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Bono em Maputo

A propósito de uma reunião em prol do desenvolvimento Bono está nestes dias em Maputo. O muito oficioso jornal “Notícias” assim noticia o encontro do Presidente Guebuza com o milionário Mo Ibrahim (aqui celebrizado pelo prémio atribuído há anos ao ex-Presidente Joaquim Chissano) e o cantor dos U2, celebérrimo activista de causas desenvolvimentistas. Vai uma gargalhada por Maputo, tudo a rir da “ignorância” dos jornalistas que esquecem a super-estrela aqui deslocada, apagada do título e reduzida na pequena legenda a mero “acompanhante”.

Enganam-se. Não há qualquer ignorância. Há sim uma cosmologia a funcionar, uma explícita hierarquia. Está, literalmente, na cara. E não tem, rigorosamente, piada nenhuma.

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O início da revista Tempo

AO, leitor veterano e silencioso do ma-schamba, enviou-me ligação para os dois primeiros números da revista Tempo (Setembro de 1970), inteiramente digitalizados. Aqui ficam as respectivas capas (com o particular interesse do segundo número ser encabeçado por Mário Barradas, então figura central do teatro local) e as ligações para quem queira ler (e ver) as revistas – uma preciosidade.

[Nº 1, 20 de Setembro de 1970]

[Nº 2, 27 de Setembro de 1970]

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Sebastião Alba

Sobre Sebastião Alba uma excelente nota no Antologia do Esquecimento: “Quando Escreve Descalça-se à Entrada do Poema”.

Nota: a propósito de Alba Leonel Auxiliar chama a atenção para este local que lhe é dedicado, com textos de Teresa Lima, José Craveirinha, Machado da Graça, Glória de Sant’Anna e do próprio poeta.

 

Adenda: não tem nada a ver mas no mesmo blog uma bela nota a propósito da paternidade – “Diálogos Sobre Estética”.

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Literatura Moçambicana

(pressionando a imagem ela engrandece)

Transcrevo um texto publicado na última edição do jornal Savana (12.2.2010), da autoria de Jorge Oliveira actual secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos, e dedicado ao escritor Andes Chivangue. Deixo-o aqui como um documento, parece-me que uma futura abordagem ao panorama literário moçambicano desta década passará pela reflexão das concepções aqui em jogo, as explícitas e as denotadas.

A transcrição deste artigo, pelo seu evidente interesse para o conhecimento das dinâmicas ideais do “campo literário” moçambicano, obriga-me a uma nota explícita e absolutamente linear: há algum tempo o seu autor dedicou-me um texto que considerei irrespondível. Para minha salvaguarda, moral. Mas também porque, se eu bem posso analisar a situação – e foi algo de muito profundo que aprendi com aquela para mim muito desagradável situação -, sobre ele incide a razão histórica e sociológica: a sua proeminência nos campos literário e mediático moçambicanos é um facto, profundamente vinculado à realidade e, nesse sentido, absolutamente legitimada. Pelo contrário, qualquer opinião analítica (crítica) que eu possa ter tido (ou a ter, num futuro) é historica e sociologicamente, e como tal racionalmente, descabida. Um mero epifenómeno oriundo de um estrangeiro, no sentido não só de desprovido de poder locutório como também de dimensão émica, e nesse sentido de legitimidade.

Portanto a transcrição que aqui faço não procura o mínimo enfoque crítico. É apenas o reconhecimento de um documento de extremo valor testemunhal sobre as dinâmicas do mundo cultural (neste caso literário) moçambicano neste início do século. Como digo acima, para reflexão em investigações futuras.

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Ainda Guevara em África

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: “Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos.” Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, “no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso”. Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento.” (pp. 209-210)

A propósito dos contactos entre Ernesto Guevara e a Frelimo

A propósito das recentes entradas sobre os contactos de Ernesto Guevara (dito “Che”) com a Frelimo Amélia Souto, que muito honra o ma-schamba com as suas visitas, enviou-me esta fotografia de uma reunião na Tanzânia do referido dirigente comunista com membros da direcção da Frelimo – onde se pode reconhecer Samora Machel.

Ainda a este propósito, e em directa ligação ao texto de João Cabrita abaixo reproduzido transcrevo uma mensagem que o Machado da Graça (once a blogger, always a blogger) me enviou.

Estive agora a ler o texto do Cabrita sobre Mondlane e o Che. Ele põe as divergências entre os dois, como apresentadas pelo Helder Martins, como questões de lana caprina. Nomeadamente a questão do tipo de guerrilha a desenvolver. Ora eu creio que esta questão não era, de forma nenhuma, coisa sem importância. Era uma questão fundamental. O que não tira importância aos outros aspectos que o Cabrita levanta no seu artigo nem, de facto, os contradiz.

Mas qual era a divergência entre Mondlane e o Che? O Guevara aprendeu a fazer guerrilha em Cuba e, depois da vitória dos guerrilheiros, sistematizou a sua experiência num livro, que eu devo ter para aí em qualquer lado. Era a teoria do foco guerrilheiro. Segundo ele a guerrilha devia conseguir intalar-se numa parte da área a libertar e depois, a partir de lá, ir libertando o resto do território. No caso cubanbo o foco teria sido a Sierra Maestra. Depois disso ele procurou transferir esta teoria do foco para áreas muito maiores. Quando morreu, na Bolívia, a ideia era conquistar o poder naquele país e, a partir dele, exportar a revolução para os vários países vizinhos com quem a Bolívia tem fronteiras. Ora foi isso, também, o que veio propor em África. Aqui o foco seria no Congo e todos os movimentos de libertação deveriam apoiar os congoleses até conquistarem o poder naquele país e, depois, dele partiriam para a libertação dos vizinhos. Isso implicaria, se bem percebo, que a Frelimo deixasse de lutar em Moçambique e fosse reforçar o contingente no Congo. Só depois deste libertado se passaria para outros e, um dia, se chegaria a Moçambique.

E, ao que sei, foi a isto que Mondlane se opôs, defendendo que a luta da Frelimo era dentro de Moçambique, para libertar os moçambicanos, e não no Congo. Se houve tudo o mais que o Cabrita afirma, não sei, mas diria que uma coisa pode não contradizer a outra mas apenas complementarem-se.

[Entretanto] Muito se tem falado da ligação de Mondlane aos Estados Unidos, mas ainda não vi nada que me convencesse de que a ligação era institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou. Mas um facto é que, no final da sua vida, ele declarou numa entrevista que a Frelimo estava cada vez mais socialista, um socialismo do tipo marxista-leninista. De qualquer forma, o artigo do Cabrita traz mais dados para a compreensão dessa época, o que é bom.”

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Café no British Bar e Visita à Cordoaria

IMGP4770 BRITISH BAR SM

por ABM (Cascais, aos 20 de Dezembro de 2009)

Um convite inesperado.

Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.

Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.

Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.

Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.

Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.

Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?

Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.

Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.

Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.

Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.

IMGP4771 BW

(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)

IMGP4775 crop bw(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)

IMGP4779 MNP KOK E PAT AT KORDA(Kok Nam e Patraquim revisitam Korda)

IMGP4792 crop(K,K&K – Kok Nam Korda e Kodak)

Last but not least:

2009.12.18 Kok e Nuno Nam no British Bar Cais do Sodré BW

(Kok Nam e Nuno Kok Nam – duas gerações)

“A Invenção das Ilhas”, de Virgílio de Lemos

VirgilioLemos invençaco

Comemorações (já!) do 10º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique. Feliz iniciativa, a de publicar este “A Invenção das Ilhas“, uma antologia de Virgílio de Lemos, organizada por António Cabrita, e que contém ainda uma longa entrevista ao poeta, realizada em 1999 por Carmen Lucia Tindó Secco, para ser integrada na publicação da obra por ela organizada “Eroticus Moçambicanus” (editada por Nova Fronteira). A obra contém ainda, em regime de posfácio, um colóquio do organizador consigo mesmo, “A Buganvília Que Ri. Sobre a Poesia e Outros Suspensórios ou Breve Telegrama para o Virgílio de Lemos, Poeta da Luz e do Tricórnio“. O volume contém vários dos seus heterónimos, Bruno dos Reis, Duarte Galvão, Lee Li-Yang, Virgílio de Lemos, cruzando a produção destes autores desde o início de 1950s até à presente década.

Avisam-me de planos para a publicação da sua obra completa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E ainda a iniciativa da tradução para português de (parte da?) sua obra em francês. Um conjunto de iniciativas que trarão Virgílio de Lemos para o convívio de poetas moçambicanos, uma presença hoje quase invisível como afirma Cabrita. Coisa talvez do seu percurso biográfico, há longas décadas vivendo em França e com muito raras visitas a Moçambique. E também ao relativo esquecimento, apesar do reconhecimento que alguns, como Eduardo Lourenço e Patraquim lhe votam.

Fica, não como exemplo, mas como nota de quem então partiu para não voltar, este poema de 1963, da autoria de Duarte Galvão:

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.

A Marginal de Maputo em livro

Machado Marginal

Ainda nada mais sei sobre este livro, apenas que está para chegar aos “postos de venda” (ou já lá estará?). “Marginal de Maputo. Uma Estrada com Vida“, apetitoso contributo de Machado da Graça para a Maputografia, editado pela Promedia. Estrada (e litoral) sempre mutável, natural e socialmente fluindo, será interessante ver como Machado da Graça retratará esse processo histórico feito via rodoviária. E, já agora, deliciarmo-nos (será o caso? presumo que sim) com a iconografia seleccionada para mostrar tão bela e sofrida área da cidade.

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Exposições World Press Cartoon em Maputo

CartazWPCImprensa

Uma acção dupla, em iniciativa conjunta BCI e Instituto Camões, a apresentação dos TOPs 50 de 2008 e 2009 do concurso World Press Cartoon (acesso a informação e aos vencedores). Hoje inaugura-se a dedicada a 2009, na galeria do Instituto Camões (av. Julius Nyerere). Amanhã inaugurar-se-á a relativa a 2008 na Mediateca do BCI (rua Joaquim Lapa). Ambas estarão disponíveis até 12 de Dezembro.

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Blog-Memorial

gouvea-lemos

Jornalista Gouvêa Lemos é o blog que José Paulo Gouveia Lemos acaba de abrir para divulgar/preservar os textos de seu pai.

Patrioteirismo, de António Gouvêa Lemos

Os familiares de António Gouvêa Lemos criaram aqui (Facebook) um local memorial desse jornalista, referência do pensamento e escrita das décadas finais do regime colonial em Moçambique. Presumo que a responsabilidade desse sítio seja, pelo menos parcialmente, do seu filho também ele bloguista José Paulo Gouvêa Lemos. Confesso que preferia que essa memória surgisse em terreno aberto (entenda-se, blog) pois nem todos aderiram (aderimos) a essa febre facebookista. Talvez um “interface” blog-facebook fosse a mais adequada intervenção, se me permite(m) o conselho.

Mas independentemente disso (afinal minudências) não consigo resistir a transcrever o texto de António Gouvêa Lemos que acabou de ser deixado nessa página: “Patrioteirismo“. Parece ter sido escrito hoje, certeiro o seu conteúdo, louvável (e tão fresca) a sua forma. Até espantosa se o pensarmos escrito no Lourenço Marques de 1957 …

E assenta que nem uma luva, perdoem a apropriação, talvez abusiva e arrogante, a este jpt que aqui bloga.

PATRIOTEIRISMO

A consciência plena da nacionalidade que se tem, o orgulho inteligente de a ter, fundamentados ambos no verdadeiro conhecimento da História e na apreciação imparcial das realidades actuais; mais a preocupação sincera pelo futuro da Nação de que se é membro, com o desejo de colaborar na elevação do seu nível econômico, social e espiritual – tudo fundido na forma de uma personalidade vincada, que leva a guardar ciosamente o direito de ter opinião e participação no que é nacional e tudo realçado pelo amor à terra que é a nossa, a dos nossos antepassados e a dos nossos filhos e pela veneração das memórias daqueles que se ilustraram, de qualquer modo, ao serviço da Nação e ainda pelo respeito daqueles que abnegadamente a servem hoje – tudo isso se chama patriotismo.

É um sentimento antigo, cuja origem se perde nos séculos e tem raízes na própria natureza humana.

Não foi criada recentemente e não se manifesta por gritos, melindres histéricos, escrúpulos despropositados e receios de invasão por forças estrangeiras através de manifestações ligeiras e divertidas, de actividades inconsequentes e de factos, frases ou escritos sem qualquer significado especial.

Aí começa outro fenómeno e esse não tem nada a ver com o cérebro nem com o coração. Só terá a ver alguma coisa com o cérebro, em certos casos e isso mesmo, se considerarmos a esperteza uma qualidade intelectual. De resto, explica-se pela ignorância, pela estupidez ou pelo desequilibro nervoso. É o patrioteirismo.Encontra-se muito nos sujeitos que se arvoram – eles próprios – em pais da Pátria e que se sentem no dever de se ofenderem – por ele e pelos que julgam indiferentes – como tudo quanto se esforçam por considerar grave e não tem gravidade nenhuma. Indignam-se e pespegam lições de portuguesismo, sem cuidarem primeiro de saber se quem as recebe delas precisa ou as pode ministrar. Falam sempre na primeira pessoa. Porque eu, na minha qualidade de português, jamais consenti, não consinto nem hei-de consentir que, diante de mim, etc. e tal.

Há também os que se afligem, no seu portuguesismo de alfarrábio, porque se comparam em certos campos, realizações estrangeiras ou conquistas de outros povos, como o que nós fazemos, com o que nós temos. E não curam de explicar ou de justificar as diferenças, nem dão tempo a que o outro faça tal. Enfurecem-se patrioteiramente e, envergando a armadura, enfiando o elmo e de lança em riste, acometem o mouro, berrando sandices.

O patrioteiro – da família das sensitivas – dá-se muito bem em climas quentes.

(Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1705, em 27 de Dezembro de 1957, p. 1 e 5 na Col. Mesa Redonda.)

João Paulo Borges Coelho: Uma Entrevista

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por ABM

A propósito da atribuição do Prémio Leya ao académico e Autor moçabicano João Paulo Borges Coelho, para quem dos exmos visitantes Maschambianos não o conhece, em seguida transcrevo, com a devida vénia, uma entrevista que JPBC concedeu ao Notícias de Maputo e que foi publicada em 15 de Agosto de 2006. Não captei o nome do entrevistador.

Repare o exmo leitor que, sendo JPBC branco e filho de português, o entrevistador não conseguiu resistir a fazer três perguntas a inquirir sobre as suas afinidades e sua “moçambicanidade”. Uma praga perfeitamente aceitável no Moçambique actual.

Então, eis o texto da entrevista:

João Paulo Borges Coelho é historiador. Dedica-se à pesquisa e ao ensino, na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), da história contemporânea de Moçambique. É também um escritor que se está a afirmar. Lançou o seu primeiro livro (“As Duas Sombras do Rio”) em 2003 e, no primeiro semestre deste ano, o quinto, intitulado “Crónicas da Rua 513.2″. Pelo meio publicou também “As Visitas do Dr. Valdez”, com que ganhou a edição 2005 do prémio literário José Craveirinha, organizado pela AEMO em parceria com a HCB. A sua escrita literária é um casamento que faz da bagagem científica que carrega com uma ficção sempre relacionada com realidades presentes ou passadas do nosso país. O tema do novo livro é o Moçambique do socialismo, que diz ter sido um tempo “de experiências para lembrar”. Sobre si, sobre este e outros temas que marcam a nossa realidade e não só entrevistámos este proeminente cientista social e valor adquirido na literatura moçambicana, de que passamos a seguir os principais trechos:

N – As suas raízes são portuguesas, apesar de praticamente ter feito a vida em Moçambique. Nasceu no Porto, filho de português. Ocorre-me perguntar, por estes dados, se é moçambicano ou português?

- Sou moçambicano, apesar de ter nascido cá. Nasci no Porto, em 1955, mas as minhas origens maternas são daqui. A minha mãe nasceu no Ibo, a minha avó nasceu no Ibo e a minha bisavó nasceu no Ibo. Ainda há pouco tempo estive lá a ver os túmulos e um deles está referenciado a 1917, duma tia-bisavó. Quer dizer, metade de mim é moçambicana e a outra metade, por via paterna, portuguesa. O mais importante é que eu optei por ser moçambicano.

N – Quais são as suas afinidades com Tete, mais concretamente com o Zumbo, que aparecem em muitos dos seus escritos, tanto de ciência como de ficção?

- Com Tete eu tenho afinidades desde criança, que onde pela primeira vez tive a noção do mundo, com um ou dois anos de idade, foi em Moatize, onde o meu pai trabalhou nas minas de carvão. Em Moatize nasceram dois irmãos meus, portanto foi isso. Com o Zumbo é uma afinidade relativa, apesar de ser especial, porque é um sítio que eu visitei muitas vezes em trabalho. É um sítio que é muito difícil de chegar, está mais para lá, na confluência do Zimbabwe e da Zâmbia, numa espécie de fim do mundo pelas condições em que vive. Então eu decidi fazer um pouco de barulho a volta do Zumbo tal como se podia fazer por muitos outros lugares deste país nas mesmas condições.

N – Apesar de se dizer moçambicano e, ao mesmo tempo, que geneticamente é metade moçambicano e metade português, tem algum afecto especial digamos por Portugal?

- Tenho afinidades, sim. Primeiro porque é a minha terra natal, é terra do meu pai. Mas essas coisas não nos impedem de sermos quem somos. Tenho as minhas afinidades e tomei a minha liberdade de escolher o que sou sem que isso signifique me ter zangado com o pai, nesse sentido. São afinidades, emocionais, culturais que eu acho que para sermos uma coisa não nos devemos necessariamente excluir das outras. Eu acho que todas as experiências e todas as emoções são um capital individual que nós temos e determinam o olhar que nós temos sobre o mundo.

N – Nesse aspecto, no olhar que tem sobre o mundo, e voltando um bocadinho atrás ao que acaba de dizer, que nos obrigam a ser ou uma coisa ou outra, discorda da dupla nacionalidade, que a nossa Constituição rejeita textualmente?

- Sobre isso falo não no sentido legal do país, mas no emocional ou de sentimento. Imaginemos por exemplo um indivíduo de Mocímboa da Praia que tem família na Tanzania com quem comunica numa dessas línguas comuns de um e do outro lado. Para mim a identidade não é uma coisa estática nem feita de acordo com pressupostos teóricos que na prática nem sempre se verificam. Eu acho que ela se processa a vários níveis e à partida temos, num sentido mais amplo, a identidade de seres humanos. Depois vamos descendo a outros níveis até chegarmos a uma identidade especial que é a identidade nacional, que é muito importante porque as relações do mundo ainda se pautam pelas nações, que se regem pelo respeito e reconhecimento a um espaço territorial, a obediência a um estado; há muitas identidades que convivem todas no mesmo espaço e em espaços variados. E até há a identidade individual! Penso que nós devemos viver com os todos os elementos identitários que nos circundam não apenas no nosso meio mais próximo mas também num plano mais amplo. A identidade não é uma caixa fechada nem os seus elementos são estáticos; é uma coisa dinâmica e viva.
“A História é uma ferramenta importante para muitas outras coisas”

N – É historiador, formado primeiro na UEM e depois a outros níveis em universidades estrangeiras. Para além da docência dedica-se à pesquisa. Qual foi o princípio da sua história? Donde é que tudo começou, até decidir que tinha que fazer da História a sua profissão?

- Bom, eu na altura da independência estudava no primeiro ano do curso de história no que é agora a Universidade Eduardo Mondlane; Mas nessa altura mesmo o meu pai enviou-me para estudar para Lisboa, mas a verdade é que não me adaptei e quis voltar para cá…

N – … o que é que foi estudar lá?

- Ia estudar psicologia, sociologia e história também, mas a verdade é que no fundo não estudei nada. Andei a “comer” o dinheiro dele sem cumprir esse propósito. Na altura da transição voltei, comecei a dar aulas de história na Francisco Manyanga no curso nocturno e frequentava o curso de história no Departamento de História da UEM, até concluir o bacharelato em ’78, depois houve aquelas interrupções que levaram ao encerramento de alguns cursos; mas vim a concluir a licenciatura em 80 e tal; depois disso comecei a fazer a minha pós-graduação e o meu doutoramento na Inglaterra, indo e vindo a Moçambique. Concluí em ’93 e desde aí estou ligado à investigação e ensino na UEM.

N – Porquê escolheu a história e não uma engenharia ou medicina, por exemplo?

- Medicina não, nunca me apaixonou. Penso que escolhi esta área porque a história está ligada a mim. Tanto estudei ela como podia ter estudado ciências políticas ou sociologia ou até filosofia, que são áreas para que tenho mais propensão. Ainda bem que estudei história, porque ela é uma ferramenta importante para muitas outras coisas.

N – Escolheu para área de especialização a história contemporânea de Moçambique, em que estuda principalmente o processo de libertação do colonialismo e a última guerra que tivemos. Que fascínio viu neste período tão conturbado, no meio de tanto que também precisa de ser pesquisado?

- Escolhi a história contemporânea porque penso que a sua estrutura ainda hoje influencia a nossa vida. Considero contemporânea a história que vai desde o Estado Novo (anos 1930), que contém estruturas que até hoje de alguma maneira nos influenciam, na economia e em muito mais. Depois, eu fiz uma licenciatura ligada à luta nacionalista, à luta de libertação e de alguma maneira me apaixonei pela luta dos conflitos que nós sofremos. E considero que os sofremos muitos em Moçambique. O facto de estudar guerras não significa gostar delas; para já eu não gosto nada de guerras. Estudo esses conflitos e agora tenho um interesse especial pela integração regional. Depois de vários períodos de grandes divisões está a surgir agora, neste contexto, uma maior cooperação e eu acredito que essa cooperação é uma das chaves que pode aliviar os nossos países digamos de uma situação de maior vulnerabilidade.
“Foram dados passos importantes para a integração regional, mas ela ainda é muito discurso”

N – Entrou num ponto que nos interessa a todos, moçambicanos e outros cidadãos da África Austral, que é a integração regional. Há um processo que está a decorrer, pequenas coisas já começam a ser vistas, como a abertura de fronteiras para a livre circulação de pessoas, mas por enquanto a nível bilateral. Nos próximos tempos muitas outras reformas serão postas em prática com o objectivo de pôr em prática a integração regional. Pelos passos que a SADC está a dar, acha que na actual fase, em que os países ainda são dentro de si muitos países, e mais ainda, no contexto dos particularismos existentes neste bloco, estes passos não são demasiado gigantescos para alguns interesses que se quer se materializem dentro de muito poucos anos?

- Eu ainda acho que para a integração regional há passos importantes que foram dados mas ainda é muito discurso. Está certo que nós devemos ser optimistas, mas não podemos ser demasiado optimistas e pelo contrário mais realistas. Porque de alguma maneira o combustível desta integração é a África do Sul, que aparece como o grande irmão e nós os restantes somos pequenos. Para algumas pessoas a integração é a resolução de todos os problemas. Não podemos ser tão ingénuos! A integração é importante mas não substitui a necessidade que nós temos de uma batalha inacabada que é a integração nacional. Temos que construir a nação talvez não no sentido a que nos referíamos no passado mas naquilo que ela é na realidade. Uma nação tem elementos de unidade, isso é importante, mas não se deve subestimar os seus elementos de diversidade, que também têm a sua importância. É como uma floresta, por exemplo a amazónica, ela é una mas ao mesmo tempo diversificada, o que a faz ter mais valor por exemplo que um eucaliptal, onde os eucaliptos são todos iguais. Do ponto de vista regional temos que estar mais seguros, economicamente, culturalmente, politicamente, etc., para podermos dar passos mais seguros no sentido que queremos dar à nossa integração. Temos ainda muito caminho a andar e nalgum sentido fala-se mais do que se faz. Penso que temos que caminhar devagar mas a fazer um esforço para que o discurso e os actos vão em harmonia.

N – Fala-se mais do que se faz, na sua percepção. O que é que se devia fazer que não está a ser feito?

- Bem, eu não diria o que não se devia fazer. Ainda há muitos aspectos que estão na infância do ponto de vista da integração regional. Do ponto de vista da democracia formal, o parlamento regional ainda é mais uma ideia do que uma realidade. Este parlamento tem que ser bem pensado para garantir a sua funcionalidade e viabilidade; do ponto de vista da economia ainda ha uma demasiada e gritante dependência dos outros países em relação à África do Sul. Lembro-me que era um dos objectivos do bloco regional numa das suas fases passadas reduzir esses índices de dependência e o que se viu na verdade é acentuar essa dependência. E mesmo do ponto de vista de segurança ainda há muito por ser feito. Agora já há um órgão de defesa e segurança, mas não basta olhar para uma situação do Congo para nós ficarmos preocupados com uma situação qualquer durante um processo eleitoral; é uma coisa muito grande e um bocado assustadora. Portanto em muitos casos ainda é preciso muito para podermos criar uma cultura de região e uma identidade regional.

N – No campo da literatura o que escreve é um casamento entre o que tem de bagagem científica, neste caso a História, e a capacidade de criar. Está a publicar livros literários há poucos anos e vai agora na quinta obra, “Crónicas da Rua 513.2″. É uma aposta que fez para abraçar a carreira de escritor?

- Eu desde sempre escrevi, pequenas coisas. Não escrevi obras acabadas exactamente por culpa minha. Eu não sabia no princípio com que identidade haveria de escrever. Identidade no sentido de homem novo, que é uma visão que dominou os jovens da minha época. Este sentido de homem novo retirava-nos a identidade a todos para nos apresentarmos numa identidade específica e ideal que nós deveríamos almejar. Eu não sei se de facto era ideal. Por culpa minha eu nunca soube muito bem a partir de onde iria escrever. Talvez devesse partir de um ponto simples que era escrever a partir de mim próprio e não de ninguém, como faço agora. Quando escrevi o primeiro livro fi-lo na sequência exactamente de uma experiência de trabalho, no Zumbo. Como eram tantas as histórias que me contavam, eu à noite tomava apontamentos de algumas coisas e subitamente comecei a escrever contos dispersos e subitamente comecei a ligar os episódios e acabou num romance. A partir daí ganhei a prática, não espero nenhuma inspiração para escrever e vou escrevendo e publicando os meus livros literários.
“É impressionante como muita gente não tem ideia dos anos ‘80. Até alunos na faculdade!”

N – Tem estado a escrever muita literatura nos últimos anos, mais do que o faz na História…

- Sim! Talvez seja uma forma de compensar. Porque o trabalho académico é um trabalho mais sistemático e exigente, embora a literatura também seja exigente, mas num sentido diferente. Os dois mundos, para mim, complementam-se.

N – Pelo ritmo que está a imprimir na publicação literária, está a assumir-se como escritor?

- De alguma forma sim, apesar de escrever e publicar literatura não ser uma coisa planeada. O primeiro livro saiu quando o editor da Caminho, Zeferino Coelho, viu o original e disse-me que publicava; não é uma coisa que eu tenha planeado. Disse-me que se tivesse mais que o entregasse e assim fui escrevendo e entregando. Foi uma coisa natural, diga-se. O meu assumir-me como escritor é no sentido de que escrevo e publico e não necessariamente no estatuto que nós às vezes pensamos que se tem. Nesse sentido não assumo esse estatuto pois eu até gosto de estar na clandestinidade. Sou escritor mas ao mesmo tempo não sou, pelo que acabo de dizer. Na verdade assumo-me como pessoa que escreve.

N – O seu último livro tem uma história interessante, que é o Moçambique dos anos 1980. “Rua 513.2″ é a sua rua ou uma em que morou nessa época; é este romance o recordar de vivências por que passou?

- Não é a minha rua nem é a minha biografia. Parti de um imaginário e fui recriando a ideia em função da memória daquilo que nós tivemos nos anos ’80. É uma recordação ao nosso tempo socialista. É impressionante como muita gente não tem ideia de como as coisas se passaram nessa época. Até alunos na faculdade não têm a ideia concreta do que foram esses tempos. Nós temos um problema de memória, esquecemos muito. E é importante lembrar as coisas boas e as coisas ruins. Na minha opinião esse período trouxe muitas coisas de sinal contraditório. Trouxe muita escassez, mas havia menos injustiça social do que há hoje.

N – De alguma forma isso está reflectido no livro. Que descrição daria desses seus nostálgicos anos 1980?

- Quer dizer, era difícil ter comida mas quando a havia sabíamos dividir entre nós. Quem tinha a mais sem ser coagido digamos sabia dividir com o vizinho que não tinha. Não havia tanto roubo, o secretário do GD (Grupo Dinamizador, que era a estrutura de base do poder) era uma pessoa solidária, mas ao mesmo tempo chato, que nos vinha “chatear” em prol de uma boa apresentação da nossa rua e do nosso bairro e às vezes fazia o seu trabalho não tanto com esta motivação mas com motivações pessoais. Havia nesse tempo mais comunicação entre as pessoas. Escrevi este romance muito a base de memórias e são estas mais ou menos as memórias que eu tenho. E não foi num sentido nostálgico que o escrevi, até porque eu não perdi nada e não ganhei nada nesse tempo, simplesmente como todos os moçambicanos passei uma experiência muito importante de lembrar.

“O cidadão comum tem muito mais energias do que as Lurdes Mutolas do processo político”

N – Não se ganhou nada com o nosso socialismo?

- Houve muitas coisas que nós ganhámos, até do ponto de vista daquilo que falávamos há bocado, em termos de identidade nacional. Penso que essa é uma época de referência na construção da nossa identidade. Não falo de ganhar ou perder num sentido de julgamento. Não! É mais num sentido do exercício de lembrar, em que penso ser importante lembrar aquele espírito épico do socialismo. Estou a lembrar essa época sob o ponto de vista do cidadão comum e não necessariamente das vanguardas políticas ou outras. O cidadão comum tem muito mais energias do que as Lurdes Mutolas do processo político.

N – Acompanhou Moçambique de todos os períodos. Que comparação faz entre o Moçambique de “Crónicas da Rua 513.2″ e o actual, que em termos economicistas é o da economia de mercado?

- Eu não sei nem devo julgar. Tu bem sabes disso, o historiador não julga e o escritor interpreta emocionalmente. Não sou juiz e teria dificuldade em vestir a sua pele. Em todo o caso, ha muitas coisas que ganhámos e há outras que perdemos. Entre as coisas que perdemos há coisas que incomodam. Há muita ostentação em paredes meias com uma miséria acentuada. Isso incomoda-me muito, tal como me incomodam a marginalização e a exclusão tanto na cidade como no campo. Com todas as dificuldades que temos, por exemplo, não há justificação para ao fim de 30 anos não termos ainda uma ponte sobre o Zambeze. Para mim toda aquela região, riquíssima, dependente do batelão, é revoltante. Por outro lado, ganhámos muitas coisas, de que nos devemos orgulhar muito delas: a abertura que vamos tendo de dentro para dentro, como as liberdades que antes eram limitadas e agora são amplas, são um ganho que devemos considerar. Pelo ritmo a que vamos andando temos estado a ganhar muito mais e isso é bastante positivo sob o ponto de vista de democracia formal.

Pensamentos do vencedor do Prémio Leya de há três anos.

Fiel dos Santos

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[Fiel dos Santos Sculpteur, Éditions de l'Oeil, 2008, 24 pp]

Livro trilingue (francês, inglês, português), com texto original de Paola Rolletta, dedicado a Fiel dos Santos publicado na colecção de livros de bolso “Les Carnets de la Création“, que esta editora vem produzindo, e que já integrara – pelo menos – 3 livros sobre fotógrafos moçambicanos (Rangel, Mauro Pinto, Luís Basto). Ao que me diz Fiel agora foram publicados mais alguns dedicados a artistas moçambicanos, os quais ainda não encontrei.

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Fiel é um membro proeminente do grupo de geração que aderiu em finais do século passado à proposta artística de transformação de armas de guerra em obras de arte, um desafio então lançado pelo Conselho Cristão de Moçambique, e que desde então se tem mantido nesta linha de trabalho, des-essencializadora do material, provocatória sobre os homens. Projecto artístico ideológico, claro, e como diz Paola Rolletta “Só quem viveu na pele a guerra e a paz é capaz de fazer desabrochar uma rosa de um rocket.” (17) Um caminho que tem vindo a colher sucesso, interno e internacional.

Mas também caminho a discutir – até que ponto não há neste manusear da matéria-prima uma sua sobrevalorização face ao produto final artístico? Conversa para outros contextos que não este, o de saudar mais este lançamento, que conta com o apoio da Embaixada de França em Moçambique – sempre atenta no apoio às artes nacionais -, e que é possível (e justificado) adquirir no Núcleo de Arte.

jpt

As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e Paul Fauvet

Paul Fauvet: Governo português tenta distorcer história colonial, é o texto do conhecido jornalista da AIM a propósito do concurso televisivo da RTP. Eu consigo perceber que na episteme de Fauvet não haja diferença entre “governo” (mesmo que do ps de Socrates, pigarreio eu) e “orgãos de comunicação públicos”. Eu também posso presumir (nada mais que presumir) a associação ideológica de Fauvet ao velho-marxismo anglo-saxónico menosprezador de Portugal (a historiografia pós-anos 1960s está cheia de tralha dessa, muito racista já agora, que isto de ser “dego” é uma merda).

Mas também posso dizer que quando a televisão pública, o Ministério da Educação (da ex-esquerdista hoje ministra), o Instituto Camões (ex?)lusófono (deve ser ex, que a tralha sub-intelectual reformada até já assina contra estas coisas, como se não exemplificassem o mais baixo nível político meu-patrício, o húmus do qual isto brota e brotou) do Ministério dos Negócios Estrangeiros (lá está, a diplomacia “cultural” …), a Presidência da República (pobre Presidente, há que refrescar os ares assessorais) e a medieva universidade se põem a jeito para estas pancadas … mas também posso dizer, dizia eu, que agora o Paul Fauvet a falar dos portugueses (credo, abrenúncio, vade retro tugalhada) – enquanto santifica John Bull, atempadamente desculpabilizado pelo “socialista” terceira-via Blair – não deixa de ter matéria-prima para falar.

Há uns anos acabaram com um organismo do Estado, super-competente, que trabalhava na divulgação da história portuguesa, no apoio à pesquisa historiográfica. Sob as várias direcções teve um papel relevante para acabar com parvoíces destas. Depois fecharam-na. Para poupar, o défice e isso – por ano devia custar menos do que aquilo que o governo dá ao Nacional da Madeira ou assim.

Era óptima a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Não se restringia ao Malato e à Furtado (que bela, …). E torneava estes Fauvets, inviabilizava-lhes a “deguice”.

(ao Fauvet, aos Fauvets, gostaria de lhes recomendar um texto de Mia Couto sobre escravatura, publicado no “Pensatempos”. Mas sou um “dego”, sou um “tuga” – que podem eles aceitar de um merdas como eu, como nós? Seria tão bom ser normando …)

Karl Marx no Canal de Moçambique

(o qual não será exactamente um jornal marxista):

Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado” (O Capital)

O Peso da Imprensa

 

O jornal Zambeze (infelizmente desprovido de sítio actualizado) tem vindo a publicar uma importante – e corajosa – reportagem sobre as redes de tráfico de droga. Esta semana o 5º capítulo: nomes, fotografias, interesses, empresas (de cobertura), passado e presente. Está transcrita no Manuel Araújo.

Hoje de manhã ao comprar o jornal o ardina conta-me, com a excitada concordância dos cigarreiros vizinhos, que a edição foi quase completamente comprada na noite de ontem, por homens daquele mundo retratado. Assim em grande parte desaparecida das bancas.

Mais tarde dizem-me que o jornal está a ser vendido amputado das duas páginas alusivas. Mas que amanhã mais exemplares serão impressos e postos à venda.

Um filme negro, anos 30s. Só que a sério. Perigosamente a sério.

O Savana: um exemplar crucial

O Savana tem um portal, ainda em fase experimental – como avisa Carlos Serra. Talvez por isso não carrega todo o conteúdo do semanário. Espero que o venha a fazer, pelo menos as colunas de opinião, até porque o semanário vive bastante dos seus colunistas. Saudável inovação (já aqui resmunguei contra a indiferença electrónica do jornal).

Mas esta referência liga-se ao último jornal (25 de Julho), um vero documento onde, para além da actualidade noticiosa que lhe faz títulos, habita um manancial de posições e temas cruciais, e que denotam o ambiente intelectual no país. Um exemplar para guardar, para revisão futura. (E por isso mesmo a merecer perenidade informática). Deixo um rápido apanhado, tamanho o meu fascínio na sua leitura:

1. A valorização da reportagem no panorama jornalístico moçambicano, dimensão rara (por vários motivos: de possibilidades económicas, de escola, de hierarquia de importância atribuída a temáticas e locutores). Através da republicação das belas peças de Fernando Lima (texto) e Naita Ussene (fotografia) que valeram ao primeiro ser premiado no Prémio Jornalista Africano 2008 CNN Multichoice.

2. Uma reflexão sobre o jornalismo em África. O relato que Lima faz – na sua coluna “Espinhos da Micaia” – (com a lisura de um agraciado) da cerimónia da entrega desses prémios, ocorrida no Gana, sob os auspícios de John Kufuor. Elucidativa da concepção politicamente dominante do estatuto (e da natureza?) atribuída aos jornalistas … Pois na forma da cerimónia se demonstra que, sob o agraciamento, radica (ainda?) uma ríspida desvalorização, da actividade e dos seus agentes.

[E isso chama a atenção para as condições de exercício do jornalismo. Não se prendem apenas com as dimensões políticas referidas acima. O Mail & Guardian dedica um suplemento a estes prémios (sem ligação electrónica). Nele questiona anteriores premiados sobre o efeito dos prémios nas suas carreiras e as respostas ecoam um rol de novos projectos surgidos, de como o prémio é um trampolim - pessoal mas também colectivo. Bem diferente é o testemunho do jornalista moçambicano premiado em edição anterior, centrado na melhoria das suas condições de vida. Numa leitura imediatista é empobrecedor. Mas l(v)endo bem ali está uma tradução das difíceis condições (económicas) de exercício profissional, essas que o leitor apressado esquece aquando critica o produto que lê]

(voltando ao Savana).

3. Para uma leitura política da actualidade é ilustrador do meio intelectual moçambicano o quase diálogo entre os cronistas habituais. Por um lado Afonso dos Santos remata a sua “Lide Lídima” com “A fase actual do neocolonialismo é, por conseguinte, a fase historicamente necessária para o desenvolvimento da luta pela segunda independência“, pensamento teleológico que continua estruturante, ainda que não tão explicitado. Na página ao lado, no “A Talho de Foice”, Machado da Graça desmonta criticamente o discurso anti-marxista do secretário-geral da Frelimo, que reclamou a unicidade nacional sob a égide do partido – na prática ecoando uma ideologia de frente de libertação.

4. Um texto de crucial importância, a exigir continuidade, é o de David Aloni, “Toponímia e a questão ortográfica“. Cheio de sub-texto, e não só porque em ultrapassagem de outras discussões ortográficas. Um ponto subjacente, e que é constante na análise da realidade moçambicana: o assunto é a grafia da língua nianja (cinyanja) e Aloni afirma a sua legitimidade em abordar o assunto dado que é originário (falante) e que não foi “corrompido” [meu termo] pois nunca foi assimilado. É claro que tudo isso lhe dará competências linguísticas de utente, mas o que é interessante é encontrar até num assunto aparentemente pacífico a reclamação de diferentes graus de legitimidade para opinar segundo critérios histórico-ideológicos. Um traço constante aqui.

É muito interessante assistir à sua crítica das formas “aportuguesadas” (acentuação, inutilização dos k, w, y, agas mudos, etc) da grafia da língua, que vão entrando em vigor. Não sou linguista, não sei da justificação para tais distinções. Sempre as vi como uma recusa do “português”, nunca percebi porque se deve grafar com K e não com C, com W e não U ou V, com Y e não com I. Nunca entendi por que é que essas grafias são mais “fiéis”.

Mas mais do que isso Aloni levanta duas questões: uma, imediata, a da fixação e divulgação normativa das línguas moçambicanas. Basta consultar diferentes documentos e textos académicos para encontrar diversas grafias, até para a própria denominação das línguas. Uma outra, a das modalidades do seu ensino alargado. E é uma pena que um texto destes, e suas preocupações, se esqueça no jornal da semana passada [para o portal, já!].

5. Finalmente, um texto longo de António Cabrita “Porque lêem menos e trabalham menos os africanos?”, em diálogo com texto de Gustavo Mavie sobre a indolência moçambicana, já criticado no Nkhululeko. O texto é muito longo, até sinuoso, e resumi-lo é traí-lo. Cabrita encontra uma distinção entre a ética laboral europeia e africana no seio dos diversos exemplos assumidos (entre outros, Heidegger no norte, Mohammed Ali no sul). Não se restringe a isso, envereda por explicações de cariz antropológico muitissimo discutíveis, mas legítimas (aliás, com recurso a bibliografia sufragada), e por um conjunto de afirmações sobre a vida intelectual e educativa na Europa que me parecem forçadíssimas. Mas o interessante é enquadrá-lo no ambiente intelectual dominante. Pois o texto é radica num catolicismo histórico, nele encontramos  a dignidade, a competência, o caminho correcto como alcançáveis através da aceitação e perseguição dos bons exemplos, dos grandes vultos intelectuais. Da vida dos santos, como sempre pregou a Igreja Católica.

Enfim, justificado o agrado pela edição que resumo. A pacífica articulação, nada escatológica, destas teleologias. A presença do sub-texto constante. Um registo fascinante de um grupo de pensadores sobre um país (fascinante ele próprio, já agora).

Hoje, sexta-feira, é dia de Savana. Não vou perder … Espero que mais um exemplar para o dossier.

Domingo à noite, caminhando para as 11 h., zapping (a TVcabo está horrível, um painel execrável, a exigir transferência para a DSTV). Na TVM um concerto dos anos 70 dos The Who – está lá o Keith Moon, e é engraçado rever o baterista, confesso. E é um bocado por saudosismo que me deixo ficar a ver. Para logo pensar a quem é que isto pode interessar, hoje em dia, a esta hora, em Moçambique, no canal nacional?


Não é que a música seja “estrangeira”. É porque aquilo envelheceu e muito, e o Daltrey era um bimbo incrível, os falsetes, a trunfa loura, os trapos “sexys”, um verdadeiro arquétipo do chuleco. A que propósito a noite de domingo entregue a isto? “Ainda se fosse um documentário” resmunguei, uma coisa histórica, mas mesmo assim que desapego ao acto de programar. “Ainda se fosse um documentário“? E não é que era!!, ao fim de algumas músicas lá surgem as declarações, o Entwistle, o Townshend, falando dos velhos tempos.

Nem legendado estava, o programa! Tamanha a preguiça do programador. Uff, ainda bem que não foi na RTP-África, lá viria eu escrever um post ao Ma-Schamba para protestar com o canal público do meu Estado. Assim, sendo estrangeiro, lá passei para o Fox ou coisa assim.

Foi aqui que reparei nos já 18 anos sobre Tiananmen

e este tétrico e emocionante ícone (já agora a sempre deitar para o lixo os inenarráveis guevarismos). E a lembrar-me tambem deste recorte, minha supresa em finais do ano passado lendo o jornal Domingo (penso que a edição imediatamente seguinte ao congresso do partido Frelimo, mas não estou certo). Talvez o melhor símbolo das diferenças de sensibilidade e das diferenças ideológicas. E tambem um símbolo dos tempos que passam. Eu a abrir o jornal, a deparar-me com um artigo sobre Tiananmen, a espantar-me por tal abordagem durante estes tempos tao pró-chineses, e a deparar-me com isto, um elogio turístico, uma lavagem de imagem absoluta. Não há dúvidas, cada um como cada qual. E cada um com o seu espanto. E sempre a minha ingenuidade …


A entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa

Bloguista amiga (então vem-se a Maputo e nem um e-mail a avisar?) envia-me a entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa, concedida ao Savana. Ei-la, acho-a muito interessante. A negrito o título e os sub-títulos do jornal, a negrito e a itálico as perguntas da entrevistadora.*************

As notas do professor Marcelo
Entrevista conduzida por Paola Rolletta*

O filho de um dos poucos governadores coloniais que deixou saudade em Moçambique está de volta à terra que o viu crescer. Marcelo Rebelo de Sousa, catedrático universitário, político, bloguista, comentador com lugar cativo nos media, veio formalmente para dar aulas na universidade. De caminho – o homem que só dorme quatro horas por noite – atendeu-nos fora de horas, no velho novo Polana, para dar “as suas notas” sobre políticas e políticos, os media, heranças de colonizadores e colonizados na hora da globalização. Aqui ficam as respostas

Em Moçambique estão as instituições consolidadas a ponto de os dinheiros externos irem directamente para o orçamento do Estado?

Tudo é relativo na vida. Em termos relativos, comparando Moçambique com a generalidade dos países africanos e até com países de outros continentes, nomeadamente o continente asiático, neste espaço de tempo Moçambique conseguiu mudar a constituição, estabilizar a vida política, ter um funcionamento das instituições que é um funcionamento melhor com a generalidade dos países com os quais se pode comparar.

É natural que em democracias “emergentes” a prática política seja reflexo do monopartidarismo?

O que nós temos em Moçambique são regimes de transição, temos um regime económico de transição para o capitalismo, e como todo o regime de transição é um regime misto, com contradições, com avanços e com recuos, começou com um regime que se quis socialista, e que está a introduzir progressivamente áreas de capitalismo, e essa mudança é feita com tensões, haverá quem considere que se está a ir longe demais, e que é uma traição aos ideais iniciais, e haverá aqueles que considerem curto e lento demais porque há que fazer reformas que permitam ter maior competição e maior abertura ao capitalismo e ao mesmo tempo um regime politico de transição do monopartidarismo e com forte controlo do poder politico pelo partido que representou a luta pela independência para uma realidade mais plural, mais flexível. Esta transição para uns está a ser rápida demais, a Frelimo está a ceder e há sectores na Frelimo porventura duros que acham está a ceder em matéria de admissão da liberdade de expressão, pluralismo excessivo.

Países como Moçambique deviam dar prioridade à consolidação interna do Estado-Nação ou dar prioridade ao posicionamento no mundo globalizado?

É uma situação às vezes contraditória, tem que se fazer ao mesmo tempo as duas coisas que às vezes vão entrar em contradição. Por um lado num país tão grande e além de tão grande extensão territorial e com diferenças muito grandes, também é uma prioiridade haver um mínimo de homogeneidade e de identidade nacional, sabendo nós que essa identidade nacional é feita de diversidades culturais imensas, mas tem de haver o mínimo de homogeneidade para não se partir o país. Basta pensar que o Norte e uma parte do centro tiveram problemas de cheias, e o sul de secas, quer dizer que mesmo nas coisas mais simples, do ponto de vista climático, há sub-países diferentes, portanto para manter a unidade do pais há um esforço da construção da homogeneidade muito grande, ao mesmo tempo, a competição internacional força a criação de pólos e é mais fácil criar pólos em certas áreas mais avançadas do que noutras. Portanto é tentador desenvolver certas áreas mais depressa do que outras para competir com o exterior, o que vai contra a tendência da homogeneidade.

por isso que foi criado o projecto NEPAD

Atenua, são formas de correcção de desigualdades, agora é evidente que há zonas onde é mais fácil instalar certos investimentos. Há investimentos industriais, há investimentos comerciais, até infraestruturais que têm que se fazer em certos sítios. Fazer diferente tem outros custos. Não se pode escolher os vizinhos nem se pode escolher a geografia, é como é.

Qual é o limite entre uma ditadura boa e uma democracia má?

A diferença entre democracia e ditadura é feita de quatro coisas: garantia dos direitos, possibilidade de eleger livremente os governantes, pluralismo de opinião, pluralismo de organização política, isto é fundamental para haver democracia plenamente afirmada. A ditadura é o contrário disso, é imposição de uma só ideologia e proibição das outras, de um só partido e proibição dos outros, o sacrifício dos direito em função da máquina do aparelho do poder e a existência de limites efectivos de condicionamento livre do voto das pessoas. Os regimes mistos ou de transição são aqueles em que nós encontramos características mistas.

E Moçambique onde está?

Provavelmente Moçambique está neste processo evolutivo, já não há um partido único, ainda não há o pluripartidarismo completo, já não há uma ideologia exclusiva, ainda não há concorrência ideológica aceite sem complexos, já não há ideia de sacrifício de alguns direitos fundamentais sobretudo políticos em função de um aparelho, de um objectivo, mas os direitos vão sendo aprendidos, garantidos, e há por outro lado processos eleitorais entendidos de uma maneira diferente daquilo que foi a experiência moçambicana. Ou seja, os avanços destas quatro características, para mim, são sempre positivos. A ditadura pode parecer até muito eficaz, a ideia de que um poder politico monolítico é mais eficaz porque decide e manda, mas é a curto prazo, a médio prazo os sistemas mais flexíveis são os que se adaptam melhor a um mundo de mudanças sobretudo quando as economia são abertas e quando as sociedades são abertas nem sequer podem ser fechadas

O que é para si a sociedade civil?

Sociedade civil é tudo aquilo que não é o poder político do Estado, entram todas as iniciativas dos cidadãos, associações, fundações, sociedades, empresas, isso é sociedade civil, no fundo a comunidade em geral, os cidadãos e os seus grupos, e as suas formas de intervenção e no fundo acabam por influenciar, condicionar, ter um papel junto do poder político.

Em Moçambique, a sociedade civil é dominada por instituições e militantes do partido no poder.

As sociedades civil são duma maneira geral fracas em países novos. O que se passa em estados novos, e Moçambique é um estado novo, com uma história pós-independência muito curta, a sociedade civil é necessariamente fraca, porque a independência é fruto de uma luta política, em que há forças politicas liderantes, nomeadamente um partido liderante, e à medida que o Estado vai criando as suas instituições, e a economia vai estabilizando, em que vai havendo desenvolvimento social, é que a sociedade civil vai fortalecendo. Mesmo em países europeus velhos como é Portugal a sociedade civil é tradicionalmente fraca porque o poder político esmaga a sociedade civil, manda na sociedade civil, domina a sociedade civil, em termos económicos, em termos sociais e às vezes em termos culturais, portanto não é um fenómeno único, é muito frequente em todo o mundo. O que é raro é ver países com sociedade civil forte.

O panorama dos media

Em Moçambique e em Angola, estão a surgir jornais a toda hora, processo que não é acompanhado pela rádio e pela televisão.

É mais barato fazer jornais e, fazer jornais num regime de transição política têm menos limites burocráticos e políticos. A televisão, por razões técnicas, porque não há muitas frequências, o poder politico tem sempre medo de dar autorizações para televisões, mesmo em democracias antigas tem medo, mesmo nas rádio é um processo mais administrativo, mais controlado, limitado, eu diria numa primeira fase é jornais. No começo da democracia portuguesa foi assim, a loucura dos jornais de 74 até princípio dos anos 90, depois rádios, e só agora as televisões. O processo evolutivo em Moçambique começou mais tarde, estamos na fase dos jornais, a seguir virá a fase das rádios, que tem muita importância num país tão extenso, e depois televisões, que, apesar de tudo, vai muito razoável porque vi que há dois canais privados.

É só um problema de tempo?

É um problema de tempo… e também de mercado. A televisão privada precisa de sobreviver com receitas, a publicidade depende da evolução económica, à medida que vai crescendo, como se espera, a riqueza moçambicana, também cresce a publicidade e isso permite um mercado maior, e alargando-se o mercado em termos não só regionais mas também nacionais é possível alargar o pluralismo da televisão, é um processo não só político mas também económico e financeiro.

E o futuro?

Vai ficar apenas uma parte da imprensa escrita, vai diminuir o número de jornais diários, ficarão poucos de referência, ficarão alguns populares, nomeadamente desportivos, mais outros populares sociais, a imprensa semanal vai aumentar a sua importância, a imprensa especializada vai aumentar a sua importância, temas especializados, a pesca, a caça, a imprensa para a mulher, temas científicos e técnicos, e depois vamos ter a televisão, cada vez mais interactiva, e ela própria especializada, ao lado da genérica, nas sociedades mais ricas, o que já hoje acontece.

Faz sentido estar a discutir a carteira profissional quando já estamos a falar de jornalismo do cidadão?

A carteira profissional corresponde a uma fase do jornalismo tradicional, mas também houve pessoas como eu… o sindicato nunca me deu a carteira. Mas houve uma fase em que a carteira profissional teve um papel disciplinador, foi o de garantir por um lado o peso do sindicato dos jornalistas e por outro lado alguma autonomia dos jornalistas em termos deontológicos.

Mas o problema da filiação sindical para carteira é anticonstitucional em Portugal e em Moçambique…

O sindicato no fundo é uma ordem, desempenha simultaneamente a função de sindicato e de ordem, é uma perversão, mas é por isso que em Portugal há o debate sobre a constituição de uma ordem, o sindicato que defende os direitos laborais e a ordem que trata da questão deontológica. Mas há um novo jornalismo que está a nascer, a blogoesfera. Neste momento, o caso maior, Sócrates(primeiro-ministro de Portugal), foi levantado há dois anos num blog. E ninguém pegou. Dois anos depois as informações chave vieram desse blog. Em rigor uma parte fundamental da pesquisa jornalística foi feita pelo blog. Isto é um dado novo, mas temos de ser sinceros: o número de pessoas que vai à blogoesfera é reduzido. Se os jornais escritos não tivessem pegado e se uma grande cadeia de televisão não tivesse dado projecção, aquele caso teria ficado muito anos sem chegar à opinião pública. Há sociedades em que a blogoesfera já põe em crise a definição e o estatuto de jornalista, há outras onde vai demorar algum tempo a fazer

Revisitar a cooperação

Disse aqui em público que é preciso regar a planta da democracia. Porque é que a cooperação portuguesa apoia apenas a TV e a rádio estatal. Assim não se corre o risco de secar a planta?

Nunca tinha pensado nisso. A meu ver, a razão histórica deve ter sido uma razão de inércia, como no início havia tv e rádio pública em Portugal e em Moçambique estabeleceram-se ligações e habituaram-se a apoiar as suas parceiras públicas. É evidente que no futuro acho que a cooperação pública, quer as rádios e televisões privadas portuguesas devem fazer cooperação estimulando essas novas realidades privadas na tv e rádio.

Está a sugerir uma compartimentação das cooperações?

Isso é uma visão já ultrapassada. A cooperação foi definida por um lado Estado a Estado e por outro lado pensando na sociedade civil como sendo só sociedade civil pobre, não lucrativa. Porque se pensou que para os privados haveria os privados. Ainda é assim, mas penso que no futuro há a exacta noção de que o apoio internacional, o apoio externo deve ser canalizado não só para instituições sociais e de solidariedade social não lucrativas como criando condições para o desenvolvimento de empresas privadas que são fundamentais para o avanço da economia moçambicana. O mundo é outro em geral e nestes casos particulares a cooperação tem que ser repensada de facto.

As estatísticas dizem que o investimento português está a diminuir…

Não sei se está a diminuir, há projectos de investimentos em várias áreas em cima da mesa, em sectores importantes, construção de infra-estruturas, portos, estradas, maior desenvolvimento da banca, indústria, há vários projectos (e não posso entrar em pormenores), mas há grupos portugueses novos

Encontrou-se a melhor solução para Cahora Bassa?

Sou suspeito porque trabalhei em Cahora Bassa entre 76 e 79 como jurista. Assisti ao lançamento de Cahora Bassa, porque o meu pai era governador de Moçambique e pôs como condição para vir para cá a realização de Cahora Bassa que era um ponto mesmo muito discutido na ditadura. Mais de metade do governo era contra Cahora Bassa e foi uma discussão muito difícil. Assisti ao começo da construção, trabalhei por mero acaso mais tarde como jurista. Eu pessoalmente tenho pena que não tivesse sido possível encontrar mais cedo uma solução mais virada para o futuro e em que Portugal pudesse continuar empenhado. Admito que as coisas são como são, e havia uma vontade moçambicana muito forte de resolver a questão no sentido de encontrar outras alternativas, portanto com pena por não ser Portugal o parceiro em Cahora Bassa, até porque afectivamente me dizia muito. Admito que no futuro Moçambique tenha outros parceiros que não Portugal em Cahora Bassa, admito que o governo português não tivesse muito espaço de manobra para dizer que não a Moçambique quando Moçambique queria que Portugal saísse

Na política moçambicana

Qual é a sua percepção da passagem de testemunho Chissano-Guebuza?

Corresponde ao início de um terceiro ciclo político, Machel, o ciclo ideológico, militante próprio da fase inicial da independência, doutrinário. O ciclo da estabilização política, não diria de desideologização é capaz ser demais do Chissano, mas subida das preocupações de gestão, em primeiro lugar de gestão política e da estabilização das instituições e agora a gestão económica e social com preocupações económicas e sociais que no fundo acabam por trazer mudanças políticas. A mudança económica e social traz a mudança política. Em Portugal por exemplo a necessidade de entrar no processo de integração europeia obrigou a rever uma série de escolhas políticas. Aqui não é tanto esse processo de integração mas é de globalização.

É diferente aqui?

Moçambique está um caso de estudo muito interessante e de intervenção internacional, isso vai significar uma série de mudanças, reformas económicas e sociais que num primeiro momento suscitam alguma objecção de sectores duros do regime em termos políticos mas que são inevitáveis e que têm depois consequências políticas a prazo. No quadro das experiências de democratização de países jovens e com problemas económicos, Moçambique tem feito um processo com uma segurança, um pragmatismo, que torna perante algumas entidades de crédito internacionais um país de menos risco do que países como Angola que é muito mais rico.

Um “bloguista” local escreveu que o governo Guebuza é Chissano com enxertos de Samora

Acho que é uma simplificação. Há um lado tecnocrático de preocupação de gestão económica, financeira e social que não tem nada a ver com a fase heróica de Samora e não tem nada a ver com a gestão política que foi difícil e complexa em Chissano. É outra coisa. Estamos a falar do começo de um ciclo, o próprio presidente Guebuza, quando está a dar a volta pelo país, está a reforçar o seu poder político pessoal e portanto às tantas o poder dele já não deriva de uma transmissão de ou permissão de um directório partidário, é um poder que se vai legitimando em termos pessoais progressivamente.

África e a Europa

Acha que África existe na União Europeia?

Felizmente que existe um presidente da Comissão Europeia que conhece bem África(Durão Barroso). O grande problema da Europa chegou a ser para mim um problema gravíssimo foi Europa não perceber África. O que é estranho porque poderia dizer-se como é que antigas potências colonizadoras não percebem África. Mas as antigas potências colonizadoras eram uma minoria dos parceiros europeus e uma minoria especial A Alemanha estava e está a leste da realidade africana. Lembro-me ter tido uma conversa com o chanceler Khol em que disse “para mim África morreu, é um continente perdido”. E quando Khol, que é um homem particularmente inteligente e fundamental para a reunificação alemã tinha essa visão, que era a visão de muitos políticos europeus na altura … há outros países começaram a abrir os olhos para a realidade africana muito recentemente,

Por causa do problema da migração…

Entre outras coisas. Quando perceberam o seguinte que não há nem pode haver continentes perdidos, primeiro porque há áreas desse continente que vão mais rápidas do que outras, segundo porque se um continente tão ligado à Europa como África é um continentes com graves problemas de saúde, educação, desigualdades económicas e sociais, isso vai projectar-se na Europa imediatamente.

Mas nem sempre foi assim…

A Europa estava ocupada com o seu umbigo, com problema de gestão interna, com o problema do alargamento, há países do leste que não têm nada a ver com África, nunca tiveram, têm a ver com outras realidades, com a Rússia, antiga União Soviética, é outro mundo. Depois havia os países nórdicos que têm uma visão muito disponível e muito idealista de África, e que é importante, mas não tinham grande papel na construção europeia. De facto um deles, que tem um particular papel nas relações com África, não faz parte da União Europeia, a Noruega. A Finlândia é muito peculiar, a Suécia que tinha algumas relações com África. Como um todo, África não era uma prioridade, foi por isso que se tentou várias vezes uma cimeira Europa-África e nunca foi possível. E pela primeira vez, com a presidência portuguesa, mas não é só mérito de Portugal, começa a ser uma prioridade europeia. Demorou é muito tempo, perdeu-se pelo menos uma década e meia, e isto em política, economia e problemas sociais, uma década e meia é uma eternidade porque significa que uns avançam e outros ficam para trás. Por outro lado os EUA muitas vezes têm tido uma falta de compreensão da realidade africana. Tentam compreender mas não compreendem, como aliás não compreendem a realidade europeia. Há ali um problema de dificuldade de linguagem, estão lá, estão atentos, interessados, querem entender e não conseguem, mas isso se passa em todo o mundo … não entendem a realidade asiática, é muito peculiar o que se passa com muito sectores americanos.

Na Europa, felizmente que houve uma inversão de tendência e estamos no bom caminho embora atrasados.

* colaboração

O jornal Savana, ao qual por vezes remeto, é-me contradição. É abjecto ideologicamente: “não estará na altura de [os moçambicanos brancos] se irem embora?”, nas palavras do cronista-mor Fernando Manuel, apenas censurado quando escreve palavrões (e pactuar com isto, esquecendo por via de amizades pessoais, é higienicamente impossível, apesar das pessoas do seu interior quererem sorrir, simplificando, o fascismo com que namoram. Ou melhor, com que conjuga(liza)m). Depois tem coisas interessantes, e até contraditórias – agora é o caso, uma excelentíssima entrevista sobre Moçambique, obtida a Marcelo Rebelo de Sousa, produzida por Paola Roletta (parabéns dona).

(o jornal é tecnologicamente flinstoniano. Ou seja, para ler as agudas declarações de MRS sobre Moçambique, muito para além do trivial normativizador ou diplomático, há que esperar que eu regresse ao meu scanner. Ou então algum leitor amigo me envie o texto. Entenda-se, não está na internet.)

O sempre atento Machado da Graça publicou hoje no jornal Savana, incluída na sua coluna semanal “Sacana” (ja agora, recolhida e publicada sob esse mesmo título numa edição da Promedia de 2006) uma nota respeitante à actualidade portuguesa, e respectivos concursos televisivos. E, em extremos de simpatia, enviou-a para que aqui seja publicada, o que faco com deleite (ate recordando polémicas também entre-ambos havidas sobre t-shirts e afins).

(Sobre o assunto tambem coloquei aqui algo)

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A propósito deste concurso televisivo português (Os Grandes Portugueses) e ainda sobre alguns textos no bloguismo português que têm discutindo o conceito de “fascismo” – mas também lembrando grã-bloguistas lusos que associam o supra-liberalismo com o comunitarismo exaltado aquando das memórias sobre o Portugal imperial-colonial – esta t-shirt machadograciana fez-me lembrar

 

 

 

 

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“No fascismo, a ideologia social organicista estetizada é a forma precisa adoptada por uma mobilização tecnológica inaudita da sociedade que vem subverter os laços “organicos” … o que define o fascismo é antes uma combinação específica de corporativismo organicista com a aplicação de uma modernização implacavel. Para o dizermos por outras palavras ainda: em todo o verdadeiro fascismo, encontramos sempre elementos que nos fazem dizer “que não se trata ainda de um fascismo total”, que existem ainda nele elementos contraditórios provenientes de tradições de esquerda ou do liberalismo; todavia, este afastamento, esta distância diante do fantasma do “puro” fascismo é o fascismo propriamente dito.(30)

“… nada há de “fascista” (de “reaccionário”, etc.) no “pensamento (latente) do sonho” da ideologia fascista (o desejo de comunidade autêntica e de solidariedade social, etc.); o que explica o carácter propriamente fascista da ideologia fascista é a maneira como este “pensamento (latente) de sonho” é transformado-elaborado pelo “trabalho de sonho” ideológico em texto ideológico explícito que persiste em legitimar as relações sociais de exploração e de dominação. …

Postulamos … condenar a aspiração a uma vida de comunidade autêntica a pretexto de que seria “proto-fascista”, denunciá-la como “fantasma totalitario”, quer dizer, procurar as possíveis “raízes” do fascismo nessa aspiração precisa: (mas) o carácter utopico nao-ideológico de semelhante desejo deve ser plenamente reconhecido. O que o torna “ideológico” é a sua articulação, e a maneira como a aspiração em causa é instrumentalizada a fim de legitimar uma ideia muito específica daquilo que é a exploração capitalista (o resultado da influência dos judeus, da predominência do capital financeiro sobre o capital “produtivo”, que favorece uma “parceria” harmoniosa com os trabalhadores …) e da maneira de lhe por termo (fazendo desaparecer os judeus, como se sabe).” (29-30)

 

(Slavoj Zizek, Elogio da Intolerância, Lisboa, Relógio d’Água, 2006. Tradução de Miguel Serras Pereira)

Há alguns dias no Chuinga um texto sobre o velha rádio, o LM Radio. Sorri, pois dias antes a esplanada de fim-de-tarde acolhera memórias alheias sobre o LM Radio, surpreendentemente emitindo em línguas bantu nesse tempo colonial. E nesse hiato linguístico permitindo-se arrojos bem para lá do catolicismo serôdio desse regime. Recordava o velho à mesa uma então célebre publicidade à Laurentina Preta, em ronga:”A cerveja ndzanti ma dzu xonguiça aua nsati, dzi tihissa aua nuna. Hingue hi xitsuatsua!”

ou seja, A cerveja preta embeleza a mulher e fortalece o homem. Parece um afrodisiaco, literalmente traduzido. Mas a vera tradução implica que a rádio colonial transmitia um anúncio, para além da censura policial e católica, que significava: “A cerveja preta embeleza a mulher e entesa o homem.”.

Uma delícia. Traduzindo (exactamente) todo aquele hiato.

(nota: obrigado ao KK pela história, ao Nord. pela confirmação e busca, a Dame AM pela grafia).

ADENDA: minha confusao sobre as estacoes em que era emitida tal (erotica) publicidade. Sobre o assunto recebo esclarecimento do Machado da Graca:

Estás a fazer alguma confusão. O LM Radio era um canal que só transmitia em inglês e afrikaans. Esse anuncio de que falas terá passado no canal Hora Nativa que, mais tarde, se chamou Voz de Moçambique, se bem me lembro. O Rádio Clube de Moçambique tinha a “estação A”, em português, a “estação B”, que era a LM Radio e teve uma “estação C” que era dedicada a música erudita e programas culturais. Depois veio a tal Hora Nativa, para aproveitar o mercado. Com o inicio da guerra creio que foram os serviços da psico-social que passaram a ocupar a Hora Nativa transformando-a na tal Voz de Moçambique, já não com objectivo económico e sim político. O LM Radio era uma radio comercial muito agressiva virada para os mercados da África do Sul e da Rodésia. Para a população branca, entenda-se.Enquanto as rádios desses países eram enfadonhamente conservadoras e puritanas, o LM Radio tinha os últimos sucessos da música mais moderna em cada momento. Daí o seu sucesso, igualmente, junto da juventude de Lourenço Marques que tinha, na Estação A, fado e malhão e cançonetas portuguesas a toda a hora.

O LM Radio fez aqui o efeito que fizeram, na Europa, algumas emissoras que transmitiam a partir de navios estacionados fora das águas territoriais de vários países.

Porventura será uma questão de sensibilidade (origem social?), mas a última capa do Zambeze (felizmente não acessível na internet) é absolutamente execrável. Até no Zambeze surpreende.

Esta será das mais belas coisas que se pode fazer com o bloguismo. Machado da Graça (bloguista de que abaixo referi algumas outras facetas) e Sara Machado, também bloguista criaram o De Ílhavo a Oeiras Passando a Moçambique dedicado a seu pai e avô, Manuel Machado da Graça. Eis a apresentação:

“Manuel Machado da Graça foi homem de muitas artes e muitos ofícios. De jornalista a bombeiro, de ilusionista a escrivão de direito, de dramaturgo e actor/encenador a farmacêutico, de escultor a gravador em linóleo e outros materiais, de tudo fez um pouco. E normalmente fez bem feito.

Nasceu em Ílhavo, em 1908, estudou Medicina e acabou por ser formar em Farmácia, casou e teve um filho, veio para Moçambique, onde passou grande parte da sua vida, e regressou a Portugal, onde veio a falecer em 1981.

Publicou, ao longo da vida, muitos textos e gravuras em vários orgãos de informação. Tudo isso guardou, sob a forma de recortes, em sucessivos álbuns que foi intitulando de Esparsos. Já depois da sua morte foi publicada, em Maputo, uma pequena edição do seu livro “Falares de Ílhavo”.

Não viveu já a época dos blogs, mas, conhecendo-o como o conhecíamos, pensamos que, se estivesse hoje vivo, gostaria de ter um. Por isso aqui estamos a fazê-lo nós, o filho João e a neta Sara.”

Obras de Machado da Graça:

Machado da Graça (texto), Lurdes Faife (ilustração), Os Gémeos e os Ladrões de Tesouros, Maputo, Promédia, 2003

Machado da Graça (texto), Lurdes Faife (ilustração), Os Gémeos e a Feiticeira, Maputo, Promédia, 2005

Machado da Graça (texto), Lurdes Faife (ilustração), Os Gémeos e os Traficantes, Maputo, Promédia, 2003

Três volumes desta colecção “Os Gémeos” (bem lamento tê-la incompleta), com tiragens de 6000 exemplares, 5000 dos quais para distribuição gratuita nas escolas do norte do país. Apoiam este excelente projecto a CODE (cooperação canadiana), a NORAD (cooperação norueguesa) e a NOVIB (cooperação holandesa).

A última edição do jornal Zambeze é um exemplar a guardar, um manancial de informações, de explícitos muito para além do sub-texto recorrente nestas questões, sobre as tensões existentes em Moçambique entre grupos sociais: os textos de diferente teor sobre “monhés” e “bantus”, a propósito de uma campanha partidária de angariação de fundos, a polémica sobre as ligações de moçambicanos de diferente origem ao Portugal colonial. São algo de não essencialista, linguagem de outros conflitos? São, com toda a certeza. Mas são categorias omnipresentes. Por isso interessantes. Repito, jornal a guardar.

Machado oficial (de dia) de Abril.