O ministro da defesa português, Augusto Santos Silva, em declarações ao jornal “i” invoca Péricles, o grego, como supremo mane do seu pensamento estratégico. E fiel a esse antepassado de democracia, e como tal à transparência das instituições estatais face aos cidadãos a que servem, informa via jornal que Portugal passará a ter espiões militares no Líbano. Saúdo este exemplo cristalino de democracia do governante.
Ou será (apenas) um cúmulo de estupidez, de “olhem para mim aqui ministro” a tanto pensar e fazer?
Aproveito para recordar uma velha entrada do ma-schamba, onde lembrei quando o jornal “Independente” publicou a lista dos espiões portugueses, era Veiga Simão ministro da defesa de António Guterres (finais do século passado). Nunca então se investigou verdadeiramente quem tinha passado isto para o jornal, quase obrigatoriamente um parlamentar não-socialista da Comissão de Defesa. Ou seja, nunca ninguém se interessou por inquirir (e prender) o traidor que era deputado. Nem cuspir na cara dos filhos-da-puta do “independente” (director, accionistas e os seus trabalhadores que não se demitiram no momento imediato – presumo que todos) que a troco de uma “caixa” varreram os interesses do país (se bons, se maus, é outra coisa, mas discutível de outro modo). Ou seja, traíram – como antes se dizia. Como hoje se deve dizer.
Seria interessante que os blogs portugueses – cheios de jornalistas, tantos deles -, e em particular os de “direita” (tradicionalmente mais sensíveis a estas questões e a estes valores) que com toda a certeza hoje se vão rir e pontapear o supra-pontapeável Santos Silva (paz à alma do sociólogo, precocemente falecido) tivessem um bocado de memória. Porque “honra” (antiga concepção hierárquica) ou “dignidade” (actual concepção equitativa) é coisa que, vê-se por este exemplo, não abunda. Um mundo de santos silvas, é o que é.
Adenda: em comentários e textos alheios referindo este texto surge o nome de Paulo Portas como envolvido neste caso, na sua condição de director do Independente. Ao escrever o texto pensei que o referido chegaria para o situar temporalmente [Veiga Simão ministro de Guterres, finais do século] mas pelos vistos isso não chegou, dado o peso da memória que há de Portas nessa condição. Então aqui fica a adenda, Portas há muito que não era o director do jornal nessa altura.
Abaixo, nos comentários, o comentador P.R. diz que isto é uma “desculpabilização” do presente. Não me parece, ou pelo menos não o entendo. Associei, de imediato, os episódios (que são muito distintos em termos de mau-funcionamento, este apenas um exagero comunicacional do ministro) no sentido de frisar uma “leveza”, um “descuido”, do Estado no tratamento que dá aos seus serviços de informação (os secretos e os militares). Se calhar, e pensando melhor, ainda bem que assim é.
Uma torre de petróleo no Texas dos bons velhos tempos
por ABM (17 de Agosto de 2010)
Durante todo o dia de hoje, fui electronicamente bombardeado com “notícia” da confirmação da descoberta de petróleo na região de Pemba.
Algumas agências noticiosas citavam como fonte a empresa texana Anadarko (que, de acordo com um recente comunicado de imprensa, is the operator with an approximate 43-percent paying interest in the well. Co-owners in the well are BPRL Ventures Mozambique B.V. (11.75 percent), Cove Energy Mozambique Rovuma Offshore, Ltd. (10 percent), Mitsui E&P Mozambique Area 1, Limited (23.5 percent) and Videocon Mozambique Rovuma 1 Limited (11.75 percent). Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, ep’s 15-percent interest was carried through the exploration phase).
Mas outras notas de imprensa indicavam a fonte da informação como a actual ministra dos Recursos Minerais, Esperança Bias. Outras ainda indicavam que a Anadarko fez o anúncio e que a ministra confirmou.
Tendo ir ver o sítio das notas de empresa da Anadarko, confirmei que na realidade a Anadarko nada publicou desde o dia 9 de Agosto, dia em que comunicou o preço para uma emissão de papel comercial de 2 mil milhões de dólares.
De facto,o último comunicado da Anadarko relativo a Moçambique data de 18 de Fevereiro deste ano e diz mais ou menos o que agora terá sido “anunciado” ainda não sei bem por quem.
O ponto da questão desta minha nota era aferir em que consistia realmente esta “descoberta” de petróleo no mar ao largo de Pemba (na realidade, o furo Windjammer dista a 50 kms da costa moçambicana e o furo tem uns 3.5 kms de fundo, feito a uma profundidade de cerca de 1400 metros. Não fica exactamente na esquina ali ao lado).
Que há mais do que traços da presença de petróleo na região já se sabe há muito tempo. A questão é saber se as prospecções apontam para uma quantidade comercialmente apetecível face ao gigantesco investimento, ou não (e quanto a isso, fiquei na mesma).
Mas, em vez disso, a “história” para mim passou a ser esta confusão toda e este mistério de quem disse o quê e o que foi dito. Surpreendente, dada a gravidade do assunto e o elevado perfil das entidades envolvidas, e ainda a quantidade de agências noticiosas metidas.
Parece-me que este é um caso para chamar os senhores da Ferro & Ferro para tomarem conta da ocorrência.
Edward R Murrow, um ícone do jornalismo norte-americano
por ABM (6 de Agosto de 2010)
A morte de Mário Bettencourt Resendes veio salientar a minha constatação quanto à crescente precariedade e preciosidade, no actual jornalismo português, daquela mistura de qualidade, experiência, perspectiva, objectividade, independência e honestidade frontal que faz desta actividade profissional uma das mais nobres e quiçá importantes da vida social e política modernas. Mário Crespo também está lá. E também uma jornalista da SIC que tem enorme potencial (não sei o nome dela).
Mas pouco mais. Pelo menos mais um.
A entrevista que deu na estação por cabo TVI24 na madrugada de 6 de Agosto (programa Livraria Ideal, excelentemente apresentado por João Paulo Sacadura), veio recordar-me que esses elevados padrões de jornalismo existem e estão de saúde na pessoa de José Pedro Castanheira (JPC).
Para quem tem o azar de não saber, JPC faz jornalismo há uns 40 anos e há 20 que é jornalista (sob a designação de “repórter principal”, que espero queira dizer que receba mais umas massas no fim do mês) no semanário Expresso, de Lisboa, sendo a meu ver uma das suas maiores valias, ainda que algo sub-aproveitado, pois se JPC fosse americano ele hoje já estaria na equipa do 60 Minutes e teria uma bruta equipa e orçamento para fazer aquilo que eu acho que seria um serviço crítico a Portugal, seguindo os passos do grande Edward R Murrow (o senhor que está lá em cima a ler uma revista e que é um ícone do jornalismo norte americano e uma inspiração para mim e mais algumas pessoas, espero).
Na breve entrevista, José Pedro Castanheira explicou o problema da sua área de especialidade, que é simples.
Sobre isso, falo mais abaixo.
A sua presença no programa foi a propósito de um estudo que fez e agora publicou, sobre um tal José Aires de Azevedo, sob o título Um cientista português no coração da Alemanha Nazi, que à partida parece ser uma versão portuguesa do Dr. Mengele e que fez pesquisa clínica sobre “higiene” racial, a pureza da raça e essas coisas exóticas, muito na moda nos círculos de Hitler e em muitas partes da Europa nos anos 30 do século passado, onde se buscavam bases científicas para justificar porque é que as pessoas de raça branca estavam, e deviam estar, no topo da cadeia alimentar humana. Em 1943 Azevedo regressa a Portugal e basicamente é ostracizado e desaparece do mapa, queixando-se JPC que a família dele, que ainda anda por aí, fugiu dele (de JPC) aceleradamente, sabe-se lá porquê, deixando a história mais ou menos a meio (se calhar não acham lá muita piada ao que o seu antepassado andou a fazer, pois o tema estes dias é políticamente incorrecto).
JPC referiu ainda um assunto, uma outra história quase inacreditável, que tem vindo a analisar, sobre Annie, que, revela, foi a única filha do conhecido major Fernando Silva Pais, o número um da Pide nos últimos tempos da II República (aka “Estado Novo”) que às tantas casou-se com um diplomata suíço, que entretanto foi transferido para Cuba em 1959 e que, só para chatear, apaixona-se assolapadamente pelo liricismo da revolução comunista ocorrida então naquela ilha, e ficou lá a viver, participando alegremente nos seus rituais, desde andar em comícios fardada de verde à Fidel, a, de rabo para o ar, apanhar cana de açúcar de catana na mão na altura das colheitas, para ajudar la Révolución. Entretanto Silva Pais estava em Lisboa em cima da Pide a proteger a ditadura liderada sucessivamente pelos dois professores e a dar porrada em tudo o que estivesse à esquerda da direita, que, a acreditar no que se lê, era o país inteiro. Ela só vem a Portugal em 1974, depois do 25 de Abril. Foi ver o pai na prisão de Peniche, onde ocorreu um reencontro emocional. Ela aparentemente adorava o pai mas não a mãe.
Para saber mais, o exmo leitor vai ter que se comprar o livrinho de JPC.
Mas a parte da curta entrevista que me fez pousar a chávena de chá (o João Paulo Sacadura bem tentou mas com meia hora para incendiar e deitar os foguetes fez o que pôde, eu podia ficar a ouvi-los mais três horas) foi quando JPC falou da sua actividade profissional e proferiu uma frase quase murrowiana: referindo-se ao jornalismo actual em Portugal, disse qualquer coisa como “o estado da imprensa é o melhor termómetro do estado da democracia” – sugerindo em seguida que algo anda mal em Portugal.
E referiu fenómenos e tendências que infelizmente são facilmente constatáveis aqui do lado de quem consume o seu produto; a rápida tabloidização da grande imprensa portuguesa, o reforço do jornalismo sensacionalista e popular(ucho) – que ainda por cima tem a vantagem de ser muito mais barato e, pelo sensacionalismo (rasca) que lhe está associado, tem mais impacto. Diz ainda que o tempo presente é um desafio para o jornalismo de investigação, que é muito mais caro, e requer um tipo de abordagem que exige muito mais dos seus profissionais, pois não permite abordar os temas apenas pela rama, abordagem que estes dias é o pai nosso de cada dia.
Na televisão então é uma praga.
O que ele não disse, mas que para mim decorre, é que o negócio do jornalismo português, sendo cada vez mais corporativo e empresarial (já lá vão os tempos em que os jornais e as estações de televisão tinham um patrão e dono, que, bem ou mal, decidiam os seus alinhamentos) procura originar o produto o mais barato possível e que gere a maior receita possível (custo do programa a dividir por share de audiência mais receita publicitária agregada igual a lucro) sendo que, como membro da comunidade empresarial, terá assim a tendência de mais facilmente procurar consensos com a restante comunidade empresarial e os governos da casa. Os resultados directos são a prostituição da actividade, o debilitar do debate público e o enfraquecimento da vivência democrática.
Nos últimos quinze meses tem-se assistido a claros indícios desta tendência.
No caso da TVI, tudo indica que foi uma negociata: o negociar da conveniência editorial à conveniência política, com umas trocas de participações pelo meio e o expelir do casal Moura Guedes/Moniz de uma organização.
E não só aqui. Na mitológica CPLP (Brasil e Cabo Verde excluídos), onde imperam regimes que um estudo publicado a semana passada no Economist classificava como (em inglês, sorry) authoritarian ou flawed democracies, com poucas excepções, a tendência é ainda mais acentuada para se praticar um jornalismo mais cor de rosa, positivista, desenvolvimentalista, situacionista. Quantas Prisas e TVI’s há por lá.
Mas isto é apenas um pensamento.
Apesar de apenas ter tido tempo de referir apenas alguns tópicos, o que JPC abordou esta noite merece séria reflexão.
Por exemplo, imagine o exmo Leitor Edward R Murrow a investigar o chamado Caso Freeport.
Triste muito fiquei de conhecer hoje a morte de Mário Resendes. Em parte porque tive a sorte de o conhecer e de com ele privar uns breves, iluminados, quiçá alegres, momentos. Em parte, pela sua incontornável obra como jornalista e como comentador, primeiro no Diário de Notícias de Lisboa, depois um pouco por toda a parte, notavelmente como comentador televisivo, com a sua voz meio rouca, sempre analítica e informada, com um certo distanciamento, talvez até sorrateiro, piscando o olho a quem o ouvia, convidando a pensar e a mastigar a realidade que hoje nos entra pela casa dentro, com os múltiplos filtros com que terceiros a impregnam.
Num toque mais pessoal, vislumbrava a sua açorianidade, aquela maneira de estar tão visível e tão intangível ao mesmo tempo, para quem não a conhece como eu aprendi a conhecer, esta transplantada para a urbanidade metropolitana de Lisboa.
Mário Resendes fez a ajudou a fazer o jornalismo português mais solto e equilibrado no pós-25 de Abril, difícil numa era que não foi de menos extremos do que a que a precedeu. No jornal que dirigiu após Mário Mesquita, recorde-se, houve o episódio de José Saramago, hoje celebrado, mas então empenhado nas suas lutas ideológicas, raivoso e virulento como sempre, mas então sem a idade, sem a perspectiva, e sem Pilar. Foi o exibir do talento e do génio ao serviço do mal. O bom jornalismo não era isso, e levou anos antes que outros valores, trazidos por pessoas como Mário Resendes, lentamente, começassem a ser praticados, sempre tenuamente, sempre sob ameaça, como agora.
Nunca fui a uma tourada. Das raras vezes que, ao longo dos anos, entrevi alguma na televisão lembrei-me daquela personagem, julgo que do D. H. Lawrence, que gritava “viva o touro”. O toureio a cavalo tem beleza estética mas há várias outras modalidades de equitação que a possuem, e até mais. Confesso alguma simpatia pela cultura de camaradagem máscula dos grupos de forcados e sua dimensão socializadora (excessos incluídos). Mas não tanta com os ademanes do toureio pedestre. Enfim, passa-me a “festa brava” ao lado.
Não tanto as campanhas contra ela. Que levantam questões interessantes. Pois são sintomáticas de um entendimento da acção por “causas justas”. A defesa do touro, por si só, e o ataque à “barbárie” da tourada obscurece (propositada ou distraidamente) a questão muito mais vasta do tratamento dos animais nas economias industrias e urbanas. Mas mais do que isso esta questão levanta as dimensões obscuras da atitude multiculturalista vigente no meio político e ideológico mais adverso ao toureio. Por um lado sempre disponíveis para aceitarem expressões “culturais” alheias, o que não passa da expressão actual do velho “exotismo” – para mais se essas, por via das migrações actuais, se deslocarem para novos redutos, o “culpado Ocidente”. E, por outro lado, repelindo a tradição própria. Ou seja, multiculturalismo sim, mas não integrando as formulações “culturais” endógenas.
Mas mais fundo do que isso esta luta contra a tradição toureira demonstra um ponto, sempre esquecido na politização do “multiculturalismo”. A de que as expressões vigentes são palco de constantes conflitos legitimadores, de afirmações (daí a adversidade ou a defesa da tourada). E que a defesa da “cultura” alheia implica, quase sempre, a afirmação da sua cristalização, o esbater dos respectivos conflitos, o apoio à legitimação de concepções em confronto com outras. Fruto não só do desconhecimento da intensidade e complexidade das culturas e sociedades, dos seus conflitos internos. Mas acima de tudo da pressa em opinar, em defender. Da pressa em estar com a “causa justa”. Do facilitismo em encontrar o touro, perdão, a vítima.
Arrazoado meu que me surgiu na minha ida a Lisboa. Recolhi a “agenda cultural” de Lisboa (Julho de 2010).
É uma muito útil produção da Câmara Municipal de Lisboa, de vertente socialista (vereadora municipal de cultura Catarina Vaz Pinto; director da publicação e também director municipal de cultura, Francisco Motta Veiga). Bem organizada, tendencialmente exaustiva, é uma louvável iniciativa e realização – e acho importante louvar o que o Estado faz bem, face ao (nosso) hábito de sempre nele bater. Mas é também, por ela própria e pelo que denota, muito sintomática do “ambiente moral” (ideológico) que se vive.
Folhei-a com atenção (128 páginas) marcando o que desejaríamos ver. Alguns dias depois atravessei para a margem sul do Tejo e de imediato reparei nos cartazes alusivos a touradas. E notei que em Lisboa não havia nenhuma tourada prevista para Julho. Mês de tantos turistas, mês de emigrantes de férias (e a emigração de agora não é dos confins de Trás-os-Montes que parte), mês de tempos livres. E nem uma tourada na capital. Não que eu a elas desejasse ir, mas estranho(ei). Não há touradas em Lisboa? Ou não aparecem na Agenda Cultural da Câmara Municipal? E se não há mesmo não poderiam elas, como expressão cultural, ser incentivadas, até com apoio camarário?
Já em Maputo leio que o parlamento catalão proibiu as touradas em 2012 (para gáudio dos “bonscausistas” nacionais). Não sei até que ponto não será uma “des-espanholização” autonómica, não conheço o contexto (nem a história do toureio em Espanha). Mas a ideia completa-se-me, estarão já as touradas “proibidas” na Lisboa desta autarquia, e também, quiçá, por indução da vereação?
Antes, e dirão que é má vontade minha, reparo que a referida Agenda tem 7 páginas dedicadas a bibliotecas e arquivos. Mais elogios, não fica apenas pelo espectáculo e pelo habitual roteiro de museus. Em destaque, foto de página e breve historial, um centro de documentação dedicado à causa homossexual. Qual o mal? Nenhum. É apenas uma agenda cultural municipal a denotar o “ambiente moral” vigente, a topografia do legítimo. E a denotação não é crime, nem erro nem maldade. É apenas denotação.
Sei que para alguns aqui está a denotação de um bloguista homófobo e “faeneiro”. Mas esse é o problema do bloguismo, os touros quando entram não foram picados e ainda assim vêm em pontas.
Só agora, e por via de uma oferta do “nosso” PSB, tive acesso a esta edição da revista “Única” (Expresso, 5.6.2010), dedicada a África a propósito do Mundial de futebol na África do Sul. O meu interesse prendia-se pela inclusão da reportagem “Moçambique, o País dos Mil Caminhos”, de Ricardo Marques. Um jornalista de quem li, já há anos, o livro Moçambique, o Regresso dos Soldados, reportagem sobre as viagens de saudade dos soldados portugueses que aqui fizeram a guerra. Livro agradável e provido de um bom olhar sobre o real, entenda-se uma atitude nua de paternalismos, culpabilizações, exaltações e/ou saudosismos, algo rara em patrícios mas ainda mais em jornalistas. Agora, e de novo, o Ricardo Marques meteu uma boa lente para viajar no país. Ou seja, tem a arte de escrever sobre Moçambique sem fazer actuar a panóplia de preconceitos recorrentes. Uma pena que não esteja disponível na internet – ainda para mais sendo texto de jornal, em assim sendo tornado supra-perecível. Algo que um jornal como o “Expresso” poderia resolver, dignificando os textos dos seus repórteres. Mas visitável é a galeria de fotos da reportagem, da autoria do confrade António Silva.
Na mesma publicação encontro um artigo de Mia Couto, “Esta África que não é“. Também indisponível na internet, mas neste caso provavelmente virá a ser integrado em futura colectânea de textos do autor. Uma frase cristalina, arguta: “A ideia do bom selvagem foi incorporada na vista que os africanos têm de si mesmos“. É apenas uma generalização, mas assim assumida. Total concordância com ela. Obstáculo, legitimador, de entendimento e acção. E, quantas vezes, partilhada pelo exo-africanos, uma (afinal não tão) estranha simbiose.
Apanhei ontem os restos do programa televisivo Depois da Vida, na TVI. Ao que vi, e me explicam, tudo consiste numa senhora inglesa que fala com os espíritos desejados pelos telespectadores. No meio há uma lusófona intérprete que vai intermediando a comunicação dos caros tele-espectadores com as convocadas almas (algo) penadas.
Fico estupefacto, a licença privada para exercer actividade televisiva, obtida sob o governo do actual presidente da República Cavaco Silva, possibilita isto? Sei que os liberais defendem este ponto de vista. Pois se há consumidores para este tipo de diálogo com o outro-mundo como proibir (ou até criticar) o produto? Sei também que a pujante esquerda multiculturalista (grande parte dela acoitada nos jornais, nos blogs e nas universidades, exactamente como a rapaziada liberal) vibrará com esta pantomina – não é a comunidade crente nesta taralhouquice uma minoria cultural merecendo o apoio público e político para o exercício das suas mui dignas crenças e práticas de comunicação com o além?
Mas apesar desse apoio maioritário das “inteligências” portuguesas, à direita e à esquerda, a esta tralha multicultural ainda me interrogo. Que pensará o presidente da República do caminho que as televisões privadas assumiram desde que lhes deu licença. Afinal era para falar com os mortos? Ou por outra, estará a Presidência da República ao mesmo nível de indigência intelectual no qual vegeta a intelectualice portuguesa? Ou não está, ou seja, ainda existe e em assim sendo terá a energia para se pronunciar sobre este lixo abjecto?
Bem arrependido estou de ter desistido dos bilhetes os jogos de Portugal no mundial, primeiro, e de ainda ter resistido a amável e insistente convite de casal amigo para que os acompanhasse ao Cabo – telefonaram do estádio, eufóricos. Hoje, jogo histórico, perdi algo para contar aos netos futuros mas também para fruir no presente. Constato-me, e não pela primeira vez, uma cinzenta mistura de blasé e forreta, essa que a ninguém dá felicidade ou saúde.
Assisti ao jogo de ontem num local público, em verdadeiro ambiente pátrio. Ali aportei cerca das 13 horas, engalanado com uma bandeira nacional, daquelas dos pagodes chineses e com o blasfemo nome do banco patrocinador inscrito, restos de evento anterior, a qual foi de imediato pendurada, qual cortina, na porta do estabelecimento em causa. Após isso encetei aquela que viria a ser uma longa fileira de cervejas 2M (Mac-Mahon) que começaram por acamaradar com uns estrepitosos pastéis de massa tenra, arroz branco e deliciosa salada, franca e vivamente recomendáveis. Enquanto deglutia a tão típica refeição foi-se o areópago enchendo de algumas dezenas de patrícios, estes carregando diversos graus de angústia. Em breve começou o jogo e pude constatar alguma volubilidade das opiniões, as minhas e as alheias: dos miseráveis centro-campistas ao meio campo de luxo decorreu algum tempo, da aventesma Hugo Almeida ao finíssimo ponta-de-lança seguiu-se um mero ápice, da condenação geral daquela reles vergonha à celebração da glória da óbvia conquista do ceptro mundial apenas um pouco mais, do amaricado Ronaldo ao génio Cristiano Ronaldo uns breves momentos suplementares. Terminado o evento todos saímos em ombros, orelhas e rabos cortados, vuvuzelando um “este ano é que é!!” bem sonoro ao longo avenidas maputenses.
Algumas horas depois, já em casa, vejo o noticiário da RTP-África. Como sempre em momentos similares surge a reportagem que vem comprovar na rua, ao espelhar o sentir popular, os infindos laços pós-imperiais, assim demonstrando pelo “mundo (em) português” o amor que nos une, como os moçambicanos (e restantes) sofrem e torcem por Portugal. Desta vez acorreram ao restaurante Mundo’s, ali à Nyerere – normalmente cheio para os jogos mas então nem tanto, talvez por ser hora de almoço, talvez porque a habitual clientela (será o local mais diversificado de Maputo) não é a típica adepta dos nossos “adamastores”. Isso não desanimou o repórter, que sabe bem ao que vai, ao mandamento lisboeta “mandem-me lá uns pretos, perdão, negros, a gritar por Portugal“. Daí que se encostou ao passeio fronteiro aos ecrãs e arranjou um ângulo fechado de câmara arrebanhando meia dúzia de vendedores ou pedintes, desses que vão vendo os jogos na rua, vendendo umas tralhas ou cravando os restos de take away. Ali bem a jeito para gritarem “viva portugal”, “prefiro o ronaldo”, etc e tal. E dá para passar no telejornal, para o sossego da gente lusa, em África (malgré tout) amam-nos. Siga.
Qualquer um que aqui esteja, mesmo que jornalista, pode perceber que o mundial de futebol, ainda para mais este em África, é um forno de identidades, de solidariedades, de sua construção e vivificação – também por isso tão induzido é, também por isso o seu enorme sucesso. Mas isso não interessa pois o que urge é uma reportagem daquelas. Encomenda obrigatória pois quando os nossos futebolistas marcam uns golos mais sonoros logo surge no ecrã o roteiro da gesta lusa: como se apoia-sofre-ama Portugal nos grandes pólos de emigração portuguesa e nas ex-colónias. É isto incompetente? Não, nem é disso que se trata. É um ritual ideológico televisivo, faz parte da reprodução de uma ideia (estatal) de identidade portuguesa e é uma (frustre) iniciativa de política externa. E é também desonesta, esconde a realidade criando uma outra, uma imagem política. Para mais – e ainda por cima no dia dos festivos 7-0 -, é uma vergonha.
Divertir-me-ia se a RTP-África fosse para os MacDonald’s ou Portugálias em Lisboa filmar os clientes portugueses aquando dos jogos importantes dos “mambas” ou dos “palancas”. Se entrevistasse arrumadores junkies ou vendedores da “Cais” metendo-lhes bandeiras de Moçambique ou Cabo Verde nas mãos e induzindo-os a gritar, com perdigotos, loas ao Dominguez ou ao Mexer. E se depois passasse essas tralhas no telejornal. Mas não faz tal.
Demagogo, eu? Muitíssimo menos do que a RTP-África ali ao Mundo’s. Na sua lusofonia “nacionaleira” e tão estafada.
Às 19 h. (18 h. em Lisboa) o Benfica-Rio Ave começou. Acompanhei, obviamente desesperançado, na televisão. A meio da primeira parte a minha filha (que tem sete anos) parou no sofá, olhou um pouco e rematou para golo: “ó pai, o Rio Ave está com sono“. O jogo acabou e jantei. A televisão ficou ligada. Durante mais de quatro horas a Sic-Internacional e a Sic-Notícias fizeram reportagem das comemorações do título e rescaldos – lamento o vácuo mas nada tenho a dizer, a Sic é uma empresa legítima e tem os seus critérios. Durante as mesmas quatro horas e tal a RTP-I e a RTP-África, empresas do Estado sobre cujos critérios todos temos a dizer algo, fizeram cobertura das comemorações do título, “aquem e alem-mar”, como sempre nestas coisas, que os tiques não passam.
À 1.50 h. (00.50 h) a RTP-I/África avança para outro assunto, qualquer coisa nos aeroportos portugueses, uns poucos voos que foram cancelados, trezentos ou quatrocentos, nada verdadeiramente importante. A culminar essas horas sem fim de futebol deixam uma imagem, não do jogo, não dos jogadores, não dos milhares de holigões a cuspirem perdigotos. Mas sim da tribuna presidencial do estádio do Benfica no começo da festa. O presidente do clube e a seu lado o ministro dos negócios estrangeiros, Luís Amado, o comentador televisivo António Costa e o milionário José (Joe) Berardo. O poder.
Nada desta monumental hunice tem ligações, claro. Nada mesmo. O circo segue. Para o ano há mais. Entretanto há o mundial.
Há cerca de 10 anos aqui jantei com um simpático professor português. Catedrático, de renome. Colunista num dos grandes jornais nacionais. Entre outras coisas falou-se da carreira académica. E rematou ele, que ganhava mais com as 4 colunas mensais do que com o ordenado de professor catedrático. Não me ocorre, nem ocorreu, invocar injustiça. Não ganhava mal como professor, apenas lhe pagavam bem no jornal. E com toda a certeza porque pesavam bem o que ele escrevia. Lembro-me disto muitas vezes quando me dou ao trabalho de ler as grandes figuras colaboradoras dos jornais portugueses – não falo dos jornalistas, que mal ou bem, botam sobre pressão para fechar a edição. Falo dos colaboradores, na sua vida e a botarem em paralelo os seus ditames sobre a pátria sofrida e o mundo convulso. Alguns, pelo peso do nome, com toda a certeza que bem pagos.
Regressou-me isto à memória ao ler no Delito de Opinião a receita que Vasco Pulido Valente tem para resolver a crise do país [transcrita no Da Literatura]. Logo me lembrei de umas velhas caixas de brindes da minha meninice;
A imagem não é muito explícita (foi a que encontrei) e passo a explicar aos mais novos. Eram caixas que existiam nos cafés e outros estabelecimentos. Pagava-se (pagavam os pais) os vinte e cinco tostões ou cinco escudos e tinha-se direito a perfurar um número (ou dois) – ali no painel. E consoante o número perfurado lá saía, na abertura de baixo, um brinde, rebuçado, chocolate, o que fosse (produto da incontornável Regina). A caixa ia ficando no balcão do café e todos os dias lá ia diminuindo o número dos buracos disponíveis, para contentamento dos legítimos proprietários do estaminé e ali agentes Regina. Buraco a buraco, (in)esperado doce a (in)esperado doce, ia-se construindo … a chegada da nova caixa ao café, para alívio da bolsa paterno-maternal e alegria da petizada.
É exactamente esse o registo intelectual de Vasco Pulido Valente. Acorda, tem que fazer uma crónica para o jornal, o país está em crise, perfura um número de buracos no património e prática estatal, mais alguns direitos colectivos, até atingir suficiente número de caracteres para entregar ao jornal, e eis a solução para o problema nacional que o Senhor Professor Doutor tem. Umas medidas mais populistas, outras menos, umas todos aplaudem, outras alguns resmungam. O discurso parece certeiro mas é de uma indigência total, não bate a bota com a perdigota, um arrazoado de lugares comuns. O jornal paga, os leitores lêem, os tuíteristas retuítam, os bloguistas ecoam e até, supremo triunfo, discordam, os cafesistas discutem (ainda que o Benfica tenha perdido e haja muito que reflectir).
Remédio para a crise nacional? Tirar os chapéus das mãos dos malteses. Os senhores professores doutores estão a dizer patacoadas, a falar só por falar, ou só para lhes pagarem o taco ao fim do mês? É dizer-lhes, mandá-los à merda. Mas … se são truculentos, berram e gritam, além de serem senhores professores doutores? É berrar-lhes por cima, que amocham. Crise? Sim, catastrófica. Porquê? Por causa do respeitinho, por esta gentinha. Truculenta, ainda por cima. “Mansa é a tua tia”, digam-lhe(s). Que passarão a estruturar o discurso. Ou a calar-se, incapazes.
Um livro de interessante leitura, ainda que me tenha provocado várias discordâncias. Incluindo uma questão actual, pois aborda a crise escolar não como efeito de uma tecnocracia pedagoga (em Portugal conhecida pelo redutora noção de “falantes de eduquês”) mas como fruto da predominância de uma constelação ideológica hiperindividualista, na sua essência um radical economicismo de fachada libertária, direi eu. Neste âmbito aborda a questão do estatuto social do professor, da sua decadência, como fruto deste contexto – o qual provoca também as reacções da classe professoral, de aparência corporativa mas também ela de raiz ideológica. E refere também como a escola, sob uma roupagem igualitária, e exactamente por causa dessa roupagem que provém de um determinado ideário, se afirma como uma reprodutora de desigualdades sociais, no fundo como um seu instrumento, em contramão às suas aparências discursivas e aos rótulos ideológicos dos seus defensores.
O texto é dedicado a França mas do pouco que sei da situação portuguesa poderá em parte ser-lhe aplicado. Não tanto em Moçambique, onde as questões relativas à educação são – vastamente – outras. Mas também aqui será de atentar, em particular no que respeita nos cuidados face à apetência pela importação de modelos pedagógicos, também eles produtos globalizáveis, aplanadores das múltiplas diferenciações, como bem sofremos.
[Gilles Lipovestky, Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a Uma Sociedade Desorientada, Edições 70, 2010]
“Sob a bandeira da democratização, a nova época cultural é profundamente inigualitária: permite o sucesso de uns, aqueles cujo enquadramento familiar coloca limites à invasão e ao poder dissolvente da cultura cool, e é fatal para outros, para todos os que, não dispondo do contributo das suas famílias, também não beneficiam de qualquer apoio institucional para se formarem e educarem.” (189) “É necessário voltar a dizê-lo: a nossa escola não está bem.” (189) “A escola assistiu à implantação de métodos que viraram as costas aos controlos disciplinares, à austeridade do trabalho e às obrigações impessoais da repetição e da memorização. Em nome da felicidade da criança, da individualidade e da espontaneidade da expressão de si, as formas de controle e de aprendizagem antigas foram substituídas por “métodos activos”, sem dúvida simpáticos, mas cujo preço se revelou elevado em matéria de formação escolar. As mesmas razões estiveram na origem de um processo mais ou menos profundo de demissão dos pais, particularmente prejudicial para a escola, para a educação e, sobretudo, para a própria criança. Foi assim que a cultura consumista-hedonista-individualista minou a escola da disciplina.” (187) A escola “requer uma reacção e, sem dúvida, uma reforma intelectual profunda para a reorientar e a colocar em condições de poder honrar as suas promessas de formação e de mobilidade social. É necessário denunciar os desvios dum certo pedagogismo e [...] reestruturar a desorientação e a desorganização (educativa e psicológica) enormes que têm origem na sociedade de hiperconsumo.” (189) “A escola deve certamente elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (190)
“Na tradição educativa, o pólo central sempre foi a autoridade do professor [...] Isso perdeu-se, o que provoca problemas.” (190) “…há que reestabelecer o seu [do professor] reconhecimento social, o que requere a recuperação a recuperação da imagem do professor [...] Só a reabilitação do professor na sua função social lhe pode devolver o lugar que é seu de direito. Isto requer uma revisão global da grelha salarial, o que não pode ser realizado sem que haja uma redefinição do estatuto e das responsabilidades do professor [...] É uma questão delicada. Logo que se pensa em abordá-la, suscita o protesto unânime duma classe de professores que consegue a proeza de aparentar maioritariamente ideias progressistas em todas as matérias e ser inflexivelmente conservadora quando se trata do seu próprio estatuto.” (192)
Lendo este capítulo de imediato me lembrei de uma reportagem jornalística, que li há pouco tempo e a qual então muito me impressionou e que pensei aqui referir. Passou tempo, o jornal foi para o lixo, e assim caiu a nota. Mas a ela regresso, pois exactamente centrada na questão do estatuto social do professor (em Portugal).
Há cerca de um mês Portugal comoveu-se com o suicídio de um professor, explicitamente exasperado com a sua situação profissional e com o tipo de (des)articulação que tinha com os seus alunos – muito típica, ao que consta. De seguida o Público publicou uma reportagem da jornalista Romana Borja-Santos dedicada ao caso. Nela escreveu, por exemplo, ”Na véspera das aulas com aquela turma, Luís ficava nervoso.” E por aí adiante. Confesso que me comovera a sorte daquele colega, e como tal cheguei já chocado à leitura. Mas ainda mais o fiquei ao ler que nem depois de morto recebia o respeito público, o de ser apelidado. É um sintoma, todos sabemos que há uma tradição indita mas explícita dos mídia de graduarem sociologicamente os seus interlocutores ou objectos, uma sobrevivência de tempos onde a retórica era menos igualitária. Os “populares”, o “povo chão”, os “malteses”, como em tempos menos politicamente correctos se dizia, são sempre apresentados apenas pelo nome próprio, são desapelidados (o “Joaquim”, a “Maria”, quanto muito, em caso de idosos, o “sô Mário”, a “dona Celeste”). E ali, postumamente, o meu colega era apenas o “Luís”. Mostrando bem o que é um professor hoje em dia, um mero “popular”.
Longe vão os tempos da deferência para com os professores, como por exemplo a que era votada a Rómulo de Carvalho. Eles (nós) são (somos) hoje o lumpen-letrado. Como nos tempos de Eça, na sua ficção, o eram os jornalistas. Algo deverá mudar mesmo. Pois para que algo ou alguém possa “… elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (como dizem Lipovtsky e Serroy) com toda a certeza que não será enquanto nomeados desta forma. Não será este “José” ou o colega “Luís” ou todos os outros desapelidados que o poderemos fazer. Apelidemo-nos! Será um começo para que nos apelidem.
Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.
Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).
Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.
Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.
Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.
Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.
Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.
As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.
E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.
Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.
Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.
Pois afinal nós éramos ricos. Não?
Foi uma festa.
Só que ninguém estava a pagar a conta.
Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.
A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.
Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.
Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.
Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.
Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.
Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.
Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.
Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.
Nós temos o Maschamba.
Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.
Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.
Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.
Aspecto de uma das t-shirts exibidas na manifestação em frente à Assembleia da República
por ABM no texto e MVF nas fotos (São Bento, Lisboa, 11 de Fevereiro de 2010)
Pelo menos cinco Maschambeiros compareceram ao princípio da tarde para participar na manifestação, para que foram convocados os signatários de um grupo onde já pontificam cerca de vinte mil nomes, em sinal de preocupação com as alegadas esforços de violação ao direito à liberdade de expressão.
ABM, Pedro S, Jaime S, Marta R e Miguel VF aproveitaram o lindo sol (o astro, não o jornal) que se fazia sentir à hora de almoço para se juntarem aos cerca de cem manifestantes e um número considerável de profissionais da comunicação social, para criarem o que foi um evento algo mediático, dado não só o tópico, mas a tensão daquele momento, sendo que por essa hora já se sabia de uma decisão de um tribunal local de procurar impedir o Sol (o jornal, não o astro) de amanhã publicar uma segunda série de revelações relacionadas com supostos esforços do actual executivo de influenciar o que sai nas notícias em Portugal.
A decisão do tribunal foi solicitada por um administrador do Grupo PT com ligações ao PS, com vista a proteger o sigilo do conteúdo das conversas havidas em torno dos esforços do executivo de Sócrates de afectar o tratamento das notícias na estação de televisão da TVI. Recorde-se (já mencionado neste blogue) que desses esforços resultou a saída de José Eduardo Moniz e a extinção de um programa de notícias da responsabilidade da jornalista Manuela Moura Guedes, ambos ostensivamente hostis ao governo do dia e em particular ao PM.
O esforço, primariamente dos organizadores do grupo de apoiantes de Mário Crespo do Facebook, resultou, na medida em que os media reproduziram as preocupações expressas pelos presentes com a liberdade de expressão.
Houve algumas desinteligências na missão Maschambiana. Miguel VF não conhecia ninguém, que não o conhecia a ele (a nossa prezada initimidade é prezada mas é recente), Marta R veio sem avisar e estava do outro lado da manifestação, ABM, Pedro e Jaime enganaram nas horas e chegaram cedo uma hora, pelo que decidiram passar essa hora a comer rissóis e sandes de peixe espada com Coca Cola numa tasca boa e baratinha mais acima na rua de São Bento, mesmo em frente à casa onde viveu Amália Rodrigues, e depois ficaram sentados mais ou menos à frente da Fundação Mário Soares, a banharem-se no sol (o astro) enquanto os manifestantes se iam congregando.
O aparato de carros-satélite de televisão e de polícia e de barreiras era quase caricato para um grupo eminentemente pacífico e erudito. A manifestação acabou por ser uma pacata conversa entre jornalistas, os líderes da pandilha e o ocasional político ou activista que produziu meia dúzia de sound e videobytes para as cadeias.
Por volta das 14 horas todos arrumaram as botas e foram para casa ou de volta para o trabalho.
Entretanto é meia-noite e o Sol está nas bancas com mais revelações.
As fotos:
A manifestante número 1 (foi a primeira a chegar)
A peitção do grupo em defesa da liberdade de expressão
Aspecto dos manifestantes em frente à Assembleia da República
Mais um aspecto da manifestação
Dentro da AR, o parlamento debatia e aprovava o orçamento de Estado para 2010, que foi aprovado e o tal que é suposto "baixar" o défice para 8.5%
As carrinhas das estações de televisão estavam em peso em frente à AR
ABM bebe água do Luso e posa em frente à Fundação Mário Soares, em frente à AR (foto JS)
Adenda de jpt: quem quiser ver a “nossa” Marta na manifestação é espiar aqui.
Há alguns dias atrás muito aqui se escreveu sobre o passado colonial português. Eu fui avançando a minha perspectiva sobre muitas das ideias – a maioria delas - que em Portugal ocorrem sobre o assunto: são mero material para falar (mal, obscuramente e por vezes desonestamente) sobre a actualidade. A esse propósito é interessante ver o que se passa nestes últimos dias: uma polémica política a propósito do jornalista Mário Crespo, sobre a qual não tenho particular ideia – li, na diagonal, algumas coisas escritas seja pelo próprio (aqui transcrito pelo ABM) seja em alguns blogs. Não leio os jornais onde Crespo escreve, não vejo a televisão onde Crespo trabalha, tenho dele uma muito distante imagem.
Mas o que me é particularmente significativo é como até para este caso se utiliza o passado colonial português, e de uma forma absolutamente típica. Que um blog como o Arrastão publique isto não chega a ser surpreendente – será apenas a confirmação daquilo a que o bloguista (também do Arrastão) Rui Bebiano considera os meus preconceitos. Mas ainda me surpreende que um homem como Eduardo Pitta, do Da Literatura, e a propósito da polémica entre o actual governo - de quem é apoiante - e o referido jornalista, suba a parada, vá à mesma arca e ensaie um assassinato de carácter associando Mário Crespo ao massacre de Wiryamu. O mal, e eu acho que o mal é para Eduardo Pitta, é que uma coisa destas já não é inacreditável. É mesmo acreditável. Vergonhosa e lamentavelmente acreditável.
Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.
O que ele escreveu:
Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.
O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):
Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.
Que não li.
Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.
Vamos por partes.
Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.
Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.
Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.
No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.
Ou ignora-se.
Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.
E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.
Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.
A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.
Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.
Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.
O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.
Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.
Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.
Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.
O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.
Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.
Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.
Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.
O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.
Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.
E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.
Vão à merda.
Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).
Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.
Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.
JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.
Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.
Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.
E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.
Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.
E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.
Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).
Henrique Raposo foi ao Google e postou no Expresso uma crónica já escrita por não-sei-quantos, com o mesmo argumento, a mesma parca ironia, o mesmo tom. Com o sucesso que o Expresso dá, que a tralha já me chegou via email.
Quem vai ao Google não são apenas os estudantes, como se vê.
E eu tenho uma sorte fantástica, isto de ter estudantes que sabem ler e escrever. Alguns não tanto, é certo. Mas a grande maioria sabe. E melhora durante os estudos. E, vejam lá, vão ao Google. Deve ser, imagino, por viverem noutro país. E, imagino ainda, por não lerem o Expresso e estas sopas já azedas, estes copy pastes, como se novos – exactamente aquilo que se ensina aos “rapazes” que não se faz.
É giro o pensamento no meu país… Perdão, são giros os jornais no meu país.
Capa do jornal desportivo O Jogo (edição de 18.11.2009), alusiva ao jogo Bósnia-Herzegovina- Portugal, decisivo do apuramento para o Mundial de 2010. Está bem que o futebol é hoje muito identitário, uma indústria que disso se serve, uns poderes que isso potenciam. Mas isto é uma total imbecilidade. E há militares (ou serão actores?) que a isto se prestam. Com as hierarquias a aplaudirem. Uma parvoíce abjecta, em termos de jornal – mas o que se pode esperar da imprensa desportiva portuguesa? E uma vergonha em termos de responsabilidade institucional.
Coisas do andar de avião TAP, dão-me o último Courrier Internacional, adenda do Expresso. Ali chego a um texto “Medíocres para chegar ao topo“, um ditirambo contra Durão Barroso (e mais o homem da ONU), ali dito arquétipo da mediocridade burocrática no poder. O artigo é originariamente do Der Spiegel, defende explicitamente a ascensão a postos de chefia internacional de políticos alemães (e germanófilos), e é para isso que existe. A merda da redacção às ordens de Henrique Monteiro escolhe, “neutralmente”, o texto para encabeçar este pretenso “digest” da imprensa internacional?
Isto não tem nada a ver com Durão Barroso, sei lá se bom ou não lá nas Europas – para onde nunca deveria ter ido, pois apenas foi convidado porque era primeiro-ministro eleito, e não ex-primeiro-ministro como era a condição para exercer o posto. Isto tem mesmo a ver com o tipo de cabeças que trabalham para Henrique Monteiro. E a dele. “Escolham lá o alemão que quiserem desde que possamos dizer mal do nosso tipo …”, é o lema deste lixo de gente.
Coisas de Portugal: estreio-me a ver Corredor do Poder na Televisão Pública, o grau menos que zero da política. Bandarilheiros, nada mais. Quem paga? E, acima de tudo, quem vê?
Paul Fauvet: Governo português tenta distorcer história colonial, é o texto do conhecido jornalista da AIM a propósito do concurso televisivo da RTP. Eu consigo perceber que na episteme de Fauvet não haja diferença entre “governo” (mesmo que do ps de Socrates, pigarreio eu) e “orgãos de comunicação públicos”. Eu também posso presumir (nada mais que presumir) a associação ideológica de Fauvet ao velho-marxismo anglo-saxónico menosprezador de Portugal (a historiografia pós-anos 1960s está cheia de tralha dessa, muito racista já agora, que isto de ser “dego” é uma merda).
Mas também posso dizer que quando a televisão pública, o Ministério da Educação (da ex-esquerdista hoje ministra), o Instituto Camões (ex?)lusófono (deve ser ex, que a tralha sub-intelectual reformada até já assina contra estas coisas, como se não exemplificassem o mais baixo nível político meu-patrício, o húmus do qual isto brota e brotou) do Ministério dos Negócios Estrangeiros (lá está, a diplomacia “cultural” …), a Presidência da República (pobre Presidente, há que refrescar os ares assessorais) e a medieva universidade se põem a jeito para estas pancadas … mas também posso dizer, dizia eu, que agora o Paul Fauvet a falar dos portugueses (credo, abrenúncio, vade retro tugalhada) – enquanto santifica John Bull, atempadamente desculpabilizado pelo “socialista” terceira-via Blair – não deixa de ter matéria-prima para falar.
Há uns anos acabaram com um organismo do Estado, super-competente, que trabalhava na divulgação da história portuguesa, no apoio à pesquisa historiográfica. Sob as várias direcções teve um papel relevante para acabar com parvoíces destas. Depois fecharam-na. Para poupar, o défice e isso – por ano devia custar menos do que aquilo que o governo dá ao Nacional da Madeira ou assim.
Era óptima a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Não se restringia ao Malato e à Furtado (que bela, …). E torneava estes Fauvets, inviabilizava-lhes a “deguice”.
(ao Fauvet, aos Fauvets, gostaria de lhes recomendar um texto de Mia Couto sobre escravatura, publicado no “Pensatempos”. Mas sou um “dego”, sou um “tuga” – que podem eles aceitar de um merdas como eu, como nós? Seria tão bom ser normando …)