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O NUNO, O ZÉ, A CNN E O GOOGLE

por ABM(28 de Fevereiro de 2010)

Isto é apenas uma memória domingueira.

Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.

Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).

Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.

Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.

Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.

Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.

Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.

As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.

E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.

Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.

Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.

Pois afinal nós éramos ricos. Não?

Foi uma festa.

Só que ninguém estava a pagar a conta.

Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.

A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.

Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.

Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.

Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.

Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.

Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.

Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.

Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.

Nós temos o Maschamba.

Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.

Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.

Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.

Um bom domingo a todos.

O MASCHAMBA ESTAVA LÁ HOJE

Aspecto de uma das t-shirts exibidas na manifestação em frente à Assembleia da República

por ABM no texto e MVF nas fotos (São Bento, Lisboa, 11 de Fevereiro de 2010)

Pelo menos cinco Maschambeiros compareceram ao princípio da tarde para participar na manifestação, para que foram convocados os signatários de um grupo onde já pontificam cerca de vinte mil nomes, em sinal de preocupação com as alegadas esforços de violação ao direito à liberdade de expressão.

ABM, Pedro S, Jaime S, Marta R e Miguel VF aproveitaram o lindo sol (o astro, não o jornal) que se fazia sentir à hora de almoço para se juntarem aos cerca de cem manifestantes e um número considerável de profissionais da comunicação social, para criarem o que foi um evento algo mediático, dado não só o tópico, mas a tensão daquele momento, sendo que por essa hora já se sabia de uma decisão de um tribunal local de procurar impedir o Sol (o jornal, não o astro) de amanhã publicar uma segunda série de revelações relacionadas com supostos esforços do actual executivo de influenciar o que sai nas notícias em Portugal.

A decisão do tribunal foi solicitada por um administrador do Grupo PT com ligações ao PS, com vista a proteger o sigilo do conteúdo das conversas havidas em torno dos esforços do executivo de Sócrates de afectar o tratamento das notícias na estação de televisão da TVI. Recorde-se (já mencionado neste blogue) que desses esforços resultou a saída de José Eduardo Moniz e a extinção de um programa de notícias da responsabilidade da jornalista Manuela Moura Guedes, ambos ostensivamente hostis ao governo do dia e em particular ao PM.

O esforço, primariamente dos organizadores do grupo de apoiantes de Mário Crespo do Facebook, resultou, na medida em que os media reproduziram as preocupações expressas pelos presentes com a liberdade de expressão.

Houve algumas desinteligências na missão Maschambiana. Miguel VF não conhecia ninguém, que não o conhecia a ele (a nossa prezada initimidade é prezada mas é recente), Marta R veio sem avisar e estava do outro lado da manifestação, ABM, Pedro e Jaime enganaram nas horas e chegaram cedo uma hora, pelo que decidiram passar essa hora a comer rissóis e sandes de peixe espada com Coca Cola numa tasca boa e baratinha mais acima na rua de São Bento,  mesmo em frente à casa onde viveu Amália Rodrigues, e depois ficaram sentados mais ou menos à frente da Fundação Mário Soares, a banharem-se no sol (o astro) enquanto os manifestantes se iam congregando.

O aparato de carros-satélite de televisão e de polícia e de barreiras era quase caricato para um grupo eminentemente pacífico e erudito. A manifestação acabou por ser uma pacata conversa entre jornalistas, os líderes da pandilha e o ocasional político ou activista que produziu meia dúzia de sound e video bytes para as cadeias.

Por volta das 14 horas todos arrumaram as botas e foram para casa ou de volta para o trabalho.

Entretanto é meia-noite e o Sol está nas bancas com mais revelações.

As fotos:

A manifestante número 1 (foi a primeira a chegar)

A peitção do grupo em defesa da liberdade de expressão

Aspecto dos manifestantes em frente à Assembleia da República

Mais um aspecto da manifestação

Dentro da AR, o parlamento debatia e aprovava o orçamento de Estado para 2010, que foi aprovado e o tal que é suposto "baixar" o défice para 8.5%

As carrinhas das estações de televisão em frente ao edifício parlamentar (foto ABM)

As carrinhas das estações de televisão estavam em peso em frente à AR

ABM bebe água do Luso e posa em frente à Fundação Mário Soares, em frente à AR (foto JS)

Adenda de jpt: quem quiser ver a “nossa” Marta na manifestação é espiar aqui.

A arca

[Imagem recolhida no Novas ...]

Há alguns dias atrás muito aqui se escreveu sobre o passado colonial português. Eu fui avançando a minha perspectiva sobre muitas das ideias – a maioria delas - que em Portugal ocorrem sobre o assunto: são mero material para falar (mal, obscuramente e por vezes desonestamente) sobre a actualidade. A esse propósito é interessante ver o que se passa nestes últimos dias: uma polémica política a propósito do jornalista Mário Crespo, sobre a qual não tenho particular ideia – li, na diagonal, algumas coisas escritas seja pelo próprio (aqui transcrito pelo ABM) seja em alguns blogs. Não leio os jornais onde Crespo escreve, não vejo a televisão onde Crespo trabalha, tenho dele uma muito distante imagem.

Mas o que me é particularmente significativo é como até para este caso se utiliza o passado colonial português, e de uma forma absolutamente típica. Que um blog como o Arrastão publique isto não chega a ser surpreendente – será apenas a confirmação daquilo a que o bloguista (também do Arrastão) Rui Bebiano considera os meus preconceitos. Mas ainda me surpreende que um homem como Eduardo Pitta, do Da Literatura, e a propósito da polémica entre o actual governo - de quem é apoiante - e o referido jornalista, suba a parada, vá à mesma arca e ensaie um assassinato de carácter associando Mário Crespo ao massacre de Wiryamu. O mal, e eu acho que o mal é para Eduardo Pitta, é que uma coisa destas já não é inacreditável. É mesmo acreditável. Vergonhosa e lamentavelmente acreditável. 

jpt

SOBRE MÁRIO CRESPO

por ABM (Alcoentre, aos 3 de Fevereiro de 2010)

Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o  jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.

O que ele escreveu:

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):



Eu sei como é.

The Best of Maschamba

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

bachhaydn

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

inhamabane

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt

José António Saraiva, os Jovens e o Pai

sapatilhas da moda nb kiks

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).

Tecnologias. E Aprendizagem.

Umberto Eco diz que se deve ensinar a pesquisar: os jornais dizem que para ele o Google é uma tragédia para os aprendizes. Eu diria que os jornalistas não sabem ler nem escrever.

Henrique Raposo foi ao Google e postou no Expresso uma crónica já escrita por não-sei-quantos, com o mesmo argumento, a mesma parca ironia, o mesmo tom. Com o sucesso que o Expresso dá, que a tralha já me chegou via email.

coluna henrique monteiro

Quem vai ao Google não são apenas os estudantes, como se vê.

E eu tenho uma sorte fantástica, isto de ter estudantes que sabem ler e escrever. Alguns não tanto, é certo. Mas a grande maioria sabe. E melhora durante os estudos. E, vejam lá, vão ao Google. Deve ser, imagino, por viverem noutro país. E, imagino ainda, por não lerem o Expresso e estas sopas já azedas, estes copy pastes, como se novos – exactamente aquilo que se ensina aos “rapazes” que não se faz.

É giro o pensamento no meu país… Perdão, são giros os jornais no meu país.

jpt

A parvoíce

pri

Capa do jornal desportivo O Jogo (edição de 18.11.2009), alusiva ao jogo Bósnia-Herzegovina- Portugal, decisivo do apuramento para o Mundial de 2010. Está bem que o futebol é hoje muito identitário, uma indústria que disso se serve, uns poderes que isso potenciam. Mas isto é uma total imbecilidade. E há militares (ou serão actores?) que a isto se prestam. Com as hierarquias a aplaudirem. Uma parvoíce abjecta, em termos de jornal – mas o que se pode esperar da imprensa desportiva portuguesa? E uma vergonha em termos de responsabilidade institucional.

jpt

O Courrier Internacional e Durão Barroso

courrier

Coisas do andar de avião TAP, dão-me o último Courrier Internacional, adenda do Expresso. Ali chego a um texto “Medíocres para chegar ao topo“, um ditirambo contra Durão Barroso (e mais o homem da ONU), ali dito arquétipo da mediocridade burocrática no poder. O artigo é originariamente do Der Spiegel, defende explicitamente a ascensão a postos de chefia internacional de políticos alemães (e germanófilos), e é para isso que existe. A merda da redacção às ordens de Henrique Monteiro escolhe, “neutralmente”, o texto para encabeçar este pretenso “digest” da imprensa internacional?

Isto não tem nada a ver com Durão Barroso, sei lá se bom ou não lá nas Europas – para onde nunca deveria ter ido, pois apenas foi convidado porque era primeiro-ministro eleito, e não ex-primeiro-ministro como era a condição para exercer o posto. Isto tem mesmo a ver com o tipo de cabeças que trabalham para Henrique Monteiro. E a dele. “Escolham lá o alemão que quiserem desde que possamos dizer mal do nosso tipo …”, é o lema deste lixo de gente.

 

A censura em Portugal

Nos bons velhos tempos o jcd era o meu bloguista político preferido. Agora é o João Caetano Dias.

[A fazer-me renegar este meu post. Até ao fim deste mês. Depois logo se verá.]

Coisas de Portugal

Coisas de Portugal: estreio-me a ver Corredor do Poder na Televisão Pública, o grau menos que zero da política. Bandarilheiros, nada mais. Quem paga? E, acima de tudo, quem vê?

As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e Paul Fauvet

Paul Fauvet: Governo português tenta distorcer história colonial, é o texto do conhecido jornalista da AIM a propósito do concurso televisivo da RTP. Eu consigo perceber que na episteme de Fauvet não haja diferença entre “governo” (mesmo que do ps de Socrates, pigarreio eu) e “orgãos de comunicação públicos”. Eu também posso presumir (nada mais que presumir) a associação ideológica de Fauvet ao velho-marxismo anglo-saxónico menosprezador de Portugal (a historiografia pós-anos 1960s está cheia de tralha dessa, muito racista já agora, que isto de ser “dego” é uma merda).

Mas também posso dizer que quando a televisão pública, o Ministério da Educação (da ex-esquerdista hoje ministra), o Instituto Camões (ex?)lusófono (deve ser ex, que a tralha sub-intelectual reformada até já assina contra estas coisas, como se não exemplificassem o mais baixo nível político meu-patrício, o húmus do qual isto brota e brotou) do Ministério dos Negócios Estrangeiros (lá está, a diplomacia “cultural” …), a Presidência da República (pobre Presidente, há que refrescar os ares assessorais) e a medieva universidade se põem a jeito para estas pancadas … mas também posso dizer, dizia eu, que agora o Paul Fauvet a falar dos portugueses (credo, abrenúncio, vade retro tugalhada) – enquanto santifica John Bull, atempadamente desculpabilizado pelo “socialista” terceira-via Blair – não deixa de ter matéria-prima para falar.

Há uns anos acabaram com um organismo do Estado, super-competente, que trabalhava na divulgação da história portuguesa, no apoio à pesquisa historiográfica. Sob as várias direcções teve um papel relevante para acabar com parvoíces destas. Depois fecharam-na. Para poupar, o défice e isso – por ano devia custar menos do que aquilo que o governo dá ao Nacional da Madeira ou assim.

Era óptima a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Não se restringia ao Malato e à Furtado (que bela, …). E torneava estes Fauvets, inviabilizava-lhes a “deguice”.

(ao Fauvet, aos Fauvets, gostaria de lhes recomendar um texto de Mia Couto sobre escravatura, publicado no “Pensatempos”. Mas sou um “dego”, sou um “tuga” – que podem eles aceitar de um merdas como eu, como nós? Seria tão bom ser normando …)

As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e a história

Através de Joana Lopes chego a uma crítica, sob forma de petição, ao programa televisivo Sete Maravilhas de Origem Portuguesa. Este é uma iniciativa da RTP que conta com o alto patrocínio da presidência da República, com o apoio de departamentos governamentais e com a “caução” científica da universidade pública (a vetusta coimbrã).

O documento, encabeçado por um conjunto internacional de académicos, critica o facto do referido programa se dedicar à tele-eleição dos grandes monumentos históricos portugueses. Que para esse efeito são enquadrados por uma informação de cariz histórico de onde se apaga o facto de parte deles terem sido construídos ou integrados no circuito de tráfico escravocrata.

Claro que se poderá reduzir a iniciativa a um programa de entretenimento, quase certamente encabeçado pelos inevitáveis José Carlos Malato e Catarina Furtado (malgré elle …). Mas a RTP é estatal, tem funções de serviço público, e o programa embrulha-se em “apoios” que o procuram validar cientificamente. E tudo se encaminha para a apresentação no 10 de Junho, o feriado nacional identitário. Torna-se assim inaceitável a reescrita da história, um “higienismo” patrioteiro sempre lamentável e criticável.

Depois há o próprio texto crítico. Que é uma pobre peça ideológica - nele me repugnam, particularmente, a antropomorfização, a “responsabilização moral”, a “falsa consciência” das boas causas. Mas também a absolutização (sacralização a-crítica) do neo-racialismo brasileiro. E, claro, diverte-me encontrar nos assinantes iniciais (caminhos das ligações e-mail, com toda a certeza) vizinhos completamente alheios a quaisquer preocupações historiográficas.

Enfim, pouco haverá a dizer sobre a peça intelectual produzida – estará à altura de José Carlos Malato, provável apresentador. E do irritante “queridismo” da bela Catarina Furtado. Nada mais. Deixo o comentário que a este propósito fiz no Entre as Brumas da Memória, pois paciência para mais elaborações é coisa que aquilo não merece:

“Parte do sumo do texto (para além do catastrófico português, e não falo de grafias) tem alguma legitimidade: o intento de cristalizar a história portuguesa como uma gesta monumental é irritante e a-historiográfico. A outra face é pateta – o que se pede ali, que o governo português defina os termos dos concursos televisivos? [Será que "o próprio Presidente do Brasil" (para citar o surpreendente brasilocentrismo da petição) andou a reboque da TV (Globo ou outra) aquando da inflexão político-teórica de 2001?] Ou seja, passamos a vida a protestar com a interferência governamental nos orgãos de comunicação e depois queremos a regulação do conteúdo dos concursos. Que patetice!
Ainda assim assinável, em resmungo com o patrioteirismo explícito.”

Benfica-Nápoles (Benfica TV): o momento do jogo

Inauguração do Canal Benfica – algo que só indirectamente tem a ver com isto. Momento do jogo aos 72 minutos, logo após o energúmeno relator vociferar que o jogador recém-entrado do Napoles iria passar o jogo a atirar bolas para a bancada. Então Cruz dos Santos, velho jornalista de A Bola, daquele falecido jornal dirigido por Carlos Miranda e Vítor Santos, explode, interrompe o relato, explica que convidado para esta inauguração hesitou, cedeu pois foi três vezes contactado, e que não é assim que vê o futebol, que não olha para as camisolas, e frisa com ênfase “eu sou jornalista“.

O energúmeno relator não se descose e sublinha, pomposo, “subscrevo completamente“, e continua impávido e sereno. Cruz dos Santos cala-se até ao fim do jogo. Decerto que envergonhado.

A TV Benfica começou. O Conselho de Deontologia do Sindicato de Jornalistas interrogará o seu Conselho de Administração acerca do estatuto de hipotéticos jornalistas que por lá caiam? Ou parcialismo fundamentalista não ofende a corporação? Um tipo com carteira de jornalista não pode fazer publicidade mas pode ganhar a vida a vender um clube?

Ainda o casamento homossexual, agora na RTP

Vejo uma parte do programa “Dois Pais, Duas Mães” de Teresa Botelheiro, na RTP(-Internacional). Desisto. É inenarrável. Enquanto a paciência aguenta só posso constatar no normativo que propõe, está no título. Não há ninguém que o aponte? Talvez mude na parte seguinte, mas “vou à minha vida”.

É difícil argumentar esta questão, do casamento homossexual? Com toda a certeza, ouve-se e lê-se até à exaustão o eco dessa dificuldade. Mas acima de tudo é difícil porque há gente que quer combater os “pre-conceitos” e não consegue (ou não quer) olhar os “conceitos”.

Surgem dois entrevistados, uma contrária a uma nova lei, um favorável. Ambos são-nos apresentados (e como tal legitimados) como “Professores de Direito da Família”. Teresa (?) Lobo Xavier (?) [não estou certo do nome, não atentei bem] diz que “a lei não pode aceitar algo que é ficcionado” (quasi-sic) – jurista é jurista, compreende-se a deformação profissional, mas alguém que não seja jurista pode aceitar que isto se diga e passe? Para argumentação estamos muito fraquinhos, até a RTP merece mais.[Traduzo-me, alguém venha falar da histórica ligação entre ficção social e legislação].

Mas é um argumento que se torna nada-grave quando logo a seguir surge o Professor Corte-Real (de Direito da Família, repito). Diz, acompanhado com entoação e linguagem corporal sublinhadores, que o modelo de família assente no casal heterossexual “está completamente ultrapassado” (todo-sic). Estatisticamente? Sociologicamente? Eticamente? Que o seu monopólio ético no discurso dominante o esteja é algo, que esteja “completamente ultrapassado” é outra, radicalmente outra. E se é sobre a sua prevalência quantitativa em Portugal conviria, pelo menos, ler um bocado de história demográfica antes de ir à tv.

Uma parvoíce destas, ou melhor uma manipulação destas, é dita por um professor de “Direito da Família”? Uma coisas destas é passada na televisão sem crítica? Legitimada pela legendagem do currículo profissional?

É difícil pensar as coisas? Será. Então se querem fazer televisão (mais ou menos propagandística) escolham que pense as coisas. E as diga. Bem mais interessante do que a demagogia das vozes distorcidas e das caras escondidas, nada mais do que o argumento do “coitadismo”. Tocante. Mas insuficiente.

A pequena nota Lumpen, jornais e blogs … teve evolução, acho que cristalina, na caixa de comentários.

“obamista”, ou da palermice

um tipo num blog (diário pessoal) mete o que quer. Um tipo que é pago para opinar num jornal (e de “referência”) tem algo mais … assim tipo responsabilidade social, dir-se-ia. Breves dias em Portugal deixam-me entender que há algumas vozes novas (pelo menos para mim) no grupo dos fazedores de opiniâo. Descobre-se (ou reconhece-se) um nome e logo o encontramos nos jornais, na tv, o prestígio está ganho.

Neste verão é Rui Tavares. A esquerda que ri, presumo. Leio-lhe no Público a opinião, decerto que abrilhantada com o brilho do intelectual: “sou um obamista“. Não se trata de discutir a falência do modelo bush, do cristo-reaccionarismo americano da ultima década, de entender a necessidade de alguma mudança por lá, da esperança numa outra política externa, mais complexa, e noutra interna, alimentando (ressuscitando?) o peso mundial de um modelo de sociedade social – e não a tralha omnívora a que alguns chamam (porquê?) neo-liberalismo (uma palhaçada intelectual que alimenta a “direita” bloguística portuguesa, de prosápias intelectuais mas muito dados a abridged versions ou “ensaios” – na lógica portuguesa da palavra). Nâo se trata disso, trata-se de uma esquerda moribunda, incapaz de se entender sem o farol americano (anti-americanista, agora obamista). O domínio radical do impensamento: o mundo visto do club med, o pequeno-burguês não vai mais longe por mais andanças que faça. É o novo-riquismo de batina académica …

Um gajo declara-se obamista: adepto “ista” de quem tem “director de fé”, de quem acredita no que vem na bíblia, de quem abre um congresso político com a mulher e as duas meninas dizendo-lhe (e à tv) que o amam muito – “ah, mas é na América, tem que ser assim!!” dirão, na explanação da sua profunda desonestidade intelectual (e não só – insisto, os textos nos jornais são pagos, é uma actividade laboral, a desonestidade no trabalho é igual para todos). Ou seja um qualquer McCain diz coisas de que não gostamos e desvenda a sua demoníaca essência! Um qualquer Obama diz coisas de que não gostamos e evidencia a mera necessidade de adequar a forma do discurso ao público.

É esta a esquerda que escreve em Portugal, enquanto ri – que é “ista” do irracionalismo dos “gurus” cristãos, que é “ista” da demagogia populista mais baixa, que é “ista” do “criaccionismo” ainda que subtil, que é “ista” do primeiro-damismo mais imbecil.

Que a esquerda política de cagança académica morrera já se sabia. Que os jornais acolhem os despojos também. Um tipo não se deve irritar. Apenas se enoja, nisto de vir de ano a ano, encontrar as novas  caras. E entristece-se quando as poucas vozes que vão indo ainda dão cobertura a esta paródia.

Adenda: é evidente que não é com esta gente que se deve discutir a questão racial, o “agora é a nossa vez”. Pois interrogar isso exigirá querer interrogar. Sem ser “ista”. Para quem tiver a decência (no fundo não é nada mais do que isso) de não ser “ista” d’algo procure no youtube a cerimónia dos oscares pré-obama (oscar a hale berry, denzel washington, sidney poitier e … robert redford). Analisem: agora é a nossa vez. E pensem, o mundo não é só hollywood. Mas repito, não vale a pena discutir essas coisas com esses macainistas/obamistas.

Adenda Segunda: Rui Tavares teve a gentileza de deixar na caixa de comentários o artigo que referi, e que assim transcrevo.

Para quem tiver paciência visite a caixa de comentários: pois aí tenho que matizar um argumento contra Rui Tavares; e porque não concordo nada com os comentários aí deixados por alguns comentadores residentes do ma-schamba.

“Roosevelt contra Roosevelt
28 Agosto 2008 | por Rui Tavares
É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo do reverendo Wright, sob a impressão geral de que a candidatura de Barack Obama acabara de ser destruída pelo seu desbocado pastor protestante, uma decisão do Partido Democrata sobre as primárias da Florida e do Michigan acabara (do meu ponto de vista) de lhe possibilitar a vitória. Pouco depois, houve um sobressalto geral com a ponta final de Hillary Clinton, numa altura em que me parecia que na verdade Obama já tinha essa vitória na mão.

Isso foi nas primárias democratas; agora estamos na campanha para as eleições gerais e o candidato republicano, John McCain, acabou de ultrapassar Obama nas sondagens. A percepção geral é a de que Obama está em queda quando deveria estar muito à frente. É mais uma vez o momento indicado para relançar o meu palpite: salvo escândalo ou guerra, continuo a apostar numa vitória de Obama.

Em primeiro lugar, não faz sentido esperar que os democratas ganhem por muito. Há trinta anos que eles não ganham eleições presidenciais “normais”. Bill Clinton ganhou na primeira vez com o voto adversário dividido (entre Ross Perot e George Bush pai) e na segunda vez já como presidente. Mas Al Gore e John Kerry ficaram a poucos votos de ganhar e é a partir desse pecúlio que Obama poderá construir uma vitória, ampliando o número de estados competitivos que poderão cair para o seu lado. Por isso não é de esperar uma grande distância nas sondagens nacionais, embora seja possível que ela venha a ocorrer depois nos votos do Colégio Eleitoral, que são distribuídos por estado.

***

Em segundo lugar, as diferenças entre candidatos. John McCain costuma dar como seu presidente ideal o republicano (e progressista) Theodore Roosevelt, cujo militarismo e voluntarismo aprecia e em cuja “obra” — o Canal do Panamá — ele próprio nasceu, literalmente. É duvidoso que o erudito e poliglota Theodore Roosevelt atacasse os seus adversários por serem “intelectuais e elitistas”, como McCain faz e é a moda da direita à escala internacional. Mas é verdade que John McCain é, ao menos, um político mais inspirador do que George W. Bush.

Mas não é de um Theodore Roosevelt que os americanos precisam agora. De quem eles precisam é de um Franklin Delano Roosevelt, seu sobrinho, o democrata que foi presidente quatro vezes depois da Grande Depressão. Tal como agora, Franklin Roosevelt apareceu numa altura em que a doutrina económica dominante se revelara disfuncional e os seus fundamentos morais aberrantes. Tal como Obama, Franklin Roosevelt apareceu com um discurso moderado e unificador, mas foi levado pelas circunstâncias a simplesmente refundar as estruturas do país. Foi ele que criou a Segurança Social nos EUA, e a criou de maneira a impedir que “um político qualquer a possa desmantelar”, como dizia e com razão (George W. Bush tentou e não conseguiu).

A Grande Depressão colocara a nu que a liberdade não se pode resumir à não-interferência do Estado. Liberdade é também liberdade para construir uma vida. Quem vive na pobreza ou no medo do desemprego não vive em liberdade. Distribuir liberdade por todos implica lutar por justiça social e segurança económica. Não precisamos de uma Grande Depressão para saber isso. Na verdade, o susto que já levamos deve chegar para os americanos perceberem que é preciso um caminho novo.”

Jornais (ainda …)

Doze anos depois um atleta portugues ganha um titulo olimpico. O quarto na historia do desporto portugues. E coincidindo (rematando?) com uma viva polemica nacional sobre a qualidade da representacao patria e da justeza do dispendio de dinheiro estatal.

Pela ocasiao o jornal Record, o segundo mais antigo desportivo do pais, um dos jornais mais vendidos e lidos , constitui esta bela capa, dedicada ao jogador espanhol Reyes chegado agora ao clube Benfica…

Jornalismo lumpen? Ou … jornalismo lumpen.

Lumpen, jornais e blogs, acordo ortografico e coisas assim …

Tudo isso vem a cabeca quando Nelson Évora ganha o ouro no triplo-salto dos Jogos Olimpicos e o jornal Publico – o “jornal de referência” ao que sempre ouvi dizer – tem um enviado a Pequim chamado Hugo Daniel Sousa, de profissão jornalista, a escrever (duas vezes) que para que Évora chegasse a campeão olímpico foi necessário “delapidar o diamante”. Paulo Querido, a um profissional da palavra escrita que bota isto a gente chama-lhe o quê? “Lumpen”?

Bloguismo e jornais

Critiquei o Paulo Querido por um texto que aglutinava uma grosseira generalização de argumentos de alguns bloguistas com uma tentativa de colocar nos bloguistas o ónus (demagógico) de atacar práticas securitárias da polícia portuguesa. O mal bloguista, chamemos-lhe assim, uma demagogia anti-governo.

Acabo de ver um pacote de jornais portugueses. Os de “referência” (Diário de notícias, Sol, Expresso, Público) questionam essas práticas em bloco. Da festividade pós-abate do assaltante do BES a ressaca traz a crítica jornalistica dos polícias portugueses (disparam, dizem eles). O Correio da Manhã traz uma contracapa emotiva acompanhando um cadastrado fugitivo há oito anos que se foi entregar à cadeia de onde tinha fugido. Chega choroso pois a polícia matou-lhe um filho de 12 anos que o acompanhara no último roubo “fui roubar ferro para comer”, afirma. E para ensinar a prole na nobre arte do furto e da escapada às autoridades. Entrega-se dizendo que quer prender os polícias que o tentaram parar…. Para demagogia não está mal mas que esperar do Correio da Manhã? Neste caso apenas que acompanhe a demagogia extrema de Fernanda Cancio no artigo vs a polícia no Diário de Notícias da passada sexta-feira – “Somos todos vítimas” eis o lamento da conhecida jornalista.

Será que Paulo Querido refaz o seu pensamento – que a demagogia anti-policial e anti-governamental é não o apanágio dos bloguistas mas sim o xuxu da imprensa portuguesa (até dos mais surpreendentes).

Já agora – há tempos nos comentários do ma-schamba referi que o jornalismo português abunda em lumpen. Paulo Querido mandou-me levar no cu (grosso modo, “your ass”). O Publico de sexta-feira dá a contra-capa e o Diário de Notícias dá as centrais nesse mesmo dia: em 2040 as minorias raciais nos EUA serão a maioria, dado o crescimento demográfico dos “afroamericanos”, dos “asiáticos”, dos “hispânicos”. O Público é incapaz de reflectir sobre estas categorias “raciais”, apenas transcreve uma postura absolutamente superficial. O Diário de Notícias vai mais longe, proclama que em 2040 os “brancos” serão uma minoria nos EUA. Para o director do DN, para os seus adjurntos, para o chefe de redacção, para a senhora jornalista que assinava a peça, os “hispânicos” não são “brancos”. Eu, jpt, eles todos, a Ana Ortiz, a Jennifer Lopez e o resto da rapaziada será o quê?

“Your ass” para mim, Paulo Querido? Puro Lumpen, puro lixo, pura indigência. O lixo demagogo agora vs-polícia, (até o ministro Rui Pereira vem, timorato, dizer que não está contente). E os imbecis ignorantes, que se devem achar ameríndios. Yanomanis da praça do Chile, Sioux de Telheiras. Um atraso mental. Pobre Lumpen, camarada Marx, se misturável com esta tralha.

Uma pérola da RTP-Internacional

Em zapping acabo de apanhar um concurso na RTP-Internacional:  Aqui Portugal* (abaixo transcrevo a o texto de apresentação, sui generis, que consta do sítio da RTP), presumo que dedicado a emigrantes. Confesso-me, deixo-me ficar porque a apresentadora é bonita.

Logo ouço uma questão integrada na categoria “comunidades portuguesas”, a qual aqui deixo, vírgula e tudo: “Na sequência do final do Apartheid, quantos portugueses morreram na África do Sul em 2001?” (8 / 12 /31 / 50 eram as opções – a pobre concorrente falhou, por deficit sanguinolento). Uma pérola. Uma verdadeira pérola. 

*Aqui Portugal é um concurso diário, apresentado por Sónia Araújo, onde os portugueses são desafiados a testar os seus conhecimentos sobre Portugal e as comunidades portuguesas.

Este programa pretende dar um contributo para a promoção do Conhecimento e da Língua e por outro lado fortalecer os laços afectivos de portugueses residentes no estrangeiro, e luso-descendentes, com a realidade portuguesa.

Vão existir quatro categorias temáticas: Comunidades portuguesas, Geografia, Língua e Cultura portuguesas e História de Portugal.Através de um modelo de resposta múltipla e de rapidez de resposta. Cada programa integra 6 concorrentes, que jogam em simultâneo tentando obter as pontuações mais elevadas.

A RTP-África avariou (há mais de dois meses)

Há mais de uma década que se estabeleceu um acordo de cooperação entre a Televisão de Moçambique (TVM) e a RTP, o qual implicou que esta (ou seja, o Estado português) financiou a construção e a formação do Centro de Produção da TVM, algo então fundamental e urgente. Inserido nesse contexto (e em moldes dos quais desconheço – ou já não lembro – o exacto desenho) atribuíu-se à RTP-África a licença para emitir em Moçambique num registo de “2º canal”, paralelamente à TVM. Então tal levantou alguma polémica, vozes contra o que consideravam uma desvalorização da soberania nacional, uma intrusão estrangeira (e neo-colonial).

Vozes que se foram calando. Por algumas razões. Pelo hábito, com toda a certeza. Mas também pela realidade das novas tecnologias, pois recorde-se que isso foi antes da disseminação nacional das antenas parabólicas (“nacional” mas claro que na burguesia urbana) e, depois, da TVCabo na capital, trazerem uma pluralidade de canais estrangeiros às casas da burguesia.

Mas outros factores existiram: por um lado, a RTP-África não era retransmitida em todas as províncias, isso sempre dependeu das “disponibilidades” tecnológicas e, em vários momentos e lugares, isso não aconteceu por razões que nunca consegui esclarecer. Mas era costume chegar às províncias e constatar (ou constatarem-me) que no terreno não se retransmitia a RTP-África. Sempre, diziam-me, por alguma complicadissima razão tecnológica. Por outro lado porque a estação, francamente institucional, portanto cuidadosa, não atinge os “conteúdos” da referida soberania nacional – que me lembre essa discussão só regressou uma vez, em finais de 1999 quando o correspondente da RTP ecoou a opinião da Renamo, quando esta afirmou, durante a contagem de votos das eleições presidenciais e legislativas, que as tenha vencido.

Para mais, os últimos anos trouxeram a emissão de novos canais nacionais, privados, presentes em Maputo e em alguns outros locais. Com uma maior agilidade informativa (STV em particular) e uma programação apelativa (a profusão de “Fama Shows”).

Com tudo isto a importância da RTP-África, seja em termos informativos seja em alternativa de entretenimento, foi-se desvanecendo. Presumo, pois estudos de audiência não existem.

Mais do que tudo, presumo, o que impediu o verdadeiro sucesso da RTP-África foi o seu falhanço conceptual. Várias vezes tenho aqui resmungado contra o vazio preguiçoso de tudo aquilo, uma incoerência desde o início – incoerência, falta de projecto, falta de paixão, falta de recursos humanos, falta de recursos financeiros, tudo isso confirmado e lamentado pelos próprios quadros, técnicos e dirigentes da RTP, em conversas privadas que tive durante alguns anos. Repito-me: “Mais de uma década decorrida desde a sua inauguração a RTP-África não conseguiu existir. Não levantou voo de início, rasteja hoje. Nunca teve uma ideia programática, um fio condutor, uma atitude de estação em busca de audiência.”

Gente sem parabólicas ou TVCabo lamenta-se agora que a RTP-África não é emitida em Moçambique há mais de dois meses. Estupefacto indago sobre as causas.

Mais estupefacto fico quando as sei: há mais de dois meses e meio que há uma avaria. Falta uma peça, a que veio da África do Sul não serviu, foi preciso importar uma outra. Rara. Com tudo isto passam os meses e não se emite o canal. Público. Inserido num projecto político.

A dormirem na forma. De um modo inenarrável. “O comboio descendente” vai andando. E nele “vão todos (quando, por vezes, acordam) à gargalhada“.

Opinar ou publicitar?

Bloguismo em Portugal. Descobri aqui, e fui confirmar em alguns dos blogs referidos, uma curiosidade: o jornal Expresso pré-informa alguns dos blogs sobre os temas que irá abordar na edição semanal e neles se escreve sobre os assuntos, “abrindo a discussão”. Não deixa de ser uma boa ideia do jornal – e demonstra um outro tipo de relação da imprensa com os blogs, bem mais salutar, distante da crítica corporativa (a falta de legitimidade da palavra pública individual, era o argumento de fundo) e do plágio puro que vigoravam há alguns anos.

Mas é também interessante por outro prisma. Na prática esta(s) indução(ões) de discussão(ões), esta(s) chamada(s) de atenção, de forma planeada e combinada – por mais interessantes que sejam os temas abordados e as proto-discussões lançadas por aqueles que são os grão-bloguistas portugueses – são uma forma de publicidade, uma indução ao consumo (ao clic, clic). E não é explícito que o seja.

Claro que cada um bloga como quer. E que não sendo isto imprensa não tem qualquer obrigação de anunciar que publicita. Mas ainda assim risca um bocado o verniz dos tais blogs. Apouca-os E aos olhares (atentos) dos seus bloguistas. Acho eu.

A RTP-África e o Sporting

(Este é um texto para o qual muito gostaria de ter um blog de grande audiência)

Quartos de final da taça UEFA. Jogo do Sporting em Lisboa, contra o Glasgow Rangers. A RTP adquire os direitos de transmissão e realiza-a para Portugal. A RTP-África (tal como a RTP-Internacional) não o faz. Não há qualquer impedimento para a transmissão para África dos jogos da taça UEFA em canal aberto – à mesma hora a TVM (a estação pública moçambicana, para quem não saiba) transmite o jogo Getafe-Bayern Munique. A inexistência da transmissão não tem qualquer justificação.

Várias vezes o referi ao longo dos anos. Mais de uma década decorrida desde a sua inauguração a RTP-África não conseguiu existir. Não levantou voo de início, rasteja hoje. Nunca teve uma ideia programática, um fio condutor, uma atitude de estação em busca de audiência. Um projecto, um plano, uma vontade. Nada. O único projecto relativamente característico, a informação africana no “Repórter África” anquilosou no modelo institucional, repetitivo - é uma tristeza acoplada à vergonhosa displicência que é o canal. Hoje, com a disseminação da televisão por cabo e por satélite nos países africanos, bem como com a introdução de canais privados em regime aberto a RTP-África vai-se tornando, país a país, uma dolorosa desnecessidade – seria interessante um estudo sobre a sua real audiência. Frisando tal preguiça, tamanha mediocridade da sua administração, nem o futebol português de algum impacto consegue transmitir.

Há pouco tempo aqui deixei uma jeremíada sobre o estado do Sporting e sobre a inexistência na sua direcção de uma vontade de fidelização e até expansão do clube. A incapacidade (se calhar até a oposição) da direcção do Sporting em perceber a importância a prazo, económica e simbólica, da transmissão dos seus jogos para as comunidades emigradas e para países onde ainda possui largos núcleos de adeptos – e até algum potencial de expansão – é absolutamente pungente. O “marketing” do Sporting é incompetente. Porventura sinal da incompetência da totalidade da sua direcção. Porventura não, apenas sinal da radical mediocridade de quem dirige esse âmbito do clube. As pessoas têm nome e existem – se não pensam o presente nem o futuro que sejam demitidas.

Uma prenda para Ana Sá Lopes

jornalista por ora em Maputo.

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[Stephen Francis & Rico, Madam & Eve, Bring me my (new) Washing Machine, Johannesburg, rapid phase, 2007]

Adenda: complementar com esta notícia (via Índex)

(19.19.2007) Revistas leves (“Visão” e outras). “Natais de sonho”, os roteiros dos “ricos” (hum…) e “famosos” (bem, devem ser, mas a maioria nem sei quem sejam) neste natal (trópicos, paris, nova iorque, assim). A produção de novos valores, a família a ser mais ultrapassada pela ânsia do status. E mais apelos ao cartão de crédito.

(Quanto pagarão os lóbis turísticos às revistas para este tipo de trabalho?).

Rádio no carro (alugado). Pois, único sítio onde consumir o mais estupidificado dos meios de comunicação (desde os sinais de fumo até à telepatia). E, surpresa, conhecer EuropaLX (fm 90.40) – som civilizado, gente civilizada. Depois, estrada fora, afinal é estação francesa …

(má vontade??)

(18.12.2007) “Zuma na Caneca“: – meu sms para amigos longínquos (desses incultos que não acham o desaparecimento da “pequena maddie” o acontecimento internacional do ano).

Como está Moçambique?, pergunta habitual em todas as férias em Portugal. Que responder? Que vivo num dos países mais pobres do mundo. Numa das sociedades mais assimétricas do mundo – o recôndito rural parece mesmo outro mundo. Numa particular concepção do que é democracia. Numa prática específica do poder.

Mas vivo num Moçambique que confrontado com buracos bancários produziu Carlos Cardoso, jornalista investigador das tramas económicas – e por isso assassinado. E Siba-Siba Macuacua, economista do Banco de Moçambique, investigador das tramas económicas – e por isso assassinado.

Em Portugal, tão mais desenvolvido e democrático, abundam os “nicolaus santos”, bem falantes na tv, e os “victores constâncios”, hieráticos simulando pundonor e transparência. Nem um jornalista a investigar as tramas económicas, nem um quadro do estado a investigar as tramas económicas. Sobre BCP o lixo apenas reproduzia o mito urbano do filho de Jardim Gonçalves a sondar o crédito à habitação nos outros bancos, vejam lá o quão espartano é o Grande Engenheiro.

Como está Portugal?