
[Maio 2008]

["Ilha de Moçambique com a representação da fortaleza de São Sebastião", António Bocarro, Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações da Índia, Goa, 1635. Ilustrações de Pedro Barreto de Resende]
“Dehérain publicou há cinquenta anos, num livro cheio de interesse - Études sur l’Afrique -, quinze páginas sobre a malograda expedição holandesa enviada em 1662 à conquista de [Ilha de ] Moçambique. Compreeendia sete navios, com 1227 homens, o que dá suficiente ideia da grande importância que lhe deu em Amsterdão o Conselho [da Companhia das Índias]. No Brasil corriam mal para os Holandeses os feitos da guerra, mercê da tenacidade com que os colonos os combatiam, mas na Índia tudo lhes corria bem. Colombo e Calecut foram tomadas em 1656, Jafanapatão em 1658 e Negapatão em 1660. Cochim, fundação do Estado da Índia, seria por nós perdida em 1663. Os Holandeses tinham decidido expulsar os portugueses do Índico, e resolveram conquistar Moçambique, porto fundamental do comércio com a África e da dominação naquele oceano. (…)
A Companhia [das Índias] armou especialmente cinco navios, destacou mais dois da linha de Java e juntou-lhes um iate que deveria ficar depois no Cabo. Um dos navios chegou porém tarde ao Cabo e não alinhou à partida. O comando foi confiado a Huybert de Lairesse e tudo se preparou no maior segredo, a fim de nada chegar ao conhecimento da espionagem portuguesa. A Fortaleza de Moçambique deveria ser tomada de surpresa; não sendo possível, recorrer-se-ia ao assalto; o último meio a adoptar seria o cerco. (…)
A viagem da Holanda ao Cabo foi trabalhosa, com algumas baixas – perto de 90 mortos. Para recompor as guarnições, Lairesse demorou-se no Cabo até 26 de Setembro de 1662, época do ano já avançada para o resto da viagem, que de regra não deve exceder Agosto. Naquele dia deixaram o Cabo, a caminho de Moçambique, 5 navios de linha e 2 ligeiros, com 1227 homens, em que 646 eram soldados.
A notícia do malogro da expedição chegou ao Cabo em Janeiro de 1663, por um dos navios da frota. Esta tinha gasto mais de um mês para atingir o cabo das Correntes. Outro mês foi gasto para atingir a baía Verhagens, que Dehérain julga ser (…) a actual baía de Mafamede (Mofomeno) [entre o cabo de S. Sebastião e Sofala].
Não faltaram temporais e ventos contrários; os mantimentos começaram a escassear; apareceram as doenças. Lairesse resolveu retroceder para sul do cabo das Correntes para repousar as tripulações e andou para trás em 24 horas o caminho que para diante lhe consumira cinco semanas. Ancoraram num ponto da costa a que chamaram Baracatta, e não está identificado, e aí estiveram os navios mais de um mês, ameaçados de caírem sobre a costa. Tinham morrido 114 homens e 218 estavam doentes. Lairesse decidiu desistir.
Dehérain estranha, com justa razão, que Lairesse se tivesse metido tão aventurosamente ao Índico sem respeitar o regime das monções. E foram inegàvelmente os ventos que salvaram Moçambique. A praça dificilmente poderia resistir, e, tomada, seria quase impossível reavê-la, porque o tratado de paz luso-holandês de 6 de Agosto de 1661 entraria em vigor com o status quo da data da ratificação, e possessões portuguesas que tivessem sido conquistadas pela Holanda permaneceriam em seu poder. Por isso a Companhia tanto recomendara a Lairesse que andasse ligeiro.” (meu sublinhado, jpt)

[Alexandre Lobato, Quatro Estudos e Uma Evocação Para a História de Lourenço Marques, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1961, pp. 25-28]

[Gravura reproduzida de Rafael Moreira (coord.), A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994]

Ilha de Moçambique
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)
Dinheiro japonês e português, sob a tutela da UNESCO. As obras de reabilitação da Fortaleza da Ilha de Moçambique – que aqui referi – vão finalmente avançar.
LNT pede-me notícias da visita do presidente Cavaco Silva a Moçambique. Presumo que a imprensa portuguesa faça a cobertura – eu, avisadamente, olharia a Lusa, cujo jornalista Pedro Figueiredo me parece bem menos folclórico do que os jornalistas habitualmente comitivos [a vantagem do jornalista oficial sobre os jornalistas oficiosos, porventura].
["Posição da Ilha de Moçambique", imagem recolhida de Raquel Soeiro de Brito, No Trilho dos Descobrimentos. Estudos Geográficos, Lisboa, CNCDP, 1977, p. 213]
Mas posso adiantar que hoje Aníbal Cavaco Silva visita a Ilha de Moçambique. Espero que vinculando a “cooperação” portuguesa a um efectivo e competente esforço, o qual está planeado, nessa região – economicamente deprimida e cujo grande simbolismo é também um recurso económico. Lembro que em 1997 o presidente Jorge Sampaio não foi à Ilha também porque não havia nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (considerando então que não havia razões políticas para a deslocação). E que em 1998 o primeiro-ministro António Guterres foi lá apesar de não haver nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (óbvios diferentes entendimentos sobre o conteúdo de uma visita de Estado a Moçambique).
Sobre a ilha já deixei aqui dois longos textos (I e II) – que são o melhor do Ma-schamba. E uma série alargada de entradas. Para além de sublinhar a esperança não me alongo mais, LNT – ali é o sítio onde combato o meu cepticismo. Rejuvenesço, por assim dizer.
Hoje é também dia de orgulho. Pois o grupo Anuaril Hassanate Bairro 16 de Junho (aldeia Mesquita Gulamo), do qual sou presidente

foi chamado para actuar na recepção ao meu presidente da República. De orgulho um pouco triste: sou mais uma vez um presidente absentista. E hoje gostava de não o ser.
Abaixo referi o destrutivo temporal na Ilha de Moçambique. Aí mesmo o visitante i.s.g. – o qual me avisa de que “nos conhecemos de modo irrelevante“, assim esbroando ego alheio – deixou comentário que subo a post.
Alguém despedaçou a tua carne
de novo
e não foram homens antigos de cruz ao peito
nem aqueles de máquinas fotográficas
nem os outros
(quaisquer que eles sejam).
Minha Ilha.
Foi um vento grande
um demónio (dizem os mais velhos)
o céu líquido precipitado no teu corpo
(como já estava ferido o teu corpo!)
e foi um mundo de nuvens
a colorir o teu azul
tanto que doeu demais.Mas
após o espanto
das tuas pedras
das velas
do macúti
das gentes
e desse mar de brilho
vai renascer um sorriso doce.
Vais continuar a ser um pedaço de chão
e alma
a navegar.
Mesmo em sangue
vais acordar sempre para o sol.
Eu sei.
És a minha Ilha
mesmo de corpo assim
rasgado.
Tempestade muito violenta na Ilha – que tendo amainado um pouco ainda não terminou. Chegam-me, por via daqueles que ainda têm carga nos telemóveis, relatos – avultadas destruições nos bairros de macuti e também na pedra-e-cal. Barcos de pesca afundados, casas destruídas, árvores derrubadas e, fundamentalmente, muitas casas sem telhados. A Ilha sem electricidade e, muito provavelmente (ainda não mo confirmaram), sem água. “A Ilha a sofrer”, dizem-me do Lumbo, também basto batido.
Amigos com prejuízos, ainda que felizmente sem notícias de desastres pessoais. Amigos e colaboradores olhando as casas descobertas, esses tectos de zinco que tanto investimento familiar implicam. Coisa que parecerá pouco na grande escala económica, mas que tanto implica nos parcos orçamentos familiares. Que fazer? A mobilizar ajuda.
De Eduardo White não tenho notícias há muito – em Portugal, sussurram-no alguns conhecidos comuns. Aqui deixo um texto dele (ele que, infelizmente, se desmaschambou) sobre a Ilha de Moçambique. A lembrar-me que o conheci em tempos de abrir janelas sobre o Índico …
A ILHA
Um pássaro revolve as asas por dentro do azul esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas sobre a espuma amarelecida dos navios cargueiros, que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas. A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha. As redes que sobre o chão encontramos estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode por dentro a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg, porque Deus descansa aqui ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que por teimosia não quer morrer. Vão longe a navegar os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros democráticos reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que os poemas não dizem, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem, entretanto, entender o que eles explodem e dóiem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores. Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e talvez será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives e os olhos aluadores e viajantes das suas crianças. Por isso o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá talvez aqui amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável, de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que aqui, até hoje, não sabem ler.
Eduardo White
O fim do Xitonhana: um abraço ao António, que sei por vezes aqui. “Ilha de Moçambique”, poema de Mia Couto. “Mesquita Grande” da Ilha, de Rui Knopfli, no Petromax. O texto de Mia Couto apresentando “A Ciência de Deus e o Sexo das Borboletas, de Daniel da Costa, transcrito no Mãos de Moçambique. Postais antigos de Moçambique no Kafe Kultura A propósito do Prémio Boa Governação José Medeiros Ferreira anuncia relato de uma conversa com Joaquim Chissano, havida em 1976 na ONU. Será aquando da entrega do Prémio. Fica-se à espera, presume-se que significativa a conversa, interessante o relato. [via Lusofolia] O nada lento minguar da economia do continente africano, em estudo da Oxfam [meros 15% ao ano na última década e meia ...] – via Causa Africana. O shoppingcentrismo e seu mais moderno mamarracho, devastando a Baixa de Maputo, segundo o Chapa 100 O Machado da Graça, implacável sobre o processo de recenseamento eleitoral em curso (?). Nota sobre o genocídio ucraniano nos anos 30.

Há já mais de um ano que muito se falou na Ilha de Moçambique da realização ali da super-produção cinematográfica Toussaint Louverture. Azáfama, entusiasmo, alguns investimentos privados (pequenos em termos absolutos, importantes para quem os fez) na expectativa de receber tamanha actividade, sonhos de lucro e de divulgação. Depois, infelizmente, tal não se concretizou. Lamentos, causas anunciadas, que os americanos tinham medo da malária, receavam a hipótese de um tsunami, que não havia condições logísticas, que o governo não teria facilitado. Enfim a frustração económica e existencial deu azo a múltiplas tentativas de explicação.
Afinal razões mais explícitas terão sido causa de tal desenlace. Danny Glover e Hugo Chavez, belos espíritos encontrados pelos vistos, e 20 milhões de USD dados pelo governo chaveziano para a realização do filme – por lá.
Azar!
1. Reunião hoje com colega de equipa, regressado agora do distrito da Gorongosa, antes de avançarmos todos os outros para vários distritos do centro. Ali a paisagem mostra bem os efeitos dos fogos, talvez queimadas descontroladas a devastarem o terreno, talvez outras coisas também. Pergunto-lhe, como se distraído mas sei que corrosivo, “e o parque, sempre é verdade que arderam 80%?”. Estupefacto ele, sem saber de onde me vem a ideia, que nem pensar, que nesse caso já não haveria parque. Pois claro …
2. Há algum tempo cruzei uma jornalista portuguesa lá na Ilha. Que queria falar sobre a cultura, coisa de entrevista. Ainda bem, havia ali gente de comum conhecimento a impecilhar, escapuli-me por outro caminho. No dia seguinte um meu amigo veio-me com ela, para a tal “entrevista”. Lisboeta, penacho de quem escreve para muitos, atrevida num “já percebi que não gosta de jornalistas“, diz-me. Mal-criada, nem mais. “Pois“, digo-lhe para desagrado do meu amigo ali a ser simpático, “vocês folclorizam e superficializam tudo“. Esgarzito e ainda assim a primeira pergunta, “o que é que falta na Ilha?”. Guardei o “vá à merda” e fui quase-acabando, “por que é que não começa por perguntar o que há na Ilha?”. Nunca há-de perceber…
3. Há anos atrás um jornal patrício, sempre repetente nestas coisas, dizia que a segunda causa da morte em África era a queda de cocos na cabeça das pessoas. Pois se o tinham dito à rapariga, perdão, à jornalista.
4. Em breve, mais conclusões sobre o tráfico de orgãos em Moçambique, coisa do mesmo jornal, diga-se. E agora de outros, ao que ameaçam. Pois se até para romances de aventura serve.
Depois um tipo tem maus fígados, dizem.
Uma crítica a “Campo de Trânsito” de João Paulo Borges Coelho, assinada por Teresa Sá Couto. Um livro de que se tem falado bem menos do que esperei.
Sobre a apresentação na Ilha da exposição “A Ilha de Moçambique a Preto e Cor”, de Luís Abelard e Sérgio Santimano, no 2+2=5.
Paulo Varela Gomes sobre os Olivais, um texto no Blitz de 1985.
Um pouco por todo o país o medo do tsunami anunciado – a população a evacuar a Costa do Sol, a visitar a praça do Destacamento Feminino (vulgo Maringué) esperando a onda, são relatos daqui. Durante o jantar chegou-me um sms de amigo da Ilha de Moçambique:
“Esta noite o preço do chapa da Ilha para o Lumbo subiu de 5 para 15 meticais – da Ilha as pessoas estão a fugir para o Lumbo“. Um êxodo, ao que me contam no telefone. E, como me dizia amigo aqui em Maputo: “parece que o mercado selvagem funciona bem“.
A propósito de uma breve entrada dedicada ao Museu da Ilha de Moçambique e à actividade dos Arqueonautas há troca de comentários, talvez interessante para os interessados na matéria.
A saga, um bocado mísera diga-se, da pirataria “arqueológica” dos Arqueonautas, vendedores de restos cargas naufragadas e aboletados na Ilha de Moçambique, vai continuando. Agora, tentando lavar a cara (“face-lifting”) avançaram para a apresentação museológica dos salvados (dos restos, melhor dizendo). De imediato localmente denominado como o “Museu do Caco”. Honra ao ministro ali presente, Aires Aly, que nem quis aceitar a sua inauguração.Para quando uma verdadeira (e turística) exploração arqueológica?

Brito Camacho, autoridade colonial, ministro da República, pedagogo, etc. e tal, homem muito louvado. Homem do seu tempo? Ou, sem anacronismos, mero tresleitor?”Vejo muita gente caiada, homens e mulheres, gente de cor.Dizem-me que é por chíbantice e por comodidade, por causa do calor, nos dias em que o sol tem irradiações de fornalha, a arder perto da terra. Já percorri quasi toda a Província e só aqui, na Cidade de Moçambique, encontro esta utilisação da cal. Ainda hontem, perto do cemitério, encontrei um pretalhaz, grande como uma torre, tão abundantemente caiado, que me deu vontade de lhe escrever um palavrão na cara.”
(Brito Camacho, Pretos e Brancos, Lisboa, Guimarães e Companhia, 1926, pp. 235-236)
Estava eu ali, na “A Minha Ilha“, “Ilha onde os cães não ladram e onde as crianças brincam/No meio da rua como peregrinos/Dum mundo mais aberto e cristalino“, ainda que vendo-a diferente e sem minha ser, mesmo que na “Ponta da Ilha” sinta como no hoje o sei sentir isso dos “Ó corpos dados com melodia / As melodias do meu ardor!/ Ó pretas lindas! Ponta da Ilha! / Vestem soberbos panos de cor. / Deles se despem com grã doçura, / Vénus despida do próprio mar. / É com doçura que negras, lindas, / Desaparecem no meu calor.”quando se foi, sei-o agora, quem deixou estas palavras do seu tempo sobre o que lhe foi berco e a alguns vai sendo refugio
L’ Isle JoyeuseÓ festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas dum branco rosa
Dum tempo antigo que aqui ficou
Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes para mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os deuses gregos orientais
Marcaram a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais
(Poemas retirados de
Nelson Saúte & António Sopa (coords.), A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas, Edições 70, 1992)