Archive for the ‘jpt’ Category

Gata Joana

Terça-feira, Agosto 24th, 2010

A Inês encontrou-a na rua, ouviu-lhe os aflitos miados de bebé abandonado. Ao entrar em casa cabia-me na palma da mão. Então vivíamos na Engels, era uma época bem feliz da nossa vida e logo ela se juntou neste caminho que então pensávamos ser menos complicado. Também por isso sempre a associámos a uma espécie de “tempos doirados” da família. Cresceu assim, primeiro princesa de flat e depois, já com a Carolina em casa, rainha de rua no Sommerschield, intratável nos seus domínios, reconhecida até com vassalagem por vizinhança, residente ou trabalhadora. Mimosa em casa, uma leoa lá fora. O orgulho dos seus …. “donos”.

Foi amadurecendo, perdeu aquelas correrias meio desabridas, aquele arquear de cavalo de toureio com que nos brindava quando brincava. Mas nunca perdeu aqueles seus gostos de gata rica, de destruir sofás e cortinas caros. Acompanhou com desvelo em leito alheio as raras doenças familiares, interrompendo então o controle dos seus domínios externos.

Gentil e atenta nos seus tempos livres dedicava alguma atenção a este membro secundário da família pt, e madrugada fora acompanhava – algo blasé – este mundo do bloguismo, e outras coisas de escritório. Sublinhando com a sua língua áspera a sua concordância com alguma afirmação, criticando com mordeduras alguns pontos menos conseguidos.

Há um ano adoeceu. Acompanhada desde bebé pelos melhores dos médicos, inultrapassáveis em desvelo e competência, recuperou. Ficou boa num ápice e voltou ao seu reino. Agora piorou, um último mês de preocupações diárias. Teve que morrer ontem, aos 12 anos. Estamos que nem sabemos como …

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O Universo e o Hubble

Sábado, Agosto 21st, 2010

“No blog desnudas a alma” exagerou, criticamente, um amigo meu no jantar de ontem:

Como sabem os leitores aqui nunca falo de trabalho, mas segue-se excepção. E como sabem os meus amigos mais próximos, meus colegas e alunos, atravessei (?) um profundo mau-momento nos últimos meses. Não terá sido provocado por isso mas despoletou-se quando percebi que a esmagadora maioria dos alunos universitários com os quais trabalho não têm quaisquer ideias actualizadas sobre as características do universo. Tudo isto brotou numa aula (e nas imediatamente subsequentes) aquando de um impreparado exemplo sobre a “revolução coperniciana” – falava-se de Kuhn numa para mim nova disciplina introdutória de ciências sociais. Ali me deparei, em total espanto, com o facto de que os futuros colegas têm uma concepção geocêntrica do universo ou, em alguns casos, heliocêntrica.

Na altura esta apreensão causou-me uma dolorosa e perplexa consciência do hiato (abismo) ali existente entre nós. E da necessidade de reflectir sobre os conteúdos e formas da comunicação. Como ser docente quando o(s) discente(s) te(ê)m uma tão diversa apreensão do mundo? Para além dos problemas imediatos isto levanta também um doloroso questionar sobre a estrutura curricular do ensino secundário em Moçambique (o que se ensina e quando. E, porventura, também o como). Mas também da divulgação científica nos meios de comunicação. Não se exagerem as dificuldades, quem chega à Universidade tem acesso a televisão, ao omnipresente rádio e, também, a jornais. Lembro de imediato a televisão, pública e privada. Que estação tem divulgado programas sobre o universo?, dedicados a qualquer divulgação científica – certo é que terão que ser atractivos e divulgados, popularizados. E certo é que a estação mais vista pelo povo será a Miramar, cuja filiação evangelista não me parece compatível com versões não criacionistas deste nosso “vale de lágrimas”.

Mas não é o meu papel discorrer sobre conteúdos programáticos do ensino de “ciências naturais” (como antes se dizia) no ensino secundário moçambicano nem tampouco sobre o painel de programas da TVM ou concorrentes privadas. Fico-me, angustiado, diante dos meus alunos. Sou um modesto antropólogo, entregue a alguns programas temáticos. E o “mundo” não faz parte deles. Mas sem esse “mundo” que entenderão sobre o mundo, como entenderão o mundo? E como apresentar(-lhes) este vasto “mundo”? Em rombas palavras de nada especialista do assunto? Em pobres fotocópias roubadas a velhos exemplares da editora “Gradiva”? Uma radical impotência.

Recebo agora (via fb) esta ligação ao Sítio do Telescópio Hubble (em inglês). É para os alguns alunos que aqui passam de quando em vez. Pode ser que desperte alguma inquietação sobre o que é “isto”. O como é “isto”. E dê para perceber que a gente não está no seu “centro”. Com tudo o que daí vem. Ou (espera-se) poderá vir.

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O Plágio

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

É uma praga, o plágio. Dos “tempos modernos”? Incentivada pela “democratização” do acesso à informação? Porventura um pouco, pelo menos facilitada. Há algum tempo aqui deixei lamuria sobre isso, eco do desespero que me acomete aquando me defronto com ele. Agora leio Plagiarism is not a big moral deal (I) e II, textos sobre a matéria publicados pelo académico americano Stanley Fish no Opiononator, um excelente blog do New York Times (blog a justificar um acompanhamento regular). Fish ancora a concepção de plágio numa visão histórica de “trabalho individual”, no fundo de individualismo, e remete-a para uma prática (errada) profissional. Torço um pouco o nariz, lembro-me dos termos “deontológicos”, e não me satisfaço face à “amoralização” das práticas profissionais por via da sua contextualização histórico-cultural. Mas o debate é bastante interessante.

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Autobiografia Ideológica

Domingo, Agosto 8th, 2010

Uma insónia vivida em regime de geográfica solteirice provocou-me uma reflexão autobiográfica, subordinada ao paradigma Youtube. Coloquei-a no suporte (menor) Facebook, o qual obriga à sua fasciculização. Agrego-a aqui mesmo que sabendo-a muito perecível (as ligações no youtube têm a tendência para serem retiradas do “éter”). Mas em sendo tão perecíveis as biografias não o deverão também ser as autobiografias? Permito-me chamar a atenção dos visitantes que tenham a paciência para seguir os capítulos inseridos nesta entrada que no seu final há dois textos longos e completos, que justificam uma redobrada atenção.

[Mr. Magoo]

[Mr. Magoo (final)]

[Robin Hood]

[Robin Hood - o final]

[Robin Hood - o imortal hino]

[Daktari]

[Bonanza]

[Olho Vivo]

[Tintin]

[The Lone Ranger - registo particular influência do seu "Ayô Silver!]

[Lancer]

[Pesquisa]

[Daniel Boone]

[Janosik]

[O Santo]

[Lagardére - com particular incidência na expressão aqui originada "à Lagardére!"]

[Sandokan, o Tigre de Mompracem]

[Miguel Strogoff]

[Os Pequenos Vagabundos]

[Capitão Kloss]

[Os Vingadores]

[Os Quatro Blindados e o Seu Cão]

[O Sinal do Dragão]

[Dois Anos de Férias]

[Colditz]

[Skippy]

[A Pantera Cor-de-Rosa (episódio completo)]

[Speedy González (episódio completo)]

[I, Claudius - a entrada na vida adulta]

[O autobiografado, à época, em breve pausa de consumo televisivo]

Nota: não se encontra registo in-youtube da importante série “Guerra e Paz” (BBC, 1972, protagonizada pelo jovem actor Anthony Hopkins)

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O Acordo Ortográfico: corolário

Sexta-feira, Agosto 6th, 2010

Há cerca de quinze dias na auto-estrada A8, à saída de Lisboa (depois de passar Odivelas) em caminho para a Ericeira, cruzei à minha direita um enorme painel publicitário, julgo que amarelado, com os dizeres acima reproduzidos, presumo que relativos ao relativo descampado que ali (ainda) vigora – guiando numa auto-estrada não pude parar, fazer marcha-atrás e ir fotografar. Mas aqui fica a memória. Ortográfica. Ou será a antevisão? Ortográfica?

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Portugal-Brasil, um pouco antes

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

As ruas de Maputo percorridas por adeptos …. brasileiros.

Sorrio, os tempos estão a mudar.

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A RTP e a pobre língua de pau nacionaleira

Terça-feira, Junho 22nd, 2010

Bem arrependido estou de ter desistido dos bilhetes os jogos de Portugal no mundial, primeiro, e de ainda ter resistido a amável e insistente convite de casal amigo para que os acompanhasse ao Cabo – telefonaram do estádio, eufóricos. Hoje, jogo histórico, perdi algo para contar aos netos futuros mas também para fruir no presente. Constato-me, e não pela primeira vez, uma cinzenta mistura de blasé e forreta, essa que a ninguém dá felicidade ou saúde.

Assisti ao jogo de ontem num local público, em verdadeiro ambiente pátrio. Ali aportei cerca das 13 horas, engalanado com uma bandeira nacional, daquelas dos pagodes chineses e com o blasfemo nome do banco patrocinador inscrito, restos de evento anterior, a qual foi de imediato pendurada, qual cortina, na porta do estabelecimento em causa. Após isso encetei aquela que viria a ser uma longa fileira de cervejas 2M (Mac-Mahon) que começaram por acamaradar com uns estrepitosos pastéis de massa tenra, arroz branco e deliciosa salada, franca e vivamente recomendáveis. Enquanto deglutia a tão típica refeição foi-se o areópago enchendo de algumas dezenas de patrícios, estes carregando diversos graus de angústia. Em breve começou o jogo e pude constatar alguma volubilidade das opiniões, as minhas e as alheias: dos miseráveis centro-campistas ao meio campo de luxo decorreu algum tempo, da aventesma Hugo Almeida ao finíssimo ponta-de-lança seguiu-se um mero ápice, da condenação geral daquela reles vergonha à celebração da glória da óbvia conquista do ceptro mundial apenas um pouco mais, do amaricado Ronaldo ao génio Cristiano Ronaldo uns breves momentos suplementares. Terminado o evento todos saímos em ombros, orelhas e rabos cortados, vuvuzelando um “este ano é que é!!” bem sonoro ao longo avenidas maputenses.

Algumas horas depois, já em casa, vejo o noticiário da RTP-África. Como sempre em momentos similares surge a reportagem que vem comprovar na rua, ao espelhar o sentir popular, os infindos laços pós-imperiais, assim demonstrando pelo “mundo (em) português” o amor que nos une, como os moçambicanos (e restantes) sofrem e torcem por Portugal. Desta vez acorreram ao restaurante Mundo’s, ali à Nyerere – normalmente cheio para os jogos mas então nem tanto, talvez por ser hora de almoço, talvez porque a habitual clientela (será o local mais diversificado de Maputo) não é a típica adepta dos nossos “adamastores”. Isso não desanimou o repórter, que sabe bem ao que vai, ao mandamento lisboeta “mandem-me lá uns pretos, perdão, negros, a gritar por Portugal“. Daí que se encostou ao passeio fronteiro aos ecrãs e arranjou um ângulo fechado de câmara arrebanhando meia dúzia de vendedores ou pedintes, desses que vão vendo os jogos na rua, vendendo umas tralhas ou cravando os restos de take away. Ali bem a jeito para gritarem “viva portugal”, “prefiro o ronaldo”, etc e tal. E dá para passar no telejornal, para o sossego da gente lusa, em África (malgré tout) amam-nos. Siga.

Qualquer um que aqui esteja, mesmo que jornalista, pode perceber que o mundial de futebol, ainda para mais este em África, é um forno de identidades, de solidariedades, de sua construção e vivificação – também por isso tão induzido é, também por isso o seu enorme sucesso. Mas isso não interessa pois o que urge é uma reportagem daquelas. Encomenda obrigatória pois quando os nossos futebolistas marcam uns golos mais sonoros logo surge no ecrã o roteiro da gesta lusa: como se apoia-sofre-ama Portugal nos grandes pólos de emigração portuguesa e nas ex-colónias. É isto incompetente? Não, nem é disso que se trata. É um ritual ideológico televisivo, faz parte da reprodução de uma ideia (estatal) de identidade portuguesa e é uma (frustre) iniciativa de política externa. E é também desonesta, esconde a realidade criando uma outra, uma imagem política. Para mais – e ainda por cima no dia dos festivos 7-0 -, é uma vergonha.

Divertir-me-ia se a RTP-África fosse para os MacDonald’s ou Portugálias em Lisboa filmar os clientes portugueses aquando dos jogos importantes dos “mambas” ou dos “palancas”. Se entrevistasse arrumadores junkies ou vendedores da “Cais” metendo-lhes bandeiras de Moçambique ou Cabo Verde nas mãos e induzindo-os a gritar, com perdigotos, loas ao Dominguez ou ao Mexer. E se depois passasse essas tralhas no telejornal. Mas não faz tal.

Demagogo, eu? Muitíssimo menos do que a RTP-África ali ao Mundo’s. Na sua lusofonia “nacionaleira” e tão estafada.

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Só mais um para o caminho

Domingo, Junho 20th, 2010

Quando começo com o senhor abaixo apresentado não o consigo fazer calar. E então, às vezes, lembro-me de um bar onde – para além de ter conhecido e muito privado com um futuro co-bloguista – muito ouvi as suas canções. E dancei, pois então o suficiente jovem para intervalar – esporadicamente – a auto-censura.

Vai então uma para o MVF (e restantes sobreviventes do bar artis que aqui sejam visitantes).

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As duas faces da mesma moeda

Domingo, Junho 20th, 2010

Nos comentários do texto a propósito da morte de Saramago o ABM pontapeia-me. Tentei defender-me, mas com profundo défice argumentativo. Insisto agora, esperando tornar explícito o meu ponto de vista

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Trabalhos Escolares

Quinta-feira, Maio 27th, 2010

São dezenas e dezenas os pequenos ensaios para ler. Quem muito lê treslê, como é óbvio. Aquele até está muito bem, sim senhor(a). Bem compreendida toda a problemática em questão. É uma satisfação quando encontramos um(a) aluno(a) que tanto percebeu, que tanto nos ultrapassou. Surpreendido não estou, não é a primeira vez, nem a segunda nem a terceira. Nem será a última. Alguma surpresa apenas por a sintaxe do texto, e até algum do vocabulário, não ser a do português brasileiro. É mesmo a (académica) da minha terra. Sorrio, pelo menos aqui uma originalidade. Uma “lusofonia”, quiçá. Na aula à “autora” pergunto-lhe apenas sobre algumas perspectivas avançadas, consulto-a sobre as ideias de alguns autores referenciados meio externos à tralha que vou passando. Não se desfaz e pergunta-me, apenas e muito “flat”, “posso apresentar outro trabalho?”. A esta desfaçatez, e só a esta desfaçatez, me desfalece o ânimo. Olho, sei lá com que olhar em volta. Com quem estarão solidários os circundantes? Saio desistido. Pois com toda a certeza que não comigo.

Para o ano ela voltará. “Vai-me encontrar refeito” (como o verso do Chico Buarque) pois “tantas águas rolaram” (como idem). E então passará, seguirá em frente. Na frieza da sua desfaçatez. Cedo será “doutora”. O futuro. O desenvolvimento do país.

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A Regressão do Homo Sapiens

Sábado, Maio 22nd, 2010

Como estudante de antropologia cedo me ensinaram a falsidade do Evolucionismo, essa crença em que as diferentes sociedades e culturas seguiam num historial de  caminho(s) ascendente (de bem, de racionalidade, de riqueza, de competência, etc.). No fundo, que a história humana tem um valor positivo. Confesso que me tem sido difícil, nas horas vagas, aceitar esta despojada posição teórica tão constante e vigorosa é a pressão de considerarmos o presente melhor do que o passado, o “nós” melhor do que os longínquos “outros”.

Por isso me dediquei a uma investigação, assente no método da observação directa. Ao fim de algumas sessões de “terreno”, aqui em Maputo, posso concluir - e radicalmente – a minha libertação teórica, abandonei os resquícios de evolucionismo, evadi-me do etnocentrismo. Mas é um corolário angustiado. Pois baseado na constatação, empiricamente fundada, de que desde que em 1975 o filipino Roberto del Rosário anunciou a invenção do karaoke a espécie humana (e não só as configurações sociais e culturais que ela produz) está em absoluta regressão. O karaokismo é a vitória da natureza sobre a cultura, é a cristalização do guturalismo do hominídeo. E é imparável. O homo sapiens periga!

Como homem angustia-me. Mas como antropólogo social abandono o terreno da investigação. Deixo-o aos primatologistas. Matéria, e urgente, não lhes falta.

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Espelho (Nada) Mágico

Sexta-feira, Maio 21st, 2010

Vai lançado o professor de antropologia, em elipses até algo descontroladas, sobre o jogo de identidades e  nisso pergunta a um jovem aluno “O que acha V. que eu vejo quando me olho ao espelho?”. E ele, lesto mesmo que ainda arregalando um pouco os olhos: “Um monstro!?”

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Alienação

Sábado, Maio 15th, 2010

A princesa cá de casa vai aniversariar, outra vez, de novo, a sua infância corre veloz, a minha velhice voa. A extremosa mãe planeia-lhe a festa, como sempre procurando pequenas inovações. Este ano por que não uma coisa mais “natural”, ligado a essas coisas do pensar (comer, viver, sentir) alternativo, uma mensagem diferente para a miúda, ainda que fluida? Que sim, diz o morcão pai, que cresça ela o mais ampla possível e venha a fazer as suas opções, mais malucas ou incompetentes do que as do ascendente não virão a ser, quase de certeza. E lá vamos nós, este materialista empedernido que vê satãs em todos esses esoterismos ou espiritualismos, mas que se desvanece com as coisas prá sua princesa delfina.

Aportamos pois à capela do alternativo, do “espiritual”. Entre outras coisas normais das festinhas imagina a mãe uma aula de dança, “street dance” para cativar os rapazes, qu’ós 8 ou 9 anos são mais dados à porrada e à bola do que às danças com as meninas (mais dois ou três anos e teremos “quarto-escuro”, já me estou a mentalizar para isso). Que sim, que bela ideia, dizem os sacerdotes (ou seriam sacristões?) do espiritual. Que vão mandar a cotação, para que nós acordemos isso dos balões, das mobílias, dos comes-e-bebes. E da aulita de dança, 30 putos uma horita se aguentarem.

Dias depois chega a cotação: para a “aulinha” de dança, para a animação, são 300 USD! 300 USD para animar um bando de putos, encobertos na espiritualidade alternativa, na “naturalidade” do ser, meia dose de metafísica, um gole de saúde física, uns pozinhos de calmaria. Em Maputo, 2010, 300 USD para uns movimentos, mais que introdutórios, uma hora quase de certeza nem tanto, com os filhos dos “ricos” . E há, com toda a certeza, quem pague.

Pois, o mau feitio é o do jpt, enojado com o escarro que assim recebe. Empedernido materialista cheio de desprezo por estes “naturistas”, muito giros, sempre, que todos lhes acolhem os meneios, sempre dengosos, aquela “aisance” que põem no gesto e na fala. O alienado, está-se mesmo a ver, sou eu. 300 USD, uma horinha se tanto, no meio das sparlettas e das mini-pizzas dos putos de 8 anos. Em Moçambique, Maputo, 2010. E há quem pague esta miséria, “naturista”. “Espiritualista”. Um nojo. Os que pagam. Os que pedem.

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Os reaccionários das neo-robinsonadas

Segunda-feira, Abril 19th, 2010

 

Há algum tempo por cá passou investigador patrício. Trazia o meu nome, que lhe tinha sido dado por colegas, e talvez até amigos, comuns. Contacto feito fomos “beber um copo”, jantar até julgo recordar. Na conversa foi dizendo que de quando em vez lia o blog, que era “porreiro” – os blogs, ainda que na sua leveza, são identitários, e nisso convém ser simpático. Depois, na sequência, continuou explicitando que os tais colegas portugueses lhe tinham dito que eu, jpt, era um “tipo porreiro“. “Muito reaccionário” mas porreiro. Engoli o “putaqueospariu” pois não havia ali grande intimidade. Fiz o que me pareceu o sorriso conveniente, o meu amarelo esbatido não se terá notado no negrume da noitada. Para mim, só para mim, resmunguei o “cambada de travestidos para o can-can celulítico das boas-causas“… E lembrei-me agora da conversa (se calhar por ter visto um filme de um “reaccionário”). Fica para o tal investigador, que talvez ainda por aqui passe apesar de regressado à sede, e que até me pareceu um alguém “porreiro” e não “reaccionário”, uma até longa citação, de livro agora lido, cheio de defeitos, desiquilibrado. Mas que aponta os traços fundamentais desses seus colegas, o corpo ideológico, identificando-lhes as suas meras causas, impotentes na auto-análise ou a ela indiferentes, gente apenas “reaccionários das neo-robinsonadas” – e os quais, entenda-se, subsistem como tal e assim querem continuar, cada um pavoneando-se à custa do seu “sexta-feira” – o desindustrializado, desglobalizado. Do qual nunca, mas nunca, querem prescindir. Até para o “defenderem”, pobre indígena …

[Gilles Lipovetsky, Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a Uma Sociedade Desorientada, Edições 70, 2008]

Com o hipercapitalismo desaparece a proeminência do político, característica da antiga modernidade. Actualmente, ninguém se opõe à cultura-mundo do mercado, excepto a coligação desarmónica e heteróclita do altermundialismo, que, como é evidente, não tem capacidade para apresentar uma verdadeira alternativa. Sem doutrina nem teoria geral, agrupando num conjunto heteróclito correntes de pensamento muito diferentes umas das outras, em que terceiro-mundistas se encontram lado a lado com soberanistas, marxistas, trotskistas, ecologistas, católicos sociais, anti-imperialistas e utopistas de todas as cores, a corrente altermundialista apresenta-se como uma frente de recusa cujas críticas não esboçam qualquer solução coerente, qualquer programa susceptível de substituir de maneira construtiva o sistema em vigor. Reunidas na sua maior parte sob a bandeira do anticapitalismo, as suas tropas só existem devido ao capitalismo, que as federa devido à oposição que nelas suscita. Os inimigos da mundialização levantam questões a que não dão qualquer solução efectiva.” (50)

Já não temos a revolução como horizonte histórico, mas mantemos a sua retórica e a sua atitude, que, de resto, convivem bem com o hipercapitalismo de consumo. (…) Alardeando ser uma crítica radical, no fundo não é mais do que a organização do espectáculo “dissidente” a alimentar as páginas dos media. (…) A contestação radical ao capitalismo de consumo, perfeitamente recuperável e recuperada pelo marketing à espreita da criatividade permanente, não serve de contrapeso à cultura-mundo do hipercapitalismo. “(52)

Embora a nossa época se caracterize pelo desenvolvimento de uma nova economia de mercado, também somos testemunhas duma nova época de individualismo.” (58) “Estamos no momento em que estes obstáculos [ao individualismo como fundamento da ordem social e política] foram afastados. Esta é a novidade do nosso ciclo. Tal como há uma desregulação económica que deixa o mercado livre para desempenhar o seu papel com muito menos restrições, também desapareceu, em grande medida, aquilo que funcionava tradicionalmente como um travão à individualização. Os valores hedonistas, a oferta cada vez maior de consumo e de comunicação e a contracultura concorreram para a desagregração dos enquadramentos colectivos (família, Igreja, partidos políticos e moralismo) e, ao mesmo tempo, para a multiplicação dos modelos de existência. Daí o neo-individualismo de tipo opcional, desregulado e não-compartimentado. A “vida à escolha” tornou-se emblemática deste homo individualis desenquadrado, liberto das imposições colectivas e comunitárias … é o hiperindividualismo. Esta nova liberdade de que os indivíduos beneficiam apenas levou ao limite a sua desorientação e, desde logo, no que diz respeito ao domínio político.” (60)

Apagamento das culturas de classe, recuo dos sentimentos de pertença a uma colectividade, fragilização da vida profissional e afectiva, destabilização dos papéis e das identidades sexuais, afrouxamento dos laços familiares e sociais, enfraquecimentos dos enquadramentos religiosos: todos estes factores acentuaram fortemente o sentimento de isolamento dos seres humanos, a sua insegurança interior, as experiências de fracasso pessoal e as crises subjectivas e intersubjectivas. Quanto mais o indivíduo é livre e senhor de si, mais parece vulnerável, frágil e desarmado interiormente.” (68)

A hipermodernidade corresponde também a uma nova época do consumo, assinalada quer pelo processo de individualização, quer pela desregulação. (…)  É por isso que esta personalização vai a par da dessincronização dos usos colectivos: o espaço-tempo do consumo tornou-se o do próprio indivíduo.” (70) “Daí uma maior latitude dos consumidores: paralelamente ao “turbocapitalismo” desregulado e globalizado, afirma-se um “turboconsumidor”, ou seja, um consumidor liberto do peso do ethos, dos hábitos e das tradições ...” (71)

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O meu primeiro dia em Maputo

Quinta-feira, Abril 1st, 2010

Início de Outubro de 1994, ao tempo das primeiras eleições multipartidárias. Cheguei a Maputo, um bafo que ainda lembro, um domingo ao começo da noite, via Joanesburgo onde no aeroporto então Jan Smuts (que viria a ser JHB e depois Oliver Tambo) encontrara por mero acaso o JC, já veterano aqui, de estadias várias e investigação feita. Vinha eu da Bulgária, eram as viagens Lisboa-Maputo na Air Balkan, na ida três dias em Sofia – cidade afinal supra-desinteressante, pude concluir -  mais três na volta, ainda assim bilhetes a dois terços do preço  da TAP, já ao tempo em exploração desabrida das linhas africanas. O meu irmão, em Moçambique há mais de uma década, foi-me buscar a Mavalane e levou-me para casa, ali nos PHs da COOP, então dos melhores prédios da cidade – o que eu pude comprovar na semana seguinte em que aqui fiquei, havia água, elevador parte do dia, e não faltava a electricidade. Do resto que pensei, vi e ouvi já aqui contei.

No dia seguinte não madruguei. Fiquei-me num longo mata-bicho com a minha cunhada e depois do almoço o mais velho foi-me mostrar a cidade, um giro rápido e dado à logística. Começámos pela Mao-Tse-Tung, não pelo consulado mas sim pelos cigarros que se compravam (e compram) ao Estoril (JPS para ele e já não me lembro então quais para mim). Depois fizemos a Nyerere, avisou-me que “para lá é a universidade” mas seguimos cruzando o ex-libris Polana e apontou-me o 720 da avenida, a nossa Embaixada – queria que fosse logo ali falar com o José Capela, lendário adido cultural, referência para quem vinha investigar, de quem eu lera uns livros de história, a quem eu vinha recomendado, e de quem ainda desconhecia o determinante que viria a ser na minha vida. Mas disse-lhe que não, “hoje não“, tinha seis meses à frente, poderia voltar no dia seguinte. Daí que fomos à baixa, bebemos um café no Continental, onde ele distribuía moedas pelos putos, rodeámos a praça, de esguelha vi a Fortaleza, foi-me mostrar o Bazar como se uma atracção turística, depois a praça dos “chapas”, essa que anos depois vim encontrar como a praça da estação dos CFM. Daí voltámos a subir a cidade, chamou-me a atenção para a estátua do Samora (“coreana“, avisou), para a Casa de Ferro, e foi parar na Franca (onde acho que ainda havia inscrições da FNAC, ou será uma falsa memória?), onde os putos de rua lhe chamavam, e nunca percebi porquê, de “francês” (seria o sotaque dele?, estranhamente arrastado e até cantado parecia-me a mim). A Franca que era o “centro comercial” da cidade, avisou, herança dos tempos socialistas, loja em divisas para estrangeiros e membros do partido que tinha sido, vim a saber. De seguida foi-me mostrar o PiriPiri, que havia sido assaltado há dias, com mortos e tudo, e logo ao seu lado o vão-de-escada do Sérgio, um sítio seguro para se trocarem os dolares, muito parcos os meus, lembro bem. Finalmente, e que se lixasse o trabalho nessa tarde, levou-me pela Costa do Sol, um nada construído entre o parque de campismo e o Marítimo, e foi-me mostrar os viveiros de plantas da cidade, julgo que onde agora são as urbanizações sem-qualquer-gosto fronteiros à zona das escolas estrangeiras.

Depois levou-me para casa, não queria que eu andasse a pé pela cidade, temia que fosse eu assaltado logo no primeiro dia e – apesar dos meus trinta anos – que iria ele “dizer à mãe?!”. Não protestei, assumi o papel de mais-novo sob tutela. Ainda por cima porque mal sabia ele (e eu, naquele momento) que nessa mesma noite iria sair com o JC e com AP (que cá vivia, que viria eu reencontrar anos depois, e agora até no facebook) para jantar na Feira Popular, no Zo-Zô, um bordel célebre para todos menos para nós recém-chegados, o qual seria, pensei (e estava certo), dos poucos sítios onde se podia beber um copo à noite num dia de semana na cidade.

Mas antes disso, naquela tarde, quando me levava a uma cerveja rápida no Piripiri – e a apresentar-me a alguns conhecidos ali residentes (pareciam isso) na esplanada – cruzámos uma ruína e confidenciou-me um sonho dele, daqueles que são de dizer mas nunca de fazer: “tivesse eu dinheiro, comprava esta ruína e reabilitava-a“, que gostava da casa e da avenida, uma 24 de Julho então tão sossegada, onde se imaginava a viver, em sítio chão, e perto do pouco de azáfama que lhe faria falta.

Não podíamos adivinhar que, poucos anos depois, eu aqui viria parar. E que haveria mesmo de morar diante daquele seu falso, vá lá, semi-sonho. E que quinze anos depois, quinze anos de ruína militante, a casa seria finalmente vendida, a espera concluída, para que mais um prédio viesse a brotar. Que já aí vai, em cada semana mais um andar. Quinze anos esteve ali a ruína, em sítio nobre. A dar sonhos a alguns. Uns para viver, outros para ganhar. A enorme diferença.

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