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Ryszard Kapuscinski em Angola

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Ryszard Kapuscinski, Another Day of Life (Penguin, 2001 [edição polaca de 1976]) é o relato da estadia do autor em Angola entre Setembro e Novembro de 1975, o fim da colónia, o começo do país. Acompanhando o êxodo português e o (re)começo da guerra. Uma grande reportagem em livro precioso.

Empenhado, o tom e as previsões do seu tempo, a parte datada do texto: a FNLA é apresentada como constituída por canibais, dela se ouve a voz de um soldado (aprisionado) lamentando-se enganado por promessas de futura bolsa de estudos e sabedor do errado em alinhar com tal movimento. O MPLA é a “república”, os movimentos outros são invasores. Os portugueses são narrados em tons crus ainda, no fim, louvados por terem ajudado o MPLA - a abertura in extremis do aeroporto para as tropas cubanas. E a estadia que termina com uma visita, cortesia de admirador, a Agostinho Neto, o poeta, ali citado, e tratado com as pinças - apenas saudado, não questionado - “para não o magoar”, um triste episódio, até cândido na sua explicitação, onde Kapuscinski intervala o seu jornalismo. [Não deixa de ser engraçado ver a narrativa da sua viagem com a militantissima equipa da RTP, de Luís Alberto Ferreira. E queixamo-nos nós hoje em dia da falta de objectividade …].

Tudo isto será coisa do seu tempo, historicamente compreensível. Não tanto o seu posfácio, de 2000, com uma pequena cronologia comentado do percurso angolano: “Has anything changed? Unfornately, not much. Yes, the Cubans have departed. As have the South Africans. But the Angolans are still there - it is their country: a country divided, torn apart, ruined by civil war, whose central government has been consumed for three decades by the rebellion of Jonas Savimbi” (147). De longe, em décadas, Kapuscinski não mudou o seu olhar. Mudou o mundo, tanto se desvendou. Mas nada disso aqui se ecoa.

Sabe-se que o autor é louvado pelo seu conhecimento de África e pelo seu particular olhar. The Shadow of the Sun ganhou-lhe esse reconhecimento. Muito pela verve, respeitável, mas também pela abordagem, o (muito antropologizável, já agora) modelo “europeu entre africanos”, recusando os nichos dos “brancos em África”, nesse seu conforto apartados do real e do seu entendimento. Também por isso seria suposto o leitor surpreender-se com “The Bantu language has no future tense; the concept of the future doesn’t exist for the Bantu people, they are not tormented by the thought of what will hapen in a month, in a year” (103) - e eu regresso ao pobre jovem FNLA aprisionado, aterrorizado numa guerra na qual se alistou em troca de uma possibilidade de estudar. No futuro. Não seria bantu? 

É esta metade da sensação provocada por este Another Day of Life. A constatação de que a empiria nem sempre aclaram, a desilusão do preconceito presente, por melhor que seja o estilo. Sobrevalorizado Kapuscinkski? Sempre me pareceu, um pouco a auréola do andarilho - o “on the road in Africa” diverso do “once I had a farm in Africa“.  A cada leitor o seu sonho, o seu éxotico … Mas acima de tudo sobrevalorizável na comparação com o habitualmente pueril discurso europeu sobre os contextos africanos.

Mas há outra metade da sensação provocada pelo livro. A capacidade de observação (observar não é entender, nem sempre) do autor, e a bela prosa. Um aeroporto em pânico “acolhendo” a população colona em desespero, a barbuda e licenciosa tropa portuguesa auto-demitida e, de antologia, uma Luanda metida em contentores, páginas antológicas sobre a descolonização portuguesa:

Everybody was busy building crates. Mountains of boards and plywood were brought in. The price of hammers and nails soared. Crates were the main topic of conversation - how to build them, what was the best thing to reinforce them with. Self-proclaimed experts, crate specialists, homegrown architects of cratery, masters of crate styles, crate schools, and crate fashions appeared. Inside the Luanda of concrete and bricks a new wooden city began to rise. The streets I walked through resembled a great building site. I stumbled over discarded planks; nails sticking out of beams ripped my shirt. Some crates were as big as vacation cottages, because a hierarchy of crate status had suddenly come into being. The richer the people, the bigger the crates they erected. Crates belonging to millionaires were impressive; beamed and lined with sailcloth, they had solid, elegant walls made of the most expensive grades of tropical wood, with the rings and knots cut and polished like antiques (…)

The crates of the poor are inferior on several counts. They are smaller, often downright diminutive, and unsightly. They can’t compete in quality; their workmanship leaves a great deal to be desired. While the wealthy can employ master cabinetmakers, the poor have to knock their crates together with their own hands. For materials they used odds and ends from the lumber yard, mill ends, warped beams, cracked plywood, all the leftovers you can pick up thirdhand. Many are made of hammered tin, taken from olive-oil cans, old signs, and rusty billboards; they look like the tumbledown slums of the African quarters. (…)

Thanks to the abundance of wood that has collected here in Luanda, this dusty desert city nearly devoid of trees now smells like a flourishing forest. It’s as if the forest had suddenly taken root in the streets, the squares, and the plazas” (13-16)

E depois a guerra, uma frente sul incognoscível, indetectável de tão mutável e porosa, a qual narra até à fronteira. O ambiente de espera aquando da batalha de Luanda, angustiante (talvez premonitório de outros desesperos): “Oscar, who had been at the limits of his strenght, now drunk, called out in despair, “If this is what independence is like, I’ll blow my brains out!” (122). Mais do que tudo nessas andanças narrando locais e captando uma galeria de homens, estupenda, vibrante, combatentes ou sofredores, até heróicos no seu desprendimento quotidiano, quase como se tudo aquilo fosse, afinal, normal. Aí a grandeza do livro, da escrita do autor, como nos apaixona em meia dúzia de linhas por essa gente que cruza.

Termina a narração com a retirada sul-africana, uma cena épica, visitável, imaginável: “Pieter Botha … passes his army in review as it returns from war across the border bridge over the Cunene River. Although the soldiers cross the bridge in silence, there is a lot of shouting and screaming in the vicinity, since at the same time the FNLA and UNITA units that until that moment had accompanied the white South Africans soldiers are throwing themselves into the river en masse and splashing across towards Namibia. Many drown in crossing. But the war has ended, the democracy of the front has ended; and the law of segregation applies again: Passage across the bridge is for whites only” (147). Um mundo em estertor, esse que ainda teria duas décadas.

Kapucinski é zarolho? É! Mas um belíssimo zarolho …

Bronislaw Geremek e a pobreza

Aqui tomo conhecimento da morte de Bronislaw Geremek.

E logo me recordo das palavras introdutórias ao seu esplêndido “A Piedade e a Forca“, que sempre me acompanham, vivendo como vivo num país subjugado ao calão do Banco Mundial, feito mito omnipresente (e dito omnisciente) da Luta Contra a Pobreza Absoluta, o constante PARPA. Não diz só isto, na sua história da utilização do termo “pobreza”. Mas assim é inultrapassável:

Na Europa do século XIX ainda encontramos em certa literatura polemística e no pensamento social uma visão da pobreza como uma “doença vergonhosa” da sociedade moderna que urge debelar por meios novos. Concomitantemente, porém, assiste-se a uma gradual reformulação da abordagem conceptual das análises sociais e do estilo do discurso ideológico. A crise dos programas filantrópicos, o despertar da consciência social das masas e as mutações nas estruturas da vida política fazem com que seja praticamente eliminado da linguagem económica e social o termo “pobreza” (e “miséria”): porque carrega um sentido subjacente de piedade, apresenta-se como um juízo de valor que confere uma atitude de superioridade ao que o emprega. Essa carga semântica emotiva torna-o demasiado ambíguo para servir de instrumento de reflexão e, portanto, pouco operacional nas investigações da ciências sociais. Todavia, quando se estuda o fenómeno nos seus aspectos históricos (…) assiste-se igualmente ao acentuar da tendência para enquadrar a questão da miséria no âmbito (…) da análise das causas das desigualdades sociais e da repartição do rendimento nacional vem substituir a tradicional problemática da pobreza.”

[Bronislaw Gemerek, A Piedade e a Forca. História da Miséria e da Caridade na Europa, Lisboa, Terramar, 1995 [1986], tradução de Maria da Assunção Santos]

Geneologias

Informam-me deste sítio para realizar geneologias. Completo e eficaz, e a permitir conjugar informação histórica, visual e actual - não conheço outros, mas presumo a sua existência. Neste caso ainda juntando vários “egos” da família a incrementarem as ramificações da “árvore”. Tem sido uma boa actividade, o juntar os antigos e os que estão a chegar.

Ortografia

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Sou fraco leitor de revistas. Quando as trago deixo-as acumuladas por aí, tantas delas têm época, prazo de validade - coisa que os livros também têm (nem que seja o dos nossos interesses) mas vai-se fingindo que não. Uma para este fim-de-semana, excelente: Historia. Um número velho (nº 703, Julho de 2005), abandonado na sub-estante, com um belo caderno especial - em trinta leves páginas se aborda a História da Língua Francesa (isto para além de outros artigos de interesse: pesquisa arqueológica sobre os trácios, na Bulgária; legislação familiar na Roma imperial; navegações comerciais francesas de XVIII, etc.). Enfim, coisas que cá não chegam …

No final do espaço dedicado à História da Língua Francesa uma entrevista com Bernard Pivot. Uma frase, em título: “L´ortographe est une politesse”.

Entendo-o como “é a civilização”.

A ponte

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Há algum tempo, e depois de uma incessante busca, aqui deixei registo de uma verdadeira ponte lusófona, até surpreso por a ter conseguido encontrar, tão procuradas elas o são (foram?). E ainda para mais na até longínqua Mocuba.

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Agora, por mero acaso, encontro a fonte de tão inusitado encontro. E isso ao ler “Cardeal Cerejeira. Fotobiografia“, de José da Cruz Policarpo (Lisboa, Editorial Notícias, 2002), interessante introdução ao fotobiografado e à sua (longa) época, a fazer justiça ao desafio do autor: “Evocar a sua figura através de fotografias da época, aguçará o apetite para um estudo histórico de maior fôlego” (13).

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[Cerimónia de Abertura da Exposição do Mundo Português (2 de Julho de 1940).]

Uma época rica, uma iconografia ideológica hoje deliciosa de observar e de analisar. E de, até malevolamente, deixar reconhecer descendências.

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Aprendo ainda que “Depois da Madeira, São Tomé e Angola, onde visitou várias cidades, Cerejeira chega a Moçambique (na foto … desembarcando do Serpa Pinto) onde preside à cerimónia da sagração da Catedral de Lourenço Marques (14 e 15 de Agosto) e em Mocuba, sobre o rio Licungo, inaugura uma ponte com o seu nome.” (109).

Ora aí está, a tal ponte lusófona, ex-Cerejeira. Não há coincidências. Nem no já longínquo então. Nem no próximo então. O mesmo pacote intelectual: medieval; neo-medieval.

Roma

Roma foi a primeira série televisiva que comprei. Valeu a pena, e recomendo o seu consumo. Apenas o lamento pela conjugação de vários realizadores e argumentistas, a fazerem flutuar a intensidade e o interesse. E a consistência do olhar próprio da série.

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Exemplo disso é a soberba abertura, um combate na Gália no primeiro episódio - realizado por Michael Apted (mas remontado à sua revelia) e escrito por Bruno Heller - que é dos melhores pedaços de acção em televisão que já vi. E que, pese a excelência visual de muito do que se lhe seguiu não mais foi alcançado - a segunda série tem até passos algo penosos.

A beleza da série não é alheia à competência dos protagonistas - e a volúpia desta

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matrona ficar-me-á na memória (o que em nada desmerece a actriz encarregada). Olhar com outros enfoques afirma-me a existência de outras excelências e de tal não duvido tamanho o ênfase da informação.

Um ponto de agrado é a atenção inicial pelas formas de religiosidade popular e a tentativa de recriação do quotidiano plebeu - e de modo nada documental nem folclórico. Um ponto muito negativo, injustificado, e que me irritou em crescendo de episódio em episódio: a deriva telenovelesca de misturar ricos e pobres em interacção significativa (com o pobre final como corolário). Disso patético exemplo é a encenação da morte de Cícero, antecedida com um supra-anacrónico pic-nic das famílias dos seus assassinos, como se estivessemos na Inglaterra vitoriana ou num livro de Enyd Blyton. Enfim, parvoíces a que nem se liga quando se apanham em zappings cansados mas que numa série como esta só se podem lamentar.

Coisa tão má como o toque de psicologia de drogaria, com o adulto Augusto construído na segunda série como se saído de um sofá psicanalítico - o seu projecto moral parece tanto um projecto político (depreende-se dos livros) que não tem qualquer lucidez pô-lo de chicote clandestino batendo na mulher como se perversão pequeno-burguesa explicando-lhe os passos espartilhados no valor dos “vícios privados, públicas virtudes”.

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Enfim, irritações que me deram para releitura do velho “O Divino Augusto” (Livros Horizonte, 1975, tradução de Agostinho da Silva), de Suetónio- os “Doze Césares” são longínqua propriedade paterna, ficam para o Verão do Norte.

Um diferente Augusto aí, o da religião pública, do exército público, dos jogos públicos (o tal pão e circo), da moral pública (ordenando a plutocracia, já agora), o do urbanismo sublinhando a cidadania, das reformas jurídicas, políticas, o “Pai da Pátria” - se era o Augusto Augusto ou o Augusto de Suetónio (esse “imperador” quase republicano que “Por duas vezes pensou em restabelecer a República (…) Parecendo-lhe (…) que seria temerário entregar a República ao arbítrio de muitos, perseverou em a dirigir, sem que se saiba se foi melhor o resultado ou o intento” [37]) não sei, mas bem mais atraente como personagem a recriar do que o perturbado proto-calígula que foram capazes de construir. Sinal dos tempos do hoje, onde uma análise política é por demais cansativa face ao hábito de reduzir tudo à influência das pilinhas e dos pipis. Maldita falofilia …

E, até porque é Páscoa, deixo citação curiosa de algo que esquecera (estava lá o sublinhado, velho de décadas): “Segundo Júlio Marato, poucos meses antes de nascer, houve um prodígio em Roma, num lugar público, pelo qual se anunciava que a Natureza ia dar um rei ao povo romano; o Senado, com medo, ordenou que se não criasse nenhum menino nascido naquele ano.” (82) Recorrências da época, pelos vistos.

O último soldado da I G.M.

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Naturalmente a televisão francesa atribuíu um grande destaque à morte de Lazare Ponticelli, o último combatente da I Guerra Mundial [a Grande Guerra, como se dizia em Portugal]. Para além do espanto da resistência - um veterano das trincheiras a chegar aos 110 anos (e a CFI passou emitiu ainda trechos de entrevistas realizadas nos últimos cinco anos com vários veteranos) - este recordar da Guerra de 14 lembrou-me o livro Kináni (Quem Vive?), de Cardoso Mirão, um espantoso relato da I Guerra em Moçambique, merecedor de leitura (já agora, Cardoso Mirão que aqui combateu essa guerra é tio-avô do Miguel Silva).

A homenagem nacional que agora em França foi realizada ao supra-veterano Ponticelli, e através dele a todos os combatentes da I Guerra Mundial - das mais irracionais existentes -, fez-me ainda lembrar uma velha entrada aqui, de Fevereiro de 2005, dedicada a um facto social total: O cemitério militar de Pemba.

Mas, honestamente, a minha reacção à notícia do final do contingente de 1914-18 foi ir ler o Tardi. Nada melhor para evocar a carnificina.

 

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Auschwitz through the lens of the SS: Photos of Nazi leadership at the camp, uma colocação do United States Holocaust Memorial Museum, à qual chego via Mário de Sá Peliteiro (do qual roubei a fotografia transcrita). Impressionante registo da normalidade da vida do Mal.

Do seu posto de observação privilegiado (Salzburgo fica perto da fronteira entre a Áustria e a Alemanha), Zweig observara, atónito, as rápidas transformações sociais provocadas pela crise económica e financeira do pós-guerra: “Que época selvagem, anárquica, inverosímil, a daqueles anos em que, com a desvalorização do dinheiro, todos os outros valores na Áustria e na Alemanha começaram a resvalar! Um período de êxtase entusiástico e de vertigem descontrolada, uma mistura única de impaciência e fanatismo“. […] E especifica: “Tudo o que era extravagante e incontrolável conheceu uma época de ouro: teosofia, ocultismo, espiritismo, sonambulismo, antroposofia, quiromancia, grafologia, ioga indiano e misticismo paracelsiano. Tudo o que prometesse estados de extrema intensidade para além do que então se conhecia, todo o tipo de estupefacientes, mórfio, cocaína e heroína, tudo se vendia num instante; mas peças de teatro sobre o incesto e o parricídio, na política, ou o comunismo ou o fascismo, constituíam os únicos temas apetecidos, pelo seu extremismo; incondicionalmente banida estava, em contrapartida, qualquer forma de normalidade, de moderação“. [Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, p. 331].

[António Mega Ferreira, O Deserto Ocidental, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 118-9]

Diz-me você na sua carta que muito boa gente, no nosso século, sem chegar à ideia de conjura dos Judeus, que depende demasiado da vontade para poder dispensar as provas, nem por isso deixou de analisar capitalismo e bolchevismo como duas faces da mesma medalha, a duma modernidade obcecada pelo individualismo produtivista, por oposição à comunidade cristã ou volkisch. … penso mesmo que se trata duma das construções sábias da filosofia por onde se pode ser levado à ideologia anti-semita, como o Judeu a construir a figura de síntese do capitalismo e do bolchevismo. No seu país, Carl Schmitt dar-me-ia disso uma boa ilustração. Mas não concluo daí que a isso se resuma a obra dele!” (Furet, 85)

(Francois Furet & Ernst Nolte, Fascismo e Comunismo, Gradiva)

“Assim que viu o Helesponto inteiro coalhado de navios, todas as suas margens e as planuras de Ábidos cobertas pelos seus homens, Xerxes felicitou-se a si próprio, mas em seguida, chorou.

Logo que se apercebeu disso, Artábano, aquele que anteriormente aventara livremente a opinião de que não era aconselhável marchar contra a Grécia, esse homem, ao notar as lágrimas de Xerxes, disse-lhe: “Ó Rei, como é diversa a tua atitude de agora e de há pouco! Há momentos felicitavas-te, agora choras!” “É que me veio ao pensamento - disse ele - lamentar a brevidade de toda a vida humana, uma vez que, de tantos homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um só sobreviverá.” Artábano respondeu: “Ainda sofremos outra calamidade mais deplorável ao longo da vida. É que, sendo ela tão curta, não há homem algum tão feliz, nem dos que aqui estão, nem de outros, a quem não suceda, muitas vezes, e não uma só, preferir morrer a viver. As desgraças que se abatem sobre nós e as doenças que nos afligem fazem com que a vida pareça longa, a despeito da sua curta duração. E assim a morte se tornou para o homem o refúgio de eleição contra tão penosa vida. E o deus, depois de nos dar a provar um pouco a doçura da vida, nisso mesmo mostra a sua inveja.”

[Heródoto de Halicarnasso, Histórias, Livro VII (tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)]

Um diálogo inútil.

Jacqueries (2)

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[Imagem recolhida aqui.]

Cândido de Oliveira

Sobre Cândido de Oliveira, essa personagem multifacetada e hoje muito mais conhecido pelo cabeçalho de “A Bola”, jornal do qual foi fundador, no O Mundo das Sombras (um dos blogs de José António Barreiros) um interessantissimo (e para mim surpreendente) texto sobre a sua faceta de espião ao serviço da Grã-Bretanha.

Dia da memória da escravatura e da sua abolição, a seguir as ligações colocadas pelo Boticário de Província.