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Monumentos da era colonial na Ilha de Moçambique

Nesta entrada falou-se de um monumento aos combatentes da I Guerra Mundial, sito na Ilha de Moçambique. O qual eu não recordei de imediato. Umbhalane, aqui comentador residente, aprestou-se então a enviar-me fotografias do referido monumento, ainda hoje colocado no jardim fronteiro à actual pousada. Bem como fotografia do padrão na ponta da ilha, pastiche mandado colocar por Sarmento Rodrigues no final do período colonial e eloquentemente retratado na referida exposição de Leitão Marques. Aqui ficam as fotografias e os agradecimentos ao emérito comentador cá de casa.

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SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL

Pintura de Sídonio Pais no Palácio de Belém

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, na altura MNE moçambicano

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE

Por ABM (11 de Março de 2010)

Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.

Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.

Mas há uma relação curiosa, se indirecta.

Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.

De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.

O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.

Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.

Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.

Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.

Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.

Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.

É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).

O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.

O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.

E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.

A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.

A realidade não foi bem essa.

A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.

Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.

Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.

A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.

Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.

A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.

E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.

E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.

Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.

E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.

Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.

Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.

Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.

Mas sobre isso ainda sei pouco.

O PRIMEIRO CAPÍTULO DE “O OLHO DE HERTZOG”

O navio "Beira" Nº Oficial : 377-C, Iic.: H.B.N.G., Registo : Lisboa Cttor.: Blohm & Voss, Steinwerder, Alemanha, 04.07.1896 ex "Herzog", Deutsche Ost-Afrika Linien, Hamburgo, 1896-1911 Tonelagens : Tab 4.976,83 to, Tal 3.059,97 to Comprimentos : Pp 122,00 mt, Boca 14,38 mt, Pontal 13,60 mt Máquina : Blohm & Voss, Hamburgo, 1896, 2:Te, 11 m/h Vendido para demolição em Itália, finais de 1925


por ABM (9 de Março de 2010)

Ainda não tive chance de comprar O Olho de Herzog do João Paulo Borges Coelho, mas já fiz duas coisas que partilho com os exmos leitores por aquele preço imbatível só para Clientes do Maschamba:

1) arranjei uma fotografia original do bicho (“afenal” o Herzog é o navio com os dois matros altos na fotografia que se encontra acima, tirada numa enseada na antiga colónia alemã do Tanganyka aí para o ano de 1896. Não sei onde o JPBC foi buscar o “t” nem o que é que o navio tem que ver com a história mas hei-de perceber certamente). O navio mais tarde passou para mãos portuguesas e mudou o nome para Beira.

2) já li o primeiro capítulo do livro, que é delicioso e que abaixo de reproduz, cortesia do …. Diário Digital.

Então vamos lá:

Capítulo 1, Acto 1, Cena 1, de O Olho de Hertzog:

Não fosse o calor nem esta vegetação tão particular, não trouxesse o ar este vago cheiro a queimado, e Hans Mahrenholz dir-se-ia de volta a uma sua muito antiga vida. Hamburgo talvez, quando era criança e cruzou as desconhecidas praças dessa cidade levado pela mão grossa do pai, fustigados ambos por uma chuva miúda mas inclemente. Hamburgo, desta vez sem a mão que lhe abria os caminhos. Hamburgo às cegas. Não fosse esta luz crua que subsiste apesar da chuva e lhe castiga os olhos.
Recua ligeiramente para se proteger debaixo do avançado de lona riscada – velha e quebradiça, coçada pelo sol e pelo sal – e continua a observar com atenção a linha de costa. A maresia inchou-lhe os dedos, a ondulação provocou nele uma náusea leve e persistente.
A chuva desaba agora com fragor, formando manchas eriçadas na pele do mar (pequenas ilhas de inquietude na ampla superfície). Tem sido assim desde ontem, estes soluços molhados do tempo. Mais perto, a nova descarga salpica a balaustrada, as gotas escorrem como um óleo espesso no metal rugoso da amurada, alastram pelo convés.
A galera entra na barra, devagar. Chama-se Ferreira e ninguém tem razões para suspeitar de que esta será a sua última viagem à baía de Lourenço Marques. Para trás ficaram dias gloriosos em que, com o nome de Cutty Sark, foi a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo, isso antes de ser adquirida pela firma Joaquim Antunes Ferreira & Cia., da cidade do Porto, e se tornar naquilo que é: uma embarcação cansada, merecedora das águas paradas de algum cais, enquanto peça de museu, mais que de confrontar assim o irascível mar Índico.
Mas não é por causa dessa glória – porventura inútil, neste momento nem sequer notada – que os burgueses encasacados acorrem ao cais apesar da chuva e do calor, unindo-se aos estivadores, marinheiros e vendedores que ali passam a vida, para formarem todos juntos a pequena multidão que espera; nem sequer pela imponência dos seus três mastros ou pela elegância do seu casco de madeira com mais de 90 metros de comprimento fora-a-fora. Estariam aqui mesmo que fosse outra embarcação qualquer, fazem-no sempre que uma vela ou um mastro assomam no horizonte, promessa de excitação trazida a uma cidade que no resto dos dias permanece modorrenta.
Por ora a Ferreira apalpa atentamente o canal que leva ao porto, passando não muito longe de um punhado de navios quietos, fundeados. Da amurada, o comandante Vieira de Sousa, há quatro anos no governo da galera, vai explicando aos seus cinco passageiros o historial de cada um desses navios: o Niassa, que foi Bulow antes de ser há dois anos capturado pelas autoridades portuguesas; o velho Admiral, glória da German East Africa Line, também ele obrigado a ser Lourenço Marques; e finalmente o Beira, nome pintado de fresco por cima de outro nome que ainda se consegue ler, por estar marcado em relevo leve na chapa negra do casco.
Herzog é o nome, e Hans Mahrenholz é percorrido por um estremecimento quando o consegue ler. Herzog. Não por causa da história que este velho navio também terá, as rotas que percorreu, os passageiros que transportou (entre eles um jovem de nome Fernando Pessoa em solitária viagem de regresso a uma pátria desconhecida). Herzog é o nome, palavra ducal que igualmente pode ser Herzig, Gertzog, Hertogs – e também Hertzog, como se verá – a raiz é sempre a mesma, a utilização é que foi variando, são as mesmas as armas com as cores amarela, azul e negra, as três estrelas, o elmo guerreiro e as asas imperiais. Herzog. E escurece ainda mais o humor de si já melancólico de Hans Mahrenholz, trazendo-lhe à ideia um outro tempo que vai ter de convocar.
Ondulam levemente, dóceis animais de carga retemperando forças gastas em intermináveis viagens. Herzog, murmura Hans Mahrenholz agora que o tem perto. Massa enorme projectando escura sombra sobre um mar de si já escuro.

Felizmente que tudo se torna mais leve com o lento avanço da galera, com as explicações do comandante e as exclamações dos restantes passageiros. São quatro: um jovem casal de missionários americanos e duas senhoras que o referido casal trataria com muito mais circunspecção se soubesse que não são quem dizem ser, esposas vindas para se juntar a supostos maridos, um deles engenheiro do caminho-de-ferro, o outro representante de uma companhia de recrutamento de indígenas.
Ira Edmond Gillet, o missionário, mal consegue represar a curiosidade, e o comandante passa à descrição do arvoredo cerrado e escuro lá em cima, ponteado de casinhas (o arrabalde novo da cidade), da ferida de terra vermelha aberta na encosta e que a chuva fez tornar a sangrar; de mais arvoredo junto à linha de água, envolvendo o edifício alvo do Grémio Náutico, na praia da Polana; e finalmente, mais para a esquerda, que é para onde lentamente se dirigem, o imponente edifício Capitania Buildings cercado de um casario denso que corresponde à cidade propriamente dita: Lourenço Marques. Mais uma vez a sirene anuncia a presença da galera na barra; no cais, um frisson percorre a pequena multidão.
A viagem foi muito acidentada: após uma calmaria que durava desde a largada, o vento rondou subitamente a sudeste por alturas de Richards Bay e, conquanto agilizasse o andamento, veio a fustigá-los sem tréguas, sobretudo ao largo de um lugar da costa chamado Milibangalala, de tal modo que Edith Riggs, a esposa do missionário, fez o resto da viagem encerrada no camarote, sofrendo de enjoos que as atenções dos restantes passageiros – chá preto, álcool nas têmporas, vinagre no nariz e lascas de bacalhau bem salgado – não conseguiam aplacar.
Felizmente que a ondulação acalmou assim que rondaram a ilha da Inhaca pelo norte, apesar dos perigos das baixas profundidades e fortes correntes que ali há, após o que passaram a poder respirar com mais alívio. E este súbito interesse pelos sinais que se descortinam na costa, este esmiuçar das casinhas e das minúsculas criaturas (da inquietante agitação para lá dos limites da cidade), além de ser o interesse normal de quem se aproxima do destino é também uma maneira de expressar o dito alívio.
Chega enfim o momento de lançar âncora. A chalupa que vem em busca dos passageiros vence o tortuoso percurso até se encostar à galera, ondulando muito mais do que ela.
Sobe o oficial de polícia a verificar os passaportes dos estrangeiros. O casal de missionários vem do distante Ohio e vai para a missão de Kambine em trabalho de evangelização. Olham o oficial com desconfiança, último obstáculo entre si e o cumprimento de um desígnio desde há muito estabelecido. O oficial, por seu turno, retorque com um franzir do sobrolho, suspeitando de um Deus que não fala o português. Mas tudo está em regra, não há como não carimbar os documentos e desejar-lhes as boas-vindas da praxe. Quanto às duas senhoras (que já se sabe não virem ao que dizem vir), cerca-as uma luminosidade tal que por si só obriga a aligeirar os procedimentos.
Finalmente, Hans Mahrenholz. Nos documentos, Henry Miller, súbdito inglês embarcado na cidade de Durban, viajando para Lourenço Marques em sondagem de oportunidades de negócio. E que negócio seria esse? Aquele que desse mais garantias de sucesso: minérios, comércio geral, mão-de-obra, difícil de precisar antes que seja levada a cabo a referida sondagem.

O polícia volta a franzir o sobrolho, afaga o espesso bigode. A água escorre-lhe pela capa de oleado. Felizmente que não pergunta que contactos tem o recém-chegado na cidade para o ajudar nessa tarefa, felizmente que se contenta com o que tem na frente: um nome estampado num documento de viagem e a revelação de um propósito. Se cofia o bigode é apenas para dar tempo a que um inesperado acaso revele mais qualquer coisa que acaba por não vir. Talvez porque não haja, pensa ele, apegado desde há muito ao ópio da rotina.
Uma rabanada de vento agita os papéis, quase os faz voar. Seria embaraçoso para todos que voassem para o mar. Parece que vai voltar a chover. Carimba.
As senhoras mostram receio em descer pela escada de cordame, em trocar um espaço a que apesar de tudo já se haviam habituado por esta insegura promessa de chegar a terra firme. Embora a costa esteja próxima, o mar é aqui mais escuro e oleoso, de certa forma mais sinistro.
Sorri o comandante, segurando-lhes o braço para que ganhem confiança; riem mais abertamente os marinheiros que, em baixo e segurando o corrimão, as incentivam com gestos a que desçam sem temor. Elas temem o mar e os sorrisos destes homens rudes.
Descem por fim os dois estrangeiros e o polícia, descem as malas e os baús (um quase se perde, o seu peso surpreendeu quem o transportava), e a chalupa solta-se do casco da galera e larga a braço vigoroso dos remadores, lutando com as piores ondas, aquelas que já bateram no muro do cais e voltam sem tino, enfurecidas pela descoberta de um limite.
Cantam os marinheiros, uma toada que incute neles a força de remar e que os recém-chegados não sabem distinguir se é alegre, se um lamento. Sobe e desce o cais de pedra a uma certa distância, o mesmo cais onde, da mancha que era a multidão, vão surgindo agora largos acenos e cada vez mais nítidas feições, chapéus e bengalas, bigodes, oleados para proteger da chuva à mistura com os troncos húmidos e nus de mais marinheiros que, de mãos esticadas, aguardam que lhes sejam atiradas as cordas para prender a chalupa às grossas argolas de ferro do paredão.
Com o ondular da terra firme na visão, volta a Edith Riggs a indisposição, nela mais forte ainda do que o medo. Segura o braço do marido com a mão enclavinhada.
Ao lado, Hans Mahrenholz, aliás Henry Miller, perscruta uma a uma as fisionomias do cais procurando descobrir um olhar particular de quem o espere.
Passam às escadas de pedra, sobem-nas e internam-se na multidão tacteando com estranheza a terra firme, quase sem se despedirem uns dos outros. Facto lamentável, tanto mais que uma viagem assim costuma criar nos passageiros uma especial intimidade.
Um homem magro, de chapéu na mão, leva o casal de missionários. As duas mulheres, seguidas por um enxame de crianças, desaparecem sem deixar rasto. Hans torna a olhar em volta, mas não há ninguém que se aproxime e apresente.
Felizmente que era rebate falso, que desta vez a chuva não voltou. Resignado, avança titubeante pela Praça 7 de Março arrastando o malão atrás de si. Finge que não escuta os homens que o seguem, pedindo-lhe com insistência que os deixe arcar com esse peso a troco de uma moeda.
O sol rompeu por entre as nuvens, é agora claro que não vai voltar a chover. E com ele um calor feroz que se junta ao peso da mala para o fazer derreter dentro da casaca ainda húmida da chuva, e agora do suor.
Olha esta praça, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes tão distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas construções encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. Leão d´Ouro, de João da Silva Alcobia, Servem-se bebidas e refeições, Asseio e prontidão.

As pessoas passam apressadas; os eléctricos, vagarosos, tilintam. À vozearia junta-se o som ritmado dos calceteiros malhando nos passeios. Oriental Kiosk, Bebidas espirituosas e sorvetes, Servem-se refeições para fora. Cheiros fortes e desconhecidos sobrevoam a praça: do querosene dos motores, da água da chuva secando ao sol, da serapilheira húmida que os marinheiros da chalupa envergavam (um cheiro que ainda o persegue), das cozinhas dos quiosques.
Continua a vaguear por ali até acabar por escolher um desses quiosques, que por qualquer razão lhe pareceu conveniente. Pavillion Kiosk de Cândido de Sousa Teixeira e dona Carlota Fornazini de Sousa Teixeira, Bebidas geladas nacionais e importadas da Metrópole, do Transval e das principais capitais europeias, Tremoços e pipis, Refeições ao gosto do cliente, Almoços elegantes. Senta-se a uma das mesas da esplanada e pede uma cerveja. Precisa de aplacar a sede que o assola, e também de pensar no que fazer.
As coisas começam mal. Glück garantiu-lhe que estava tudo arranjado, que iriam esperá-lo, que lhe dava um endereço apenas para o caso improvável de as coisas correrem mal.
Pois bem, é isso mesmo que acontece: as coisas correm mal. Passam dois polícias anafados, com grandes bigodes, olhando em volta e girando na mão os cassetetes. Na praça tornam-se todos menos veementes: esperam talvez que os polícias se afastem.
Hans fixa os olhos nos rebordos curiosos dos telhados dos quiosques, nas delirantes estalagmites, flores-de-lis, dragões, parras e perversos anjos; depois, na cerveja que tem na frente. Imagina e lembra, faz as suas contas. Amaldiçoa Glück.
O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e ameaças; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos à superfície; a luz da lua lambia os canos das espingardas. É isso ainda que vê nestes edifícios, nos postes, nos sofridos corpos que são as árvores urbanas, no inquietante padrão repetitivo das cercas de ferro forjado e da calçada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos anúncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimulação.
Em frente, um deles anuncia em grossas letras vermelhas e negras: Teatro Varietá (African Theatres), Repetição das melhores películas da semana em matinée especial: «Sylvia do Serviço Secreto» (fita policial em 5 partes), «Testemunha Silenciosa» (drama em 5 partes), «Quando as más-línguas falam» (drama em 5 partes).
Tudo o que é anunciado lhe parece de duplo sentido, as pessoas movem-se com inconfessados propósitos, a cidade é um prolongamento do mato. F. Bridler & Cia Lda, Vendas por atacado de toda a espécie de fazendas, Artigos diversos, Bebidas, Géneros de mercearia e confeitaria, Vinhos, Charutos, Licores, Bon-bons das mais acreditadas marcas nacionais e estrangeiras, Telefones 230 e 139.
Faz um sinal ao ardina que passa, compra-lhe um jornal. Quer ver confirmada em letra de imprensa a notícia que o comandante da galera, alegremente lhes transmitira, acabada de chegar: o general Lettow-Vorbeck rendera-se!
Procurou na altura saber de pormenores, mas as notícias eram lacónicas. Aparentemente a rendição dera-se em Abercorn, na Rodésia do Norte, assim que Lettow tivera conhecimento do armistício na Europa. A resistência perdera o sentido, se é que ainda tinha algum. O comandante abrira uma garrafa de champanhe para celebrar com os passageiros, e Hans fora obrigado a beber um gole a contragosto. O gole que simbolizava a traição.
Sorri amargamente. Folheia o jornal. Segundo um despacho da Agência Havas, o presidente da República Portuguesa, doutor Sidónio Pais, foi assassinado com três tiros quando embarcava para o Porto. Ao lado, enquadrado por dois filetes grossos, um anúncio dos milagrosos produtos Melcin. Curam-se todas as doenças secretas e doenças de pele, o nosso maravilhoso tratamento nunca falha, mesmo nos casos desesperados, Melcin é um purificador de sangue de força dupla que pode curar V. Excia rápida e permanentemente de doenças embora de longa data, Quer padeça de dores na garganta ou em qualquer outra parte do corpo, de manchas da cor de cobre ou escamas, de sífilis ou de eczemas, o nosso preparado Melcin curá-lo-á, A garrafa incluindo porte custa 21 xelins, Pedidos a Treye Pharmacy, Commissioner & Treye Street, Box 5595 Joanesburgo, A Tintura Melcin cura as manchas na cara, sarna e qualquer doença de pele, custa 3 xelins e 6 pences cada boião.

Vira a página, suspirando. Será que o Melcin serviria para lhe limpar a alma? Dá enfim com uma notícia curta.
Nota Oficiosa. A Nossa Acção Contra os Alemães em África. Telegrama recebido de Sua Excelência o Comandante em Chefe das forças aliadas operando contra a África Oriental Alemã, General Van Deventer: «Na conclusão das operações na África Oriental agradeço muito sinceramente a V. Excia pelo pronto auxílio que V. Excia sempre me concedeu de bom grado. Lembrar-me-ei sempre com orgulho que tive a honra de comandar tropas portuguesas cooperando com as minhas na campanha. Rogo aceite felicitações pela gloriosa vitória das armas aliadas sobre um inimigo comum, vitória que estou certo estreitará ainda mais os laços que sempre nos ligaram à nossa mais velha aliada, e transmiti os meus melhores agradecimentos aos comandantes, tropas e funcionários civis portugueses, na África Oriental Portuguesa, pelo seu valioso trabalho na Campanha de 1918.»
E, em seguida, a resposta do Governador-Geral:
«Agradeço a V. Excia seu amável telegrama. É meu desejo significar V. Excia neste momento a satisfação e orgulho sentidos pelos resultados conseguidos pelas tropas inglesas e portuguesas sob o enérgico e inteligente comando de V. Excia na Campanha agora terminada.»
Fecha o jornal e perde-se em divagações. Por isso quase não sentia o homem magro que se aproxima, de calções e pés descalços. Por um momento convence-se de que é quem o vem buscar. Mas não, trata-se apenas de um simples condutor de riquexó.
´Patrão, posso levá-lo onde quiser.´
Com a mão direita, Hans faz que não e finge concentrar- se na cerveja. O homem não insiste. Mantém-se porém por perto, na esperança de que o estrangeiro reconsidere.
Hans olha-o de soslaio. Realmente magro, um nariz aquilino, como se no seu sangue africano houvesse vestígios árabes ou indianos, embora remotos. Talvez mesmo chineses, a deduzir da curiosidade semicerrada com que o observa. Como confiar num homem assim?
Todavia, por algum motivo – talvez pela sua discreta atitude –, o homem desperta nele uma certa simpatia. Já viu muita gente assim. No início pareciam-lhe figuras de cartão movendo-se num cenário, figuras sem qualquer relevância. Só mais tarde, muito mais tarde, houve alguns a quem pediu protecção.
´Como te chamas?´
´O meu nome é Obede.´
´Obede, queres uma cerveja?´
Obede não parece perceber a oferta. O fosso que existe entre os dois é demasiado fundo para que ele de imediato a percebesse. Todavia, assim a que entende recusa com uma espécie de reverência. Mais por respeito do que propriamente por gratidão; pelo esforço feito pelo estrangeiro para cobrir esse tal fosso que os separa.
Volta o silêncio entre os dois. Mas por pouco tempo, dado que Obede não se satisfaz com uma única recusa.
´O patrão quer vender ouro? ´
Explora caminhos alternativos que conduzam aonde quer chegar.
´Ouro?´
Hans surpreende-se.
Obede explica que desde que a guerra acabou vêm aqui muitos estrangeiros, grande parte deles tentando vender ouro. Ele sabe de bons preços, melhores ainda se o negócio for feito com uns certos compradores que só ele conhece.
O oficial de polícia, de carimbo na mão, teria agora mais qualquer coisa a perguntar-lhe, isso se Hans trouxesse ouro para uma primeira oportunidade de negócio.

Quem será este Obede?, pergunta-se. E responde-lhe que não.
A menção à guerra inquietou-o. Ela e os dois polícias anafados que voltam a passar, girando sempre nas mãos os cassetetes. Tenta concentrar-se na cerveja.
Obede também não parece interessado em atrair a atenção da autoridade. Afasta os olhos de Hans. Mas, assim que sente a costa livre, volta a cravá-los nele.
´Se o patrão quiser ir a algum lado é só dizer. Conheço bem a cidade, não encontra um riquexó mais barato do que o meu.´
Hans fica um momento pensativo. Depois, puxa da carteira e tira de dentro dela um papel. Estende-lho.
´Conheces este lugar?´
Obede olha o papel, interessado, após o que abana a cabeça em desalento.
´Não sei ler.´
Hans volta a pegar no papel e lê em voz alta:
´Escritório de Joaquim Pereira, Rua Araújo 101, Lourenço Marques.´
O olhar de Obede ilumina-se.
´É muito perto. Posso levá-lo lá.´
´Se é assim tão perto, não preciso que me leves. Basta que me indiques o caminho.´
Obede simula um ar de espanto. É matreiro.
´Não fica bem a um branco andar pelas ruas a arrastar uma mala. Toda a gente vai olhar e achar estranho.´
O par de polícias barrigudos refugia-se agora na sombra rala da Casa Amarela, de onde lobriga a praça. Um par de pastores cuidando do seu rebanho. Hans acaba por ceder.
´Leva-me então a mala. Mas eu vou a pé.´
Obede coloca a mala no riquexó e põe-se a caminho, assobiando alegremente. Hans vai atrás dele. Deixam a praça, evitando um eléctrico que passa devagar, e internam-se numa rua estreita e movimentada. Manuel de Abreu, Comissões e consignações, Negócios por grosso e a retalho, Especialidades em bebidas tais como cognacs e whisky, Licores nacionais e estrangeiros, Vinhos verdes e maduros engarrafados ou em garrafões de 5 litros importados directamente de Portugal, Farinha de milho, luzerna, capim, farelo, etc., Oficinas de serralharia e carpintaria, Executam-se reparações e consertos em carroças e carros com a máxima perfeição para o que se possuem bons mestres, Venda de gado muar e cavalar sempre em stock.
O chão empedrado está transformado num lamaçal, as poças de água revelam o quanto choveu; em cima, pequenas sacadas de madeira e ferro forjado recortam-se contra um céu de um azul outra vez tão intenso que quase cega. Gente por toda a parte, uma verdadeira multidão caminhando em todos os sentidos e que eles têm de vencer como a um mar rebelde. Moçambique Agencies Lda, Negociantes, Expedições, desembarques, Comissões, Representantes de T. W. Beckett & Co. Ltd, Pretoria, Joanesburgo e Durban. Pelo ar voam os pregões, cristalinos e cortantes, anunciando pequenas coisas na esperança de que quem os ouça possa afinal vir a precisar delas. Jolanda, Fábrica de gelo, Águas minerais, Frigorífico, Proprietário Giuseppe Cavallari.
Obede pára o riquexó em frente a uma porta escura.

´É aqui.´
´Podias ter-me dito que era assim tão perto.´
´Eu disse que era perto.´
Hans encolhe os ombros, pede-lhe que aguarde, empurra a porta e entra. Lá dentro, pisca os olhos para se habituar à escuridão. Sobe umas escadas íngremes que desembocam num pequeno patamar para o qual dão três portas. Três possibilidades envoltas num intenso cheiro a desinfectante. Uma delas ostenta um letreiro austero: Dr Palma Callado, Sífilis e doenças venéreas, Doenças das senhoras, Clínica geral, Consultório. Das outras duas, uma está entreaberta. Bate nela ligeiramente, com os nós dos dedos. Ninguém responde. Está aqui mais fresco.
Espreita. Dá para uma sala comprida que termina em novas portas, estas com gelosias de madeira. Calcula que abram para a varanda de ferro forjado que se via lá de baixo. Dentro, três escrivaninhas desarrumadas, alguns armários encostados às paredes, tudo mal iluminado por uma luz crua retalhada pelas gelosias. No interior das tiras de luz, pequenas partículas de pó vogam lentas como minúsculos peixes num aquário. Há também um cheiro indistinto do qual fazem parte velharias, madeira escura, humidade, verniz e algum tabaco.
Apenas uma das escrivaninhas está ocupada, por um homenzinho entroncado, em mangas de camisa protegidas por essas braçadeiras de alpaca negra tão ao gosto dos amanuenses. Tem o chapéu de feltro descaído para a nuca, está concentrado nuns papéis que lê e risca e escreve.
Hans pigarreia para se anunciar. O homem vira-se, surpreendido. Talvez também um pouco receoso.
´Que deseja?´
´É aqui o escritório de Joaquim Pereira?´
´Sim, é aqui.´
´Procuro o senhor João Albasini.´
´Sou eu. O que me quer?´
´Trago instruções para o procurar. O meu nome é Henry Miller.´
O homem ouve aquele nome e parece indeciso, tomado de um certo embaraço. Levanta-se e arrasta outra cadeira para junto de si.
´Henry Miller, claro! Sente-se aqui. Não me diga que já chegou?! Claro, claro que chegou, que estupidez a minha! Estava aqui a fazer horas para o ir esperar ao barco e acabei por distrair-me. Desculpe.´
´Não tem importância.´
O homem põe-se subitamente muito sério.
´Alguém o viu entrar?´
E vira-lhe as costas para ir à varanda espreitar. Assim que escancara as gelosias a luz inunda a sala de um jorro só. É mais que entroncado, quase gordo. É mestiço. Debruça-se e examina atentamente a rua, como se procurasse algo por baixo dos sons que pairam sobre ela. Está agitado. Hans procura tranquilizá-lo.
´Não se preocupe, não vi nada de suspeito, ninguém me seguiu.´
O homem vira-se, mais calmo.
Ah, antes assim. E mais uma vez, desculpe. Perdi-me na escrita de um editorial, não dei pelo passar das horas. É para o meu novo jornal, chamado O Brado Africano, que sai daqui a dias. Leia-o e diga-me o que acha.´
Estende a Hans uma das folhas de papel. Este, surpreso com o gesto, não tem outro remédio senão pegar nas folhas e começar a ler. O título, Assestando Baterias, parece-lhe algo belicoso. O texto começa no mesmo tom.
Todo aquele que não luta pelo seu Direito condena-se voluntariamente a ser capacho dos outros. Parar é morrer. Aos povos subjugados, então, mais do que aos outros, esse dever é uma religião. Ante o Altar do Dever prostremo-nos pois e façamos por nos fazer ouvir nas nossas queixas, nos nossos brados, nas nossas súplicas! Programa..
. Para quê a explanação aqui de um programa, se todos sabem ao que vimos e o que queremos? Vamos seguir a mesmíssima senda que encetámos ao fundar O Africano em 1908.

Em seguida, o tom radical atenua-se um pouco, oferecendo uma mão a um entendimento social adequado à quadra que se vive.
Por uma curiosa coincidência este «número programa» também sai em dia de Natal – aquele em que a cristandade celebra o Advento do Justo e o calendário da República Portuguesa nos aponta para nele celebrarmos a Festa da Família – o dia da Fraternidade Humana.
Aos poucos, porém, volta o tom crispado.
Uma e outra vez nos curvamos pois ante o Presépio a pedir, para nós também, a parcela dessa Justiça, dessa Verdade e dessa Igualdade; e, como cidadãos de uma mesma Pátria, depois de beijar os emblemas sagrados nos templos, fazendo uso da Consciência – dom magnânimo de Deus – saímos destes para a vida larga da rua livre a pelejar pela doutrina igualitária de Cristo, pelo emblema da República, a pugnar pelo direito das gentes, a exigir – com correcção, com ordem, sim, mas com firmeza – o cumprimento da Lei. A Lei igual para todos é um princípio que não queremos ver traído. E por isso, e só para isso, a açodada pressa com que novamente se cerram fileiras à roda da nossa já muito gasta energia, da nossa abalada e magoada fé! É que áspera foi a caminhada até aqui e curtas as vidas para jornada tão longa. Mas… avante, e que O Brado Africano penetre em todas as frinchas das portas dos poderosos a gritar pela Santa Causa da Justiça; que nas mansardas dos pobres e palhotas desmanteladas dos contribuintes do Estado dê notícias, lhes diga que viva quem pela Justiça se deixará matar – porque não se deixar pisar é dever de todo o homem que tem noção da sua dignidade… É assim mesmo e assim esperamos que será sempre, custe o que custar!
Finda a leitura, Hans fica sem saber o que dizer. Escapou-lhe metade do sentido do texto. Quanto à outra metade, parece toda ela um desafio. Sente os olhos do homem cravados em si e não ousa levantar os seus.
´Então, o que acha? ´
Hans coça a cabeça, procurando desesperadamente ganhar tempo até que lhe chegue uma ideia.
´Não sei bem… Talvez o final esteja um pouco agressivo…´
João Albasini parece surpreso, depois pensativo.
´Acha mesmo?´
Arranca-lhe os papéis das mãos e volta a sentar-se à secretária, onde de imediato se põe a escrever. Escreve intercalando tiradas furiosas com curtas suspensões passadas a olhar o tecto, como se lá houvesse uma reserva de palavras penduradas para escolher. Esqueceu completamente o visitante. Por vezes retoma tão rápido uma frase que vêm de arrasto palavras indesejáveis, que risca com a mesma fúria com que as escreveu. O bico da pena mergulha de quando em quando no tinteiro com movimentos bruscos de ave de rapina. Ao mesmo tempo vai murmurando essas palavras como uma espécie de reza com múltiplas entoações, em busca de uma que lhe agrade a ponto de a deixar sobreviver na forma escrita. Quando as ideias se esgotam, escarafuncha as pilhas de papel que tem em volta para achar alimento com que prosseguir. Finalmente, com uma última mirada, parece dar-se por satisfeito. Passa o mata-borrão em cima da folha, como que para amansar o texto, levanta-se e estende-a a Hans.
´Veja agora.´
Hans não tem outro remédio senão voltar a ler.
Mas hoje é dia de Natal… Haja fraternidade… Boas-Festas e abracemo-nos, portugueses, num grande amplexo neste Natal doloroso, triste, pesado de negras sombras, em que estoiram tiros fratricidas e se jogam os nossos destinos numa Grande Conferência… na qual, pela certa, só será salvo, e ficará evidente e triunfante, o velho aforismo de que lobo não come lobo..
. E então, que acha agora?´
´Parece-me bem, embora termine de um modo um pouco enigmático.´
João Albasini sorri.
´É para os manter entretidos a imaginar onde raio quero chegar.´
´Ah.´

Depois, arranca subitamente as mangas de alpaca dos braços, atira-as para cima da secretária e estende a mão na direcção do bengaleiro, em busca de um casaco de linho imaculadamente branco. Veste-o, ao mesmo tempo que procura mais qualquer coisa em volta.
´Ora esta!?´
´Que foi?´
´Pocuro o meu chapéu, não sei onde o deixei.´
´Tm-no na cabeça.´
João Albasini leva a mão à cabeça.
´Tem razão, que estupidez a minha! Vamos então. Eu levo-o ao hotel e aproveito para deixar o texto na tipografia.´
Abandonam o escritório. João Albasini vai na frente, descendo os degraus com uma agilidade surpreendente. Falando e gesticulando sempre.
´Não tem bagagem?´
´Deixei-a aqui à porta, com um condutor de riquexó.´
Saem para a rua, onde Obede aguarda sorridente. João Albasini olha-o com certa surpresa, após o que lhe atira uma moeda.
´Leva a bagagem do senhor ao Hotel Clube. Já lá vamos ter.´
E fica pensativo a vê-lo partir. Depois, põe-se subitamente a caminhar num sentido diverso, com tal resolução que Hans tem dificuldade em segui-lo. De quando em quando leva a mão à cabeça, a certificar-se de que não esqueceu o chapéu. Caminham pelas ruas agitadas desta cidade brilhante como se o fizessem pelos carreiros do mato: os edifícios, árvores; os transeuntes, capim. Hans vai no entanto mais tranquilo, por não ter de ser ele a escolher, em cada cruzamento, uma alternativa. É reconfortante limitar-se a seguir aquele apressado casaco branco, entregar-se nas suas mãos. Ouve os nomes das ruas, palavras opacas sem nada que o ajude a desvendá-las; vê passar uma mesquita. Atravessam uma rua larga. António José Escudeiro, Importador e exportador de géneros nacionais e estrangeiros, Comércio geral, Especialidade em bebidas engarrafadas, Prontidão e seriedade. Saltitam entre as poças de chuva. João Albasini pragueja para os automóveis e caleches que descuidadamente as pisam, salpicando de lama os transeuntes. Zela pelo seu casaco branco.
Nova avenida larga, que cruzam, e entram enfim num edifício amplo, o Mercado Municipal. Percorrem os húmidos caminhos de pedra entre as bancas de produtos que João Albasini vai inspeccionando atentamente, sem no entanto abrandar o passo. É como se os vendedores, organizados por raças, tomassem parte no empreendimento colectivo de revelar as cores que existem na paleta da natureza. Os europeus propondo uma vasta gama desde os verdes dos legumes aos vermelhos das carnes, os indianos ripostando com a gradação completa dos temperos, do amarelo ao castanho passando pelo laranja vivo e por um vermelho de fogo. Lugar Económico de Pedro de Melo no Mercado Municipal, Chouriço de carne, morcela, farinheira, mouro e sangue, Carne salgada, Feijão de todas as qualidades, Azeitonas do Douro e Elvas, Frutas verdes, secas e cristalizadas, Leite fresco para doentes e crianças a 500 réis o litro, Leite do Umbelúzi a 400 réis o litro, Encarregam-se de levar as compras a casa dos fregueses.
Ao mesmo tempo, de costas, Albasini vai falando sem cessar, o que incute em Hans, para além do referido conforto, um difuso sentimento de inferioridade. Refere querelas municipais, amaldiçoa portarias a seu ver completamente injustificadas, desnuda intrigas com um trejeito irónico, convida o interlocutor a tomar partido. E Hans sempre sem saber o que dizer.
O homem voa sobre os assuntos como uma águia, embora com inflexões súbitas de passarinho. José de Carvalho Junior, Negociante de carnes verdes, Carne do Transval, Prontidão, asseio e correcção, Talho do Mercado, Lojas 17 e 18. Estão já nas traseiras do mercado, às quais se segue um baldio pejado de vendedeiras negras sentadas no chão enlameado, expondo os seus produtos sobre esteiras de palha semiapodrecida ou pequenas caixas de madeira, desta feita sem quaisquer anúncios que os nomeiem – montículos de frutas, legumes e folhagens, muitas delas desconhecidas, pequenos potes de barro com um arroz amarelo, milho grosso, gergelim, amendoim, piripiri. Aqui, porque mais desordenadas, as cores parecem traduzir com rigor a espontaneidade da natureza.

Evitando cuidadosamente as poças de água do chão, João Albasini prossegue a sua inspecção.
´Explique-me então qual é exactamente o objectivo da sua visita. É que a mensagem que o nosso amigo me enviou, anunciando a sua vinda, não era inteiramente clara…´
Debruça-se para pegar numa manga, apalpa-a, leva-a ao nariz e devolve-a ao monte, decepcionado.
´Vê-se que foi colhida antes do tempo. Ainda faltam umas semanas para a altura delas. Mas, ia dizendo?!…´
Tal como o polícia na galera, também Albasini quer saber das suas intenções. Ao que veio. Muitas vezes Hans reviu com Glück estes momentos, o que lhe perguntavam, como respondia. As traseiras confusas do mercado – onde se torna impossível encontrar um padrão simples que seja – fazem lembrar a maneira como as tropas estacionavam após os rigores do combate. Como se à meticulosa organização devesse seguir-se o caos para ficar reposto o equilíbrio. Esforça-se por expulsar estes pensamentos, a fim de ser capaz de responder.
´Oficialmente sou um empresário em sondagem de oportunidades de negócio, mas na verdade venho ao serviço de um jornal sul-africano, o Rand Daily Mail. Pretendo escrever uma reportagem sobre as condições de recrutamento dos trabalhadores das minas.´
Assim mesmo, tal como Glück lhe sugerira que dissesse.
´Ah, interessante. Estamos entre jornalistas, portanto. Entre jornalistas com uma causa, o que torna as coisas bem mais fáceis. Esta parece boa, não acha?´
E estende a Hans uma enorme papaia ainda esverdeada. Hans segura-a, sem saber o que dizer. Leva-a ao nariz, fazendo um ar entendido.
João Albasini larga uma sonora gargalhada.
´As papaias não cheiram, meu amigo. A elas há que apalpá-las, descobrir-lhes pelo peso e pela cor se estão no ponto. Acho bem que faça esse trabalho, e que o faça desta maneira, vendo de perto como vivem as pessoas. É preciso cheirar o suor do medo e da miséria, conhecer-lhes a cor, para sabermos do que falamos.´
E devolve a papaia à vendedeira, insatisfeito. Talvez por estar demasiado apalpada.
A mulher encolhe os ombros, resignada. O dia está no fim, falta-lhe vigor para argumentar. Atrás dela pulsa um pequeno volume envolto num pano velho, depositado sobre uma esteira no chão. Pelo calor e leve tremor que dele emana, adivinha-se ali uma criança. A mulher baixa-se e embala-a levemente, sem deixar com isso de ter o caixote com os seus produtos debaixo de olho.
Ao lado, mais mulheres fazem o mesmo: vendem as suas coisas enquanto embalam também as respectivas crianças, todas elas enroladas em panos velhos; montículos de frutas ou legumes, brilhantes de uma água suspeita com que constantemente os aspergem para que ao menos a aparência do viço não se perca. Compra-se pouco, a avaliar pelo que está ainda envelhecendo nos improvisados mostruários. Algumas iniciam a recolha dos seus produtos, que depositam em grandes cestas que levarão à cabeça (às crianças, levá-las-ão às costas). Fazem-no com muito cuidado, para amanhã os poderem voltar a mostrar com o aspecto que têm hoje. Como se fossem imunes ao passar do tempo.
Por toda a parte fumegam panelas amolgadas e negras de fuligem em fogos feitos no chão, panelas que elas espreitam sempre que as crianças lhes dão descanso. Há também outros fumos de origem mais difusa, todos eles soltando os respectivos cheiros acres. Fumos do calor que se acumulou no chão e agora se escapa, primeiras manchas da noite que desce.
´Compre-me a papaia, patrão. Para ajudar a criança.´
Hans surpreende-se com a serenidade com que estas palavras são sopradas, com a firmeza com que o atraem para um mundo que desconhece. Com este derradeiro esforço da mulher: Compra-me a papaia e revelar-te-ei o segredo destas panelas fervendo a nossa sobrevivência, o segredo destes pequenos volumes enrolados em panos velhos por cima de uma qualquer esteira, desafiando, obstinados, o destino.

No mato da sua lembrança estes vultos eram meros adereços dos combates, aqui deixa-se prender pelo fogo do seu olhar. Não tem pois como não levar a mão à carteira, para pagar. Houve alturas recentes da sua vida em que uma papaia destas seria uma preciosidade. É nisso que pensa para justificar o gesto. Suspeitasse disso a mulher e sem dúvida pediria três vezes o que pede por ela.
Entretanto, João Albasini já vai longe. Inspecciona os produtos de uma outra mulher, encarando duvidoso um pequeno monte de folhas verdes. São folhas de cacana, e a infusão que a partir delas se faz vai atenuar-lhe a dor que sente nos rins de quando em quando, sobretudo depois de longas horas sentado à secretária a escrever. Parecem-lhe bem, pois com um gesto seco indica à vendedeira que as embrulhe, levando, também ele, a mão ao bolso.
Sem dúvida que o mercado é um lugar de encontro entre dois mundos, um deles repetindo sem cessar o gesto de tirar a carteira, o outro embrulhando e despedindo-se de pequenas coisas trazidas sabe-se lá de onde.
´Quer então ver como se tratam aqui os pretos…´
Vira-se, levemente intrigado com a falta de resposta.
Hans não o ouviu, está ainda lá atrás acertando as contas da papaia. João Albasini aguarda que ele se aproxime, observa sem comentar uma papaia que quase foi sua, despropositada nas mãos do estrangeiro. No seu silêncio talvez haja algum despeito, uma surda irritação por Hans não ter seguido o seu conselho. Há por ali papaias bem melhores que aquela. Em seguida, dirige-se para os limites daquele emaranhado de gente onde tudo cabe menos os diálogos cristalinos (o som que dele emana é apenas um leve murmúrio indistinto, a reza baixa das transacções).
Chega à rua e entra nela. E. Nichols, Único agente para toda a Província de Moçambique dos Automóveis Ford, Carros de 5 assentos e camiões, Extraordinária redução de preços. Caminha depressa, sem se certificar se Hans o segue. Caminha e vai falando.
´Amanhã é um bom dia, dia de chamada. Eu venho buscá-lo para o levar lá.´
´Chamada?´
´Sim, dia de virem buscar quem precisam, de selecção daqueles cujos braços parecem mais fortes, cujos peitos musculados maiores garantias dão de albergarem pulmões sãos.´
´E os restantes?’
´Quem?´
´Aqueles que não são recrutados?´
Albasini ri da ingenuidade do estrangeiro. Intimamente, agradece-lhe porém esta ideia dos indígenas recusados, excelente tema para um futuro editorial. Vai até imaginando o respectivo texto, enquanto caminham.

Para onde são então precipitados os milhares de indígenas que não reunem as condições exigidas? Precipitados ao vão e vazio da Era inicial, protoplasmas que depois se aderirão e agregarão e formarão o protoplasto da nova humanidade que irrompe do tumulto belicoso empunhando os estandartes da libertação, caminhando triunfante e seguro sob a cadência estridente da Internacional?
E sorri da força do texto.
Mudam de rua. Na Avenida Arriaga o movimento de pessoas é bem menor, talvez por o dia estar chegando ao fim. Simão & Paizana, de José Dias Simão & Cia, Especialidade em carnes de porco, azeite e toda a qualidade de legumes recebidos directamente da Província, Sola, cabedal e pelicas recebidas directamente das fábricas, Armazém na Av. Central (antigos escritórios de Pinho, Santos & Cia, e Ribeiro e Levy). Em cima deles, o céu é uma violenta mancha cor de sangue. Apesar de ser mais alto, Hans tem de fazer um esforço para acompanhar a passada do homenzinho. ‘Diga-me, porque não comprámos dentro do Mercado? As coisas pareciam ali tão mais limpas, tão mais bem apresentadas…’ ‘Não comprámos lá porque é preciso dar uma oportunidade aos de fora, àqueles que não têm licença de vender lá dentro.’ A distância não é grande, depressa chegam à entrada do hotel. Em cima, um grande cartaz anuncia: Clube Hotel, de Lage & Selig, Um dos melhores edifícios da cidade com fundas vistas para o mar, Próximo dos jardins e repartições públicas, Carros eléctricos à porta constantemente, Fornece em condições económicas, Serviço de cozinha à portuguesa e inglesa, Todo o pessoal europeu completamente habilitado, As mais higiénicas instalações de luxo e óptimas casas de banho.
Sobem os onze degraus e, na varanda, João Albasini estende-lhe a mão num gesto de despedida.
´Está entregue. Desculpe a pressa, mas tenho de passar ainda pela tipografia. Amanhã venho buscá-lo.´
Num impulso, Hans estende-lhe a papaia.
´Leve-a, dê-a às crianças lá em casa. Estarei amanhã à sua espera.´
João Albasini recebe a papaia sem uma palavra. Revira-a, observa as manchas e pisadelas que o levaram a recusá-la. Encolhe os ombros. Vira as costas e desce os degraus saltitando, pondo-se a caminhar velozmente pela avenida abaixo. É uma figura alegre e ágil, uma mão segurando a papaia e as folhas, a outra aconchegando o bolso dentro do qual leva o editorial.
* * *
Arruma as suas coisas no quarto, toma um banho e desce para jantar. Segue absorto os gestos dos criados que acendem, um a um, os candeeiros das mesas e das paredes. Inspira fundo. Sente no ar um leve cheiro a petróleo, acre.
São múltiplos os caminhos que tem na frente, o problema é que não consegue ver aonde vão dar. Glück sugeriu-lhe que começasse por um certo Rapsides, e que tivesse muito cuidado com ele. Todavia, para ter cuidado com ele, terá primeiro de o encontrar, o que sabe ser muito difícil!
Enrola pequenas migalhas de pão entre os dedos, sobre a toalha de linho, imune ao som dos talheres que começam a ouvir-se em volta, à agitação das primeiras mesas e ao passar atarefado dos criados com as bandejas ao ombro.
Pela descrição, Rapsides terá uma grossa cicatriz desde a orelha até à boca, uma cicatriz que lhe distorce e congela a expressão. Embora não o impedisse de manifestar as disposições mais gerais – se estava alegre ou irado, por exemplo – essa cicatriz tornava impossível saber de estados de alma mais finos como a ironia ou o sarcasmo. Difícil, portanto, pormo-nos em guarda. Hans que tivesse muito cuidado com esse tal Rapsides!
Manda retirar a sopa quase sem lhe tocar, mordisca o bife com as palavras de Glück a rondar-lhe as ideias. Acaba por desistir de comer. Está exausto. Pede um brandy. Pede também um fósforo para o charuto, que o criado, pressuroso, acende. Agradece e levanta-se, de cálice na mão, e é nessa altura que nota um aceno vindo de outra mesa, perto da janela.
Tal como haviam desaparecido no nada, do nada reaparecem as suas duas companheiras de viagem na Ferreira. Não tem pois como evitar dirigir-se-lhes.
A mais nova, Florence Greeff, é também a mais extrovertida. No barco, imitava as indisposições da esposa do pastor Gillet, interpelava o comandante segurando-lhe o braço com desconcertante intimidade e cercava o próprio Hans com embaraçantes jogos de palavras. Aqui, foi ela que acenou e é ela que, sem pejo, encara Hans de cima a baixo, como se procurasse avaliar que marcas um dia nesta cidade deixara na sua figura.
A seu lado, Natalie Korenico, mais marcada (conquanto se vejam nela traços de algum fulgor), é o símbolo da polida e conveniente distância.
Hans não vê naquela mesa o engenheiro do caminho-de-ferro e o recrutador de indígenas que, no barco, elas tão pomposamente anunciavam. Duvida agora que estes tenham alguma vez existido e suspeita que outra história correrá atrás daquelas belas máscaras. Por outro lado, a sua desconfiança leva-o a dar-se conta de que elas poderão vê-lo da mesma maneira. Também ele tem outra história correndo atrás da sua própria máscara, embora não saiba ainda bem qual seja. Albasini, Rapsides e, por detrás deles, Sebastian Glück. Não ousa, portanto, perguntar.
No sorriso irónico que não larga nunca os lábios de Florence Greeff, Hans vê confirmada a sua suposição: não há engenheiro algum, nem tão-pouco um recrutador de indígenas. Ela pergunta-lhe se já achou alguma possibilidade de negócio. Mas, como responder com a verdade a quem parece sustentar tão bem mentiras, ironias, duplos significados? Sobretudo depois de Florence, em resposta à sua anunciada intenção de dar um passeio, lhe dizer que tivesse cuidado com a noite; que aqui as ruas, por detrás da sua placidez, escondem muitas armadilhas.

Hans desvia o olhar por um momento, seguindo com ele um dos criados que tropeçou e quase deixava cair a bandeja. Acaba por responder que não, que não há ainda qualquer negócio em vista, que continua em sondagem, não sabe por quanto tempo. Afinal, um dia é muito pouco para se descobrirem os segredos de uma cidade; as possibilidades que, como ela própria deu a entender, as suas ruas encerram.
Cansa-se dos jogos de palavras, levanta-se. Precisa de ar. Pede licença às duas para se retirar. Chega à varanda e fica ali um tempo ouvindo os grilos e esperando uma lufada de ar fresco que não chega. O tempo abafado e os sons da noite trazem-lhe à lembrança um outro tempo, tão distante e ao mesmo tempo tão recente. Leva o cálice aos lábios, dá um trago fundo e sente um fogo alastrando velozmente pelas veias.
Larga o cálice no parapeito, desce os degraus e segue pela berma da avenida como se sentisse necessidade de fugir às casas e às luzes numa urgência de escuridão. Noutras circunstâncias, seria numa altura como esta que alguém se aproximava para lhe transmitir uma versão fantasiosa do passado de Glück. Versão que ele encararia com profundo cepticismo. Passa junto de dois ou três riquexós estacionados, cujos condutores, cansados de esperar um estrangeiro caprichoso que deles precisasse àquela hora, dormitam. De longe, um deles parecia Obede. A mesma silhueta. Mas é afinal mais gordo e velho. Hans transforma o gesto que quase ia fazendo num cumprimento impessoal.
´Boa noite.´
Estremunhados, os homens surpreendem-se. É natural que pensem ser alguém necessitado dos seus serviços. Que branco se daria ao trabalho de uma tal atenção a não ser que tivesse em vista uma corrida? Levantam-se, atabalhoados, cada qual querendo ser o primeiro a servir. Mas, para surpresa geral, Hans já vai adiante, sinal de que cumprimentou por cumprimentar.
Caminha depressa. No chão, um som cavo e uma ligeira vibração anunciam a passagem de um último eléctrico a recolher, vazio. Volta novamente a chuva, uma chuva miudinha que ora não se vê, ora – se lhe bate a luz de um candeeiro – é um pó de ouro descendo lentamente até ao chão. Na sua frente surge um muro caiado que lhe chega pelo ombro. Segue a eu lado até que este se interrompe, deixando ver, do outro lado de um velho portão enferrujado, um mato com cheiros ue fazem lembrar os cheiros que traz no pesadelo. Põe-lhe as mãos e o portão cede com um ruído de gonzos que fere o silêncio. Deixa a rua e penetra no capinzal, sem saber se é um amplo jardim maltratado, se o início do mato (não consegue ver-lhe os limites). Aqui e além, algumas árvores, mais capim. Caminha sempre, sentindo em volta uma natureza cada vez mais altiva e desgrenhada. Por vezes sobrevoam-no as copas negras das árvores e, perdido nesse labirinto alto, um morcego de voo cego e desvairado; outras, é simplesmente o céu húmido e quente. Esforça os olhos para não perder o caminho que pisa, cheio de curvas, mas sente um chão fofo debaixo dos pés, enlameado, sinal de que já o perdeu.
E se encontrasse o tal Rapsides nesta altura, o que lhe diria? Boa noite, o coronel Sebastian Glück sugeriu-me que falasse consigo? Um absurdo. Antes de o procurar terá portanto de saber bem o que quer dele, com que tom lhe falará.
Leva o resto do charuto aos lábios e sente-o molhado. Deita-o fora. Estranha cidade esta, onde a chuva vai e vem sem se fazer anunciar e que se deixa atravessar assim, até ao âmago, por um mato quase virgem (fortaleza recente mas já com fundas brechas). Sente, contudo, neste mato uma diferença em relação ao outro que ainda não consegue precisar. Será das luzes que por vezes descortina entre as árvores, mantendo a noite em respeito? Será dos sons, aqui mais delicados, distintos dos sons roucos e repentinos das feras, dos gritos agudos das aves de voo longo? Será do sopro constante de um vento que lá desconhecia limites e que aqui não passa de um suspiro?
Aguça o ouvido, à procura dessas diferenças, e é então que nota um estalido de ramos que não vê, um ofegar que não é o seu, um vulto que não sabe se é uma árvore retorcida.
´Quem está aí?´
Mas o único movimento é o das folhas vergadas pelo peso da chuva miúda, o único som é o do ranger dessas folhas quando se vergam. Logo em seguida chega-lhe um novo som, cortante, de vidros partidos a seus pés. Baixa-se, tacteia o chão e encontra, entre esses restos de garrafa, um bocado de papel. Desdobra-o. Quer lê-lo mas não tem fósforos. Olha em volta.
´Quem está aí?´
Outra vez o movimento das folhas e o som do seu farfalhar. O sopro do vento num capim que não se vê. No mato os acontecimentos eram repentinos e brutais; aqui, os mistérios são mais leves, mais rendilhados. Parece que vai voltar a chover.
Procura regressar por onde veio mas não dá com o caminho. Quase corre sobre o chão enlameado até descortinar o vulto comprido do muro. Segue ao longo dele, ofegante, parece-lhe que não acaba nunca. Dá enfim com o portão, fechado. Não se lembra de o ter fechado quando entrou. Será o mesmo portão? Empurra-o e ele não se move, sólido como uma rocha. Sente uma necessidade imperiosa de deixar aquele lugar. Trepa pelo muro, passa as pernas para o outro lado e, com um salto, está novamente na avenida. A chuva é já forte, embora quase silenciosa.
Volta-lhe a sensação de segurança. Examina os sapatos em baixo de um candeeiro, completamente enlameados. Aproveita a luz para ler o papel, onde está escrita uma única palavra:
´WENELA.´
Está encharcado. Pragueja, retomando apressadamente o caminho do hotel. Chega aos degraus e sente, mais do que vê, uma presença. Do outro lado da rua os condutores dormitam por baixo dos riquexós. Nenhum daqueles vultos parece ter acabado de chegar, em nenhum nota o ar ofegante de quem tivesse corrido atrás de si para lhe atirar uma garrafa com uma mensagem dentro. Levanta a cabeça para olhar uma janela vazia do primeiro andar.
Será que foi impressão sua ou estava ali, recortada contra a luz trémula do quarto, a silhueta de Florence Greeff? Será que imaginou, ou também ela está sofrendo o calor infernal deste Dezembro?
Entra, fingindo que não a viu.

(fim do 1º Capítulo)

Para ler o resto, compre-se o livro. 15 euros e já está na rua em Portugal. No resto da Lusospeak não sei.

MOUSINHO E GUNGUNHANA, 1891, 1896

Na varanda da residência do Comissário Régio. Sentados da esq p/dir: Vieira da Rocha, Baltazar Cabral; Luiz Gaivão; Maria José Mouzinho de Albuquerque e Joaquim Mouzinho de Albuquerque. De pé: Conde da Fonte; Aires de Ornelas; ordenanças e criados

Gungunhana e sete mulheres, após detenção

Gungunhana, 1891

Mousinho de Albiquerque posa com um civil

por ABM (1 de Março de 2010)

Pensei que os exmos leitores haveriam de gostar de ver a cara dos respectivos e das respectivas.

fonte: IICT, com vénia

Memórias de um tempo colonial

No Entre as Brumas da Memória Joana Lopes deixa duas notas das suas memórias sobre o Moçambique colonial: o seu padrinho Karel Pott e as Marchas Populares de Lourenço Marques.

jpt

A POLANA E O HOTEL POLANA

Construções na praia da Polana há cem anos. Ao fundo a colina da Ponta Vermelha. Note-se que a actual marginal foi roubada às colinas e que naquela altura não era possível vir da baixa para a praia da Polana a não ser a pé pela praia ou, mais tarde, pela Estrada do Caracol e pelo eléctrico que descia uma rampa atrás do Clube Naval que hoje creio que está fechada.

por ABM (Cascais, 15 de Fevereiro de 2010)

Na noite em que o Senador JPT nos brindou com a periclitâncias do termo machimbombo, eu coloquei uma outra questão: e de onde veio o nome “Polana”?

Sendo que eu nasci, cresci e vivi na Polana (bem, no dia em que nasci meus pais estavam acampados no aquartelamento de Boane, onde o pai BM era um tenente miliciano. Mas a mãe BM tinha vindo à cidade ver o filme Casablanca com uma amiga e já não foi para o cinema, foi directa para o Hospital Miguel Bombarda onde nasci às 20 horas de 30 de Janeiro de 1960).

Primeiro, um ponto de ordem. Antes da independência, aquilo a que se chamava Polana era uma área geográfica muito específica da cidade, circunscrita (e escrevo isto de cabeça) a Norte pelo Hotel Polana e pela chamada Carreira de Tiro (ainda hoje há uma farmácia com esse nome, é para aí), a nascente pelas barreiras e a Rua Friedrich Engels (acho antigamente se chamava a Rua dos Duques de Connaught mas não tenho a certeza, é aquela onde fica o Miradouro), a Sul pela Ponta Vermelha (que era literalmente uma língua de terra, do Palácio até às barreiras) e a Poente pela Maxaquene, que era mais ou menos na rua onde fica a Pastelaria Princesa.

Hoje não percebo nada. Fala-se em Polana Cimento, em Polana Caniço, não entendo muito bem a razão para o realinhamento dos bairros mas também não interessa.

O importante é que o nome está lá há muitios anos.

Mas então, de onde vem?

“Polana” não é um termo ou um nome português. Nem é referenciado em parte nenhuma na história dos portugueses.

Uma consulta na internet indica que em polaco, “polana” é o nome dado a uma clareira numa floresta – sendo que “polanski” é o nome de alguém que vive nessa clareira. Em grego, supostamente, deriva de Apollina, nome feminino do nome de (por exemplo) o deus grego Apollo, significando “sol”.

Mas poderá ser um nome africano? mais precisamente, houve um régulo chamado Polana? Numa peça publicada pelo inolvidável João Craveirinha sobre Maputo (na qual conclui que a capital de Moçambique devia ser mudada para o centro do país), o sobrinho do Sr. José Craveirinha a certa altura escreveu o seguinte:

O mesmo Lobato fazia alusão às invasões vindas do norte, dos grandes Lagos, foz do rio Nilo Branco, de que nos falaria outro grande historiador de Moçambique, Caetano Montez quando referia que: “(…) a gente do Tembe foi invasora como também o foi a de Mpfumo (…) Maputo é um ramo da dinastia do Tembe: Matola é um ramo da dinastia de Mpfumo (…)” Caetano Montez, ainda na sua obra “Os Indígenas de Moçambique”, diz (…) A casa da Matola (Matsolo) provinha de In-lha-rúti (Mpfumo), o invasor das terras da margem norte da baía, vindo com a sua gente de Psatine (Suazilândia). Seus filhos Mpfumo, Polana, Massinga e nuá-Intiuane repartiram as terras como vassalos do pai. Nuá-Intiuane (deu Tivane) ficou com as que denominariam Matola.

Segundo estas indicações, é então plausível que os terrenos onde dantes se situava a “velha” Polana, poderão ter pertencido ao tal Polana, filho do tal invasor que que veio da Suazilândia não se sabe bem quando. Mas então, cadê do Sr. Polana? Haverá registos de transacções imobiliárias dessa altura?

Na sua dissertação para o grau de Doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1979, Maria Clara Mendes a certa altura refere a compra, em 1914, pelo Estado, dos terrenos compreendidos entre “a Rua de Nevala, a praia da Polana e a Rua Bérrio, que compreendem actualmente a Polana e a Sommerschield”.

Num detalhado relato sobre a construção, concluída em 1922, do Hotel Polana, a que tive acesso, é de facto referida a aquisição dos terrenos onde o hotel hoje se situa ao Estado pela Delagoa Bay Lands Syndicate, a empresa que ganhou o contrato para a sua construção.

Só que, que eu saiba, o nome Polana não é nada comum nos grupos étnicos que entravam e saiam da região da Baía – nem me parece ser particularmente “suázi”. Mas apelo aos exmos leitores que saibam alguma coisa que ajudem a fechar este puzzle.

O HOTEL POLANA

Hotel Polana, imagem de um postal da época

Sobre este tema, não vou inventar a roda, pois, enterrado algures na Geocities há um excelente artigo de José Maria Mesquitela que, com profunda vénia, cujo texto transcrevo em baixo. De notar que este texto deve datar cerca dos anos 90, antes da concessão do Hotel Polana ter sido cedida à organização Aga Khan e o seu nome ter sido alterado para Polana Serena Hotel (e lamentávelmente, o edifício pela primeira vez ter sido pintado de creme em vez do habitual branco).

O texto:

“A construção de um grande e luxuoso hotel para servir o turismo rico foi ideia que nasceu cerca de 1917 em Lourenço Marques.Como todas as iniciativas audaciosas, teve defensores e detractores. Havia altos interesses em jogo.

Longa fora a jornada, primeiro que a ideia se concretizasse e ao fazer a história do empreendimento de forma alguma se pode esquecer o nome do coronel Alexandre Lopes Galvão que por ela se bateu. Ele próprio se referiria mais tarde, a esses tempos difíceis, em carta de 26 de dezembro de 1950, que escreveu a um amigo de Lourenço Marques :

…” Chego a Lourenço Marques em 1917, verifiquei que não havia ainda um hotel para receber ´pessoas de categoria, que nos visitavam. Passei a fazer parte do Conselho de turismo, onde pontificava o comandante Augusto Cardoso, dono do Cardoso Hotel.

De variadíssimas inssistências para que o Conselho tratasse de arranjar para Lourenço Marques um hotel decente, cheguei à conclusão que o assunto não interessava ao Conselho.

Apareceu-me nessa altura Adriano Maia, que me disse que os seus amigos do Transvaal estavam dispostos a fazer um grande hotel em Lourenço Marques, em determinadas condições. Ouvi-o, ouvi as condições, que me pareceram aceitáveis e levei o caso ao conhecimento do Massano de Amorim. Este achou bem e autorizou-me a negociar.

O Comandante Cardoso, ouvindo falar do caso, foi para o Conselho de Turismo, e diz: Ouvi dizer que há negociações para se fazer um hotel. E, olhando para mim, acrescentou: Alguém sabe dizer alguma coisa do que se passa? Resposta minha: Eu sei, mas não estou autorizado a dizê-lo. Mas como o Conselho despacha directamente com o Governador-Geral, é-lhe fácil saber o que há.

Na noite desse dia recebo no Hotel Cardoso uma carta do Comandante Cardoso dizendo cobras e Lagartos ! e cortando as relações comigo.

Mostrei a carta ao Mariano Machado e este pediu-me autorização para ir falar no assunto ao Comandante. E foi. Vem com a resposta de que jamais reataria relações comigo.

Levadas as negociações a bom termo, os capitalistas foram a Lourenço Marques e o Inspector Góis Pinto foi autorizado a lavrar o contrato.

O Comandante Cardoso perde a cabeça e faz um manifesto patriótico ap povo de Lourenço Marques, assinado por ele e pelo arrendatário Luís Boschian, Italiano.

O Massano, nessa altura, foi para o Norte da Colónia e ao chegar a Inhambane recebe um telegrama assinado pelo comandante Cardoso e creio que pelo Boscgian, protestando contra a construção do hotel. O Chefe de gabinete foi quem lhe deu conhecimento e o Massano de Amorim disse-lhe: “responda-lhe dizendo que vá ver da…”

Em resumo: se Lourenço Marques passou a ter um belo hotel, inaugurado em Março de 1922, a mim o deve.

Ficou a representar os capitalistas o velho Leão Cohen. Eu estava na África do Sul, nessa ocasião, onde tinha ido com Freire de andrade na Missão Diplomática que havia de negociar uma nova convenção. Pois ninguém se lembrou de me convidar para a inauguração, que se fez com um certo aparato. E nem ao menos o meu nome foi lembrado nos discursos laudatórios, então pronunciados.”

Alexandre Lopes Galvão

Em outubro de 1918, foi aberto um concurso pela Delagoa Bay Lands Syndicate , apresentado pelos Senhores A.W.Reid & Delbridge, arquitectos de Johannesburg e Cidade do Cabo, para a construção do Hotel Polana, ao qual concorreram sete firmas construtoras, das quais, apenas uma era Portuguesa, conforme abaixo:

- Hill Mictchelson, de Johannesburg, classificado em segundo lugar.

- Ferreira da Costa, de Lourenço Marques

- Philip Treeby, de Johannesburg

- Herbert Baker & amp; Fleming, de Johannesburg

- H.W.Spicer, de Johannesburg

- R.L.McCowat, de Johannesburg

Os planos foram postos em exposição no Conselho de Turismo, e aprovada pelo Governo a construção do novo Hotel na Polana pela Delagoa Bay Lands Syndicate, por ser a proposta mais barata apresentada. Ficou o compromisso que o Hotel seria construido em 19 meses. Os proprietários do hotel instalarão uma planta para fornecimento de luz elétrica e um frigorífico.Com isto, com mobília, ascensor para a Polana, e direitos, etc, o custo total do Hotel ficou estimado em 200 000 Libras.

O Governo garantiu ao Sindicato 6% anuais sobre o capital empregado durante dez anos, assim como garante algumas concessões.

Projecto de um arquitecto famoso

O projecto desse hotel em estilo “Palace” foi de autoria de um não menos famoso arquitecto inglês, Sir Herbert Baker, autor do projecto do majestoso edificio da “Union Buildings”, em Pretória. A sua construção foi dirigida pelo engenheiro Hugh Le May.

Inauguração

Iniciada a sua construção, devido à iniciativa do Coronel Lopes Galvão, que foi sem dúvida alguma a alma deste notável empreendimento turístico e que no governador-geral, general Massano de Amorim, encontrara sólido apoio, o Hotel Polana inaugurou-se no dia 1 de Julho de 1922.

Foi um acontecimento de grande relevo na vida da cidade. A assinalar a data, a Delagoa Bay Lands Syndicate, que se fez representar por Leão Cohen, ofereceu nesse dia um almoço solene.

Na mesa em U armada na elegante sala de jantar do Hotel Polana, sentaram-se 131 convidados. Na presidência, à cabeceira da mesa, Leão Cohen, dava a direita ao Alto Comissário, Dr. Brito Camacho, ao cônsul de Sua Majestade Britânica, Hall , e ao secretário-geral, Dr Mário Malheiros. À sua esquerda sentavam-se o inspector das Obras públicas, Eng. Monteiro de Macedo, o cônsul da França, G.Savoye, o chefe do Estado-Maior, coronel Santana Cabrita e o cônsul dos Estados Unidos, Hazeltine.

A construção acabou beirando o valor de 300.000 Libras, mas foi considerado na época uma das construções mais perfeitas e modernas e sem rival nos portos do Sul, havendo muito poucos hotéis na Europa semelhantes.

Ele tinha vida própria para a sua laboração: máquinas geradoras de electricidade e aquecimento, Frigorífico, Lavandaria eléctica, Fábrica de sodas, Telefones e água quente em todos os quartos, e para tudo ser completo, estava programado para questão de dias um serviço permanente de correios e telégrafos, permitindo assim aos seus visitantes expedir cartas, telegramas, radiogramas e até encomendas postais para todas as terras e navegação.

A inauguração do Hotel, também mexeu significativamente no movimento da cidade, pois um mês e meio depois da inauguração, os carros elétricos começaram a transitar até ao bairro da polana, com uma paragem obrigatória no Hotel.

Na área externa do hotel, tinha um lindo campo de golfe , quadras de ténis e jardim que o embelezavam.

Assumiu a gerência do hotel, o Sr. Kershaw, auxiliado por sua esposa.

O hotel deu ênfase ainda ao turismo na cidade de Lourenço Marques, que assim passava a contar com um ponto de super luxo, e delegações de vários paises, tais como a própria África do sul e países vizinhos, ou de Italianos e até Brasileiros que começaram a ser trabalhadas as excursões a Moçambique.

O Hotel muda de mãos

Em junho de 1936 o hotel mudou de mãos pela primeira vez. Tendo a Delagoa Bay Lands Syndicate posto o imóvel à venda, a oportunidade foi aproveitada pelo milionário I.W.Schlesinger, que o adquiriu pela importância de 400.000 Libras. Pouco depois a empresa foi registada sob a designação de “Polana Hotel, Lda”, sociedade com o capital de um milhão de libras.

Tempos passados, a African Consolidated Investments Corporation, uma das muitas organizações de Schlesinger, passou a ser a maior accionista da empresa exploradora do hotel, que pouco depois passou para a African Caterers, também importante organização do grupo de companhias Schlesinger.

No periodo que precedeu a II Guerra Mundial conheceu anos de prosperidade, projectanto-se internacionalmente nos mapas turísticos como um dos mais importantes de toda a Àfrica, depois de Cairo e do Carlton, de Johannesburg.

Nos seus salões se realizou o banquete de gala que as Forças Vivas de Moçambique ofereceram em honra do presidente da República Portuguesa, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, o primeiro Chefe de Estado que visitou oficialmente Moçambique, em 1939.

Durante a II Guerra

Quando a 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelo exercito alemão, rebentou a II Grande Guerra, ao Hotel Polana, pela sua privilegiada situação de hotel de luxo e ponto de reunião da nata da sociedade lourenço-marquina, coube desempenhar, pela força das circunstâncias, outro curioso papel: o de centro elegante de espionagem e de intriga Internacional.

Durante a II Guerra, o Hotel Polana gozou de reputação internacional porque, tendo Portugal proclamado a neutralidade, os agentes secretos tanto dos Aliados como das potências do Eixo (Alemanha e Itália) Puderam ali dedicar-se com certo à-vontade a práticas de espionagem e de contra-espionagem. Os espiões dos dois lados, passaram naturalmente a servir-se desse luxuoso hotel de uma cidade portuária para campo de sua acção.

Assim, agentes secretos Sul-Africanos, Ingleses, Americanos, alemães e Italianos, cumprimentavam-se cerimoniosamente quando se cruzavam nos seus longos corredores, nos seus salões ou no “Bar”.

Um dos agentes mais notáveis que por ali passou foi o tenente-coronel J. Stevenson-Hamilton, então fiscal de caça do Kruger Park. Em suas memórias, descreve a missão mais agradável, quando teve que se infiltrar em Lourenço Marques, instalado no Hotel Polana, quando descobriu que, em principio de Junho de 1940, quando correu um boato que os Alemães haviam invadido e tomado Lourenço Marques e se preparavam para invadir a África do Sul via Komatipoort, que se tratava de um boato propositadamente implantado por agentes alemães que operavam em Lourenço Marques, numa rede de espionagem bastante eficiente. possuiam emissoras clandestinas que mantinham os submarinos nazis que operavam no Canal de Moçambique bem informados dos movimentos dos navios aliados no porto de Lourenço Marques.

O chefe dos espiões era um importante membro da Gestapo. O “Quartel-General “era o Hotel Polana.

O Hotel na mão dos Portugueses

Em 1963, John Schlesinger, filho e herdeiro do milionário que havia adquirido em 1936 o famoso estabelecimento hoteleiro, vendeu-o a uma empresa onde os capitais Portugueses eram solidamente presentes, entre eles um dos dos acionistas era o Eng. Manuel Arouzo, que foi o braço forte do Hotel durante anos, até que um problema com o seu procurador o fez sair da sociedade.

Nesta fase foi ampliado e construída a sua piscina tão tradicional e ainda um novo anexo, o Polana-Mar, que assim atendia à demanda que cada vez mais se avolumava

O Hotel manteve o seu glamour, sempre foi frequentado pela nata da Sociedade Lourenço-Marquina, assim como por todos os turistas de peso que visitavam constantemente Lourenço Marques.

O Hotel Polana confundia sua Imagem com a da Capital de Moçambique.

O Hotel e a Independência

Com a Independência de Moçambique, após 1975, o Hotel entrou em declínio,por falta de clientes e pela degradação pela óbvia falta de pessoal e respectiva manutenção, permanecendo durante 20 anos praticamente abandonado.

Em 1994, um grupo Sul-Africano adquire o Hotel, remontando às suas origens de fundação, e com as melhoras que já sinalizava Moçambique, deu continuidade ao seu estatuto de um dos melhores hotéis de cinco estrelas do continente africano. Desde o hall, revestido a mármore, aos jardins generosos em estrelícias e coqueiros, nada é deixado ao acaso neste escaninho luxuoso, que se prepara para nova reestruturação. Curiosamente, não é apenas procurado por viajantes exigentes, mas também pelos próprios maputenses, devido à cozinha requintada e à pastelaria – o chá com scones e o cozido ao domingo são dois clássicos –, à piscina – a mais cobiçada de Maputo – e até ao ginásio. É ainda um dos lugares da cidade que são frequentados para ver e ser visto.

A IPE -Investimentos e Participações Empresariais está, em parceria com o Grupo Pestana, a negociar a compra do Hotel Polana. O grupo que detém a maioria do capital do prestigiado Hotel Moçambicano encontra-se com sérias dificuldades financeiras e pretende vender a sua participação. Caso o negócio se concretize, o Grupo Hoteleiro Português, que tem já vários empreendimentos turísticos em Moçambique, será responsável pela gestão e o controlo do Hotel Polana.

A holding do Estado português tem cerca de 1,6 milhões de contos investidos em Moçambique, nomeadamente nos sectores agro-industrial, ambiente, financeiro e em infra-estruturas industriais. Caso a co-aquisição do Polana venha a concretizar-se, o investimento do IPE deverá subir para cerca de 2,4 milhões de contos.”

E aqui está mais uma “maschambada”.

Ainda Guevara em África

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: “Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos.” Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, “no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso”. Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento.” (pp. 209-210)

A propósito dos contactos entre Ernesto Guevara e a Frelimo

A propósito das recentes entradas sobre os contactos de Ernesto Guevara (dito “Che”) com a Frelimo Amélia Souto, que muito honra o ma-schamba com as suas visitas, enviou-me esta fotografia de uma reunião na Tanzânia do referido dirigente comunista com membros da direcção da Frelimo – onde se pode reconhecer Samora Machel.

Ainda a este propósito, e em directa ligação ao texto de João Cabrita abaixo reproduzido transcrevo uma mensagem que o Machado da Graça (once a blogger, always a blogger) me enviou.

Estive agora a ler o texto do Cabrita sobre Mondlane e o Che. Ele põe as divergências entre os dois, como apresentadas pelo Helder Martins, como questões de lana caprina. Nomeadamente a questão do tipo de guerrilha a desenvolver. Ora eu creio que esta questão não era, de forma nenhuma, coisa sem importância. Era uma questão fundamental. O que não tira importância aos outros aspectos que o Cabrita levanta no seu artigo nem, de facto, os contradiz.

Mas qual era a divergência entre Mondlane e o Che? O Guevara aprendeu a fazer guerrilha em Cuba e, depois da vitória dos guerrilheiros, sistematizou a sua experiência num livro, que eu devo ter para aí em qualquer lado. Era a teoria do foco guerrilheiro. Segundo ele a guerrilha devia conseguir intalar-se numa parte da área a libertar e depois, a partir de lá, ir libertando o resto do território. No caso cubanbo o foco teria sido a Sierra Maestra. Depois disso ele procurou transferir esta teoria do foco para áreas muito maiores. Quando morreu, na Bolívia, a ideia era conquistar o poder naquele país e, a partir dele, exportar a revolução para os vários países vizinhos com quem a Bolívia tem fronteiras. Ora foi isso, também, o que veio propor em África. Aqui o foco seria no Congo e todos os movimentos de libertação deveriam apoiar os congoleses até conquistarem o poder naquele país e, depois, dele partiriam para a libertação dos vizinhos. Isso implicaria, se bem percebo, que a Frelimo deixasse de lutar em Moçambique e fosse reforçar o contingente no Congo. Só depois deste libertado se passaria para outros e, um dia, se chegaria a Moçambique.

E, ao que sei, foi a isto que Mondlane se opôs, defendendo que a luta da Frelimo era dentro de Moçambique, para libertar os moçambicanos, e não no Congo. Se houve tudo o mais que o Cabrita afirma, não sei, mas diria que uma coisa pode não contradizer a outra mas apenas complementarem-se.

[Entretanto] Muito se tem falado da ligação de Mondlane aos Estados Unidos, mas ainda não vi nada que me convencesse de que a ligação era institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou. Mas um facto é que, no final da sua vida, ele declarou numa entrevista que a Frelimo estava cada vez mais socialista, um socialismo do tipo marxista-leninista. De qualquer forma, o artigo do Cabrita traz mais dados para a compreensão dessa época, o que é bom.”

jpt

Porquê Sakrani?, as memórias de Hélder Martins

Abaixo transcreve-se um interessante artigo de João Cabrita, no qual o autor contesta a versão histórica de Hélder Martins. Motivo suficiente para aqui lembrar o livro em causa, as memórias de Hélder Martins, “Porquê Sakrani? Memórias dum Médico duma Guerrilha Esquecida” (Maputo, Editorial Terceiro Milénio, 2001). Na minha opinião é um documento muito interessante – eu não partilho da ideia de que as memórias de alguém são a verdade histórica, mesmo que a intentem retoricamente. E como tal sempre sorrio às críticas surgidas a cada livro de memórias – ótpimas, porque tendem a induzir novos textos, novas versões. E interessam-me muito mais as múltiplas versões e os sonoros silêncios. Mas este “Porquê Sakrani?”, a auto-biografia de uma personalidade riquíssima da história do Moçambique independente, antigo ministro, personalidade conhecida pelas suas idiossincracias intelectuais e vivacidade com que sempre as defendeu, tem também o interesse de ter sido um dos primeiros textos do tipo, influenciando com toda a certeza a vaga (relativa, é certo) de publicação de memórias que a sociedade moçambicana tem conhecido. E, em meu entender, é desse cruzamento de auto-histórias que encontraremos o que é realmente interessante: os ambientes intelectuais, os de um passado cada vez menos recente, e os da actualidade.

Não sei como estará o acesso ao livro. 1300 exemplares editados há já quase uma década fazem-me prever a sua inexistência, ainda que de quando em vez se encontrem exemplares à venda. Aos leitores, em encontrando um desses é comprá-lo, será um dispêndio muito adequado.

jpt

Che e Mondlane

(por AL mera intermediária de João Cabrita) –

O meu amigo e leitor maschambiano João Cabrita enviou-me um artigo dele sobre as relações entre Guevara e Eduardo Mondlane, publicado aqui há uns anos no jornal Zambeze. O artigo foi despoletado pela polemica causada com a publicação das memorias de Hélder Martins num livro chamado Porquê Sakrani.

Aqui fica para vosso deleite:

DE HÉLDER MARTINS: “PORQUÊ SAKRANI?”

Livro de memórias suscita polémica

lder Martins, histórico da Frelimo, médico de profissão, pedagogo inovador, depois de Janet Mondlane e Nadja Manghezi com O meu coração está nas mãos de um negro, lançou-se na narrativa da gesta libertadora moçambicana, passando para o papel as suas memórias. Porquê Sakrani – Memórias dum médico duma guerrilha esquecida é o título de um exaustivo trabalho, de leitura fácil mas cativante, lançado o ano passado nas bancas nacionais e estrangeiras. Tal como o título sugere, o livro é o testemunho de Hélder Martins sobre a fase da luta armada contra o colonialismo. Um livro que promete ser polémico, pelo menos relativamente a um “grande tema, como o autor lhe chama. Trata-se da visita de Che Guevara ao escritório da FRELIMO. lder Martins insistiu em contar essa apaixonante faceta da história recente de África pois que, como ele afirma no livro, “muitos anos mais tarde, ouvi e li versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas, que não estiveram presentes.” E remata Martins: “Portanto, a minha versão é por testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.”

Recentemente, o director deste jornal teve oportunidade de entrevistar um outro autor moçambicano e um dos temas focados foi precisamente o encontro de Che Guevara com a direcção da Frente de Libertação de Moçambique. Trata-se João Cabrita, autor de Mozambique: The tortuous road to democracy, que apresentou na altura uma versão radicalmente oposta desse encontro; quiçádisparatada”, na óptica de Martins. A pedido do ZAMBEZE, João Cabrita preparou o seguinte artigo, e nele reitera a posição anteriormente defendida, avançando com novos dados sobre o “grande tema”.

***

Num livro de memórias de publicação recente,[1]lder Martins referiu-se à disputa havida entre Cuba e a Frelimo no decurso dum encontro entre Eduardo Mondlane e Che Guevara, realizado em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965. O autor fez questão de deixar claro que decidira referir-se ao assunto dado que “anos mais tarde, tinha ouvido e lido versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas que não estiveram presentes ao encontro”.

A versão de Hélder Martins, segundo ele conta, baseia-se em “testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Em suma, Hélder Martins refere que a disputa que opôs Eduardo Mondlane a Cuba centrou-se na rejeição de conceitos de luta de guerrilha defendidos pela delegação cubana, e no mal-estar causado por Che Guevara por ter levantado dúvidas quanto à autenticidade dos comunicados de guerra emitidos pela Frelimo.

Tal como outros membros da Frelimo, Hélder Martins incorre no erro de se atribuir a essa disputa questões de lana-caprina, tais como conceitos de luta de guerrilha e comunicados de guerra empolados, quando a causa fundamental gira em torno da recusa de Eduardo Mondlane em participar num ambicioso plano que Cuba pretendia executar na África Austral com o apoio dos movimentos de libertação. Tratava-se de um plano que, no fundo, punha em cheque os interesses dos Estados Unidos, país em relação ao qual Eduardo Mondlane era um fiel aliado.

O facto de não se ter assistido ao encontro de Dar-es-Salam, não impede, que na presença de documentos oficiais e do testemunho das partes intervenientes, se possa fazer um juízo da situação e avançar com conclusões que, até prova em contrário, não podem, do pé para a mão, ser rotuladas de “disparatadas”.

É interessante referir que Hélder Martins também não esteve presente ao encontro de Dar-es-Salam pois segundo relata no livro apenas chegou à Tanzânia em Março de 1965. O que não deixa ser caricato, é que, no seu livro de memórias, Hélder Martins fez questão de frisar que a sua versão sobre a disputa entre Mondlane e Cuba se fundamentou naquilo a que ele próprio referiu como “fofocas” contadas por pessoas que acidentalmente iam a Dar-es-Salam, mas que ele se sentiu à-vontade em descrever como fontes “primárias”, não identificando, todavia, nenhuma delas. Qualquer investigador concordará que no campo da pesquisa, as “fofocas”o colhem.

O PLANO DE CUBA

A intervenção militar cubana em África não se tratou de uma iniciativa pessoal de Che Guevara. Ela obedecia a um plano concebido ao mais alto nível pelo governo de Cuba e que contava com o apoio da China, da União Soviética e de outros países do chamado bloco de Leste. Em África, Cuba dispunha do apoio da Argélia, do Gana e da Tanzânia, entre outros países.

O objectivo cubano consistia em servir-se da luta que vinha sendo travada no Congo-Kinshasa, na sequência do assassinato de Patrice Lumumba, para promover um conflito de grandes proporções na região austral do continente, em particular nos territórios ainda sob dominação colonial (Angola, Moçambique, Rodésia do Sul e Namíbia) e, numa fase posterior, na África do Sul. Em última instância, pretendiam os dirigentes cubanos atrair os Estados Unidos a mais uma zona de conflito, para além dos que já se desenrolavam no sudoeste asiático e começavam a ganhar forma na América Latina. Tal como afirmou Che Guevara ao presidente egípcio, Abdel Nasser, em Abril de 1965:

“Creio que irei para o Congo pois neste momento é a zona mais quente do mundo. Com o apoio dos africanos, através do Comité [de Libertação da OUA] na Tanzânia, e com dois batalhões de cubanos, acredito que podemos desferir um golpe contra os imperialistas no coração dos seus interesses no Katanga.”[2]

Che Guevara viria a entrar no Congo-Kinshasa, através da Tanzânia, em Abril de 1965. Liderava um contingente militar de cerca de 200 homens, com a particularidade de todos eles serem cubanos de origem negra. Uma outra coluna de efectivos cubanos de idêntico número, liderada por Jorge Risquet, foi desdobrada no Congo-Brazzaville. Segundo o já citado estudo de Piero Gleijeses sobre a intervenção militar cubana em África, a missão da coluna de Risquet era prestar apoio à guerrilha do MPLA, defender Brazzaville na eventualidade dum ataque a partir do Congo-Kinshasa, e actuar como força de reserva de apoio à coluna de Che Guevara.

Para além das forças de guerrilha opostas ao regime de Kinshasa, o plano cubano apresentado por Che Guevara aos movimentos de libertação em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965, teve a aprovação do MPLA, do ANC da África do Sul, assim como da guerrilha ruandesa liderada por Joseph Mundandi, e de forças opostas aos regimes da Guiné-Equatorial e dos Camarões. O apoio subsequente de Cuba ao PAIGC viria a revelar-se de particular importância para os avanços na luta contra a ocupação colonial portuguesa na Guiné-Bissau.

A Frelimo de Eduardo Mondlane opôs-se a esse plano, o que aliás não constituía novidade para Che Guevara. Segundo Juan Benemelis, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros cubano, aquando da sua passagem por Accra em Janeiro de 1965, o presidente Kwame Nkrumah transmitiu a Che Guevara “as suas reservas sobre Eduardo Mondlane”.[3] Idêntica advertência foi feita a Che Guevara por Pablo Rivalta, embaixador cubano em Dar-es-Salam. Ainda de acordo com Benemelis, que foi o primeiro encarregado de negócios na embaixada cubana em Dar-es-Salam, o embaixador Rivalta advertiu Che Guevara de que os acampamentos de treino de guerrilheiros da FRELIMO na Tanzânia, estavam ‘contaminados’ por membros do ‘Corpo da Paz’. No entanto, Rivalta informa Che Guevara que dentro da Frelimo poderia contar com “Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança.” Rivalta havia conhecido Marcelino dos Santos durante um encontro da União Internacional de Estudantes em Praga.

o era apenas o Gana e o governo de Cuba que viam Eduardo Mondlane como revolucionário pouco consequente. Já em Outubro de 1964, Noureddine Djoudi, embaixador da Argélia na Tanzânia e representante do seu país no Comité de Libertação da OUA em Dar-es-Salam, se havia referido ao primeiro presidente da Frelimo como “um fantoche americano, a quem faltava espírito de militância, e era incapaz de liderar um movimento revolucionário.”[4]

Mondlane não só se recusa a apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinsahasa, como também rejeita o apoio de Cuba para a prossecução da luta armada em Moçambique, não obstante a escassez de meios materiais com que a Frelimo se vinha debatendo desde a sua fundação em 1962. Pablo Rivalta, numa mensagem expedida de Dar-es-Salam para Che Guevara no Congo-Kinshasa a 19 de Agosto de 1965, fala da necessidade de se alterar o plano sobre o uso de instrutores militares cubanos que a pedido de Julius Nyerere haviam chegado à Tanzânia para o treino de guerrilheiros da Frelimo em Tabora.[5]

Rivalta viria a clarificar o teor da sua mensagem em declarações prestadas a três autores cubanos que integraram o contingente de Che Guevara no Congo-Kinshasa. Rivalta é citado pelos autores como tendo dito que

“alguns companheiros que o Che pensava enviar para Moçambique não puderam ir porque os contactos que tínhamos estabelecido com o governo da Tanzânia e com os moçambicanos disseram que não era ainda o momento, e o Che deu-me ·instruções para que fossem para o Congo e para o Congo os enviei.”[6]

Uma outra prova da recusa sistemática de Eduardo Mondlane em alinhar com o plano cubano, surge em Outubro de 1965. Numa derradeira tentativa de salvar do colapso o contingente militar cubano destacado no Congo-Kinshasa, o próprio Fidel Castro deu instruções a Jorge Risquet para promover um encontro com os dirigentes da Frelimo e do MPLA em Brazzaville, durante o qual devia voltar a insistir junto da Frelimo para que apoiasse o plano. Segundo Benemelis:

“Na reunião de 8 de Outubro (de 1965) com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, Castro faz um último esforço para salvar o foco africano. A delegação cubana compromete-se a ajudar o MPLA e a Frelimo, com a condição de as mesmas se unirem ao Che, no Congo. Não obstante, a FRELIMO moçambicana, na pessoa de Eduardo Mondlane, evita o compromisso. A anterior disputa Guevara-Mondlane, meses antes, centrou-se no mesmo dilema: Mondlane negou-se a colocar a FRELIMO como fonte de abastecimento do comando guerrilheiro de Che.”[7]

A posição irredutível de Eduardo Mondlane foi transmitida por Marcelino dos Santos que participou no encontro de Brazzaville.

MONDLANE E OS ESTADOS UNIDOS

A intervenção militar cubana nos dois congos em 1965 coincide com uma série de acções que os Estados Unidos vêm desenvolvendo no campo militar, político e diplomático no sentido de manter a sua influência na região. Mondlane é um elo importante nos esforços diplomáticos encetados por Washington.

O estudo de Piero Gleijeses revela que em finais de 1964, a Administração Johnson, promoveu o recrutamento de forças mercenárias na Rodésia e na África do Sul, assim como na Bélgica e na França, as quais, sob o comando de Mike Hoare, foram enviadas para o Congo-Kinshasa a fim de salvarem o regime de Moses Tshombe da derrocada face aos avanços da guerrilha simba e à impotência das forças governamentais. A acção das forças mercenárias, segundo demonstra Gleijesses, citando documentos oficiais norte-americanos obtidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, foi de primordial importância para a derrota da guerrilha simba e o colapso da intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. Entre outros factores que contribuíram para o fracasso da intervenção cubana incluem-se as profundas divisões no seio do movimento de guerrilha congolês, a decisão do governo tanzaniano em retirar o apoio à rebelião congolesa, e o golpe de estado ocorrido na Argélia em Junho de 1965.

O contingente cubano viria a abandonar o Congo Kinshasa em Novembro de 1965, cerca de 7 meses após ter infiltrado o território congolês. Aviões soviéticos da Aeroflot procederam ao transporte do contingente de Dar-es-Salam para Havana.

Paralelamente à acção militar no Congo-Kinshasa, os Estados Unidos desenvolvem, em parceria com Eduardo Mondlane, uma iniciativa diplomática tendente a levar Portugal a solucionar o problema de Moçambique pela via pacífica. Em Julho de 1965, por ocasião da visita de Robert Kennedy à África Austral e Oriental, Mondlane discutiu a situação em Moçambique com o antigo ministro da Justiça americano e outros dirigentes norte-americanos em Dar-es-Salam. Mondlane confidenciou a Wayne Fredericks, subsecretário de Estado para os assuntos africanos, que caso Portugal concordasse com um plebiscito sobre o futuro das colónias, os termos desse plebiscito seriam menos importantes do que o processo político que ele iria despoletar. Efectivamente, Mondlane admitia que uma eventual independência de Moçambique não necessitaria de fazer parte do plebiscito. Para Mondlane, uma escolha simples entre Moçambique permanecer como província ultramarina portuguesa ou como membro duma comunidade Lusófona era por si só um significativo passo em frente.

Na sequência deste encontro, o Departamento de Estado apresentou uma proposta a Salazar em Agosto de 1965. O embaixador norte-americano em Lisboa, George Anderson, é quem entrega a proposta concertada na base no encontro de Dar-es-Salam no mês anterior. Salazar mantém a mesma posição irredutível.[8]

Em face do que acaba de ser exposto, torna-se óbvio e claro que seria um contra-senso o presidente da Frelimo apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. E se não apoiou, não foi por questões de lana-caprina atrás mencionadas, mas sim por que uma aliança com Cuba não condizia com a maneira de ser de um dirigente que desde a sua subida ao poder se havia demarcado dos desígnios do bloco comunista em relação ao continente africano.

E a prova de que o distanciamento de Eduardo Mondlane era em relação a Cuba e não a Che Guevara propriamente dito, foi que mesmo depois da sua morte na Bolívia, o presidente da Frelimo continuou a manifestar a mesma posição, nomeadamente em conferências na Universidade de Dar-es-Salam e em entrevistas com correspondentes estrangeiros.

Cuba o perdoaria Mondlane por ter proferido “declarações injuriosas” contra Che Guevara numa entrevista concedida a jornalistas norte-americanos do «Liberation News Service». Foi por intermédio da agência noticiosa estatal, Prensa Latina, que as autoridades cubanas acertariam contas. Num extenso artigo sugestivamente intitulado “Presidente da Frelimo desmascarado”, e posteriormente publicado no «Juventud Rebelde» e transmitido pela Rádio Havana Cuba, a Prensa Latina começa por se referir a Mondlane como alguém “que viaja aos Estados Unidos com mais frequência do que um embaixador do Departamento de Estado”. Depois, estabelece uma diferença entre Che Guevara e Mondlane:

O Che e o Senhor Mondlane realmente diferem em tudo. Em primeiro lugar, o senhor jamais entrou em Moçambique para combater junto da guerrilha a cuja formação ofereceu obstinada resistência após a fundação da Frelimo. O senhor escolheu Washington e outras grandes capitais como campo de batalha enquanto o Comandante Guevara seleccionou a Sierra Maestra primeiro, e depois as montanhas bolivianas, onde combateu até à morte.”[9]

Segundo Fidel Castro, Eduardo Mondlane viria a retractar-se, se bem que as relações entre o primeiro presidente da Frelimo e Cuba permanecessem sempre distantes. De passagem por Berlin Oriental a 3 de Abril de 1977, Castro manteve um encontro com Erich Honecker, no decurso do qual informa o dirigente da antiga RDA sobre as conversações que acabara de manter com Samora Machel na cidade da Beira. As palavras proferidas por Fidel Castro provam uma vez mais que a disputa entre Cuba e Eduardo Mondlane tem causas muito mais profundas do que a versão de Hélder Martins, apoiada em “fofocas”:

Havia diferenças entre nós e a Frelimo, que datavam do tempo em que a Frelimo estava baseada na Tanzânia, e onde o Che Guevara conversou com Mondlane. Nessa altura, Mondlane não concordou com o Che, e disse-o publicamente. Posteriormente, publicaram-se em Cuba artigos de imprensa contra Mondlane. Mais tarde, Mondlane retractou-se, mas apenas avel interno pelo que as coisas permaneceram mais ou menos no ar.”[10]

Mas já em relação a Samora Machel, Castro tinha uma outra opinião, em tudo diferente daquela que o governo cubano havia manifestado em relação a Eduardo Mondlane por intermédio do jornal «Juventud Rebelde», órgão oficial da União da Juventude Comunista de Cuba:

Na realidade, Samora Machel foi para mim uma surpresa. Passei a considerá-lo com um revolucionário inteligente que tomava posições claras e mantinha um bom relacionamento com as massas. Ele causou-me muito boa impressão. Conversámos durante dia e meio. (…) Antes disso não sabíamos ao certo qual a influência que os chineses exerciam sobre ele. Ele agora está mais próximo da União Soviética e de outros países socialistas.”[11]


[1] lder Martins, Porquê Sakrani – Memórias dum médico duma guerrilha esquecida. Maputo, Editorial Terceiro Milénio, 2001.

[2] Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976,  The University of North Caroline Press, 2002.

[3] Juan F. Benemelis, Castro – Subversão e terrorismo em África, Europress, Odivelas 1986

[4] Telegrama Confidencial” expedido pela Embaixada dos Estados Unidos em Dar-es-Salam a 15 de Outubro de 1964. (Documento obtido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e citado em João M Cabrita, Mozambique – The Tortuous road to democracy, Palgrave, 2000.)

[5] Ernesto Che Guevara, The African Dream – The diaries of the revolutionary war in the Congo, The Harvill Press, Londres 2000.

[6] Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar, Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma – A guerrilha africana de Ernesto Che Guevara, Campo da História, Porto 1995.

[7] Benemelis, op cit

[8] Telegrama Secreto” expedido da Embaixada dos Estados Unidos, Dar-es-Salam, 29 de Julho de 1965; “Memorando Secreto” relativo à conversa entre o embaixador Anderson e Salazar, 22 de Outubro de 1965, citados em Cabrita, op cit

[9] Teofilo Acosta, Desenmascarado el presidente del Frelimo, Juventud Rebelde, Havana 21 de Maio de 1968 p3

[10] A transcrição do discurso de Fidel Castro foi encontrada nos arquivos do antigo Partido Unificado da Alemanha. Está disponível na Internet : http://cwihp.si.edu

[11] Ibid

GUEVARA E A FRELIMO, 1965

Guevara despede-se de Marcelino dos Santos

Eduardo Mondlane com Ernesto Guevara

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.

Para a semana faz 45 anos que aconteceu.

Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.

OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG


por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Se eu fosse rico, tinha comprado na semana passada o medalhão que se retrata em cima, da autoria de um tal Johan Philip Mathias Menger, o artista principal do Royal Mint em Utrecht, Holanda.e que foi feita para comemorar a abertura em 1895 da linha de caminho de ferro que passou a ligar Lourenço Marques a Pretória, então capital da Zuid-Afrikaanse Republik.

Quem o pôs à venda foi um senhor de Durban, na África do Sul, em leilão que começou a 90 dólares. Mas quando subiu rapidamente desisti.

Existem duas variedades desta moeda.

Neste caso, numa face vê-se a efígie de Paul Kruger, o então presidente da República Sul-Africana e pode-se ler a frase em africaanse, “OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG” (abertura do caminho de ferro da Baía de Delagoa).

Do outro lado, vê-se o símbolo da companhia de caminhos de ferro daquela república boer e a frase “NEDERLANDSCHE ZUID-AFRIKAANCHE SPOORWEG – MAATSCHAPPIJ” (Companhia dos Caminhos de Ferro da África do Sul Holandesa).

As iniciais do Senhor Johan Menger aparecem em baixo: J.P.M.M.F.

A medalha é de bronze, tem um diâmetro de 44 milímetros e um peso de 38.3 gramas.

Estas moedas de bronze aparecem de vez em quando. Muito mais raras são as feitas em prata: apenas foram produzidas vinte.

Nota sobre um fóssil no Niassa

VBM, leitora amiga do ma-schamba, manda-nos notícia do jornal Público: “Fóssil de antepassado comum a todos os mamíferos descoberto em Moçambique (cerca do Lago Niassa). Coisa de 250 milhões de anos – encontrado no chamado Graben de Metangula, local que aprendo na notícia será o único no país com fósseis anteriores a 65 milhões de anos. Acima o dito cujo, que após a sua análise, regressará com destino ao Museu Nacional de Geologia (na Av. 24 de Julho, Maputo) diz a notícia. E eu fico em dúvida, então um fóssil por ser pedra fica na Geologia ou na História Natural (museus de …)?

jpt

Sobre o Colonialismo (e o após-colonialismo): cromos e stickers

Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.

Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,

[imagem encontrada no Santa Nostalgia]

e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.

[imagem encontrada no Pena e Espada]

Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah  Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.

[imagem encontrada aqui]

[imagem encontrada aqui]

Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.

Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:

Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.

Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.

[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]

Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels,  mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar. (24).

E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):

Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)

Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.

[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]

Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.

[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]

Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.

[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]

Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?

São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.

jpt

Maputo a Nadar

O Mercado Central em Maputo, 27 de Janeiro de 2010

por ABM (Alcoentre, 28 de Janeiro de 2010)

O JPT anda tão ocupado entre livros e blogues e a docência e a dolce vita da Sommerschield, que não deve ter reparado que depois de uma valente carga de água, a baixa de Maputo, um pouco como acontece com Veneza nas marés vivas, inundou mais uma vez ontem. Mas as minhas fontes secretas de informação discretamente tiraram as fotos que se seguem, captadas ontem na baixa da capital moçambicana e enviadas para o centro de operações ribatejano do Maschamba.

O que é curioso é que a cidade de Maputo, um invulgar aglomerado urbano especialmente se se tiver em conta que as cidades criadas pelos portugueses são invariavelmente um intragável e quase medieval emaranhado de casas e ruas, e que tem um traçado considerado moderno e bem conseguido, tem apenas um, incontornável, indesculpável, inexplicável calcanhar de Aquiles: a baixa.

Porquê?

As razões do problema são fáceis de explicar. Como o erro ocorreu é mais difícil explicar, pois acho que dava para perceber o que iria acontecer.

Antes de Maputo ser o que era, a Lourenço Marques original era uma língua de praia que quando a maré subia ficava uma espécie de ilha onde hoje de situam os terrenos entre a Praça 25 de Junho e a estação dos caminhos de ferro.

Eventualmente, essa “ilha” foi ligada aos terrenos confinantes, aterrando a depressão que a separava dos então chamados Altos do Maé (que nem suspeito quem tivesse sido) e logo por cima foi construída a actual Avenida 25 de Setembro.

Só que alguém se enganou e deixou ali ficar uma depressão em relação aos terrenos (sobre os quais já se tinha construído) onde hoje ficam as ruas do Bagamoyo e Consiglieri Pedroso.

O resultado? Quando chove muito, a zona entre o Hotel Tivoli e o Mercado Central inundam, sem apelo nem agravo. É por essa razão que a actual sede do Millennium-BIM, começada a construir ainda antes de 1974 para ser a sede do então BCCI, e que tem quatro andares por baixo do piso térreo, tem uma estranha configuração no seu piso térreo. Literalmente, são barreiras dissimuladas para impedir que, numa cheia, as águas entrem para dentro do edifício. Mas já aconteceu.

Já houve vários esforços feitos para tentar resolver o problema, o mais recente dos quais durante a memorável vereação do Dr. Eneias Comiche, mas em última instância a área de recolha das águas que para ali fluem – praticamente metade da cidade de Maputo cimento – é demasiado grande para que a baixa aguente um tal embate.

Portanto, para quem está na baixa, a solução para já e estar atento aos boletins meteorológicos e mexer-se depressa na eventualidade de uma chuva torrencial.

E ter um barco a remos.

Detalhe da Avenida 25 de Setembro (para os menos informados, novo nome da velha Avenida da República)

Mais uma perspectiva da baixa inudada no dia 27 de Janeiro de 2010

No Sofá com a Filha do Electricista da Matola

por ABM (Cascais, 19 de Janeiro de 2010)

A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.

Introdução

De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.

No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.

Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.

O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.

Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.

Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.

No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido  habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.

Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.

Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.

Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.

Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.

Se por mais nenhuma outra  forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.

Ficará a luta pela verdade.

O Caderno de Memórias Coloniais

É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.

Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.

O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.

O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora

A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.

À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.

Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.

Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Câncio refere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.

Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.

Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.

Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”

Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.

Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:

“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”

Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:

“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”

Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:

“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”

Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:

“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”

E ainda:

“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”

E ainda:

“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”

Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:

“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”

Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.

A Crítica

Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.

Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.

Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.

Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.

Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.

Não.

Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.

É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.

Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.

O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.

A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.

Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.

A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.

Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos,  vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.

Ai sim?

Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.

É três vezes bom.

Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?

A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida,  forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….

Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:

Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.

Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.

Hum.

No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.

Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.

No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.

No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”

No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.

No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.

Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos  de 29 a 33). Medíocre.

No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “

Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.

Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”

Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.

E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”

Tirem-me deste filme doentio.

E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.

São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.

Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.

São outras.

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

Acerca do Memorialismo

Novidades editoriais hoje adquiridas. Tudo coisas do memorialismo (e biografia), assunto em discussão no ma-schamba daí que apresento os livros antes de os ter lido:

Pachinuapa

[Raimundo Pachinuapa, Marina Manguedye, A Vida do Casal Pachinuapa, Maputo, JV Editores, 2009]

Moiane

[José Phahlane Moiane, Memórias de um Guerrilheiro, Maputo, King Ngungunhane Institute, 2009]

Bragança

[Sílvia Bragança, Aquino de Bragança. Batalhas Ganhas, Sonhos a Continuar, Maputo, Ndjira, 2009]

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The Delagoa Bay Company

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O imparável ABM acaba de encetar o The Delagoa Bay Company, um riquíssimo blog dedicado à história do desporto federado em Moçambique. Na fotografia estão os nadadores António Botelho de Melo, Rui Abreu e Paulo Frischknecht, à partida para os Jogos Olímpicos de Montreal (1976), os dois primeiros então oriundos da natação em Moçambique.

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The Best of Maschamba

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

A Goa dos Meus Sonhos

a minha ideia de Goa

a minha ideia de Goa - sem vacas

por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)

Nunca meti os pés na Índia, e muito menos em Goa, o ponto fulcral e crucial da segunda exploração marítima portuguesa no séc. XVI, de que a Ilha de Moçambique era de importância vital mas apenas como ponto de apoio.

Recordo que a primeira fase da exploração lusa das rotas marítimas foi o Norte de África, que correu mais ou menos (às vezes menos bem) até à maior derrota militar de 900 anos de história portuguesa, Alcácer-Quibir, em Agosto de 1578, que só tem comparação na sua dimensão épica com igualmente épica e inenarrável vergonha (mais política e moral que militar) que foi a forma da retirada formal de Portugal de África e de Timor em 1975.

Mas, bons portugueses, quase tudo esquecemos e tudo perdoamos. Quando muito, ruminamos na calada da noite em blogues como este e depois vamos dormir, na enferna convicção da consciência ventilada.

Uma espécie de peido emocional.

Ou, mais prosaicamente, uma catarse num quarto escuro e fechado.

Como alguns dos restantes territórios sob soberania portugues até aos anos 60 e 70 do século findo, Goa era de certa forma mais um anacronismo de uma potência pós-decadente. Já há séculos que para quase nada servia, só dava despesa, Portugal pouco ou nada fazia lá, tinha meia dúzia de gatos pingados na sua guarnição, a paisagem aquele latinismo exótico, doce e delapidado, a economia irrelevante e, mais importante, não havia maneira de evitar o embate de uma Índia independente, orgulhosa e anti-colonial. Nehru fartou-se de avisar e de mandar recados, alguns até simpáticos, mas o Dr. Oliveira Salazar pelos vistos tinha que manter, e manteve, a consistência da sua postura.

A tomada de Goa e restantes territórios da Índia Portuguesa em 1961 não foi coisa assim tão insípida como se possa pensar. Mais tarde soube que em Moçambique, por exemplo, a comunidade de ascendência indiana foi quase decapitada por causa dos eventos na Índia. Muita gente foi encarcerada, maltratada, muitos foram explusos e despojados dos seus bens, ou simplesmente presos e usados como moeda de troca pelos (principalmente) militares portugueses então feitos prisioneiros pelo exército indiano, com até uma mãozinha do omnipresente Jorge Jardim pelo meio. Dos poucos que ficaram atrás, e seus descendentes, as feridas resultantes desse trauma perduraram até hoje.

Alguns goeses viajaram no sentido oposto, para Moçambique, onde tentaram refazer as suas vidas. Conheci alguns. E talvez seja minha mania, mas sempre me ficou a impressão de serem pessoas com uma cultura e profundidade espiritual que contrastava de todo com a elevada quantidade de carapaus de corrida que iam desaguar a Lourenço Marques, vindos da Metrópole, com a mania de que iam ensinar os locais brancos e pretos como é que se comia com o garfo e a faca.

Uma dessas pessoas que me ficou gravada cá dentro foi uma professora de História que tive no segundo ano da Escola Preparatória, a infame Escola General Machado na Polana, para onde eu tinha que marchar todos os dias as sete da manhã com um horripilante colete verde-garrafa estilo militar e basicamente levar porrada nas aulas de educação física do famoso e temeroso professor Trepa Torres. Ela era uma pessoa sublime, cultíssima, uma mulher conhecedora do mundo, uma docente de cinco estrelas. E que era goesa. Claro que na altura eu não fazia a mínima ideia do que era Goa nem onde ficava e muito menos que os indianos na altura já tinha surripiado aquilo a Portugal. Pouco tempo depois, quando saí de Moçambique para estudar em Coimbra, encontrei-a no avião da TAP (um Boeing 747, nada menos) de mala aviada para Portugal, para ela uma segunda fuga. Sorumbaticamente, prestei-lhe os meus respeitos e despedi-me quando desembarcámos em Lisboa. Nunca mais a vi.

Pelo meio, não sabendo bem porquê, sempre tive uma visão quase idílica de Goa e das suas gentes e culturas, em parte espelhando os ecos moçambicanos. Mais tarde apercebi-me de algo ainda mais supreendente, que era a elevada consideração em que aparentemente são tidos na Índia e no Reino Unidos alguns descendentes mais sonantes dos Goeses, cujos nomes são, nalguns casos, de matriz portuguesa. E ainda que, sendo o subcontinente indiano uma enormidade, que Goa, a pequenina Goa dos portugueses em que pouco ou nada se fizera em quinhentos anos, aparecia como a jóia da coroa e o local de passeio das classes mais abastadas da Índia, do seu turismo internacional.

Uma menção especial para Gujarat, mais a Norte, a seguir a Mumbai, a velha Bombaím, dada por João IV como dote da sua filha Catarina de Bragança à Inglaterra de Carlos II em meados do século XVII. Lidei bastante com homens de negócios de lá e seus descendentes, em Angola e Moçambique, e foi sempre um prazer.

Portanto aquilo era o paraíso na terra e a minha imagem do paraíso na terra é mais ou menos o que está na fotografia lá em cima.

Basicamente, portanto, sem as vacas a passear nem os vendedores de quinquilharias que a Senhora Baronesa, com o seu afincado olho antropológico e a máquina digital, descortinou.

Mas enfim. As coisas nunca são exactamente como pensamos, não é?

Pois ponha-se a vaquinha na praia que eu continuarei a pensar que há-de haver por lá aquele cantinho do paraíso que eu sempre suspeitei haver.

A Goa dos meus sonhos.

O Viriato Moçambicano

VIRIATO

por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Confesso uma curiosidade pela arqueologia, pela paleoantropologia e pela geologia. Que para mim funcionam um pouco como o prelúdio possível para a História.

Não será surpresa, então, o interesse com que li o artigo publicado ontem no sítio Scientific American, e que relata o trabalho e algumas conclusões – publicado no mesmo dia na revista Science – do pesquisador Júlio Mercater, da Universidade canadiana de Calgary, sediada em Alberta.

Algures na província de Niassa, no Noroeste de Moçambique, o Senhor Mercader analisou uma gruta em 2005 (a Gruta Ngalue, segundo outro artigo) na qual descobriu e analisou uma série de algumas dezenas de pedras que, segundo as suas análises, têm quatro particularidades: foram encontradas bem dentro da gruta (ou seja, manipuladas por homens), foram usadas para amassar cereais, têm vários vestígios desses cereais (que em inglês incluem “sorghum”, que não sei o que é em português), e, muito mais interessante, análises atómicas indicam que aquilo está ali há….cento e cinco mil anos.

A confirmarem-se, as ramificações desta descoberta são extremamente significativas, quer para o estudo do que se passou no território que hoje constitui parcela de Moçambique, quer para o estudo da Humanidade.

No caso de Moçambique, pouco se sabe sobre a presença humana neste território a partir de há dois mil e tal anos atrás. Num raro e interessante trabalho da autoria de António Rita Ferreira chamado “Moçambique pré-colonial” já em 1975 e sob o patrocínio da Frelimo (antes de ele se fartar da “revolução” e ter rumado Portugal, onde é meu vizinho mais ou menos eremita aqui em Cascais, com quase 90 anos de idade), e que encontrei num canto dum relativamente obscuro sítio brasileiro, as datas mais antigas ali referidas são dessa relativamente recente era.

Mas, a confirmar-se, o achado é da maior importância para o estudo da Humanidade, pois hoje é mais ou menos consensual que um dos passos mais críticos para a evolução da espécie humana neste planeta foi quando se começaram a processar, consumir, guardar e mais tarde cultivar, cereais. E os dados previamente mais recentes sobre esta actividade humana no planeta situam essa “descoberta” no local Ohalo II, situado na região do que é hoje Israel e datam de há “apenas” 23 mil anos.

Ou seja, a pesquisa de Mercater implica um recuo de 80 mil anos no despoletar de um importante processo pelos nossos antepassados humanos (que, neste caso, um pouco sorridentemente, chamo do “Viriato Moçambicano”, decalcando de uma igualmente misteriosa personagem da história ibérica, indecentemente apropriado em tempos por alguns historiadores portugueses, com base numa interpretação fantasmaglórica de alguns relatos dos colonizadores romanos).

Poderá ter alguma lógica adicional, se se tiver em conta que todos os dados apontam para a evidência de que todos os seres humanos descendem de famílias que saíram de África e que terão eventualmente migrado para o actual Médio Oriente e depois para o resto do mundo.

Claro que, como é típico nestas ocasiões, já há gente que, sem saber muito mais sobre o assunto para além do que foi publicado, expressou as suas dúvidas e suspeitas de que o bom Senhor Mercater deve estar enganado ou a sonhar. Dois dos que têm dúvidas são Lyn Wadley da Universidade do Witwatersrand e Loren Cordain, da Universidade Estatal do Colorado.

Imagino que se seguirão muito mais estudos e esforços para testar e validar aquilo que o arqueologista canadiano diz ter encontrado em Moçambique.

Entretanto, não faço a mínima ideia de onde fica esta gruta no Niassa. Mas, situando-se em território moçambicano, seria muito boa ideia mesmo alguém que manda, assegurar que a área seja protegida e que os especialistas possam nela fazer as suas pesquisas em paz e sossego.

Pesquisas que se poderão revelar importantes para o estudo da evolução da Humanidade e um melhor entendimento do que aconteceu no passado africano e moçambicano.

Gabriel Teixeira, Francisco e Nuno Craveiro Lopes e Moçambique

1956 Craveiro Lopes e Gabriel Teixeira(Na foto acima, Francisco Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa, de farda branca e óculos. De fato e chapéu à civil à direita na foto está Gabriel Teixeira, então Governador Geral de Moçambique. Numa visita ao Parque Nacional da Gorongosa, integrada numa visita de Estado à Província e à União Sul Africana, Julho e Agosto de 1956)

por ABM (Cascais, 26 de Novembro de 2009)

Parte da beleza de escrever num meio destes é que há pessoas de boa vontade que lêem alguns escritos e não só comentam e discutem, o que é interessante, mas nalguns casos dão outros contributos.

Numa crónica que preparei ontem sobre Gabriel Teixeira, um dos problemas que tive foi que, apesar de uma longa pesquisa na internet, não consegui encontrar uma -uma só que fosse – fotografia do distinto oficial e governante de Moçambique português. Felizmente, lá longe por detrás dos coqueiros e dos leões e búfalos da Serra da Gorongosa, o meu muito caro Dr. Vasco Galante  teve a iniciativa de enviar a foto acima, onde se pode ver o então governador Gabriel Teixeira. Muito grato e obrigado. Ajudou a compor a história de mais maneiras do que pensa. Continue a ler e vai ver como.

A “aparição” de Craveiro Lopes na fotografia acima apresentada motiva-me a mencionar algumas peças de trívia moçambicana que o tempo quase que apagou e que fazem parte do fabrico do Moçambique actual.

Francisco Craveiro Lopes foi presidente de Portugal entre Carmona e Américo Tomás. A sua presidência foi no mínimo penosa, por várias razões. São legendárias as suas ambivalências em relação a Salazar e aos destinos por que o seu país navegava. No fim, Salazar mandou-lhe uma simples nota indicando que a União Nacional (que era ele) seleccionara o mais dócil e ultra Américo Tomás para “concorrer” para a eleição de 1958 – a famosa eleição em que concorreu o General Humberto Delgado.

Tudo indica que Craveiro Lopes era um homem bom e decente, com um distinto currículo. O seu pai fora um general e governador da Índia e formou-se no Colégio Militar. Antes dele houve mais. Mais importante, foi um homem que se apercebeu, por mais suavemente que fosse, que algo corria mal na sua república, o que era mais do que se pode dizer de muito boa gente na altura. Foi o único presidente que activamente conspirou contra o regime que Salazar impora aos portugueses. Foi por isso alvo das maiores infâmias por parte dos correlegionários do regime. A ligação acima dá alguns detalhes e testemunhos sobre o que isso foi.

O que pouca gente sabe é que a primeira vez que Craveiro Lopes apareceu no cenário nacional foi pelo que fez em Moçambique, quando, em plena I Guerra Mundial, esteve na fronteira entre o Norte de Moçambique e o então Tanganica alemão, na qualidade de Aspirante de Cavalaria e distinguiu-se no combate aos alemães em 1915 e 1916, nomeadamente em Newala e Quionga. Após voltar à Europa em 1917 para se casar e tirar um curso de aviador, voltou a Moçambique em 1918 por algum tempo.

Craveiro Lopes teve quatro filhos, tudo boa gente mas aqui mencionarei apenas o seu filho Nuno, que viveu durante muitos anos em Moçambique e que, para além de opositor ao regime, foi um arquitecto que deixou obra interessante quer em Portugal quer em Moçambique, para onde veio viver em 1952 e trabalhar como responsável pelo Gabinete de Urbanização e Obras Públicas. A igreja de Santo António da Polana e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no Chibuto são de sua autoria.

Igreja sto ant Polana

Aliás há uma história interessante sobre Nuno Craveiro Lopes e a Igreja de Santo António da Polana. No seu projecto original, aquela horrível casa onde viviam (vivem?) os padres, e que foi erguida mesmo ao lado do ainda hoje arrojado edifício, ficava muito mais longe. Mas os senhores padres não se viam a andar a pé para entrar no templo e mandaram “encostar” a casa à igreja e fazer um túnel de acesso entre os dois edifícios para não molharem a batina, o que enfureceu o arquitecto (ele deve ter desmaiado quando fizeram o ainda mais arrepiante “salão de festas” por detrás, um armazém, basicamente, onde fui inúmeras vezes ao cinema – por cinco escudos via o filme e ainda comia uma bola de Berlim e bebia uma Coca-Cola).

Outro incidente igualmente grave foi que, no projecto original da igreja em si, tal como concebido por Craveiro Lopes, o altar-mor ficava não onde está hoje mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula do espremedor de limão, onde o efeito da luz ao meio dia era mágico. E o chão da igreja era para ser feito em mármore branco. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos de cima, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico que a chachada que acabou por ser imposta no fim.

LM Igreja S A da Polana

Mas os srs. padres no fim mais uma vez deram a volta. Até hoje, aquilo ficou organizado em estilo teatro, o altar-mor encostado à parede e o povão crente sentado de frente.

Altar mor da Igreja st ant Polana

O Espólio de Gabriel Teixeira e a Piscina do Desportivo

Piscina do Desportivo em 1971

por ABM (Cascais, 25 de Novembro de 2009)

Gabriel Maurício Teixeira foi, entre outros cargos Governador Geral de Moçambique durante três mandatos consecutivos, entre 1946 e 1958.

Antes disso, foi um célebre Governador de Macau que, com o legendário desenrascanço português, conseguiu com que os exércitos japoneses não ocupassem aquela colóniazita asiática durante a 2ª Guerra Mundial. Na ligação em baixo conta-se o episódio.

Um grande governador de Moçambique, não tanto como José Cabral, mas deixou a sua marca. Também é recordado por ser mulherengo que não bastasse, e de frequentemente se passear frequentemente de cavalo, sózinho, pelas ruas de Lourenço Marques.

Já antes desempenhara cargos na administração colonial naquele território em Cabo Delgado e em Lourenço Marques.

Há cerca de um ano, um filho seu, José Castro Teixeira, gentilmente doou ao IICT em Lisboa a documentação abaixo, respeitante a Moçambique.

Para além do mais, fiquei a saber que a piscina do Grupo Desportivo, onde cresci e passei boa parte da infância, foi inaugurada por ele no dia 24 de Julho de 1949 (ver item 59). Há sessenta anos.

E já nem me lembrava que, por razões que me ainda escapam por completo, no tempo antes da Independência, o dia da cidade era, pelos vistos erradamente, celebrado no dia 24 de Julho.

Talvez mais importante dum ponto de vista histórico, eis um conjunto de documentos que até este momento não foram analisados por quem mais entenda do assunto.

1. Álbum fotográfico do regresso do Governador-geral de Moçambique em 1951.
2. Álbum da Associação dos velhos colonos de Moçambique.
3. Álbum relativo á visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
4. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao distrito de Gaza (Março 1957).
5. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul (1947-1948).
6. Documentário fotográfico do ensino e assistência prestada na Colónia de Moçambique aos Indígenas para elevação do seu nível social.
7. Álbum relativo á visita do Ministro do Ultramar Comandante Sarmento Rodrigues.
8. Documentário fotográfico da visita do Presidente da Republica General Craveiro Lopes a Moçambique em 1956 (Reportagem completa em 3 volumes.).
9. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao Quénia.
10. Álbum relativo à Companhia Industrial da Matola.
11. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul em Junho de 1952.
12. Álbum fotográfico relativo á Ilha de Moçambique e Província de Nampula.
13. Álbum fotográfico da visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
14. 4 Pastas contendo o arquivo das negociações havidas entre o Governo Português, Governo Moçambicano e o Governo da Rodésia do Sul para a transferência da posse do Porto e Caminho-de-ferro da Beira para a Administração Portuguesa.
15. Pasta contendo duplicados de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério do Ultramar 1949.
16. Pasta contendo correspondência confidencial e secreta relativamente ao Caminho-de-ferro de Téte.
17. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para o Governador-geral de Moçambique.
18. Pasta contendo telegramas secretos do Governador-geral de Moçambique para o Ministro das Colónias em 1949-1950.
19. Pasta contendo telegramas secretos do Ministro das Colónias para o Governador-geral de Moçambique em 1949-1950.
20. Pasta contendo ofícios confidenciais e secretos expedidos e recebidos.
21. Pasta com correspondência relativa ao empréstimo de 1 Milhão de Contos a Moçambique em 1947-1950.
22. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para Moçambique.
23. Pasta contendo de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério das Colónias.
24. Pasta com Arquivo confidencial relativa a assuntos económicos da Junta de Exportação de Moçambique.
25. Pasta relativa a assuntos económicos da Comissão Reguladora de Importação.
26. Projecto de beneficiamento Hidro-Agrícola do Baixo Incomati do Eng. Sousa Monteiro (Setembro 1959).
27. Relatório sobre as cooperativas dos Agricultores Indígenas referente ao Ano de 1958.
28. Informação sobre as condições de Produção e Exportação de Chá relativas ao Ano Agrícola de 1945-1946 (Junta de Exportação da Colónia de Moçambique).
29. Relatório da Sociedade de Emigração para S. Tomé e Príncipe (1914).
30. Dendrologia de Moçambique Vol. IV e V.
31. Conferências na Escola Superior Colonial Ano Lectivo de 1942-1943.
32. O mundo Arabo-Islâmico e o Ultramar Português por José Júlio Gonçalves.
33. Relatório dos 2 Anos de Governo de Angola Junho de 1907 a Junho de 1909 por Henrique de Paiva Couceiro em Angola acompanhado de ensaio sobre a vida e acção de Paiva Couceiro em Angola pelo General Norton de Matos.
34. Relatório sobre o resgate dos “Machongos” do sul do Save referente a 31 de Dezembro de 1957 pelo Eng. Sousa Monteiro.
35. Panorama da Industria de Moçambique. Gabinete de Estudos da Direcção dos Serviços de Economia e Estatística Geral.
36. Relatório do Governador do Distrito de Huila (1912).
- The Sea Fishes of Southern Africa by Prof. J.L.B. Smith.
37. Quadros da História de Moçambique pelo Cónego Alcantra Guerreiro (Vol. I e II).
38. Moçambique Documentário Trimestral:
nos 10, 49, 51-57, 60
39. A Música Chope-Gentes afortunadas Hugh Tracey.
40. Relatório do Concelho de Câmbios. Ano 1948.
41. Mensagem dirigida ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira em 13 de Fevereiro de 1950.
42. Mensagem da Associação Africana da Zambézia.
43. Mensagem da Casa de Moçambique em Portugal.
44. Diploma de Sócio Honorário da Associação de Futebol de Lourenço Marques.
45. Mensagem da Junta Local de Gaza.
46. Mensagem da População de Namaacha (Moçambique), Outubro 1947.
47. Pasta contendo correspondência enviada pelo Ministro do Ultramar Prof. Doutor Raul Ventura ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
48. Pasta contendo correspondência trocada entre o Presidente do Conselho Prof. Doutor Oliveira Salazar e o Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
49. Pasta contendo diversos documentos e cartas relativo ao período em que o Comandante Gabriel Teixeira foi Governador-geral de Moçambique.
50. Visita do governador-geral à Cidade da Beira em Junho de 1947.
51. 2 Álbuns relativos à eleição do Presidente da República General Craveiro Lopes.
52. Aspectos do regresso a Moçambique do governador-geral Comandante Gabriel Teixeira em 05/11/1947.
53. Álbum relativo à entrega do porto e caminho-de-ferro da Beira.
54. Álbum relativo à visita do Presidente da República General Craveiro Lopes à Vila de João Belo em Agosto de 1956.
55. Álbum com imagens da visita do Orfeão Académico de Coimbra a Lourenço Marques Setembro/Outubro de 1949.
56. Álbum relativo à visita do governador-geral à plantação Chá Tacuane, Lda.
57. Álbum relativo à visita do governador-geral à Rodésia do Sul em Junho 1952.
58. Álbum relativo à visita do governador-geral à Associação Indo-Portuguesa.
59. Álbum relativo à inauguração da piscina do Grupo Desportivo de Lourenço Marques em 24 de Julho de 1949.
60. Álbum fotográfico da manifestação por ocasião do regresso à Colónia do governador-geral (edição da Câmara Municipal de Lourenço Marques).
61. Álbum relativo à participação de Moçambique na feira de Industria Portuguesa em 1951.
62. Álbum oferecido ao governador-geral pela comunidade Indiana de Lourenço Marques relativo à proclamação da República da Índia.
63. Reportagem da visita do governador-geral à Província da Zambézia em 1948.
64. Álbum oferecido ao governador-geral pelos Presidentes das Cooperativas dos Agricultores de Zavala.

Sobre a interessante biografia de Gabriel Teixeira, consulte-se este sítio, páginas 194 a 198.

A foto acima, é uma parte de um slide que o pai BM tirou em 1971. A melhor fotografia da piscina do Desportivo que há na internet – cortesia do Maschamba.

Um Encore

(por AL no chuvoso dia 25 de Nov) –

No início deste mês postei aqui na maschamba um convite que me chegou via email, para celebrarmos os 25 anos da ACRENARMO, uma associação de amantes de Moçambique. Esse meu post foi hoje comentado por Paulo Baptista, sócio e membro da direcção (penso que estou correcta). Como o comentário contem informações adicionais sobre o que é a ACRENARMO e porque receio que a maioria dos leitores maschambeiros não vá tão atrás no tempo, aqui vos deixo o comentário integral:

Olá meus caros.

Realmente e infelizmente a Acrenarmo, mesmo com 25 anos ainda é uma desconhecida de todos.
Até agora dedicou-se quase em exclusivo aos convívios e a pequenas actividades recreativas. Acontece que se assim continuasse esta associação estaria condenada à extinção, pois não haveria continuidade.
Estamos à quase um ano com uma nova direcção que pretende dar outro dinamismo e uma vertente mais cultural. Acontece que não chega fazer workshops e aulas de dança e outras pequenas coisas que aparecem. Precisamos de dar a esta associação o estatuto de adulta. Existem muitos projectos, mas falta-nos meios humanos.
Afinal são 25 anos…….. 25 ANOS!
Mas o que mais me entristece, é que não se consegue colaboradores, ninguém que tenha garra e motivação de modo a dar corpo e estatuto à Acrenarmo.
Neste momento, não tenho outra solução do que continuar a lutar e divulgar o nosso projecto para levar isto por diante e tentar reunir tropas.
A credibilidade e o sucesso da associação depende do que fizermos daqui por diante e de nada serve colocarmos o carimbo de saudosistas ou seja lá o que for. Apenas tenho a preocupação de levar um projecto para a frente com alguma qualidade.
Gostaria que daqui por diante, aparecessem pessoas que tal como vocês, tenham ideias claras e válidas de modo a contribuir para o crescimento desta associação.

Só uma nota: Não levo a mal os vossos comentários, pelo contrário, até me divirto. E como eu costumo dizer…o que interessa é que falem.

Um abraço a todos, e quando quiserem, apareçam, pois falar aqui é uma coisa, outra é conhecer o projecto.
Estarei à vossa disposição para o explicar melhor se o entenderem.
Espero ver-vos no convívio, o que me daria muito prazer.

Um abraço
Paulo Batista

(um abraço meu ao João Machado da Graça se falarem com ele)

Membros da Orquestra do Rádio Clube de Moçambique, 1957

1957 LM Músicos do RCM

por ABM (Cascais, 9 de Novembro de 2009)

Esta é uma foto de alguns dos membros da orquestra do Rádio Clube de Moçambique no ano de 1957. No verso tem dois nomes, não sei quem são os restantes.

As coisas que a gente consegue descobrir em Portugal.

Dedicado à Maschambiana Vera Azevedo.

Dia de Maputo

Comemoram-se hoje os 122 anos de Maputo, feriado municipal. Deixo reprise, um post alusivo à data que aqui deixei há exactamente dois anos, invocando (e agora recordando) uma bela publicação dedicada à cidade.

***

 

Para além do feriado (ainda que sábado) uma boa forma de hoje comemorar os 120 anos da cidade será olhar este interessantíssimo estudo

[António Sopa, Bartolomeu Rungo, Maputo-Roteiro Histórico Iconográfico da Cidade, Centro de Estudos Brasileiros, 2006, 56 pps.]

O livro foi realizado em 2005, para a produção das exposições “Xilunguine, as origens da cidade” e “Percurso histórico da cidade de Maputo”. Vasta iconografia, percorrendo as origens da povoação, passando pelo seu traçar colonial, até, e aqui muito se saúda, ao desenvolvimento do além-cimento. A cidade mesmo, sem os espartilhos conceptuais, conservadores – e quantas vezes saudosistas – de outras abordagens iconográficas.

(c. 1880)

(1960-1970)

(1996)

jpt

As Alterações Toponímicas de Maputo

por ABM (Cascais, 1 de Novembro de 2009)

Com a devida vénia ao Sr Jorge Luis P. Fernandes, reproduzo o trabalho de sua autoria sobre a tourada dos nomes da Cidade de Maputo e do país.

De lê-la, fico com a impressão que os moçambicanos aprenderam o truque dos nomes com os portugueses. Portanto, tudo em família.

Segue-se o texto, em duas partes, que fala sobre toponímia, selos e carimbos. “Afenal”, o Sr. Fernandes escreveu isto no seu site,  filatelicamente.online.pt.

Avancemos, então:

(1ª parte)

AS ALTERAÇÕES TOPONÍMICAS E OS CARIMBOS DOS CORREIOS


QUANDO SE CHAMAVA “DELAGOA BAY” A LOURENÇO MARQUES

BREVES CONSIDERAÇÕES TOPONÍMICAS E HISTÓRICAS

Baía da Lagoa, Lourenco Marques, Delagoa Bay (ou simplesmente Delagoa), Xilunguíne (ou Chilunguíne), Mafumo (ou Camfumo, existindo ainda outras variantes de grafia) e finalmente (mas não consensualmente) Maputo são tudo topónimos que dizem respeito à grande e bela cidade, com o seu magnífico porto, capital do país à beira do Índico que actualmente é a República de Moçambique. Lourenco Marques foi ainda a capital do território que, sob a soberania portuguesa, administrativamente começou por ser província ultramarina, depois colónia, para passar novamente a província e a seguir a estado; foi rebaptizada com o nome de Maputo em 3 de Fevereiro de 1976, depois da independência do país (Fig.1).

Muitos daqueles nomes e as sucessivas mudanças administrativas tiveram e continuam a ter expressão na Filatelia, o que bem demonstra a importância deste passatempo, eminentemente cultural, nas suas diversas vertentes (isto, usando um estafado, mas sempre verdadeiro e actual lugar comum).

Vem a propósito referir que os primeiros selos do território, do tipo “Coroa”, têm simplesmente a legenda “Moçambique; logo a seguir as emissões de D. Luís aparecem com a designação de “Província de Moçambique“; depois, nos selos de D.Carlos vemos “Portugal/Moçambique“, passando novamente ao comum “Moçambique“, que perdurou largos anos; com o Acto Colonial de Salazar temos a emissão evocativa das vitórias de Mouzinho de Albuquerque (1930/31) que leva inscrita a designação “Colónia de Moçambique“, logo seguida, em 1938, das séries comuns a todos os territórios ultramarinos portugueses com a “imponente”, mas pouco duradoura legenda “Império Colonial Português“; voltando-se depois à simplificação de “Moçambique“, esporadicamente aparecem as emissões comemorativas do Centenário do Selo Postal de Portugal com a inédita legenda “Ultramar Português” (que não voltou a repetir-se), fixando-se logo a seguir, até à independência, a forma “República Portuguesa/Moçambique”. Curiosamente, entretanto, os selos de imposto postal tipo “Pelicano” e outros levaram, primeiro, a legenda “Colónia de Moçambique“, ressuscitando, depois, a “velha” inscrição das emissões monárquicas “Província de Moçambique1“.

Por outro lado, no tempo colonial o topónimo Lourenço Marques teve grande expressão, obviamente, no panorama filatélico, quer nos selos propriamente ditos, quer nos variadíssimos carimbos dos Correios (Fig.2), usados durante muitos anos; e não nos esqueçamos que o respectivo Distrito teve os seus próprios selos, emitidos de 1893 a 1921. A mesma importância,no âmbito filatélico, se verifica em relação a Maputo, após a independência, sendo interessante lembrar que uma emissão da República de Moçambique, de 1987, comemorou o centenário desta cidade que, necessariamente, em 18872 se chamava Lourenço Marques (Fig. 3).

Fig. 3 Motivo do selo, Lourenço Marques em 1876 – planta do Presídio com a Linha de Defesa, publicada na “Planta Geral da Cidade e Porto de Lourenço Marques” (1926).

Mas deixemos de lado Xilunguíne e Mafumo, nomes sem interesse filatélico objectivo e fixemo-nos no topónimo Delagoa Bay, que os ingleses “inventaram” a partir da portuguesa Baía da Lagoa, nome polémico que fez correr muita tinta e que ainda, actualmente, por vezes é referido num contexto que demonstra ignorância sobre o seu real significado. Não é conhecido qualquer carimbo dos Correios com este nome que, contudo, aparece com grande frequência nos endereços das correspondências dos fins do século XIX e princípios do século XX, respeitantes a Lourenço Marques.

A Baía de Lourenço Marques foi descoberta por navegadores portugueses, logo após a primeira viagem de Vasco da Gama á Índia, aparecendo já referenciada em 1502, no célebre mapa de Cantino. Era conhecida, nesses primeiros tempos, por BAÍA DA LAGOA, pois acreditava-se que os vários rios que nela desaguavam provinham de uma grande lagoa existente no interior (3). O seu reconhecimento geográfico só viria a ser feito em 1544, no reinado de D.João III, por um obscuro navegador chamado Lourenço Marques, piloto das naus da Índia e negociante (tratante, como então se dizia, isto é a pessoa que fazia tratos ou negócios), por ordem, segundo se crê, do Capitão de Sofala e Moçambique, João de Sepúlveda. Supõe-se, embora não sejam conhecidas provas documentais, que foi D.João III, que havia mandado explorar a região reconhecendo a sua importância para o trato do comércio, lhe deu o nome de Lourenco Marques, homenageando aquele navegador.

Mas não tendo havido uma ocupação efectiva dos portugueses, a Baía começou a ser frequentada por navegadores de outras nacionalidades, holandeses, ingleses e franceses, chegando mesmo a haver tentativas de estabelecimento de feitorias, que fracassaram, por holandeses e austríacos no século XVIII.

A soberania portuguesas foi restabelecida quando em 1782 desembarcou na Baía o primeiro governador de Lourenço Marques, Joaquim de Araújo, fundando com um reduzido destacamento de homens mal preparados e equipados, o presídio de Nossa Senhora da Conceição, no local do “providencial estuário [do rio] do Espirito Santo [onde se] pode à”priori” concluir que esse lugar estava predestinado para base de um empório comercial, apenas ali se cruzassem com as correntes do “hinterland” as do tráfego oceânico” (4), Sítio inóspito e constantemente ameaçado pelos ataques dos regulados vizinhos, onde nasceu a povoação, depois vila (1876), mais tarde cidade (1887) e capital (1898), com o seu importante porto, que se chamou Lourenço Marques e que alguns teimavam em designar por Delagoa Bay. Teimosamente ou por inconfessados interesses…

DELAGOA BAY, UM TOPÓNIMO QUE TARDOU A DESAPARECER

Segundo o historiador Dr, Alexandre Lobato (5), na segunda metade do século XVIII a designação internacional de Lourenço Marques era Delagoa; e tanto assim era que os holandeses, que tentaram instalar uma feitoria no local, construíram uma fortificação a que chamaram Forte Lagoa.

E nos fins do século XIX acentuava-se a influência inglesa na região, graças á política de intrigas que então se praticava com os chefes indígenas, à influência exercida pelas companhias magestáticas; enfim todos os meios eram utilizados para minar os interesses portugueses e contestar a nossa soberania, que se consolidou definitivamente em 1875 com a sentença arbitral de Mac-Mahon (6). Houve até um jornal que se intitulava “Delagoa Bay Gazette” Vejamos o que a este propósito escreveu o citado historiador moçambicano: – “Estava-se no esplendor da influência britânica. A Inglaterra tornara a fazer mão-baixa do Transval. Vivia-se a época faustosa das grande companhias inglesas de Delagoa Bay, pois Lourenço Marques voltara a chamar-se Delagoa, como vinha escrito nos caixotes que a alfândega despachava”. Nos caixotes e nas correspondências, acrescentamos nós:

Este estado de coisas chegou a um ponto tal que, diz-se, um governador do Distrito, aborrecido e ofendido nos seus brios patrióticos de bom português com o teimoso e abusivo uso de Delagoa, deu instruções para que toda a correspondência endereçada com esta designação fosse imediatamente devolvida. Não anotámos, infelizmente, a origem da referência lida algures, há muitos anos, e por isso nunca conseguimos confirmar este facto, que seria de muito interesse para a história Postal de Moçambique. Desconhecemos, assim, se existe algum documento oficial. Mas a verdade é que uma carta da época devolvida ao remetente, com anotações que explicassem a razão da devolução, seria uma peça de história postal (e não só…) extremamente interessante! Pode ser que um dia apareça ainda tão sensacional documento filatélico – no lugar próprio e em mãos certas -, que se encontre esquecido em velho arquivo ou que faça parte de uma colecção, devidamente resguardado, é certo, mas sem que seja notada a sua importância…

Ilustramos estas notas, talvez não tão filatélicas como é habitual nos nossos escritos, com alguns exemplos, dos muitos que são conhecidos por todo o lado:- Na gravura 4, em carta em 1899, nota-se o endereço do remetente com as duas designações – LOURENÇO-MARQUES/DELAGOA BAY; repare-se que as letras de Delagoa Bay são maiores do que as de Lourenço Marques. Por outro lado, numa carta de 1905 (Fig.5), omite-se pura e simplesmente o topónimo da cidade, considerando-se que Delagoa Bay apenas, era mais do que suficiente para a correspondência chegar ao seu destino, sem problemas; como usual, o remetente é uma importante firma inglesa, aliás muito conceituada em Moçambique pelos tempos fora. Um curioso bilhete-postal ilustrado de 1906, que reproduz uma vista da Ponta Vermelha (Bairro de grandes tradições na cidade), tem a legenda impressa Lourenço Marques (Fig.6), a que o remetente entendeu por bem, à cautela, acrescentar o famigerado (Delagoa Bay), na sua letra, com parenteses e tudo!

A terminar, fazemos notar que a Baia de Lourenço Marques, foi desde sempre também conhecida como Baía da Lagoa, o que nada tem a ver, evidentemente, com a abusiva Delagoa (palavra, aliás, de morfologia errada), referindo-se á cidade. Um mapa de 1899, por exemplo, grafa com todos os pormenores: Lourenço Marques para a cidade/capital; Rio de Lourenço Marques ou do Espirito Santo; Bahia de Lourenço Marques ou da Lagôa.

BIBLIOGRAFIA

- Colecção de recortes do arquivo do autor.

- Jornal “Noticias” (Lourenço Marques) , número especial, Natal de 1966. – “Lourenço Marques, Xilunguíne – Biografia da Cidade”, por Alexandre Lobato; edição da Agência Geral do Ultramar – Lisboa, 1970.

NOTAS

1 Fizemos neste espaço um breve resumo do assunto, pouco exaustivo e, consequentemente, com falhas de pormenor.

2 Lourenço Marques foi elevada à categoria de cidade por Decreto de 10 de Novembro de 1887, no reinado de D.Luís I.

3 Segundo Alfredo Pereira de Lima, historiador moçambicano, que foi responsável pelo Gabinete de História da Câmara Municipal de Lourenço Marques.

4 Segundo Jaime Cortesão, citado por Alfredo Pereira de Lima.

5 Alexandre Marques Lobato, ilustre historiador; nasceu em Lourenço Marques (1915) e faleceu em Lisboa (1985). Publicou vários livros e valiosos estudos sobre a história de Moçambique.

6 O presidente da República Francesa, Marechal Mac-Mahon, por sentença arbitral, decidiu a favor de Portugal o litígio com a Inglaterra sobre os direitos de soberania destes territórios, no sul de Moçambique.

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( 2ª Parte)


NOTA PRÉVIA – Na primeira parte [acima] deste artigo, referimos que os nomes XILUNGUÍNE e MAFUMO não tinham interesse filatélico objectivo, já que não existe qualquer marca de Correios com estes nomes; mas esta asserção não significa que os topónimos não mereçam a nossa atenção, dada a sua evidente importância histórica e directa ligação com Lourenço Marques e Maputo, estes sim bem conhecidos dos coleccionadores. O seu estudo tem a maior relevância para a compreensão das razões por que, após a independência de Moçambique, foi escolhido para a capital do novo país o nome de MAPUTO. Já anteriormente no artigo número XIX, desta série, abordámos, embora de forma breve, esta escolha, que só não foi polémica porque na altura as condições políticas não eram propícias a discussões públicas deste género. Prometemos então voltar ao assunto, o que agora fazemos, depois de um interregno que lamentamos, alheio à nossa vontade.
Assim, este artigo fecha a série de trabalhos que ao longo de muitos anos escrevemos para “A Filatelia Portuguesa”, esperando, em breve, fazer as necessárias adaptações para a sua publicação em forma de livro electrónico, na sequência de outros livros assinados por distintos filatelistas, meritória e inédita iniciativa do CNF, que nos cumpre exaltar.
Desejamos ainda, para finalizar esta introdução, realçar com muita convicção o facto de que, de modo algum, consideramos, esgotado o tema que respeita às alterações toponímicas em Moçambique e o seu reflexo nos Correios; se nos permitem os colegas mais ortodoxos, dizemos que consideramos importante o seu valor para a História Postal do país. Contudo, não podemos deixar de lamentar que apenas tivéssemos o apoio e colaboração de dois ou três filatelistas – a quem publicamente agradecemos –, apesar de várias vezes termos feito apelos nesse sentido. Salvo algumas breves referências em contextos vários, nada vimos até hoje publicado sobre este aliciante tema, para além dos nossos modestos trabalhos.
E se para Moçambique ficam lançadas as bases, em relação aos outros antigos territórios do Ultramar Português, rigorosamente nada foi estudado ou publicado, ao que saibamos. A área de estudo é aliciante (atrevíamo-nos a dizer, até, que historicamente é relevante), especialmente no que se refere a Angola. Nestes quase 30 anos de independências muitos elementos perderam-se – é quase certo – e um estudo preciso e bem documentado, está, parece-nos, irremediavelmente comprometido. No futuro, os estudiosos e coleccionadores de História Postal neste âmbito, jamais perdoarão à nossa geração tal desinteresse, apatia e incúria na recolha de elementos e peças filatélicas, tarefa que não teria sido difícil na altura…

HISTÓRIA; GEOGRAFIA E TOPONÍMIA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Informa-nos António Cabral, no seu utilíssimo “Dicionário de Nomes Geográficos de Moçambique – Sua Origem”, de que nos socorremos frequentemente, que Lourenço Marques era conhecida por LOLENZOMAQUI (corruptela do topónimo), XILUNGUÍNE ou CHILUNGUÍNE (o lugar dos brancos) e CAMFUMO (de KA-MPFUMO, o lugar do governo, do poder – governo e poder dos régulos, entenda-se, pois o topónimo/antropónimo, nome do rei ou sede do regulado2, era já usado pelos naturais antes da fundação de Lourenço Marques).
Tínhamos aqui duas hipóteses para o novo nome de Lourenço Marques (excluindo à partida a corruptela, obviamente). Contudo, XILUNGUÍNE, dada a evidente conotação colonialista, também estava fora de causa. Melhor colocadas (digamos até com todas as hipóteses) estavam as versões portuguesas CAMFUMO/CAFUMO/MAFUMO, ou o vernáculo KA-MPFUMO/KA-MFUMO da língua Ronga.
Mas porque razão foi escolhido MAPUTO? É a resposta a esta questão, que vamos tentar descortinar.
Como pode ver-se na nota publicada na época pelo “Diário de Noticias”, que abaixo se transcreve, a designação CAMFUMO3 chegou a ser considerada, tendo sido usada pelos correspondentes dos jornais portugueses presentes nas cerimónias de independência de Moçambique, o que é um pormenor de muito interesse. À partida, o pequeno artigo, assinado “G. de M.”, que parece serem as iniciais de Guilherme de Melo, ilustre poeta moçambicano (leia-se nascido em Moçambique) radicado em Portugal, contém vários erros, de que destacámos dois: um de somenos importância, mas que convém assinalar, refere-se ao dialecto Ronga, falado no sul de Moçambique; não se trata de um dialecto, mas sim de uma Língua, actualmente uma das línguas nacionais do país. O segundo erro, este bastante grave, é dizer-se que CAN FUMO ou KA-PHUMO (nas versões do autor), era o “régulo Maputo, o senhor das terras onde em 1763 se estabeleceu a primeira feitoria portuguesa”. Isto não é de todo verdade, como veremos.


A LOCALIZAÇÃO GEOGRAFICA DE MAFUMO E MAPUTO

Existem várias versões do topónimo que, na opinião de muitos, deveria ter sido o nome da capital da República Popular de Moçambique4, mas que não o foi, diz-se, por expressa vontade de Samora Machel.
Assim: a) Na versão mais vernácula: KA-MPFUMO, sendo este o nome que muitos consideram correcto; KA-MFUMO, KA-FUMO e KA-PHUMO (versão pouco vista), b) Nas versões mais usadas pelos portugueses: MAFUMO, CAMFUMO e CAFUMO, sendo CAMFUMO a designação mais corrente, embora alguns historiadores modernos tenham optado por MAFUMO.5
Não restam quaisquer dúvidas de que o regulado KA-MPFUMO, com a sua sede, e situava exactamente no local onde, em 1782, foi fundado o presídio6 de Lourenço Marques.
Alguns exemplos, dentre os muitos que poderíamos citar: Um mapa datado de 1780 tem como título “Part of the District Called Mafumo”; noutro mapa de 1825 assinala-se o rio Mafumo, que depois se chamou do Espírito Santo e que desagua na baía de Lourenço Marques (Baia do Maputo, depois da independência); sabe-se que os austríacos tentaram implantar uma feitoria no local em 17777, firmando tratados de soberania com os régulos das duas margens do rio Mafumo; Diocleciano Fernandes das Neves e Ilídio Rocha, no livro “Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer”8 referem-se várias vezes a KA-MFUMO, como sendo Lourenço Marques, chamando-lhe até o régulo maior do distrito; também modernamente, Alexandre Lobato, refere abundantemente este facto.

Citemos agora alguns elementos referentes à localização das terras do régulo MAPUTO, que se situavam no extremo sul de Moçambique, o que pode verificar-se no mapa que se reproduz (Fig. 3), onde foram enquadradas, para fácil referência, os diversos nomes mencionados neste trabalho.

Fig. 3 – Brasão de Lourenço Marque

Assim, na “História de Moçambique” de René Pélissier, lê-se a certo passo: “Vê-se que as gentes do Maputo eram “vizinhos” difíceis para os portugueses e é manifesto que o Maputo, a sul do paralelo 26º 30′ e do rio Maputo”… Também no livro “Usos e Costumes dos Bantos” podemos aprender que: “Os verdadeiros Rongas são, parece-me, os clãs Mafumo e Matola, situados a este da baia [Lourenço Marques]. Ao sul da baía encontra-se o clã Tembe e os seus dois subclãs, que se tornaram independentes: Matatuíne e Maputo. Ao norte de Lourenço Marques existem os clãs Maiota e Magaia”… (o sublinhado é nosso).
Modernamente existiam, administrativamente, no sul de Moçambique, entre outros, os concelhos de Lourenço Marques, com sede na cidade do mesmo nome, e Maputo, com sede em Bela Vista.
Por estes sucintos exemplos é fácil notar que, geograficamente, MAFUMO e MAPUTO, nada tinham de comum. E se considerarmos que as mudanças toponímicas na República Popular de Moçambique, na maior parte dos casos, se fizeram revertendo ao antigo nome (p.e. Matola/Salazar/Matola (nome de regulado); Búzi/Nova Lusitânia/Búzi (Búzi significa cabrito!); Xai-Xai/João Belo/Xai-Xai (onomatopeia?); Angoche/Antonio Enes/Angoche (nome do sultanato e da ilha)9; se tivermos em conta estes exemplos concretos, dizíamos, só podemos considerar que a decisão de Samora Machel dar o nome de MAPUTO à cidade capital, com a qual muitos não concordaram, foi puramente política. Estávamos em Moçambique na altura e tivemos a oportunidade de ouvir (confidencialmente, claro!) muita gente a discordar do nome; mas como é óbvio, na circunstância, discordar em “família” era uma coisa, expressar o seu pensamento publicamente era outra…
Se tivesse sido considerada a lógica dos factos apontados, no que concerne á localização geográfica dos regulados, certamente hoje não teríamos carimbos de correio com o nome de MAPUTO, mas sim CAMFUMO ou CAFUMO (ou até, quem sabe? o difícil vernáculo KA-MPFUMO). Coisa que certamente não nos causaria estranheza!
Posto isto só podemos aventar que a decisão política poderá ter sido tão simplesmente pelo facto de que o regulado MAFUMO, naquele período de guerras entre clãs com os portugueses pelo meio; intrigas e traições de vária ordem (estratégia muito usada na altura; prepotências e violência de ambas as partes, com lutas, massacres e inúmeros sacrifícios de militares e das populações branca e negra, aquele regulado, dizíamos, apoiou muito fortemente os portugueses. Por outro lado o MAPUTO manteve-se como território independente, território este que se estendia para fora das fronteiras oficiais portuguesas, estabelecidas por sentença arbitral do presidente da República Francesa, Marechal Mac Mahon, em 1875. O regulado do MAPUTO nunca se subjugou e sempre enfrentou Portugal. Vejamos pois, para terminar, mais alguns “prós e contras”, baseados em factos históricos, abordados de forma sintética, como convém nestes casos.

MAFUMO, O AMIGO
Lourenço Marques estava implantada em território Tsonga ou Tonga, sendo os regulados mais importantes da zona: Mafumo, Tembe, Maotas, Magaia e Matola. Todos estes régulos eram vassalos de Portugal e pagavam tributo. Como se vê, o régulo MAPUTO, não fazia parte deste grupo, que constituía as chamadas Terras da Coroa.
Efectivamente a expedição de Joaquim de Araújo, que em 1782 fundou o presídio foi tão bem recebida que o régulo Matola “não podia dar maior demonstração de afabilidade e cordial afecto pelos portugueses. [... Joaquim de Araújo] foi bem recebido com toda a gente pelo dito Rey e pelos seus apaniguados”.10
Sabe-se também que o MAFUMO, que pagava agora tributo no rei da Moamba, em 1805, depois da fundação de Lourenço Marques, portanto, tornou-se espontaneamente vassalo de Portugal, apoiando as forças portuguesas na guerra contra o MAPUTO e outros régulos.
Como se verifica por esta brevíssima resenha, o régulo MAFUMO era amigo e aliado de Portugal; isto, não obstante ter atacado e assolado Lourenço Marques algumas vezes, devido a intrigas que levavam a alianças pontuais.

MAPUTO, O INIMIGO
Em fins do século XIX a influência de Portugal no extremo sul de Moçambique era praticamente nula. O regulado do MAPUTO, independente, lutava contra os portugueses, atacando frequentemente o presídio, provocando mortes e devastação, aterrorizando as populações, como aconteceu p.e. em 1833 e 1872/73. Intrigas, lutas, protestos amargos do MAPUTO, que se queixava das traições dos governantes portugueses, levaram a que estes, mais do que uma vez, fossem humilhados e insultados.
Mas com as vitórias e avanços de Mousinho de Albuquerque, tornando-se cada vez mais consistente a ocupação efectiva do Império de Gaza, o regulado do MAPUTO perdia influência. Mousinho de Albuquerque instalou-se em Bela Vista e exigiu a submissão de todos os chefes de povoação e o pagamento de vultosas indemnizações de guerra. Ninguém apareceu ou enfrentou Mousinho, que em Fevereiro de 1896, deu inicio a razias em toda a região, castigando a insubordinação dos régulos, Tudo em vão! Afinal de contas o régulo maior e os seu homens tinham passado a fronteira, continuando a resistir, num ultimo desafio. Mas a independência do MAPUTO tinha chegado ao fim.
Supomos que estes factos históricos, muito resumidos e aqui superficial mente analisados, terão influenciado o Presidente Samora Machel: em 3 de Fevereiro de 1976, Lourenço Marques oficialmente passou a chamar-se MAPUTO!

Esta 2ª parte do nosso estudo sobre a mudança de nomes da capital de Moçambique não tem grande expressão filatélica. Obviamente, para ser bem compreendida, deve ser considerada como um complemento da 1ª parte, antes publicada nesta Revista. Julgamos que, no contexto global, estas notas têm algum interesse.

NOTAS
1 Ver “ A Filatelia Portuguesa”, nº 116, Abril de 2003.
2 Os nomes dos régulos ou regulados confundem-se muitas vezes; era comum falar-se dos régulos MAFUMO ou MAPUTO p.e., sem ter em conta o nome do indivíduo que em determinada altura exercia a chefia; em muitos casos ignora-se até os seus nomes próprios.
3 Adiante referiremos várias designações para o mesmo topónimo; por uma questão de metodologia, usaremos MAFUMO sempre que a boa compreensão do texto não exija o uso de outra variante.
4 O nome do país foi posteriormente alterado para República de Moçambique, i.e. foi eliminado “Popular”.
5 P.e. Alexandre Lobato. Como se viu MAFUMO vem de KA-MPFUMO, da língua Ronga, sendo que KA significa “para onde”; MPFUMO designa “chefe” e transformou-se em “fumo”, designação que com o mesmo significado sempre foi usada no tempo colonial.
6 “Presídio” significa, nesta acepção e sempre que é usado neste trabalho, “praça de guerra ou forte e a gente que a guarnece”, embora a palavra também possa referir-se a prisão.
7 Tentativa que resultou num fracasso total, tendo a guarnição sido completamente dizimada pelas doenças e ataques dos régulos.
8 Este livro integra duas partes: “Itinerário de uma Viagem à Caça dos Elefantes”; livro da autoria do primeiro dos autores mencionados, publicado em 1878; e um extenso Posfácio, escrito por Ilídio Rocha, em 1986, com o título de “Dois Portugueses na História da África Oriental”
9 Ver outros artigos desta série.
10 Nessa altura o MAFUMO era aliado (súbdito?) do régulo Matola.

BIBLIOGRAFIA
- Colecção de recortes do arquivo do autor.
- Vários trabalhos do autor sobre esta temática,
- Dicionário de Nomes Geográficos de Moçambique – Sua Origem, por António Cabral, Lourenço Marques – 1975.
- Lourenço .Marques, Xilunguíne – Biografia da Cidade, por Alexandre Lobato, Lisboa – 1970.
- História de Moçambique, por René Pélissier (Vol. 1 e 2), Imprensa Universitária nº 62, Editorial Estampa – Lisboa.
- Usos e Costumes dos Bantos, por Henrique A. Judot (Tomos 1 e 2), Imprensa Nacional de Moçambique, Lourenço Marques – 1974.
- Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer, por Diocleciano Fernandes das Neves e Ilídio Rocha, Publicações Dom Quixote, Lisboa – 1987.

10 de Junho de 1973

19730610gepnilzalm

(por ABM) Cascais, 30 de Outubro de 2009

Mão amiga me arranjou a fotografia acima, que me chamou a atenção porque parecia velha e porque tinha em segundo plano a estátua do enigmático Mouzinho de Albuquerque, nos tempos em que enfeitava a praça em frente do edifício do actual Conselho Municipal de Maputo até pouco antes da declaração de independência de Moçambique em 1975 (agora há lá uma obra de ferro um pouquinho menos…monumental).

No verso da fotografia vinha uma nota: “dia da Raça, 10 de Junho de 1973, desfile dos GEPs, Nilza”.

Em 1973 eu tinha 13 anos e vivia naquela dolce vita própria da idade, completamente alheado do que agora se revela como a Grande, Valorosa e Gloriosa Luta para a Libertação de Moçambique. Bem, para mim, que era um pouquinho menos ciente das coisas que a família Couto, a “guerra” era algo relativamente obscuro que acontecia lá longe no Norte, e é preciso ver que “lá no Norte” em Moçambique, dada a geografia, era mesmo muito, muito longe para quem vivia a mais que dois mil quilómetros ao Sul.

Para além do desporto, jogar ao berlinde e da escola, as maiores recordações que tenho desse ano foi o carnaval no Desportivo (choveu potes), que a canção Popcorn era o maior hit na cidade e ainda aquele dia em que o pai BM decidiu podar as gigantescas mangueiras no quintal da delapidada casa onde vivíamos, algo que levou o dia inteiro e deixou no quintal montanhas de ramos das ditas cujas. E o governador, que diziam que tinha a boca na forma do cu de uma galinha.

Aliás já nem me lembrava que se chamava ao dia 10 de Junho o “Dia da Raça”. Da raça? que raça? Hoje o 10 de Junho tem uma designação um nadinha mais prosaica e abrangente – acho que é “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Supostamente, 1′ de Junho é o dia em que o Luis Vaz morreu em 1580, pouco antes de o octagenário rei-cardeal, infalivelmente, falecer sem deixar descendência, passando a coroa portuguesa, depois de umas negociatas com a local nobreza, para as mãos da monarquia espanhola, iniciando-se assim a “grande noite” que durou até que, sessenta anos mais tarde, o então Duque de Bragança, quiçá mais apreensivo que a sua mulher (que terá proferido o famoso “antes rainha um dia que duquesa toda a vida”) apadrinhou a retoma da regência por nobreza made in Portugal e se seu o título de Dom João IV.

Para sorte do Duque, o rei espanhol andava tão ocupado a tentar não perder a cabeça na Holanda e arredores que em 28 anos nunca teve tempo nem recursos para vir dar uma valente tareia aos seus súbditos rebeldes. Estes entretanto deram o que tinham e não tinham para ter algum apoio dos ingleses e que incluiu efectivamente entregar toda Índia (menos Goa) e o Ceilão, mais uns naviozitos carregados de ouro e de electrodomésticos. Para selar o negócio, até casaram a filha de João, Catarina de Bragança, beata e estéril, a um indescritível Carlos II, que lhe pôs os cornos mais vezes do que há segundos numa hora. No fim, aquilo tudo funcionou mais ou menos e trezentos anos mais tarde fez-se uma curiosa praça em Lisboa no fim da Avenida da Liberdade, apropriadamente baptizada como a dos “Restauradores”, e instaurou-se um feriado. Em Portugal celebra-se esse evento todos os anos a 1 de Dezembro.

Portanto houve um desfile na baixa de Maputo (então LM) com os GEP’s a 10 de Junho de 1973. Como não sei o que eram os GEP’s fui ver. E fiquei surpreendido com o que encontrei aqui, aqui e aqui. Até encontrei um sítio com uma longa lista de emblemas que inclui alguns de Moçambique (do lado português, isto é).

Portanto os GEP’s eram compostos quase integralmente por moçambicanos que, do que depreendo, ou tinham sido da Frelimo ou que a ela se opunham.

Li algures (ok, num livro do Jaime Nogueira Pinto que já referi antes) que em 1974, da força militar que combatia a Frelimo, 60% eram nativos de Moçambique. Pergunta estúpida: o que é que aconteceu a estes militares – de que o que está na foto acima é um deles? ficaram em Moçambique após a independência a prestar contas à Frelimo? vieram para Portugal? têm reforma nossa por prestação de serviços ao Estado português? foram integrados nas forças militares do Moçambique independente? imagino que na fase de transição alguém deve ter pensado nisto tudo. Mas não encontro referência escrita a este tópico.

Certamente um capítulo interessante da história de Moçambique (e de Portugal) sobre a qual seria interessante saber mais.

Entretanto aí fica a fotografia, com a Nilza a dar água a um militar GEP na parada deles no “dia da Raça” – o último que alguma vez se celebrou em Moçambique sob administração portuguesa.

O Caminho de Ferro de Lourenço Marques

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por ABM -

Esta inserção de hoje é mais fotográfica do que escrita – penso eu.

Na história das relações diplomáticas e de negócio do Portugal pré-colonial em Moçambique, poucos projectos terão tido maior protagonismo e impacto do que a construção da linha de caminho de ferro que ligou a Baía da Lagoa ao hinterland da República Sul Africana, então liderada pelo Oom Paul Kruger, arqui-inimigo das pretensões imperialistas de Cecil Rhodes. A sua construção era uma absoluta obsessão de Kruger, que via na intenção britânica de ligar Pretória (e Joanesburgo) ao mar através da linha férrea que subia a partir da Colónia do Cabo, uma ferramenta imperial para esmagar as repúblicas boer e as submeter. Para além de uma distância muito mais curta para a então pindérica vila de Lourenço Marques (uma verdade até estes dias) havia a vantagem de, sendo esse percurso feito através de território português – apesar de Portugal ser de várias formas uma espécie de coutada do Império Britânico (foi-o até ao momento daquela visitinha que os americanos fizeram a um Salazar em choque em 1942)- o mero facto de ser um estado soberano e fora das garras de Rhodes era mais do que vantagem para os Afrikaners.

A construção da linha foi uma verdadeira aventura. Parou, arrancou, acabou-se o dinheiro, foi nacionalizada, etc.

Mais interessante para mim foi que esta semana adquiri, num muito obscuro antiquário em Nova Iorque, uma peça de memorabilia histórica desses tempos.

De entre a multiplicidade de peripécias em redor do projecto, incluiu-se, naturalmente, a constituição de empresas internacionais para financiar e administrar a concessão da linha, cuja conclusão (porque é que eu não estou surpreendido? ficou empanada do lado português.

O que adquiri, e se segue, é um prospecto, com data de 7 de Março de 1887, a anunciar a subscrição pública de dívida no montante de 400.000 libras estrelinas, sendo os fundos para serem utilizados pela The Delagoa Bay and East African Railway Limited.  Obviamente a colocação das obrigações era para sere feita em Londres e inclui um exaltante (e falso) relatório do famoso Major Machado (Joaquim José Machado, um grande amigalhaço de Kruger, que lhe deu o nome a uma das paragens no seu lado da linha, Machadodorp, há dias rebaptizada de -segurem-se – eNtokozewni!) dizendo que em duas penadas a linha estava feita e os accionistas a regorgitarem-se em lucros.

Na verdade correu tudo mal. Pelo meio meteu-se um americano, desapareceu material, os portugueses nacionalizaram o projecto, a Inglaterra rosnou uma dez vezes seguidas e depois vieram os americanos ameaçar dar uma valente tareia se os portugueses não pagassem (os portugueses pagaram, com indemnização e juros).

Mas em 1 de Julho de 1895 a vida em Lourenço Marques mudou para sempre.

O prospecto inclui um mapa onde se pode ver a república boer ainda separadas das colónias britânicas.

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(Eu estava a ver isso agora e estou-me a rir para mim próprio pois quando eventualmente eu morrer, espero que de velho, e vierem os abutres dos herdeiros à procura de taco e coisas valiosas para venderem, em vez disso vão encontrar destas coisas. Ah ah ah!!)