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Uma exposição já antiga

Catálogo, portanto memória, da colectiva “Lisboa-Maputo-Luanda“, acontecida em Lisboa em 2007, na Cordoaria Nacional, associando trabalhos de artistas angolanos, moçambicanos e portugueses. No caso dos artistas moçambicanos demonstrando até algumas peças entretanto tornadas emblemáticas - o meu particular apreço pelo “Conselho de Anciões“, de Anésia Manjate, bela peça com conteúdo muito polémico, e cuja contraposição com a “Máscara” de Marcos Muthewuye é aqui particularmente feliz, indiciando as tensões existentes na leitura artística do actual..

Mas para além da memória (invejosa) de uma exposição o catálogo mantém-se particularmente interessante pelo que dele se recolhe nos textos enquadradores. A justificarem uma reflexão (provavelmente já realizada) sobre as concepções ali representadas e até sobre os efeitos - potenciadores e constrangedores - da integração dos artistas (das várias nacionalidades e contextos)  neste circuito internacional. Mais ainda, as próprias contradições entre os textos denotam as contradições existentes entre os agentes que actuam (controlam?) a recepção artística em alguns cenários internacionais e, assim, algo influenciam a produção.

Um esclarecedor texto de João Lima Pinharanda, “Cabo Não“, reflectindo sobre a história dos ambientes sociopolíticos de produção artística na África aqui representada, traçando uma breve geneologia analítica da emergência de uma autonomia artística. E, lateralmente, deixando algo que parece óbvio mas que é constantemente posto em causa, por consumidores e por oradores: “Nenhum nacionalismo cultural pode estabelecer como objectivo a recuperação de qualquer pureza ou genuinidade original (quer dizer, pré-colonial).” Uma “Evocação de Luanda“, de Alberto Oliveira Pinto, realçando a plasticidade e entrecruzamento das topografias e das simbologias (da topografia simbólica, melhor dizendo), deixando intuir como são (ou podem ser) constantementes reapropriadas (reconstruídas) no discurso artístico.

E ainda dois outros textos, em aparente contraposição. Um interessante “A Geografia do Encontro ou o Re.Desenho do Mundo: Curiosidade, Mercância e Fé“, de José Monterroso Teixeira, que busca recentrar o olhar sobre as artes plásticas internacionais na continuidade do olhar português sobre o mundo, nascido da expansão. E isso assente na recuperação da dicotomia entre o olhar épico de Camões e o olhar negocial (efabulatório, também) de Fernão Mendes Pinto - por outras palavras, a dicotomia entre a “expansão” e o “encontro”. Sendo (devendo ser) o olhar de hoje devedor da verve de Mendes Pinto. Se este debate português é já algo antigo torna-se interessante vê-lo explícito no palco da recepção artística actual, e enquanto proposta de sustentção de um pólo central. [E, num outro plano, é sempre interessante perceber como a reflexão ideológica portuguesa se centra na influência do seu Renascimento, apagando séculos de experiência histórica posterior, dos seus feitos e dos efeitos que os feitos tiveram nas concepções da alteridade. No fundo, uma exigência de depurarmos a memória].

Mas mais importante ainda - até porque os conteúdos específicos da reflexão intelectual portuguesa sobre a sua história (e “identidade”) não serão particularmente importantes para a actividade artística que nos é estrangeira -, pois demonstrando dimensões fundamentais na gestão das interacções artísticas internacionais, é o texto introdutório do próprio comissário da exposição Victor Pinto da Fonseca. Deixa uma declaração de princípios, que parece pacífica, amável até: “… porque só a arte parece ter o poder de inscrever ligações entre países, como verdadeiras pontes.”*

Entenda-se, não estranho apenas a sua difícil (possível?) fundamentação empírica: 

1. afirma uma irredutibilidade “negocial” entre os contextos nacionais, que parece exagerada;

2. afirma uma característica (ontológica) “conversacional” à arte que exige conceptualização fundamentadora, bem como a do deficit das outras actividades neste âmbito.

Mas muito mais do que isso aqui se explicita uma secundarização da arte. E a vontade, a actividade, da sua instrumentalização. Uma arte ao serviço da tal “ligação entre os países”, uma sua politização não no sentido do capital de questionamento que encerra, sim nos efeitos apaziguadores que proporciona.

Enfim, arte pela arte não, sim arte para o diálogo. Um diálogo que se quer apresentar sem ruídos, por via de uma descontextualização radical. Porque sendo “O enfoque do transnacional é o novo paradigma na arte contemporânea, substituindo o pós-moderno.”, o argumento surge como o da sua desterritorialização. Melhor dizendo, associalização: “A exposição não reinvindica um contexto socio-político, antes, convida o espectador a pensar na singularidade de vida de cada artista presente …”. O indivíduo (artista), local e global, em trânsito comunicacional. “Toca algum sino”?

*[Citar trechos de textos é quase sempre deturpá-los à vontade do citador. Infelizmente não os encontrei disponibilizados na internet, para os ligar, permitindo uma leitura nunca truncada. De resto, sobre os textos de que me afasto: a exposição transposta no livro é óptima, donde o comissário fez um bom trabalho, muito para além das frases que aqui pico e pilho. E o texto de J.M. Teixeira é muito interessante e fundamentado, um prazer de leitura.]

Enfiim, não será fundamental discutir os artefactos intelectuais de uma exposição já acontecida há um ano. Mas é interessante visitar o conjunto das obras e atentar nestes caminhos. Enquanto se espera pelos próximos.

[Anésia Manjate, “Conselho de Anciões”, 2005; Cerâmica e Corda de Sisal]

[Gemuce, “Deixa-Andar”, 2005; Esculturas, chapas de zinco, video]

[Jorge Dias, “Neocasulo”, 2005; Camisete, arame, tecidos]

[Marcos Muthewuye, “Máscara”, 2000; Metal]

[Tembo Dança, “sem título”, 2006; Arame farpado, madeira, tecido, plásticos, rede metálica, papel]

Lisboa-Maputo-Luanda, exposição na Cordoaria Nacional em Lisboa. Com moçambicanos, Anésia, Gemuce, Jorge Dias, Marcos Bonifácio e Tembo. Até finais de Abril.

Jorge Dias em Lagos

referi a exposição Zoologia dos Trópicos que Jorge Dias (alguns trabalhos visíveis também na página do ArtAfrica) apresentou com o brasileiro Nelson Leirner em Lagos, Portugal. Do catálogo de então reproduzo agora alguns dos seus trabalhos.

E abaixo incluo ainda crítica de Rocha de Sousa à exposição, publicada no Jornal de Letras de 7 de Dezembro passado (nº 918).

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[”3 bolas”, cerâmica” (2005)]

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[”Neo Casulo”, tecido, linha e insecto de arame (2005)]

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[”Sem Título”, peneiras, insectos de arame e cerâmica e artesanato de madeira (2005)]

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[”Frango Descansando”, frango embalsamado, cadeira de descanso, carvão, grelha e luz eléctrica (2003)]

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[”Sem Título”, peneira de bambu e insectos de arame e sinal de trânsito (2005)]

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[”Caixas”, caixas de cartão revestidas com cerâmica, tecido e jornal (2004)]

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Colectiva

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Está em exposição no Centro Cultural Franco-Moçambicano e hoje, às 18 h, por lá haverá debate sobre mais esta exposição organizada pelo MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique [elo com história do movimento]). Em podendo assistir e participar o desafio é estimulante.

Já por aqui o disse, do interesse e carinho pela emergência do MUVART, das experiências de arte contemporânea que o movimento tem provocado. Num processo que não se esgota nos seus participantes, com particular relevo para o mais-velho Rosa, que até lhe é antecessor. À sua maneira, radicalmente individualista, prosaicamente anti-mercado. Tudo isso provado na sua recente individual, na Casa de Cultura do Alto-Maé, da qual infelizmente não retive nenhuma imagem: não tinha qualquer material de apoio (e eu sem máquina, ali avisado de surpresa), exposição de curta duração, âmbito reduzido. A fazer perder de vista uma mão-cheia de peças bem interessantes, em particular dois “quadros”, falsos mimetismos, de excelência.

Do movimento MUVART mais haverá a dizer, começando a sua internacionalização, desde Jorge Dias em Lagos, Portugal, com 15 peças (ainda em exposição) à hipótese de Gemuce seguir a Dakar. E da participação alargada na colectiva lusófona que António Pinto Ribeiro organiza, e cuja itinerância aqui será inaugurada no Abril. E ainda da próxima grande internacional, a apresentar em Setembro.

Múltiplas razões para acompanhar este andar. Para mim uma muito em especial, para além da amizade: do “desafricanizar” da arte, da ruptura com o que aos artistas aqui é imposto, tanto por mercados de fora como pelos essencialistas de aqui, todos buscando, mercados subalternos ou ideólogos do presente, matéria-prima para discursos ditos identitários.

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Sónia Sultuane: “De Dentro Para Fora”

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David Mbondzo: “Lado A”

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Tembo: “Forma e Conteúdo”

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Muiengua: “Elementos Extruturados” (sic)

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Mouzinho: “Campo Flutuante e Inconsciente do Significado”.

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[grupo, CCF-M, dia da inauguração]

Desta exposição, com curadoria de Jorge Dias, ele ideólogo do movimento, Sónia Sultuane, a poetisa que já colaborou poeticamente na anterior colectiva “Humano”, apresenta o seu primeiro trabalho individual. A mim que me perdoem, palavroso ainda. Mbonzo coloca o trabalho que mais me interessa, visualmente. Mas também como proposta, no que pretende com este “Lado A” “Trago máscaras por serem formas que escondem a verdadeira ou falsa imagem do “eu“”, assim também no não-visual a fugir às dicotomias. Muiengua [e é já altura de acertar em definitivo com a grafia do nome, em cada momento surge diferente] regressa com “Elementos Extruturados” (caramba, não há ninguém que possa fazer a revisão, limpar os erros ortográficos?), que já tinha apresentado e impressionado na colectiva Upanamo na Associação Moçambicana de Fotografia em Agosto. Regressa e prejudica, aumentou a instalação (mais 4 colunas?) mas nada mais. E encerrando a instalação na pequena sala que lhe coube fica um apertado do não-respirar nada voluntário. Algo que lembra o facto do “Franco”, sendo o melhor local cultural da cidade, não ter uma sala de exposições - nesse sentido foi distraído o trabalho de recuperação do edifício e instalação de um centro cultural. Em lado nenhum, e com tanto espaço, se pode expôr com qualidade. Com os jovens Tembo e Mouzinho, tal com Mbonzo ainda alunos da Escola de Artes Visuais e aqui a estrearem-se em exposição, fico desarmado, nada me ocorre para além das discordâncias conceptuais. Talvez o incentivo de quem está a andar, a fazer brotar um processo.

Mas francamente, haverá pior para uma produção do que apenas gabar-lhe o facto de existir? De processuar? Acho que esta é uma encruzilhada para o MUVART, já andou o suficiente para não se justificar apenas o olhar simpático, o incentivo. A colectiva do ano passado, a colectiva Jorge Dias-Gemuce deste ano, puseram a fasquia alta. Chegou a altura de bater. Exigir. Provocar.

(texto retocado, integrando ainda novas ligações)

Jorge Dias em Lagos

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Jorge Dias, um dos mentores do MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique), está em Portugal, apresentando com Nelson Leirner a exposição Zoologia dos Trópicos no Centro Cultural de Lagos, actividade integrada no Faro Capital Nacional de Cultura [o sítio é muito pouco “amigo do utente”]. Até 31 de Dezembro.

Metamorfose, de Jorge Dias

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Jorge Dias, “Metamorfose“, 2003 [técnica mista (jornais, sisal, sapatos), dimensões variáveis]

Ainda que em fraca reprodução (de um separador publicado pelo Museu Nacional de Arte) aqui fica registo de uma obra que é das minhas primeiras memórias de arte contemporânea em Moçambique. Foi apresentada em 2003, naquele Museu, no âmbito de uma exposição colectiva que anunciou o surgimento do Muvart (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique), do qual este artista, também professor na Escola de Artes Visuais, é animador (e ideólogo).

Exposição “Humano”

Inauguração amanhã, 23 de Junho, 18 h., no Museu Nacional de Arte, Maputo. Até 23 de Julho próximo.

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O Jogo Democracia

… é uma obra de arte; tem o sentido real de um jogo inventado a partir de um pretexto artístico; tem regras e pode ser disputado…ilustra ironicamente o sistema político Democrático, reduzindo-o num simples jogo de mesa….

…num dos bairros da Catembe, registei, no meu subconsciente mulheres em movimento. Registei pés apressados cruzando-se e movimentado-se em todas as direcções como se dissessem uns aos outros “deixa-me andar”. Registei também paredes feitas de muitos materiais nas bermas da estrada e numa chapa de zinco a inscrição “deixa andar”….

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Zonas Experimentadas e Limites Opcionais (Zelo)

Tenho-me interessado pelas relações entre os Homens…a forma como se relacionam, nos seus espaços domésticos, de lazer e profissionais…o modo como tratam os objectos que os rodeiam, como os organizam no contexto em que se encontram, no limite das suas capacidades e no meio de muitas carências.

[Excertos de textos dos autores]

Gemuce e Jorge Dias são membros fundadores do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART)…reinvidicam o seu direito a uma prática artística diferente, a utilizar meios e recursos por si escolhidos apropriados ao longo do seu percurso…

Não há mais arte africana senão nos museus ocidentais…O que os Africanos estão a produzir agora em África não é “arte africana”. É apenas arte produzida por pessoas que se consideram … parceiras num mundo que inventam a cada instante” (Hassan Musa)

[excerto de texto de Alda Costa]

Artistas Moçambicanos em Lisboa

Ecos no Público [artigo abaixo transcrito] da presença das representações do Movimento de Arte Contemporânea (Muvart) e da Associação Moçambicana de Fotografia (AMF) no Arte Lisboa, ainda a decorrer.

António Pinto Ribeiro, comissário da Arte Lisboa, cujas deslocações a Maputo têm tido importante impacto no mundo artístico, e quais desejo venham a ser estruturantes [modesta saudação do Ma-schamba], tem toda a razão: “Uma das minhas maiores satisfações é que ambas [AMF, MUVART] voltem a Maputo como galerias profissionais, e com experiência. Acho que isso pode ser muito importante para o mercado da arte local”.

Gemuce e Jorge Dias (Muvart) telefonaram ontem, tudo a andar muito bem, satisfeitos.

Se eu estivesse em Lisboa iria durante o fim-de-semana até à FIL.

Moçambique X 2 na Arte Lisboa
Por VANESSA RATO
Público
Sábado, 20 de Novembro de 2004

Até este ano, nem a Muvart nem a A.M.F. poderiam ter participado na Arte Lisboa pela simples razão de não existirem. Na verdade, as duas galerias moçambicanas que este ano estão na feira, foram fundadas quase expressamente para a vinda a Portugal e com o apoio da organização do próprio evento.

Há pouco mais de seis meses tanto a Muvart como a A.M.F. eram associações sem fins lucrativos - organizavam exposições, mas não transaccionavam arte. A Muvart correspondia a um movimento homónimo de autores contemporâneos que, na maior parte dos casos, tinham estudado em países como a França, a Alemanha, o Brasil e Cuba e que começaram a voltar a Moçambique a partir de 1999. A sigla A.M.F. é a mesma da Associação de Fotógrafos de Moçambique, fundada em 1981 mas praticamente inactiva de meados dos anos 80 a meados da década de 90, período em que o próprio material fotográfico era difícil de encontrar.

“Uma das minhas maiores satisfações é que ambas voltem a Maputo como galerias profissionais, e com experiência. Acho que isso pode ser muito importante para o mercado da arte local”, diz António Pinto Ribeiro, ex-director artístico da Culturgest que este ano comissariou a Arte Lisboa.

Quando em Maio foi convidado para ajudar a feira a estrear um formato especializado em arte e artistas do Sul, a começar por Angola, Cabo Verde, Moçambique e Brasil, Pinto Ribeiro já estava há dez anos a trabalhar nessa área. “Nenhum dos países africanos de língua oficial portuguesa tem um mercado de arte nos moldes da Europa, EUA ou da América Latina”, diz.

Em geral, são os artistas que vendem os seus trabalhos directamente a um comprador e o valor destes é estabelecido em função do perfil de quem os compra. Nessas circunstâncias, seria impossível a presença num evento como a Arte Lisboa, uma feira para galerias profissionais. Parte fundamental do trabalho de comissariado foi, por isso, no terreno: primeiro, a ajudar na fundação das galerias e na criação dos seus estatutos legais, depois a estabelecer os primeiros contactos com apoios financeiros locais para a deslocação a Portugal.

Angola e cabo Verde falharam

Em Angola e Cabo Verde esse trabalho acabou por não dar frutos. Em Cabo Verde haveria apoio político e financeiro, mas para um núcleo de artistas que não o escolhido pela Arte Lisboa. Em Angola não foi dada continuidade aos contactos que a feira tinha ajudado a estabelecer. Segundo António Pinto Ribeiro, muito artistas preferiram mesmo não vir.

Integrados em colecções importantes de África, são artistas cujas obras têm, localmente, uma cotação entre os 40 mil e os 60 mil euros. O confronto com o mercado e a massa crítica da Europa levaria, provavelmente, a uma descida desses valores. Daí a recusa, que foi também a resposta de alguns artistas moçambicanos.

Em Lisboa, a Muvart tem representados sete dos seus 11 associados mais quatro artistas convidados. Dois têm mais de 50 anos, mas, a maioria está nos 30. “Conhecemo-nos todos, temos as mesmas preocupações”, diz Jorge Dias, um dos dois responsáveis pela galeria mas também um dos artistas.

Entre obras de escultura, desenho, pintura e instalação há trabalhos muito diferentes. Na peça de chão “Passas-te por aqui?”, de Anésia Manjate e a mais cara em exposição (mil euros), uma espiral de búzios sobre pires de cerâmica queimados explora a influência da tradição na contemporaneidade - apropria-se de elementos usados na medicina e rituais tradicionais africanos para lhes conferir um novo estatuto, reinterpretando-os. O olhar de Marcos Muthwuye é mais irónico: a partir de formas reconhecíveis do quotidiano ou da arte tradicional africana constrói símbolos, como antenas parabólicas, num comentário aos paradoxos da realidade de um país em vias de desenvolvimento.

Só no primeiro dia da feira, a galeria vendeu sete trabalhos, entre os quais dois do mais jovem e surpreendente artista representado, Pinto, de 23 anos, que tem exposta uma série de desenhos de carga negra e profusão de elementos surrealizante (200 euros cada). Com um perfil muito diferente, dedicando-se exclusivamente à fotografia, a A.M.F. também já vendeu trabalhos.

Bito Macovela, um dos fotógrafos da associação, é responsável pelo “stand”. Segundo explica, apesar das tentativas, a galeria não conseguiu apoios e teve que custear a vinda a Portugal, com excepção da sua viagem, paga pelo Instituto Camões. Fora o preço do “stand” na feira, houve toda a produção das fotografias, que são impressas na África do Sul. Muitas acabaram por viajar na sua bagagem de mão e por isso não estão emolduradas e sim empilhadas sobre uma mesa.

São, no geral, trabalhos muito ligados à tradição do fotojornalismo e virados, essencialmente, para temas do quotidiano. Os trabalhos a cor são uma excepção recente e prática mais comum a autores mais jovens. Os que venderam até agora foram, contudo, fotógrafos mais velhos, como Martinho Fernando e Mueche mas os valores, aqui, não estão cotados pelos nomes dos autores - estabeleceram-se valores de 350 e 450 euros para formatos maiores e mais pequenos