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Vou-me embora ficando

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João Mosca é autor de já vasta e importante obra sobre o processo moçambicano. Autor de referência no domínio da história económica (chame-se-lhe assim) do processo nacional.

Mas neste seu breve livro de poemas “Vou-me Embora Ficando” (Lisboa, Instituto Piaget, 2001) é uma outra dimensão que se lhe desvenda, ainda que não totalmente desligada da reflexão de contornos científicos. Não lhe discuto os méritos poéticos. Ainda assim surge-me como um livro exemplar. Por lhe reconhecer, na sua linearidade, um carácter de espelho de um muito específico meio social e de uma era histórica que a este provocou e formatou, de tudo isto um breve mas acurado retrato. Ali se ouve o eco de tantas outras biografias vividas na complexidade identitária brotada da etapa nacional em Moçambique. E, em particular, das formas assumidas de “moçambicanidade” por um núcleo formado por jovens à época da independência, alguns de ascendência portuguesa como o autor, outros de outras e bem plurais ascendências. Neles o húmus identitário conteve uma dimensão telúrica, uma “africanidade” de reclamação biográfica e também poética, mas a qual foi ainda fermentada pela adesão, mais ou menos explícita, mais ou menos madura, a uma ideologia igualitarista, também esta envolvendo poeticamente o real: “Fico / aqui nasci cresci e trabalho / o que amo é aqui […] Quero transformar transformando-me / quero ver florir o homem novo / e ser um deles“.

Mosca transparece esses percursos, gente que assumiu rupturas familiares e sociais (ou, talvez, que deixou os seus assumirem essas rupturas - a formulação depende do ponto de observação de quem as indexa), e nesse seguimento desde cedo assumindo responsabilidades administrativas, a sua juventude inexperiente esquecida na urgência imposta pela inexistência de quadros no pós-independência. Um mergulho no real, às vezes romanesco outras vezes dramático, um real então desejavelmente moldável sob preceitos bem determinados - e moralistas -, que tanto marcou as biografias, pelas acções e andares havidos mas também pelos efeitos triturantes impostos pela força desse mesmo real efectivo, sempre ele escapando-se ao quadro moral que se lhe quis impôr: “Um dia, disseram-me que tinha poder / acreditei / mandei / ordenei / parecia mesmo grande / apesar de pequeno […] Concluí mais tarde que quem me mandava / não mandava / era mandado / nunca descobri por quem […]”.

É assim o testemunho, pungente até, do longo e lento processo de des-encantamento, essa desilusão individual tão recorrente alhures mas que aqui assume constantemente a dimensão de uma desilusão ideológica - silenciado o projecto igualitarista o qual era, afinal, apenas a cor do projecto nacional. Uma dor individual como o processo é amiude sentido, uma dor de contornos éticos, e que em muitos assumirá uma recusa existencial mas não um despojamento identitário, ainda que este seja uma questão de recorrente discussão, até de conflitualidade (”… donde vens Tivane / Venho da terra / da minha mãe e do meu pai / Como eu / Não / o senhor vem de outra e é branco“), questionamento de imputação racial, claro, mas não só, produto da dimensão visível do círculos sociais: “Somos iguais […] Não / não somos iguais / eu não tenho nada / e o senhor não sabe o que é nada“.

Deste longo processo, que acampa para além da experiência individual, é este livro arguta e sentida testemunha. Do estertor dos ideais face ao real, este bem menos moralista e moralizável do que era sonhado e foi pensado. Um estertor que é também, e até dramaticamente, o da recusa do hoje. Daí até à angústia do pró-exílio, algo sentido como exaustão, ainda que ele próprio recusando a negação. Entenda-se, uma dolorosa recusa não da identidade sonhada mas sim a da sua negação: “25 anos de ficar e não fico / não fico pelas mesmas razões que fiquei / já não vejo os horizontes da liberdade e justiça / foi uma miragem /  Pretendia ser um do povo pasei a um da tribo / tentei lutar por ideais fiquei elite …”

Para além do livro e dos caminhos aí endereçados dizem-me que o autor, cumprido com todo o sucesso um longo programa académico no estrangeiro, regressou ao país. Que testemunho do futuro nos deixará?

Sobre livros a propósito de um blog

Agradecimento pela referência ao mui saudável nome Bota Acima. O qual ainda, e muito bem, bota acima o livro de João Mosca, “A Experiência Socialista em Moçambique (1975-1986)”, Instituto Piaget, uma das melhores referências publicadas em Portugal sobre Moçambique contemporâneo.

A este propósito refiro a escassez da publicação de ensaios em Portugal sobre Moçambique (vá lá excluamos um pouco a História, em especial aquela que José Capela vem tecendo há décadas), o que até contrasta com o interesse na literatura. E ainda o facto, lamentável, de aí não existir distribuição dos livros aqui editados. Estranho pois mercado, universitário e outro, haverá. E estando cá a Escolar Editora, a Texto, a Porto recém-chegada e parece que com força, a Caminho já ancorada, porque não se conseguirá articular alguma dessas editoras com o propósito da distribuição em Portugal das edições moçambicanas?

Difícil não será. Talvez não intensamente lucrativo. E talvez aqui sim passível de conjugar com os esforços estatais de “cooperação”, via Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento ou outra instituição da área do livro e/ou língua. Alguns problemas de somenos que atrapalham este objectivo estão (há anos) identificados. Pessoalmente considero que o que realmente falta é de alguém [por “alguém” entendo mesmo um indivíduo, um quadro de uma instituição que se ocupe disto e seja por tal avaliado] que se encarregue da acção, com prazos e objectivos. Até facilitados, dada a exiguidade de editoras moçambicanas, e a especialização dos mercados a atingir.

E já agora, para hipotéticos interessados, a referência a uma edição recente em Portugal (a editora não lembro) da obra de Alcinda HonwanaEspíritos Vivos, Tradições Modernas. Possessão de Espíritos e Reintegração Social no Pós-Guerra no Sul de Moçambique“. O livro merece toda a atenção.