No rádio soa um fado, na sala ao lado canta um periquito. E, sem o notar, vejo-me em Lisboa.
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“…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…” (R. Nassar)
Março 15th, 2010 — jpt
Março 5th, 2010 — jpt
O Dia das Caricaturas de Maomé no Savana.
À tarde o Nuno telefonou-me: “O Kok está cercado no Savana …”. Meti-me logo no Musso. Lá chegado encontrei uns cento e tal exaltados. Da malta … o Jorge Ramos (e o Luis Sá, da Lusa, também como se a trabalhar). No portão, a representar os jornalistas e a apelar à calma popular, o Leandro Paul. Lá dentro, com o Kok, estava o Izidine. Depois, acalmada a cena, fomos beber uns copos aos CFM. Vou para lá agora, jô.
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Março 3rd, 2010 — jpt
Fevereiro 26th, 2010 — jpt
Fevereiro 25th, 2010 — Che Guevara, jpt
Morreu o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, preso político. V. dirá que não o conhecia, que nunca dele tinha ouvido ou lido. E eu acredito. V. dirá que não é nisto em que acredita, nem isso que sonha. E eu acredito. Mas quando V. me entra sala de aula dentro, carregando a efígie de Ernesto Guevara, na t-shirt, no emblema, na boina, até – por raras vezes - tatuada, eu encho-me de repugnância. Perceba V., talvez agora, quando lhe peço para ir ler sobre Guevara, sobre os guevaristas, sobre o que logo fizeram, sobre o que continuam a fazer. Perceba V. que essa t-shirt, esse emblema, essa tatuagem, querem dizer e disseram exactamente o contrário do que V. pensa. Perceba V. que esses guevaristas que V. ouve, que V. respeita, o tratarão, se V. continuar a ser o que parece ser, como trataram todos os que antecederam este Orlando Zapata Tamayo e todos os que lhe sucederão. Perceba V., e isso perceba bem, que também tem um guevara dentro de si. Pois todos temos a besta dentro de nós. Só precisamos de com ela ter cuidado, controlá-la. Assassiná-la.
Por falar nisso, caro aluno, rasgue essa merda de t-shirt. Não vá algum pobre miserável recuperá-la do lixo quando dela V. se libertar. Quando V. crescer. Livre. E rasgue, de vez, o respeito que possa ter por quem lhe canta guevarismos.
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Fevereiro 23rd, 2010 — jpt
Janeiro 31st, 2010 — jpt
Janeiro 21st, 2010 — Leituras, Lev Tolstoi, jpt
Nunca percebi o hábito corrente (e muito vísivel) de transportar livros grandes (muitas vezes intitulados best-sellers) para serem lidos nas férias. Sempre me pareceu que a ventania arenosa, as cíclicas idas a banhos, as caminhadas desentorpecedoras, as cervejas muitas, as besuntadelas de creme protector, o apelo das crianças e os dos vendedores ambulantes, o “esplanadismo”, uma-que-outra beleza que passa, enfim um não sei quantas coisas que vão acontecendo nesses feriados, essa estafa de estar em férias, implicam que o pobre leitor vai perdendo o fio à meada literária (presumindo que esta existe), confundindo personagens, esquecendo tramas, trocando episódios, derivando pensamentos, tudo aquilo que presumo se vá acumulando nas centenas de páginas quando agregadas em monovolume. E já nem falo do peso do livro, a transportar no seio de toda a tralha inútil que acompanha o veraneante.
Em assim sendo para mim as férias são o momento de ler pequenos textos, o sempre temido livro de poesia, os mais que amados contos curtos, até a novela, as crónicas. Coisas de andar na mão, até no bolso, próprio ou no da mochila, de se ler aos bocados com vagares. E até, ao sol ou às estrelas, de ficar a ruminar algo que se acabou de acabar, fruir. Sem ficar para o dia seguinte …
Vem tudo isto a propósito da recente ida a Inhambane, mais exactamente à praia de Barra. Onde encetei o saco por este Tolstoi (A Morte de Ivan Ilitch, Quasi, 2008, tradução de Adolfo Casais Monteiro).
Para quem não leu resumo que o entretanto falecido Ivan Ilitch é um homem de qualidade, juiz competente, cumpridor de obrigações profissionais e sociais. Certo é que o seu mimetismo mundano afirma o seu desejo de aceitação e, até, de ascensão social. E nesses passos, distraidamente, acaba por esvaziar a sua vida afectiva e espiritual, por não se cumprir como pessoa. Ainda assim caminha sereno pela vida, recompensando-se em pequenos prazeres e rotina laboral. Subitamente, aos ainda jovens 45 anos, cai doente (“um rim flutuante”, dir-lhe-ão os médicos) e morre, após breves três meses de terrível agonia (muito realisticamente descrita).
Da trama retiro esse retrato da morte lenta, rara na literatura, principalmente a dos tempos de uma outra medicina. Mas também encontro o velho Tolstoi moralista: pois se Ilitch começa por recusar a morte, a sua pertinência ou justiça, logo os pavores da agonia o fazem entender que desperdiçou a vida devido ao seu apego pelas convenções, a um conservadorismo materialista e hipócrita, no fundo a um desleixo espiritual (simbolizado no episódio da representação de Sarah Bernhardt, a que a família assiste deixando-o só no leito da morte). Neste caminho é o Tolstoi da renúncia que se afirma, mas também o da valorização naturalista (e como tal desvalorizadora) dos camponeses: a única personagem piedosa (solidária, diríamos hoje) é o criado Guerassime, que diante do sofrimento e da morte ostenta uma naturalidade até irreflectida, e por isso verdadeiramente humana. Só nesse camponês – e, já no final, no filho criança Ilitch - o autor reconhece humanidade e amor, ainda não esmagados pelas convenções, pela civilização.
Sorrio no fim diante deste moralismo extremo, adversário da sociedade, elogiando a natureza campónia, assim explicitamente associada à infância. Mas depois não deixo de, incomodado até, me perguntar: “mas que raio faço eu, exactamente aos 45 anos, a ler tamanho drama nas praias de Inhambane“?
“Tragam-me um best-seller!”, terei exclamado.
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Janeiro 15th, 2010 — Cooperação, jpt
A. é jovem (bem jovem, 18 anos). Em breve partirá de Bruxelas para estudar em Oxbridge. Nestes seus últimos tempos pré-universitários será voluntário (pau-para-toda-a-obra) numa escola da província de Nampula. Esta madrugada fui deixá-lo no aeroporto, de partida para o seu beau geste. De ora em diante acompanhá-lo-ei no Mukwatelo (“gesto”, em macua). Encantadora alvorada de uma biografia.
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Janeiro 4th, 2010 — jpt
Janeiro 4th, 2010 — Amália Rodrigues, Antropologia, Arte, Astérix, Che Guevara, Cinema, Citações, Ciências Sociais, Emigração, Fotografia Moçambique, Francis Ford Coppola, Futebol, Imprensa Portuguesa, José Cutileiro, Kok Nam, Linguística, Literatura, Lusofonia, Memórias, Música, Onésimo Teotónio Almeida, Paternidade, Politica Portuguesa, Politicamente Correcto, Religião, Sociedade portuguesa, Sporting, jpt
1. Inverno. Um calor de estalagmites.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
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Dezembro 25th, 2009 — jpt
Caros pagãos (e leitores do ma-schamba). A todos desejo, e consoante o caso de cada um, um excelente potlatch de solstício d’inverno boreal ou de verão austral.
(com as vossas … coisas favoritas)
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Dezembro 5th, 2009 — Ma-Schamba, jpt
O “jovem”, recém-trintão, filho de bloguista ele-mesmo, junta-se à nossa mesa e, no meio da 2M, diz-me “estive a ler as umas coisas lá no teu ma-schamba” – eu sorrio, que dizer? – e ele, impiedoso na sua simpatia, ”agora vocês cotas estão todos numa de blogs” e a mim cai-me o sorriso em esgar.
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Novembro 21st, 2009 — jpt
Já cai a noite, na avenida abrando chegando-me ao semáforo em vermelho. No grupo dos putos-de-rua, ali sentados no passeio, um deles enche o sorriso e e ensaia a familiaridade feita ganha-pão, saudando-me num sonoro e arrastado ”Amigo brasileiro!…”. Sorrio para mim, é-me uma estreia. Sinal, óbvio, dos tempos.
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Novembro 7th, 2009 — jpt
Sexta-feira, 6.45 da manhã, ainda dormimos, um pouco atrasados, a nossa criatura já avançou para a escola. Com o estridente daquela hora toca o telefone – “que aconteceu?”, assustamo-nos. E o que está a acontecer, percebo estremunhado, é que o senhor Nhamtumbo, do departamento comercial (“prémios”) da MCEL nos está a telefonar para informar sobre … qualquer coisa que nem venho a saber. “V. está-me a telefonar a esta hora para fazer publicidade? V. está a brincar comigo?”. O empregado – serão instruções que tem?, será louco? – ainda avança nas explicações sobre um qualquer produto. “V. está a brincar comigo? Qual é o seu nome? para eu fazer queixa de si …“. Ele ainda avança que é Nhamtumbo, eu desligo, irado.
Isso de às 6.45 h. estar a vender por telefone … Serão instruções que o pobre Nhamtumbo tem? Ou será mesmo louco?
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Agosto 2nd, 2009 — jpt
1. Fiordes Algarvios.
Sotavento algarvio, primeira entrada no areal. A princesa, surpresa e até incomodada, questiona-me “Pai, por que é que há tanta gente na praia?” e, enquanto tartamudeio uma explicação patriótica, entramos na água … até aos seus joelhos. “Ixe, está fria!!!” exclama enquanto, de imediato, os dentes lhe começam a bater. Sorrio, mas aterrado, pois é óbvio que lhe vai ser difícil assim crescer, entre os fiordes algarvios.
2. Leituras de férias.
O i – que agora conheci – tornou-se o mais agradável e o mais profundo jornal diário português. O melhor.
3. A Crise.
Proto-comprador visito uma casa do “tempo da guerra”, ali “às avenidas”, um tal custo que não o conseguiria pagar no tempo de vida que me restará, por optimista que seja. As vendedoras, um duo já sem idade para frescuras BE nem aspecto da célula PC do sector imobiliário, respondem ao meu continuado espanto “estes preços? Então e a crise?”. Entreolham-se, porventura defendendo o seu negócio, num “hum … crise neste segmento não se faz sentir”, que “as casas vão-se vendendo”. Mas que mais abaixo sim, a crise estalou, nas casas “entre os 150 mil e os 180 mil euros” é difícil a venda, “fora de Lisboa” há imensas casas disponíveis, e mesmo até ali “para a Penha de França e isso“.
Sorrio, lembrando não propriamente nostálgico, a velha palavra de ordem que agora voltou: “os pobres que paguem a crise”.
4. Da Boca das Crianças …
“Graças a Deus que em Maputo há menos spray.” (Carolina, 7 anos)
5. Arte? Liberdade Individual?
Lisboa, cidade “grafitada”. Talvez o hábito torne invisível o lixo visual aos seus habitantes. Mas a quem chega de fora ainda surpreende esta pandemia. Depois percebe-se que não é apenas o hábito, é mesmo o desencanto ideológico, para não lhe chamar desvario – é certo que as definições endógenas do que é “arte” tendem a desfalecer, pelo que “anything goes”. Consulto a Agenda Cultural de Lisboa (profusa), simpática e útil publicação municipal. Reportagem sobre “A Arte Está na Rua“, projecto a decorrer na Galeria de Arte Urbana, a tender para a institucionalização desta prática, donde a sua divulgação (bem, pode ser que com esta respeitabilidade se mate o bicho …). É muito interessante ler o sociólogo Ricardo Campos, ali entrevistado a este respeito: “Hoje temos um discurso pictórico com mais de três décadas … tornando-se numa linguagem paradigmática da pós-modernidade“.
Há também uma dimensão ideológica, que se inscreve na democracia: as pessoas vivem no espaço público e sentem que têm direito de usufruir desse espaço.” (p. 17 da edição impressa da Agenda Cultural Julho 2009).
É impossível rebater ideologicamente este argumento. Como diria o meu vizinho, acima citado, “Amu-te democracia“. E não sou sociólogo.
6. As invasões francesas e o nacionalismo.
Pergunto se tem havido algo que “comemore” (que revisite) os dois séculos das invasões francesas, a última guerra internacional em território nacional. “Assim de repente” mandam-me ler “Ir Pró Maneta” de Vasco Pulido Valente (Alethea, 2007), narrativa da insurreição popular de 1808 contra Junot, a qual o autor considera o maior movimento social português da história, procurando-lhe o conteúdo sociológico. Obra interessante, para além do ar patrioteiro de alguma retórica do autor, o recorrente queixume do historiador face às “malevolências” sofridas às mãos dos enviados do império e dos sequazes de John Bull, o qual para alguns pode parecer a necessária subjectividade do autor. Mas não é.
Inscrição crucial nesta obra: “De resto, a sua quase completa ausência de identidade própria levou os hipotéticos “burgueses” de Portugal a sentir os distúrbios sociais de 1808 como um ataque contra si mesmos. O seu pânico foi o pânico da ordem estabelecida. E, por isso, em vez de, como em Espanha, aproveitarem o “levantamento do povo”, a que só faltavam chefes e objectivos, para captar a direcção política do país, fizeram a escolha oposta: uniram-se aos “grandes” para submeter os “pequenos”. No processo, fortaleceram as instituições tradicionais e a ideologia que as justificava. Em definitivo, a resistência a Junot reclamou-se mais da Coroa do que da nação. Pior ainda: a imagem arquétipa do colaboracionista (que tinha sido toda a gente, a começar nos bispos, na alta nobreza e na alta magistratura) depressa veio a coincidir com a de jacobino e a de pedreiro-livre, numa palavra, com a de “estrangeirado”. Quer dizer, se em França a nação se criara contra o “antigo regime” e, em Espanha, contra ele e o invasor, na crise portuguesa de 1807-1812 a nação surgiu em oposição ao francês (como era inevitável) mas sobretudo em oposição ao “afrancesado”. Nestas condições, ficou desde o seu princípio identificada ao padre, ao frade e ao fidalgo, verdadeiros depositários de tudo o que ela possuía de singular (e, portanto, de sagrado) e últimos baluartes da sua defesa contra aqueles que de fora a procuravam vencer ou corromper, pelas armas ou pelas ideias. É inútil sublinhar a persistência desta visão na história futura do país. Em Portugal, o nacionalismo não teve como no resto da Europa um conteúdo laico e liberalizante (excepto nos breves episódios da Patuleia e da propaganda republicana entre 1890 e 1910). Pelo contrário, quase sempre não se distinguiu do ultramontanismo católico e das causas típicas da conservação.” (p. 49-50)
7. Funcionalismo público.
Nas finanças, o funcionário que me atende, avantajada calvície de quarentão pálido e por barbear, está vestido com uma bem gráfica t-shirt dos Motorhead. Sorrio, não propriamente nostálgico, notando a mudanças dos costumes – literalmente falando.
8. O Pós-bloguismo.
Há uns meses, arrepiado com algo que lera no instrumento Jugular surpreendera-me num “O que faz um homem como o Miguel Vale de Almeida no meio daquela gente?”. Já sei …
9. Liberdade?
10. Língua Portuguesa 1.
11. Língua Portuguesa 2
Porquê? Há alguns anos encontrei esta tenda de quase-monos, ali na Avenida de Roma. Preços agradáveis, boa iniciativa. Julguei-a então quase periódica, sazonal de natal ou assim. Mas foi ficando. E firmou-se, milhares de livros portugueses a preços convidativos. Mas porquê “Roma Books“? Que mal há na palavra “livros”? Que precedente linguístico, lógico, de uso histórico, comercial ou quejando tem “books” sobre “livros”? Ainda se fosse “boocaria”.
Em assim sendo tirem a tenda dali. Pois dá um ar miserável à Avenida, que já foi central. E comprem livros nas “livrarias”.
12. Eleições Municipais.
Lembrar-se-ão os vizinhos lisboetas de há quantos anos está o Terreiro do Paço em obras?
13. Tribalismo.
“…afinal é sempre a questão da identidade que se põe como tema que queira ter ideias originais por toda a gente que nunca as teve, a questão da identidade, agora, para mais, enriquecida com a questão da alteridade e os jogos de palavras respectivos entre as duas noções, que não são assim tão difíceis e estão ao alcance também de toda a gente, sobretudo dos frequentadores de simpósios e seminários internacionais e até das respectivas consortes, mesmo quando os joanetes ou a ciática as incomodam perfidamente, impedindo-as de fruir por inteiro dos programas sociais organizados para essas ocasiões.” (Vasco Graça Moura, Naufrágio do Sepúlveda, Quetzal, 3ª edição, p. 21)
14. Homossexualidade ou Homossexualismo?
16. A Direita em Portugal.
17. Mia Couto em Tavira.
18. O Ministro e o Acordo Ortográfico.
Só agora leio. O ministro da Cultura António Pinto Ribeiro no Jornal de Letras (nº 1010, 17 de Junho de 2009) ainda julga necessário defender o Acordo Ortográfico. Apesar de nos informar que este foi aprovado pelo governo, pelo parlamento e pelo presidente da república em 1990. Que em 1998 foram confirmadas as regras da sua entrada pelas mesmas instituições. E que agora “houve uma terceira ratificação” pelo que “A legitimidade está mais do que assegurada”. Não percebe – Pinto Ribeiro não é homem de perceber política, demonstra-o à exaustão o seu auto-elogio no Público de 25 de Julho (com direito a primeira página) onde nos afirma que foi melhor do que a sua antecessora no mesmo governo, um ridículo político total –, não percebe dizia eu, que se assim é, se a legitimidade não está em causa, então dezoito anos depois, ele não deveria precisar de discutir o assunto. Ou seja, não percebe que a questão não é meramente formal, institucional.
Depois diz um chorrilho de asneiras, inaceitáveis para quem se arroga ao direito de ser ministro: “Ninguém é obrigado a escrever como não quiser” … isto é coisa que se diga? Pois nem é comentável. Patetice pura.
Mais, sobre os que se opõem ao Acordo Ortográfico afirma: “Compreendo que as pessoas que lideraram a petição [contra o Acordo] tenham essa petição e que estejam grudadas no purismo. É como se não quisessem que as respectivas mulheres mudem de cortem de cabelo e os maridos deixem crescer ou cortem a barba.” Não lhe ocorre (o que não é surpreendente nesta sua incapacidade de se entender como agente político) nem tampouco aos pacatos jornalistas do JL (Maria Leonor Nunes, Luís Ricardo Duarte) que esta é uma afirmação inadmissível num ministro. Pinto Ribeiro não é comentador de programa jocoso-televisivo, não é bloguista Simplex ou Jamais . É um ministro, ainda por cima da cultura, pode destroçar os argumentos dos que se lhe opõem (mesmo que em questões tão velhas que já resolvidas, como – contraditoriamente – quer afirmar) mas não tem o direito à brejeirice, à gozação inculta. Nesta simples atoarda demonstrando a sua incompreensão dos termos daqueles que se lhe opõem – na prática agarrado às analfabetas noções de que a escrita não influencia a fala (eco de concepções iletradas e isentas de educação escolar grafada) e à de que se sustenta na ideia de que a escrita é uma convenção, esquecendo (ignorando?) que a fala também o é. Mas convenções praticadas …
Um tonto – como em Maputo tanto demonstrou.
19. Exemplo de Exposição.
No Instituto de Ciências Sociais uma pequena e bela exposição, exemplo de montagem e de comunicação. Sobre a revista anarquista “Renovação” (1925-26), associando-a ao pensamento utópico de António Tomás Pinto Quartin. Vale bem a pena visitar, pelo objecto-exposição em si, pelo carinhoso pensamento (hoje poder-se-á dizer isso do anarquismo) ali visitável.
20. A revista Ler é do melhor que há em Portugal. Não chega a Maputo. Por isso foi aboletar-me em casa paterna, décadas dela por lá, e percorrer o último ano e tal, e até para trás – até que alguém me avisasse: “passas o tempo a ler sobre livros em vez de leres livros…”.
Terá sido por isso, pelo excesso. Ou por ter regressado às velhas (1993, com entrevista a Mario Vargas Llosa) que me ocorreu algo, um desconforto. Há coisas muito boas hoje, o director, a sapiência em sorriso leve do Onésimo, algumas entrevistas (fabulosa a de Miguel Esteves Cardoso, a lembrar-me de uma Lisboa em que o “Miguel” era o MEC e ainda não Sousa Tavares; horrível a de Margarida Rebelo Pinto, onde o entrevistador parecia uma abadessa de dedo em riste para uma noviça afogueada com o senhor cura), Filipe Nunes Vicente que deve ter o teclado mais interessante de todos os que juntaram o papel publicado aos seus blogs. E não só. Mas a Ler tem agora um tom de humor (bloguístico?) que é cansativo, de de-monstrável que é. Uma marca deste momento se calhar. Mas que cansa. Mesmo.
Ainda assim, uma pena não ser distribuída aqui.
21. Tavira
[Fotografia encontrada aqui]
Há décadas que lá não ia. Uma surpresa, ainda que fosse avisado. Um Algarve que resistiu. Cidade bonita, preservada, agradável para habitantes e visitantes, com algo de seu. “Nunca mais digo mal do Macário Correia” disse eu, em coro. “Ai é uma pena, ele vai para Faro“, lamentava-se a senhora, já de idade, ali na farmácia.
O que não seria do Algarve se tivessemos tido mais gente como ele. Em vez desses patifes.
22. Coimbra Capital do Saber?
[fotografia encontrada aqui]
23. O Estado e o falo
[Artur Corte-Real (coord.), Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Do Convento à Ruína, da Ruína à Contemporaneidade, IGESPAR, 2008]
Nos últimos 18 anos passei em Coimbra apenas um bocado de tarde, ao doutoramento de um amigo. Nem me lembrava do bonito da cidade (agora a minorar, às mãos do prestigiado Gonçalo Byrne, pelo que vejo)
Entre outros poisos visito este convento de Santa Clara, um exemplo de afã patrimonial. Certo que a exposição é frágil (lettering pavoroso, informação parca e até errónea), dando um ar paroquial contrastante com o conjunto arquitectónico.
Paróquia que se sublinha à entrada, recursos humanos aldeões. Na compra dos bilhetes (as crianças pagam, um desvario) uma televisão transmite uma sequência de imagens do convento e dos achados arqueológicos. O “recepcionista” (antes dito “guarda”), bem fardado, olho nestes dois casais e suas pequenas filhas e um outro na perspectiva de avantajada gorjeta, logo se transforma em “guia turístico”, legendando e comentando as fotografias exibidas.
À passagem do falo de pedra ocorre-lhe, alvar, o “e isto é o que elas usavam, ha ha … ha ha“. Vamos virando costas – certo que ele nos ressurgirá lá em baixo, no convento, lesto em busca dos euritos – e eu sigo um pouco hesitante, será esta a idade exacta para responder substantivamente às questões assim brotadas?: “O que era aquilo?”, “usavam para quê?”.
Contemporaneidade? A possível no Estado.
24. Exposição África
A colecção de arte africana de José de Guimarães. Espantosa. Imperdível. Mais do que tudo, invejável. Um catálogo com excelentes textos (Raquel Henriques da Silva, Kosme de Barañano e Rui Mateus Pereira). Fantástico. E um etc. de adjectivos.
24. Vitruvius Mozambicanus no Centro Cultural de Belém (aka Museu Colecção Berardo)
Pancho Miranda Guedes, o arquitecto lenda do Lourenço Marques de então. Sumptuosa exposição no CCB.
No fim fica-me a dúvida, qual o impacto de Miranda Guedes depois de transplantado daqui. Saíu ainda novo, mas o grosso da obra mostrada, arquitectónica e pintura é dos tempos moçambicanos. E a pintura a eles regressa. Gostaria de ter voltado, de a ter revisto. Para a fruir, mas também para tentar responder a esta inquietação. Feneceu, lá fora?
Outra imperdível. Duas exposições que justificam (teriam justificado, caso necessário fosse) a viagem a Lisboa.
A meio da tarde sigo no túnel do Marquês pela faixa da direita a 50 km, velocidade máxima. Na esquerda, um pouco à minha frente, alguém segue à mesma velocidade. Atrás dele chega um outro, que assim se posta a meu lado, apitando quase frenético. Saímos do túnel ascendendo a Fontes Pereira de Melo. Somos os últimos a passar o semáforo verde no início da avenida e assim deixamos de ter gente imediatamente atrás. O nervoso ultrapassa pela direita, ziguezagueando à minha frente, atravessa-se à frente do seu “opositor” e sai do carro aos gritos deixando a mulher sentada. Eu paro, apesar da família ali. Ele vocifera e gesticula. O outro condutor olha para mim e meneamos a cabeça, concordando num “não vale a pena ir-lhe às trombas”. Sigo.
No dia seguinte cruzo em sul-norte a Ponte Vermelha. Sigo na faixa do centro, a todo-alcatroada, à velocidade máxima. Transferindo-se da direita um camião cola-se à minha traseira que logo enche com seus enormes máximos e depois com estridente buzina. Depois ultrapassa-me em continuada buzinaria, mostrando-se “Veículo Longo” de empresa de transportes com nome de atum de conserva, e inflecte para a minha frente, reduzindo abruptamente a sua marcha enquanto gesticula fora da janela.
Não me restam dúvidas, não percebo a topologia lusa, isso da esquerda e da direita. (ainda bem que há os pedagogos in-blog e “lá fora”, que seria de nós, ignorantes, sem eles …).
26. A Esquerda em Portugal.
Esquerdista militante, vibrante de argumentação e invectivas, sobre coisas “actuais” e “locais”, coisas de âncora ideológica, o antropólogo encartado interrompe o tom e, a propósito de uma qualquer-coisa, concede “Pois é, em Moçambique ainda há sociedades matrilineares“. Sorrio e, porco reaccionário, resmungo “surpreende-me esse “ainda“…”.
Não me restam dúvidas, não percebo a topologia lusa.
27. Funcionalismo Público 2.
Museu de Arte Antiga, para ver a exposição Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII – belas peças mas mais do mesmo, nem uma década passou das grandes comemorações e regressa o centramento nos Descobrimentos. Com uma falta de informação, que permite o “achatamento” da história, uma desproblematização multiculturalista à vista – porventura a leitura do catálogo dê outras pistas, mas trata-se de VER uma exposição. Atente-se na ideológica planura da secção “Brasil” da mostra.
Mas sucesso de público, uma fila para os bilhetes em tarde de semana. Está na hora das visitas guiadas, um dos visitantes pergunta à funcionária (de putativo vínculo estatal) se ainda se pode integrar nas ditas visitas. Ela, de imediato, grita para a outra ala do átrio da entrada: “ó não-sei-quantas ainda há lugar nas visitas guiadas”. A colega responde gritando, sobre todas as nossas cabeças, “Hââânnn???!”. Sorrio, liberal: “é o Estado…”, ou melhor, “é o estado do Estado”.
28. A Vida.

The Night of the Iguana : Hannah Jelkes (Deborah Kerr) partiu, levando a cruz de Shannon. Maxine (Ava Gardner) diz a este (Richard Burton): “I’ll get you back up, baby. I’ll always get you back up“.
Julho 31st, 2009 — jpt
Junho 10th, 2009 — Música, jpt
Maio 25th, 2009 — jpt
O Taxista, apanho-o em Mavalane, segue e o telemóvel (celular, claro) toca repetidamente e ele desliga-o. “Não atende?”, provoco-lhe o assumir. “Como posso fazer duas coisas? Se estou a guiar não posso falar ao telefone”.
É o Taxista, o cidadão rodoviário. Talvez o único a sul do Rovuma.
Abril 25th, 2009 — jpt

(Fotografia retirada do Olivesaria, blog colectivo onde habitam alguns dos seus amigos)
É também no Olivesaria que encontro reproduzido este belo e apropriado texto de Jacinto Lucas Pires:
No seu blog António José Seguro refere o “nosso” Coronel:
Quando o corpo impera parar de lutar
A mente se perde num mar de pranto
É o coronel que comanda hora de despertar
Levantei soldados sem calúnia ou espanto
Contra os canhões marchar marchar
Assim diz o peito ilustra lusitano
Nem o zarolho com uma história por contar
Desiste com o mar até ao tutano
Diz agora o raso ao coronel
Livrai-vos de mágoa ou dor
Lembrai-vos do amor que é o quartel
Albergante do exército da força interior
Inês
No Duas ou Três Coisas, de Francisco Seixas da Costa também é ele evocado. E nos comentários alguém lembra o Aventino em Moçambique, onde cumpriu comissão, a qual sempre referiu entre-ironias, caústicas. Um Moçambique sobre o qual sempre fazia breve inquérito, um “como é que aquilo está“, um tom desinteressado a recusar saudosismos. Daqui levou, quase-sobretudo, a amizade com António Quadros. Foi a propósito das visitas que lhe fazia, verdadeiros retiros, que um dia me invectivou “não conheces o António Quadros?” e eu ignorante, “não és um homem de cultura“, imperdoou. Que não podia ser e logo me veio dar fotocópia do “A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa.”
Tanto disso se passou ali em pleno Café “Pinto”, o refúgio dos Olivais, vibrante nos anos 80 e 90, onde, romântico mordaz, truculento iconoclasta, feito companheiro se dedicou a acompanhar uma geração, ali sua vizinha, então a chegar-se à maturidade mas sempre a esta resistindo. Todos.
Nisso muitos episódios e histórias, naqueles tempos de um quotidiano dia-a-dia de bairro, fervilhante noite lisboeta, até em excursões a S. Martinho. Fico-me com um momento, para mim efeméride. No dia seguinte de um começo, estávamos na noite de 10 para 11 de Junho de 1992, ao Procópio, a “casa” dele que não minha. Nós entre-whiskies e eu, aterrado, num “E agora, coronel?” e ele a rir-se, tutelar, “agora? vai ver“. E fui, fui ver o que daria aquele romance então nascido. Deu casamento.
Abril 11th, 2009 — jpt
É noite já, a bela cantora Yolanda ataca este Dylan, fá-lo com alma e eu distraído afasto-me daqui, dos aqui. A canção leva-me até ao iconoclasta que com toda a certeza gostaria de estar connosco a ver e ouvir, esse amigo que hoje deixou de ter hojes. É o refrão que me carrega até junto dele, sua tarefa agora, minha será no breve que acontecer, certos, certos de entrarmos ali, que essa é a nossa porta, dos humildes de sermos homens assim, coisa pouca, tropeções vários, pó apenas alguém o disse, nesse andar despidos da soberba e agasalhados nos outros pecados.
Perco-me na memória enquanto trauteio o trauteável. E lembro-me que quando partem os nossos somos nós que morremos um pouco, ou até muito. Pior assim, na distância. Da distância.
Depois alguém me devolve o sorriso. Esse do continuar.
Abril 10th, 2009 — jpt
Aventino Teixeira, até já mais velho.
Fevereiro 23rd, 2009 — jpt

[Imagem encontrada aqui]
Fevereiro 19th, 2009 — jpt
19.2.2009: 12 anos em Moçambique.
Janeiro 28th, 2009 — jpt

Sim, estou um homem feliz. Nisso, e assim, moderno. Pois não tenho apenas o Blog. Juntei-lhe um Ipod (apesar de ainda vazio), um Facebook e um Twitter. Que mais … ser?
Outubro 31st, 2008 — jpt
Outubro 23rd, 2008 — Memórias, jpt
Está a decorrer bem, bastante gente, vários conhecidos e até amigos, conversa-se, arranco-me sorrisos que não são falsos, os canapés estão agradáveis, o vinho tinto não morde a língua e ainda menos a garganta. Intelectuais, não exactamente orgânicos, e seu público. O microfone, que ali esperou algum tempo, é ocupado pelas palavras, as primeiras de circunstância as seguintes afixando conteúdo. Avançando um pouco chega a crítica ao silêncio dos intelectuais americanos, incapazes de afrontarem o surto patrioteiro que por lá grassa, inexistentes na oposição à guerra do Iraque – saúda-se a excepção de Chomsky, mas esse, lamenta-se, ausente do espaço mediático. De resto uma inexistência intelectual que por lá grassa. Depois contrasta-se tal situação com a China, sociedade onde no seu espaço [entenda-se bem, no seu espaço] os intelectuais se podem exprimir livremente sobre o real.
Ouço. Olho à volta para confirmar o que ouvi. A meu lado o meu amigo nem pestaneja, hierático como o venho conhecendo. Atrás de mim as caras nada reagem, entre o concordantes e (sonho?) o distraídas. Recuo até ao balcão, bebo em dois tragos um copo de vinho (esse mesmo, o que não morde). Antes de voltar ao meu sítio de peão bebo, rápido, mais dois copos. Sinto-me, como talvez nunca em Moçambique me terei sentido, estrangeiro. “Um Estranho em Terra Estranha”, recordarei em balcão vizinho uma hora depois, entre gente que nem atentou.
Regresso a casa. A televisão anuncia que o Prémio Sakharov foi atribuído a Hu Jia. Não janto – os canapés, repito, estavam óptimos.
Setembro 29th, 2008 — jpt
Amanhã, terça-feira 31 de Março, às 18 horas haverá uma sessão com Pacheco Pereira na sede Associação de Escritores Moçambicanos – para quem não saiba é na 24 de Julho na esquina um pouco acima da Interfranca.
O tema trampolim é “A Importância do Livro na Época Contemporânea”.
Setembro 13th, 2008 — Música, jpt
Abaixo um (outro) Piloto Automático avisa-me, a mim que salto blogo-youtubes, clic clic imediato, que não há paciência, para não encher a tralha de iutubismos. Eu concordo, não gosto do blogo-mtv, e lamento as desistências.
Mas é sexta-feira, abriu o Dockanema, correram as destiladas na Baixa de Maputo e trazem-me a casa, via a marginal, e que Marginal, enquanto no carro se ouve, meu último poster, fotocópia da “lírica” então afixada na parede
É a baía … Espírito Santo. Maputo …