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Domingo à noite, caminhando para as 11 h., zapping (a TVcabo está horrível, um painel execrável, a exigir transferência para a DSTV). Na TVM um concerto dos anos 70 dos The Who - está lá o Keith Moon, e é engraçado rever o baterista, confesso. E é um bocado por saudosismo que me deixo ficar a ver. Para logo pensar a quem é que isto pode interessar, hoje em dia, a esta hora, em Moçambique, no canal nacional?


Não é que a música seja “estrangeira”. É porque aquilo envelheceu e muito, e o Daltrey era um bimbo incrível, os falsetes, a trunfa loura, os trapos “sexys”, um verdadeiro arquétipo do chuleco. A que propósito a noite de domingo entregue a isto? “Ainda se fosse um documentário” resmunguei, uma coisa histórica, mas mesmo assim que desapego ao acto de programar. “Ainda se fosse um documentário“? E não é que era!!, ao fim de algumas músicas lá surgem as declarações, o Entwistle, o Townshend, falando dos velhos tempos.

Nem legendado estava, o programa! Tamanha a preguiça do programador. Uff, ainda bem que não foi na RTP-África, lá viria eu escrever um post ao Ma-Schamba para protestar com o canal público do meu Estado. Assim, sendo estrangeiro, lá passei para o Fox ou coisa assim.

Foi aqui que reparei nos já 18 anos sobre Tiananmen

e este tétrico e emocionante ícone (já agora a sempre deitar para o lixo os inenarráveis guevarismos). E a lembrar-me tambem deste recorte, minha supresa em finais do ano passado lendo o jornal Domingo (penso que a edição imediatamente seguinte ao congresso do partido Frelimo, mas não estou certo). Talvez o melhor símbolo das diferenças de sensibilidade e das diferenças ideológicas. E tambem um símbolo dos tempos que passam. Eu a abrir o jornal, a deparar-me com um artigo sobre Tiananmen, a espantar-me por tal abordagem durante estes tempos tao pró-chineses, e a deparar-me com isto, um elogio turístico, uma lavagem de imagem absoluta. Não há dúvidas, cada um como cada qual. E cada um com o seu espanto. E sempre a minha ingenuidade …


O jornal Savana, ao qual por vezes remeto, é-me contradição. É abjecto ideologicamente: “não estará na altura de [os moçambicanos brancos] se irem embora?”, nas palavras do cronista-mor Fernando Manuel, apenas censurado quando escreve palavrões (e pactuar com isto, esquecendo por via de amizades pessoais, é higienicamente impossível, apesar das pessoas do seu interior quererem sorrir, simplificando, o fascismo com que namoram. Ou melhor, com que conjuga(liza)m). Depois tem coisas interessantes, e até contraditórias - agora é o caso, uma excelentíssima entrevista sobre Moçambique, obtida a Marcelo Rebelo de Sousa, produzida por Paola Roletta (parabéns dona).

(o jornal é tecnologicamente flinstoniano. Ou seja, para ler as agudas declarações de MRS sobre Moçambique, muito para além do trivial normativizador ou diplomático, há que esperar que eu regresse ao meu scanner. Ou então algum leitor amigo me envie o texto. Entenda-se, não está na internet.)

Há alguns dias no Chuinga um texto sobre o velha rádio, o LM Radio. Sorri, pois dias antes a esplanada de fim-de-tarde acolhera memórias alheias sobre o LM Radio, surpreendentemente emitindo em línguas bantu nesse tempo colonial. E nesse hiato linguístico permitindo-se arrojos bem para lá do catolicismo serôdio desse regime. Recordava o velho à mesa uma então célebre publicidade à Laurentina Preta, em ronga:

A cerveja ndzanti ma dzu xonguiça aua nsati, dzi tihissa aua nuna. Hingue hi xitsuatsua!”

ou seja, A cerveja preta embeleza a mulher e fortalece o homem. Parece um afrodisiaco, literalmente traduzido. Mas a vera tradução implica que a rádio colonial transmitia um anúncio, para além da censura policial e católica, que significava: “A cerveja preta embeleza a mulher e entesa o homem.”.

Uma delícia. Traduzindo (exactamente) todo aquele hiato.

(nota: obrigado ao KK pela história, ao Nord. pela confirmação e busca, a Dame AM pela grafia).

ADENDA: minha confusao sobre as estacoes em que era emitida tal (erotica) publicidade. Sobre o assunto recebo esclarecimento do Machado da Graca:

Estás a fazer alguma confusão. O LM Radio era um canal que só transmitia em inglês e afrikaans. Esse anuncio de que falas terá passado no canal Hora Nativa que, mais tarde, se chamou Voz de Moçambique, se bem me lembro. O Rádio Clube de Moçambique tinha a “estação A”, em português, a “estação B”, que era a LM Radio e teve uma “estação C” que era dedicada a música erudita e programas culturais. Depois veio a tal Hora Nativa, para aproveitar o mercado. Com o inicio da guerra creio que foram os serviços da psico-social que passaram a ocupar a Hora Nativa transformando-a na tal Voz de Moçambique, já não com objectivo económico e sim político. O LM Radio era uma radio comercial muito agressiva virada para os mercados da África do Sul e da Rodésia. Para a população branca, entenda-se.

Enquanto as rádios desses países eram enfadonhamente conservadoras e puritanas, o LM Radio tinha os últimos sucessos da música mais moderna em cada momento. Daí o seu sucesso, igualmente, junto da juventude de Lourenço Marques que tinha, na Estação A, fado e malhão e cançonetas portuguesas a toda a hora.

O LM Radio fez aqui o efeito que fizeram, na Europa, algumas emissoras que transmitiam a partir de navios estacionados fora das águas territoriais de vários países.

Porventura será uma questão de sensibilidade (origem social?), mas a última capa do Zambeze (felizmente não acessível na internet) é absolutamente execrável. Até no Zambeze surpreende.

A última edição do jornal Zambeze é um exemplar a guardar, um manancial de informações, de explícitos muito para além do sub-texto recorrente nestas questões, sobre as tensões existentes em Moçambique entre grupos sociais: os textos de diferente teor sobre “monhés” e “bantus”, a propósito de uma campanha partidária de angariação de fundos, a polémica sobre as ligações de moçambicanos de diferente origem ao Portugal colonial. São algo de não essencialista, linguagem de outros conflitos? São, com toda a certeza. Mas são categorias omnipresentes. Por isso interessantes. Repito, jornal a guardar.

(Mais) uma pérola no jornal Savana

Há anos que a secção “cultural” do Savana é uma delícia. Acredito que tal se deva a uma extrema crueldade dos responsáveis do jornal, que à secção obrigam alguns trabalhadores, os quais para seu ganha-pão (e quão difícil é este) são assim votados a uma semanal demonstração de si mesmos. Acredito que nas suas andanças literárias, prosadoras, poéticas e, mais-que-tudo, críticas, muito se devem desmoralizar.

Esta semana o “crítico” residente Armando Nenane investe mais uma “crítica literária”. O alvo é um jovem poeta, Eusébio Sanjane, recém-inaugurado com um “Rosas e Lágrimas” (Ndjira). Não o li, não opino. Chegaram-me ecos de muito jovem aspiração poética, promessas de algum talento. E de grande alarido na edição (patrocínio MCel, imensa publicidade que o patrocinador não brinca em serviço, lançamento com grande pompa, grandes encómios da editora). Como dois assistentes leitores me diziam nada melhor para matar um jovem poeta que tamanha campanha e tanto elogio. Se à MCel taL não se criticará já a editora enfim … mas quem sou eu, isso é coisa entre poetas.

Mas esta nota é sobre a crítica. Não sobre o seu “rico palavrear” entre erro ortográfico (já agora! quem poderá ensinar ao crítico grandiloquente a difícil arte da acentuação?). Mas sim sobre um momento delicioso. Nenane decide obrigar o jovem poeta a ser “poeta de geração” - “esperámos [ai o magestático] encontrar algo que mostre que a sua geração tem razão de ser como é, ou que talvez não, mas que a obra seja como que um espelho da sua geração …”, tal e qual Craveirinha o foi (!), diz. E por isso Nenane muito se insurge contra o aspirante Sanjane, que escreveu:

E sobre a metrópole / erguem-se teias de tijolo / atravessando o céu / e rompendo o espaço …” (Selvas de Pedra)

Sim, muito se irrita o “crítico”: “Como pode, (sic, a vírgula é sic) um poeta do século XXI, falar de metrópole (sic, o negrito é sic)? Onde está, em Sanjane, algo que nos faça sentir, e não perder de vista, que ele é um poeta do século vinte e um e não dos anos sessenta ou de há mais décadas atrás?”.

Por muito que se leiam jornais há sempre surpresas. Neste caso até agradáveis, que umas boas gargalhadas inesperadas (e depois partilhadas com amigos a quem se chama a atenção para esta pérola) são sempre bem-vindas.

Mas, caramba, há que denunciar a continuada crueldade do director e do editor do Savana. Que isto de obrigarem à crítica literária quem nem conhece os significados da palavra “metrópole” é demais. Desumano até. Há limites para a maldade, senhores. Nem que sejam os do ridículo.

Proler de novo

Há meses lamentei o fim da revista Proler, em minha opinião o melhor periódico cultural do país, editado pelo Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa.

Ouço agora que se prepara para reaparecer, sob direcção do jornalista português, aqui residente, António Cabrita. Esta pequena nota serve para louvar. E também para desejar que se consiga resolver o eterno problema da distribuição.

E, apenas consumidor, meter uma cunha - mais vale pior papel do que uma impressão no jone. Aqui será sempre mais acompanhada e rápida a produção da revista. Revista é para afagar, mas não o papel institucional, esse até brilhante, sim para afagar o que lá está impresso. E aqui mais se controla paginação e gralhas. E atrasos.
Boa sorte.

O jornal Zambeze passou a ter edição diária informática.

Sérgio Zimba é um dos cartoonistas mais lidos em Moçambique, publicado na imprensa de grande divulgação, e frequentemente passado a livro, como este Mafenha (Maputo, Notícias, 1999), então o seu terceiro depois de “Riso Pela Paz” (1993) e “Lágrimas de Riso” (1995), um trajecto editorial de salientar, e tão raro aqui.

Há nesta obra um traço algo rude, um desenho agreste, a embrulhar um humor brejeiro, de tom popular, no qual se mistura o “atrevido”, cheio de alusões e explícitos sexuais, a uma candura - e nesta muito se revela o próprio autor, uma gentileza de pessoa. E nessa mescla desmontando, muito mais eficientemente do que o gosto “burguês” poderá aceitar à primeira vista, os estereótipos do novo-riquismo maputense (universal?), mas também desvendando, pelo sorriso brutal que decerto conquista a compreensão que procura, os trejeitos do quotidiano suburbano.


Mas não é só uma crítica social, há também no autor tem uma visão política cáustica, denotando um homem algo descomprometido, e também livre de um olhar mais programático (que aqui terá como arquétipo a figura “Xiconhoca”), quantas vezes auto-censor e inibidor do próprio humor.


Nele encontro ainda dois traços fundamentais: numa sociedade que, em termos de expressão pública, é muito puritana Zimba joga com o sexo, dá-nos um quotidiano em que este é força motriz, como na realidade o é apesar de todos os moralismos. E onde é também, e quantas vezes, relação de poder. E mais, Zimba escapa-se ao espartilho do português, é (provavelmente) o único homem da comunicação escrita que aqui usa de modo constante, e cúmplice, a associação do português com outra(s) língua(s).


Este é um pequeno texto que exige declaração de interesse. Como é óbvio, e pelos motivos acima assinalados, sou adepto do Sérgio Zimba. Há dias em que ele me parece ser, no âmbito da escrita, o grande olhar moçambicano sobre o real.

A Morte de uma Revista

Chegou-me ontem às mãos a nova Proler, o nº 12.

Incluindo um texto de Armando Jorge Lopes, bem actual, “Língua, Língua: homogeneizar, heterogeneizar?”, um artigo de Russel Hamilton sobre José Craveirinha, a continuação do dossier que Artur Minzo apresentou sobre a relação da literatura oral e da escrita. E uma muito bela entrevista a Mia Couto, na qual ele fala de literatura (”Os meus adversários moram todos dentro de mim”), de pluri-identidades (”a literatura tem a grande capacidade de viajar pelas identidades que existem dentro de nós, cada um de nós é uma mistura”) e da (sua) cidadania, a qual exerce, muito e de modo corajoso, diga-se (”…ficar calado não me apetece”).

A Proler, cume da imprensa cultural em Moçambique, anuncia o seu encerramento, após 13 edições (12+especial Craveirinha). Compreendo o seu final, mas lamento-o, empobrecerá a sério a reduzida divulgação cultural aqui. A revista do Francisco Noa tem alguns anos e uma particularidade: foi melhorando, conteúdo e grafismo, ao longo do tempo. E isso é de referir. Fácil é ter umas ideias e alguns fundos e avançar. Para depois ir minguando, à falta de energia. Difícil foi construir este projecto, passo a passo, dificuldade a dificuldade (e tantas foram). E, egoísta, lamento-o pessoalmente, em 40 anos a Proler foi o único sítio que me pediu para publicar textos meus. E, imagine-se, pagou-mos.

Eleições em Moçambique: fontes. A (re)lembrar que para acompanhar as eleições em Moçambique este é um sítio bastante recomendável, o Boletim da AWEPA, coordenado por Joe Hanlon, secundado por Adriano Nuvunga.

Eleições em Moçambique. Para acompanhar processo também aqui, o boletim da AWEPA, dirigido por Joseph Hanlon.

Comentário.Sexta-feira à noite jantar cá em casa, a boa comida de sempre, e como um vulgar vinho do Redondo pode saber bem! Em especial quando casado com bela conversa, casal amigo, argentino, discorrendo sobre Buenos Aires. E também sobre outras tantas coisas, viagens feitas, episódios de todos, memórias. Risos e até sustos, do passado. E eles também sobre a crise que lá por casa tiveram e do belo Presidente que arranjaram (confesso-me muito mal informado sobre a Argentina).

Antes passou o Francisco, a mostrar e a dar, 11º número já, que aventura a dele, que trabalheira, a valer a pena.
No meio disto telefonema de amigo lisboeta, surpresa, está cá em workshop de música para dança, a correr na Casa Velha. Chegado ontem, primeira vez em Maputo. Boa nova, um pouco de cicerone, pretexto para mesa e sede. E fala.

Amanhã pic-nic na escola da Carolina. Obrigatório. E começo de duas semanas em que regresso ao estatuto de pai-mãe. A ver vamos como reage ela desta vez.

Tudo crucial.

Uma visão de Portugal

[Se não tiver tempo/paciência para ler este texto, que é tentativa de contextualização, siga sff directo à transcrição de parcela de carta de leitor do jornal “Notícias”, “Historieta portuguesa”. Uma pérola, garanto. Hilariante]

Uma das componentes mais interessantes do diário “Notícias” é sua secção “Cartas dos Leitores”. Vários assuntos são aí abordados, em especial sociais e políticos. A secção é um belo barómetro da situação política do país, acho-a um universo documental riquissimo para a análise da história recente. Mas a sua interpretação exigirá a análise das estratégias de autoria.

Surgem cartas assinadas pelos leitores, como é óbvio. Muitas outras sob pseudónimos. Alguns recorrentes e até reconhecíveis. Outros incógnitos (ou seja, anónimos). Dizem-me que por vezes esses pseudónimos desconhecidos são utilizados por elementos da própria redacção, ou por colaboradores muito próximos. Não o posso garantir, apenas transcrever uma opinião corrente no público leitor e até no meio profissional jornalístico.
Esta questão da autoria liga-se com os objectivos finais das comunicações. O não assumir público dos escritos prender-se-á com dois factores: o cuidado do cidadão que quer opinar ou denunciar mas que não se quer ver envolvido em questiúnculas; e, bem mais subtil, o possibilitar ao jornal “Notícias” veicular factos e opiniões algo distintas da linha editorial que quer explícita.

Entre outros há dois aspectos que quero aqui realçar:

1. a recorrência com que textos sobre questões políticas surgem assinados por pseudónimos (reconhecíveis ou não) radicalmente bantus. [a questão dos nomes nunca poderá ser entendida se não se considerar a prática de atribuição forçada de nomes “cristãos” por parte da administração colonial]

Não posso deixar de associar esta prática à tentativa de criação de uma autoria especificamente africana, isenta das influências portuguesas-coloniais, insuspeita de qualquer “assimilação” colonial ou pós-colonial. Ou seja, a imagem de uma voz absolutamente africana, uma visão essencial, não contaminada. Em suma, uma africanidade não corrompida pela modernidade “assimilacionista”, de teor colonial ou globalizada. A voz de África, a voz de um Moçambique puro e, portanto, legítima nas suas opiniões.

Entenda-se, ainda que prefira ver os textos identificados acho este recurso retórico legítimo. Mesmo que critique, intelectualmente, a visão essencialista que lhe está na origem.

Mas não posso deixar de notar um facto paradoxal. Alguns destes escritos implicam ainda uma estratégia de simplificação. Não tanto da escrita, mas sim um empobrecimento do conteúdo, algo que o calão moçambicano poderia chamar de “confusionismo”. Ou seja, há uma construída ligação de ignorância e da tal “pureza africana”, que se produz através da diminuição do saber do próprio autor. Que põe o pseudónimo a escrever sob uma espécie de “pretoguês” intelectual, como se o tal “essencial” autor local fosse incapaz de um efectivo conhecimento da realidade global, que ultrapasse os seus limites empíricos.

Involuntariamente decerto, temos nestes textos um dramático exemplo de (auto)racismo, um racismo de classe evidente, no qual os autores, letrados moçambicanos, desvalorizam as potencialidades cognitivas do seu próprio povo, se rural, se não-assimilado.

2. a recorrente presença do tema “Portugal”, com o ex-colono surgindo como objecto de polémica. Quanto à História colonial, quanto à actual presença aqui de interesses e cidadãos portugueses. É normal, a relação colonial deixou uma difícil herança, estranho seria o contrário.

Mas o tema “Portugal” serve ainda para a discussão política, é por vezes matéria-prima para a argumentação da vida política interna, e amíude com notório exagero da actual influência portuguesa em Moçambique.

Muito francamente duvido da efectiva eficiência deste tipo de argumentação, o da afirmação de laços particulares de alguns grupos sociais, políticos, religiosos moçambicanos com interesses portugueses. Nem que seja pelo facto da maioria da população moçambicana já não ter como referência existencial o colonialismo. E até pelas dificuldades do quotidiano, este já tão distante dessa realidade histórica.

Vem isto a propósito de uma deliciosa e paradigmática carta de leitor (sob pseudónimo) publicada em duas partes (17 e 19 de Abril de 2004), carta de apoio a um dos partidos políticos e crítica de um outro. Mas também crítica da presença portuguesa e das relações havidas com forças políticas locais. E, também, crítica dos assimilados, considerados como tendencialmente próximos do partido adversário.

Abaixo transcrevo a sua parte introdutória, “Historieta Portuguesa”. Por ela se afirma a raíz das dificuldades moçambicanas, a mediocridade do colonialismo português. E também a dos assimilados. Ambos passíveis de apoiar o partido adversário.

Paradigmática carta pois ao ler a deliciosa prosa é óbvio que o seu autor domina a história de Portugal e que a aprendeu pela cartilha do Estado Novo, percebe-se pelos factos invocados e pela linguagem utilizada. Será portanto, na linguagem local, um “assimilado”. Mas deliberadamente tudo confunde para se livrar desse epíteto, assim ainda legitimando a crítica a essa hoje já abstracta entidade “assimilado”.

[Esta minha conclusão após ler e fruir a carta foi-me confirmada por várias pessoas que identificam o autor. Aliás frequentador habitual da esplanada da Associação de Escritores, pelo que muito provavelmente já partilhámos mesa e até bebidas]

Finalmente não posso deixar de sublinhar um ponto espantoso: a carta, um verdadeiro texto pós-moderno como afirmava uma amiga minha, apresenta uma concepção original da expansão portuguesa (e ibérica, já agora). Tudo derivou da busca de afrodisíacos. Freud não diria melhor.

Façam favor, leiam “Historieta Portuguesa” (minha transcrição, todos os erros que não estejam assinalados com sic são da minha responsabilidade)

Atitudes e Comportamentos Ridículos
Kandayane Wa Matuva Kandiya
Notícias, 17 de Abril de 2004

1. Historieta Portuguesa

Uma das piores senão a pior desgraça que há cinco séculos abateu o Povo Moçambicano, foi o de ter sido colonizado por portugueses.

Oriundos de um pequenino país da Europa, produto da fusão de vários povos, acabaram sendo conhecidos por Lusitanos.

Encravado no extremo sudeste [sic] da Península Ibérica, Portugal foi várias vezes feito colónia ou província Castelhana, depois de ter sido sucessivamente esgravatado por Iberos, Celtas, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, e por fim ainda hoje se podem encontrar naquele país, vestígios dos seus últimos colonizadores, os Muçulmanos, também conhecidos nessa época por Sarracenos, Árabes, Maometanos e Mouros.

Trazendo consigo recalcamentos de vários sofrimentos não podiam ter encontrado melhor campo para descarregar e semear as suas mágoas, as desilusões e enfim a sua fúria senão no pobre Povo Moçambicano.
Mal se tornou independente da Espanha pelo tratado de Zamora assinado entre D. Afonso Henriques e o Rei de Espanha lá para os anos 1149 por aí, e apercebendo-se da sua pequenez no tamanho e na forma, Portugal decidiu desde logo tornar-se grande à custa de conquistar, subjugar e dividir para reinar outros povos, imitando os seus anteriores suseranos romanos e, pedaço a pedaço, os “Tugas” como hoje são apelidados formaram um “grande império português” que, partindo da praia do Restelo iniciou uma marcha longa cujo destino seria a Índia, contornando e conquistando quase todos os povos da parte ocidental do Continente Africano, desembocando depois em Moçambique.

Quer dizer, o conceito de poder e grandeza para os portugueses de então, não era em termos de possuir ou armazenar riqueza, tal como ouro, carvão ou gás de Moçambique que sempre jazeram no subsolo inexploráveis (sic), muito menos o petróleo ou os diamantes angolanos que também sempre existiram, mas apenas e só apenas descobrir o caminho marítimo para a Índia, para de lá carregar para Europa piri-piri e outras especiarias culinárias, tais como gegimbre (sic), açafrão, colorau servindo apenas de entreposto comercial! Ridículo não é?
Mas foi assim mesmo: a noção de riqueza e grandeza para os portugueses de então, não consistia na busca e/ou descoberta e estar sobre o seu domínio as areias pesadas de Angoche, Moebase e Chibuto em Moçambique, Mancarra, olém de dedém ou borracha da Guiné, cacau em São Tomé e Príncipe, ou pelo menos algumas palancas em Angola que fariam delirar de encanto aos (sic) visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa, não senhor!

Apenas e só apenas espezinhar outros povos e levar para Portugal, pimenta, cravo e títulos honoríficos para os seus reis. Por exemplo, um dos seus reis o Rei D. João II, quiçá o mais sanguinário dos reis portugueses, teve a alcunha ou o cognome de “Princípe Perfeito”, após ter ordenado o abate de muitos dos seus adversários, mandando igualmente ao cadafalso o Duque de Bragança e apunhalado com as suas próprias mãos o Duque de Viseu e assim ficou Rei e Senhor absoluto de tudo, passando depois a usar pomposamente os títulos de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e Navegação, da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”.

Assim, El-Rei, ficava sumptuoso e altivamente arrogante gabaroso e amalham (sic) ao ponto de “chutar” alguns poderes para os seus “vice-reis” lá para as Índias, após ter descoberto o tão almejado caminho marítimo e levar a Lisboa, malaguetas e outros afrodisíacos!

Com este tipo de colonizadores, outra sorte não podia nos calhar senão a pior.

Ainda a Lusofonia

Hoje mesmo um artigo de cristalina clarividência de Tomás Vieira Mário, publicado no jornal Notícias. Mais uma vez se desmonta a lusofonia. Que se mantém recorrente no discurso português, por defeito de cultura e, acima de tudo, de inteligência.

Hei-de voltar ao assunto. Tal como já o aflorei em textos hoje já no arquivo. Mas para quem queira perceber um pouco do Portugal de hoje em África leia sff, ainda que algo longo.

Ah, o Primeiro-Ministro Durão Barroso visita Moçambique este mês. O quão bom seria que alguém lesse e compreendesse coisas destas. E que à ignomínia e imbecilidade dos nossos socialistas em África se sucedesse alguma decência e inteligência. A ver vamos…

QUE AGRICULTURA LUSÓFONA É ESTA?
Tomás Vieira Mário
Notícias, 9 Março 2004

Ele há-de sempre haver coisas nesta lengalenga de lusofonias que só fazem sentido em contextos do absurdo!

Estava eu ainda a comentar com um amigo, na tarde de domingo passado, sobre o anúncio de uma exposição, que suponho fotográfica, a ser organizada pela RDP-África, em Lisboa e que, nos anúncios desta estação emissora, se denomina “Imagens Lusófonas”! E eu me perguntava: mas … de que raio de imagens estariam eles a falar?! Porque, pela explicação e entendimento oferecidos pela RDP-África, e dada a “missão” desta mesma estação radiofónica (comunicar para – e não necessariamente “com” – as comunidades africanas dentro e fora de Portugal), tratar-se-ia de uma exposição de fotografia de autores alegadamente falantes da Língua Portuguesa. Mas … sendo que nestes se incluem angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, santomenses e timorenses, porque haveriam todos de ser considerados lusófonos?

E afinal, ainda estava o pior por vir: nas edições de segunda-feira de alguns jornais nacionais vem um texto publicitário anunciando uma reunião que se chama “II Jornadas de Agricultura…Lusófona” (!). De novo, a inevitável pergunta: de que agricultura estarão eles a falar? Que agricultura será essa, denominada “lusófona”? Haverá alguém com paciência suficiente para me explicar o significado de uma tal expressão, mesmo admitindo que seja utilizado em sentido figurado? Que figura pretenderia ela representar?

Pela lógica das coisas, sou induzido a pensar que eles pretendem, nestas jornadas, falar das possibilidades de investimento luso no sector agrícola em Moçambique, já que diz o subtítulo “Moçambique – terra de oportunidades”. Mas e então porque não dizer logo “Jornadas sobre o investimento português no sector agrícola de Moçambique”?

É que, de contrário, a agricultura moçambicana longe ser “lusófona”, seria “bantófona” (…) já que ela é dominada por camponeses moçambicanos locais, na sua quase totalidade, analfabetos da Língua Portuguesa!

A lusofonia – vozes mais autorizadas já o disseram inúmeras vezes, e com maior veemência – corresponde a um quadro socio-linguístico dos portugueses (lusos), do mesmo modo que nós, moçambicanos, pertencemos a um quadro socio-linguístico bantu. Por “camonianos” que pudéssemos ser!

É que, tratando-se, como se pretende fazer depreender de iniciativas conjuntas Portugal-Moçambique, porqu erazão é que vai, sempre, prevalecer a lusofonia como denominação de referência? Por falarmos, como se vem repetindo, a mesma língua? Já o havia dito, repetidas vezes, o saudoso Prof. Aquino de Bragança: da mesma forma que com a língua comum nos podemos entender facilmente, também com ela nos podemos facilmente insultar!

(…) De tal forma que a evocação da Lusofonia aparece, quase que exclusivamente, para denominar estratégias portuguesas de afirmação no exterior, sob o manto da “língua comum”, nomeadamente com as suas ex-colónias africanas.

Mas parece simplesmente ridículo, arbitrário e destituído de qualquer sentido (político, histórico, cultural, etc) atribuir denominações do género “Agricultura Lusófona”, para encobrir formatos de estratégias empresariais portuguesas para África! Ainda seria de considerar qualquer coisa como “Agricultura Luso-Moçambicana”, etc.

Daí a pouco vamos também ter, em Moçambique, jornadas de “Educação Lusófona”, ou de “Conservação de hipopótamos e búfalos lusófonos”.

(…) Afinal, porque razão é que ao invés de uma Comunidade de Países Lusófonos, os Estados falantes do português acordaram em criar uma “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”?

Revista Proler

10º número da Proler, a única revista cultural aqui. A salientar a capacidade de sobrevivência do grupo de Francisco Noa. Falta de patrocínios, falta de publicidade. É certo que a revista continua a oscilar entre páginas excessivamente académicas e outras bastante ligeiras, uma mistura por vezes pouco atraente e que desorienta alguns leitores. Mas vale…pelo esforço e pelo conteúdo.

Este número vale ainda pela entrevista dessassombrada de Ana Magaia, a decana (é ela que o reclama, corajosa!) das actrizes moçambicanas: o teatro está “moribundo”, diz, exigindo uma escola de teatro. E não se safam os escritores. Ana Magaia no seu muito melhor.

E boa ideia, uma introdução à literatura oral, e ainda mais com a entrevista a Zacarias Mawai, o contador [boa notícia, a Promédia vai-lhe lançar um livro bilingue].

E ainda uma reportagem sobre as condições existentes para a actividade cultural em Maputo: “Todos os caminhos vão dar ao Franco” (Centro Cultural Franco-Moçambicano). Salientando a sua importância crucial nesta cidade e alertando para o facto de ser um polo para a internacionalização de artistas moçambicanos, nas artes plásticas e música, pelo apoio às suas apresentações no estrangeiro. Chama-se a isso cooperação cultural! [para bom entendedor…]

Pena é que não haja uma maior pormenorização dessas acções, o repórter tem que estar lá para isso.

Ponto final: não percebo como há tanto patrocínio para tanta coisa e não há publicidade que se chegue à Proler, que ainda são uns milhares de revistas a circular. Mas enfim, disso também nada percebo.