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Vinho

Há anos deixei pequena nota sobre este vinho. Encontro agora a mesma atenção no Expresso:

(fotografia de Rui Ochôa)

Mas para que seja uma atenção atenta conviria ler “O Vinho para o Preto” de José Capela (Afrontamento). Ou de como a exportação da zurrapa foi um eixo fundamental do estabelecimento colonial. E das políticas que implicou. E seus efeitos.

Porque sem isso apenas fica o sorriso. Triste.

Já agora, em maré ferroviária, nova reprise:

Catálogo da exposição fotográfica e documental “I Centenário da Ligação Ferroviária Lourenço Marques-Pretória”, e da qual ainda há memória corrente, decerto também porque apresentada em plena estação de Maputo, por altura da efeméride, em 1995. Uma organização do sábio adido cultural português de então José Soares Martins (José Capela, seu pseudónimo como historiador), e realizada pelo incansável António Sopa, do Arquivo Histórico de Moçambique.

General Machado


Se houvesse cinema em Portugal, uma indústria digo, mesmo que de PMEs, a vida do General Joaquim José Machado, iniciador dos caminhos-de-ferro aqui, e também em Angola, estaria representada. Em havendo televisões talvez existam documentários, mas se for o caso desconheço-os. De facto, como homenagem, apenas conheço um busto, meio escondido, na residência do Embaixador de Portugal em Maputo, ali à Mtomoni. E sei que o seu espólio terá sido oferecido ao Arquivo Histórico de Moçambique, mas desconheço trabalhos realizados.

Grande homem do seu tempo, um dos construtores das colónias.

Se há um nome emblemático para o período moderno da presença portuguesa em Moçambique (o período que sucede ao antigo regime e põe o acento nas Obras Públicas) esse nome é o de Joaquim José Machado. Major de engenharia, foi escolhido para chefiar a Expedição das Obras Públicas em Moçambique pelo grande impulsionador da nova política colonial, o ministro Andrade Corvo. Chegou a Lourenço Marques a 7 de Março de 1877. Organizou e instalou os Serviços de Obras Públicas na então Província de Moçambique. Foi a Joaquim José Machado e aos serviços que chefiou que se ficaram a dever algumas das obras mais espectaculares que ainda hoje se observam em Moçambique. As primeiras das quais serão os Caminhos de Ferro e o traçado da cidade de Lourenço Marques. Foi Joaquim José Machado quem elaborou o projecto de ligação ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória e quem dirigiu a sua construção. Entre as muitas outras obras realizadas pela Expedição que chefiava destaca-se o Hospital da Ilha de Moçambique, conjunto de edifícios de particular qualidade arquitectónica e, para a época e lugar, realização de engenharia admirável. Saiu da Colónia de Moçambique no final da missão mas a ela regressaria como Governador dos Territórios da Companhia de Moçambique primeiro e como Governador da Província depois. Então General foi Governador-Geral de Moçambique por três vezes: 1889-1891, 1900, 1914-1915.”

[texto incluído no catálogo “I Centenário da Ligação Ferroviária Lourenço Marques - Pretória” (Embaixada de Portugal, 1995). Não estando assinado presumo que seja da autoria de José Capela]

Sobre o General Machado um bom amigo, que dele descende, contou-me em tempos um episódio. Paul Kruger, que viria a nomear Machadodorp em sua honra, ofereceu-lhe honorários (paralelos) pelo seu trabalho na construção da ligação ferroviária Pretória-Lourenço Marques (Delagoa Bay). E, se se atender a que esta era a época da explosão da exploração de diamantes, tais pagamentos nunca poderiam ser modestos. Ao que o General respondeu, recusando, “O que Portugal me paga é suficiente”.

Dizia o meu amigo, saudavelmente orgulhoso do seu antepassado, e de quem, diga-se, herdou uma bela dignidade, “era um oficial à antiga!”. “Hum, não era”, respondi-lhe, “era um oficial à moderna. Antes os oficiais vinham para África para enriquecer (com todo o tipo de tráfico)”. Concordámos.

Mas nesta evocação é impossível de não referir a minha recentissima releitura, vinte anos depois, de “Os Cus de Judas” de António Lobo Antunes (Círculo de Leitores, 1984):

Conhece o general Machado? Não, não se franza, não procure, ninguém conhece o general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do general Machado, o planeta gira apesar desta ignorância do general Machado, e eu, pessoalmente, odeio-o. Era o pai da minha avó paterna, a qual, aos domingos, antes do almoço, me apontava com orgulho a fotografia de uma espécie de bombeiro antipático de bigodes, dono de inúmeras medalhas que tronavam no armário de vidro da sala juntamente com outros trofeus guerreiros igualmente inúteism mas a que a família parecia prestar uma adoração de relíquias. Pois fique sabendo que durantes anos, aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados pela voz emocionada da avó, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunstância a cumes de epopeia: o general Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzindo na carne o mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me enjoava. E foi precisamente esta criatura nefasta, de que as órbitas globulosas de prefeito ou de cura me reprovavam da parede, recusando-me mesmo a absolvição dúbia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que construiu, ou dirigiu a construção, ou concebeu a construção, ou concebeu e dirigiu a construção do caminho-de-ferro em que seguíamos , de rebenta-minas na dianteira, chocalhando numa planície sem princípio nem termo.…” [Lobo Antunes escreve sobre Angola] (34)

Diferentes olhares. Materiais para muito outros olhares.

O centenário dos CFM

Catálogo da exposição fotográfica e documental “I Centenário da Ligação Ferroviária Lourenço Marques-Pretória“, e da qual ainda há memória corrente, decerto também porque apresentada em plena estação de Maputo, por altura da efeméride, em 1995. Uma organização do sábio adido cultural português de então José Soares Martins (José Capela como historiador), e realizada pelo incansável António Sopa, (d)o Arquivo Histórico de Moçambique.

Já se sabe que mestre Isidoro costuma estar mui bem, a justificar visita regular. E não digo diária porque este é blog nada dado a pressas. Há que o visitar quando há vagares para ficar um pouco, por ali ensaiando a aprendizagem no alentejanar.

Mesmo assim, apesar dessa normalidade excelente, justifica-se o registo de um aprimorado momento. Pelo texto partilhado. Pelo (fundamental) livro recordado.

E porque o seu autor, José Capela, pseudónimo de José Soares Martins, é Homem e Historiador credor das nossas homenagens.

Sai daqui uma vénia para o Isidoro de Machede.