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4ºs Encontros com a História

SEMINÁRIO “HISTÓRIA DE MOÇAMBIQUE – Séc. XVIII e XIX”

Dia 12 de Maio, Segunda-Feira

BENIGNA ZIMBA, “Consumo de Tecido Feminino. Um Aspecto da Cultura Moçambicana (Séc. XIX)” (18H00)

CÂNDIDO TEIXEIRA, “A Administração Portuguesa em Inhambane no Século XVIII: a “Banja” (18H30)

Dia 13 de Maio, Terça-Feira

MARIA INÊS NOGUEIRA DA COSTA, “A Documentação Histórica dos Séculos XVIII e XIX em Moçambique” (18H00)

GERHARD LIESEGANG, “A Situação do Sul de Moçambique antes do Mfecane (Século XVIII)” (18H30)

Dia 14 de Maio, Quarta-Feira

LUÍS FILIPE PEREIRA, “A Ilha de Moçambique no Século XVIII” (18H00)

EUGÉNIA RODRIGUES, “Escravatura, Trabalho Doméstico e Género nos Prazos do Vale do Zambeze (Século XVIII)” (18H30)

Dia 15 de Maio Quinta-Feira

AURÉLIO ROCHA, “A História das Relações Económicas e Sociais entre o Brasil e Moçambique. (1750’s-1850’s)“, (18H00)

JOEL TEMBE, “Migração e Saúde (Século XIX)“, (18H30)

Dia 16 de Maio Sexta-Feira

AUGUSTO NASCIMENTO,O Padre Dias da Conceição e os Alvoroços Políticos nos Alvores de Oitocentos na Ilha do Príncipe“, (18H00)

PEDRO AIRES DE OLIVEIRA, “O Reino Unido e a Independência de Moçambique (1973-1975)” (18H30)

Local: Instituto Camões

Ilha de Moçambique: quase-acontecimentos de 1662

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[”Ilha de Moçambique com a representação da fortaleza de São Sebastião”, António Bocarro, Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações da Índia, Goa, 1635. Ilustrações de Pedro Barreto de Resende]

Dehérain publicou há cinquenta anos, num livro cheio de interesse - Études sur l’Afrique -, quinze páginas sobre a malograda expedição holandesa enviada em 1662 à conquista de [Ilha de ] Moçambique. Compreeendia sete navios, com 1227 homens, o que dá suficiente ideia da grande importância que lhe deu em Amsterdão o Conselho [da Companhia das Índias]. No Brasil corriam mal para os Holandeses os feitos da guerra, mercê da tenacidade com que os colonos os combatiam, mas na Índia tudo lhes corria bem. Colombo e Calecut foram tomadas em 1656, Jafanapatão em 1658 e Negapatão em 1660. Cochim, fundação do Estado da Índia, seria por nós perdida em 1663.  Os Holandeses tinham decidido expulsar os portugueses do Índico, e resolveram conquistar Moçambique, porto fundamental do comércio com a África e da dominação naquele oceano. (…)

A Companhia [das Índias] armou especialmente cinco navios, destacou mais dois da linha de Java e juntou-lhes um iate que deveria ficar depois no Cabo. Um dos navios chegou porém tarde ao Cabo e não alinhou à partida. O comando foi confiado a Huybert de Lairesse e tudo se preparou no maior segredo, a fim de nada chegar ao conhecimento da espionagem portuguesa. A Fortaleza de Moçambique deveria ser tomada de surpresa; não sendo possível, recorrer-se-ia ao assalto; o último meio a adoptar seria o cerco. (…)

A viagem da Holanda ao Cabo foi trabalhosa, com algumas baixas - perto de 90 mortos. Para recompor as guarnições, Lairesse demorou-se no Cabo até 26 de Setembro de 1662, época do ano já avançada para o resto da viagem, que de regra não deve exceder Agosto. Naquele dia deixaram o Cabo, a caminho de Moçambique, 5 navios de linha e 2 ligeiros, com 1227 homens, em que 646 eram soldados.

A notícia do malogro da expedição chegou ao Cabo em Janeiro de 1663, por um dos navios da frota. Esta tinha gasto mais de um mês para atingir o cabo das Correntes. Outro mês foi gasto para atingir a baía Verhagens, que Dehérain julga ser  (…) a actual baía de Mafamede (Mofomeno) [entre o cabo de S. Sebastião e Sofala].

Não faltaram temporais e ventos contrários; os mantimentos começaram a escassear; apareceram as doenças. Lairesse resolveu retroceder para sul do cabo das Correntes para repousar as tripulações e andou para trás em 24 horas o caminho que para diante lhe consumira cinco semanas. Ancoraram num ponto da costa a que chamaram Baracatta, e não está identificado, e aí estiveram os navios mais de um mês, ameaçados de caírem sobre a costa. Tinham morrido 114 homens e 218 estavam doentes. Lairesse decidiu desistir.

Dehérain estranha, com justa razão, que Lairesse se tivesse metido tão aventurosamente ao Índico sem respeitar o regime das monções. E foram inegàvelmente os ventos que salvaram Moçambique. A praça dificilmente poderia resistir, e, tomada, seria quase impossível reavê-la, porque o tratado de paz luso-holandês de 6 de Agosto de 1661 entraria em vigor com o status quo da data da ratificação, e possessões portuguesas que tivessem sido conquistadas pela Holanda permaneceriam em seu poder. Por isso a Companhia tanto recomendara a Lairesse que andasse ligeiro.” (meu sublinhado, jpt)

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[Alexandre Lobato, Quatro Estudos e Uma Evocação Para a História de Lourenço Marques, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1961, pp. 25-28]

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[Gravura reproduzida de Rafael Moreira (coord.), A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994]

Marcello Caetano na História de Moçambique

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Chega-me agora às mãos este “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974)“, livro que retrata a tese de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa de Amélia Souto, editado pela Afrontamento.

Um trabalho de História Política e Institucional que assim se inicia:

Parto da hipótese de Marcello Caetano não ser apenas o herdeiro da política colonial salazarista mas seu cúmplice, no sentido em que a ajuda a construir, a ela adere e com ela colabora. (…) traz consigo a ânsia do poder há muito esperado e uma forma de pensar as colónias e o colonizador que pouco se diferencia do seu antecessor (apesar de algumas nuances na terminologia com que a apresenta). E, embora reconhecendo a necessidade de mudanças e a guerra como um dos principais problemas enfrentados pelo Estado Novo, as suas convicções, os seus pressupostos ideológicos e as suas alianças com as diferentes facções do poder tornaram-no prisioneiro voluntário da ortodoxia e fizeram-no aceitar conscientemente o compromisso com a política colonial e com a manutenção da guerra.” (9)

Depois são 420 páginas - que, no meu caso, terão que ficar adiadas. A reduzir esse adiamento decerto o interesse que logo me despertam os dois capítulos finais, dedicados à “Oposição Democrática em Moçambique” (os oposicionistas portugueses residentes - dos quais o mais célebre e de futura influência é António Almeida Santos) e ao “Poder Espiritual - a Igreja Católica”.

Presumo que o lançamento do livro ocorrerá no final de Fevereiro.

No Entre as Brumas da Memória uma nota sobre As Marchas Populares de Lourenço Marques, com iconografia alusiva [via A Terceira Noite].

Vinho

Há meses deixei pequena nota sobre este vinho. Encontro agora a mesma atenção no Expresso:

(fotografia de Rui Ochôa)

Mas para que seja uma atenção atenta conviria ler “O Vinho para o Preto” de José Capela (Afrontamento). Ou de como a exportação da zurrapa foi um eixo fundamental do estabelecimento colonial. E das políticas que implicou. E seus efeitos.

Porque sem isso apenas fica o sorriso. Triste.

Faróis de Moçambique, de António Sopa e Laura Chirindja, editado pela Ndjira em 2000.
Um levantamento histórico e exaustivo sobre os faróis do país. Lembro-me que alguns anos antes da edição deste livro visitei uma exposição realizada pelo incansável Sopa sobre este assunto. Será talvez obra para marítimo ou coleccionador, mas é belissima. E também talvez metafórica, tanto mar para iluminar.
(entrada repetida, colocada em Maio de 2004)

Para quem tenha apreço pelos postais antigos que aqui foram postos, de modo avulso, ao longo dos anos (e serão) quero lembrar o belíssimo livro “Memórias de Moçambique” de João Loureiro, editado pelo próprio autor em 1997.
Uma cuidada edição que inclui 313 postais sobre Moçambique datados entre 1895 e 1975. Excelente trabalho, tal como as outras obras de semelhante teor que este autor vem publicando.

(entrada repetida, colocada originalmente em Maio de 2004)

“Como era Lourenço Marques há 50 anos”, memórias do colono José Correia da Veiga apresentadas pela mão do jornalista A. Rosado. Fotos de Louis Hilly, Lazarus, e do dr. Ângelo Ferreira. Uma edição de 1949 - portanto remontando à Lourenço Marques do início de XX - do jornal “Notícias”, integrada na série “As Grandes Reportagens do Notícias”. O livro é composto por um conjunto de textos inicialmente publicados no jornal.

Um detalhe sobre o início da cidade colona, arquitectura e vida nos finais do século XIX e alvores de XX. Pena que a impressão das várias fotos seja frágil, o que obsta à sua reprodução aqui. Aqui fica memória do início da cidade automobilizada.

O início da cidade colonial, um retrato da sociedade à época. E ainda presente a iconografia da conquista. Eis um grupo de cidadãos integrantes de uma “legião estrangeira defensores da cidade contra o Gungunhanha“. Nele pontifica o fotógrafo Louis Hilly (1º à esquerda), pelo que presumo que a fotografia seja um auto-retrato encenado, ou gostaria que assim fosse.
Daí que aqui fica pois os fotógrafos, tal como os vencidos, quase nunca são (re)vistos.

(entrada repetida, colocada em Maio de 2004)


Brito Camacho, autoridade colonial, ministro da República, pedagogo, etc. e tal, homem muito louvado. Homem do seu tempo? Ou, sem anacronismos, mero tresleitor?

Vejo muita gente caiada, homens e mulheres, gente de cor.

Dizem-me que é por chíbantice e por comodidade, por causa do calor, nos dias em que o sol tem irradiações de fornalha, a arder perto da terra. Já percorri quasi toda a Província e só aqui, na Cidade de Moçambique, encontro esta utilisação da cal. Ainda hontem, perto do cemitério, encontrei um pretalhaz, grande como uma torre, tão abundantemente caiado, que me deu vontade de lhe escrever um palavrão na cara.”

(Brito Camacho, Pretos e Brancos, Lisboa, Guimarães e Companhia, 1926, pp. 235-236)

Um evento interessante, esta semana no Instituto Camoes (Nyerere).

No Passado/Presente nota de Miguel Cardina sobre O Saudoso Tempo do Fascismo, de Helder Costa. Referencia para a capa, a parelha Anao de Arcozelo e Gigante de Manjacaze no velorio de Salazar. E ainda memoria do livro de Manuel da Silva Ramos, Viagem com Branco no Bolso, sobre essas duas personagens.

História:

(Quelimane, Dezembro 2006)

Dois pequenos textos interessantes: um sobre o Sida em Mocambique e outro sobre a memória do comércio de escravos em Zanzibar. Interessantes também pela forma como sendo textos pacíficos, permitem tanto asnear na leitura (é ir-lhes aos comentários).

Há alguns dias no Chuinga um texto sobre o velha rádio, o LM Radio. Sorri, pois dias antes a esplanada de fim-de-tarde acolhera memórias alheias sobre o LM Radio, surpreendentemente emitindo em línguas bantu nesse tempo colonial. E nesse hiato linguístico permitindo-se arrojos bem para lá do catolicismo serôdio desse regime. Recordava o velho à mesa uma então célebre publicidade à Laurentina Preta, em ronga:

A cerveja ndzanti ma dzu xonguiça aua nsati, dzi tihissa aua nuna. Hingue hi xitsuatsua!”

ou seja, A cerveja preta embeleza a mulher e fortalece o homem. Parece um afrodisiaco, literalmente traduzido. Mas a vera tradução implica que a rádio colonial transmitia um anúncio, para além da censura policial e católica, que significava: “A cerveja preta embeleza a mulher e entesa o homem.”.

Uma delícia. Traduzindo (exactamente) todo aquele hiato.

(nota: obrigado ao KK pela história, ao Nord. pela confirmação e busca, a Dame AM pela grafia).

ADENDA: minha confusao sobre as estacoes em que era emitida tal (erotica) publicidade. Sobre o assunto recebo esclarecimento do Machado da Graca:

Estás a fazer alguma confusão. O LM Radio era um canal que só transmitia em inglês e afrikaans. Esse anuncio de que falas terá passado no canal Hora Nativa que, mais tarde, se chamou Voz de Moçambique, se bem me lembro. O Rádio Clube de Moçambique tinha a “estação A”, em português, a “estação B”, que era a LM Radio e teve uma “estação C” que era dedicada a música erudita e programas culturais. Depois veio a tal Hora Nativa, para aproveitar o mercado. Com o inicio da guerra creio que foram os serviços da psico-social que passaram a ocupar a Hora Nativa transformando-a na tal Voz de Moçambique, já não com objectivo económico e sim político. O LM Radio era uma radio comercial muito agressiva virada para os mercados da África do Sul e da Rodésia. Para a população branca, entenda-se.

Enquanto as rádios desses países eram enfadonhamente conservadoras e puritanas, o LM Radio tinha os últimos sucessos da música mais moderna em cada momento. Daí o seu sucesso, igualmente, junto da juventude de Lourenço Marques que tinha, na Estação A, fado e malhão e cançonetas portuguesas a toda a hora.

O LM Radio fez aqui o efeito que fizeram, na Europa, algumas emissoras que transmitiam a partir de navios estacionados fora das águas territoriais de vários países.

Sobre o Lourenço Marques tardo-colonial é interessante ler este texto de Eduardo Pitta.

No A Matéria do Tempo lembra-se o O Cancioneiro do Niassa, com ligações a páginas sobre o assunto.

Lembro que João Maria Pinto aqui esteve há alguns anos, poucos. Veio a convite do ACERT para o Festival de Teatro de Maputo, então apresentar o “Canções Proibidas”, o cd do Cancioneiro. E da minha sensação do tempo ter passado, do nenhum eco aqui sobre tal presença.

Palimpsesto

Sempre me irritou, por mediocre e preguicoso, o termo pos-colonial. Por melhor embrulho “teorico” com que se apresente. Por razoes varias relacionadas com a negacao explicita de dinamicas longas nas sociedades assim ditas. Mas tambem com a arrogancia “esquerdista” (nos constantes paradoxos da nova esquerda) academica que o canta.

Mas visitar com olhos-de-ver a Namaacha, essa tambem estancia de repouso colonial, a apregoada “Sintra de Mocambique” desses tempos impeliu-me ao termo (para dele sair basta andar uns poucos kms perpendiculares aos edificios, claro). Mas, ainda assim, aqui fica o palimpsesto.

No Da Russia Jose Milhazes cita um texto do historiador russo Alexei Sukonkin, respeitante a um episodio das relacoes entre a URSS e Mocambique (1976). Parece-me muito discutivel, mas sera de interesse a sua leitura (o blog Da Russia esta alojado no Publico e, surpreendentemente, nao tem “permanent links”, falha absurda no sistema de blogs. O texto chama-se “Contributos para a historia” (12 de Novembro de 2006)

No bloguismo rapidamente tudo perde actualidade. Ainda assim em relação a este meu texto que ecoava um dislate alheio sobre as guerras coloniais portuguesas aqui fica ligação, que espero significante para alguns, para o artigo “Da violência colonial ordenada à ordem pós-colonial violenta. Sobre um legado das guerras coloniais nas ex-colónias portuguesas”, de João Paulo Borges Coelho (em formato pdf).

Já agora, em maré ferroviária, nova reprise:

Catálogo da exposição fotográfica e documental “I Centenário da Ligação Ferroviária Lourenço Marques-Pretória”, e da qual ainda há memória corrente, decerto também porque apresentada em plena estação de Maputo, por altura da efeméride, em 1995. Uma organização do sábio adido cultural português de então José Soares Martins (José Capela, seu pseudónimo como historiador), e realizada pelo incansável António Sopa, do Arquivo Histórico de Moçambique.