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A capa do “Setentrião” (Ndjira/Caminho), cujo convite para o lançamento depois de amanhã, na AEMO, pelas 18 h., abaixo divulguei. Divulgando assim convite para a leitura destes contos disso merecedores.

E como amostra deixo também naco demiúrgico:

… o senhor Rachid mete a dita tesoura, afiadissima, que com um som povoado de aveludados erres corta o pano macio - um bocado para um lado, outro para o outro, já imprestável ou prestável para fim diverso que não descortinamos - e percorre-nos um calafrio, como se ao cortar o pano a tesoura nos estivesse cortando a nós, e o senhor Rachid sorri, compadecido dessa nossa preocupação.

Não se preocupe, cliente, que isto que estou a separar é para tornar a ligar depois, de uma nova e necessária maneira; não se preocupe que não o deixarei com as pernas separadas do tronco. Tudo o que separo agora é para unir depois, dessa nova e necessária maneira, de forma a que possa sair daqui levando na mesma o pano que trouxe, antes espalmado e vulgar, agora transformado em obra de arte em três dimensões…”

(”O Pano Encantado“, p. 17)

Setentrião, de João Paulo Borges Coelho

Livro de contos, primeiro dos dois volumes de “Índicos Indícios“, cuja edição moçambicana (Ndjira) será lançada na Associação de Escritores Moçambicanos na próxima quarta-feira, 25 de Maio, às 18 h. Apresentação do livro por Fátima Mendonça.

Lembro-me que ao anunciar o último lançamento deste autor (As Visitas do Dr. Valdez) aqui aventei a hipótese de um copo final e tal não ocorreu. Assim sendo aviso os que desconhecem o local que pelo menos na AEMO há um aprazível bar-esplanada (e restaurante), o que possibilitará o tal copo. Ainda que o paguemos.

E assim sendo

Durante esta semana está a ser lançado em Portugal o novo livro (de contos) de João Paulo Borges Coelho, “Setentrião” (Caminho).
Em Moçambique daqui a algum tempo, presumo. As editoras Caminho e Ndjira já deviam ter oleado os lançamentos, sabendo que os prémios literários moçambicanos mais importantes prejudicam quem não é lançado primeiro aqui. E não custaria nada antecipar o lançamento nacional. Até porque Borges Coelho é, na minha modesta opinião (ainda por cima de amigo), o grande nome da prosa moçambicana.
A ver se este post chega a algum responsável.

Banda Desenhada de João Paulo Borges Coelho

Nota para recordar antiguidades da banda desenhada moçambicana, e para reconhecidamente agradecer ao Machado da Graça a oferta de um rarissimo exemplar de uma das obras, bem como da fotocópia de uma outra.

Esgotadissimos estão ambos os livros, da autoria de João Paulo Borges Coelho, esse historiador que aqui tenho referido várias vezes a propósito da sua recomendável recente faceta literária.

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Akapwitchi Akaporo. Armas e Escravos, Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1981.

Um livro sobre as guerras do Marave, recuperando a resistência no norte de Moçambique à ocupação portuguesa no final de XIX. Lendo-se hoje tem também a (normal) impressão digital do seu tempo, a da construção de uma memória histórica que se queria nacional, por via da resistência anti-colonial. Mas tem também uma poesia, algo de melancolia nostálgica, dir-se-ia prattiana, a emoldurar o olhar do tempo. E assim a fazer-nos aderir à obra, ainda para mais sabendo-a assumidamente amadora.

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Esta foi a primeira publicação na colecção “Banda Desenhada” editada pelo INLD. É interessante recuperar o texto introdutório, apresentação da colecção, então ainda sentindo necessidade de valorizar a Banda Desenhada face às ideias desvalorizadoras da arte que se fariam sentir. E de notar também a dimensão da edição, 20 000 exemplares. Outros tempos! Quem publicará tamanha edição de banda desenhada no hoje em dia.

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No Tempo do Farelahi, Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1984 [o autor assina apenas João Paulo]

Recuperando a expedição de Mouzinho de Albuquerque à então província de Moçambique, baseado na Ilha, e a resistência que lhe foi oposta. Uma temática semelhante à anterior, uma narrativa ainda mais aventurosa.

Do mesmo autor há ainda um 3º livro, “Namacurra“, recuperando a extraordinária epopeia da I Guerra Mundial em Moçambique, cruzada com o mundo dos Prazos zambezianos, centrada nessas espantosas personagens que ali foram aparentemente dominantes, as “Donas”. Deste trio é o meu preferido. Tive (ou será que ainda tenho?) fotocópia de original, ofertada pelo autor, também ele desprovido de exemplares de reserva.

Mas algum amigo levou-o de empréstimo, e recentemente, para o (re)fotocopiar e ter-se-á esquecido de o devolver. Esqueceu-se ele de mo entregar, esqueci-me eu a quem o emprestei. (Já sabes, se leres o Ma-Schamba traz lá a modesta cópia do livro, que me faz muita falta ao prazer). Portanto, se algum vizinho visitante tiver exemplar desse “Namacurra” faça o favor de mo emprestar, sob palavra de honra que o devolvo depois de cuidadosamente fotocopiado. E se tiver algum excedentário para oferta a um gostador, saiba da minha predisposição (gulosa) para ser ofertado.

Adenda post-blog: abro o email e tenho notícias do Machado da Graça relativa a este texto. Aqui o cito,

A tua referência ao Pratt, a propósito do João Paulo, lembra-me uma história:

Seria 1980 ou 1981 e o Instituto Nacional do Livro e do Disco, de que eu era director adjunto, foi convidado a estar presente na Feira do Livro Infantil de Bolonha, Itália. Fui lá, com um colega da área comercial, e montamos o estaminé. O ponto forte da decoração eram as páginas, em formato grande, do Armas e Escravos do João Paulo. À falta de muita coisa para expor as páginas forravam as paredes do nosso local.

Num dos dias da feira vejo aproximar-se um fulano baixo, gordito, que pára e fica a ver as páginas. Era o próprio Hugo Pratt. Viu-as, demoradamente, e comentou qualquer coisa como: “bastante bom. Este tipo tem futuro”. Após o que seguiu o seu caminho.

A respeito do Namacurra não houve livro nenhum. Saiu num dos números do jornal Kurika. Se te portares bem (me ensinares a por o contador de visitas no blog e aturares outras minhas ignorâncias…) dou-te uma fotocópia.

Lançamento da edição Ndjira do romance “As Visitas do Dr. Valdez“, de João Paulo Borges Coelho no auditório da Rádio Moçambique, dia 9, 5ª feira, às 17 horas. O livro será apresentado por Almiro Lobo.
Estamos todos convidados. Presumo, mas nada mais do que expectativa, que durante e após a sessão de autógrafos haverá uma incursão ao reino da chamussa acompanhada de alguns short drinks. Quantos bloguistas estarão lá?

Até lá, então. Ou até então, lá.

Adenda

No As Visitas do Dr. Valdez coloquei em adenda texto e entrevista que entretanto saíram no suplemento Mil Folhas.

Adenda à Adenda: E aqui transcrevo (para não inchar o post anterior) nota sobre o livro, publicado no suplemento Actual do jornal Expresso.

Memórias do futuro
Expresso, 17.10.04
DÓRIS GRAÇA DIAS

Uma obra onde as premonições são do género feminino

A História ensina-nos que não há colonialismos gloriosos. E os aspectos culturais da História fixam as épocas coloniais num tempo em que o mundo exterior era eminentemente masculino. A palavra colono não tem género, mas a vogal final, aparentemente, exclui as mulheres das acções que construíram aquele universo. Não que estivessem ausentes do mesmo, mas porque se apresentam como figuras secundárias reduzidas ao espaço dos ambientes domésticos. Colonialismo, na sua acepção lata, enquanto controlo repressivo de um povo por outro, é nos homens que tem os protagonistas activos. Ocuparam, mandaram, decidiram, definiram, exploraram, destrataram, castigaram, «educaram», e as mulheres, as esposas, as companheiras estavam ali, ao lado, observando passivamente estas práticas e beneficiando do «respeito» conquistado. Quando os maridos fogem ou morrem e elas se vêem sozinhas, o «respeito» conquistado mantém-se e a vida, ainda que mais solitária, pode prosseguir em ambiente colonial propício. É num cenário como este que as duas figuras femininas de As Visitas do Dr. Valdez se movem, acompanhadas pelo respectivo mainato (criado) herdado, o qual servirá para manter a memória de um tempo em que as presenças masculinas configuravam um qualquer conceito colonial. Ainda que minado por uma ideia de superioridade-inferioridade, este trio espelha a possibilidade de estabelecer laços afectivos para lá da distinção de raças e posições de força.

Estas duas mulheres e o seu criado - elementos frágeis de um sistema em fase de desconstrução - são a metáfora da morte lenta, mas inevitável, do universo colonial. Entretanto, chegados os reflexos de revoluções distantes que condicionam novas realidades nacionais, a natureza desbasta as existências e as duas mulheres passam a uma (e o seu criado).

Há franjas de miscigenação que circunstâncias económicas e emocionais conformam às novas Repúblicas/Estados, e que o tempo do mundo assimila e sedimenta. Outras, nem a memória já as justifica. Regressa-se de onde se partiu, derrotado, como se nada tivesse valido a pena, personagem dispensável para o decurso do mundo, das épocas e da inevitabilidade da História.

As Visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho, Caminho, 2004, 222 págs., €12,60


João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez, Caminho, 2004

Do coqueiral do Mucojo (onde, na minha opinião, realmente tudo o que será tudo se passa) e do Ibo até à Beira, essa “onde as pessoas circulam sem que se saiba a quem pertencem”, vê-se o estertor do Império no final das já velhas filhas de Ana Bessa - “mulher do Ibo”, essa sim - Sá Caetana e Sá Amélia, ali ombreadas por Vicente, esse jovem que se transmuta em Dr. Valdez para os breves e fantasmagóricos regressos de uma velha ordem. Coisa erótica, parece-me eu, ordem e livro muito eróticos. De certa maneira, de certa maneira…

*****

Estive lá em Lisboa no lançamento, ainda bem. Deu para encontrar o Patraquim, que não via há anos, bebeu-se um ou outro gin, a maldizer a vidinha enquanto se saudava a vida, e sabe-se lá porquê acabámos no Porto, o vinho claro está. E deu ainda para (re)conhecer um tal “de Machede”, ilustre bloguista, também apreciador desta prosa, e do prosador. Que valem muito a pena. Quanto à prosa já anda pelos escaparates lisboetas. Não tanto por aqui. A ver se chega.

Já agora, As Duas Sombras do Rio,

o primeiro atrevimento deste género do JPBC, que já aqui elogiei menos que o suficiente, foi agora reeditado, esgotado que estava.

O caro visitante aproveite a dose dupla, se assim o entender.

Adenda: consta-me que o último Mil Folhas dá relevo ao lançamento e seu autor. [Em baixo anexo texto e entrevista]

O Fim do Império Português Público
Sábado, 09 de Outubro de 2004

Jorge Heitor

Uma infinita tristeza é o que nos domina no fim da leitura do romance “As Visitas do Dr. Valdez”, no qual João Paulo Constantino Borges Coelho, professor na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, nos conta a estória de duas velhas senhoras e de um seu empregado, nos tempos finais do império colonial português em Moçambique.

A irreversibilidade da história, que faz uns países encurtarem-se e outros nascerem, ao sabor dos séculos, está aqui retratada de forma magistral por um investigador que nasceu em 1955 na cidade do Porto mas optou pela nacionalidade moçambicana, tendo já o ano passado publicado a sua primeira obra de ficção: “As Duas Sombras do Rio”, também ela sobre guerra e sobrevivência, memória e presente.

Com “As Visitas”, ilustradas por Ivone Ralha, com base numa máscara de “mapiko”, das cerimónias de iniciação dos jovens macondes, das terras altas do Nordeste moçambicano, na província de Cabo Delgado, João Paulo Borges Coelho fala-nos de amos e criados, de amores e conflitos, da ilha do Ibo e da cidade da Beira.

Para todos aqueles que um dia viveram numa fazenda em África, ou que se criaram à beira de um coqueiral, de um palmar, e que depois tiveram de fazer a mala e partir, este é um livro de saudade, pelo que foram outrora, no antigamente do tempo. E para os que não andaram por lá no século passado uma forma de talvez começarem a compreender um pouco os grandes traumas do fim da pátria multicontinental e do regresso ao velho torrão lusitano.

Caetana, Amélia e Vicente são as mais recentes criações da literatura moçambicana de raiz portuguesa, para que se perceba como é que os jovens países africanos estão agora a ser criados a partir da realidade, quiçá opressiva, que neles se vivia há 35 ou há 40 anos, durante as lutas pela independência.

As duas velhas senhoras eram o produto de um cruzamento de sangues, de culturas; representavam ali o passado em vias de extinção. O rapaz, negro, era o futuro, ainda incipiente, sem saber muito bem o que é que o esperava.

“Acontecia tudo tão depressa!” Era o 25 de Abril, os acordos de paz negociados em Lusaca, a debandada dos colonos, a proclamação de uma nova República… o consulado de Samora Moisés Machel e seus companheiros.

ENTREVISTA

A Actividade Científica É Apenas Uma das Maneiras de Dar Conta da Realidade
Sábado, 09 de Outubro de 2004
Jorge Heitor

João Paulo Constantino Borges Coelho, doutorado em História Económica e Social pela Universidade de Bradford, no Reino Unido, é um dos muitos intelectuais moçambicanos que têm as suas raízes fora da África Austral e que assim conseguiram enriquecer o espólio cultural da jovem nação, em cujos pergaminhos coexistem um Mia Couto e um Malangatana, um Craveirinha e um Aquino de Bragança.

PÚBLICO - O que é que faz com que uma pessoa nascida em Portugal opte por uma nacionalidade africana?

BORGES COELHO - O nascimento no Porto foi um acaso. Fui para Moçambique com alguns meses, de modo que, de alguma maneira, nasci lá. Pertenço a uma família muito dividida, no sentido em que o meu pai é daqui, mas a minha mãe é de lá. E foi lá que tive consciência de mim.

P. - Como é que recebeu o 25 de Abril e a independência de Moçambique?

R. - Em princípios de 73 vim estudar para Lisboa, tendo regressado a Moçambique dois meses depois da proclamação da independência (em 1975). Fiz um percurso ao contrário do normal. Era uma altura de grandes dificuldades, mas também de grande entusiasmo. Havia um projecto social, do ponto de vista de construir um país. Foi uma época de grande entusiasmo.

P. - Como é que evoluiu o mundo académico em Moçambique?

R. - A universidade era ainda um espaço de elite, herdado do período anterior; mas foram tempos muito positivos, na medida em que Moçambique era uma experiência nova, que despertava muita curiosidade entre os intelectuais. Na área das Ciências Sociais, beneficiámos da visita de grandes académicos da França, dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido. Era um período de grande debate intelectual. Uma zona privilegiada, a universidade, apesar das dificuldades. A partir da década de 80, as coisas tornaram-se um pouco mais complicadas, em termos de recursos. Mas passa por aí também a autonomia da própria universidade, como espaço de pensamento.

P. - Não tem sido particularmente difícil ter uma vida académica num país bastante pobre?

R. - A universidade foi sempre tida como um espaço importante. Paradoxalmente, é nos tempos mais recentes que as suas dificuldades se acentuam, porque a rota natural da massificação traz consigo problemas em relação à qualidade. Talvez não seja actualmente encarada como tão importante como o foi no passado. Aumentou imensamente o número de estudantes na Eduardo Mondlane, que era praticamente a única; e agora já há em Moçambique muito mais universidades, tanto estatais como privadas.

Pouca influência sul-africana

P. - Grande influência das universidades sul-africanas?

R. - Curiosamente, não. É agora que procuramos estabelecer mais pontes. Até 1992/1993, havia uma grande barreira. Era mais do que um oceano ou do que um continente a separar-nos. O Centro de Estudos Africanos era uma excepção e em grande medida funcionava com académicos sul-africanos no exílio (como Ruth First).

P. - Para além da carreira de investigador, chegou a fazer banda desenhada e dedicou-se ultimamente ao romance.

R. - Envolvi-me muito na área da História Contemporânea, mas sempre tive claro que a actividade científica é apenas uma das maneiras de dar conta da realidade. A literatura é um processo importante de interpretar aquilo que nos cerca.

P. - Que influências é que teve na sua escrita?

R. - Sempre li tudo o que me chegou às mãos, procurando não me ligar directamente a nenhum tipo de influência, mas fazer antes com que fosse um resultado de uma amálgama. Os clássicos europeus, alguma literatura africana. Lembro-me particularmente de António Quadros, pintor, escritor, homem de sete ofícios, que teve grande influência em mim. A poesia de Craveirinha, que era uma forma de racionalizar aquele presente.

P. - Que obra é que tem agora mais avançada, para próxima publicação?

R. - Um conjunto de narrativas extensas, que se desenvolvem ao longo de toda a costa de Moçambique, de 2500 quilómetros, virada para o Índico, um espaço de cruzamento de rotas, muito complicado. Um projecto que procura dar conta da alma de cada lugar, ao longo da costa. Corresponde a um caminhar do Sul até ao Rovuma, à fronteira com a Tanzânia.

P. - Como é que está a literatura moçambicana?

R. - Está numa falsa crise, numa encruzilhada. Havia um tipo de literatura, nichos muito restritos; e tenho esperança de que brevemente seja possível um novo período, com muita gente a escrever, novos ângulos, novas maneiras de dar uma realidade que temos hoje, muito complexa, mais complexa do que tudo o que vivemos desde a proclamação da independência, com uma muito maior curiosidade sobre o que hoje se passa no mundo. Vivemos uma espécie de transição arrastada.

P. - Alguém terá dado já como morta a literatura que se fazia nos últimos dez anos?

R. - Houve um período de relativo amadurecimento, em duas vagas. E um factor que me parece muito importante é a existência cada vez mais nítida de uma crítica literária importante, com nomes como Fátima Mendonça, Gilberto Matusse, Francisco Noa, Almiro Lobo… O que é importante para favorecer o surgimento de uma literatura mais consistente, consolidada e alargada. Mas infelizmente é ainda uma literatura muito de Maputo e um pouco da Beira, com pequenas iniciativas em cidades como Quelimane e Inhambane.

Do marxismo ao seu oposto

P. - Já estamos muito longe de um país que foi criado com base nas doutrinas marxistas?

R. - Estamos talvez no campo oposto. Houve uma grande abertura em termos políticos, com o acordo de paz de 92. As questões são mais complexas e os desafios tão grandes ou ainda maiores do que nos primeiros anos. O futuro resultará de um debate intenso de diferentes pontos de vista.

P. - O aumento dos valores macroeconómicos não correspondeu a um bem-estar geral.

R. - Em certo sentido, as assimetrias até são mais acentuadas do que nunca. Há um grande dinamismo na construção de elites; mas há também grande número de moçambicanos a sobreviver nas margens. A pobreza está muito longe de ser erradicada. É o resultado de uma ordem neoliberal que prevalece a nível internacional e que nos entra pelas portas e pelas janelas e que não conseguimos suster.

P. - Há muito a fazer, no sentido de tornar mais homogénea a sociedade moçambicana?

R. - Há a diferença clássica entre a cidade e o campo. Há diferenças entre um Sul relativamente mais desenvolvido e um Centro e Norte ainda muito na margem e que é preciso integrar. A parte meridional do país, mais próxima da África do Sul, está mais dotada de infra-estruturas, enquanto o Norte sofre muito com a actual crise no Zimbabwe.

P. - Como vai o trabalho de alfabetização?

R. - Já se fez melhor. O regime socialista, porventura mais autoritário, tinha políticas sociais mais nítidas, no campo da saúde e da educação. Agora, no regime neoliberal, o índice de analfabetismo é porventura maior do que já foi no passado. E o mercado para a literatura é ainda muito frágil.


Já aqui falei várias vezes deste “As Duas Sombras do Rio” de João Paulo Borges Coelho, edições Caminho/Ndjira do ano passado. Pois ainda que saiba que a amizade tolhe o entendimento não tenho, ainda assim, nenhum pejo em afirmar a minha opinião, a de que é a melhor ficção moçambicana.

As duas boas notícias do dia foram:

a. o livro está tecnicamente esgotado (ou seja poder-se-á ainda encontrar algum exemplar nas livrarias, mas não há para reposição), o que em apenas um ano é de assinalar para uma primeira obra. Ainda por cima porque não foi alvo de particular promoção, nem em Moçambique nem em Portugal. (E porventura tê-la-ia merecido).

b. vai ser reeditado. A ver se deste mais promovido (já que vem aí segundo livro lá para o fim do ano “As visitas do dr. Valdez” [?]. E se a Ndjjira faz bastantes exemplares, que há-de ser procurado aqui. E, aposto, o mesmo lá pelo Portugal.

E assim sendo, um aviso amigo ao visitante interessado. Compre e leia. Se não gostar proteste aqui no Ma-schamba. Diga-me nepotista.

As Duas Sombras do Rio, de João Paulo Borges Coelho. Uma edição simultânea Ndjira/Caminho de 2003.
Uma primeira obra ficcional que é, em minha opinião, a melhor prosa de toda a literatura moçambicana. Um cruzar de personagens sobre o Zambeze, um cruzar de contista com cinema. E, já agora, sem realismo mágico. Inventei-lhe um magicismo realista que muito mais me dá (a mim claro, falo só de mim) prazer.
Sobre este livro aqui tombou, com a excepção do texto do Francisco Noa à altura da sua apresentação, um radical silêncio. Interessante, mas nada intrigante, coisas da sociologia. Mas vai-se vendendo o que indicia o mais importante: vai-se lendo.
Gosto imenso do começo, aqui o transcrevo. E é um despudorado aviso às visitas para que vão ler o livro, se ainda o não fizeram:
Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu azul brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas - tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto
Dentro de uns meses será editado um segundo livro, “As Visitas do dr. Valdez”. Ainda melhor, se se pensar em consistência literária. E um belissimo traçado sobre o final de uma era, sem o ser ostensivamente, uma bela maneira de avançar sobre as coisas.

Autores de Moçambique

Em Portugal José Moreira tem sido um constante divulgador do que se produz em Moçambique, para isso bem usando o Expresso. Só agora me chega um exemplar velho de um mês (e como envelhecem os jornais, encerrados em tão urgentes e fundamentais factos) onde refere, e elogia, “As Duas Sombras do Rio” de JPBC, que bem o merece. Mas não lhe deixo de detectar, ainda que ali subreptícia, a queda para a dicotomia, que não só nele grassa, a vertigem em opôr os dois escritores moçambicanos, brancos, beirenses, quarentões, uns “ai, eu gosto mais do…do que do..”. Pensamento bipolar, que empobrece.

E já agora, tanto nele como noutros, porquê tanta angústia com quem escreve “desconseguir”, numa língua que se desdobra em “desfazer”, “desmontar”, “desenraizar”, “desenrolar”? Que “desprazer” é esse? Será desconsideração? Ou desprezo? Ou apenas desafecto? Ou, afinal, desatenção? Goste-se ou não dos livros que não seja pelo “desconseguir” entender o que não é assim tanto “forçado exotismo linguístico” (Moreira dixit, friso).

Chega por agora, vou ler, Aquilino Ribeiro hoje, que estou em maré de exotismos.

Escolhas de fim de ano

Até no meio das Amstels levo com as respectivas escolhas sobre as “personalidades do ano” e outros eventos tais quais. Mas a mais deliciosa ainda é a escolha da secção cultural do jornal “Savana”: eles mesmos. Fantástico jornal. E já nem falo de quem lhes acha o cronista social a “personalidade moçambicana do ano”. Coisas dos diferentes húmus, decerto.

Mas enfim, também tenho opinião. Para mim os objectos do ano são “As duas sombras do rio”, livro escrito por João Paulo Borges Coelho, e “O amor vive-se nú”, uma delícia de Ídasse, e cuja “Protegida” veio ter comigo, em princípio para sempre.

Repito, ainda que democrático:coisas dos diferentes húmus, decerto.