João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez, Caminho, 2004
Do coqueiral do Mucojo (onde, na minha opinião, realmente tudo o que será tudo se passa) e do Ibo até à Beira, essa “onde as pessoas circulam sem que se saiba a quem pertencem”, vê-se o estertor do Império no final das já velhas filhas de Ana Bessa - “mulher do Ibo”, essa sim - Sá Caetana e Sá Amélia, ali ombreadas por Vicente, esse jovem que se transmuta em Dr. Valdez para os breves e fantasmagóricos regressos de uma velha ordem. Coisa erótica, parece-me eu, ordem e livro muito eróticos. De certa maneira, de certa maneira…
*****
Estive lá em Lisboa no lançamento, ainda bem. Deu para encontrar o Patraquim, que não via há anos, bebeu-se um ou outro gin, a maldizer a vidinha enquanto se saudava a vida, e sabe-se lá porquê acabámos no Porto, o vinho claro está. E deu ainda para (re)conhecer um tal “de Machede”, ilustre bloguista, também apreciador desta prosa, e do prosador. Que valem muito a pena. Quanto à prosa já anda pelos escaparates lisboetas. Não tanto por aqui. A ver se chega.
Já agora, As Duas Sombras do Rio,

o primeiro atrevimento deste género do JPBC, que já aqui elogiei menos que o suficiente, foi agora reeditado, esgotado que estava.
O caro visitante aproveite a dose dupla, se assim o entender.
Adenda: consta-me que o último Mil Folhas dá relevo ao lançamento e seu autor. [Em baixo anexo texto e entrevista]
O Fim do Império Português Público
Sábado, 09 de Outubro de 2004
Jorge Heitor
Uma infinita tristeza é o que nos domina no fim da leitura do romance “As Visitas do Dr. Valdez”, no qual João Paulo Constantino Borges Coelho, professor na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, nos conta a estória de duas velhas senhoras e de um seu empregado, nos tempos finais do império colonial português em Moçambique.
A irreversibilidade da história, que faz uns países encurtarem-se e outros nascerem, ao sabor dos séculos, está aqui retratada de forma magistral por um investigador que nasceu em 1955 na cidade do Porto mas optou pela nacionalidade moçambicana, tendo já o ano passado publicado a sua primeira obra de ficção: “As Duas Sombras do Rio”, também ela sobre guerra e sobrevivência, memória e presente.
Com “As Visitas”, ilustradas por Ivone Ralha, com base numa máscara de “mapiko”, das cerimónias de iniciação dos jovens macondes, das terras altas do Nordeste moçambicano, na província de Cabo Delgado, João Paulo Borges Coelho fala-nos de amos e criados, de amores e conflitos, da ilha do Ibo e da cidade da Beira.
Para todos aqueles que um dia viveram numa fazenda em África, ou que se criaram à beira de um coqueiral, de um palmar, e que depois tiveram de fazer a mala e partir, este é um livro de saudade, pelo que foram outrora, no antigamente do tempo. E para os que não andaram por lá no século passado uma forma de talvez começarem a compreender um pouco os grandes traumas do fim da pátria multicontinental e do regresso ao velho torrão lusitano.
Caetana, Amélia e Vicente são as mais recentes criações da literatura moçambicana de raiz portuguesa, para que se perceba como é que os jovens países africanos estão agora a ser criados a partir da realidade, quiçá opressiva, que neles se vivia há 35 ou há 40 anos, durante as lutas pela independência.
As duas velhas senhoras eram o produto de um cruzamento de sangues, de culturas; representavam ali o passado em vias de extinção. O rapaz, negro, era o futuro, ainda incipiente, sem saber muito bem o que é que o esperava.
“Acontecia tudo tão depressa!” Era o 25 de Abril, os acordos de paz negociados em Lusaca, a debandada dos colonos, a proclamação de uma nova República… o consulado de Samora Moisés Machel e seus companheiros.
ENTREVISTA
“A Actividade Científica É Apenas Uma das Maneiras de Dar Conta da Realidade“
Sábado, 09 de Outubro de 2004
Jorge Heitor
João Paulo Constantino Borges Coelho, doutorado em História Económica e Social pela Universidade de Bradford, no Reino Unido, é um dos muitos intelectuais moçambicanos que têm as suas raízes fora da África Austral e que assim conseguiram enriquecer o espólio cultural da jovem nação, em cujos pergaminhos coexistem um Mia Couto e um Malangatana, um Craveirinha e um Aquino de Bragança.
PÚBLICO - O que é que faz com que uma pessoa nascida em Portugal opte por uma nacionalidade africana?
BORGES COELHO - O nascimento no Porto foi um acaso. Fui para Moçambique com alguns meses, de modo que, de alguma maneira, nasci lá. Pertenço a uma família muito dividida, no sentido em que o meu pai é daqui, mas a minha mãe é de lá. E foi lá que tive consciência de mim.
P. - Como é que recebeu o 25 de Abril e a independência de Moçambique?
R. - Em princípios de 73 vim estudar para Lisboa, tendo regressado a Moçambique dois meses depois da proclamação da independência (em 1975). Fiz um percurso ao contrário do normal. Era uma altura de grandes dificuldades, mas também de grande entusiasmo. Havia um projecto social, do ponto de vista de construir um país. Foi uma época de grande entusiasmo.
P. - Como é que evoluiu o mundo académico em Moçambique?
R. - A universidade era ainda um espaço de elite, herdado do período anterior; mas foram tempos muito positivos, na medida em que Moçambique era uma experiência nova, que despertava muita curiosidade entre os intelectuais. Na área das Ciências Sociais, beneficiámos da visita de grandes académicos da França, dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido. Era um período de grande debate intelectual. Uma zona privilegiada, a universidade, apesar das dificuldades. A partir da década de 80, as coisas tornaram-se um pouco mais complicadas, em termos de recursos. Mas passa por aí também a autonomia da própria universidade, como espaço de pensamento.
P. - Não tem sido particularmente difícil ter uma vida académica num país bastante pobre?
R. - A universidade foi sempre tida como um espaço importante. Paradoxalmente, é nos tempos mais recentes que as suas dificuldades se acentuam, porque a rota natural da massificação traz consigo problemas em relação à qualidade. Talvez não seja actualmente encarada como tão importante como o foi no passado. Aumentou imensamente o número de estudantes na Eduardo Mondlane, que era praticamente a única; e agora já há em Moçambique muito mais universidades, tanto estatais como privadas.
Pouca influência sul-africana
P. - Grande influência das universidades sul-africanas?
R. - Curiosamente, não. É agora que procuramos estabelecer mais pontes. Até 1992/1993, havia uma grande barreira. Era mais do que um oceano ou do que um continente a separar-nos. O Centro de Estudos Africanos era uma excepção e em grande medida funcionava com académicos sul-africanos no exílio (como Ruth First).
P. - Para além da carreira de investigador, chegou a fazer banda desenhada e dedicou-se ultimamente ao romance.
R. - Envolvi-me muito na área da História Contemporânea, mas sempre tive claro que a actividade científica é apenas uma das maneiras de dar conta da realidade. A literatura é um processo importante de interpretar aquilo que nos cerca.
P. - Que influências é que teve na sua escrita?
R. - Sempre li tudo o que me chegou às mãos, procurando não me ligar directamente a nenhum tipo de influência, mas fazer antes com que fosse um resultado de uma amálgama. Os clássicos europeus, alguma literatura africana. Lembro-me particularmente de António Quadros, pintor, escritor, homem de sete ofícios, que teve grande influência em mim. A poesia de Craveirinha, que era uma forma de racionalizar aquele presente.
P. - Que obra é que tem agora mais avançada, para próxima publicação?
R. - Um conjunto de narrativas extensas, que se desenvolvem ao longo de toda a costa de Moçambique, de 2500 quilómetros, virada para o Índico, um espaço de cruzamento de rotas, muito complicado. Um projecto que procura dar conta da alma de cada lugar, ao longo da costa. Corresponde a um caminhar do Sul até ao Rovuma, à fronteira com a Tanzânia.
P. - Como é que está a literatura moçambicana?
R. - Está numa falsa crise, numa encruzilhada. Havia um tipo de literatura, nichos muito restritos; e tenho esperança de que brevemente seja possível um novo período, com muita gente a escrever, novos ângulos, novas maneiras de dar uma realidade que temos hoje, muito complexa, mais complexa do que tudo o que vivemos desde a proclamação da independência, com uma muito maior curiosidade sobre o que hoje se passa no mundo. Vivemos uma espécie de transição arrastada.
P. - Alguém terá dado já como morta a literatura que se fazia nos últimos dez anos?
R. - Houve um período de relativo amadurecimento, em duas vagas. E um factor que me parece muito importante é a existência cada vez mais nítida de uma crítica literária importante, com nomes como Fátima Mendonça, Gilberto Matusse, Francisco Noa, Almiro Lobo… O que é importante para favorecer o surgimento de uma literatura mais consistente, consolidada e alargada. Mas infelizmente é ainda uma literatura muito de Maputo e um pouco da Beira, com pequenas iniciativas em cidades como Quelimane e Inhambane.
Do marxismo ao seu oposto
P. - Já estamos muito longe de um país que foi criado com base nas doutrinas marxistas?
R. - Estamos talvez no campo oposto. Houve uma grande abertura em termos políticos, com o acordo de paz de 92. As questões são mais complexas e os desafios tão grandes ou ainda maiores do que nos primeiros anos. O futuro resultará de um debate intenso de diferentes pontos de vista.
P. - O aumento dos valores macroeconómicos não correspondeu a um bem-estar geral.
R. - Em certo sentido, as assimetrias até são mais acentuadas do que nunca. Há um grande dinamismo na construção de elites; mas há também grande número de moçambicanos a sobreviver nas margens. A pobreza está muito longe de ser erradicada. É o resultado de uma ordem neoliberal que prevalece a nível internacional e que nos entra pelas portas e pelas janelas e que não conseguimos suster.
P. - Há muito a fazer, no sentido de tornar mais homogénea a sociedade moçambicana?
R. - Há a diferença clássica entre a cidade e o campo. Há diferenças entre um Sul relativamente mais desenvolvido e um Centro e Norte ainda muito na margem e que é preciso integrar. A parte meridional do país, mais próxima da África do Sul, está mais dotada de infra-estruturas, enquanto o Norte sofre muito com a actual crise no Zimbabwe.
P. - Como vai o trabalho de alfabetização?
R. - Já se fez melhor. O regime socialista, porventura mais autoritário, tinha políticas sociais mais nítidas, no campo da saúde e da educação. Agora, no regime neoliberal, o índice de analfabetismo é porventura maior do que já foi no passado. E o mercado para a literatura é ainda muito frágil.