Início de Outubro de 1994, ao tempo das primeiras eleições multipartidárias. Cheguei a Maputo, um bafo que ainda lembro, um domingo ao começo da noite, via Joanesburgo onde no aeroporto então Jan Smuts (que viria a ser JHB e depois Oliver Tambo) encontrara por mero acaso o JC, já veterano aqui, de estadias várias e investigação feita. Vinha eu da Bulgária, eram as viagens Lisboa-Maputo na Air Balkan, na ida três dias em Sofia – cidade afinal supra-desinteressante, pude concluir - mais três na volta, ainda assim bilhetes a dois terços do preço da TAP, já ao tempo em exploração desabrida das linhas africanas. O meu irmão, em Moçambique há mais de uma década, foi-me buscar a Mavalane e levou-me para casa, ali nos PHs da COOP, então dos melhores prédios da cidade – o que eu pude comprovar na semana seguinte em que aqui fiquei, havia água, elevador parte do dia, e não faltava a electricidade. Do resto que pensei, vi e ouvi já aqui contei.
No dia seguinte não madruguei. Fiquei-me num longo mata-bicho com a minha cunhada e depois do almoço o mais velho foi-me mostrar a cidade, um giro rápido e dado à logística. Começámos pela Mao-Tse-Tung, não pelo consulado mas sim pelos cigarros que se compravam (e compram) ao Estoril (JPS para ele e já não me lembro então quais para mim). Depois fizemos a Nyerere, avisou-me que “para lá é a universidade” mas seguimos cruzando o ex-libris Polana e apontou-me o 720 da avenida, a nossa Embaixada – queria que fosse logo ali falar com o José Capela, lendário adido cultural, referência para quem vinha investigar, de quem eu lera uns livros de história, a quem eu vinha recomendado, e de quem ainda desconhecia o determinante que viria a ser na minha vida. Mas disse-lhe que não, “hoje não“, tinha seis meses à frente, poderia voltar no dia seguinte. Daí que fomos à baixa, bebemos um café no Continental, onde ele distribuía moedas pelos putos, rodeámos a praça, de esguelha vi a Fortaleza, foi-me mostrar o Bazar como se uma atracção turística, depois a praça dos “chapas”, essa que anos depois vim encontrar como a praça da estação dos CFM. Daí voltámos a subir a cidade, chamou-me a atenção para a estátua do Samora (“coreana“, avisou), para a Casa de Ferro, e foi parar na Franca (onde acho que ainda havia inscrições da FNAC, ou será uma falsa memória?), onde os putos de rua lhe chamavam, e nunca percebi porquê, de “francês” (seria o sotaque dele?, estranhamente arrastado e até cantado parecia-me a mim). A Franca que era o “centro comercial” da cidade, avisou, herança dos tempos socialistas, loja em divisas para estrangeiros e membros do partido que tinha sido, vim a saber. De seguida foi-me mostrar o PiriPiri, que havia sido assaltado há dias, com mortos e tudo, e logo ao seu lado o vão-de-escada do Sérgio, um sítio seguro para se trocarem os dolares, muito parcos os meus, lembro bem. Finalmente, e que se lixasse o trabalho nessa tarde, levou-me pela Costa do Sol, um nada construído entre o parque de campismo e o Marítimo, e foi-me mostrar os viveiros de plantas da cidade, julgo que onde agora são as urbanizações sem-qualquer-gosto fronteiros à zona das escolas estrangeiras.
Depois levou-me para casa, não queria que eu andasse a pé pela cidade, temia que fosse eu assaltado logo no primeiro dia e – apesar dos meus trinta anos – que iria ele “dizer à mãe?!”. Não protestei, assumi o papel de mais-novo sob tutela. Ainda por cima porque mal sabia ele (e eu, naquele momento) que nessa mesma noite iria sair com o JC e com AP (que cá vivia, que viria eu reencontrar anos depois, e agora até no facebook) para jantar na Feira Popular, no Zo-Zô, um bordel célebre para todos menos para nós recém-chegados, o qual seria, pensei (e estava certo), dos poucos sítios onde se podia beber um copo à noite num dia de semana na cidade.
Mas antes disso, naquela tarde, quando me levava a uma cerveja rápida no Piripiri – e a apresentar-me a alguns conhecidos ali residentes (pareciam isso) na esplanada – cruzámos uma ruína e confidenciou-me um sonho dele, daqueles que são de dizer mas nunca de fazer: “tivesse eu dinheiro, comprava esta ruína e reabilitava-a“, que gostava da casa e da avenida, uma 24 de Julho então tão sossegada, onde se imaginava a viver, em sítio chão, e perto do pouco de azáfama que lhe faria falta.

Não podíamos adivinhar que, poucos anos depois, eu aqui viria parar. E que haveria mesmo de morar diante daquele seu falso, vá lá, semi-sonho. E que quinze anos depois, quinze anos de ruína militante, a casa seria finalmente vendida, a espera concluída, para que mais um prédio viesse a brotar. Que já aí vai, em cada semana mais um andar. Quinze anos esteve ali a ruína, em sítio nobre. A dar sonhos a alguns. Uns para viver, outros para ganhar. A enorme diferença.
jpt