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E a propósito da entrada anterior vasculhei as prateleiras em busca de outros dicionários que transitem entre as línguas nacionais e o português. E só encontrei este Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990), ainda que tivesse ideia de possuir mais obras aparentadas.

Será que entre os leitores haverá conhecimento da existência de outros dicionários? E, sendo esse o caso, dar-se-ão ao trabalho de aqui deixar as indicações bibliográficas para que os possa eu adquirir?

Foi ontem apresentado o “Dicionário de Português-Gitonga / Gitonga-Português e Compêndio Gramatical“, obra da autoria de Amaral Bernardo Amaral, Sara Jona Laisse e Eugénio Nhacota. Ambicioso trabalho que se apresenta como desejando ser o “embrião dum futuro dicionário bilingue” de português e desta língua “falada pelo povo Tonga (Vatonga), que habita os territórios correspondentes aos distritos de Inhambane, Maxixe, Jangamo, Morrumbene, e com ramificações nos distritos de Massinga, Homoíne e Inharrime“. Bela oferta esta, uma edição da Câmara Municipal de Oeiras, realizada ao abrigo do Acordo de Geminação/Gemelagem entre Inhambane e Oeiras - prova que estes acordos sempre podem funcionar.

Coisas do sotaque


(Lumbo, Agosto de 2007)

Barraca (e linguística)

(Namaacha, Novembro de 2006)

Globalização e Linguística

(Namaacha, Novembro de 2006)

Conceptualização ouvida há pouco, neste manejar da língua que aqui dá azo a tantas novas conceptualizações: “lambe-botismo”.

Evolução da Língua 7

Está claro que hoje em dia os jogadores de futebol recepcionam a bola. Uns recepcionam-na melhor, outras recepcionam-na não tão bem.

Vendo os jogos com mais atenção há até alguns que recepcionam valentes cacetadas.

Alguns recepcionam grandes ordenados. Outros recepcionam ordenados mais modestos. Ao que consta bastantes jogadores de vários clubes têm as recepções em atraso.

Nota: agradeço aos amigos leitores os contributos para esta temática que aqui tenho recepcionado. E de antemão agradeço aqueles que recepcionarei.

Traduzir ícones. Leio Astérix desde antes de saber ler. Praticando a constante revisita. É-me encantadora esta recente jóia,

“Astérix e o Regresso dos Gauleses” promove-me feliz, pela leitura e por todo o vago antes que me devolve. Um extra-colecção assumido, pequenas histórias algumas ainda do tempo de Goscinny, outras do período (menor, é certo) de Uderzo solitário. Mas, atenção, é da lavra deste último uma Torre Eiffel afinal torre pombal de comunicações em Lutécia, digna de uma selecção asterixiana.


No mínimo são-me 35 anos, também de comunhão colectiva. Dezenas de livros, reedições e reedições, vários fascículos nas revistas semanais. Gerações de leitores apaixonados. Astérix é não só bigger than life, é bigger than history. Crenças e preces nesse panteão irmanado por Obelix, encantado por Panoramix, assustado por Assurancetourix, liderado por Abraracourcix, alimentado por Ordralfabétix, tutelado por Agecanonix. Todos estes sob o olhar de Toutatis.

Por tudo isso tanto me irrita esta desconsideração das Edições Asa, a falta de respeito pelos leitores amantes, esses seus clientes, seus viabilizadores. Com que direito a Asa entrega a tradução de um novo Astérix às senhoras Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira, as quais decidem, à revelia de uma tradição construída de leitura, re-nomear os heróis, veros ícones? Quem serão elas, de que alto nos olham, para nos impingir o chefe Matasétix, o bardo Cacofonix, o deus Tutatis, o peixeiro Oftalmologix, o velho Decanonix?

Está tão medíocre a Asa para querer, anacrónica, regressar aos tempos do Mosquito e do Papagaio? Dignissimos, mas no seu tempo! Vai-nos também oferecer o Tim-Tim com seu professor Girassol [seria Ventoínha? a memória trai-me], e um Milou de estranho nome [que também não me ocorre]?

Não tem a Asa ninguém capaz de tratar com a dignidade necessária um produto monstro como Astérix e os seus inúmeros leitores? Condenando a obra aos tratos poluentes de um saber suburbano, cujo espectro de humor se acantona no baixo nível televisivo?

Certo, tradução tem contexto, tempo e local. Mas já não é tempo disto. Nem local. Abaixo as Edições Asa.

Que o céu lhes caia na cabeça. Por Toutatis!!!

Evolução da Língua 5

(R. Goscinny & A. Uderzo, Astérix e o Regresso dos Gauleses, Edições Asa, 2004)

Evolução da Língua 4

Lembram-se do ostracizado “carbúnculo”, esse mero antraz promovido a Antrax? (é verdade, que será feito dessa terrível arma?)

Da Evolução da Língua 3

O Nuno Guerreiro notou: No mesmo Telejornal de sábado à noite referido acima, Judite de Sousa abriu com referências ao maremoto do sudoeste asiático, comentando imagens captadas “num ‘rizorte’ de luxo” (sic.). Uma referência óbvia à palavra inglesa “resort”, que em português se traduz habitualmente como “estância de férias”. Esta foi a primeira ocorrência que ouvi de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Mais um risquinho para as contas dos que continuam a anotar os pontapés na língua que o “tsunami” arrastou.”.
Uma delícia. Já agora alguém poderá fazer chegar este trecho à prestigiada jornalista ? Ou entrará ela em “vacanças” em algum “rizorte”?
Que pepineira de gente!

Isabel Pires de Lima e o português

Isabel Pires de Lima está muito bem aqui. [texto reproduzido abaixo]

Adenda: só lamento que não tenha referido o “meu” “blogard”. Pois creio, firmemente, que ser reconhecido como autor de um galicismo no português seria a minha (definitiva) glória.

Português Língua Bastarda.com
Por ISABEL PIRES DE LIMA
Público
Terça-feira, 04 de Janeiro de 2005

Na diversidade de opiniões que se constrói a democracia; é mesmo sua condição sine qua non. Ora, sendo eu cidadã de um país que vive em democracia e sendo deputada, isto é, eleita por um amplo leque de cidadãos, só posso estar atenta a essa diversidade e achar que todas os juízos merecem resposta, ao contrário do que pensam os autores do artigo Português-língua abastardada.com (Edite Prada e José Mário Costa), publicado neste jornal a 26 de Dezembro, motivado por um artigo que eu assinara dia 11. Aqui vai, pois, a merecida resposta.

Lamento que tenham respondido ao meu artigo restringindo o campo de análise do problema à variante europeia do português (PE), quando era bem claro que a reflexão em curso de âmbito sócio-linguístico se reportava ao património língua portuguesa (LP) lato sensu. Não tem cabimento, pois, entenderem que “nele se reduzem os problemas que temos com o uso da nossa variante da LP ao problema da crioulização”. Quem reduziu o campo de análise foram os senhores e lá saberão porquê. Talvez porque apenas lhes interesse o PE, na medida em que parece que o consideram passível de corporizar uma/a norma que seja instrumento para “defender uma plataforma comum, que nos permita situar o nosso discurso na panóplia que possibilita a criatividade linguística” e “comunicar em todos os espaços”. Não estará aqui contida uma nostalgia não tanto da norma quanto do estatuto central do PE como português “puro”, situado “à parte”, não contaminado, irradiador relativamente ao velho império?

Lamento ainda a dificuldade que exibiram em entender aquilo que vulgarmente é designado por uso metafórico da linguagem ao terem lido “crioulização” como “abastardamento”. De resto, essa é uma metáfora bastante vulgar, próxima de uma outra, a de “mestiçagem”, que Nuno Pacheco usa, num editorial do PÚBLICO do mesmo dia 11, no qual antecipa em três páginas, no privilegiado espaço do Editorial (página par), muito do que eu direi no artigo em causa (página ímpar), no qual aludia de modo identificado a anterior Editorial seu da mesma semana sobre assunto próximo.

Continuo a lamentar que não tenham percebido que o meu parágrafo de abertura se reportava a uma realidade histórico-cultural indiscutível, que teve o seu ponto culminante no século XVIII, com a emergência das línguas vernáculas e a morte definitiva do latim como língua de comunicação cultural, e tivessem daí deduzido que eu defendia a sua exclusão do sistema do ensino, assunto a que nunca aludi. Devo porém esclarecer que sempre defendi a sua manutenção nos cursos de LLM na FLUP, onde ensino há 30 anos, embora não esteja tão certa quanto os senhores de que os êxitos educativos da Finlândia tenham assim tanto a ver com o facto de ser mantido nos curricula…

Lamento também que tendo eu, por quatro vezes e em início de parágrafo, reiterado a necessidade da defesa da norma - e avançado até medidas para essa defesa, coisa que os senhores não fazem - e terminado reclamando a compatibilidade entre aceitação sem drama nacionalista da “crioulização” do português e da defesa da norma, tragam à colação, para atacar as minhas opiniões, erros de aplicação da norma do PE e os exibam com excessivo à-vontade não pedagógico para quem tem responsabilidades no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Ora este erro de análise (e certamente não a desonestidade intelectual) leva o leitor a associar esses erros dos portugueses europeus à movência da LP “abastardada” porventura pela tal “crioulização”, provocada, assim, por quem não está no centro, isto é, pelos “bastardos”, brancos e negros, de cá e de lá…

Concordo, pois, nem podia deixar de concordar sendo, como sou, além de deputada da Comissão Parlamentar de Educação, como fizeram o favor de lembrar, membro do CNE e professora catedrática de Literatura Portuguesa da UP, que não se pode nem se deve deixar de defender a norma. Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do “porque” de uso causal do “por que” interrogativo, distinção que os senhores não fazem no texto em causa. Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, “blog” ou “blogue”, “bloger” ou “bloguista” (exemplos a que não fiz referência no meu texto e que abusivamente fizeram crer meus numa envergonhada nota de rodapé). E porquê? Porque é só uma questão de tempo: nas suas primeiras obras Eça de Queirós grafava “champagne”, nas últimas “champanhe”… E para pensar que, coisa que não podemos fazer bem sem bom domínio da linguagem, as questões morfo-sintácticas importam muito, mas muito mais.

Concordo então que urge desencadear medidas inovadoras, insisto, no ensino da LP para evitar atentados à norma. Algumas enunciei-as no referido artigo e posso relembrá-las sinteticamente visto que não mereceram a atenção dos senhores: apostar na educação pré-escolar e básica; apostar numa formação dos professores de LP que valorize as pedagogias da leitura e dos discursos e na sua formação contínua; apostar na inseparabilidade entre ensino da língua e ensino da literatura. Tudo isto, claro, sem esquecer que a sociedade portuguesa hoje é, quer se queira quer não, multicultural e, esperemos, cada vez mais de informação. Ora não há nostalgias que consigam parar este processo…

Em conclusão, discordo da vossa convicção de que hoje o português é uma língua abastardada; ele é só, em todas as suas variantes, uma língua bastarda, como são todas enquanto vivas.

O que me separa dos senhores não é porventura o vosso maior amor à língua ou o vosso papel de mais eficientes guardiães da norma; é uma diferença ideológica face ao bem simbólico e patrimonial que a língua é.

Deputada do PS, professora universitária

Há por aí algum latinista?

Domingo à noite, da estante retiro o “A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno” [Georges Duby (coord.), D. Quixote, 1989]. Por lá um artigo de Umberto Eco, “As linhas e o labirinto: as estruturas do pensamento latino“. Começa assim:

Est modus in rebus: sunt certi denique fines
Quos ultra citraque nequit consistere recto

Estes versos de Horácio poderiam ser considerados um epítome do modus cogitandi latino.”

Mas os versos não são traduzidos, tal como todo o restante latim citado ou utilizado no artigo. E, peço desculpa, não leio latim. Certo, capta-se o argumento no texto mas perde-se o (tal) epítome. Há por aí algum latinista que me dê uma ajuda?

Ao deficit de compreensão somo-lhe a inquietação noite fora, o “qualquer coisa” que me ficou em falta. E fica-me ainda a irritação com esta (até comum) estratégia de distinção, tradutores afirmando-se sábios ao não traduzirem expressões citadas ou conceitos utilizados, dando-lhes estatuto de senso comum - como se o futuro leitor tenha obrigações (poliglotas) para entrar no distinto e reservado clube dos leitores dessa editora, no clube de clientes dessa editora. Sim “porque nós trabalhamos para gente especial, o nosso público-alvo é elite“.

Uma mísera estratégia de distinção que mais não é do que defeito de tradução, revisão e [maísculas] edição. Um tique de afirmação social, arrivismo sociológico presente em gentes académicas, tão comum na sua linguagem oral, recorrente na escrita, mas imperdoável na edição.

E valerá a pena protestar? Escrever ao editor? Pois um livro editado em 1989 ainda é protestável? Não é já passado longínquo, o protesto então um anacronismo? Eis como um detalhe me levanta a questão crucial, quando começa o presente?

E valerá a pena protestar? Não cairá em saco roto? Há meses aqui comprei um livrito de I. Wallerstein, “O Albatroz Racista” (Afrontamento/Centro de Estudos Sociais da U.C.) [o livro é o texto de uma conferência]. E lá estava o mesmo (recorrente) tique. Neste caso os conceitos ou títulos em alemão (ui, que signo de prestígio, o alemão é tão fino) não são traduzidos. Ou são explicados no texto pelo próprio autor [ex. “das andere Osterreich, essa outra Áustria” (6)] ou assim ficam [ex. “Paul Lazarsfeld, cuja obra Die Arbeitslosen von Marienthal…”(6), “deste Methodenstreit” (28), “a história wie es eigentlich gewesen ist” (28)]. Ok, os iniciados reconhecem ou compreendem - mas porquê tanta relutância numa mera nota de rodapé, feita tradução/contextualização?

Neste último caso enviei um mail, educada crítica à tradução. Nem um “reply” a acusar. Nem um “vá bugiar” ou “fuck you” (perdão, não sei construir sobre “futere” - é o termo correcto? - nem conheço o equivalente em alemão ou em outro qualquer sânscrito de sábio). Não sou eu um cliente quando compro um livro? Ou é com a livraria que devo ir ter, protestando a qualidade das traduções?

ADENDA: A Laurindinha do Abrigo da Pastora aprestou-se a resolver-me a dúvida (em baixo, nos comentários).

Em todas as coisas há um meio termo; existem, afinal, limites definidos, além ou aquém dos quais não se pode manter o bem.”

Os meus mais que agradecimentos. Sinto-me um ibero feito cidadão. Um vero Flávio.