conteve e sugeriu que quem quisesse saber o desfecho que lesse a obra (uf!!!) e teceu umas considerações sobre a velha Lourenço Marques e Maputo, sobre o João Albasini (uma conhecida figura de então e presente na obra) e sentou-se.

Na sua curta intervenção, JPBC, que falou baixinho (resultando que, com o escarcel dos senhores da Sociedade de Geografia de Lisboa que estavam a jantar lá em cima, mal se ouviu metade do que dizia) referiu alguns aspectos da sua obra e revelou que a sua curiosidade sobre o passado de Maputo era adquirida, dado que ele crescera na Beira (ninguém é perfeito, JP).

Quando terminou, todos bateram palmas e logo se formou uma longa bicha para JPBC autografar os livros comprados ali. Eu decidi esperar e fui comer umas bolachas (realmente, a Leya podia ter metido na mesa mais que umas meras bolachinhas, eu então que estava esfomeado, mas enfim) e cumprimentar e falar com algum pessoal ali presente, de que destaco a ilustre Maschambiana VA, que, descobri, vai visitar Moçambique pela primeira vez na vida daqui a uns dias.

No fim, comprei uma cópia de O Olho de Hertzog e fui com VA ter com JPBC.

Eu não conheço o protocolo dos autógrafos. Pensava que, dado que eu é que comprei o livro, que o autor assinava a contracapa e mais nada. Quando avancei a minha cópia, JPBC olhou para mim sorridente e disse “sim?”. “Sim o quê?”, respondi. “Qual é o seu nome?”. Respondi “ABM”. E ele, com a sua caneta de filtro preto, escreveu “ao ABM com a amizade do JPBC”. Agradeci.

Portanto daqui a uns anos poderei dizer aos mais incautos (que não lêem o Maschamba, claro) que conheço perfeitamente o JPBC e até poderei mostrar o livro com a dedicatória e dizer “ora vês, ele até me ofereceu este livro, pá!”. E daqui a 50 anos, um alfarrabista velhaco qualquer em Lisboa vai tentar revender o livro mais caro anotando em letra pequena: “O Olho de Hertzog, por JPBC, 1ª edição, cópia em bom estado com alguma traça e marcas de Coca-Cola,  com dedicatória assinada pelo Autor no dia de lançamento em Lisboa no ano de 2010. 250 euros”.

Feitas as contas (um livro 15.00 euros, 1 chip de memória para a máquina 19.00 euros, estacionamento 6.30 euros, 2.50 euros de portagens de e para Cascais, gasolina entre Cascais e Lisboa, total uns 50.00 euros) a festa custou uma nota.

Mas enquanto houver dinheiro, quem corre por gosto não cansa.

Agora já só falta ler a obra.

Em baixo, algumas fotografias do evento.

O Dr. Fernando Rosas comenta a obra

JPBC tece umas considerações

O embaixador de Moçambique fala com VA sobre a sua próxima viagem

JPBC autografa a cópia de VA do livro que escreveu

O Senhor Kok Nam, sempre bem disposto

A. Coelho, Parcídio e Luis Carlos Patraquim

Stewart Sukuma, Luis Carlos Patraquim, Lucrécia Paco da Cia de Teatro Mutumbela Gogo e a Maschambiana VA


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ANTEBELLUM

Sexta-feira, Março 19th, 2010

por ABM (Lisboa, 19 de Março de 2010)

Este é um prelúdio à minha nota sobre o lançamento do livro O Olho de Hertzog, por João Paulo Borges Coelho (JPBC).

Gosto de pontualidade. Para mim é algo natural. Cresci com ela. Prezo-a. É uma parte essencial, imprescindível da vida complexa. É eminentemente desejável para que a vida seja mais fácil e mais eficiente para todos. E exequível. É a homenagem a esta verdade incontestável: a de que o bem mais precioso que temos, mais que a saúde, o dinheiro e o sexo, é o tempo. Reconheço que muita gente não repara nisso.

E só menciono esta questão aqui por duas razões.

A primeira é que em Portugal a pontualidade é, na maioria das situações, uma prática em pouco uso. Nem tanto porque há pessoas que não sabem o que é a pontualidade: elas sabem. E até têm um magnífico arsenal de desculpas para a sua não-pontualidade. O problema é que parece que há mais gente que não conhece o conceito, creio que mais numa óptica latino-casualística de “há tempo para tudo” (o que naturalmente o desvaloriza e donde o paradoxo é que só há tempo se houver pontualidade por parte da maioria) e há os que acham que a sua falta de pontualidade inscreve-se como uma espécie de estatuto de entidade superior, em que quanto mais importante se é (ou se pensa que é) mais se pode ignorar a pontualidade. Pessoas “importantes” em Portugal fazem-se esperar. Decorre que quem é pontual e espera, terá estatuto inerente de menoridade.

E, mais grave, há curiosas instâncias em que se assiste à codificação e institucionalização da falta de pontualidade, que assim acaba por ser aceite em vez de sancionada. Recentemente, passei por uma situação em que marquei uma consulta com um médico, para uma quinta-feira às 11 horas. Eu estava lá a horas. O “sotôr” apareceu ao meio dia e descobri então que a sua pródiga assistente havia marcado cinco pessoas para ele ver nesse dia e às mesmas 11 horas. Quando fui atendido, à uma hora da tarde, preguei-lhe um valente raspanete e saí, sem consulta e sem pagar um tusto e com a garantia de nunca mais voltar. Mas não antes dele, que na primeira parte da nossa curta conversa basicamente me tentou explicar que não tinha que explicar nada – o seu estatuto assim lhe daria mais essa prerrogativa – em tom de meia confissão, me vir para cima com a justificação de que se ele marcasse horas específicas para cada pessoa que ele via ele acabaria por passar fome pois os pacientes frequentemente marcam e não aparecem sem dar cavaco ou chegam tarde e a más horas.

Em Cascais eu conheço um senhor de origem alemã e que vive em Portugal há muitos anos. O Dr. Luiz é médico cirurgião e do nosso relacionamento depreendo que os alemães quando nascem, metem-lhes um “chip” da pontualidade na cabeça. Com base nesta amostra (que infelizmente é só ele) a pontualidade parece que faz parte do DNA dos alemães. E das conversas que tenho tido com ele, essa tem sido uma das bases da sua quase infindável conflitualidade na sua vida portuguesa (e ele adora Portugal, na versão lúdico-turística, claro): ele planeia a sua vida e é pontual, e quase ninguém à volta dele é. Como exemplo, esta semana ele contratou uma empresa de reparação de aparelhos de ar-condicionado para vir fazer uma reparação em casa dele. A empresa indicou que uma equipa sua estaria em sua casa esta manhã às dez horas da manhã. Apareceram às 11 e meia. Ele ficou sentado na sala uma hora e meia à espera dos técnicos, e como consequência do atraso desmarcou um almoço comigo pois à hora de almoço S.Exas estavam lá a trabalhar. Eu, que tinha o almoço com ele, fiquei a arder (e a comer uma sanduíche de queijo em casa) e danado com este, mais este, exemplo da (falta de) pontualidade vigente.

Isto vem a propósito da minha ida ontem ao centro de Lisboa para assistir a uma cerimónia a marcar a publicação do livro O Olho de Hertzog, pelo escritor e professor universitário JPBC. Eu, que praticamente nunca vou a estas cerimónias (a última foi em Maputo há uns dez anos para o lançamento de um livrinho de poemas do meu caríssimo Eddy White, então meu colega, acreditem ou não) anotei a informação divulgada aqui há dois dias pela nossa cara Senhora Baronesa, que referiu ser a dita na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa, ontem pelas 18 horas. E assim me preparei e me dirigi de Cascais para Lisboa no meu Maschambamobile, cerca das 17 horas. Como o trânsito para o centro da cidade a essa hora estava leve, cheguei cedo. Estacionei no parque situado por baixo dos Restauradores e fui até à porta da sede da Sociedade de Geografia, que fica na Rua de Santo Antão (na realidade a sede fica no lado direito do edifício do Coliseu dos Recreios). Aí, descobri que me tinha esquecido de colocar um daqueles chips de memória na minha máquina fotográfica. Olhei para o relógio, vi que ainda tinha algum (pouco) tempo, e disparei para o Rossio à procura de uma loja que as vendesse. Encontrei uma loja entre o Rossio e o Elevador de Santa Justa, paguei e voltei a correr para a Sociedade de Geografia. Eram exactamente 18 horas.

Quando entrei, não vi ninguém. Dirigi-me ao porteiro e perguntei onde é que se realizava a cerimónia do lançamento de um livro por um senhor moçambicano. Ele olhou de lado e apontou para uma porta: “é ali. Mas a cerimónia só começa às sete da noite”. Dali a uma hora. Fiquei ali a olhar para ele.

Bem, para passar o tempo antes do lançamento do livro em Lisboa, voltei para a rua e tirei algumas fotografias na rua, que estão a seguir.

Na próxima nota, referirei a cerimónia de lançamento do livro O Olho de Hertzog, por JPBC , em Lisboa.

As fotos, de uma Lisboa ao fim de uma tarde de primavera, dia 18 de Março de 2010.

A Praça dos Restauradores e a Estação do Rossio

A estação do Rossio, onde Sidónio Pais foi assassinado em Dezembro de 1918

Fachada do Hotel Avenida Palace, por onde Eça de Queiroz passou

Fachada do antigo cinema Condes, hoje um café

Avenida da Liberdade, na direcção da Praça do Marquês de Pombal

O antigo palácio do Conde de Arnoso, agora usado pelo governo

O elevador da Glória


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Lançamento de peso

Quarta-feira, Março 17th, 2010

(por AL em antecipação livresca) -

É amanhã  que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.


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Pitta sobre Borges Coelho

Quarta-feira, Março 17th, 2010

“Um grande autor”, o texto que Eduardo Pitta dedica no PNETLiteratura a João Paulo Borges Coelho.

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Sebastião Alba

Segunda-feira, Março 15th, 2010

Sobre Sebastião Alba uma excelente nota no Antologia do Esquecimento: “Quando Escreve Descalça-se à Entrada do Poema”.

Nota: a propósito de Alba Leonel Auxiliar chama a atenção para este local que lhe é dedicado, com textos de Teresa Lima, José Craveirinha, Machado da Graça, Glória de Sant’Anna e do próprio poeta.

 

Adenda: não tem nada a ver mas no mesmo blog uma bela nota a propósito da paternidade – “Diálogos Sobre Estética”.

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SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL

Sexta-feira, Março 12th, 2010

Pintura de Sídonio Pais no Palácio de Belém

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, na altura MNE moçambicano

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE

Por ABM (11 de Março de 2010)

Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.

Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.

Mas há uma relação curiosa, se indirecta.

Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.

De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.

O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.

Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.

Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.

Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.

Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.

Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.

É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).

O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.

O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.

E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.

A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.

A realidade não foi bem essa.

A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.

Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.

Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.

A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.

Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.

A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.

E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.

E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.

Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.

E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.

Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.

Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.

Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.

Mas sobre isso ainda sei pouco.


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O PRIMEIRO CAPÍTULO DE “O OLHO DE HERTZOG”

Terça-feira, Março 9th, 2010

O navio "Beira" Nº Oficial : 377-C, Iic.: H.B.N.G., Registo : Lisboa Cttor.: Blohm & Voss, Steinwerder, Alemanha, 04.07.1896 ex "Herzog", Deutsche Ost-Afrika Linien, Hamburgo, 1896-1911 Tonelagens : Tab 4.976,83 to, Tal 3.059,97 to Comprimentos : Pp 122,00 mt, Boca 14,38 mt, Pontal 13,60 mt Máquina : Blohm & Voss, Hamburgo, 1896, 2:Te, 11 m/h Vendido para demolição em Itália, finais de 1925


por ABM (9 de Março de 2010)

Ainda não tive chance de comprar O Olho de Herzog do João Paulo Borges Coelho, mas já fiz duas coisas que partilho com os exmos leitores por aquele preço imbatível só para Clientes do Maschamba:

1) arranjei uma fotografia original do bicho (“afenal” o Herzog é o navio com os dois matros altos na fotografia que se encontra acima, tirada numa enseada na antiga colónia alemã do Tanganyka aí para o ano de 1896. Não sei onde o JPBC foi buscar o “t” nem o que é que o navio tem que ver com a história mas hei-de perceber certamente). O navio mais tarde passou para mãos portuguesas e mudou o nome para Beira.

2) já li o primeiro capítulo do livro, que é delicioso e que abaixo de reproduz, cortesia do …. Diário Digital.

Então vamos lá:

Capítulo 1, Acto 1, Cena 1, de O Olho de Hertzog:

Não fosse o calor nem esta vegetação tão particular, não trouxesse o ar este vago cheiro a queimado, e Hans Mahrenholz dir-se-ia de volta a uma sua muito antiga vida. Hamburgo talvez, quando era criança e cruzou as desconhecidas praças dessa cidade levado pela mão grossa do pai, fustigados ambos por uma chuva miúda mas inclemente. Hamburgo, desta vez sem a mão que lhe abria os caminhos. Hamburgo às cegas. Não fosse esta luz crua que subsiste apesar da chuva e lhe castiga os olhos.
Recua ligeiramente para se proteger debaixo do avançado de lona riscada – velha e quebradiça, coçada pelo sol e pelo sal – e continua a observar com atenção a linha de costa. A maresia inchou-lhe os dedos, a ondulação provocou nele uma náusea leve e persistente.
A chuva desaba agora com fragor, formando manchas eriçadas na pele do mar (pequenas ilhas de inquietude na ampla superfície). Tem sido assim desde ontem, estes soluços molhados do tempo. Mais perto, a nova descarga salpica a balaustrada, as gotas escorrem como um óleo espesso no metal rugoso da amurada, alastram pelo convés.
A galera entra na barra, devagar. Chama-se Ferreira e ninguém tem razões para suspeitar de que esta será a sua última viagem à baía de Lourenço Marques. Para trás ficaram dias gloriosos em que, com o nome de Cutty Sark, foi a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo, isso antes de ser adquirida pela firma Joaquim Antunes Ferreira & Cia., da cidade do Porto, e se tornar naquilo que é: uma embarcação cansada, merecedora das águas paradas de algum cais, enquanto peça de museu, mais que de confrontar assim o irascível mar Índico.
Mas não é por causa dessa glória – porventura inútil, neste momento nem sequer notada – que os burgueses encasacados acorrem ao cais apesar da chuva e do calor, unindo-se aos estivadores, marinheiros e vendedores que ali passam a vida, para formarem todos juntos a pequena multidão que espera; nem sequer pela imponência dos seus três mastros ou pela elegância do seu casco de madeira com mais de 90 metros de comprimento fora-a-fora. Estariam aqui mesmo que fosse outra embarcação qualquer, fazem-no sempre que uma vela ou um mastro assomam no horizonte, promessa de excitação trazida a uma cidade que no resto dos dias permanece modorrenta.
Por ora a Ferreira apalpa atentamente o canal que leva ao porto, passando não muito longe de um punhado de navios quietos, fundeados. Da amurada, o comandante Vieira de Sousa, há quatro anos no governo da galera, vai explicando aos seus cinco passageiros o historial de cada um desses navios: o Niassa, que foi Bulow antes de ser há dois anos capturado pelas autoridades portuguesas; o velho Admiral, glória da German East Africa Line, também ele obrigado a ser Lourenço Marques; e finalmente o Beira, nome pintado de fresco por cima de outro nome que ainda se consegue ler, por estar marcado em relevo leve na chapa negra do casco.
Herzog é o nome, e Hans Mahrenholz é percorrido por um estremecimento quando o consegue ler. Herzog. Não por causa da história que este velho navio também terá, as rotas que percorreu, os passageiros que transportou (entre eles um jovem de nome Fernando Pessoa em solitária viagem de regresso a uma pátria desconhecida). Herzog é o nome, palavra ducal que igualmente pode ser Herzig, Gertzog, Hertogs – e também Hertzog, como se verá – a raiz é sempre a mesma, a utilização é que foi variando, são as mesmas as armas com as cores amarela, azul e negra, as três estrelas, o elmo guerreiro e as asas imperiais. Herzog. E escurece ainda mais o humor de si já melancólico de Hans Mahrenholz, trazendo-lhe à ideia um outro tempo que vai ter de convocar.
Ondulam levemente, dóceis animais de carga retemperando forças gastas em intermináveis viagens. Herzog, murmura Hans Mahrenholz agora que o tem perto. Massa enorme projectando escura sombra sobre um mar de si já escuro.

Felizmente que tudo se torna mais leve com o lento avanço da galera, com as explicações do comandante e as exclamações dos restantes passageiros. São quatro: um jovem casal de missionários americanos e duas senhoras que o referido casal trataria com muito mais circunspecção se soubesse que não são quem dizem ser, esposas vindas para se juntar a supostos maridos, um deles engenheiro do caminho-de-ferro, o outro representante de uma companhia de recrutamento de indígenas.
Ira Edmond Gillet, o missionário, mal consegue represar a curiosidade, e o comandante passa à descrição do arvoredo cerrado e escuro lá em cima, ponteado de casinhas (o arrabalde novo da cidade), da ferida de terra vermelha aberta na encosta e que a chuva fez tornar a sangrar; de mais arvoredo junto à linha de água, envolvendo o edifício alvo do Grémio Náutico, na praia da Polana; e finalmente, mais para a esquerda, que é para onde lentamente se dirigem, o imponente edifício Capitania Buildings cercado de um casario denso que corresponde à cidade propriamente dita: Lourenço Marques. Mais uma vez a sirene anuncia a presença da galera na barra; no cais, um frisson percorre a pequena multidão.
A viagem foi muito acidentada: após uma calmaria que durava desde a largada, o vento rondou subitamente a sudeste por alturas de Richards Bay e, conquanto agilizasse o andamento, veio a fustigá-los sem tréguas, sobretudo ao largo de um lugar da costa chamado Milibangalala, de tal modo que Edith Riggs, a esposa do missionário, fez o resto da viagem encerrada no camarote, sofrendo de enjoos que as atenções dos restantes passageiros – chá preto, álcool nas têmporas, vinagre no nariz e lascas de bacalhau bem salgado – não conseguiam aplacar.
Felizmente que a ondulação acalmou assim que rondaram a ilha da Inhaca pelo norte, apesar dos perigos das baixas profundidades e fortes correntes que ali há, após o que passaram a poder respirar com mais alívio. E este súbito interesse pelos sinais que se descortinam na costa, este esmiuçar das casinhas e das minúsculas criaturas (da inquietante agitação para lá dos limites da cidade), além de ser o interesse normal de quem se aproxima do destino é também uma maneira de expressar o dito alívio.
Chega enfim o momento de lançar âncora. A chalupa que vem em busca dos passageiros vence o tortuoso percurso até se encostar à galera, ondulando muito mais do que ela.
Sobe o oficial de polícia a verificar os passaportes dos estrangeiros. O casal de missionários vem do distante Ohio e vai para a missão de Kambine em trabalho de evangelização. Olham o oficial com desconfiança, último obstáculo entre si e o cumprimento de um desígnio desde há muito estabelecido. O oficial, por seu turno, retorque com um franzir do sobrolho, suspeitando de um Deus que não fala o português. Mas tudo está em regra, não há como não carimbar os documentos e desejar-lhes as boas-vindas da praxe. Quanto às duas senhoras (que já se sabe não virem ao que dizem vir), cerca-as uma luminosidade tal que por si só obriga a aligeirar os procedimentos.
Finalmente, Hans Mahrenholz. Nos documentos, Henry Miller, súbdito inglês embarcado na cidade de Durban, viajando para Lourenço Marques em sondagem de oportunidades de negócio. E que negócio seria esse? Aquele que desse mais garantias de sucesso: minérios, comércio geral, mão-de-obra, difícil de precisar antes que seja levada a cabo a referida sondagem.

O polícia volta a franzir o sobrolho, afaga o espesso bigode. A água escorre-lhe pela capa de oleado. Felizmente que não pergunta que contactos tem o recém-chegado na cidade para o ajudar nessa tarefa, felizmente que se contenta com o que tem na frente: um nome estampado num documento de viagem e a revelação de um propósito. Se cofia o bigode é apenas para dar tempo a que um inesperado acaso revele mais qualquer coisa que acaba por não vir. Talvez porque não haja, pensa ele, apegado desde há muito ao ópio da rotina.
Uma rabanada de vento agita os papéis, quase os faz voar. Seria embaraçoso para todos que voassem para o mar. Parece que vai voltar a chover. Carimba.
As senhoras mostram receio em descer pela escada de cordame, em trocar um espaço a que apesar de tudo já se haviam habituado por esta insegura promessa de chegar a terra firme. Embora a costa esteja próxima, o mar é aqui mais escuro e oleoso, de certa forma mais sinistro.
Sorri o comandante, segurando-lhes o braço para que ganhem confiança; riem mais abertamente os marinheiros que, em baixo e segurando o corrimão, as incentivam com gestos a que desçam sem temor. Elas temem o mar e os sorrisos destes homens rudes.
Descem por fim os dois estrangeiros e o polícia, descem as malas e os baús (um quase se perde, o seu peso surpreendeu quem o transportava), e a chalupa solta-se do casco da galera e larga a braço vigoroso dos remadores, lutando com as piores ondas, aquelas que já bateram no muro do cais e voltam sem tino, enfurecidas pela descoberta de um limite.
Cantam os marinheiros, uma toada que incute neles a força de remar e que os recém-chegados não sabem distinguir se é alegre, se um lamento. Sobe e desce o cais de pedra a uma certa distância, o mesmo cais onde, da mancha que era a multidão, vão surgindo agora largos acenos e cada vez mais nítidas feições, chapéus e bengalas, bigodes, oleados para proteger da chuva à mistura com os troncos húmidos e nus de mais marinheiros que, de mãos esticadas, aguardam que lhes sejam atiradas as cordas para prender a chalupa às grossas argolas de ferro do paredão.
Com o ondular da terra firme na visão, volta a Edith Riggs a indisposição, nela mais forte ainda do que o medo. Segura o braço do marido com a mão enclavinhada.
Ao lado, Hans Mahrenholz, aliás Henry Miller, perscruta uma a uma as fisionomias do cais procurando descobrir um olhar particular de quem o espere.
Passam às escadas de pedra, sobem-nas e internam-se na multidão tacteando com estranheza a terra firme, quase sem se despedirem uns dos outros. Facto lamentável, tanto mais que uma viagem assim costuma criar nos passageiros uma especial intimidade.
Um homem magro, de chapéu na mão, leva o casal de missionários. As duas mulheres, seguidas por um enxame de crianças, desaparecem sem deixar rasto. Hans torna a olhar em volta, mas não há ninguém que se aproxime e apresente.
Felizmente que era rebate falso, que desta vez a chuva não voltou. Resignado, avança titubeante pela Praça 7 de Março arrastando o malão atrás de si. Finge que não escuta os homens que o seguem, pedindo-lhe com insistência que os deixe arcar com esse peso a troco de uma moeda.
O sol rompeu por entre as nuvens, é agora claro que não vai voltar a chover. E com ele um calor feroz que se junta ao peso da mala para o fazer derreter dentro da casaca ainda húmida da chuva, e agora do suor.
Olha esta praça, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes tão distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas construções encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. Leão d´Ouro, de João da Silva Alcobia, Servem-se bebidas e refeições, Asseio e prontidão.

As pessoas passam apressadas; os eléctricos, vagarosos, tilintam. À vozearia junta-se o som ritmado dos calceteiros malhando nos passeios. Oriental Kiosk, Bebidas espirituosas e sorvetes, Servem-se refeições para fora. Cheiros fortes e desconhecidos sobrevoam a praça: do querosene dos motores, da água da chuva secando ao sol, da serapilheira húmida que os marinheiros da chalupa envergavam (um cheiro que ainda o persegue), das cozinhas dos quiosques.
Continua a vaguear por ali até acabar por escolher um desses quiosques, que por qualquer razão lhe pareceu conveniente. Pavillion Kiosk de Cândido de Sousa Teixeira e dona Carlota Fornazini de Sousa Teixeira, Bebidas geladas nacionais e importadas da Metrópole, do Transval e das principais capitais europeias, Tremoços e pipis, Refeições ao gosto do cliente, Almoços elegantes. Senta-se a uma das mesas da esplanada e pede uma cerveja. Precisa de aplacar a sede que o assola, e também de pensar no que fazer.
As coisas começam mal. Glück garantiu-lhe que estava tudo arranjado, que iriam esperá-lo, que lhe dava um endereço apenas para o caso improvável de as coisas correrem mal.
Pois bem, é isso mesmo que acontece: as coisas correm mal. Passam dois polícias anafados, com grandes bigodes, olhando em volta e girando na mão os cassetetes. Na praça tornam-se todos menos veementes: esperam talvez que os polícias se afastem.
Hans fixa os olhos nos rebordos curiosos dos telhados dos quiosques, nas delirantes estalagmites, flores-de-lis, dragões, parras e perversos anjos; depois, na cerveja que tem na frente. Imagina e lembra, faz as suas contas. Amaldiçoa Glück.
O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e ameaças; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos à superfície; a luz da lua lambia os canos das espingardas. É isso ainda que vê nestes edifícios, nos postes, nos sofridos corpos que são as árvores urbanas, no inquietante padrão repetitivo das cercas de ferro forjado e da calçada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos anúncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimulação.
Em frente, um deles anuncia em grossas letras vermelhas e negras: Teatro Varietá (African Theatres), Repetição das melhores películas da semana em matinée especial: «Sylvia do Serviço Secreto» (fita policial em 5 partes), «Testemunha Silenciosa» (drama em 5 partes), «Quando as más-línguas falam» (drama em 5 partes).
Tudo o que é anunciado lhe parece de duplo sentido, as pessoas movem-se com inconfessados propósitos, a cidade é um prolongamento do mato. F. Bridler & Cia Lda, Vendas por atacado de toda a espécie de fazendas, Artigos diversos, Bebidas, Géneros de mercearia e confeitaria, Vinhos, Charutos, Licores, Bon-bons das mais acreditadas marcas nacionais e estrangeiras, Telefones 230 e 139.
Faz um sinal ao ardina que passa, compra-lhe um jornal. Quer ver confirmada em letra de imprensa a notícia que o comandante da galera, alegremente lhes transmitira, acabada de chegar: o general Lettow-Vorbeck rendera-se!
Procurou na altura saber de pormenores, mas as notícias eram lacónicas. Aparentemente a rendição dera-se em Abercorn, na Rodésia do Norte, assim que Lettow tivera conhecimento do armistício na Europa. A resistência perdera o sentido, se é que ainda tinha algum. O comandante abrira uma garrafa de champanhe para celebrar com os passageiros, e Hans fora obrigado a beber um gole a contragosto. O gole que simbolizava a traição.
Sorri amargamente. Folheia o jornal. Segundo um despacho da Agência Havas, o presidente da República Portuguesa, doutor Sidónio Pais, foi assassinado com três tiros quando embarcava para o Porto. Ao lado, enquadrado por dois filetes grossos, um anúncio dos milagrosos produtos Melcin. Curam-se todas as doenças secretas e doenças de pele, o nosso maravilhoso tratamento nunca falha, mesmo nos casos desesperados, Melcin é um purificador de sangue de força dupla que pode curar V. Excia rápida e permanentemente de doenças embora de longa data, Quer padeça de dores na garganta ou em qualquer outra parte do corpo, de manchas da cor de cobre ou escamas, de sífilis ou de eczemas, o nosso preparado Melcin curá-lo-á, A garrafa incluindo porte custa 21 xelins, Pedidos a Treye Pharmacy, Commissioner & Treye Street, Box 5595 Joanesburgo, A Tintura Melcin cura as manchas na cara, sarna e qualquer doença de pele, custa 3 xelins e 6 pences cada boião.

Vira a página, suspirando. Será que o Melcin serviria para lhe limpar a alma? Dá enfim com uma notícia curta.
Nota Oficiosa. A Nossa Acção Contra os Alemães em África. Telegrama recebido de Sua Excelência o Comandante em Chefe das forças aliadas operando contra a África Oriental Alemã, General Van Deventer: «Na conclusão das operações na África Oriental agradeço muito sinceramente a V. Excia pelo pronto auxílio que V. Excia sempre me concedeu de bom grado. Lembrar-me-ei sempre com orgulho que tive a honra de comandar tropas portuguesas cooperando com as minhas na campanha. Rogo aceite felicitações pela gloriosa vitória das armas aliadas sobre um inimigo comum, vitória que estou certo estreitará ainda mais os laços que sempre nos ligaram à nossa mais velha aliada, e transmiti os meus melhores agradecimentos aos comandantes, tropas e funcionários civis portugueses, na África Oriental Portuguesa, pelo seu valioso trabalho na Campanha de 1918.»
E, em seguida, a resposta do Governador-Geral:
«Agradeço a V. Excia seu amável telegrama. É meu desejo significar V. Excia neste momento a satisfação e orgulho sentidos pelos resultados conseguidos pelas tropas inglesas e portuguesas sob o enérgico e inteligente comando de V. Excia na Campanha agora terminada.»
Fecha o jornal e perde-se em divagações. Por isso quase não sentia o homem magro que se aproxima, de calções e pés descalços. Por um momento convence-se de que é quem o vem buscar. Mas não, trata-se apenas de um simples condutor de riquexó.
´Patrão, posso levá-lo onde quiser.´
Com a mão direita, Hans faz que não e finge concentrar- se na cerveja. O homem não insiste. Mantém-se porém por perto, na esperança de que o estrangeiro reconsidere.
Hans olha-o de soslaio. Realmente magro, um nariz aquilino, como se no seu sangue africano houvesse vestígios árabes ou indianos, embora remotos. Talvez mesmo chineses, a deduzir da curiosidade semicerrada com que o observa. Como confiar num homem assim?
Todavia, por algum motivo – talvez pela sua discreta atitude –, o homem desperta nele uma certa simpatia. Já viu muita gente assim. No início pareciam-lhe figuras de cartão movendo-se num cenário, figuras sem qualquer relevância. Só mais tarde, muito mais tarde, houve alguns a quem pediu protecção.
´Como te chamas?´
´O meu nome é Obede.´
´Obede, queres uma cerveja?´
Obede não parece perceber a oferta. O fosso que existe entre os dois é demasiado fundo para que ele de imediato a percebesse. Todavia, assim a que entende recusa com uma espécie de reverência. Mais por respeito do que propriamente por gratidão; pelo esforço feito pelo estrangeiro para cobrir esse tal fosso que os separa.
Volta o silêncio entre os dois. Mas por pouco tempo, dado que Obede não se satisfaz com uma única recusa.
´O patrão quer vender ouro? ´
Explora caminhos alternativos que conduzam aonde quer chegar.
´Ouro?´
Hans surpreende-se.
Obede explica que desde que a guerra acabou vêm aqui muitos estrangeiros, grande parte deles tentando vender ouro. Ele sabe de bons preços, melhores ainda se o negócio for feito com uns certos compradores que só ele conhece.
O oficial de polícia, de carimbo na mão, teria agora mais qualquer coisa a perguntar-lhe, isso se Hans trouxesse ouro para uma primeira oportunidade de negócio.

Quem será este Obede?, pergunta-se. E responde-lhe que não.
A menção à guerra inquietou-o. Ela e os dois polícias anafados que voltam a passar, girando sempre nas mãos os cassetetes. Tenta concentrar-se na cerveja.
Obede também não parece interessado em atrair a atenção da autoridade. Afasta os olhos de Hans. Mas, assim que sente a costa livre, volta a cravá-los nele.
´Se o patrão quiser ir a algum lado é só dizer. Conheço bem a cidade, não encontra um riquexó mais barato do que o meu.´
Hans fica um momento pensativo. Depois, puxa da carteira e tira de dentro dela um papel. Estende-lho.
´Conheces este lugar?´
Obede olha o papel, interessado, após o que abana a cabeça em desalento.
´Não sei ler.´
Hans volta a pegar no papel e lê em voz alta:
´Escritório de Joaquim Pereira, Rua Araújo 101, Lourenço Marques.´
O olhar de Obede ilumina-se.
´É muito perto. Posso levá-lo lá.´
´Se é assim tão perto, não preciso que me leves. Basta que me indiques o caminho.´
Obede simula um ar de espanto. É matreiro.
´Não fica bem a um branco andar pelas ruas a arrastar uma mala. Toda a gente vai olhar e achar estranho.´
O par de polícias barrigudos refugia-se agora na sombra rala da Casa Amarela, de onde lobriga a praça. Um par de pastores cuidando do seu rebanho. Hans acaba por ceder.
´Leva-me então a mala. Mas eu vou a pé.´
Obede coloca a mala no riquexó e põe-se a caminho, assobiando alegremente. Hans vai atrás dele. Deixam a praça, evitando um eléctrico que passa devagar, e internam-se numa rua estreita e movimentada. Manuel de Abreu, Comissões e consignações, Negócios por grosso e a retalho, Especialidades em bebidas tais como cognacs e whisky, Licores nacionais e estrangeiros, Vinhos verdes e maduros engarrafados ou em garrafões de 5 litros importados directamente de Portugal, Farinha de milho, luzerna, capim, farelo, etc., Oficinas de serralharia e carpintaria, Executam-se reparações e consertos em carroças e carros com a máxima perfeição para o que se possuem bons mestres, Venda de gado muar e cavalar sempre em stock.
O chão empedrado está transformado num lamaçal, as poças de água revelam o quanto choveu; em cima, pequenas sacadas de madeira e ferro forjado recortam-se contra um céu de um azul outra vez tão intenso que quase cega. Gente por toda a parte, uma verdadeira multidão caminhando em todos os sentidos e que eles têm de vencer como a um mar rebelde. Moçambique Agencies Lda, Negociantes, Expedições, desembarques, Comissões, Representantes de T. W. Beckett & Co. Ltd, Pretoria, Joanesburgo e Durban. Pelo ar voam os pregões, cristalinos e cortantes, anunciando pequenas coisas na esperança de que quem os ouça possa afinal vir a precisar delas. Jolanda, Fábrica de gelo, Águas minerais, Frigorífico, Proprietário Giuseppe Cavallari.
Obede pára o riquexó em frente a uma porta escura.

´É aqui.´
´Podias ter-me dito que era assim tão perto.´
´Eu disse que era perto.´
Hans encolhe os ombros, pede-lhe que aguarde, empurra a porta e entra. Lá dentro, pisca os olhos para se habituar à escuridão. Sobe umas escadas íngremes que desembocam num pequeno patamar para o qual dão três portas. Três possibilidades envoltas num intenso cheiro a desinfectante. Uma delas ostenta um letreiro austero: Dr Palma Callado, Sífilis e doenças venéreas, Doenças das senhoras, Clínica geral, Consultório. Das outras duas, uma está entreaberta. Bate nela ligeiramente, com os nós dos dedos. Ninguém responde. Está aqui mais fresco.
Espreita. Dá para uma sala comprida que termina em novas portas, estas com gelosias de madeira. Calcula que abram para a varanda de ferro forjado que se via lá de baixo. Dentro, três escrivaninhas desarrumadas, alguns armários encostados às paredes, tudo mal iluminado por uma luz crua retalhada pelas gelosias. No interior das tiras de luz, pequenas partículas de pó vogam lentas como minúsculos peixes num aquário. Há também um cheiro indistinto do qual fazem parte velharias, madeira escura, humidade, verniz e algum tabaco.
Apenas uma das escrivaninhas está ocupada, por um homenzinho entroncado, em mangas de camisa protegidas por essas braçadeiras de alpaca negra tão ao gosto dos amanuenses. Tem o chapéu de feltro descaído para a nuca, está concentrado nuns papéis que lê e risca e escreve.
Hans pigarreia para se anunciar. O homem vira-se, surpreendido. Talvez também um pouco receoso.
´Que deseja?´
´É aqui o escritório de Joaquim Pereira?´
´Sim, é aqui.´
´Procuro o senhor João Albasini.´
´Sou eu. O que me quer?´
´Trago instruções para o procurar. O meu nome é Henry Miller.´
O homem ouve aquele nome e parece indeciso, tomado de um certo embaraço. Levanta-se e arrasta outra cadeira para junto de si.
´Henry Miller, claro! Sente-se aqui. Não me diga que já chegou?! Claro, claro que chegou, que estupidez a minha! Estava aqui a fazer horas para o ir esperar ao barco e acabei por distrair-me. Desculpe.´
´Não tem importância.´
O homem põe-se subitamente muito sério.
´Alguém o viu entrar?´
E vira-lhe as costas para ir à varanda espreitar. Assim que escancara as gelosias a luz inunda a sala de um jorro só. É mais que entroncado, quase gordo. É mestiço. Debruça-se e examina atentamente a rua, como se procurasse algo por baixo dos sons que pairam sobre ela. Está agitado. Hans procura tranquilizá-lo.
´Não se preocupe, não vi nada de suspeito, ninguém me seguiu.´
O homem vira-se, mais calmo.
Ah, antes assim. E mais uma vez, desculpe. Perdi-me na escrita de um editorial, não dei pelo passar das horas. É para o meu novo jornal, chamado O Brado Africano, que sai daqui a dias. Leia-o e diga-me o que acha.´
Estende a Hans uma das folhas de papel. Este, surpreso com o gesto, não tem outro remédio senão pegar nas folhas e começar a ler. O título, Assestando Baterias, parece-lhe algo belicoso. O texto começa no mesmo tom.
Todo aquele que não luta pelo seu Direito condena-se voluntariamente a ser capacho dos outros. Parar é morrer. Aos povos subjugados, então, mais do que aos outros, esse dever é uma religião. Ante o Altar do Dever prostremo-nos pois e façamos por nos fazer ouvir nas nossas queixas, nos nossos brados, nas nossas súplicas! Programa..
. Para quê a explanação aqui de um programa, se todos sabem ao que vimos e o que queremos? Vamos seguir a mesmíssima senda que encetámos ao fundar O Africano em 1908.

Em seguida, o tom radical atenua-se um pouco, oferecendo uma mão a um entendimento social adequado à quadra que se vive.
Por uma curiosa coincidência este «número programa» também sai em dia de Natal – aquele em que a cristandade celebra o Advento do Justo e o calendário da República Portuguesa nos aponta para nele celebrarmos a Festa da Família – o dia da Fraternidade Humana.
Aos poucos, porém, volta o tom crispado.
Uma e outra vez nos curvamos pois ante o Presépio a pedir, para nós também, a parcela dessa Justiça, dessa Verdade e dessa Igualdade; e, como cidadãos de uma mesma Pátria, depois de beijar os emblemas sagrados nos templos, fazendo uso da Consciência – dom magnânimo de Deus – saímos destes para a vida larga da rua livre a pelejar pela doutrina igualitária de Cristo, pelo emblema da República, a pugnar pelo direito das gentes, a exigir – com correcção, com ordem, sim, mas com firmeza – o cumprimento da Lei. A Lei igual para todos é um princípio que não queremos ver traído. E por isso, e só para isso, a açodada pressa com que novamente se cerram fileiras à roda da nossa já muito gasta energia, da nossa abalada e magoada fé! É que áspera foi a caminhada até aqui e curtas as vidas para jornada tão longa. Mas… avante, e que O Brado Africano penetre em todas as frinchas das portas dos poderosos a gritar pela Santa Causa da Justiça; que nas mansardas dos pobres e palhotas desmanteladas dos contribuintes do Estado dê notícias, lhes diga que viva quem pela Justiça se deixará matar – porque não se deixar pisar é dever de todo o homem que tem noção da sua dignidade… É assim mesmo e assim esperamos que será sempre, custe o que custar!
Finda a leitura, Hans fica sem saber o que dizer. Escapou-lhe metade do sentido do texto. Quanto à outra metade, parece toda ela um desafio. Sente os olhos do homem cravados em si e não ousa levantar os seus.
´Então, o que acha? ´
Hans coça a cabeça, procurando desesperadamente ganhar tempo até que lhe chegue uma ideia.
´Não sei bem… Talvez o final esteja um pouco agressivo…´
João Albasini parece surpreso, depois pensativo.
´Acha mesmo?´
Arranca-lhe os papéis das mãos e volta a sentar-se à secretária, onde de imediato se põe a escrever. Escreve intercalando tiradas furiosas com curtas suspensões passadas a olhar o tecto, como se lá houvesse uma reserva de palavras penduradas para escolher. Esqueceu completamente o visitante. Por vezes retoma tão rápido uma frase que vêm de arrasto palavras indesejáveis, que risca com a mesma fúria com que as escreveu. O bico da pena mergulha de quando em quando no tinteiro com movimentos bruscos de ave de rapina. Ao mesmo tempo vai murmurando essas palavras como uma espécie de reza com múltiplas entoações, em busca de uma que lhe agrade a ponto de a deixar sobreviver na forma escrita. Quando as ideias se esgotam, escarafuncha as pilhas de papel que tem em volta para achar alimento com que prosseguir. Finalmente, com uma última mirada, parece dar-se por satisfeito. Passa o mata-borrão em cima da folha, como que para amansar o texto, levanta-se e estende-a a Hans.
´Veja agora.´
Hans não tem outro remédio senão voltar a ler.
Mas hoje é dia de Natal… Haja fraternidade… Boas-Festas e abracemo-nos, portugueses, num grande amplexo neste Natal doloroso, triste, pesado de negras sombras, em que estoiram tiros fratricidas e se jogam os nossos destinos numa Grande Conferência… na qual, pela certa, só será salvo, e ficará evidente e triunfante, o velho aforismo de que lobo não come lobo..
. E então, que acha agora?´
´Parece-me bem, embora termine de um modo um pouco enigmático.´
João Albasini sorri.
´É para os manter entretidos a imaginar onde raio quero chegar.´
´Ah.´

Depois, arranca subitamente as mangas de alpaca dos braços, atira-as para cima da secretária e estende a mão na direcção do bengaleiro, em busca de um casaco de linho imaculadamente branco. Veste-o, ao mesmo tempo que procura mais qualquer coisa em volta.
´Ora esta!?´
´Que foi?´
´Pocuro o meu chapéu, não sei onde o deixei.´
´Tm-no na cabeça.´
João Albasini leva a mão à cabeça.
´Tem razão, que estupidez a minha! Vamos então. Eu levo-o ao hotel e aproveito para deixar o texto na tipografia.´
Abandonam o escritório. João Albasini vai na frente, descendo os degraus com uma agilidade surpreendente. Falando e gesticulando sempre.
´Não tem bagagem?´
´Deixei-a aqui à porta, com um condutor de riquexó.´
Saem para a rua, onde Obede aguarda sorridente. João Albasini olha-o com certa surpresa, após o que lhe atira uma moeda.
´Leva a bagagem do senhor ao Hotel Clube. Já lá vamos ter.´
E fica pensativo a vê-lo partir. Depois, põe-se subitamente a caminhar num sentido diverso, com tal resolução que Hans tem dificuldade em segui-lo. De quando em quando leva a mão à cabeça, a certificar-se de que não esqueceu o chapéu. Caminham pelas ruas agitadas desta cidade brilhante como se o fizessem pelos carreiros do mato: os edifícios, árvores; os transeuntes, capim. Hans vai no entanto mais tranquilo, por não ter de ser ele a escolher, em cada cruzamento, uma alternativa. É reconfortante limitar-se a seguir aquele apressado casaco branco, entregar-se nas suas mãos. Ouve os nomes das ruas, palavras opacas sem nada que o ajude a desvendá-las; vê passar uma mesquita. Atravessam uma rua larga. António José Escudeiro, Importador e exportador de géneros nacionais e estrangeiros, Comércio geral, Especialidade em bebidas engarrafadas, Prontidão e seriedade. Saltitam entre as poças de chuva. João Albasini pragueja para os automóveis e caleches que descuidadamente as pisam, salpicando de lama os transeuntes. Zela pelo seu casaco branco.
Nova avenida larga, que cruzam, e entram enfim num edifício amplo, o Mercado Municipal. Percorrem os húmidos caminhos de pedra entre as bancas de produtos que João Albasini vai inspeccionando atentamente, sem no entanto abrandar o passo. É como se os vendedores, organizados por raças, tomassem parte no empreendimento colectivo de revelar as cores que existem na paleta da natureza. Os europeus propondo uma vasta gama desde os verdes dos legumes aos vermelhos das carnes, os indianos ripostando com a gradação completa dos temperos, do amarelo ao castanho passando pelo laranja vivo e por um vermelho de fogo. Lugar Económico de Pedro de Melo no Mercado Municipal, Chouriço de carne, morcela, farinheira, mouro e sangue, Carne salgada, Feijão de todas as qualidades, Azeitonas do Douro e Elvas, Frutas verdes, secas e cristalizadas, Leite fresco para doentes e crianças a 500 réis o litro, Leite do Umbelúzi a 400 réis o litro, Encarregam-se de levar as compras a casa dos fregueses.
Ao mesmo tempo, de costas, Albasini vai falando sem cessar, o que incute em Hans, para além do referido conforto, um difuso sentimento de inferioridade. Refere querelas municipais, amaldiçoa portarias a seu ver completamente injustificadas, desnuda intrigas com um trejeito irónico, convida o interlocutor a tomar partido. E Hans sempre sem saber o que dizer.
O homem voa sobre os assuntos como uma águia, embora com inflexões súbitas de passarinho. José de Carvalho Junior, Negociante de carnes verdes, Carne do Transval, Prontidão, asseio e correcção, Talho do Mercado, Lojas 17 e 18. Estão já nas traseiras do mercado, às quais se segue um baldio pejado de vendedeiras negras sentadas no chão enlameado, expondo os seus produtos sobre esteiras de palha semiapodrecida ou pequenas caixas de madeira, desta feita sem quaisquer anúncios que os nomeiem – montículos de frutas, legumes e folhagens, muitas delas desconhecidas, pequenos potes de barro com um arroz amarelo, milho grosso, gergelim, amendoim, piripiri. Aqui, porque mais desordenadas, as cores parecem traduzir com rigor a espontaneidade da natureza.

Evitando cuidadosamente as poças de água do chão, João Albasini prossegue a sua inspecção.
´Explique-me então qual é exactamente o objectivo da sua visita. É que a mensagem que o nosso amigo me enviou, anunciando a sua vinda, não era inteiramente clara…´
Debruça-se para pegar numa manga, apalpa-a, leva-a ao nariz e devolve-a ao monte, decepcionado.
´Vê-se que foi colhida antes do tempo. Ainda faltam umas semanas para a altura delas. Mas, ia dizendo?!…´
Tal como o polícia na galera, também Albasini quer saber das suas intenções. Ao que veio. Muitas vezes Hans reviu com Glück estes momentos, o que lhe perguntavam, como respondia. As traseiras confusas do mercado – onde se torna impossível encontrar um padrão simples que seja – fazem lembrar a maneira como as tropas estacionavam após os rigores do combate. Como se à meticulosa organização devesse seguir-se o caos para ficar reposto o equilíbrio. Esforça-se por expulsar estes pensamentos, a fim de ser capaz de responder.
´Oficialmente sou um empresário em sondagem de oportunidades de negócio, mas na verdade venho ao serviço de um jornal sul-africano, o Rand Daily Mail. Pretendo escrever uma reportagem sobre as condições de recrutamento dos trabalhadores das minas.´
Assim mesmo, tal como Glück lhe sugerira que dissesse.
´Ah, interessante. Estamos entre jornalistas, portanto. Entre jornalistas com uma causa, o que torna as coisas bem mais fáceis. Esta parece boa, não acha?´
E estende a Hans uma enorme papaia ainda esverdeada. Hans segura-a, sem saber o que dizer. Leva-a ao nariz, fazendo um ar entendido.
João Albasini larga uma sonora gargalhada.
´As papaias não cheiram, meu amigo. A elas há que apalpá-las, descobrir-lhes pelo peso e pela cor se estão no ponto. Acho bem que faça esse trabalho, e que o faça desta maneira, vendo de perto como vivem as pessoas. É preciso cheirar o suor do medo e da miséria, conhecer-lhes a cor, para sabermos do que falamos.´
E devolve a papaia à vendedeira, insatisfeito. Talvez por estar demasiado apalpada.
A mulher encolhe os ombros, resignada. O dia está no fim, falta-lhe vigor para argumentar. Atrás dela pulsa um pequeno volume envolto num pano velho, depositado sobre uma esteira no chão. Pelo calor e leve tremor que dele emana, adivinha-se ali uma criança. A mulher baixa-se e embala-a levemente, sem deixar com isso de ter o caixote com os seus produtos debaixo de olho.
Ao lado, mais mulheres fazem o mesmo: vendem as suas coisas enquanto embalam também as respectivas crianças, todas elas enroladas em panos velhos; montículos de frutas ou legumes, brilhantes de uma água suspeita com que constantemente os aspergem para que ao menos a aparência do viço não se perca. Compra-se pouco, a avaliar pelo que está ainda envelhecendo nos improvisados mostruários. Algumas iniciam a recolha dos seus produtos, que depositam em grandes cestas que levarão à cabeça (às crianças, levá-las-ão às costas). Fazem-no com muito cuidado, para amanhã os poderem voltar a mostrar com o aspecto que têm hoje. Como se fossem imunes ao passar do tempo.
Por toda a parte fumegam panelas amolgadas e negras de fuligem em fogos feitos no chão, panelas que elas espreitam sempre que as crianças lhes dão descanso. Há também outros fumos de origem mais difusa, todos eles soltando os respectivos cheiros acres. Fumos do calor que se acumulou no chão e agora se escapa, primeiras manchas da noite que desce.
´Compre-me a papaia, patrão. Para ajudar a criança.´
Hans surpreende-se com a serenidade com que estas palavras são sopradas, com a firmeza com que o atraem para um mundo que desconhece. Com este derradeiro esforço da mulher: Compra-me a papaia e revelar-te-ei o segredo destas panelas fervendo a nossa sobrevivência, o segredo destes pequenos volumes enrolados em panos velhos por cima de uma qualquer esteira, desafiando, obstinados, o destino.

No mato da sua lembrança estes vultos eram meros adereços dos combates, aqui deixa-se prender pelo fogo do seu olhar. Não tem pois como não levar a mão à carteira, para pagar. Houve alturas recentes da sua vida em que uma papaia destas seria uma preciosidade. É nisso que pensa para justificar o gesto. Suspeitasse disso a mulher e sem dúvida pediria três vezes o que pede por ela.
Entretanto, João Albasini já vai longe. Inspecciona os produtos de uma outra mulher, encarando duvidoso um pequeno monte de folhas verdes. São folhas de cacana, e a infusão que a partir delas se faz vai atenuar-lhe a dor que sente nos rins de quando em quando, sobretudo depois de longas horas sentado à secretária a escrever. Parecem-lhe bem, pois com um gesto seco indica à vendedeira que as embrulhe, levando, também ele, a mão ao bolso.
Sem dúvida que o mercado é um lugar de encontro entre dois mundos, um deles repetindo sem cessar o gesto de tirar a carteira, o outro embrulhando e despedindo-se de pequenas coisas trazidas sabe-se lá de onde.
´Quer então ver como se tratam aqui os pretos…´
Vira-se, levemente intrigado com a falta de resposta.
Hans não o ouviu, está ainda lá atrás acertando as contas da papaia. João Albasini aguarda que ele se aproxime, observa sem comentar uma papaia que quase foi sua, despropositada nas mãos do estrangeiro. No seu silêncio talvez haja algum despeito, uma surda irritação por Hans não ter seguido o seu conselho. Há por ali papaias bem melhores que aquela. Em seguida, dirige-se para os limites daquele emaranhado de gente onde tudo cabe menos os diálogos cristalinos (o som que dele emana é apenas um leve murmúrio indistinto, a reza baixa das transacções).
Chega à rua e entra nela. E. Nichols, Único agente para toda a Província de Moçambique dos Automóveis Ford, Carros de 5 assentos e camiões, Extraordinária redução de preços. Caminha depressa, sem se certificar se Hans o segue. Caminha e vai falando.
´Amanhã é um bom dia, dia de chamada. Eu venho buscá-lo para o levar lá.´
´Chamada?´
´Sim, dia de virem buscar quem precisam, de selecção daqueles cujos braços parecem mais fortes, cujos peitos musculados maiores garantias dão de albergarem pulmões sãos.´
´E os restantes?’
´Quem?´
´Aqueles que não são recrutados?´
Albasini ri da ingenuidade do estrangeiro. Intimamente, agradece-lhe porém esta ideia dos indígenas recusados, excelente tema para um futuro editorial. Vai até imaginando o respectivo texto, enquanto caminham.

Para onde são então precipitados os milhares de indígenas que não reunem as condições exigidas? Precipitados ao vão e vazio da Era inicial, protoplasmas que depois se aderirão e agregarão e formarão o protoplasto da nova humanidade que irrompe do tumulto belicoso empunhando os estandartes da libertação, caminhando triunfante e seguro sob a cadência estridente da Internacional?
E sorri da força do texto.
Mudam de rua. Na Avenida Arriaga o movimento de pessoas é bem menor, talvez por o dia estar chegando ao fim. Simão & Paizana, de José Dias Simão & Cia, Especialidade em carnes de porco, azeite e toda a qualidade de legumes recebidos directamente da Província, Sola, cabedal e pelicas recebidas directamente das fábricas, Armazém na Av. Central (antigos escritórios de Pinho, Santos & Cia, e Ribeiro e Levy). Em cima deles, o céu é uma violenta mancha cor de sangue. Apesar de ser mais alto, Hans tem de fazer um esforço para acompanhar a passada do homenzinho. ‘Diga-me, porque não comprámos dentro do Mercado? As coisas pareciam ali tão mais limpas, tão mais bem apresentadas…’ ‘Não comprámos lá porque é preciso dar uma oportunidade aos de fora, àqueles que não têm licença de vender lá dentro.’ A distância não é grande, depressa chegam à entrada do hotel. Em cima, um grande cartaz anuncia: Clube Hotel, de Lage & Selig, Um dos melhores edifícios da cidade com fundas vistas para o mar, Próximo dos jardins e repartições públicas, Carros eléctricos à porta constantemente, Fornece em condições económicas, Serviço de cozinha à portuguesa e inglesa, Todo o pessoal europeu completamente habilitado, As mais higiénicas instalações de luxo e óptimas casas de banho.
Sobem os onze degraus e, na varanda, João Albasini estende-lhe a mão num gesto de despedida.
´Está entregue. Desculpe a pressa, mas tenho de passar ainda pela tipografia. Amanhã venho buscá-lo.´
Num impulso, Hans estende-lhe a papaia.
´Leve-a, dê-a às crianças lá em casa. Estarei amanhã à sua espera.´
João Albasini recebe a papaia sem uma palavra. Revira-a, observa as manchas e pisadelas que o levaram a recusá-la. Encolhe os ombros. Vira as costas e desce os degraus saltitando, pondo-se a caminhar velozmente pela avenida abaixo. É uma figura alegre e ágil, uma mão segurando a papaia e as folhas, a outra aconchegando o bolso dentro do qual leva o editorial.
* * *
Arruma as suas coisas no quarto, toma um banho e desce para jantar. Segue absorto os gestos dos criados que acendem, um a um, os candeeiros das mesas e das paredes. Inspira fundo. Sente no ar um leve cheiro a petróleo, acre.
São múltiplos os caminhos que tem na frente, o problema é que não consegue ver aonde vão dar. Glück sugeriu-lhe que começasse por um certo Rapsides, e que tivesse muito cuidado com ele. Todavia, para ter cuidado com ele, terá primeiro de o encontrar, o que sabe ser muito difícil!
Enrola pequenas migalhas de pão entre os dedos, sobre a toalha de linho, imune ao som dos talheres que começam a ouvir-se em volta, à agitação das primeiras mesas e ao passar atarefado dos criados com as bandejas ao ombro.
Pela descrição, Rapsides terá uma grossa cicatriz desde a orelha até à boca, uma cicatriz que lhe distorce e congela a expressão. Embora não o impedisse de manifestar as disposições mais gerais – se estava alegre ou irado, por exemplo – essa cicatriz tornava impossível saber de estados de alma mais finos como a ironia ou o sarcasmo. Difícil, portanto, pormo-nos em guarda. Hans que tivesse muito cuidado com esse tal Rapsides!
Manda retirar a sopa quase sem lhe tocar, mordisca o bife com as palavras de Glück a rondar-lhe as ideias. Acaba por desistir de comer. Está exausto. Pede um brandy. Pede também um fósforo para o charuto, que o criado, pressuroso, acende. Agradece e levanta-se, de cálice na mão, e é nessa altura que nota um aceno vindo de outra mesa, perto da janela.
Tal como haviam desaparecido no nada, do nada reaparecem as suas duas companheiras de viagem na Ferreira. Não tem pois como evitar dirigir-se-lhes.
A mais nova, Florence Greeff, é também a mais extrovertida. No barco, imitava as indisposições da esposa do pastor Gillet, interpelava o comandante segurando-lhe o braço com desconcertante intimidade e cercava o próprio Hans com embaraçantes jogos de palavras. Aqui, foi ela que acenou e é ela que, sem pejo, encara Hans de cima a baixo, como se procurasse avaliar que marcas um dia nesta cidade deixara na sua figura.
A seu lado, Natalie Korenico, mais marcada (conquanto se vejam nela traços de algum fulgor), é o símbolo da polida e conveniente distância.
Hans não vê naquela mesa o engenheiro do caminho-de-ferro e o recrutador de indígenas que, no barco, elas tão pomposamente anunciavam. Duvida agora que estes tenham alguma vez existido e suspeita que outra história correrá atrás daquelas belas máscaras. Por outro lado, a sua desconfiança leva-o a dar-se conta de que elas poderão vê-lo da mesma maneira. Também ele tem outra história correndo atrás da sua própria máscara, embora não saiba ainda bem qual seja. Albasini, Rapsides e, por detrás deles, Sebastian Glück. Não ousa, portanto, perguntar.
No sorriso irónico que não larga nunca os lábios de Florence Greeff, Hans vê confirmada a sua suposição: não há engenheiro algum, nem tão-pouco um recrutador de indígenas. Ela pergunta-lhe se já achou alguma possibilidade de negócio. Mas, como responder com a verdade a quem parece sustentar tão bem mentiras, ironias, duplos significados? Sobretudo depois de Florence, em resposta à sua anunciada intenção de dar um passeio, lhe dizer que tivesse cuidado com a noite; que aqui as ruas, por detrás da sua placidez, escondem muitas armadilhas.

Hans desvia o olhar por um momento, seguindo com ele um dos criados que tropeçou e quase deixava cair a bandeja. Acaba por responder que não, que não há ainda qualquer negócio em vista, que continua em sondagem, não sabe por quanto tempo. Afinal, um dia é muito pouco para se descobrirem os segredos de uma cidade; as possibilidades que, como ela própria deu a entender, as suas ruas encerram.
Cansa-se dos jogos de palavras, levanta-se. Precisa de ar. Pede licença às duas para se retirar. Chega à varanda e fica ali um tempo ouvindo os grilos e esperando uma lufada de ar fresco que não chega. O tempo abafado e os sons da noite trazem-lhe à lembrança um outro tempo, tão distante e ao mesmo tempo tão recente. Leva o cálice aos lábios, dá um trago fundo e sente um fogo alastrando velozmente pelas veias.
Larga o cálice no parapeito, desce os degraus e segue pela berma da avenida como se sentisse necessidade de fugir às casas e às luzes numa urgência de escuridão. Noutras circunstâncias, seria numa altura como esta que alguém se aproximava para lhe transmitir uma versão fantasiosa do passado de Glück. Versão que ele encararia com profundo cepticismo. Passa junto de dois ou três riquexós estacionados, cujos condutores, cansados de esperar um estrangeiro caprichoso que deles precisasse àquela hora, dormitam. De longe, um deles parecia Obede. A mesma silhueta. Mas é afinal mais gordo e velho. Hans transforma o gesto que quase ia fazendo num cumprimento impessoal.
´Boa noite.´
Estremunhados, os homens surpreendem-se. É natural que pensem ser alguém necessitado dos seus serviços. Que branco se daria ao trabalho de uma tal atenção a não ser que tivesse em vista uma corrida? Levantam-se, atabalhoados, cada qual querendo ser o primeiro a servir. Mas, para surpresa geral, Hans já vai adiante, sinal de que cumprimentou por cumprimentar.
Caminha depressa. No chão, um som cavo e uma ligeira vibração anunciam a passagem de um último eléctrico a recolher, vazio. Volta novamente a chuva, uma chuva miudinha que ora não se vê, ora – se lhe bate a luz de um candeeiro – é um pó de ouro descendo lentamente até ao chão. Na sua frente surge um muro caiado que lhe chega pelo ombro. Segue a eu lado até que este se interrompe, deixando ver, do outro lado de um velho portão enferrujado, um mato com cheiros ue fazem lembrar os cheiros que traz no pesadelo. Põe-lhe as mãos e o portão cede com um ruído de gonzos que fere o silêncio. Deixa a rua e penetra no capinzal, sem saber se é um amplo jardim maltratado, se o início do mato (não consegue ver-lhe os limites). Aqui e além, algumas árvores, mais capim. Caminha sempre, sentindo em volta uma natureza cada vez mais altiva e desgrenhada. Por vezes sobrevoam-no as copas negras das árvores e, perdido nesse labirinto alto, um morcego de voo cego e desvairado; outras, é simplesmente o céu húmido e quente. Esforça os olhos para não perder o caminho que pisa, cheio de curvas, mas sente um chão fofo debaixo dos pés, enlameado, sinal de que já o perdeu.
E se encontrasse o tal Rapsides nesta altura, o que lhe diria? Boa noite, o coronel Sebastian Glück sugeriu-me que falasse consigo? Um absurdo. Antes de o procurar terá portanto de saber bem o que quer dele, com que tom lhe falará.
Leva o resto do charuto aos lábios e sente-o molhado. Deita-o fora. Estranha cidade esta, onde a chuva vai e vem sem se fazer anunciar e que se deixa atravessar assim, até ao âmago, por um mato quase virgem (fortaleza recente mas já com fundas brechas). Sente, contudo, neste mato uma diferença em relação ao outro que ainda não consegue precisar. Será das luzes que por vezes descortina entre as árvores, mantendo a noite em respeito? Será dos sons, aqui mais delicados, distintos dos sons roucos e repentinos das feras, dos gritos agudos das aves de voo longo? Será do sopro constante de um vento que lá desconhecia limites e que aqui não passa de um suspiro?
Aguça o ouvido, à procura dessas diferenças, e é então que nota um estalido de ramos que não vê, um ofegar que não é o seu, um vulto que não sabe se é uma árvore retorcida.
´Quem está aí?´
Mas o único movimento é o das folhas vergadas pelo peso da chuva miúda, o único som é o do ranger dessas folhas quando se vergam. Logo em seguida chega-lhe um novo som, cortante, de vidros partidos a seus pés. Baixa-se, tacteia o chão e encontra, entre esses restos de garrafa, um bocado de papel. Desdobra-o. Quer lê-lo mas não tem fósforos. Olha em volta.
´Quem está aí?´
Outra vez o movimento das folhas e o som do seu farfalhar. O sopro do vento num capim que não se vê. No mato os acontecimentos eram repentinos e brutais; aqui, os mistérios são mais leves, mais rendilhados. Parece que vai voltar a chover.
Procura regressar por onde veio mas não dá com o caminho. Quase corre sobre o chão enlameado até descortinar o vulto comprido do muro. Segue ao longo dele, ofegante, parece-lhe que não acaba nunca. Dá enfim com o portão, fechado. Não se lembra de o ter fechado quando entrou. Será o mesmo portão? Empurra-o e ele não se move, sólido como uma rocha. Sente uma necessidade imperiosa de deixar aquele lugar. Trepa pelo muro, passa as pernas para o outro lado e, com um salto, está novamente na avenida. A chuva é já forte, embora quase silenciosa.
Volta-lhe a sensação de segurança. Examina os sapatos em baixo de um candeeiro, completamente enlameados. Aproveita a luz para ler o papel, onde está escrita uma única palavra:
´WENELA.´
Está encharcado. Pragueja, retomando apressadamente o caminho do hotel. Chega aos degraus e sente, mais do que vê, uma presença. Do outro lado da rua os condutores dormitam por baixo dos riquexós. Nenhum daqueles vultos parece ter acabado de chegar, em nenhum nota o ar ofegante de quem tivesse corrido atrás de si para lhe atirar uma garrafa com uma mensagem dentro. Levanta a cabeça para olhar uma janela vazia do primeiro andar.
Será que foi impressão sua ou estava ali, recortada contra a luz trémula do quarto, a silhueta de Florence Greeff? Será que imaginou, ou também ela está sofrendo o calor infernal deste Dezembro?
Entra, fingindo que não a viu.

(fim do 1º Capítulo)

Para ler o resto, compre-se o livro. 15 euros e já está na rua em Portugal. No resto da Lusospeak não sei.


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Manuel Alegre em Maputo

Sexta-feira, Março 5th, 2010

O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro “O Olho de Hertzog“. Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]

 

Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:
“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”
04-03-2010


O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: “Camões não é só vosso, Camões também é nosso”. Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: “um traço de união”.

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: “Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos”. E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.

Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”. E Portugal existiu sempre naquela “lusitana antiga liberdade” de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.

Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.

Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.

Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.

Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.

Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.

O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance “O Olho de Hertzog”, um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.

Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de “O Olho de Hertzog”.


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O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho

Terça-feira, Fevereiro 23rd, 2010

Aqui está o “O Olho de Hertzog“, o último livro de João Paulo Borges Coelho, obra pela qual lhe foi atribuído o Prémio Leya. A entrega do prémio e o lançamento do livro decorrerão na próxima semana em Maputo, onde será apresentado por Gilberto Matusse. Presumo que nessa mesma altura será colocado à venda em Portugal. Dentro de alguns meses serão lançadas as edições angolana e brasileira. O livro – sobre o qual deixei aqui um breve parágrafo – é apaixonante. Para os habituais leitores de jpbc será obrigatório. E espero que venha a criar mais habituados.

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Literatura Moçambicana

Segunda-feira, Fevereiro 15th, 2010

(pressionando a imagem ela engrandece)

Transcrevo um texto publicado na última edição do jornal Savana (12.2.2010), da autoria de Jorge Oliveira actual secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos, e dedicado ao escritor Andes Chivangue. Deixo-o aqui como um documento, parece-me que uma futura abordagem ao panorama literário moçambicano desta década passará pela reflexão das concepções aqui em jogo, as explícitas e as denotadas.

A transcrição deste artigo, pelo seu evidente interesse para o conhecimento das dinâmicas ideais do “campo literário” moçambicano, obriga-me a uma nota explícita e absolutamente linear: há algum tempo o seu autor dedicou-me um texto que considerei irrespondível. Para minha salvaguarda, moral. Mas também porque, se eu bem posso analisar a situação – e foi algo de muito profundo que aprendi com aquela para mim muito desagradável situação -, sobre ele incide a razão histórica e sociológica: a sua proeminência nos campos literário e mediático moçambicanos é um facto, profundamente vinculado à realidade e, nesse sentido, absolutamente legitimada. Pelo contrário, qualquer opinião analítica (crítica) que eu possa ter tido (ou a ter, num futuro) é historica e sociologicamente, e como tal racionalmente, descabida. Um mero epifenómeno oriundo de um estrangeiro, no sentido não só de desprovido de poder locutório como também de dimensão émica, e nesse sentido de legitimidade.

Portanto a transcrição que aqui faço não procura o mínimo enfoque crítico. É apenas o reconhecimento de um documento de extremo valor testemunhal sobre as dinâmicas do mundo cultural (neste caso literário) moçambicano neste início do século. Como digo acima, para reflexão em investigações futuras.

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Ainda Guevara em África

Sábado, Fevereiro 13th, 2010

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: “Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos.” Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, “no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso”. Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento.” (pp. 209-210)


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GUEVARA E A FRELIMO, 1965

Terça-feira, Fevereiro 9th, 2010

Guevara despede-se de Marcelino dos Santos

Eduardo Mondlane com Ernesto Guevara

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.

Para a semana faz 45 anos que aconteceu.

Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.


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Sobre o Colonialismo (e o após-colonialismo): cromos e stickers

Segunda-feira, Fevereiro 1st, 2010

Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.

Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,

[imagem encontrada no Santa Nostalgia]

e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.

[imagem encontrada no Pena e Espada]

Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah  Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.

[imagem encontrada aqui]

[imagem encontrada aqui]

Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.

Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:

Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.

Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.

[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]

Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels,  mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar. (24).

E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):

Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)

Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.

[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]

Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.

[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]

Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.

[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]

Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?

São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.

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O perigo da monomania,

Sexta-feira, Janeiro 29th, 2010

coisa que em blog como este se veste de monotemática, impede-me de continuar a botar textos sobre o que aqueceu o ma-schamba nos últimos largos dias. Mas nas catacumbas dos comentários a discussão (*) continua. Acabo de deixar – por alturas do 80º comentário – o que noutro contexto seria um “post” dedicado ao racismo e a Portugal (e sua intelectualidade dita de “esquerda”). Ou, por outras palavras, dedicada aos alçapões do “obscurantismo” sectário de onde não ascende alguma da intelligentsia (minha) patrícia.

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Adenda: Leitora amiga queixou-se que abrir uma caixa de comentários com 80 itens é um processo moroso, apelando a que facilitássemos a leitura. Assim sendo copiei o comentário em causa e coloquei-o na caixa de comentários desta entrada, onde o acesso é mais rápido. Não querendo com isso encerrar a outra caixa, onde a discussão abrangia várias questões.

(*) Um reducionismo ma-schambístico deplorável. Pois ao mesmo tempo que se discutiu o conteúdo do “Caderno de Memórias Coloniais” continuam a chegar contributos e comentários para o texto “A “Casa do Capitão”, na baía de Inhambane”.

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