Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.
Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.
Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.
Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.
Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.
Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.
Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.
Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.
Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).
Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.
E em Macau é Chonca.
Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.
Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.
Um excelente texto da historiadora Ana Cristina Nogueira da Silva (ACNS), Fotografando o Mundo Colonial Africano. É um texto académico (no jargão “paper”) que pode afastar alguns leitores mais atreitos ao registo blog, mas mais do que justifica a sua leitura. Trata-se de uma bela análise dos processos intelectuais presentes na iconografia produzida no tempo colonial sobre as colónias africanas, tomando como exemplo os álbuns produzidos por Santos Rufino na década de 1920 sobre Moçambique. ACNS aborda, com clareza, os estereótipos sobre a natureza e sobre as populações que estão presentes / e são produzidos no acto de fotografar, bem como os propósitos (conscientes ou inconscientes) de índole política que estavam presentes no formato descritivo de então. Se interessante para quem tem apreço pela historiografia é um texto também fundamental para quem aprecia (e reproduz) as galerias de “postais” e “fotografias” de um tempo particular. Para pensar como se pensava, para ver como se via. E como se pensa e vê, em tantos casos.
Acabo de receber de leitor amigo este artigo (“A Morte do Maximbombo“, publicado originalmente na revista Ilustração Portuguesa, em 1913) destinado a aqui ser reproduzido. Através dele se poderá abordar a questão da origem da palavra “maximbombo” – confesso a minha surpresa, nunca reflectira no assunto mas sempre a atribuíra a uma utilização do inglês (de machine pump) em contextos africanos. Afinal assim não será essa a sua origem.
Reproduzido da revista Ilustração Portuguesa n.º 386, 17.07.1913
[Vasco Pulido Valente,A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]
Foi o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes Histórias de Portugal actuais (a de José Mattoso e a de João Medina) estão na longínqua Lisboa, fui reler o livro, a ver se me situo na efeméride. Mas nem tanto. Ainda assim entre algumas coisas retiro duas ideias, sendo a primeira a referência à lenda de Nossa Senhora de Fátima, a qual aqui transcrevo para alegria dos mais crentes, principalmente para os que já se afadigam na expectativa da próximas visita de Sua Santidade a Portugal, decerto que inscrita – de forma muito particular – nas comemorações do centenário da instauração da República. É uma longa citação mas vale a pena:
“Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.
Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.
Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (pp. 115-117)
E há uma segunda característica deste livro que fala comigo. Isto décadas depois de ter aprendido isso da “objectividade” e “subjectividade” no discurso das ciências sociais, suas fronteiras e namoros. É que o tom de Vasco Pulido Valente é – constantemente, e à excepção deste curto “… gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa horrorizava.” (p. 25) decerto inconsciente avatar de um certo “bom povo português” – de um enorme desprezo pelos agentes da história. Populares ou graúdos, políticos e anónimos, monárquicos ou republicanos de qualquer tendência, turba ou cáfila, é tudo gente “patética”, “miserável”, incompetente. São páginas e páginas de uma enorme superioridade do narrador, de uma enorme moralização (des-valorização) sobre o que (quem) fala. Ora aprendemos nós a desconfiar dos “engajados”, dos “exotizados” (então tontos antropólogos apaixonados pelos seus nativos – dantes – ou pelas suas minorias exploradas/discriminadas – hoje - é um festival constante) para cair na esparrela inversa? Ou seja, na mesma? Bah…! Vai o livro directamente para a fila de trás da estante – apesar da história da freguesia de Fátima.
por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)
Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.
Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.
A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.
Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.
Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.
Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.
Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.
Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.
Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto “Do Outro Lado do Tempo” [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de “cegos ou preconceituosos” [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.
No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: “Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...”. Posto isto deste lado “lado/blog” - onde habitam a “cegueira” e os “preconceitos” – ocorre-me opinar.
Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do “bom colono” até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do “português” (ainda que esta concepção resvale transversalmente – e surpreendentemente? – na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos). Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.
Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do ”explorador dos pretos”. Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, da muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a “sociedade colona” e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um “Outro” (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então (“supostamente indolor“, como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar “a viver no passado”). Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.
Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos “neste” ou “naquele” lado. Quase sempre encastrados na areia.
Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.
Mas para além dessa fractura “sistémica” entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse “luto colonial” como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua ”sobreportugalidade”, por parte das vozes mais saudosas da “gesta nacional”, considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.
E a da sua “importugalidade”, a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro ”expatriamento” dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da “sobreportugalidade” não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da “bestialização” apenas poderia provocar um tribalismo “pied-noir” ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário – salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.
Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.
Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é o da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento – e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.
O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado “conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.”, uma “violência latente ou explícita do quotidiano“. Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira “república dos relógios de cuco” de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer “nós”, bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica “desveladora” que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.
A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos “beleza tropical” / “violador de pretas”, é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona – e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto. Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo “mundo” colono (e, por arrastamento, pelo “mundo colonizado”) denota-se no próprio texto de Bebiano. “Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.”. Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra “O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60” (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da ”cultura-mundo” (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].
Entenda-se, também aí ela – a sociedade colona – está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em “Passagens Para África.”, Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno “post”) a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta “outrização” colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do “lado certo”. Para aquele “lado”, claro.
Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos “preconceitos” e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável “cego” com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da “cegueira”. [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.
Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. “Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada.” E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!
ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo “preconceituosos pelo que a consideração de “cegueira” não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.
jpt
[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]
ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:
“Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: “todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores”, algo surpreendente – e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].
Depois há a sua recorrente, e “lamentosa”, afirmação “eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo”. Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas – só pode – quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de “colonialista” para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indìgència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica – algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).
Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível – sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.
IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos – já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana – mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar “simpático” sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.
O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado – um pouco de “estação”, um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos – mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs – até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.
Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural.”
[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]
A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.
Introdução
De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.
No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.
Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.
O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.
Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.
Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.
No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.
Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.
Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.
Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.
Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.
Se por mais nenhuma outra forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.
Ficará a luta pela verdade.
O Caderno de Memórias Coloniais
É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.
Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.
O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.
O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora
A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.
À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.
Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.
Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Cânciorefere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.
Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.
Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.
Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”
Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.
Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:
“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”
Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:
“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”
Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:
“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”
Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:
“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”
E ainda:
“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”
E ainda:
“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”
Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:
“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”
Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.
A Crítica
Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.
Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.
Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.
Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.
Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.
Não.
Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.
É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.
Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.
O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.
A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.
Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.
A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.
Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos, vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.
Ai sim?
Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.
É três vezes bom.
Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?
A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida, forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….
Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:
Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.
Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.
Hum.
No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.
Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.
No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.
No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”
No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.
No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.
Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos de 29 a 33). Medíocre.
No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “
Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.
Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”
Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.
E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”
Tirem-me deste filme doentio.
E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.
São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.
Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.
Um dos pequenos suplícios do meu quotidiano é ter que ir às compras ao supermercado. Não pelo acto em si. Mas porque nestes dias, nem sei bem porquê, quem faz as compras é a Patroa. Eu apenas relego-me à função de segui-la pelos corredores e conduzir o carrinho das compras.
Ao contrário de mim, para quem a compra da comida para a casa é uma função em que misturo a máxima eficiência com uma pesquisa rápida de preços, sempre com o objectivo de me despachar dali para fora, para a Patroa as compras são um ritual digamos que mais analítico e reflexivo, mais intemporal, com outros parâmetros, como a qualidade, o que é que diz mesmo o rótulo, que novos produtos é que há, e vai por uma misteriosa lista mental do que ela quer – e não pela forma como os produtos estão dispostos na loja.
Por outras palavras, é uma valentíssima seca.
Quando eu era mufana em Lourenço Marques, não sei porquê, era o pai BM que fazia a maior parte das compras da casa. Como o filho-em-residência (os 3 irmãos estavam todos a estudar na África do Sul e as 3 irmãs, misteriosamente, não participavam no exercício) o pai BM às sextas-feiras fazia-me saltar da cama às 5 da manhã e eu fazia mais ou menos as mesmas funções de hoje, só que o pai BM era, por comparação, de uma velocidade fulminante a fazer as compras, e no Mercado Municipal na baixa (agora designado Mercado Central, por razões obscuras) claro, não havia carrinhos. O pai BM levava um daqueles cestos enormes de palha na mão e eu dois. No princípio das compras aquilo era fácil, mas lá para o fim, quando os cestos já estavam cheios de fruta, legumes, hortaliças, etc, seguir o pai BM naqueles passos rápidos no meio do que me parecia a maior confusão, exigia, para um puto com 8-11 anos de idade, folgo olímpico e a precisão de um kamikaze. Mas era rápido. E eu adorava o ritual, a algazarra e aquele fulgurante despertar da cidade.
Bem, de volta ao presente.
Como a loja que habitualmente frequento é o gigantesco supermercado Continente no Cascais Shopping, pois temos lá um cartãozinho que dá um desconto qualquer, isso significa que não é fora do habitual este processo das compras levar mais do que hora e meia.
O problema que eu tenho (deve ser trauma da infância) é que por aí à volta de 45 minutos depois de entrar, fico positivamente saturado de estar ali. Não sei se é a iluminação, a música, o ambiente, o ritual, há ali qualquer coisa na experiência que não resulta para mim.
Para me tentar distrair, o que tento sempre fazer é escapulir-me desta parte dos deveres conjugais e discretamente deslocar-me para a secção dos livros (tem lá uma, não muito má) a ver o que por ali anda. E habitualmente consigo enfiar um livro entre uns pacotes de esparguete e um saco de tomates, para ler em casa. A patroa, sublimemente generosa, aceita a paz resultante em troco desse subornozito.
Mas nem sempre corre bem. O raio do lugar é tão grande que depois tenho que recorrer à modernice ridícula de telefonar à Patroa no telefone celular, para saber onde é que ela anda. Por essa altura devia estar entre os desodorizantes e os detergentes da casa, mas não é certo, pois, como disse, ela não segue o plano da loja.
Pois este fim de semana aconteceu a mesma coisa e o meu troféu da expedição ao supermercado foi 1939, um livrinho fascinante e pequenino de um professor de História da Universidade de Exeter chamado Richard Overy, magnificamente traduzido por uma sra chamada Patrícia Oliveira (Dom Quixote, 2009).
De certa forma, o livro é um preciosismo, na medida em que Overy, que tem obra considerável no tema da I e II Guerras Mundiais, dedica-se aqui unicamente ao contexto e aos eventos que imediatamente precederam, há 70 anos, o despoletar da Segunda Guerra Mundial, com a agressão militar à Polónia por parte do exército alemão. Polónia, que tinha sido “esculpida” escassos vinte anos antes com partes da Alemanha e da Rússia, e que Hitler achava que era o quintalinho que os alemães tinham que ter, para além de Danzig, uma espécie de Jerusalém de Leste, que era uma dor de cabeça desde o momento em que o esquema foi inventado.
Os factores que mais me impressionaram do relato do prof Overy foram 1) a ilusão colectiva (aferida a posteriori, claro) em relação às reais intenções de Adolf Hitler quanto à Polónia, sendo ele a figura incontornável na altura; 2) o nível de bullying que Hitler utilizava na gestão da sua política externa, que atingiu níveis inacreditáveis – estamos a falar de primeiro-ministros, embaixadores e ministros dos negócios estrangeiros; 3) que por um fio a guerra, que já era tida como perfeitamente inevitável, não começou não na madrugada de 1 de Setembro de 1939 (uma sexta-feira) mas cinco dias antes, a 26 de Agosto. Por causa de um embróglio diplomático, Hitler cancelou a invasão na noite de 25 de Agosto.
Hitler e a sua equipa utilizaram um novo modo de fazer a guerra, a que chamavam blitzkrieg, que consistia em, por um curto período, aplicar a máxima pressão militar sobre o oponente, utilizando então novas tecnologias tais como tanques e bombardeamentos aéreos maciços – tecnicamente chamados de saturação.
No vídeo acima, que uma querida amiga me indicou, está um interessante tratamento por Lena Gieseke do quadro Guernica, de Picasso, alusivo a um bombardeamento alemão de uma vila basca (de onde vem o nome da obra) em Abril de 1937, que de certa forma, não tendo sido o primeiro bombardeamento aéreo, é considerado o primeiro bombardeamento de saturação de uma cidade na Europa e teve um enorme impacto na opinião pública de então, não só porque assinalou a dimensão da agressividade dos regimes fascistas na Europa dos anos 30, como deixou antever como poderia ser uma guerra futura.
Que foi, começando com Londres, Dresden e acabando em Hiroshima e Nagasaki.
Cito a mensagem que recebi: “Lena Gieseke, uma artista nova-iorquina, que domina as mais modernas técnicas de infografia digital, decidiu propor uma versão 3D da célebre obra e colocá-la na net sob a forma de um vídeo. O resultado permite-nos visualizar detalhes que de outro modo nos passariam despercebidos. Esta técnica inovadora revela-se um instrumento poderoso para compreender melhor a forma de trabalhar do pintor e até o modo como funcionava a sua imaginação.”
Excelente leitura. Vou tentar lembrar-me disto tudo da próxima vez que fôr ao supermercado fazer as compras.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).
Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.
Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.
JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.
Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.
Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.
E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.
Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.
E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.
Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).
A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.
Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.
Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.
Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.
Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.
Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.
Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.
Ok, então o filme.
Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.
Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.
Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.
No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.
O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.
O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).
No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.
Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.
Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).
O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.
Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.
Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:
“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”
Enfim.
Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.
Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.
(The Baptistas golfing in Estoril)
No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.
Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.
(Alfredo Korda posa para la posteridad)
Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.
(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).
Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.
Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.
(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)
Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.
Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.
Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.
E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.
Abaixo o ABM aconselha a sua actual leitura Portugal – Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, autor de quem há pouco li Ir pró Maneta, livro onde me diverti e ainda mais aprendi. O ABM refere com particular prazer a leitura do capítulo “A República Velha“. E lembra-me essa leitura, então como opúsculo editado pela Gradiva (1997) – não posso, claro, afiançar que o texto não tenha sido alterado. E nessa memória a ele me associo no apelo à sua leitura (originariamente um artigo publicado em 1992, na Análise Social). Haverá outras versões sobre a República? Com toda a certeza. Mas convirá lembrar que em ano de centenário seremos intoxicados pelas loas do regime – sempre adversárias do conhecimento, pois conhecer o antes aclara o conhecimento do hoje. A II República (ainda que um regime onde há “primeira dama”, com serviços, colaboradores e tarefas, não é uma República, é só uma piroseira) irá embelezar o passado, urge sobre ele ler.
Deixo uma citação. Que tanto diz sobre o agora-mesmo. Tanto mesmo que me permitirei a realçá-lo.
“O PRP tinha transformado a causa da guerra na causa da República. ( …) O problema dele [Afonso Costa] estava só na circunstância despicienda de que nem os Portugueses, em geral, nem os militares, em especial, queriam a guerra. Tratava-se, portanto, de os coagir, tarefa em que sempre brilhavam a experiência e o zelo dos democráticos. Poderá pensar-se que os perigos excediam o razoável. Mas não se deve ignorar que a violência era o modo de vida habitual do PRP e que o fim da operação consistia em conseguir a paz interna através da guerra externa. Como Chagas notava finamente em Paris, quem se atreveria a levantar a mão contra uma República vitoriosa?
O exército (…), resignado a uma pequena presença em África, não queria a intervenção na Flandres. A propaganda belicista tenou mais tarde atribuir esta atitude à mera cobardia da oficialidade. “Heróicos” deputados e jornalistas do PRP, para não falar em médicos e merceeiros, voluntariavam com adequado alarido para o que se denominava sentimentalmente a lama das trincheiras, onde, de resto, raros chegavam. Em contraste, os oficiais, cuja vocação consistia em morrer pela Pátria, se não pela República, recusavam-se a marchar ou marchavam contrariadamente para França. A alegação de cobardia não tem sentido. Em matéria militar, os bravos civis democráticos eram irresponsáveis e portavam-se como os irresponsáveis que eram. Os militares sabiam que o exército português não estava preparado, ou podia ser preparado em tempo útil, para uma campanha na Europa. (…)
Quando no fim de 1917 o desastre se aproximava, alguns dirigentes democráticos e companheiros de caminho, que não estavam ainda completamente cegos, queixaram-se de que o governo não “explicara” a guerra ao país. O que faltava, como de costume, era boa propaganda. (…) Isto presumia, é claro, que a guerra da Flandres podia ser explicada. Mas não podia, porque a sua verdadeira razão, a necessidade de consolidar a República Democrática, embora notória nos círculos informados, tinha de se esconder aos Portugueses e, sobretudo, aos combantentes.” (pp. 91-94)
A 2 de Junho deste ano, Leonor Beleza apresentou ao mundo no nº13 da Rua do Século um livrinho chamado Portugal – Ensaios de História e de Política, com “apenas” 333 páginas, escrito por Vasco Pulido Valente, que eu conhecia apenas de umas excelentes colunas que ele vai publicando aqui no burgo, e que teria como habitualmente passado completamente por baixo do meu radar, não fosse o alerta dado por um amigo, o que me motivou a deixar o conforto da bucólica Alcoentre e venturar-me na loja da Worten no Centro Comercial Colombo em Lisboa e largar 14 euros e meio.
Apesar de estar apenas no segundo ensaio, creio poder dizer em segurança que mais do que valeu o investimento.
Um dos problemas de não ter estado lá quando as coisas aconteceram e de não ser especialista em certos períodos da história de Portugal é que frequentemente, ao ler os livros que nos são supostos fazer entender melhor o que aconteceu e porquê é perder-se o fio à meada e, ainda mais, perdermo-nos na confusão de nomes, datas e lugares. De forma magistral, nestes ensaios o Sr. Pulido Valente dá uma grande ajuda não só a entender o que sucedeu, mas ainda a entender a confusão que foi e o enorme impacto do que aconteceu nos últimos dois séculos da história portuguesa – sem perder o fio à meada.
A parte que já li cobre o período que vai desde o embarque da família real portuguesa para o Brasil, até ao final do que Valente apelida de “A Velha República”.
No ensaio que se debruça sobre o que no fundo foi uma desgastante e sangrenta guerra civil até ao estabelecimento do que veio a ser conhecido como Rotativismo, já nos anos 50 do século XVIII, impressionou não só a violência mas também a solução, o que atestou o nível de desenvolvimento social e económico do país. Foi uma paz pôdre, feita em Lisboa para comprar alguma paz. E só isso.
Mas foi o ensaio relativo à I República que me chocou mais. Tendo nós crescido na república, esta foi invariavelmente celebrada e vendida como uma coisa boa, uma modernização, uma melhoria em relação à monarquia e aos seus privilégios antiquados, que foi derrubada depois do Regicídio e de umas movimentações militares em Lisboa.
Daqui a menos de um ano vão-se celebrar cem anos de regime republicano em Portugal e quero ver o que vai ser dito em celebração da sua excelência.
O relato de Vasco Pulido Valente diz que foi tudo menos isso.
O que considerei curioso. A primeira vez que vi uma bandeira da monarquia (que foi branca e azul durante grande parte do séc. XIX) foi em casa do meu avô paterno MIM na Ilha de São Miguel quando tinha 13 anos e estava de visita “de África”(como ele dizia). Pensava que era uma bandeira de um clube local mas ele logo me corrigiu. Lembrei-me que o meu avô nascera em 1895 e portanto se ele se lembrava dos tempos da monarquia, o que, claro, ele se lembrava. E perguntei-lhe o que é que a monarquia tinha de tão mau que teve que se matar a família real e fazer um golpe de estado. A resposta dele é que pelo menos na monarquia havia ordem e que depois com a república foi uma confusão que ninguém se entendia. E ficou por ali.
Havia muitos aspectos da I República que eu não entendia, especialmente toda a violência que permeou aquela era, o radicalismo praticado e em particular o seu anti-clericalismo quase rábido, que, fazendo a leitura do conteúdo algo asséptico e meramente factual de muitos livros publicados sobre a matéria, não dá para entender muito bem o que se passou.
O texto de Valente sobre essa era é assombroso. Quase assustador. E deprimente. Ele vai ao ponto de considerar (pelos vistos correctamente) esse período como um de terrorismo de Estado, uma ditadura pura e dura por parte de um punhado de republicanos radicais, contra a elite que em Lisboa regia o país, e contra todo o resto do país, onde vivia a esmagadora maioria do que hoje se chama “povo” – pavimentando o caminho para o que Salazar fez a seguir. Foi uma república imposta a fogo e ferro, em que o mero mudar da bandeira e do hino nacional (uma decisão por si só “revolucionária”) acabou por ser um detalhe.
Para quem quiser ver a pouca vergonha que aquilo tudo foi, leia-se este livro, a parte “A República Velha (1910-1917) pp. 47-118.
Acho que finalmente percebi o comentário do meu avô.
(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)
por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)
Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.
A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.
O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.
A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.
Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.
A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.
Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.
Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.
Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?
O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.
Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.
Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?
Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.
Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).
Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.
Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.
(imagem concepcional da Via Láctea e indicação de onde estou a escrever esta crónica para o Maschamba)
*- A visão muito geral das coisas (trad. ABM)
por ABM (Alcoentre, Portugal, Terra, Sistema Solar, Via Láctea, 22 Novembro de 2009)
Tenho uma confissão domingueira a fazer: a única coisa que não consigo entender mesmo mesmo é o infinito espacial e a duração do tempo em termos do Universo. A ideia de haver um Deus que criou tudo etc e tal descartei ainda criança (infelizmente não foi difícil) e fascinei-me em vez disso a observar durante toda uma vida a nossa animalidade mal disfarçada, a nossa desesperada tentativa de sobreviver com umas roupinhas e uns vislumbres de dignidade, escravos do sexo, da fome, da sede, do medo, do frio, da ignorância, da ganância e da nossa própria degradação a partir do momento em que passa a altura de nos reproduzirmos.
E a verdade, inescapável para mim, é que, por mais que se doure a pílula, nós estamos prisioneiros para todo o sempre neste planetazito que gira sobre si num ângulo esquisito e à volta do Sol e onde nos andamos a armar em “civilizados” há uns escassos 30 mil anos. Antes disso éramos macacos que andávamos de pé e antes disso andávamos de rabo para o ar e com as mãos no chão. Antes disso éramos macacos peludos e antes disso ainda andam a ver o que é que os nossos antepassados éram. Provavelmente coisa nojenta e feia de olhar.
Hoje, ainda somos macacos. Macacos que pôem desodorizante debaixo dos sovacos, que tomam muitos banhos, andamos numas coisas chamadas carros e aviões, de té-lé-lé na orelha, tiramos cursos, aprendemos umas coisas que se descobriram há uns cem anos e a maior parte das quais isoladamente nem sequer começamos a entender (ontem instalei um router novo para o meu computador e ia dando em maluco a tentar configurá-lo, por exemplo).
Mas nós, o nosso passado, o nosso futuro, a Terra, absolutamente nada são, para nada servem. Nada significam. Não podem. São totais irrelevâncias na vastidão do espaço e do Universo e da sua história. Isto é tudo ridículo. Patético, se o exmo. Leitor Maschambiano começar a ver a big picture. Como a que está reproduzida ali em cima, da galáxia em que fica a Terra e em que eu e o exmo Leitor e todos os nossos antepassados vivemos e morremos e todos os nossos descendentes para todo o sempre viverão e morrerão. E a que se estipulou chamar Via Láctea.
E mesmo aí tenho que pedir desculpa pelo exagero: como a Via Láctea, há centenas e centenas de milhões de outras como esta, algumas verdadeiramente, estupidamente maiores.
A Via Láctea, explicam os entendidos, tem cerca de 13 a 14 mil milhões de anos desde a sua formação, presume-se que de poeiras que surgiram ninguém sabe de onde. Tem entre 200 e 400 mil milhões de estrelas (como o nosso sol, não estamos a falar de planetas aqui). Gira sobre si própria e estima-se que leva 200 milhões de anos a dar uma volta completa. Aquela “coisinha” lá em cima em uma dimensão de 78.500 anos-luz, sendo que um ano-luz é a distância que a luz demora, em vácuo, a 200.000 kms por segundo, a percorrer em 365 dias, ou seja, 9.460.536.207.068 kms x 78-500 anos-luz.
Para além de andarmos à volta do centro da galáxia, que parece água a sair da banheira depois de um banho de imersão, não se sabe bem porquê, o sistema solar também ondula para cima e para baixo.
A galáxia a seguir mais perto de nós, fica a 2600 milhões de anos-luz de distância.
E depois há o resto, que não acaba. Ninguém sabe onde começa e onde acaba o Universo. Ninguém sabe quando começou o tempo e quando vai acabar.
E dizem-me que há um objectivo qualquer em estarmos aqui neste momento? um destino? ai sim? para além de escrever isto, qual?
[David J. Eveleigh, Bogs, Baths & Basins. The Story of Domestic Sanitation, Sutton Publishing, 2006 (2002)]
A entrada anterior, aqui oportunamente colocada pela AL, faz-me lembrar uma auto-promessa. Há muito que me prometera incluir no ma-schamba uma recensão a este magnífico livro, a história social das casas-de-banho. O livro é fantástico, de uma profundidade histórica admirável, de um alcance extremo às concepções ideais (“ideologias”) ligadas aos métodos sanitários. Muito bem escrito, associando acessibilidade a profundidade, e profusamente ilustrado. Um magnífico trabalho académico, com o encanto de se dedicar a uma temática praticamente tabu. E que em muito ultrapassa a aparente curiosidade do pitoresco, que tal temática poderia implicar.
Não tenho tempo para grandes elaborações, mas o texto anterior obriga-me a esta referência. Assim sendo deixo a ligação para a nota de contra-capa.
Celebra-se hoje o Dia do Armistício, marcando o início do fim da Primeira Guerra Mundial. Dir-se-ia que terá isto pouco a ver com África e quase nada com Portugal, onde acho que a data nem é assinalada. E no entanto, Portugal participou nesta guerra e lá deixou os seus mortos, merecedores de muito mais que monumentos semi-escondidos e hoje ignorados. Mais ainda, foi em África que se verificou grande parte do envolvimento de Portugal nas hostilidades da Primeira Guerra Mundial – em Angola e, principalmente, no norte de Moçambique, onde morreram milhares de soldados, porteiros e carregadores Africanos.
Lamento que este dia não seja assinalado em Portugal com a dignidade que merece. Que sejamos um país onde as datas se comemoram com desfiles e arraiais, sem que haja uma reflexão mais profunda. Que a nossa História pouco mais seja que um eterno louvor ao “somos marinheiros, somos Albuquerques”. No resto da Europa recorda-se o dia de hoje na primeira página dos jornais, na abertura dos noticiários, nos programas de fundo, nas escolas. Nas ruas este dia é celebrado com uma papoila que se põe na lapela, se usa no cabelo, se entala num livro, ou que simplesmente se carrega na mão. Gestos simples mas simbólicos de uma memória que não se quer perdida.
Robert Fisk escreveu um artigo brilhante que abre a primeira página de um dos jornais diários de maior tiragem em Inglaterra e que, à falta de equivalente luso, aqui vos deixo. Para que não esqueçamos…
Uma das coisas que se aprende ao trabalhar com pessoas nascidas na década de 1980 é a impossibilidade – normal, claro – que têm em compreender o júbilo que sentimos há vinte anos. O fim da Guerra Fria. A derrota, dizendo-o sem rodeios, do “Império do Mal”. E um mundo melhor. Com todos os seus defeitos incomensuravelmente melhor do que “O Mundo Melhor” que pregavam.
[Tzvetan Todorov, A Conquista da América. A Questão do Outro, Litoral Edições, 1990. Tradução de Maria Isabel Braga]
É um dos meus livros preferidos, uma maravilha. Não sei se estará esgotado nem se esta editora ainda existe. Mas quando se fala do nomear, das reconstruções históricas das toponímias, mapas identitários donde históricos, vem-me sempre à memória esta brilhantíssima obra. E vou relê-la, trechos avulsos.
“Colombo e, depois deles, Las Casas, como muitos outros dos seus contemporâneos, acreditam que os nomes (…) devem ser à imagem do seu ser. (…) Esta atenção especial ao seu próprio nome corresponde, naturalmente, à sua actividade de nominador, no decurso das suas viagens. Tal como Adão no meio do Éden, Colombo entusiasma-se com a escolha dos nomes do mundo virgem que tem diante dos olhos; e, como no seu próprio caso, esses nomes têm de obedecer a um objectivo. (…)
Colombo sabe, pois, perfeitamente que estas ilhas já têm nomes, de uma certa forma, nomes naturais (mas numa outra acepção do termo). Contudo, os termos dos outros pouco ou nada o interessam e ele quer nomear os lugares em função da posição que ocupam na sua descoberta, dar-lhes nomes justos; de resto a nomeação corresponde a uma tomada de posse. (…)
O primeiro gesto que Colombo executa ao contactar as terras recém-descobertas (ou seja o primeiro contacto entre a Europa e aquilo que viria a ser a América) é uma espécie de acto de nominação em grande escala: trata-se da declaração segundo a qual essas terras ficam a fazer parte do Reino de Espanha. (…) O facto de ser este o primeiro acto realizado por Colombo na América revela bem a importância que assumiam aos seus olhos as cerimónias de nominação. (…)
Quando Colombo presta atenção ao resto do vocabulário, mostra-se muito pouco interessado e revela ainda mais a sua concepção ingénua da linguagem, uma vez que confunde sempre os nomes com as coisas: toda a dimensão da intersubjectividade do valor recíproco das palavras (em oposição à sua capacidade denotativa), do carácter humano, e portanto arbitrário, dos sinais, passa-lhe despercebido. (…) como se os costumes espanhóis não fossem uma convenção entre tantas outras, mas sim o estado natural das coisas.” (39-42)
Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.
Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.
A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.
Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.
No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.
Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.
Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”
Em alegre cavaqueira noutro ponto deste excelente blogue há dois dias, um ilustre visitante Maschambiano (Umbhalane, ou, em JPTguês, 1B), a propósito de eu ter referido ver com naturalidade as independências, fez a seguinte interpelação – que agradeço.
Como corolário das conquistas, colonizações e formações de impérios, 1B referiu, beliscantemente, o porquê de não se ter promovido também a independência das (cito)”colónias da Madeira e dos Açores”. Sendo que numa tal de Escola Filipa de Vilhena, lá para os lados do Poârto, os respectivos educandos de geografia, obviamente alheios às particularidades do presente contorno nacional, quando desafiados para esboçar Portugal em folhas de papel, terão omitido as doze ilhas que compõem os arquipélagos supracitados.
Donde se poderia deduzir ser esse o verdadeiro estado mental do povo português em relação às mesmas: que não existem ou que não interessam.
Uma versão alternativa é que os meninos e meninas da F de Vilhena são burros que nem portas ou então- coitados- tiveram professores tão bons, tão bons, que atempadamente não lhes meteram isso na cabeça. Na presente Escola 4 de Fevereiro em Maputo, em tenra idade e a dez mil kms da “Metrópole”, tive que apreender os nomes das províncias de Portugal continental e os seus rios, o que absolutamente odiei – mas aprendi e não morri.
Presumo que, entre brincar com o Twitter às escondidas e gerir a juvenil acumulação de hormonas desestabilizadoras, controlada por doses certeiras de Xanax, os jovens terão também omitido a plataforma continental atlântica que Portugal clama ser sua e aquele um por centozinho do território continental português que foi gamado pela monarquia espanhola depois da Guerra das Laranjas em Abril de 1801 (durou duas semanas) quando começaram os problemas napoleónicos e que inclui Olivença e terras circundantes. Aliás, em relação à outrora mui leal Vila de Olivença, para além da omissão da linha da fronteira nesse local nos mapas de estradas publicados pelo Automóvel Club de Portugal e uns aficionados do assunto que alimentam um blogue, nem entendo bem se as instituições que respondem pela soberania portuguesa estes dias dão pelo assunto. Parece-me que não, pois agora com negociatas e TGVs, este não é assunto sexy.
Para que me entendesse melhor e a minha posição, descorri no essencial o que se segue, com alguns retoques e que agora partilho.
Ok, então aqui vai a versão curta re-editada de ABM de “Sobre os Impérios e as Independências”:
1. Verdadeiramente, Portugal na sua fascinante história de nove séculos colonizou apenas os Açores (de onde descendo directamente), a Madeira, Cabo Verde, partes do Brasil e partes de Angola. Isto principalmente porque a) Portugal nunca teve população suficiente para “colonizar”, nem alguma vez fora esse o plano, b) se se analisar os últimos cem anos antes de 1974, incluindo a vigência do longo mandato do Prof Dr Oliveira Salazar, a esmagadora maioria dos portugueses que havia emigrou do mato português para o Brasil, a França, Venezuela, África do Sul, Alemanha, Suíça, Canadá e Estados Unidos da América; e c) sendo uma colónia (ou, se se quiser ser simpático, um “estado-cliente” do Império Britânico) Portugal não tinha nem dinheiro, nem poder militar, nem diplomático, nem económico, para se meter em grandes aventuras. Já o que fez foi o que foi possível negociar-se entre as manhozices de Leopoldo I, a cumplicidade paternalista dos franceses, o relutante imperialismo de Bismarck e o patrocínio envenenado dos súbditos de Vitória, Rainha dos Britânicos e (por invenção e afectos desse expoente do imperialismo que foi Benjamin Disraeli) Imperatriz da Índia.
2. Sendo o projecto colonial um suposto desígnio nacional desde uns 20 anos antes da Formação da Sociedade de Geografia de Lisboa (em 1875) há aqui um paradoxo entre desígnio nacional e a exequibilidade do que era essencial para o concretizar; aliás, analisem-se todos os eventos desde a questão de Lourenço Marques em 1869, o Ultimato inglês em 10 de Janeiro de 1890 e subsequentes manobras diplomáticas e poder-se-á concluir que a esse desígnio, soberba e quase milagrosamente preservado pelos sucessivos governos, diplomatas e um absolutamente excepcional punhado de militares portugueses, quer na Monarquia, quer na I República, não correspondeu na prática a mais do que um esforço tépido de demarcação territorial, a umas “campanhas de pacificação” e algum, magro, investimento. No caso de Moçambique (que conheço melhor), de investimento britânico travestido e sempre em redor da greater South Africa de Cecil Rhodes, que tinha as repúblicas holandesas e o sul de Moçambique na mira – especialmente Lourenço Marques. No caso de Angola a negociação foi com os franceses, os belgas e os alemães. Houve um maior esforço e outra atitude, veja-se o que escreveu sobre o tema o grande Paiva Couceiro (que considerava, como muitos, e apesar de ser um dos notáveis da luta pela preservação de um Sul de Moçambique português, que este território devia ser sumariamente despachado em prol de uma colonização mais séria de Angola, pois Portugal não tinha capacidade de gerir ambas colónias).
3. O relógio das (des)colonizações começou a contar quando, no final da I Guerra Mundial, desfeitos os impérios multinacionais europeus, na Sala dos Espelhos em Versailles, se estabeleceu o princípio – doutrinário a partir de então nas Relações Internacionais – do “direito dos povos à sua auto-determinação”. Na altura um mimo algo quimérico de Woodrow Wilson que ficou no papel (e não só: os EUA recusaram entrar na “sua” Liga das Nações e Wilson logo de seguida teve uma tromboze e pouco depois morreu. A América fechou-se a dançar o Charleston e a beber chá). Mesmo assim, toda a gente pensava que este direito era só para brancos europeus, japoneses e etíopes …
4. …até que, no fim da II Guerra Mundial e assumido de uma vez por todas o papel internacional dos Estados Unidos da Amércia, reúnem-se os poderes vitoriosos na cidade californiana de São Francisco e não só é aprovada a Declaração dos Direitos Humanos (pela mão da viúva de Roosevelt, Eleanor) como criada a Organização das Nações Unidas (posterior e convenientemente instalada num terreno oferecido pela família Rockfeller em Manhattan) e, pela mão dos americanos, nomeadamente Ralph Johnson Bunche, é estabelecida e formalizada a doutrina subjacente á descolonização e são criados os mecanismos formais de como proceder….
5. …e à qual provavelmente ninguém ligaria pevide não fosse o facto de que a) o Reino Unido começou a preparar activamente as suas colónias para a independência (as principais já se governavam a si próprias há muito tempo, a Índia/Paquistão ascenderam a este estatuto no último dia de Agosto de 1947), b) o palco da Guerra Fria moveu-se para o chamado 3º Mundo durante os anos 50, c) a crescente onda de independências, que culminou no ano em que nasci, 1960 (e a famosa Resolução 1514 da ONU), e que determinara, uns anos antes – visível na conferência de Bandung em 1955 – o surgimento de um movimento internacional coordenado – um “bloco” – activamente a favor dessas independências (quase a qualquer custo), d) o surgimento de elites locais que articulavam todo este processo muito bem (às vezes bem demais) e de países que dos dois lados (norte-americanos e soviéticos, mais tarde chineses) lhes davam apoio diplomático, logístico, moral e militar.
6. No seu pressuposto da “sagrada herança dos egrégios avós”, de que “os pretos não estavam prontos” e que o projecto era “criar novos Brasis em África”, o que duraria mais uns cem ou duzentos anos, pressume-se, Oliveira Salazar e, por extensão, Portugal, lidou e marchou com marcado sucesso contra esta hecatombe, com cinco factores críticos que eu assinalaria: a) a tomada de posse em 1961, nos EUA, de John F Kennedy, que muito activamente conspirou contra os interesses de Portugal (veja-se um livrinho do Freire Antunes que se dedica só a isso); b) nessa tónica, a tomada do Estado da Índia por Jawaharlal Nehru no Natal de 1961, explicitamente apoiada por Kennedy via o seu amigo e embaixador em Delhi, o economista John Kenneth Galbraith; c) o gradual envolvimento dos EUA e da União Soviética no conflito, via estados clientes como a Argélia, a Coreia do Norte e os países da Cortina de Ferro; d) as dificuldades próprias do regime em Portugal, um país notoriamente subdesenvolvido, com recursos limitados, que era na prática uma ditadura uninominal com a mesma pessoa no poder há trinta anos consecutivos, e) aquilo que eu chamaria “a puta da idade”: quando em 28 de Abril de 1961 a batalha pelas colónias se desenhava, o principal arquitecto da sua defesa perfazia 72 anos de idade e não tinha nem sucessor, nem sucessor à sua medida (peço desculpa aos fãs de Marcello Caetano) …
7. …o que quer dizer que, a partir do fim dos anos 50 já tudo era uma questão de tempo, não de “se” as independências deviam ou podiam ser feitas. Charles de Gaulle assinalou isso contundentemente na Argélia, um trauma que sacudiu a uma França também pressionada na Ásia e a Bélgica saiu a sete pés do Congo. Os próprios boers sul africanos, cujo país saíra da Commonwealth em 1961 pela mão de um Hendrik Verwoerd que inventou o apartheid e a doutrina dos Bantustões, e onde a questão não era a independência mas o governo eleito por voto da maioria (negra), jogaram pacientemente pelo tempo e tiveram sorte, pois matando e semeando o caos em seu redor, conseguiram aguentar o seu regime até Ronald Reagan acabar com o imperialismo soviético e assim negociar uma evolução mantendo algum poder negocial e, mais importante, livres das interferências da Guerra Fria (e ainda com a sorte de terem num lado da mesa um Frederik de Klerk realista e no outro lado o grande Nelson Mandela – ambos galardoados com um Nobel em 1993)…
8. …mas como bem se sabe, nada disto aconteceu com os cinco territórios que Portugal detinha em África. Não fossem velhas cumplicidades e aquela basesinha aérea americana nas Lajes da açoriana Ilha Terceira, Portugal agia em considerável mas não debilitante isolamento. Salazar ficou incapacitado a partir de Setembro de 1968. Caetano não estava nem de perto nem de longe à medida do desafio (há um livro velhinho do Jaime Nogueira Pinto onde até dói ler sobre isso) e a sociedade portuguesa estava minada pela ditadura, pela corrupção, por uma espécie de decadência de valores, e por um crescente desalento em relação ao projecto colonial, para o qual, pelo menos publicamente, não se aceitava mais do que uma vaga, nominal, autonomia administrativa (note-se que até o Presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques era nomeado). Os movimentos a lutar pela independência em três teatros de guerra radicalizaram-se cada vez mais e estavam quase exclusivamente dependentes das armas e dinheiro do bloco Soviético (com uns importantes contributos escandinavos). E da sua execranda ideologia. Do que li, a tropa portuguesa estava a dar muito bem conta do recado até finais de 1973, com uma guerra barata, bem focada no terreno e uma média anual de mil mortos durante os dez anos que durou, o que é peanuts comparado com outros conflitos ou o que veio a seguir (menos para os visados, claro, a quem defendo dever ser prestada respeitosa homenagem – bem como os guerrilheiros. Morreram pelo seu país).
9. Para a maioria dos nativos desses territórios a independência política era obviamente e pelas opostas razões indiscutível, fosse quando fosse e fosse como fosse – como infelizmente se viu. O mesmo se pode dizer dos portugueses metropolitanos – como também se viu.
10. Era pois uma questão de tempo. E quando aconteceu, quase ninguém o esperava. Quase ninguém estava preparado. Ninguém excepto os capitães de Abril e aparentemente os 9.8 milhões de “antifascistas” portugueses que subitamente surgiram nas ruas na manhã do dia 25 de Abril de 1974. O assunto da descolonização foi desde o primeiro momento preterido, mal gerido e apropriado pela então esquerda radical (PCP et al) e a esquerda soft (PS e PPD) e as tomadas de posição internacionais (EUA em knock out pós demissão de Nixon, URSS e Cuba na fase “para África e em força”, os boers a tomar posição contra o comunismo nas suas fronteiras, etc).
Um nota final sobre os Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Se Portugal tivesse resvalado para o comunismo em 1975 e a Assembleia Constituinte não tivesse forjado o estatuto da Autonomia, provavelmente os Açores teriam ou ficado independentes ou então, como aconteceu em 1828 aquando da contenda entre Dom Miguel e o seu irmão Dom Pedro, sido a base para uma resistência anti-comunista e posterior reconquista. Por acaso sei umas coisinhas giras sobre o assunto.
É minha opinião pessoal que, como os Açores e a Madeira, Cabo Verde e São Tomé muito mais teriam beneficiado em terem mantido um estatuto, nem que somente formal, de territórios portugueses, especialmente à luz dos dias que correm, em que Portugal integra a União Europeia. Um Alberto João Jardim em São Tomé ou em Cabo Verde seria uma festa.
Mas aconteceu o que aconteceu e o mundo de hoje é o que é. Os Açorianos e Madeirenses são portugueses e os restantes (incluo os brasileiros e os timorenses) são cidadãos de países soberanos e independentes que com os portugueses partilham um percurso histórico, traços culturais e uma língua. Países e povos que deviam ter entre si uma relação especial – mas sem aquela irritante bullshit que se vê tanta vez.
Com um bocado de sorte – e mais tempo -estes povos se relacionarão e talvez um dia os seus netos e bisnetos se possam sentar à mesa para beber um copito e vislumbrar algumas coisas que temos em comum, como valores e aspirações, mas nem que seja para comer um bacalhau, beber um tintol, sofrer quando o Sporting, o Porto ou o Benfica perdem, ou ler um bom livro escrito por um deles sem precisar de tradução e grande interpretação.
O sangue derramado, as lágrimas vertidas, os enormes custos materiais, o passar do tempo e da oportunidades, a estonteante alegria de ver as independências, perder-se-ão também na poeira do tempo, com estas gerações que já estão a morrer, mas também, espero, perante a enorme tarefa de, todos e cada um, procurar construir um futuro melhor.
Pronto.
Agora só falta ver se Portugal ganha à Hungria sábado à noite.
[Cícero, As Catilinárias, Edições 70, 1989, tradução e notas de Sebastião Tavares de Pinho]
Terá sido abusivo, mas se o foi com tal mérito que ainda o lemos. Cícero assumiu-se como a própria pátria e invectivou Catilina: “Esses crimes de outrora, posto que não devessem ter sido suportados, eu os suportei como pude; mas agora, estar eu toda em sobressalto somente por causa de ti, ser Catilina objecto de medo ao mínimo ruído que surja, não se poder descobrir conjura alguma tramada contra mim em que não esteja implicada a tua intenção criminosa, não, isso é que não devo suportar. Por isso, vai-te daqui e afasta de mim este receio; se ele tem fundamento, para eu não andar oprimida; se é ilusório, para eu, enfim, deixar de uma vez esta vida de medo.” E teve toda a razão, assim denunciando que as representações construídas (mesmo se “ilusórias”) são reais. Obrigam, em particular os homens públicos. À retirada …
Fruto de conversas antigas é a constante visita a este blog de gente que vem – via motores de busca (a maioria dos visitantes é assim que cá chegam) – procurando algo sobre “relativismo cultural”. É para esses mesmo que deixo esta citação, que resume o assunto:
“Certains historiens agnostiques trouveront peu scientifique d’établir une échelle de mérite entre les religions. Mais, à mon sens, ce n’est pas là violer le principe de neutralité axiologique, pas plus que lorsqu’on reconnaît la supériorité de certaines créations artistiques ou littéraires; superiorité à laquelle les contemporains n’étaient pas restés plus aveugles que nous. Pourquoi l’imagination créatrice des religions n’aurait-elle pas ses chefs-d’oeuvre, elle aussi?”
[Paul Veyne, Quanto Notre Monde Est Devenu Chrétien (312-394), Albin Michel, 2007, p. 36]
Terá, com toda a certeza, uma justificação técnica. Mas tal não impediu o meu sorriso de ontem, quando ao pedir a taxa de câmbio do euro numa agência do Milleninum BIM (grupo BCP) fui beneficiado com esta peça de Arqueologia Financeira, ecoando o Millenium passado….
(já agora, onde está o euro?, “a quanto está o euro?” – bem me calei com o sacrossanto “isto é o que o computador imprime“. Será pela soma dos avoengos do euro que lá se chega?)
Através de Joana Lopes chego a uma crítica, sob forma de petição, ao programa televisivo Sete Maravilhas de Origem Portuguesa. Este é uma iniciativa da RTP que conta com o alto patrocínio da presidência da República, com o apoio de departamentos governamentais e com a “caução” científica da universidade pública (a vetusta coimbrã).
O documento, encabeçado por um conjunto internacional de académicos, critica o facto do referido programa se dedicar à tele-eleição dos grandes monumentos históricos portugueses. Que para esse efeito são enquadrados por uma informação de cariz histórico de onde se apaga o facto de parte deles terem sido construídos ou integrados no circuito de tráfico escravocrata.
Claro que se poderá reduzir a iniciativa a um programa de entretenimento, quase certamente encabeçado pelos inevitáveis José Carlos Malato e Catarina Furtado (malgré elle …). Mas a RTP é estatal, tem funções de serviço público, e o programa embrulha-se em “apoios” que o procuram validar cientificamente. E tudo se encaminha para a apresentação no 10 de Junho, o feriado nacional identitário. Torna-se assim inaceitável a reescrita da história, um “higienismo” patrioteiro sempre lamentável e criticável.
Depois há o próprio texto crítico. Que é uma pobre peça ideológica - nele me repugnam, particularmente, a antropomorfização, a “responsabilização moral”, a “falsa consciência” das boas causas. Mas também a absolutização (sacralização a-crítica) do neo-racialismo brasileiro. E, claro, diverte-me encontrar nos assinantes iniciais (caminhos das ligações e-mail, com toda a certeza) vizinhos completamente alheios a quaisquer preocupações historiográficas.
Enfim, pouco haverá a dizer sobre a peça intelectual produzida – estará à altura de José Carlos Malato, provável apresentador. E do irritante “queridismo” da bela Catarina Furtado. Nada mais. Deixo o comentário que a este propósito fiz no Entre as Brumas da Memória, pois paciência para mais elaborações é coisa que aquilo não merece:
“Parte do sumo do texto (para além do catastrófico português, e não falo de grafias) tem alguma legitimidade: o intento de cristalizar a história portuguesa como uma gesta monumental é irritante e a-historiográfico. A outra face é pateta – o que se pede ali, que o governo português defina os termos dos concursos televisivos? [Será que "o próprio Presidente do Brasil" (para citar o surpreendente brasilocentrismo da petição) andou a reboque da TV (Globo ou outra) aquando da inflexão político-teórica de 2001?] Ou seja, passamos a vida a protestar com a interferência governamental nos orgãos de comunicação e depois queremos a regulação do conteúdo dos concursos. Que patetice!
Ainda assim assinável, em resmungo com o patrioteirismo explícito.”