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PÉLISSIER, POR PÉLISSIER

Terça-feira, Agosto 3rd, 2010

Este é o Roberto Ivens, na sua vestimenta de explorador africano

por ABM (2 de Agosto de 2010)

Já muito li da mão de René Pélissier e sobre ele os comentários mais díspares, desde “insuportável” a “arrogante”. Muitos dos textos que foi escrevendo ao longo da vida sobre o que alguns portugueses andaram a fazer nas suas colónias é leitura obrigatória para quem quiser saber como foi.  O que dizer do homem? pessoalmente, três coisas: a) se ele ainda não recebeu, uma dessas condecorações que os presidentes portugueses dão por aí, pois ele se calhar merece, b) alguém que lhe faça uma oferta simpática e credível pela aquisição e tratamento da sua certamente magnífica colecção de 12 mil livros sobre os seus temas de eleição. O Sr. Pélissier não está a ficar novo e na minha modesta opinião, estaria melhor – deveria estar melhor – em Portugal do que na França; e c) na entrevista abaixo, René passa por ser uma pessoa com um percurso muito mais peculiar do que eu pensava, e com uma postura muito mais equilibrada que aquilo que eu me lembro de ler nas suas obras.

E muito mais lúcido, equilibrado e simpático que o que me foi pintado.

Para os moçambicanófilos, vejam como Pélissier, num aparte, rotula Gungunhana como um “imperialista africano”. E, creio, Mousinho como um cowboy sortudo.

E a sua afirmação de nunca ter metido os pés numa ex-colónia portuguesa desde 1974.

A entrevista abaixo foi feita em Lisboa (onde foi para uma palestra no ISCTE) pelo genial João Pedro Castanheira e foi publicada este fim de semana no semanário lisboeta Expresso. Em baixo, com vénia, reproduzo a parte que foi divulgada na internet.

O prof. Pélissier

A ENTREVISTA AO EXPRESSO

O seu último livro ‘a solo’ chama-se ‘Timor em Guerra. A Conquista Portuguesa?

Os portugueses têm uma história romanceada da colonização portuguesa em Timor. Teriam sido, no essencial, a igreja e os missionários os únicos a contribuir para a implantação da colonização portuguesa.

O que não é verdade!

Pois não. Foi uma conquista brutal, efetuada pela maior parte dos governadores e sobretudo pelo célebre José Celestino da Silva, que foi um homem excecional na história colonial portuguesa.

Foi uma exceção em todo o império?

Creio que sim. Não tenho a nomenclatura de todos os governadores de todas as colónias, mas foi o homem que esteve no poder em Díli durante mais tempo (14 anos). Tinha a proteção do rei D. Carlos (até ao seu assassínio), mas quando foi da sucessão foi afastado do poder por D. Manuel. Tinha demasiados inimigos. Era um homem ativo, que tinha como principal objetivo na vida entrar na História como o primeiro governador de Timor a ser dono de todo o território. Conseguiu-o por meios extraordinariamente brutais.

Sanguinários?

Sim. Tinha poucos soldados moçambicanos mas reuniu em 24 campanhas 60 mil timorenses e mandou cortar muitas…

… cabeças?

Exato. Não foi mais sanguinário que outros governadores, mas para conseguir a adesão dos “arraiais” – as tropas supletivas timorenses -, tinha de lhes dar qualquer coisa. Como não tinha dinheiro, havia que dar uma compensação material – o direito de se apoderar dos cavalos, porcos, vacas, etc. -, mas também mística, digamos. Isto é: cabeças cortadas, que para os guerrilheiros constituíam uma espécie de defesa sobrenatural da sua própria aldeia. Cortavam as cabeças e encastravam-nas nas tranqueiras – uma defesa mágica contra os maus espíritos e contra os inimigos que, por sua vez, também queriam cortar as cabeças dos habitantes da aldeia. Era uma espécie de salvaguarda. José Celestino da Silva era um que também ambicionava enriquecer.

Conseguiu-o?

Sim. Quando havia uma vitória num reino com muito terreno para o café, ele requisitava os ditos terrenos para lançar uma ou várias companhias agrícolas, de que era sócio. Com os vencidos não decapitados, utilizava o trabalho forçado. Transformava-os praticamente em escravos, que cultivavam café para si, a troco de uma pequena ‘gorjeta’.

Onde descobriu essas histórias?

Não foi uma verdadeira descoberta. Os raros especialistas de Timor já a conheciam. Encontrei isso nos testemunhos publicados pelos próprios governadores. Em 1896, o primeiro relatório sobre uma campanha em Timor, conta como mataram cerca de 700 pessoas em 1895 – cortando as cabeças. É um livro trágico, que não esconde a verdade, publicado para contrabalançar o prestígio mediático de Mouzinho de Albuquerque, que era o grande herói de Moçambique. Julgo que aceitaram publicar os relatórios dos oficiais de José Celestino da Silva, que era o novo e longínquo herói de Timor, para mostrar que nos confins do Império também havia um homem que tinha a situação militar bem controlada. A conquista continuou ainda em 1900, contra o maior regulado que era o Manufai, onde estava a alma ou o coração da resistência à colonização. Foi uma conquista muito dura, primeiro contra o liurai D. Duarte, e depois contra o seu filho D. Boaventura, que se tornou o pior inimigo dos portugueses durante a I República. Foi uma guerra atroz. Oficialmente houve 3424 mortos. Não é verdade – calculo que tenham sido 15 a 25 mil timorenses mortos, seja em combate, seja à sede, seja sobretudo pela cólera. A conquista acabou em 1913 pelo esmagamento de todas as chefias. A colonização de Timor não tem nada a ver com a mitologia do Estado Novo, nem com a de agora. É preciso olhar a história colonial com os olhos bem abertos.

Porque escolheu Portugal?Timor foi a última colónia que estudou?

Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil…

Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.

O que está longe de ser verdade.

Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.

Creio que começou por Angola.
Em 1965. Angola era difícil para mim.

Veio a Lisboa?

Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia… Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Teve que aprender português?

Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.

Literatura de memórias e das campanhas.

Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em “Angola Dois anos de Governo”, do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan “Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola”. Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.

Visitou Angola?

Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa – nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

A mesma tese de Angola…Creio que é uma verdade indiscutível.

Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro “História de Angola”, com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, “História das Campanhas de Angola”. O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se “La colonie du Minotaure”. E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX – o que significa que não se pode falar de “cinco séculos de colonização”. Seria uma burla!

É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.

O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?

Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi “épica” entre 1885 e 1915.

E em Moçambique?

Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.

Em Angola não havia esse tipo de problemas.

Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano – não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique – cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique – e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.

Seguiu-se o estudo da Guiné…

Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola…

Mais difícil que Angola?

Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre – o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que “não sabemos colonizar…” Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.

E a República?

Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora… Liquidou as elites africanas – não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.

Visitou todas as colónias?

Visitei Angola três vezes – a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto…

Vejo que tem uma memória fantástica…

Um pouco… Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.

Quem financiou?

Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama “Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains”, em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.

Conheceu-o?

Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.

Vazia?

Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter ‘bufos’ dos dois lados… Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França – mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Visitou Moçambique?

Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o “Le Monde” sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista…

Visitou a Guiné?

Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.

Visitou algum destes países depois da independência?

Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.

Todos os seus livros estão traduzidos para português?

Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: “História das campanhas de Angola”, “História de Moçambique”, “História da Guiné”, “Timor em Guerra” e “As campanhas coloniais de Portugal” (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, “História de Angola”.

Que foi o último a ser traduzido.

Sim. O “Minotauro” nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.

Você é conhecido por ser um máquina de ler…

Sou um explorador do passado.

Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?

Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.

Fez recensões sobre todos esses livros?

Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.

Publicou muitas recensões na “Análise Social”. Porque acabou?

Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!

Em que línguas lê?

Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.

Escrito em hebraico?

Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países – na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional… Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado “Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)”. Às vezes muito crítica.

Está a escrever para revistas portugueses?

Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.

Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem jornalística…

Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.

O historiador também é um jornalista?

Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.

Quantos volumes tem?

Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.

Tem esses livros todos em sua casa?

Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.

Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas?

É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.

E de autores portugueses?

Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, “Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires”. Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.

O que é, para si, um bom livro?

Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho…

(fim)


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Viva a República

Sexta-feira, Julho 30th, 2010

A exposição “Viva a República” na Cordoaria Nacional (Lisboa) inscrita nas comemorações do centenário. Estas têm a vantagem de poder olhar para a I República sem os olhos santificadores, que a contrapõem ao Estado Novo, e sem os volúpias diabolizadoras, contrapondo-o ao mesmo Estado Novo (e, em alguns poucos casos, à monarquia) – e é interessante notar como a forma de olhar a I República é sintomática da concepção topológica do pensar português: não interessa realmente o assunto em causa, interessa verdadeiramente realçar como os locutores se posicionam face a ele em função de um contexto abrangente.

Bem, lá visitei a exposição realizada pela Comissão Nacional para as Comemorações da República e sob o comissariado de Luís Farinha. Tem, com toda a certeza, competência científica, historiográfica. Mas não gostei. Não gostei do objecto, o que terá a ver com o que se pretende com uma exposição. Ou seja, não gostei daquilo que para muitos (e para os autores, com toda a certeza) é uma virtude. Pois é algo enorme, o visitante fica exausto, fisica e intelectualmente. A metade do percurso já suspirava por Gomes da Costa e seus cadetes, para que pusessem fim ao meu suplício. A vertigem dos autores em serem exaustivos levam os visitantes à exaustão. E é uma pena.

Há ainda um ponto, alguns textos são excessivamente longos, muito virgulados. Coisas que não funcionam em painel. Mas isso já é nota, até malévola, que advém da minha irritação. E de onde deriva ela? Da ideologia que transpira, que julgo inaceitável (dada a tal competência científica). Para que não se pense que é má vontade minha deixo abaixo fotografias (nokia), transcrevendo textos (pressionando as imagens elas aumentam).

O teor da exposição é explícito. Entre outros argumentos retiro que a participação na I Guerra Mundial causou fracturas dramáticas no campo republicano e grave crise nacional, irresolúvel pelo regime. E que tal participação foi impulsionada pelo projecto colonial da República, e que esse projecto africano era visto como um vector de desenvolvimento (“acabar com a fome”) do país. De tudo isso se retira a centralidade da questão africana. Ora não sendo os textos da exposição “lisos”, meras recuperações dos textos da época (é aliás basto opinativa), é então completamente inaceitável que sob esta questão central se continue em 2010 a utilizar a concepção de “campanhas de pacificação” em África para descrever as campanhas de ocupação – ideia que não só era então legitimadora (introdução da ordem civilizacional) como também denota uma visão dos africanos como imersos em infindas guerras fraticidas, o caos da selva. Ideia assim sobrevivente (não renascida) através dos textos em painel.

De fazer cair o queixo. Ou não. Ou, como é minha opinião, de continuar a pensar nas continuidades intelectuais entre o republicanismo colonial e a intelectualidade de extracção socialista na II República. Chama-se, esta, lusófona. E tem, sempre, algum patois ideológico que a demonstra.

jpt


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ROCAMBOLE* EM PORTUGAL

Sexta-feira, Julho 9th, 2010

por ABM (Sexta-feira, 9 de Julho de 2010)

Antes de mais, os defeitos de Histórias Rocambolescas da História de Portugal, composto por João Ferreira (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010): 1) o preço, 23 euros na FNAC, é um pequeno escândalo, e só espero que o João meta a melhor parte do que paguei no seu bolso; 2) está relativamente mal editado, na medida em que as suas milhentas pequenas histórias nalguns casos sobrepõem-se e, logo, repetem-se de vez em quando. Eu se fosse o João dava umas marteladas no texto aqui e ali e aquilo fluiria como uma brisa.

Mas, dito isto, que na verdade são males menores, vamos às coisas boas.

Apesar das suas 327 páginas (se se excluir o magnânimo, amigável prefácio de Ferreira Fernandes, eminência do Diário de Notícias, e a relativamente extensa bibliografia no fim do livro), tem uma estrutura com lógica e, mais importante, é eminentemente legível. O exmo. Leitor que sabe umas coisas sobre a história dos portugueses (a real e a ficcionada, isto é) não adormece ao meio da obra nem fica a pensar que está a ler um daqueles insuportáveis, grandiloquentes tratados sobre a história de Portugal. Creio que isto tem que ver com a dupla personna do João, que quando não é historiador é jornalista e vice-versa. Nesta caso, vem ao de cima o jornalista, que sabe que tem dez parágrafos para contar a história e não mais, não vá o seu leitor mudar de ideias e ler outra coisa. Da economia aplicada resulta uma eficácia que em geral não pagou um custo em termos de atenção ao detalhe e exactidão.

Então vamos a alguns detalhes, logo na parte I:

1. O “milagre de Ourique” – foi fabricado no século XV
2. As “cortes de Lamego” – tudo mentira. Nunca houve
3. A rainha Santa Isabel – era santa apenas no sentido etimológico mas não no eclesiático
4. Escola de Sagres – nunca existiu uma “escola de Sagres”. Tudo falso
5. D. Sebastião – foi um rei totó, com amplas provas disso

Na Parte II, sobre mortes violentas, entra nos detalhes de Inês de Castro, cuja morte foi um assunto de Estado, um pouco como o uso das acções douradas da PT por Sócrates a semana passada; o conde Andeiro, João II, a Inquisição, Damião de Góis, os Távora, D.Carlos e o filho e finalmente Sidónio Pais. Isto, suponho, para lembrar que nem sempre as coisas eram resolvidas amigavelmente.

Mas há muito, muito mais.

O livro de João Ferreira contém nada menos do que 68 destes episódiozinhos, que escalpa metodicamente.

Confesso que eu já mais ou menos sabia os detalhes de 80 a 90 por cento do que a obra relata. Só que o que sabia foi extraído de um monte de informação. Aqui está tudo arrumado, classificado, destilado e à disposição.

A única coisa que mais ou menos suscitou-me dúvidas foi quanto ao episódio de Sebastião de Aviz. Aqui na obra (página 41, 2º e 3º parágrafos) o João refere que, na sequência de Alcácer-Quibir, o seu corpo nunca foi encontrado, e que, talvez pela tentativa de arrumar o assunto de uma vez, não vão os seus (então) novos súbditos inventar a teoria do Encoberto – que, claro, inventaram – o novo rei, um espanhol filho e neto de portugueses, Filipe I, pagou um resgate por um corpo qualquer, que foi piedosamente trasladado de terras mouras para Portugal e depositado no Mosteiro dos Jerónimos, onde ainda se encontra hoje, apesar de não ser dos destinos principais de quem ruma aquele monumento religioso hoje em dia. Ora, em tempos li um relativamente espesso livro só sobre o assunto deste último monarca da dinastia de Aviz, e nesse livro parecia estar perfeitamente documentada, até ao que me pareceu o ínfimo detalhe, o percurso do corpo de Sebastião, desde Alcácer-Quibir até ao seu presente túmulo. Claro que entendo perfeitamente que, se eu fosse um árabe a precisar de umas massas e aparecesse um delegado de Filipe I com dois sacos cheios de moedas de ouro a dizer que queria o corpo de D. Sebastião, nem que eu matasse e depenasse a sogra, arrumava o negócio logo ali. Mas o João não consubstancia, e fiquei com o relato do outro livro atravessado na garganta.

Claro que isto se resolveria com duas penadas. Bastava fazer uma recolhazinha de osso e meter naquelas máquinas enormes que destilam o DNA e resolve-se logo se aquilo é o Dom ou se é um desgraçado qualquer que foi negociado a peso de ouro com os enviados de Filipe. Mas a julgar pela parvoeira que se viu com os ossos de Afonso Henriques em Coimbra, quase que mais vale ficar-se pela especulação literária.

Outra coisa que me surpreendeu algo (mas entendo perfeitamente que isto seja apenas uma coisa minha) é que o João voou desportivamente por cima de todo o episódio colonial afro-asiático. Mas entendo perfeitamente a perspectiva do João. Para quem é de cá, aquilo foi uma coisa menor num sítio mais longe que o caraças, que só começou há quinhentos anos e acabou com um distante bang em 1975. As lamechices do PREC, na mesma altura, com essas saudosas figuras luzidas do firmamento nacional de então (Mário Soares, Álvaro Cunhal, Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho), mereceram copiosa nota.

Ou será que o João está-se a guardar para Rocambole Portugais, Parte II? sim, porque o filão que ele descobriu ainda nem vai a meio.

Se há algo que a obra de João Ferreira sucede em fazer é, espero, despertar um maior interesse neste alucinante percurso de que nós hoje somos menos que a mera pontinha de um longo, longo lápis. Gerações e gerações de portugueses lutaram desalmadamente, sofreram vicissitudes incríveis, lutaram e prevaleceram em circunstâncias que à partida não ofereciam qualquer margem para a esperança, mentiram, roubaram, vigarizaram, foram nobres, foram ignóbeis, apelaram a Deus, e o maldisseram também.

Tudo isso para que Portugal felizmente pudesse chegar aos nossos dias, para que pudesse ser governado por gente como os políticos que temos hoje, para que todos nós pudéssemos, em quase impecável democracia, comprar televisões plasma aos chineses e Mercedes aos alemães e cereais aos americanos e franceses (tudo a crédito) e os nossos filhos se tornassem ser a geração no agregado mais mariconça, mais mimada e menos preparada em 900 anos de história para tomar conta deste naco de terra e passá-la à geração seguinte (sem ser uma colónia espanhola ou um dócil apêndice de uma união política, isto é. Em geral essa é que é a parte difícil).

Uma geração que, paradoxalmente, sabe qual é o modelo de computador portátil mais caro e o té-lé-lé mais tecnologicamente avançado. Mas que não sabe qual é a sua história porque não a lê nem, assim, pode colher os seus ensinamentos.

Talvez com esta abordagem de João Ferreira essa geração preste um bocadinho mais de atenção ao assunto e os Maschambeiros entretanto se divirtam um bocado.

Quanto aos primeiros, vou esperar sentado.

*Sobre Rocambole, ver aqui.


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Stimela (Xitimela), de Hugh Masekela

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Abaixo um comentário sobre emigrantes moçambicanos fez-me lembrar esta música de Hugh Masekela, um fantástico hino. Sim, eu sei que o comentário não se referia a este mundo. Efeitos dos xizatos memorialistas, recortando discursos, livros e iconografias, e até quantas vezes transcritos para a própria historiografia.

[Em termos de som e de qualidade de versão musical é o melhor filme que encontro no youtube, ainda que desprovido de imagens dos músicos. Sobre a canção ver uma boas descrições aqui e aqui]

Stimela [Coal Train]

There is a train that comes from Namibia and Malawi

there is a train that comes from Zambia and Zimbabwe,
There is a train that comes from Angola and Mozambique,
From Lesotho, from Botswana, from Zwaziland,
From all the hinterland of Southern and Central Africa.
This train carries young and old, African men
Who are conscripted to come and work on contract
In the golden mineral mines of Johannesburg
And its surrounding metropolis, sixteen hours or more a day
For almost no pay.
Deep, deep, deep down in the belly of the earth
When they are digging and drilling that shiny mighty evasive stone,
Or when they dish that mish mesh mush food
into their iron plates with the iron shank.
Or when they sit in their stinking, funky, filthy,
Flea-ridden barracks and hostels.
They think about the loved ones they may never see again Because they might have already been forcibly removed
From where they last left them
Or wantonly murdered in the dead of night
By roving, marauding gangs of no particular origin,
We are told. they think about their lands, their herds
That were taken away from them
With a gun, bomb, teargas and the cannon.
And when they hear that Choo-Choo train
They always curse, curse the coal train,
The coal train that brought them to Johannesburg.

[imagem encontrada neste texto (uma adaptação do texto "A Place in the City" de Lilli Callinicos, aqui biografada).]

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Portugal-Brasil

Quarta-feira, Junho 23rd, 2010

A propósito do Portugal-Brasil do próximo 25 de Junho (dia de independência de Moçambique), a realizar em Durban a Fátima Ribeiro divulga no seu mural do facebook esta medalha comemorativa do jogo Portugal-Brasil, que serviu para inaugurar o estádio da Machava (então Salazar) em 30 de Junho de 1968.

E adianta ainda a constituição das equipas:
Brasil – Félix, Carlos Alberto (cap), Bríto, Joel e Rildo; Gerson e Rivelino; Natal, Jair, Tostão e Edú;
Portugal – Américo; Cruz, Armando Manhiça, José Carlos e Hilário; Pavão, Coluna (cap) e Jaime Graça; Pedras, José Augusto e Peres, Artur Jorge e Simões.
Arbitrou o jogo o espanhol Adolfo Bueno. O Brasil ganhou por 2-0.

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Futebol e Guerra

Terça-feira, Junho 22nd, 2010

Encontro no Banco Corrido este tesouro iconográfico. Paulo Pedroso dá ainda as pistas para a sua descodificação referindo a Europeana: “Em grande plano, sobre círculo limitando relvado onde correm dois jogadores sob céu vermelho, jogador de futebol, equipado mas apresentando ligadura num joelho e luva correctora numa mão, prepara-se para chutar a bola; em 2º plano, soldados e marinheiros, em formatura frente a frente, junto a costa onde se procede a desembarque de navio de guerra. [...] Provável propaganda da preparação do C.E.P., em parte ecoando a fonte Biblioteca Nacional

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O ALMIRANTE ZHENG HE E VASCO DA GAMA

Sábado, Junho 5th, 2010

por ABM (5 de Junho de 2010)

Há uns anos, amiga minha que vive em Joanesburgo e que tem digamos que algum, pouco disfarçado desprezo “histórico-ideológico” pelos portugueses (e certamente considerando-me um, mas não um daqueles que se pode dizer coisas como “ah, vocês portugueses…!”) deu-me para ler um livro publicado há uns anos, da autoria de Gavin Menzies, chamado 1421.

O tema do livro é uma quase circum-navegação do mundo por parte de uma vasta, poderosa e sofisticada frota naval chinesa, ocorrida precisamente no Ano de Deus de 1421, quando na Europa os poderes constituídos ainda jogavam ao berlinde em matérias de navegação de longo curso.

Os portugueses de 1421, ainda sob a alçada do pouco socratiano Dom João I, fundador da Dinastia de Avis com uma indisfarçável ajuda do agora santo católico Nuno Álvares Pereira, haviam há pouco arrebatado a praceta marítima marroquina de Ceuta e andavam a prospectar as fraquezas mouras na costa marroquina, a fazer umas razias, e a pensar no que fazer com aquilo tudo.

Isto na face do espanto geral dos católicos europeus pelo inédito feito de mais ou menos furarem o bloqueio muçulmano do Mar Mediterrâneo e ainda mais a abertura de uma certa perspectiva de desafiar o muito mais dificilmente contornável bloqueio da Europa dos produtos originados da Ásia, cujo acesso só se fazia a partir do Médio Oriente, a preços obscenos, tornados ainda mais obscenos quando os Otomanos tomaram Constantinopla trinta e dois anos mais tarde.

Recorde-se que, em termos do que estava para acontecer, os portugueses tinham acabado de descobrir a Madeira, mas não os Açores, as Canárias e Cabo Verde, plataformas absolutamente essenciais para apoiar as expedições que vieram mais tarde.

Mais importante, não dominavam ainda as técnicas de navegação e de orientação, bem como outros aspectos essenciais para a navegação em alto mar e longe da costa.

Mas a crer no livro de Menzies, nesse preciso ano os chineses, cuja tecnologia e poderio estimado ofuscava o que havia na Europa, e que haviam constituído uma absolutamente formidável frota naval liderada pelo Almirante eunuco chinês Zheng, a mando do então imperador (o tal que mandou fazer a Cidade Proibida no que é hoje em dia o centro da capital chinesa, Pequim)  zarparam em todas as direcções, aparentemente à procura de negócios e de um pouco de conquista (muito pouco, depreendi).

Mais interessante, apesar de as provas serem digamos que um pouco menos que impressionantes, Menzies argumenta que, em 1421, os chineses andaram a passear pela costa oriental e ocidental africana, e terão ido tão longe como as Caraíbas e a América do Norte.

Portanto terão estado algures na actual costa moçambicana, e por aí além, oitenta anos antes de Gama, Cão, etc.

Continuando a saga de Menzies, só foi por uma questão de acaso ou de ventos cruzados que parte da frota Zhenguiana, em vez de ter ido directamente para as Caraíbas,  não ter desaguado na foz do rio Tejo, ali mais à direita de quem sobe o Atlântico, pregando assim o mais valente dos cagaços aos então relativamente primários cidadãos da cidade de Lisboa, cuja visão do Demónio na altura se cingia aos mouros, aos castelhanos e aos judeus.

Mas, mais dramático para a história, e parece que foi verdade, o imperador chinês que veio a seguir parece que não gostava destas aventuras pelo mundo e mandou acabar com aquilo tudo de uma assentada, desmembrar as frotas, queimar todos os registos, e impor a pena de morte ao desgraçado que dissesse seja o que for sobre o assunto. E ai de quem se atrevesse a sair da China.

Assim – e por enquanto, continua o argumento – hoje o mundo ainda tem que aturar esta coisa ficcionada de terem sido portugueses os que há uns quinhentos anos primeiro mapearam os oceanos do mundo e tocaram os quatro cantos do mundo – incluindo aquele postozinho na margem direita do Rio das Pérolas chamado Macau. E o Japão. E a América Latina. E África.

Pois na verdade, argumenta Menzies, o verdadeiro herói da fita é o tal de Almirante Zheng (que pelos vistos era um verdadeiro homem das Descobertas Chinesas). Não o comandante Vasco da Gama, que Manuel I de Portugal, sobrinho e sucedâneo de D. João II, foi buscar à vilinha piscatória de Sines e mandou seguir a costa africana em 1497, para ver se havia maneira de chegar pelo mar às Índias, em três barquetas pequenas mais a barcaça dos suprimentos, que ficou pelo caminho a seguir à paragem na Ilha de Moçambique. Um ano e tal depois, voltaram duas naus, fragilmente dirigidas por menos que cinquenta homens, com umas especiarias, um mapa e uma história para contar.

Ora, eu sou daqueles que, havendo prova, até acreditarei que há marcianos e que Elvis Presley ainda está vivo e reside em Marracuene. Mas creio que esta dos chineses terem ido desde Pequim até Miami em 1421, bem, digamos que vou esperar mais um pouco para ver antes de mudar a letra de A Portuguesa.

Mas, talvez porque estejamos estes dias a atravessar uma onda global de sinofilia, esta semana acabei de ler um outro livro, este da autoria de uma senhora americana, de nome Heather Terrell (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, tradução de Patrícia Xavier), que é basicamente sobre o mesmo tema, mas desta vez assumidamente ficcionado e com um outro ângulo completamente diferente.

O livro de Terrell, que é uma advogada e que obviamente andou a fazer os habituais circuitos histórico-turísticos de Portugal, com ênfase dado ao Convento de Tomar (o verdadeiro centro da história de Portugal, segundo alguns), chama-se O Mapa Desaparecido.

Nesta aventura, que se lê mais ou menos como um guião de filme, intercalando sucessivamente datas e eventos entre a actualidade e 1421, vemos ao vivo e a cores o almirante chinês a fazer a tal volta até Miami, só que aqui o herói da fita não é ele: é Zhi, um obscuro jovem eunuco (um eunuco é alguém a quem se corta a pila. Está tudo explicado no livro) que, secretamente, arriscando o pescoço após os éditos imperiais que mandaram destruir tudo após a Grande Viagem, elabora um mapa completo de Tudo e Mais Alguma Coisa Sob o Céu.

Ora como ele terá ido desde Pequim até Miami, o exmo. Leitor já pode imaginar o que é que o mapa indica: essencialmente,  é um mapa do mundo, com os contornos de África.

E poderá imaginar o que vem a seguir: na verdade, e mais uma vez, os tugas não descobriram coisa nenhuma. O que fizeram foi comprar uma cópia do mapa a um qualquer que fazia a rota da Seda, que Dom Manuel I guardava a sete chaves, e que deram a um subalterno de Vasco da Gama, chamado António, deixando o leitor do livro – e assim o resto do mundo – saber que em 1497 Vasco da Gama meramente seguiu o mapa de Zhi até Calecute e arredores, em vez de, corajosamente, ir por ali acima às apalpadelas.

Parte do enredo, como não podia deixar de ser, inclui um tal Visconde de Tomar, uma influente e singularmente patética figura, que tudo fará para que a verdade sobre o tal de mapa de Zhi não seja divulgado, para que os portugueses, estes dias já tristes com a crise internacional e a candidatura à presidência de Manuel Alegre pelo PS, não ficarem agora traumatizados pelo épico barrete enfiado por Dom Manuel há quinhentos anos.

Convenientemente, durante quinhentos anos, a cópia portuguesa do mapa de Zhi fica guardada nada menos que algures na estranhíssima Charola do Convento de Tomar, que a heroína do filme, uma desenrascada investigadora americana de roubos de arte, com a ajuda de um amigalhaço e a antecipável estupidez colectiva de um grupo de tomarenses distraídos, rouba da Charola e assim força a jogada do Visconde.

Se o livro de Menzies já me fazia sorrir um pouco, o de Terrell, que se lê numa noite, ao contrário do outro, já me faz soltar uma gargalhada ligeiramente mais sonora, se bem que, reconheça-se, está relativamente bem pesquisado nos essenciais, tirando a afirmação de que os Açores ficam situados a Sul da Madeira e ainda que Terrell se tenha esquecido que um aspecto fundamental do percurso técnico que possibilitou as viagens de então foi o desenvolvimento da capacidade de navegar contra o vento.

Também não percebo a insistência em chamar “navios” às naus de Vasco da Gama.

Apesar de Menzies e de Terrell, e sendo a História eternamente reinterpretável, proponho no entanto que de momento os Maschambianos sigam o conselho daquele poeta, Luís Vaz de Camões, e considerem aquilo que aqueles antigos portugueses fizeram, verdadeiramente, uma coisa do outro mundo.

Porque foi.


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Uma tradução da Gradiva

Domingo, Abril 18th, 2010

Acabo de ler este excelente “Os Gregos e o Irracional“, de E.R. Dodds, um clássico da coisa, que encetara e abandonara há década e tal. O livro foi publicado em 1988 pela Gradiva (uma editora renomada) com tradução de Leonor Santos B. de Carvalho e revisão de José Trindade dos Santos. Tem 322 páginas nas quais moram 1101 notas. Como se vê um grande aparato, que permitirá ao leitor dialogar com o conteúdo argumentativo do texto – e, nesse âmbito, entendê-lo menos datado do que poderá parecer a uma primeira, e preconceituosa, vista. Mesmo para aqueles não-especialistas a quem também o livro é dedicado: “Espero que o resultado [o livro] tenha algum interesse não só para os estudiosos de grego, mas também para alguns antropólogos e estudantes de psicologia social, e também ainda para quem quer que queira entender as origens do comportamento humano. Por conseguinte, tentarei, tanto quanto possível, apresentar o assunto numa linguagem compreensível para não especialista.” (8)

Ora em centenas dessas notas estão citações de textos literários e/ou filosóficos gregos (o livro é sobre a antiguidade grega, entenda-se), que ilustram e contextualizam o texto, os detalhes argumentativos ali anotados, como é normal nestas coisas. Mas nenhuma, repito, nenhuma destas citações está traduzida, o que implica que a leitura do livro é amputada de uma parte do seu sentido.

Podia isto ser apenas uma má edição (e escandalosa tradução) da responsabilidade da editora. Também é! Mas não só, pois é exemplo de uma prática recorrente (e que de quando em vez me leva a resmungos bloguísticos): os tradutores e editores portugueses continuam com o tique de não traduzirem expressões, citações ou referências que surgem, quando são em algumas línguas (latim, grego, alemão, etc). Não porque achem (como poderiam?) que sejam de total conhecimento público. Mas sim, descaradamente, por inércia e incompetência linguística de tradutores, revisores científicos e seus editores. Uma vergonha, disfarçada de arrogância – e que nunca é respondível através da invocação da excelência curricular dos seus autores. Se têm currículo que não façam coisas destas. Só!

jpt


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O MUNDO DE ACORDO COM LUC FERRY

Terça-feira, Março 30th, 2010

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

No meu estado de feliz ignorância, nunca tinha ouvido falar deste senhor, que é um francês que me parece ser um daqueles deliciosos adiantados mentais, com credenciais académicas que não acabam e uma curiosa visão do mundo, e que tive o prazer de ouvir esta tarde numa emissão da estação de rádio TSF durante um daqueles engarrafamentos de arromba na 2ª Circular de Lisboa, em rota de Cascais City aqui para a província.

Depois de ler José Gil, Luc Ferry, que foi ministro da educação lá na França e que parece que anda a promover um livro que escreveu sobre o amor e o casamento (cuidado que o tema engana, aquilo é duma abrangência fantástica), deu uma entrevista que absolutamente recomendo seja escutada. O exmo. Leitor Maschambiano pode sintonizar aqui e depois ir fazendo outras coisas no seu computador.

Fascinante visão do mundo actual, dos homens, da história, da filosofia, da religião.

Curiosamente, com uma tónica positiva. Com este não há a nebulosa neura que presentemente afecta uma parte significativa da população portuguesa e adjacente.

A entrevista é em francês, mas se o francês do exmo. Leitor estiver como o meu (je confésse que mon français d’aujourd’hui est un peu emmerdé par le temps) não se preocupe: a TSF meteu lá uma tradução simultânea do melhor que há.

Para o exmo leitor leu a entrevista que o nosso pensador top 25 do Mundo, e que veio de Quilimani, José Gil, deu a um jornal de Lisboa, oiça este senhor e tente estabelecer os contrastes nos pontos de vista.


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Bénard da Costa e o catolicismo

Quarta-feira, Março 17th, 2010

[João Bénard da Costa, Nós, os Vencidos do Catolicismo, Edições Tenacitas, 2003]

Edição em livro de um texto publicado no jornal Independente em 1997. Em registo de memórias pessoais fica o percurso de uma franja da burguesia lisboeta católica oposicionista ao Estado Novo, um núcleo que veio a ser conhecido como “católicos progressistas” (apesar do seu desgosto pelo termo), e do seu progressivo afastamento face à hierarquia católica, primeiro, e ao próprio catolicismo, depois. Um retrato de época muito interessante – e não só por aqui se encontrar traçada a juventude de inúmeras personagens que vieram a ser relevantes nas décadas seguintes na sociedade portuguesa. Também nisso denotando a influência que a igreja católica tinha à altura no país e na formação das suas elites. 

Deixo três excertos. O primeiro, referente à juventude do autor, que poderá ser extrapolado (e que, porventura, ele-próprio terá extrapolado ao longo da vida) como visão do mundo bem para além do “cristianismo” a que se refere directamente, e que assim aborda a rábula do “lado correcto”, do raciocínio bipolar ainda hoje tão recorrente em Portugal; o segundo, que resume o incómodo sofrido por Bénard da Costa (e seu grupo?), teórico-teológico; e um terceiro que não escolho por qualquer anacrónica comicidade mas porque deixará entrever da justeza e pertinência de tantas das posições da igreja católica apostólica romana face à sociedade contemporânea:

“… cedo, demasiado cedo na vida, aprendi que as ameaças ao cristianismo não vinham de um só lado, mas de dois. Só aparentemente opostos.” (21)

O Concílio – pensava eu nesse tempo – ao introduzir … a noção essencial de Igreja como Povo de Deus (completando o tradicional conceito de Corpo Místico) vinha dizer a cada cristão que cada um de nós era Igreja … contruída com pedras vivas, numa comunidade de pessoas em que Cristo era o factor unitário, o valor vital fundamental, a norma viva e o único princípio de autoridade. Esse factor, esse valor, essa norma, esse princípio, deixavam de residir na Hierarquia ou no Clero e passavam a estar em cada um de nós. Daí que eu alargasse muito o conceito, então em voga, de “fim do constantinismo”. Em vez de ver nele, apenas, o fim da identificação da religião com o Estado ou o fim da identificação do cristianismo com uma civilização, eu via também na expressão o fim da identificação da fé individual com a fé na Igreja, o fim de uma visão dela como superestruturaa, que envolvesse, protegesse e sustentasse cada um dos seus membros. Secularmente, a Igreja abrigara-se sob a protecção do Estado para se defender. Secularmente, também, o cristão abrigara-se sob a protecção da Igreja com idêntico intuito. Chegara a altura de abandonar ambos os abrigos …” (88-89)

Foi o caso da pastoral sobre a Modéstia Cristã, que deu origem a um dos episódios que mais recordo desses tempos. No verão de 56, os bispos resolveram dissertar sobre a dita modéstia, julgando chegada a altura de se unirem aos cabo de mar para acabarem, nas praias, com homens de tronco nu e mulheres de fatos de banho de duas peças (ainda não se falava de biquinis). Evidentemente, o assunto era ingrato … Se já ninguém tinha muita pachorra para enfiar uma camisola interior quando o cabo se aproximava, menos ainda se considerava que o assunto devesse merecer a atenção do venerando episcopado.” (31)

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Estórias da História

Sábado, Março 13th, 2010

(por AL alertada por Luís Galvão) -

Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.

Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.

Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.

Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.

Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.

Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.


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ÁFRICA E O JOGO DA CHONCA EM MACAU

Quinta-feira, Março 4th, 2010

Vestígios do jogo na Etiópia

por ABM (4 de Março de 2010)

Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.

Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.

Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).

Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.

E em Macau é Chonca.

Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.

Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.


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Sobre a iconografia do tempo colonial

Sexta-feira, Fevereiro 19th, 2010

Um excelente texto da historiadora Ana Cristina Nogueira da Silva (ACNS), Fotografando o Mundo Colonial Africano. É um texto académico (no jargão “paper”) que pode afastar alguns leitores mais atreitos ao registo blog, mas mais do que justifica a sua leitura. Trata-se de uma bela análise dos processos intelectuais presentes na iconografia produzida no tempo colonial sobre as colónias africanas, tomando como exemplo os álbuns produzidos por Santos Rufino na década de 1920 sobre Moçambique. ACNS aborda, com clareza, os estereótipos sobre a natureza e sobre as populações que estão presentes / e são produzidos no acto de fotografar, bem como os propósitos (conscientes ou inconscientes) de índole política que estavam presentes no formato descritivo de então. Se interessante para quem tem apreço pela historiografia é um texto também fundamental para quem aprecia (e reproduz) as galerias de “postais” e “fotografias” de um tempo particular. Para pensar como se pensava, para ver como se via. E como se pensa e vê, em tantos casos.

jpt


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Origem de “maximbombo”

Sábado, Fevereiro 13th, 2010

Acabo de receber de leitor amigo este artigo (“A Morte do Maximbombo“, publicado originalmente na revista Ilustração Portuguesa, em 1913) destinado a aqui ser reproduzido. Através dele se poderá abordar a questão da origem da palavra “maximbombo” – confesso a minha surpresa, nunca reflectira no assunto mas sempre a atribuíra a uma utilização do inglês (de machine pump) em contextos africanos. Afinal assim não será essa a sua origem.

Reproduzido da revista Ilustração Portuguesa n.º 386, 17.07.1913

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O Centenário da República e Nossa Senhora de Fátima

Terça-feira, Fevereiro 9th, 2010

[Vasco Pulido Valente, A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]

Foi o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes Histórias de Portugal actuais (a de José Mattoso e a de João Medina) estão na longínqua Lisboa, fui reler o livro, a ver se me situo na efeméride. Mas nem tanto. Ainda assim entre algumas coisas retiro duas ideias, sendo a primeira a referência à lenda de Nossa Senhora de Fátima, a qual aqui transcrevo para alegria dos mais crentes, principalmente para os que já se afadigam na expectativa da próximas visita de Sua Santidade a Portugal, decerto que inscrita – de forma muito particular – nas comemorações do centenário da instauração da República. É uma longa citação mas vale a pena:

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (pp. 115-117)

E há uma segunda característica deste livro que fala comigo. Isto décadas depois de ter aprendido isso da “objectividade” e “subjectividade” no discurso das ciências sociais, suas fronteiras e namoros. É que o tom de Vasco Pulido Valente é – constantemente, e à excepção deste curto “… gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa horrorizava.” (p. 25) decerto inconsciente avatar de um certo “bom povo português” – de um enorme desprezo pelos agentes da história. Populares ou graúdos, políticos e anónimos, monárquicos ou republicanos de qualquer tendência, turba ou cáfila, é tudo gente “patética”, “miserável”, incompetente. São páginas e páginas de uma enorme superioridade do narrador, de uma enorme moralização (des-valorização) sobre o que (quem) fala. Ora aprendemos nós a desconfiar dos “engajados”, dos “exotizados” (então tontos antropólogos apaixonados pelos seus nativos – dantes – ou pelas suas minorias exploradas/discriminadas – hoje - é um festival constante) para cair na esparrela inversa? Ou seja, na mesma? Bah…! Vai o livro directamente para a fila de trás da estante – apesar da história da freguesia de Fátima.

jpt


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