Acabo de receber de leitor amigo este artigo (“A Morte do Maximbombo“, publicado originalmente na revista Ilustração Portuguesa, em 1913) destinado a aqui ser reproduzido. Através dele se poderá abordar a questão da origem da palavra “maximbombo” – confesso a minha surpresa, nunca reflectira no assunto mas sempre a atribuíra a uma utilização do inglês (de machine pump) em contextos africanos. Afinal assim não será essa a sua origem.
Reproduzido da revista Ilustração Portuguesa n.º 386, 17.07.1913
Leitora amiga do ma-schamba acaba de me enviar o Guia Prático da Nova Ortografia. Para que eu me prepare – e tenho até 2012.
Selecciono [seleciono] este exemplo (que consta na página 6) do dito documento. Atentem (e muito em particular os leitores que praticam os sotaques portugueses): na coluna da direita está escrito, e envolto a vermelho: “o que não se pronuncia não se escreve“. Portanto, a partir de agora não se diz / não se escreve “colecção“/”coleccionador” mas sim “coleção“/”colecionador“; idem para “direcção“ / “direccional” que passa a “direção” / “direcional“; idem para “leccionar” / “leccionação” que passa a “lecionação” / “lecionação“. Escrever-se-á “ação” (não “acção“), “correção” (não “correcção“), “extração” (não “extracção“), “fração” (“fracção“), ”proteção” (não “protecção“), “reação” (não “reacção“), “seleção” (não “selecção“), “ato” (não “acto“), “ator” (“actor“), “atual” (não “actual“), “afeto” (não “afecto“), “arquitetura” (não “arquitectura“), “coletivo” (não “colectivo“), “detetar” (não “detectar“), “direto” (não “directo“), “diretor” (não “director“), “letivo” (não “lectivo“), “objetivo” (não “objectivo“), “projeto” (não “projecto“).
O exmo. e caro Carlos Gil mandou uma mensagem tipo APB (all points bulletin) alertando para o trabalho, publicado num blogue na internet chamado Moçambicanismos, pelo Sr. Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard, que ali se descreve como tradutor e professor, 51 anos, residente na bela e explosiva cidade de Chimoio (não sei o nome antigo, JPT, ajuda!) desde 2006 (diz que esteve em Moçambique entre 1997 e 1999).
O trabalho que eu vi não é só um trabalho de amor: está excelentemente organizado e até tem método na loucura, ou seja, o autor descreve uma metodologia algo rigorosa para chegar ao que ele considera termos moçambicanos.
Um exemplo, desavergonhadamente copiado:
baneane n. m. 1. Hist. comerciante indiano das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano
O dicionário Porto Editora regista a palavra, só no plural [?]. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende regista as variantes baniã e baniane. Ambas as obras dizem que a palavra vem do sânscrito, segundo Moçambicanismos, através do gujarati vaniyan, plural de vaniya, e, segundo o dicionário Porto Editora, através do hindu baniyan. A palavra banian também existe em inglês e o Concise Oxford concorda com a origem gujarati da palavra, de vaniyo “homem de casta de comerciantes”.
E mais um:
maningue adj. e adv. Fam. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.
E um que me surpreendeu:
monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mweneye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.
Mas isto são apenas pérolas do espólio.
Para meu choque, esta jóia da cultura internética “só” teve quatro mil visitantes em três anos, o que é absolutamente injusto face ao que ali está, que é um tesouro daquela miscelânia linguística que se foi construindo pelas pessoas ao longo das décadas e dos séculos, desde que o Sr. Vasco da Gama e os seus seguidores ocuparam aquele pequeno porta-aviões de apoio às viagens para as Índias que se chama Ilha de Moçambique, há 515 anos (e cuja fortaleza aparece lá em cima).
Abusando a linguagem do dicionário, exorto os exmos leitores a darem uma vista de olhos a este trabalho ímpar de Vítor Lindegaard, dizendo que aquilo está maningue nice. Mesmo.
A AL preocupou-se com O Rigor dos Números e pergunta quanto é um bilião. Pois para mim sempre significou um milhão de milhões, assim aprendi e assim comanda a lógica – um milhão é um milhar de milhares, um bilião é um milhão de milhões, não tem nada que pensar, nem que opinar. Nem que “acordar”? Isso já não direi pois no Brasil o valor é outro, com toda a ilógica. Mas como temos todos que escrever da mesma forma para que o “português” (a nossa querida Pátria, nunca esquecer) seja “grande” e “relevante” no mundo, para que o português seja bilião … então este bilião deverá significar – o que os brasileiros disserem. Tá légal, meu bêm?!
Mas talvez não. O leitor do ma-schamba Francisco Belard simpaticamente enviou-nos a informação, a qual muito agradeço, de que deveríamos tentar tirar as dúvidas no “A Folha. Boletim da Língua Portuguesa nas Instituições Europeias”, produzido pelos tradutores portugueses nas instituições europeias. No número aqui ligado (de 2004) está um texto de Paulo Correia “Em torno do bilião” que nos garante que poderemos (face ao francês e ao inglês) continuar a chamar “bilião” ao milhão de milhões. É, pelo menos, essa a prática daquele grupo profissional supra-especializado e conhecedor. Pode ser que Bruxelas nos valha!
Mas nunca fiando, mais vale não sabermos mesmo quanto significa o tal bilhão. Para que brilhe alto a nossa gesta.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Ainda para mais pontapeando essa “saudade” que o pobre essencialismo português quis fazer sua. Está aqui tudo o que haveria a dizer sobre a tralha patrioteira a propósito do acordo ortográfico. Essa pacovice que impediu a verdadeira oposição. Ilustrada.
(transcrevo o poema pois a reprodução dificulta a leitura).
Em Novembro de 2007 aqui deixei uma entrada dedicada ao Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990). Na sequência de questões deixadas nessa caixa de comentários vem agora o leitor Valeriano Maia simpaticamente informar-nos sobre a possibilidade de o adquirir em Portugal, bem como ao Dicionário Português-Macua.
Recordo que o dicionário “Macua-Português” foi editado (1990) pelo Instituto de Investigação Científica e Tropical (Lisboa), sendo provável que se encontre nos depósitos da instituição. Quanto ao ”Português-Macua” foi editado (sem indicação de data) pela Sociedade Missionária Portuguesa, pelo que através desta ou de instituições católicas deverá ser possível obtê-lo.
3. Sobre os cursos de escrita criativa de Luís Carmelo pouco sei. Ouvi que, hoje em dia, os realiza via internet através do Instituto Camões – e que são muito interessantes.
A vertigem da ascensão social é quase-universal. Nisso há estratégias de distinção sociológica irritantes, outras são meramente ridículas. As linguísticas são sempre destas últimas (no espectro luso vai das velhas ”vacanças” dos imigrantes analfabetos à actual ”deslocalização” dos netos de malteses agora licenciados, em universidades privadas claro). E por cá muito típicas de algum academismo, sempre lesto na assimilação à anglofonia (onde não?). E muito sublinhadas, mas não exclusivas, no “pidgin english” dos actuais operários das comunicações (hoje ditos ”informáticos”).
A fotografia, qual ensaio de sociologia francesa, tudo diz: a “casa do telégrafo” da UEM, assim ornamentada.
Acabo de encontrar em alfarrabista de rua esta revista ”Memórias do Instituto de Investigação Científica de Moçambique” (vol. 3, 1961, Lourenço Marques, 172 pp), a qual consta exclusivamente do “Dicionário de Português-Chi-yao e Chi-yho-Português“, obra de autoria de Miguel José Viana.
O autor foi funcionário administrativo, tendo ingressado em 1942 no serviço do Niassa – os Ajauas habitam essa província, bem como as regiões limítrofes do Malawi e Tanzânia. De 1943 a 1948 foi secretário de administração no posto de Muembe: “Naquele deserto … e porque o serviço no posto era muito pouco, para não morrer de pasmo tomei a resolução de fazer o presente trabalho, servindo-me do inquérito directo junto dos pretos mais inteligentes, que, por sererm Ajauas puros, me deram óptimas informações” (1-2)
Refere a influência que teve de Santos Júnior, ao tempo chefe da Missão Antropológica de Moçambique, que o apoiou em termos de linguística e etnografia. Santos Júnior tê-lo-á incentivado a pesquisas etnográficas, e nesse sentido Viana veio a publicar “Da Tatuagem Nembo entre os Wa-Yao” (Boletim Geral do Ultramar, nº 270, Dezembro 1947).
O Savana tem um portal, ainda em fase experimental – como avisa Carlos Serra. Talvez por isso não carrega todo o conteúdo do semanário. Espero que o venha a fazer, pelo menos as colunas de opinião, até porque o semanário vive bastante dos seus colunistas. Saudável inovação (já aqui resmunguei contra a indiferença electrónica do jornal).
Mas esta referência liga-se ao último jornal (25 de Julho), um vero documento onde, para além da actualidade noticiosa que lhe faz títulos, habita um manancial de posições e temas cruciais, e que denotam o ambiente intelectual no país. Um exemplar para guardar, para revisão futura. (E por isso mesmo a merecer perenidade informática). Deixo um rápido apanhado, tamanho o meu fascínio na sua leitura:
1. A valorização da reportagem no panorama jornalístico moçambicano, dimensão rara (por vários motivos: de possibilidades económicas, de escola, de hierarquia de importância atribuída a temáticas e locutores). Através da republicação das belas peças de Fernando Lima (texto) e Naita Ussene (fotografia) que valeram ao primeiro ser premiado no Prémio Jornalista Africano 2008 CNN Multichoice.
2. Uma reflexão sobre o jornalismo em África. O relato que Lima faz – na sua coluna “Espinhos da Micaia” – (com a lisura de um agraciado) da cerimónia da entrega desses prémios, ocorrida no Gana, sob os auspícios de John Kufuor. Elucidativa da concepção politicamente dominante do estatuto (e da natureza?) atribuída aos jornalistas … Pois na forma da cerimónia se demonstra que, sob o agraciamento, radica (ainda?) uma ríspida desvalorização, da actividade e dos seus agentes.
[E isso chama a atenção para as condições de exercício do jornalismo. Não se prendem apenas com as dimensões políticas referidas acima. O Mail & Guardian dedica um suplemento a estes prémios (sem ligação electrónica). Nele questiona anteriores premiados sobre o efeito dos prémios nas suas carreiras e as respostas ecoam um rol de novos projectos surgidos, de como o prémio é um trampolim - pessoal mas também colectivo. Bem diferente é o testemunho do jornalista moçambicano premiado em edição anterior, centrado na melhoria das suas condições de vida. Numa leitura imediatista é empobrecedor. Mas l(v)endo bem ali está uma tradução das difíceis condições (económicas) de exercício profissional, essas que o leitor apressado esquece aquando critica o produto que lê]
(voltando ao Savana).
3. Para uma leitura política da actualidade é ilustrador do meio intelectual moçambicano o quase diálogo entre os cronistas habituais. Por um lado Afonso dos Santos remata a sua “Lide Lídima” com “A fase actual do neocolonialismo é, por conseguinte, a fase historicamente necessária para o desenvolvimento da luta pela segunda independência“, pensamento teleológico que continua estruturante, ainda que não tão explicitado. Na página ao lado, no “A Talho de Foice”, Machado da Graça desmonta criticamente o discurso anti-marxista do secretário-geral da Frelimo, que reclamou a unicidade nacional sob a égide do partido – na prática ecoando uma ideologia de frente de libertação.
4. Um texto de crucial importância, a exigir continuidade, é o de David Aloni, “Toponímia e a questão ortográfica“. Cheio de sub-texto, e não só porque em ultrapassagem de outras discussões ortográficas. Um ponto subjacente, e que é constante na análise da realidade moçambicana: o assunto é a grafia da língua nianja (cinyanja) e Aloni afirma a sua legitimidade em abordar o assunto dado que é originário (falante) e que não foi “corrompido” [meu termo] pois nunca foi assimilado. É claro que tudo isso lhe dará competências linguísticas de utente, mas o que é interessante é encontrar até num assunto aparentemente pacífico a reclamação de diferentes graus de legitimidade para opinar segundo critérios histórico-ideológicos. Um traço constante aqui.
É muito interessante assistir à sua crítica das formas “aportuguesadas” (acentuação, inutilização dos k, w, y, agas mudos, etc) da grafia da língua, que vão entrando em vigor. Não sou linguista, não sei da justificação para tais distinções. Sempre as vi como uma recusa do “português”, nunca percebi porque se deve grafar com K e não com C, com W e não U ou V, com Y e não com I. Nunca entendi por que é que essas grafias são mais “fiéis”.
Mas mais do que isso Aloni levanta duas questões: uma, imediata, a da fixação e divulgação normativa das línguas moçambicanas. Basta consultar diferentes documentos e textos académicos para encontrar diversas grafias, até para a própria denominação das línguas. Uma outra, a das modalidades do seu ensino alargado. E é uma pena que um texto destes, e suas preocupações, se esqueça no jornal da semana passada [para o portal, já!].
5. Finalmente, um texto longo de António Cabrita “Porque lêem menos e trabalham menos os africanos?”, em diálogo com texto de Gustavo Mavie sobre a indolência moçambicana, já criticado no Nkhululeko. O texto é muito longo, até sinuoso, e resumi-lo é traí-lo. Cabrita encontra uma distinção entre a ética laboral europeia e africana no seio dos diversos exemplos assumidos (entre outros, Heidegger no norte, Mohammed Ali no sul). Não se restringe a isso, envereda por explicações de cariz antropológico muitissimo discutíveis, mas legítimas (aliás, com recurso a bibliografia sufragada), e por um conjunto de afirmações sobre a vida intelectual e educativa na Europa que me parecem forçadíssimas. Mas o interessante é enquadrá-lo no ambiente intelectual dominante. Pois o texto é radica num catolicismo histórico, nele encontramos a dignidade, a competência, o caminho correcto como alcançáveis através da aceitação e perseguição dos bons exemplos, dos grandes vultos intelectuais. Da vida dos santos, como sempre pregou a Igreja Católica.
Enfim, justificado o agrado pela edição que resumo. A pacífica articulação, nada escatológica, destas teleologias. A presença do sub-texto constante. Um registo fascinante de um grupo de pensadores sobre um país (fascinante ele próprio, já agora).
Hoje, sexta-feira, é dia de Savana. Não vou perder … Espero que mais um exemplar para o dossier.
E a propósito da entrada anterior vasculhei as prateleiras em busca de outros dicionários que transitem entre as línguas nacionais e o português. E só encontrei este Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990), ainda que tivesse ideia de possuir mais obras aparentadas.
Será que entre os leitores haverá conhecimento da existência de outros dicionários? E, sendo esse o caso, dar-se-ão ao trabalho de aqui deixar as indicações bibliográficas para que os possa eu adquirir?
Foi ontem apresentado o “Dicionário de Português-Gitonga / Gitonga-Português e Compêndio Gramatical“, obra da autoria de Amaral Bernardo Amaral, Sara Jona Laisse e Eugénio Nhacota. Ambicioso trabalho que se apresenta como desejando ser o “embrião dum futuro dicionário bilingue” de português e desta língua “falada pelo povo Tonga (Vatonga), que habita os territórios correspondentes aos distritos de Inhambane, Maxixe, Jangamo, Morrumbene, e com ramificações nos distritos de Massinga, Homoíne e Inharrime“. Bela oferta esta, uma edição da Câmara Municipal de Oeiras, realizada ao abrigo do Acordo de Geminação/Gemelagem entre Inhambane e Oeiras – prova que estes acordos sempre podem funcionar.
Alfarrabistas de Maputo: Av. Mao-Tse-Tung, ao Café Estoril.
Ruy Duarte de Carvalho, A Decisão da Idade, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1977, 3ª edição [40 meticais]
Venho de um sul
vim de leste dimensionar a noite em gestos largos que inventei no sul pastoreando mulolas e anharas claras como coxas recordadas em Maio.
Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes confundidos na cor da crosta acúlea de um negro chão elaborado em brasa.
Paulus Guerdes (coord.), A Numeração em Moçambique. Contribuição para uma Reflexão Sobre Cultura, Língua e Educação Matemática, Maputo, Insituto Superior Pedagógico, 1993 [50 meticais]
[Numerais na língua Makonde - I (M. Viegas Guerreiro), A contagem entre os Makonde (M. Viegas Guerreiro), Numerais na língua Makonde - II (E. Mpalume & M. Mandumbwe), Numerais na língua Yao (Miguel Viana), A contagem entre os Yao (Manuel Amaral), Numerais na língua Nyanja (Missionários da Companhia de Jesus), Sentido numérico Cheua (A. Rita-Ferreira), Numerais na língua Nyungwe (Victor Courtois), Numerais em Makhuwa-Lóhmé, Cóti e Árabe (António Pires Prata), Numerais na língua Sena (J. Torrend), Numerais na língua Shona (Ndau) (D. Dale), Numerais na língua Tshwa (J.A. Person), Numerais na língua Chope (Luís Feliciano dos Santos), Numerais na língua Tonga e o "sentido matemático" (Henri Junod), Numerais na língua Changana (Armando Ribeiro), Numerais em Tsonga (Changana) (Bento Sitoe), Numerais na língua Ronga (José Quintão), Numerais na língua Swazi (D. Ziervogel), Numerais na língua Zulu (Clement Doke). E entre vários outros textos analíticos ainda de salientar Métodos Populares de Contagem em Moçambique (Abdulcarimo Ismael & Evaristo Uaila)]
Está claro que hoje em dia os jogadores de futebol recepcionam a bola. Uns recepcionam-na melhor, outras recepcionam-na não tão bem.
Vendo os jogos com mais atenção há até alguns que recepcionam valentes cacetadas.
Alguns recepcionam grandes ordenados. Outros recepcionam ordenados mais modestos. Ao que consta bastantes jogadores de vários clubes têm as recepções em atraso.
Nota: agradeço aos amigos leitores os contributos para esta temática que aqui tenho recepcionado. E de antemão agradeço aqueles que recepcionarei.
Traduzir ícones. Leio Astérix desde antes de saber ler. Praticando a constante revisita. É-me encantadora esta recente jóia,
“Astérix e o Regresso dos Gauleses” promove-me feliz, pela leitura e por todo o vago antes que me devolve. Um extra-colecção assumido, pequenas histórias algumas ainda do tempo de Goscinny, outras do período (menor, é certo) de Uderzo solitário. Mas, atenção, é da lavra deste último uma Torre Eiffel afinal torre pombal de comunicações em Lutécia, digna de uma selecção asterixiana.
No mínimo são-me 35 anos, também de comunhão colectiva. Dezenas de livros, reedições e reedições, vários fascículos nas revistas semanais. Gerações de leitores apaixonados. Astérix é não só bigger than life, é bigger than history. Crenças e preces nesse panteão irmanado por Obelix, encantado por Panoramix, assustado por Assurancetourix, liderado por Abraracourcix, alimentado por Ordralfabétix, tutelado por Agecanonix. Todos estes sob o olhar de Toutatis.
Por tudo isso tanto me irrita esta desconsideração das Edições Asa, a falta de respeito pelos leitores amantes, esses seus clientes, seus viabilizadores. Com que direito a Asa entrega a tradução de um novo Astérix às senhoras Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira, as quais decidem, à revelia de uma tradição construída de leitura, re-nomear os heróis, veros ícones? Quem serão elas, de que alto nos olham, para nos impingir o chefe Matasétix, o bardo Cacofonix, o deus Tutatis, o peixeiro Oftalmologix, o velho Decanonix?
Está tão medíocre a Asa para querer, anacrónica, regressar aos tempos do Mosquito e do Papagaio? Dignissimos, mas no seu tempo! Vai-nos também oferecer o Tim-Tim com seu professor Girassol [seria Ventoínha? a memória trai-me], e um Milou de estranho nome [que também não me ocorre]?
Não tem a Asa ninguém capaz de tratar com a dignidade necessária um produto monstro como Astérix e os seus inúmeros leitores? Condenando a obra aos tratos poluentes de um saber suburbano, cujo espectro de humor se acantona no baixo nível televisivo?
Certo, tradução tem contexto, tempo e local. Mas já não é tempo disto. Nem local. Abaixo as Edições Asa.
Isabel Pires de Lima está muito bem aqui. [texto reproduzido abaixo]
Adenda: só lamento que não tenha referido o “meu” “blogard”. Pois creio, firmemente, que ser reconhecido como autor de um galicismo no português seria a minha (definitiva) glória.
Português Língua Bastarda.com
Por ISABEL PIRES DE LIMA
Público
Terça-feira, 04 de Janeiro de 2005
Na diversidade de opiniões que se constrói a democracia; é mesmo sua condição sine qua non. Ora, sendo eu cidadã de um país que vive em democracia e sendo deputada, isto é, eleita por um amplo leque de cidadãos, só posso estar atenta a essa diversidade e achar que todas os juízos merecem resposta, ao contrário do que pensam os autores do artigo Português-língua abastardada.com (Edite Prada e José Mário Costa), publicado neste jornal a 26 de Dezembro, motivado por um artigo que eu assinara dia 11. Aqui vai, pois, a merecida resposta.
Lamento que tenham respondido ao meu artigo restringindo o campo de análise do problema à variante europeia do português (PE), quando era bem claro que a reflexão em curso de âmbito sócio-linguístico se reportava ao património língua portuguesa (LP) lato sensu. Não tem cabimento, pois, entenderem que “nele se reduzem os problemas que temos com o uso da nossa variante da LP ao problema da crioulização”. Quem reduziu o campo de análise foram os senhores e lá saberão porquê. Talvez porque apenas lhes interesse o PE, na medida em que parece que o consideram passível de corporizar uma/a norma que seja instrumento para “defender uma plataforma comum, que nos permita situar o nosso discurso na panóplia que possibilita a criatividade linguística” e “comunicar em todos os espaços”. Não estará aqui contida uma nostalgia não tanto da norma quanto do estatuto central do PE como português “puro”, situado “à parte”, não contaminado, irradiador relativamente ao velho império?
Lamento ainda a dificuldade que exibiram em entender aquilo que vulgarmente é designado por uso metafórico da linguagem ao terem lido “crioulização” como “abastardamento”. De resto, essa é uma metáfora bastante vulgar, próxima de uma outra, a de “mestiçagem”, que Nuno Pacheco usa, num editorial do PÚBLICO do mesmo dia 11, no qual antecipa em três páginas, no privilegiado espaço do Editorial (página par), muito do que eu direi no artigo em causa (página ímpar), no qual aludia de modo identificado a anterior Editorial seu da mesma semana sobre assunto próximo.
Continuo a lamentar que não tenham percebido que o meu parágrafo de abertura se reportava a uma realidade histórico-cultural indiscutível, que teve o seu ponto culminante no século XVIII, com a emergência das línguas vernáculas e a morte definitiva do latim como língua de comunicação cultural, e tivessem daí deduzido que eu defendia a sua exclusão do sistema do ensino, assunto a que nunca aludi. Devo porém esclarecer que sempre defendi a sua manutenção nos cursos de LLM na FLUP, onde ensino há 30 anos, embora não esteja tão certa quanto os senhores de que os êxitos educativos da Finlândia tenham assim tanto a ver com o facto de ser mantido nos curricula…
Lamento também que tendo eu, por quatro vezes e em início de parágrafo, reiterado a necessidade da defesa da norma – e avançado até medidas para essa defesa, coisa que os senhores não fazem – e terminado reclamando a compatibilidade entre aceitação sem drama nacionalista da “crioulização” do português e da defesa da norma, tragam à colação, para atacar as minhas opiniões, erros de aplicação da norma do PE e os exibam com excessivo à-vontade não pedagógico para quem tem responsabilidades no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Ora este erro de análise (e certamente não a desonestidade intelectual) leva o leitor a associar esses erros dos portugueses europeus à movência da LP “abastardada” porventura pela tal “crioulização”, provocada, assim, por quem não está no centro, isto é, pelos “bastardos”, brancos e negros, de cá e de lá…
Concordo, pois, nem podia deixar de concordar sendo, como sou, além de deputada da Comissão Parlamentar de Educação, como fizeram o favor de lembrar, membro do CNE e professora catedrática de Literatura Portuguesa da UP, que não se pode nem se deve deixar de defender a norma. Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do “porque” de uso causal do “por que” interrogativo, distinção que os senhores não fazem no texto em causa. Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, “blog” ou “blogue”, “bloger” ou “bloguista” (exemplos a que não fiz referência no meu texto e que abusivamente fizeram crer meus numa envergonhada nota de rodapé). E porquê? Porque é só uma questão de tempo: nas suas primeiras obras Eça de Queirós grafava “champagne”, nas últimas “champanhe”… E para pensar que, coisa que não podemos fazer bem sem bom domínio da linguagem, as questões morfo-sintácticas importam muito, mas muito mais.
Concordo então que urge desencadear medidas inovadoras, insisto, no ensino da LP para evitar atentados à norma. Algumas enunciei-as no referido artigo e posso relembrá-las sinteticamente visto que não mereceram a atenção dos senhores: apostar na educação pré-escolar e básica; apostar numa formação dos professores de LP que valorize as pedagogias da leitura e dos discursos e na sua formação contínua; apostar na inseparabilidade entre ensino da língua e ensino da literatura. Tudo isto, claro, sem esquecer que a sociedade portuguesa hoje é, quer se queira quer não, multicultural e, esperemos, cada vez mais de informação. Ora não há nostalgias que consigam parar este processo…
Em conclusão, discordo da vossa convicção de que hoje o português é uma língua abastardada; ele é só, em todas as suas variantes, uma língua bastarda, como são todas enquanto vivas.
O que me separa dos senhores não é porventura o vosso maior amor à língua ou o vosso papel de mais eficientes guardiães da norma; é uma diferença ideológica face ao bem simbólico e patrimonial que a língua é.
Domingo à noite, da estante retiro o “A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno” [Georges Duby (coord.), D. Quixote, 1989]. Por lá um artigo de Umberto Eco, “As linhas e o labirinto: as estruturas do pensamento latino“. Começa assim:
“Est modus in rebus: sunt certi denique fines Quos ultra citraque nequit consistere recto
Estes versos de Horácio poderiam ser considerados um epítome do modus cogitandi latino.”
Mas os versos não são traduzidos, tal como todo o restante latim citado ou utilizado no artigo. E, peço desculpa, não leio latim. Certo, capta-se o argumento no texto mas perde-se o (tal) epítome. Há por aí algum latinista que me dê uma ajuda?
Ao deficit de compreensão somo-lhe a inquietação noite fora, o “qualquer coisa” que me ficou em falta. E fica-me ainda a irritação com esta (até comum) estratégia de distinção, tradutores afirmando-se sábios ao não traduzirem expressões citadas ou conceitos utilizados, dando-lhes estatuto de senso comum – como se o futuro leitor tenha obrigações (poliglotas) para entrar no distinto e reservado clube dos leitores dessa editora, no clube de clientes dessa editora. Sim “porque nós trabalhamos para gente especial, o nosso público-alvo é elite“.
Uma mísera estratégia de distinção que mais não é do que defeito de tradução, revisão e [maísculas] edição. Um tique de afirmação social, arrivismo sociológico presente em gentes académicas, tão comum na sua linguagem oral, recorrente na escrita, mas imperdoável na edição.
E valerá a pena protestar? Escrever ao editor? Pois um livro editado em 1989 ainda é protestável? Não é já passado longínquo, o protesto então um anacronismo? Eis como um detalhe me levanta a questão crucial, quando começa o presente?
E valerá a pena protestar? Não cairá em saco roto? Há meses aqui comprei um livrito de I. Wallerstein, “O Albatroz Racista” (Afrontamento/Centro de Estudos Sociais da U.C.) [o livro é o texto de uma conferência]. E lá estava o mesmo (recorrente) tique. Neste caso os conceitos ou títulos em alemão (ui, que signo de prestígio, o alemão é tão fino) não são traduzidos. Ou são explicados no texto pelo próprio autor [ex. "das andere Osterreich, essa outra Áustria" (6)] ou assim ficam [ex. "Paul Lazarsfeld, cuja obra Die Arbeitslosen von Marienthal..."(6), "deste Methodenstreit" (28), "a história wie es eigentlich gewesen ist" (28)]. Ok, os iniciados reconhecem ou compreendem – mas porquê tanta relutância numa mera nota de rodapé, feita tradução/contextualização?
Neste último caso enviei um mail, educada crítica à tradução. Nem um “reply” a acusar. Nem um “vá bugiar” ou “fuck you” (perdão, não sei construir sobre “futere” – é o termo correcto? – nem conheço o equivalente em alemão ou em outro qualquer sânscrito de sábio). Não sou eu um cliente quando compro um livro? Ou é com a livraria que devo ir ter, protestando a qualidade das traduções?
ADENDA: A Laurindinha do Abrigo da Pastora aprestou-se a resolver-me a dúvida (em baixo, nos comentários).
“Em todas as coisas há um meio termo; existem, afinal, limites definidos, além ou aquém dos quais não se pode manter o bem.”
Os meus mais que agradecimentos. Sinto-me um ibero feito cidadão. Um vero Flávio.