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Março 15th, 2010 — História Moçambique, Ilha de Moçambique
Nesta entrada falou-se de um monumento aos combatentes da I Guerra Mundial, sito na Ilha de Moçambique. O qual eu não recordei de imediato. Umbhalane, aqui comentador residente, aprestou-se então a enviar-me fotografias do referido monumento, ainda hoje colocado no jardim fronteiro à actual pousada. Bem como fotografia do padrão na ponta da ilha, pastiche mandado colocar por Sarmento Rodrigues no final do período colonial e eloquentemente retratado na referida exposição de Leitão Marques. Aqui ficam as fotografias e os agradecimentos ao emérito comentador cá de casa.


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Fevereiro 5th, 2010 — Bloguismo Moçambique, Ilha de Moçambique, Linguística

por ABM (Alcoentre, 5 de Fevereiro de 2010)
O exmo. e caro Carlos Gil mandou uma mensagem tipo APB (all points bulletin) alertando para o trabalho, publicado num blogue na internet chamado Moçambicanismos, pelo Sr. Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard, que ali se descreve como tradutor e professor, 51 anos, residente na bela e explosiva cidade de Chimoio (não sei o nome antigo, JPT, ajuda!) desde 2006 (diz que esteve em Moçambique entre 1997 e 1999).
O trabalho que eu vi não é só um trabalho de amor: está excelentemente organizado e até tem método na loucura, ou seja, o autor descreve uma metodologia algo rigorosa para chegar ao que ele considera termos moçambicanos.
Um exemplo, desavergonhadamente copiado:
baneane n. m. 1. Hist. comerciante indiano das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano
O dicionário Porto Editora regista a palavra, só no plural [?]. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende regista as variantes baniã e baniane. Ambas as obras dizem que a palavra vem do sânscrito, segundo Moçambicanismos, através do gujarati vaniyan, plural de vaniya, e, segundo o dicionário Porto Editora, através do hindu baniyan. A palavra banian também existe em inglês e o Concise Oxford concorda com a origem gujarati da palavra, de vaniyo “homem de casta de comerciantes”.
E mais um:
maningue adj. e adv. Fam. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.
E um que me surpreendeu:
monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mweneye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.
Mas isto são apenas pérolas do espólio.
Para meu choque, esta jóia da cultura internética “só” teve quatro mil visitantes em três anos, o que é absolutamente injusto face ao que ali está, que é um tesouro daquela miscelânia linguística que se foi construindo pelas pessoas ao longo das décadas e dos séculos, desde que o Sr. Vasco da Gama e os seus seguidores ocuparam aquele pequeno porta-aviões de apoio às viagens para as Índias que se chama Ilha de Moçambique, há 515 anos (e cuja fortaleza aparece lá em cima).
Abusando a linguagem do dicionário, exorto os exmos leitores a darem uma vista de olhos a este trabalho ímpar de Vítor Lindegaard, dizendo que aquilo está maningue nice. Mesmo.
Fevereiro 3rd, 2010 — Ilha de Moçambique

[Ilha de Moçambique (com Ana Leão, Janeiro 2007)]
Se em passeio pelos blogs é recorrente ler referências ao argumento (não totalmente falso) que aponta a máquina fotográfica como instrumento de poder, instaurando não só o acto apropriador da imagem (identidade?) alheia como também auto-produtor de imagem própria. E ainda como barreira defensiva, entre um fotografador dono de devir e um fotografado mero objecto a dominar e nem tanto a conhecer. Tornado passivo em si mesmo. Entre ambos criando um hiato, até moral. Quando neste registo de discurso há (quase)sempre uma referência a teóricos (normalmente americanos ou sitos em torno da Ivy League).
Nessas alturas lembro-me sempre, entre outras, desta fotografia (pobre, como são as minhas). Há alguns anos andava eu na Ilha de Moçambique com a AL. E encontrando uns alfaiates (uma empresa de alfaiataria, melhor dizendo) fui/fomos apropriar-me das suas velhas Singer, ainda para mais ali labutando ao ar livre, postal sempre muito apetecível a quem chega. Muito acolhendo o ser fotografado o alfaiate mostrou-me o que lhe era relevante. Naquela nossa interlocução.
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Janeiro 7th, 2010 — António Botelho de Melo, Ensino Moçambique, História Moçambique, Ilha de Moçambique, Memórias

a minha ideia de Goa - sem vacas
por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Nunca meti os pés na Índia, e muito menos em Goa, o ponto fulcral e crucial da segunda exploração marítima portuguesa no séc. XVI, de que a Ilha de Moçambique era de importância vital mas apenas como ponto de apoio.
Recordo que a primeira fase da exploração lusa das rotas marítimas foi o Norte de África, que correu mais ou menos (às vezes menos bem) até à maior derrota militar de 900 anos de história portuguesa, Alcácer-Quibir, em Agosto de 1578, que só tem comparação na sua dimensão épica com igualmente épica e inenarrável vergonha (mais política e moral que militar) que foi a forma da retirada formal de Portugal de África e de Timor em 1975.
Mas, bons portugueses, quase tudo esquecemos e tudo perdoamos. Quando muito, ruminamos na calada da noite em blogues como este e depois vamos dormir, na enferna convicção da consciência ventilada.
Uma espécie de peido emocional.
Ou, mais prosaicamente, uma catarse num quarto escuro e fechado.
Como alguns dos restantes territórios sob soberania portugues até aos anos 60 e 70 do século findo, Goa era de certa forma mais um anacronismo de uma potência pós-decadente. Já há séculos que para quase nada servia, só dava despesa, Portugal pouco ou nada fazia lá, tinha meia dúzia de gatos pingados na sua guarnição, a paisagem aquele latinismo exótico, doce e delapidado, a economia irrelevante e, mais importante, não havia maneira de evitar o embate de uma Índia independente, orgulhosa e anti-colonial. Nehru fartou-se de avisar e de mandar recados, alguns até simpáticos, mas o Dr. Oliveira Salazar pelos vistos tinha que manter, e manteve, a consistência da sua postura.
A tomada de Goa e restantes territórios da Índia Portuguesa em 1961 não foi coisa assim tão insípida como se possa pensar. Mais tarde soube que em Moçambique, por exemplo, a comunidade de ascendência indiana foi quase decapitada por causa dos eventos na Índia. Muita gente foi encarcerada, maltratada, muitos foram explusos e despojados dos seus bens, ou simplesmente presos e usados como moeda de troca pelos (principalmente) militares portugueses então feitos prisioneiros pelo exército indiano, com até uma mãozinha do omnipresente Jorge Jardim pelo meio. Dos poucos que ficaram atrás, e seus descendentes, as feridas resultantes desse trauma perduraram até hoje.
Alguns goeses viajaram no sentido oposto, para Moçambique, onde tentaram refazer as suas vidas. Conheci alguns. E talvez seja minha mania, mas sempre me ficou a impressão de serem pessoas com uma cultura e profundidade espiritual que contrastava de todo com a elevada quantidade de carapaus de corrida que iam desaguar a Lourenço Marques, vindos da Metrópole, com a mania de que iam ensinar os locais brancos e pretos como é que se comia com o garfo e a faca.
Uma dessas pessoas que me ficou gravada cá dentro foi uma professora de História que tive no segundo ano da Escola Preparatória, a infame Escola General Machado na Polana, para onde eu tinha que marchar todos os dias as sete da manhã com um horripilante colete verde-garrafa estilo militar e basicamente levar porrada nas aulas de educação física do famoso e temeroso professor Trepa Torres. Ela era uma pessoa sublime, cultíssima, uma mulher conhecedora do mundo, uma docente de cinco estrelas. E que era goesa. Claro que na altura eu não fazia a mínima ideia do que era Goa nem onde ficava e muito menos que os indianos na altura já tinha surripiado aquilo a Portugal. Pouco tempo depois, quando saí de Moçambique para estudar em Coimbra, encontrei-a no avião da TAP (um Boeing 747, nada menos) de mala aviada para Portugal, para ela uma segunda fuga. Sorumbaticamente, prestei-lhe os meus respeitos e despedi-me quando desembarcámos em Lisboa. Nunca mais a vi.
Pelo meio, não sabendo bem porquê, sempre tive uma visão quase idílica de Goa e das suas gentes e culturas, em parte espelhando os ecos moçambicanos. Mais tarde apercebi-me de algo ainda mais supreendente, que era a elevada consideração em que aparentemente são tidos na Índia e no Reino Unidos alguns descendentes mais sonantes dos Goeses, cujos nomes são, nalguns casos, de matriz portuguesa. E ainda que, sendo o subcontinente indiano uma enormidade, que Goa, a pequenina Goa dos portugueses em que pouco ou nada se fizera em quinhentos anos, aparecia como a jóia da coroa e o local de passeio das classes mais abastadas da Índia, do seu turismo internacional.
Uma menção especial para Gujarat, mais a Norte, a seguir a Mumbai, a velha Bombaím, dada por João IV como dote da sua filha Catarina de Bragança à Inglaterra de Carlos II em meados do século XVII. Lidei bastante com homens de negócios de lá e seus descendentes, em Angola e Moçambique, e foi sempre um prazer.
Portanto aquilo era o paraíso na terra e a minha imagem do paraíso na terra é mais ou menos o que está na fotografia lá em cima.
Basicamente, portanto, sem as vacas a passear nem os vendedores de quinquilharias que a Senhora Baronesa, com o seu afincado olho antropológico e a máquina digital, descortinou.
Mas enfim. As coisas nunca são exactamente como pensamos, não é?
Pois ponha-se a vaquinha na praia que eu continuarei a pensar que há-de haver por lá aquele cantinho do paraíso que eu sempre suspeitei haver.
A Goa dos meus sonhos.
Dezembro 7th, 2009 — Fotografia Moçambique, Ilha de Moçambique

No café “Sol” uma exposição dedicada à Ilha de Moçambique, da autoria da fotógrafa amadora (uma belíssima e elogiosa palavra, nunca esquecer) Vânia Moreira. Vale a pena ir lá ver.
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Novembro 23rd, 2009 — Arte, História, Ilha de Moçambique, Religião, Sociedade portuguesa
(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)
por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)
Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.
A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.
O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.
A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.
Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.
A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.
Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.
Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.
Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?
O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.
Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.
Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?
Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.
Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).
Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.
Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.
Outubro 21st, 2009 — História Moçambique, Ilha de Moçambique
(prima na imagem e veja a Ilha de Moçambique em todos o seu esplendor)
por ABM -
Sendo que o Maschamba não aderiu ainda, que eu saiba, à Commonwealth, seria um bocado antitético rebiscar em inglês num fórum em que se pretende falar (por vezes quase intestinalmente) entre nós os que falam esta língua. Mas também rabisco em inglês e isso dá-me a chance adicional de ver, espreitando para o outro lado da paliçada, o que os amigos que dialogam nessa língua, dizem de nós, e deles.
Foi assim que, prescrutando um curioso site sobre o mundo islâmico hoje, encontrei o texto em apreço, em que um simpático médico egípcio descreve a sua experiência no Norte de Moçambique há uns anos e celebra a sua fé islâmica. Só que, ao fazê-lo, incorreu no que eu consideraria umas imprecisõezinhas muito menores que eu…achava que podiam ser talvez reconsideradas. Solícito, mandei uma mensagem ao autor, perguntando se ele se ofenderia se eu contribuísse essas sugestões – o que fiz e enviei.
Só que, inspirado por uma das mais magníficas canjas de galinha que comi ontem à noite (generosamente regada com limão, como aprendi com os meus antepassados açorianos), sentei-me e escrei um aditamento à primeira mensagem, pois, após rever o texto original, achei que o meu simpático interlocutor não conhecia Portugal, a sua história, a sua relação com o islamismo e algum do contexto do Moçambique pré e pós-colonial
O que vai a seguir é esse aditamento, que é longo e ainda por cima em inglês. Mas regista um voo vertiginoso na história em que os três grandes protagonistas são Portugal e as religiões católica e muçulmana.
E de como os três desembocam em quinhentos anos de Moçambique.
Para se apanhar o fio à meada, convinha ver o texto original que me chamou a atenção.
Aqui vai.
Portugal and Islam on the Island of Mozambique
So now, if you don’t mind, let me give you some facts which might help you to apprehend some of the context of the Portuguese – mainly, who were those Portuguese and why did they show up in the Indian Ocean – an Arabian, and thus Muslim, and Indian trade route for hundreds of years) – suddenly in 1498, and why did they do what they did, namely on the Island of Mozambique.
Where did the Portuguese originate from
Portugal was originally a province (a “county”, with a count, which was a high member of nobility) of the Christian Iberian Kingdom of Leon and Castilla. Leon and Castilla was the driving force in the creation of today’s Spain. It was a Christian kingdom (Catholic. Back then to be a Christian was to be a Catholic) whose main reason for its existence was medieval Europe’s effort to “push back” Iberian Muslim kingdoms which had been in existence in the Iberian Peninsula since the middle of the 8th Century. Muslim armies pushed from what is Morrocco today northward to Europe up until the middle of the 8th Century, until they were stopped in 732 by the Franks (I guess the ancestors of the present French) at the Battle of Poitiers, which Wikipedia insists in calling the Battle of Tours (http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Tours) .
Slowly, from the North, Christian Kingdoms began to “reconquer” land from the Islamic Iberian Kingdoms.
Things on the Western edge of Leon and Castilla were moving rather slowly until a Mr. Henri, a Burgundian nobleman (the Duchy of Burgundy being about half of today’s France), married Tereza, a daughter of the king of Leon and Castille at around 1100 and was named a Count and given the run of County of Portugale, which if you look at the map of Portugal is on the far northside of today’s Portugal. At that time the whole south side of the Iberian Peninsula was Muslim and ruled by Muslim royalty. Arabic was the language and all the traditions, technology, art, architecture, etc – were Muslim, with some jewish flavour in the middle.
There were then two crucial events which shaped Portuguese history.
The first was that Henri’s son, whose name was Afonso Henriques, rebelled against Leon and Castille and formed what was to become Portugal. His was also a Catholic kingdom and you need to understand the politics of the time, where in Christian Europe the Catholic church and Pope were not only considered to be above kings in terms of religion, but also waere above them in terms of politics. In fact, Portugal was only considered to be an independent kingdom only when the Pope in Rome called Afonso Henriques “king” in a letter dated 1143 (and of course the Portuguese fought back the Castillians).
The second was that in 1095, just before Henrique rebelled against Leon and Castille, the then Pope (http://en.wikipedia.org/wiki/First_Crusade) declared a kind of Intifada against some Muslims in order to try to help the Eastern Roman Empire fight Muslim armies on its eastern flank (somewhere in present day Turkey), which then was based in what is now Istambul. All Christian kingdoms in Europe contributed by sending money, peasants and nobles to help in the fight – the Pope’s calling, rather misunderstood by today’s standards, back then was the word of Lord God himself.
One thing led to another and in the end they decided, and were able , of taking Jerusalem for a while, created a big mess, etc. But the important thing for this story is that a) all of the sudden you had in Europe the political will, money and armies to fight “the infidels” (i.e., Muslims), b) you even had a very powerful, super-organization called the Knight Templars, a Catholic organization within the always otherwise monolithic structure whose top was the Pope in Rome (or, for some time, Avignon) c) it just happened that in the South of the Iberian Peninsula there were Muslim kingdoms!
So what did Henrique do? He enlisted the help of many European armed nobles and their supporters, including, crucially, the Knight Templars, in exchange for lots of money, lots of land, and promises of everlasting happiness in heaven, to help him grow Portugal by moving its borders south against the “evil” Muslims who were living in the South of his small kingdom.
If you ever come to Portugal, not only you will find that a significant percentage of Portuguese are direct descendants of those early Muslims, but also there are endless vestiges of Muslim presence in the language, in names, architecture, etc. In fact, many of the main cities South of Coimbra retain Muslim names. I have a very small property in a small village 50 kms north of Lisbon whose name is Alcoentre, which is the original Islamic name of the place, which can be traced to the Islamic Kingdom that ruled the area back in the year 950. The only monument in the village mentions the Islamic Kingdom of Cordova, I think.
The arab word “inshallah” actually exists in Portuguese and believe it or not it means exactly the same thing: “oxalá” – “God willing”…
And so in small battles and skirmishes they moved south and took over the land. It took about 200 years. Lisbon was taken from the Muslims in 1147 and much later became the capital of Portugal. One of the old suburbs of Lisbon is still called “Mouraria”, “Mouros” being the name given by the Catholic Portuguese then to the Muslims who lived there. After Lisbon was conquered I guess the Mouraria was where they lived. Supposedly, the oldest Catholic church in Lisbon (900 years old) was built on the site where a Mosque was – but I am not sure. The South of Portugal, which is still called the Algarve (“Al-Gharb”) is so Islamic and Arabic that you would find it almost funny. But with time the Muslim customs, which were obviously repressed, died out somewhat – but many traditions and signs of that presence remain.
In Spain, the last Muslim Kingdom, Granada, was conquered by Isabel and Ferdinand (http://en.wikipedia.org/wiki/Isabella_I_of_Castile) much later, in 1492, thus creating the present kingdom of Spain.
Back to Portugal. I hope I am not boring you.
John I, God and Trade
In 1386 Portugal almost became part of Leon and Castille again, but the Portuguese nobility rebelled against the idea and went to war in order for Portugal to remain independent. The new king, John I, fought wars for almost 20 years before he could rest. He married an english woman, Philipa Lancaster, and had several children.
Then, something strange happened. In August 1415, just as the wars against Leon and Castille ended (thus the Portuguese were good in war and had a small army still), with the authorisation of the Pope (but of course!), the Portuguese assembled a small fleet of ships and successfully invaded and took over the small northern African, Muslim port of Ceuta. This was a crucial event in many ways, for a) it gave great prestige to the Portuguese in Catholic Europe, where defeating Muslims was viewed as a good and noble thing to do, b) the Pope thought it was great, c) it was highly profitable, d) it was something for the nobles to do – they were of no use in times of peace other than to give problems to the King, e) the Portuguese became specialized in naval warfare, something rather new in Europe, f) for the first time in many centuries, Catholics broke into immensely profitable trade routes that were until then in the exclusive hands of Muslim arabs.
Thus, slowly, the plan started to form in the Portuguese nobility to fight to enter and dominate sea trade routes to the East. Those routes ran across the Mediterranean towards what is today Egypt, Israel and Turkey. From these lands goods were shipped overland from present- day China, India/Pakistan and Iraq/Iran. It was an obscenely profitable business which was completely dominated by Muslim Arabs.
The Portuguese strategy was threefold: scientific, commercial and religious.
Scientific
In terms of science, I am actually amazed at what they did back then. But for your pleasure I will mention the development of the instruments and formulas to measure latitude (developed from old Muslim and Jewish information analysed under Prince Henry the Navigator, a son of John I), the use of maps, and the development of the “Caravela”, a specific type of small ship developed by the Portuguese based on Muslim technological know-how in which for the first time a special type of sail (common in the Arabian Sea) allowed then to sail fast and against the wind in zig-zag form (note: your friendly Portuguese when they showed up in Mozambique Island in 1498 were using these ships. They weren’t really a fleet: three small ships and a lot of dhiarrea…)
Commercial
In 1453 the Muslims Turks famously invaded and conquered the former Constantinople (named Istambul in the 20th Century) and the Catholic Eastern Roman Empire fell. A consequence was that in Europe for a while trade routes were interrupted and thus the price of goods produced in China, India and the Middle East reached absolutely astronomic values.
This meant that, if by any chance a way was found to bypass the (Muslim) Middle East and directly reach India, enormous fortunes would be made.
By that time the Portuguese were on the coast all over Muslim North Africa and were beginning to navigate South from where Portugal was located. Importantly, they discovered and operated from the Azores, Cape Verde and the Canary Islands, thus enabling them to “jump” across the ocean using the then little-known trade winds.
Now, there is no record as to why and how the Portuguese came up with the belief that there was a way around Africa to reach the Indian Ocean and thus India and the Middle East from below. But I believe that somehow they knew. It must have been information they gathered from several sources, the most obvious one being their (Muslim) trade contacts in North Africa. Or the message from the Etyhiopian envoy who was in Lisbon. Or from spies in Venice.
Religious
Portugal was then a Catholic kingdom, eager to display its devotion to God, the Catholic Church and Catholic causes. Somehow it became part of the project a) to help spread the Catholic religion wherever they went, b) to find a supposedly ancient (and very, very rich) Christian kingdom somewhere behind and below the “great Muslim barrier” which was the Middle East. We are in fact talking about the ancient ethiopian Christians, which unfortunately for the Portuguese, who eventually linked up with them,were neither very rich nor very Catholic, for that matter…
Enter Mr Vasco da Gama
The Portuguese enterprise was run by the king and the nobility and moved forward. Eventually they reached the southern tip of Africa, and in 1498, King Manuel I sent Mr Vasco da Gama in the three aforementioned ships, (plus a supply ship that was soon discarded) off to successfully find a sea route to India.
When Gama sailed, he didn’t really know what he was going to find. What he did find was that the eastern side of Africa was full of Muslim-dominated trade from and to the Middle East, which had been going on for hundreds of years. That is why culturally, there was by 1500 Muslim religious and culture widespread on the coasts of Eastern Africa.
What the Portuguese did in fact do in 1500 was (and it was not always pretty) was to a) ensure that they had reliable stops along the very very long route between far-away Portugal and Goa (which they later conquered) to supply, repair and support their ships; b) those stops were and had to be safe, which meant leaving people and building fortresses such as the one you saw in the Island of Mozambique, c) those stops were also trading posts with the surrounding lands, and d) they had to make a massive effort in acquiring intelligence and information concerning goods traded, who was who locally and how to establish their presence.
On the route between Lisbon and Goa, the Island of Mozambique was by far the most critical stop. That is why the fortress of San Sebastian, the one you saw, is the biggest work of military engineering ever built by the Portuguese anywhere. In fact, in all of its existence, it was never taken over by anybody.
The Portuguese strategy in the region simply meant displacing the “owners” of the trade routes (mainly Muslim in East Africa but not in India) and replacing them or, more commonly, having them pay some tax or tribute. They went as far North as the entrance to the Red Sea and present-day Irak (there is an old Portuguese fortess right in the middle of Irak, believe it or not). In the end, they went as far as Japan and China.
Trade Tourists
In 1500 the whole of Portugal had a total population of around one million people. So the modern idea that the Portuguese had any chance of “invading” and “colonizing” anyplace is just a bad joke, much in fashion these days. They were looking for trade and easy money. Besides the weird Zambézia Prazos, they did very little in present day Mozambique, practically nothing until the last decade of the XIX Century. Muslims and Africans were mostly left alone and the Portuguese were very happy to trade with them. In any event the trading empire soon collapsed and by the 1600’s the Portuguese barely managed to hold on to Goa and Mozambique Island.
The Mozambique Muslims
There isn’t, to my knowledge, a written history of the Muslims of Mozambique. It would be a most interesting effort it someone studied the topic. I guess Muslim Arabs and their descendants remained happily trading on the coasts of present day northern Mozambique, and spread their religion. There wasn’t much the Portuguese could or wanted to do. Without them, you probably couldn’t trade with the African hinterland. In the 20th Century, Arab Muslim descendants were in a privileged position, as they played a relevant role in trade, they were much more educated than the average (black) Mozambican and much richer. To my knowledge they were remarkably africanized and part of the landscape, alongside with the communities that were of Indian/Pakistani origin and which also had strong cultural and trade links with Mozambique.
By the 1950’s Portugal was by then a dictatorship trying to hold on to its nine “colonies” (Cape Verde, Guinea, SãoTomé and Príncipe, the small Fort of São João Baptista de Ajudá, Angola, Mozambique, India, Macau and Timor). Mozambique was finally beginning to develop economically. The dictatorship formally favoured the Catholic religion and while it tolerated other religions, it clearly discriminated against them. In Mozambique it was a particular problem due to its historical cultural, racial and religious diversity.
1975 and Beyound
At independence in 1975, as a result of what I firmly believe was a deliberate state scheme to kick out all Portuguese “invaders” and their descendants (moi même included, although indirectly) and of the rabid communist program immediately adopted by the government, more than 90% of all Portuguese and their descendants left within 12 months of the independence proclamation. All property and businesses were nationalized and a virtual reign of “socialist terror” ensued. As a result, the economy was summarily destroyed and there weren’t almost any skilled people to do anything (Portuguese development measures were too few and too late and most people were unskilled in 1975). Mozambique tried to get help from its “socialist brothers” the Soviets, the East Germans, Bulgarians and the like, which in the end not only did not help but only seemed to contribute to complicate things further. Everybody tells they either were afraid or they were spying on everybody else.
Soon Mozambique was at war to “free” Rhodesia (now Zimbabwe) and to liberate apartheid South Africa from apartheid. Both of which promptly retaliated with economic sanctions, wars of attrition and support for people opposing Frelimo. A very bloody civil war followed – an estimated one million people died as a result. Mozambique’s administration, schools, businesses, hospitals, were ghosts of the past.
The New Business Aristocracy
In this context, there was, I believe, one group that played a critical role: the arab/Muslims, now Mozambican citizens, who as a group were commercially active in the cities and with contacts, way more literate than the average for the country, and who mostly stayed or kept in touch with Mozambique. Without the Portuguese to compete with, with all the dilapidated infra-structure, without the capacity of the average Mozambican to create enterprises, and with the government absolutely desperate to get the country back on its feet, the arab/Muslim elite began to invest, trade and develop businesses. By the end of the 1980’s, Frelimo conveniently kind of dropped the communist line , resorting now to a nationalistic, “we are the liberators and the new capitalists” line. With Machel killed, Joaquim Chissano presided over the metamorphosis.
Soon the Arab/Muslim elite were key stakeholders and their prestige, influence and wealth soared. By far the most obscenely extravagant weddings in Maputo involved the offspring of wealthy Mozambican Muslims marry. Freed from the former Portuguese restrictions on religion and with no competitors whatsoever in business, and welcomed by a Frelimo previously opposed to all types of religions (it had confiscated almost all Catholic properties in the country following independence) but now converted to a curious african version of wild west cowboy capitalism where they were key players, they were able to practice the Muslim religion, build lots of mosques and support the spread of the Muslim religion throughout Mozambique.
Recent Additions
Since the late 1980’s many arab and Pakistani Muslims came to live and work in Mozambique, bringing customs and traditions which are not historically linked with the ancient communities who had been there for hundreds of years. As television and easy of travel increase – as well as their wealth – they seem to becoming more in tune with Middle Eastern and Arab Muslim culture. They travel more to arab countries, holiday there, shop there, bank there, watch satellite television in Arabic, broadcast from the Middle East, use clothes more common in the Middle East, speak fluent arabic.
That is a double-edged sword: in general, there are today “two” great muslim communities in Mozambique, one the above, more urban, sophisticated, rich, influential, racially more directly linked with the Crescent countries, and another, much larger, much poorer, less influential, made up of millions of black Mozambicans who are devout Muslims. While relations between the two communities seem to be in rather friendly terms these days, it was not always so. While they practice the same religion (mostly sunni), they do so in slightly different ways and navigate in different wavelengths, as their realities are in many ways so different.
Muslims in Portugal
One last note: there were almost no Muslims in Portugal until 1975. Following mostly Mozambique’s independence. Many Muslim families mostly from Mozambique (they had Portuguese passports, a detail which is important) either moved, sent their children or opened businesses in Portugal. They were mostly welcomed and were successful in creating a life for them there. Many maintain close links with Mozambique, going back and forth. They are successful and respected members of the community. They opened mosques in Lisbon and practice the Muslim religion freely and in peace (of course occasionally the resident Catholic cardinal in Lisbon says something insane about Muslims and they react in anger – rightfully so, of course). Long gone are the days when you were harassed for being a Muslim in Portugal.
Setembro 6th, 2009 — Ilha de Moçambique


Durante as últimas décadas a população hindu da Ilha de Moçambique partiu para outras localidades, nacionais e estrangeiras. Assim assim congregou-se para reabilitar o seu templo, algo culminado neste ano.
Setembro 6th, 2009 — Ilha de Moçambique




[Cabaceira Grande, Palácio do Governador - entretanto concessionado a um grupo de investidores ("LusoQuatro"?) - 2009]
As fotografias são péssimas, mas as paredes fantásticas.
Agosto 14th, 2009 — Banda Desenhada, Ilha de Moçambique, João Paulo Borges Coelho

Momento feliz, naquele à loja Camillo Alves, cruzamento da Mao-Tsé-Tung com a Kim-Il-Sung, trio toponómico hiper-significante, acabo de encontrar esta raridade – em mau estado, é certo, mas a colmatar um desaparecimento: “No Tempo do Farelahi“, o segundo álbum de banda desenhada publicado por João Paulo Borges Coelho, publicado pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, em 1983.

Obra de juventude, narra as campanhas de Mouzinho de Albuquerque no norte de Moçambique, entre a Ilha, seu poiso, e os xeicados suaílizados, focos de resistência à ocupação portuguesa. Para fruir. Também para captar algo da história do país. E do universo ficcional de JPBC, o qual regressa recorrentemente na ficção que produz.
Ainda bem que parei o carro …
Maio 9th, 2009 — Ilha de Moçambique, Isabel Osório

Foi na Ilha de Moçambique que encontrei um curioso livro, editado em 2008 pela Editorial Minerva. Trata-se de uma colectânea de fotógrafos amadores que se apresentam em formato bloguístico (ou fotobloguístico), condignamente impressa, o Fragmentos de Emoção. Como será normal num projecto que integra trabalhos de cinquenta fotógrafos o livro é bastante heterogéneo, nas temáticas e abordagens.
Lá está representada a Ilha de Moçambique, através das fotografias da Isabel Osório. Esperando eu que essa primeira edição sirva de trampolim para um trabalho – exposição, álbum – da Okhwiri, que sobre a Ilha construíu um belíssimo trabalho fotográfico. E que tem a “obrigação” de o partilhar.
Maio 9th, 2009 — Ilha de Moçambique
A excelência na Ilha, em acomodações e programas, está no Terraço das Quitandas. Louvar quem para isso trabalhou. E o quis.
Maio 7th, 2009 — Ilha de Moçambique, Paternidade

Ela – “Pai, esta vista é completamente boa”.
Maio 7th, 2009 — Eduardo White, Ilha de Moçambique

“Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.
(…)
Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha, Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.
Vejo-a:
(…)
A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.
As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro mácua, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.
(…)
Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.
Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.
Mas era para lá que eu queria partir.”
[Eduardo White, O Manual das Mãos, Campo de Letras, 2004, pp. 61-62]
Julho 7th, 2008 — Ilha de Moçambique, Luis Abelard, Sérgio Santimano
Inauguração no dia 9 de Julho, próxima quarta-feira, às 19.30. Em Lisboa, na Fábrica de Braço de Prata (aos Olivais), com a presença dos seus autores Sérgio Santimano e Luís Abelard: “Ilha de Moçambique a preto e cor“. E lá estará durante o mês de Julho.
(Luis Abelard)
(Sérgio Santimano)
Maio 31st, 2008 — Ilha de Moçambique

[Maio de 2008]
Janina, de há muito a estrela do “Estrela Vermelha”. A face do Tufo. Vénia …
Maio 31st, 2008 — Ilha de Moçambique

[Maio 2008]
Lixeira da Ponta da Ilha. A ser transferida …
Maio 31st, 2008 — Ensino Moçambique, Ilha de Moçambique

[Maio de 2008]
Escolinha, bairro Maringué, Gembesse. Colega e seus alunos.
Maio 31st, 2008 — Ilha de Moçambique


[Maio de 2008]
Uma inovação urbanística na Ilha: a nave dos loucos. Auto-construção fronteira ao cemitério, ponta da Ilha. A imediata sensibilidade impressiona-se face às condições de vida (veja-se o tamanho das casas) dos “loucos” – não tive oportunidade de indagar se não se trata da tradicional exclusão dos “outros”, mera marginalização dos “vagabundos” a-sociados. A sensibilidade segunda sorri com a permissão de construção aos marginalizados mesmo junto à entrada da cidade (que se quer turística). Magnifíca, ainda que não estética, concepção de inclusão – e digo-o sem ironia. Ainda que solidário com a miséria visível. Pois muito antes assim do que a escondê-los.
Maio 31st, 2008 — Ilha de Moçambique

[Maio de 2008]
Grafiti no “Matadouro”: poesia popular
Maio 31st, 2008 — Ilha de Moçambique

[Sanculo, Maio de 2008]
“Escreve um texto doce. Regista uma imagem – a mais rara. Traz bocadinhos dessa luz. Quando vieres espalha tudo isso nesse sul.” – sms recebido há dias. Ando assim, até pior. É o que te consigo arranjar.
Maio 31st, 2008 — Ecologia Moçambique, Ilha de Moçambique

[Maio de 2008]
A reabilitar?
Maio 31st, 2008 — Cooperação, Ilha de Moçambique


[Maio de 2008]
Comemorações do Dia Mundial dos Museus no Museu da Ilha de Moçambique, uma actividade de quatro dias, realizada pelo seu director e pela curadora dos museus da Ilha. Aqui registo de uma das palestras da curadora Sara Teixeira. Minha homónima, minha patrícia, minha ex-colega (de quando eu fui cooperante português), mulher de mão-cheia e de grande paixão profissional pelo que vem fazendo. Com denodo animando os museus locais. E em terríveis condições logísticas existenciais.
Para ela e para as três miúdas – mais novas que a Carolina – um grande beijo. Foi um desprazer nocturno ter que ir carregar-vos os bidões de água. Sem carro numa ilha? E esta agora sem água? Vénia dobrada pelo profissionalismo e pela paixão. Redobrada pela coragem. Tridobrada pelo resto todo.
Aliás, lá de onde vimos já não há gente assim. Partiram o molde, ouvi dizer.
Sara, um abraço ao Rui.
Maio 31st, 2008 — Cooperação, Ilha de Moçambique, Portugal-Moçambique


[Maio de 2008]
A primeira pedra da Vila do Milénio, belo projecto de assentamento populacional a desenvolver muito em breve, baseado no projecto Aldeias do Milénio (Millenium Project) das Nações Unidas, uma inspiração desenvolvimentista de Jeffrey Sachs. Na sua versão moçambicana, como este projecto no Lumbo, uma obra encabeçada pelo excelente Venâncio Massingue, ministro da Ciência e da Tecnologia – prova que o desenvolvimento rural é um objecto de transferência científica e só assim se pode cumprir.
Maio 31st, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ilha de Moçambique

[Maio 2008]
Maio 31st, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ilha de Moçambique


[Maio 2008]
Maio 5th, 2008 — Alexandre Lobato, História Moçambique, Ilha de Moçambique, Livros Moçambique

["Ilha de Moçambique com a representação da fortaleza de São Sebastião", António Bocarro, Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações da Índia, Goa, 1635. Ilustrações de Pedro Barreto de Resende]
“Dehérain publicou há cinquenta anos, num livro cheio de interesse - Études sur l’Afrique -, quinze páginas sobre a malograda expedição holandesa enviada em 1662 à conquista de [Ilha de ] Moçambique. Compreeendia sete navios, com 1227 homens, o que dá suficiente ideia da grande importância que lhe deu em Amsterdão o Conselho [da Companhia das Índias]. No Brasil corriam mal para os Holandeses os feitos da guerra, mercê da tenacidade com que os colonos os combatiam, mas na Índia tudo lhes corria bem. Colombo e Calecut foram tomadas em 1656, Jafanapatão em 1658 e Negapatão em 1660. Cochim, fundação do Estado da Índia, seria por nós perdida em 1663. Os Holandeses tinham decidido expulsar os portugueses do Índico, e resolveram conquistar Moçambique, porto fundamental do comércio com a África e da dominação naquele oceano. (…)
A Companhia [das Índias] armou especialmente cinco navios, destacou mais dois da linha de Java e juntou-lhes um iate que deveria ficar depois no Cabo. Um dos navios chegou porém tarde ao Cabo e não alinhou à partida. O comando foi confiado a Huybert de Lairesse e tudo se preparou no maior segredo, a fim de nada chegar ao conhecimento da espionagem portuguesa. A Fortaleza de Moçambique deveria ser tomada de surpresa; não sendo possível, recorrer-se-ia ao assalto; o último meio a adoptar seria o cerco. (…)
A viagem da Holanda ao Cabo foi trabalhosa, com algumas baixas – perto de 90 mortos. Para recompor as guarnições, Lairesse demorou-se no Cabo até 26 de Setembro de 1662, época do ano já avançada para o resto da viagem, que de regra não deve exceder Agosto. Naquele dia deixaram o Cabo, a caminho de Moçambique, 5 navios de linha e 2 ligeiros, com 1227 homens, em que 646 eram soldados.
A notícia do malogro da expedição chegou ao Cabo em Janeiro de 1663, por um dos navios da frota. Esta tinha gasto mais de um mês para atingir o cabo das Correntes. Outro mês foi gasto para atingir a baía Verhagens, que Dehérain julga ser (…) a actual baía de Mafamede (Mofomeno) [entre o cabo de S. Sebastião e Sofala].
Não faltaram temporais e ventos contrários; os mantimentos começaram a escassear; apareceram as doenças. Lairesse resolveu retroceder para sul do cabo das Correntes para repousar as tripulações e andou para trás em 24 horas o caminho que para diante lhe consumira cinco semanas. Ancoraram num ponto da costa a que chamaram Baracatta, e não está identificado, e aí estiveram os navios mais de um mês, ameaçados de caírem sobre a costa. Tinham morrido 114 homens e 218 estavam doentes. Lairesse decidiu desistir.
Dehérain estranha, com justa razão, que Lairesse se tivesse metido tão aventurosamente ao Índico sem respeitar o regime das monções. E foram inegàvelmente os ventos que salvaram Moçambique. A praça dificilmente poderia resistir, e, tomada, seria quase impossível reavê-la, porque o tratado de paz luso-holandês de 6 de Agosto de 1661 entraria em vigor com o status quo da data da ratificação, e possessões portuguesas que tivessem sido conquistadas pela Holanda permaneceriam em seu poder. Por isso a Companhia tanto recomendara a Lairesse que andasse ligeiro.” (meu sublinhado, jpt)

[Alexandre Lobato, Quatro Estudos e Uma Evocação Para a História de Lourenço Marques, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1961, pp. 25-28]

[Gravura reproduzida de Rafael Moreira (coord.), A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994]
Maio 1st, 2008 — Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Mia Couto

Ilha de Moçambique
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)
Abril 28th, 2008 — Ilha de Moçambique
Dinheiro japonês e português, sob a tutela da UNESCO. As obras de reabilitação da Fortaleza da Ilha de Moçambique – que aqui referi – vão finalmente avançar.
Março 28th, 2008 — Ilha de Moçambique
O Francisco mostra a sua Ilha de Moçambique. E também a mais esquecida beleza de Nampula.