Archive for the ‘História Moçambique’ Category

Etiópia Oriental

Segunda-feira, Agosto 16th, 2010

Recebo em casa o Jornal de Letras, edição de 28 de Julho. Contém um interessante dossiê sobre literatura de viagens (não está disponível no sítio), questões a 16 escritores sobre quais os seus livros de viagens preferidos. Cada um apontou cinco e a redacção do jornal compôs uma selecção de 15 livros dedicados a cada um dos continentes, um pouco enviesada para a literatura portuguesa actual, mas isso não lhe tira mérito. É interessante, procurar o que foi apontado, descobrir alguns, lembrar outros. Nessa minha busca noto que infelizmente ninguém lembrou este majestoso livro de Frei João dos Santos, “Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente“, dedicado na sua maioria à zona do Zambeze no final do século XVI. O autor, missionário de então, era um espantoso observador, o livro um prodígio de olhar e de narrativa, incontornável na história do pensamento português. E é um manancial para a leitura da história social deste país. Tudo isso não obsta a que esteja relativamente esquecido e seja de difícil acesso.

A edição que possuo é da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, publicada em 1999. Tem introdução de Manuel Lobato, e notas dele próprio e de Eduardo Medeiros. Uma preciosidade. A ver se aparece recomendada no próximo período de férias no hemisfério norte. E (re)editada num dos do sul.

jpt


  • Share/Bookmark

O SONHO QUE EU TIVE

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

por ABM (Sexta-feira, 25 de Junho de 1975)

Foi há 35 anos e parece que foi há momentos.

Em 1975 eu tinha 15 anos de idade.

Um ano antes, em finais de Abril, descobrira que a independência da minha terra, que sabia que viria um dia próximo, afinal viria muito mais depressa. Afinal, eram uns homens brancos em fatos cinzentos na Metrópole a que agora (então) chamavam “fascistas” que impediam a independência da minha terra. Fizeram uma guerra por causa disso. Os “terroristas” afinal eram os da minha terra e haviam lutado contra os outros. Não eram terroristas.

Eram libertadores.

Quando chegaram os primeiros guerrilheiros para patrulhar a cidade de Lourenço Marques, vinham mal vestidos, armados até aos dentes e alguns de óculos escuros, não falavam português, eram rudes. Por causa de uma série de distúrbios em Setembro e Outubro, toda a gente que eu conhecia na Polana pareceu acreditar que as coisas iam piorar, não melhorar. Na minha escola, os professores abandonavam os postos, faziam as malas e iam-se embora, para o longínquo Portugal. Nos jornais, a retórica agudizava-se: tudo era questionado, tinha que se reinventar a sociedade, tudo estava mal.

No fim do ano, receoso de perder o ano escolar por as aulas no liceu estarem a tornar-se numa brincadeira, decidi ir estudar para Coimbra. Milagrosamente, os meus pais autorizaram e arranjei maneira de para lá ir, apesar de nem sequer me ocorrer alguma vez questionar a minha “moçambicanidade” ou o apego ao que era o único lugar do planeta a que eu chamava “a minha casa”. Tinha 15 anos. Estudar era a prioridade. A única prioridade. Fui para Coimbra, a única cidade que gostara de visitar em Portugal.

Onde, por ser branco, ninguém reparava que eu era africano.

Em Junho de 1975, os meus pais continuavam a viver em Moçambique, se bem que reportavam que tudo se estava a complicar rapidamente. A cidade estava-se a transformar num campo de concentração em que todos eram suspeitos. O meu pai não ligava, fazia parte da mudança de regime e de poderes. Rapidamente Moçambique iria entrar nos eixos. Tanto havia por fazer e o futuro só podia ser risonho. Já a minha mãe não estava confiante: “eles não sabem o que estão a fazer e querem um ajuste de contas”. Para ela, uma discreta açoreana arrancada das ilhas pelo aventureirismo do marido, Moçambique nunca foi um poiso seguro. “Esta terra não é nossa, é deles. Um dia têm que tomar conta do poder”. Já tinha vivido sete anos em Macau, onde o meu pai comandara um pelotão de … moçambicanos, as tropas Landins. Irónico, o meu pai açoreano a comandar cem moçambicanos em Macau nos anos 50. Parece outro mundo dentro de outro mundo.

No dia 25 de Junho de 1975, eu estava em Coimbra. Todo o dia escutei colado a um velho rádio Panasonic preto do professor José Sacadura, a emissão em directo de Lourenço Marques feita pela emissora nacional portuguesa. Quase que nem acreditava. Meu Deus, chegou o Grande Dia. Finalmente. Moçambique independente. Quase que me beliscava. À meia-noite em Moçambique (uma ou duas horas antes em Coimbra) com dificuldade, de entre o ruído das ondas curtas, ouviu-se a voz de Samora Machel a proclamar a independência. Foram momentos de emoção. A minha terra tinha todo o futuro pela frente. E os erros tinham-se corrigido: agora eram moçambicanos a tomar conta do seu governo.

Cumpria-se o destino.

No Estádio Salazar, rapidamente rebaptizado de Estádio da Machava, soube depois, estiveram o meu pai, como jornalista da Tribuna, onde ele escrevia umas coisas (a maior parte a ver com futebol, se me lembro) e uma irmã minha.

Uns meses depois, sem pré-aviso, apareceram-me o meu pai e a minha mãe à porta da casa em Coimbra. Cada um com uma mala. Exaustos. Tinham decidido sair de Moçambique. Acharam que não era possível viver mais lá. Toda a família enfrentava um futuro de total incerteza e dificuldades.

Muitos anos depois, descobri que o novo governo moçambicano tinha passado uma lei qualquer da nacionalidade. Afinal eu não era moçambicano, nem podia ser. Era português. Diziam-no os meus irmãos moçambicanos. Como os meus pais eram açoreanos de origem, e eu era menor, não tinha qualquer voto na matéria. Não interessava o que eu pensava, o que eu sentia, o que tinha visto, pelo que tinha passado. Os dados haviam sido jogados. A História não se compadece. Para todos os efeitos, sentia-me apátrida.

A vida continua, e em geral para a frente. Pus o assunto de lado, guardei os meus sentimentos para mim, e fiz pela vida. Trinta e cinco anos depois, continuo a achar que os moçambicanos são meus irmãos. Tendo vivido em meio mundo, ainda me sinto em casa em Moçambique, apesar de todas as reviravoltas, e de agora precisar de obter um visto de Estrangeiro para visitar a minha terra. E de lá ser tratado, por quem não me conhece, como tal. Até há quem ache que foi muito bem o que fizeram a gente como eu, apanhada pelos ventos desta História. E necessário o percurso em que a minha terra se tornou durante décadas um dos países mais pobres do mundo. Onde morreu mais que um milhão de pessoas. Para quê? não sei.

A tudo isso assisti, de muito longe, indignado, preocupado. Quando falava de Moçambique, a minha família sempre me dizia “esquece aquilo”.

Mas nunca esqueci aquilo.

E, ironia das ironias, um dia tive a chance de voltar e até de fazer lá umas coisas. Foi uma sorte que tive. Um privilégio. E aí pude confirmar que eu tinha razão. Que não podia, que não devia, esquecer. Não me era possível esquecer.

E, após um quase apocalipse, vi Moçambique, lentamente, a emergir novamente das cinzas. Cheio de problemas, tantos problemas.

Mas a emergir.

Senti nisso algum conforto. Pois a promessa de Moçambique, a mesma promessa que eu senti naquele momento, naquela noite escura em Coimbra em Junho de 1975, quando fechei os olhos e sonhei, para a única terra que sempre senti como a minha, tardiamente, estava, finalmente, a começar a cumprir-se.

E como esse sonho era, e é, belo.

A minha terra, independente.


  • Share/Bookmark

25 de Junho: dia da independência de Moçambique (2)

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Hoje são 35 anos de independência de Moçambique. Na data do trigésimo aniversário aqui deixei este poema de José Craveirinha, poema também momento que foi, que agora reproduzo.

´

[Zé Craveirinha, fotografado por Sérgio Santimano, fotografia recolhida no seu blog]

Saborosas Tangerinas d’Inhambane

Serão palmas induvidosas todas as palmas
que palmeiam os discursos dos chefes?
Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?
Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios.
E nas repletas “bichas”? São ou não bizarros
os sigilosos susssurros?

Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores.
Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário.
Não bastam nos gabinetes os incompetentes?
Ainda mais alcatifas e ares condicionados?

Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas.
Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas
prosperamente deficitárias ou por causa das secas
ou porque veio no jornal que choveu de mais
ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso
ou talvez porque um polícia de trânsito não multou Vasco da Gama
ao infringir os códigos na rota das especiarias de Calicute.

E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios?
Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos?
Uma população que não fala não é um risco?
Aonde se oculta o diapasão da sua voz?

E quanto ao mutismo dos fazedores de versos?
Não sai poesia será que saem dos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa?
Quem é o mais super na metereologia das infaustas notícias?
Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa?

II

Na berma das avenidas asfaltizadas olhemos perplexados
os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói?
Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras
e de rastos estudar no chão?
E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos
que a trabalhar só desfabricam?
E o que é que se passa com engordecido responsável director
sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das europas?
Ou então no espólio das noites de vigilância e de saco cheio
vale mais a carência nacional que ter um pide
vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir?

III

Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens
tragam as saborosas tanjarinas d’Inhambane ao custo das ciladas
mas que descarreguem primeiro nos hospitais
nas creches e nas escolas que o futuro do País
também fica mais doce na doçura das tanjarinas d’Inhambane
e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas d’amor e não de preços.

Mas os auspiciosos maduros cajus purpurinos
já não nos dão os gostosos tincarôsse porquê?
Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes?
E ilegalidade só é ilegalidade nos outros? Hiena só é quizumba no mato?
Então juro que tanjarinas d’Inhambane é tanjarina d’Inhambane!

Eu adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos
das magníficas tanjarinas d’Inhambane. Adoro mesmo!
E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d’Inhambane?
Se não gostam, então, os que abjuram os sagrados frutos da terra-mãe
que façam lá um pai e uma mãe; Que façam tios e sobrinhos;
Que façam lá irmãos e irmãs; Que façam lá amigos e amigas;
Que façam lá colegas e camaradas;
E com a incompreensão façam lá nascer a ternura
o amor e a paz se são capazes!

IV

Pois é! As orientações de alguns directores desorientam os juízos
(deles também) mas quem é que disse que não tenho pena
dos seus conjuntos safaris embrulhando-os fresquinhos
e sem problemas de suores originários deste instabilizado clima tropical?

Quem é que disse que não lamento vê-los penosamente saindo dos “Ladas”
com as suas poses e as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer
abrir-se a porta e assentados esperarem que o motorista irrevogavelmemtne
dê a a volta ao mundo do fatalismo e cumpra hereditariamente essa tarefa?
Mas quem é que disse que não tenho pena?
Mas quem foi que disse que não sinto esse drama?

V

Depressa você Madalena vai bichar lenha, deixa bicha de carapau.
Tu vovó sai da bicha de capulana vai bichar pão.
E Toninho com Quiristina vai os dois bichar água.
Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo.
Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez … NADA!
Aontem tomar chá não tomou … foi no serviço.
Aoje não toma? Vai tomar amanhã.
Não toma amanhã toma outro dia.
Ou quando encontra toma de noite.
E quando não encontra de noite então dorme.
Mas quando sonhar amendoim já tomou chá, já comeu.

VI

Sim. A gente faz favor quer cascar com unha do dedo grande
as tanjarinas d’Inhambane.
Olha lá! Você estás cansado da tua terra? Salta arame … vaaaaaiiii…
Você não gostas bandeira? Leva documento … FAMBA!!!
Antigamente ‘panhava mais fome mas não ficava aqui?
Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva?
Antigamente sapato não corrente de ferro? Agora quer “Adidas”, não é?
Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu?
Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal
só p’ra dizer que pão não presta. Comia qual pão antigamente?
Antigamente encontrava passaporte? Agora se não ‘panha passaporte
logo fica muito triste, fica muito zangado. Faz barulho.
Antigamente não era só caderneta?
Sim! Agora come carapau. Não é peixe? Batata-doce e mandioca
agora não é comida? Porquê?
Nossa barriga alembra bife com batata frita e azeitona. Alembra bacalhau mais grelos, mais aquele azeite d’oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado.
Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? Era nossa casa? Qual casa?
Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p’ra noss cu pró cu dos outros?
Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras numa sentina? A gente tinha balde mais o quê?

VII

É verdade; chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir.
É verdade a gente come couve com couve, carapau com carapau, farinha com farinha. Mas senta na mesa. Família toda senta.
Senta em casa no prédio. Amigo também senta. Senta ou não senta?
Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui? Ir aonde? Capaz!
Mudar moçambicano ficar o quÊ? Mudar a cara ficar qual cara?
Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.
Homem quando é homem é só um coração. Não é dois.

VIII

Agora mesmo que não tem senha de gasolina não faz mal
Não há crise. Candonga tem.
Mas quem disse aquelas saborosas tanjarinas d’Inhambane não vem mais?
É preciso? A gente vai fazer estratégia de mestre Lenine
e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás
moçambicanissimamente objectivas
concretissimamente bem moçambicanas.

IX

Agora alerta camarada Control. Vem aí camião com tanjarinas d’Inhambane.
Tira dedo do gatilho e faz uma aceno d’alegria ao estóico motorista.
Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça
ele está guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar.
Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila.
Camarada Control: Vila é vila não é cidade.
Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito.
Camarada Control: Distrito é distrito não é província.
Camarada Control: Província é província não é nação.
Camarada Control: Control é control não é Governo.
Camarada Control: Território nacional é lá no primeiro
grão d’areia em Cabo Delgado até no último milímetro da Ponto D’Ouro.
Camarada Control: Abre teu mais fraterno sorriso no meio da estrada
e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique
nossas preciosas tanjarinas d’Inhambane.
Agora escasca uma tanjarina e prova um gomo.
É doce ou não é doce camarada Control?

Pronto!
Muito obrigado Camarada Control!
E viva as saborosas tanjarinas d’Inhambane…
VIVA!!!

[Versão em Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, Lisboa, D. Quixote, 2004, p. 103]


  • Share/Bookmark

25 de Junho: dia da independência de Moçambique

Quinta-feira, Junho 24th, 2010

35 anos de independência de Moçambique cumprem-se agora. Há exactamente seis anos aqui coloquei esta entrada, evocando a data. São hoje tão diferentes os leitores do ma-schamba que acho justificável a repetição:

1. Dia de constituição da Frelimo (1962).

FRELIMO/KATIKA KUPIGANA NA/UKOLONI NA UBEBERU/25 SETEMBRO, offset 2 cores, Frelimo, Dar-es-Salaam 19 (AHM 80), retirado de B. Salstrom, A. Sopa (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, Arquivo Histórico de Moçambique

2. Independência antecedida da viagem de Samora Machel “De Norte a Sul de Moçambique” – a célebre viagem “do Rovuma ao Maputo

retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

3. Declaração da Independência de Moçambique (1975)

25 de JUNHO DE 1975 / INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE, offset 2 cores, José Freire, DNPP, Maputo 1975 (AHM 96), retirado de B. Salstrom, A. Sopa (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, Arquivo Histórico de Moçambique

Discurso de proclamação da independência de Moçambique no estádio da Machava  (colecção Telecine), retirado de A. Sopa (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

A mudança de bandeiras:  ”Independência de Moçambique” de Dino Jehá, retirado de F. Ribeiro (coord.) (2003), Exposição Moçambique: Vida e História em Psikhelekedana.

jpt


  • Share/Bookmark

Askaris

Sábado, Junho 5th, 2010

O Petromax gostou de ler o O Olho de Hertzog de João Paulo Borges Coelho. E daí que está a colocar uma série de imagens de “askaris“, nome dado às tropas africanas recrutadas pelo regime colonial alemão, e que são evocadas nesta obra literária. Aqui lhe “ofereço” uma imagem.

jpt


  • Share/Bookmark

NACIONALISTAS DE MOÇAMBIQUE

Sábado, Junho 5th, 2010

por ABM (5 de Junho de 2010)

Quando primeiro ouvi falar de Nacionalistas de Moçambique, escrito por Dalila Cabrita Mateus e o seu marido Álvaro Mateus, instintivamente pus-me a magicar quem estaria incluído na lista dos heróis da chamada libertação. Logo, uma leitora com gume aguçado, acusou: “lá estão estes gajos a comentar antes de ler o livro”.

Só que aquilo não era comentar o que estava no livro.

Mas agora já li o livro, por isso, com licença dessa nossa Maschambiana meio descrente, vou comentar.

Dalila e Álvaro Mateus têm três coisas em seu favor: sólida experiência académica e no terreno, curiosidade, e sensatez, tratos que perspassam no que escrevem. Nos anos 80, Álvaro, que nasceu e cresceu em Moçambique, talvez num rasgo de inspiração revolucionária, ensinou durante alguns anos em Maputo na Escola Central da Frelimo, que não faço ideia do que era mas soa importante e ideológico, especialmente naqueles anos em que o Machelismo começava a incendiar o país à beira do Índico.

Dalila, cujo currículo académico é no mínimo impressionante, esteve lá com ele.

Mas, cedo descobri, já vira o nome deles antes, como autores de Purga em Angola, a magnífica obra cuja leitura é absolutamente obrigatória para quem quiser entender o que é que aconteceu naquele país (e não só) em redor dos eventos do chamado 25 de Maio de 1977.

Em vez de comprar só o livro, dei-me à maçada de, no dia 25 de Maio, me deslocar de Cascais a uma sala na loja da FNAC no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, onde Dalila e Álvaro assinalaram o lançamento de Nacionalistas de Moçambique, pela mão da Editora Texto (custo: 14.90€).

Surpreendentemente, estava lá pouca gente, e fiquei com a impressão que os únicos que tinham alguma coisa a ver com Moçambique naquela sala eram eu e o Álvaro (e a Dalila). Mas creio que foi só porque o lançamento foi pouco divulgado. Eu soube por mero acaso.

Antes de falar no conteúdo, um ponto de ordem: sendo sobre personalidades moçambicanas envolvidas no esforço para forçar Portugal a largar Moçambique, conforme referi, eu pensava que, de dez, iria acertar em pelo menos metade.

No fim, acertei em apenas um nome – o de Noémia de Sousa, poetisa que exprimiu em verso a aspiração por uma moçambicanidade emancipada.

E aí, curiosamente, reside um aspecto refrescante da obra e que nos faz pensar: o desafio ao conceito de que o esforço e mérito colectivo de levar Moçambique à independência, contrariamente à ortodoxia mais ou menos frelimiana de hoje e que ainda se supõe perdurará por muitos mais anos, coube apenas aos membros encartados da Frelimo e que deram pelo menos um tiro no mato contra um soldado português.

Na verdade, o termo contido no título do livro é deliberado. Nacionalistas de Moçambique é sobre pessoas que assumiram, de alguma forma, o manto da criação da nação moçambicana, alguns sendo da Frelimo enquanto organização guerrilheira, outros não. Um – Peter Balamanja – tecnicamente nem sequer era moçambicano, na óptica dos autores (bem, apesar de não falar português durante muito tempo e tendo nascido na então Niassalândia, ele era filho de pais oriundos de Moçambique. Isso devia contar para alguma coisa).

A obra, com 135 páginas aptamente pesquisadas, com dados inéditos como os registos da PIDE, é quase desconcertante na sua simplicidade, objectividade e quase doçura. As dez pessoas são ali retratadas na forma de curtas biografias É, sente-se, nalguns casos, um trabalho de amor. Dalila e Álvaro conheceram algumas das pessoas estudadas no livro e sentiram na pele o sofrimento por que elas passaram nos seus percursos.

E quem são elas, para além de Noémia de Sousa e Peter Balamanja? Como disse antes o nosso Carlos Gil, elas são Aurélio Bucuane, Ricardo Rangel, Matias M’boa, Malangatana (que ofereceu aos autores a imagem reproduzida na capa), Júlio Mulenza, Francisco Barreto, mais conhecido como Rui Nogar, Zedequias Manganhela e Sebastião Mabote.

Tive a chance de perguntar ao casal Mateus o porquê de salientar estas pessoas, pois que, como quem conhece o firmamento dos “heróis” convencionados do Moçambique actual, alguns deles parecem à partida um pouco fora desse contexto. Ou seja, quem seguir a temática em Moçambique, especialmente os moçambicanos com menos de 40 anos de idade, nunca adivinhariam, ou não lhes ocorreria, isolar o seu contributo. Creio que no fim do dia esta selecção é uma recolha pessoal, uma escolha, dos autores. Insisti: “e Marcelino? e Samora? e Mondlane?” pois…

Invariavelmente, as histórias que eles contam surpreendem. Pego numa ao acaso, a de Sebastião Mabote, cujo percurso é quase chocante para quem não a conhecia, muito especialmente após a independência, quando, por nenhuma razão aparente, é subitamente considerado persona non grata, afastado e castigado, apenas para, também sem grande justificação, ser “reabilitado”, para morrer a mais estranha morte nas águas calmas e muito pouco profundas da Lagoa do Bilene.

Na apresentação do livro, e num aparte, Álvaro Mateus teceu várias considerações, das quais retive apenas uma, a de quais na sua opinião foram os maiores erros da governação da Frelimo após a independência em 1975, e que, segundo ele, e nesta ordem, foram os seguintes: 1) o êxodo dos portugueses que viviam em Moçambique naquela altura, em que responsabiliza directamente a liderança do então movimento guerrilheiro transformado em governo; 2) a chamada Operação Produção, 3) o experimento das Aldeias Comunais, e 4) o Acordo de Nkomati em 1984.

Para o exmo leitor que gostaria de saber mais sobre a história de Moçambique, sem empolamentos nem embelezamentos, creio que este livro é um excelente, importante testemunho, sereno, objectivo, escrito numa linguagem acessível, e que dá uma perspectiva incomum de um grupo de nove homens e uma mulher que contribuíram, cada um à sua maneira, para a formação do que é hoje a nação moçambicana.

Imprescindível para um melhor entendimento de como foi.

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus no lançamento de Nacionalistas de Moçambique, 25 de Maio de 2010

aspecto do lançamento do livro

Um Maschambeiro fala com os autores na FNAC


  • Share/Bookmark

Rui Quadros

Segunda-feira, Maio 31st, 2010

Foi um dos últimos grandes caçadores profissionais. Morreu ontem Rui Quadros, um pedaço da história.

jpt


  • Share/Bookmark

A LISTA DOS HERÓIS

Segunda-feira, Maio 24th, 2010

por ABM (24 de Maio de 2010)

Num sítio relativamente obscuro na internet chamado Rostos On-line, pode-se ler o seguinte:

Novo livro de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus é lançado amanhã pela Texto Editora
Nacionalistas de Moçambique recorda a vida de dez pessoas, nove homens e uma mulher, que marcaram a história de Moçambique

Realiza-se amanhã, dia 25 de Maio, pelas 18h30, na FNAC Colombo, em Lisboa, a sessão de lançamento do livro Nacionalistas de Moçambique, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus.

A obra aborda a vida política de dez pessoas que deixaram a sua marca na história de Moçambique. Uns desconhecidos ou quase desconhecidos. Outros conhecidos na sua vida literária ou artística, mas menos conhecidos como nacionalistas. E ainda outros, a justificar que se volte a sublinhar o seu contributo para a luta de libertação nacional.

Hoje, 45 anos decorridos sobre o início da luta armada, conquistada a independência e ultrapassada a guerra civil assim como outros obstáculos ao desenvolvimento, o povo moçambicano vive em paz, consolida a democracia e afirma a sua identidade na arena internacional. Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus consideraram ser esta uma boa altura para eternizar, num livro, a vida de dez nacionalistas, uma mulher e nove homens, que lutaram para que o seu povo pudesse viver em paz, com liberdade e prosperidade.

Dalila Cabrita Mateus, nascida em Viana do Castelo, é licenciada em História, mestra em História Social Contemporânea e doutora em História Moderna e Contemporânea. Investigadora do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa (ISCTE), é também consultora do Projecto «ALUKA»(EUA). Tem participado em conferências e colóquios, nacionais e internacionais, sobre a problemática das lutas de libertação nacional. É autora ou co-autora de vários livros ligados à temática da Guerra Colonial.

Álvaro Mateus nasceu em Moçambique. Estudante universitário em Lisboa, foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império. Nos primeiros anos de guerra colonial, promoveu e coordenou um jornal clandestino contra o colonialismo e a guerra. Ao longo da vida foi quadro político, jornalista, locutor, publicista e tradutor, advogado e professor.

Hum…. quem serão essas dez personalidades…..deixa cá ver…nove homens e uma mulher….Mondlane, Samora e mais oito….hum….vou esperar para ver.

Mas este não é um daqueles livros que se lançavam bem primeiro em Maputo e depois Lisboa? Mas a editora lá sabe. O Shopping Center do Colombo em Lisboa à partida não é o templo sagrado ideal para o lançamento de uma obra com este peso tão peculiar. Mas tem a vantagem de ser acessível e ter estacionamento por perto.

Entretanto, aceitam-se apostas sobre os outros oito.

Sugestões: pessoas como António Ennes e Mousinho de Albuquerque não dá. Mais simpáticos: a Noémia e o Chissano. Mais polémicos: o Uria e o Dlakhama. Mais politicamente correctos: o Sr G, Marcelino, e alguns dos actuais generais. Nas mulheres, a Graça e a Josina.


  • Share/Bookmark

NÓ GÓRDIO

Quinta-feira, Maio 20th, 2010

por ABM (20 de Maio de 2010)

Segundo a Wikipédia em língua portuguesa, o jornalista Joaquim Furtado terá três qualificativos, para além de uma carreira que desconheço na genial e obscenamente dispendiosa cadeia de media dos contribuintes portugueses, a RTP: estava na estação de rádio do Rádio Clube Português na noite de 24 para 25 de Abril, é pai da personalidade televisiva Catarina Furtado, e é autor de uma série documental sobre “a guerra”, que aqui significa a guerra colonial que decorreu entre 1961 e 1974 , a partir de Setembro de 1964 em Moçambique.

Esta noite, no prime time televisivo português, a RTP brindou a sua audiência com a sua mais recente produção, Nó Górdio. Este foi o nome dado na altura a uma complexa operação militar que teria por fim acabar, descobri hoje, com o controlo da região norte de Cabo Delgado pela Frente de Libertação de Moçambique.

A tal operação militar decorreu entre Junho e Julho de 1970 e se o exmo. Leitor for como eu, que tenho uns aparentemente saudáveis 50 anos de idade, naquela altura precisa jogava ao berlinde, ouvia discos de 45 rotações dos Beatles em Lourenço Marques e não sabia que havia uma guerra a não ser a do Vietname (essa ao menos vinha no Notícias e no Diário). Por isso, especialmente no caso dos mais moçambicanófilos e menos militarmente inclinados, importa tentar compreender melhor o que foi isso do Nó Górdio.

E, nesse sentido, independentemente de eventuais críticas para além do que o documentário ventila, Joaquim Furtado merece uma medalha, pois finalmente percebi em maior detalhe o que foi aquilo tudo, com a vantagem de, 40 anos após encerradas as hostilidades e estreadas as boas relações do pós-toma-lá-Cahora-Bassa, poder-se calmamente filmar os protagonistas do confronto a falar mais ou menos sem grandes papas na língua sobre como foi.

Devo dizer em abono da verdade que algumas das convicções que eu tinha sobre a operação mantiveram-se absolutamente inalteradas. Nomeadamente, que o dinheiro gasto ali tinha sido muito mais bem gasto noutro tipo de guerra, mais próximo daquilo que os rodesianos e os sul-africanos fizeram mais tarde. Essa de um exército formal chefiado por um centurião querer fazer guerra com uma guerrilha sem matar as populações é de gritos. Mas compreendo que os objectivos estratégicos eram diferentes. Os boers sul-africanos jogaram pelo tempo, ou seja por aguentarem até o bloco comunista se desfazer, e não se importaram de aterrorizar e matar populações inteiras. E, mais uma vez operavam como uma guerrilha contra um exército convencional. Os portugueses parece que tentaram ir metendo os dedos nos buracos porosos dessas (para eles) paredes que eram as fronteiras ao Norte. E basicamente ignoraram a necessidade de lidar adultamente com o facto de que a independência estaria para vir, com ou sem Frelimo. O que, como se sabe, era impossível dados os estados de espírito prevalecentes na altura.

Enfim, já passou.

No documentário, para minha surpresa, as críticas a Kaúlza de Arriaga foram de uma generosidade enorme, vindas de ambos os lados. No fim a coisa correu mal pois afinal, logo se percebe, não era preciso um Nó Górdio: eram precisos dois ou três. Mas Portugal não tinha dinheiro para isso e os russos e os chineses estavam empenhados em não perder face. Cabo Delgado foi tomado e a guerra passou para Tete e mais tarde para pontos ao Sul.

Independentemente do que eu pense sobre o assunto, acho que os testemunhos recolhidos e editados por Joaquim Furtado e a sua equipa são agora leitura obrigatória para quem quiser saber mais sobre este capítulo da história dos dois países. O que quer que seja que a RTP pagou pelo projecto de Furtado, para variar, foi dinheiro bem gasto.

Em baixo, alguns dos entrevistados.


  • Share/Bookmark

JOSÉ MILHAZES E SAMORA MACHEL

Terça-feira, Maio 11th, 2010

por ABM (10 de Maio de 2010)

Enquanto me encontro a ler o quase enciclopédico ANC: A view from Moscow, de Vladimir Shubin (Joanesburgo: Jacana Media, 2008), interrompi ontem por um serão para ler o mais ou menos bombasticamente intitulado Samora Machel – Atentado ou Acidente?, da autoria de José Milhazes (Lisboa: Alêtheia Editores) publicado há poucas semanas.

O livro de José Milhazes, um português que faz de Moscovo a sua casa aparentemente desde 1977, é, por comparação com a obra de Shubin, que é uma segunda edição revista da primeira, saída em 1999, quase uma brincadeira. Contém algumas citações interessantes relativamente aos grandes protagonistas das décadas entre 1960 e 1990 em Moçambique e na África Austral e o relacionamento dos soviéticos com estes.

Sendo relativamente breve e superficial (para encher o chouriço, começa com a revolução russa em 1917 e no fim até transcreve insuportáveis discursos de Samora a agradecer medalhas soviéticas e de Gorbachov a elogiá-lo à maneira dos tempos de então, com camarada para cima, camarada para baixo), ainda assim tem algumas coisas interessantes, se bem que destinadas a alimentar a guerrilha agora pela memória e pela História, do que foram esses anos.

A começar por Samora Machel, que, por contraste com Joaquim Chissano e Eduardo Mondlane, a acreditar nos testemunhos registados, era considerado quase um tótó pouco racional pelos soviéticos, que se torciam para o acomodar sem saber bem como. Por seu lado, subentendem-se as dificuldades da liderança moçambicana daquela altura em sobreviver e navegar as perigosíssimas águas da Guerra Fria na África Austral.

Pelo meio, José Milhazes aproveita para dar uma tacada a Jacinto Veloso, a Sérgio Vieira e ainda manda um inexplicado torpedo lateral ao actual presidente, sugerindo que não se foi mais longe na investigação das causas e circunstâncias da queda do avião em que Samora e a sua entourage pereceram em 1986, tenha que ver com o facto de Armando Guebuza estar no poder. Para quem como eu está completamente fora da trama, não se percebe a boca publicada, que sugere não sei bem o quê.

A julgar pelo título, o prato forte da obra (que me foi gentilmente oferecida, com rótulo de preço e tudo) seria a queda do avião presidencial em 1986. Mas na verdade é apenas uma parte da obra, em que Milhazes aproveita umas declarações mais ou menos conhecidas e junta a sua às milhentas teorias e conspirações que se vão lendo por aqui e por ali, sobre a queda do avião.

Mas não deixa de ter interesse, já que detalha, por exemplo, a dinâmica do processo, vista do lado soviético, o que não é de subestimar, já que o aparelho e a tripulação do malogrado avião eram soviéticos.

Mas quanto a se foi acidente ou atentado, objectivamente, fiquei na mesma. Aquilo para já é um mistério total, tirando que agora sabemos que a tripulação soviética veio todo o caminho a discutir como dividir entre si umas latas de Coca-Cola surripiadas não sei onde.

Mas o livro tem umas jóias dignas de se ler, como 1) a descrição da cena em que Samora supostamente manda (literalmente) à merda o embaixador russo em Moçambique, 2) a quase impossibilidade dos soviéticos em ajudarem a reforçar a segurança militar no território na face dos ataques das renamos, dos sul-africanos e dos rodesianos, 3) a fase de pastor de Mondlane em Gaza antes de se formar em Portugal (onde, como era de esperar, os tugas logo o trataram abaixo de cão, metendo-o no Aljube por coisa nenhuma), 4) a enigmática descrição dos eventos em redor do assassinato de Mondlane em 1969, contados à lupa como eu nunca lera antes, 5) o facto de Milhazes indicar que o ponto de viragem de toda a guerra com Portugal foi em Julho de 1970, quando o Papa Paulo VI recebe os líderes das guerrilhas africanas antes de uma importante conferência em Roma (pelo meio, morre o ditador Oliveira Salazar, o que Milhazes, curiosamente, omitiu).

E finalmente, uma interessante estatística, quase enterrada por acaso numa das páginas, que indicava que o suporte soviético dado à Frelimo no início dos anos setenta não chegava aos cem mil dólares, enquanto que, apenas poucos anos depois, o orçamento de defesa dos sul-africanos era de cerca de três mil milhões de dólares.

É caso para pensar como é que Samora, mesmo com a história, a razão e a moral do seu lado, pensava que se podia meter com os boers, especialmente num contexto em que a União Soviética se manifestava indisposta para financiar o conflito. E ainda mais curioso foi ficar a saber que, quando oito anos após a independência decidiu assinar o acordo em Komatipoort, em 1984, os amigos soviéticos souberam do tratado pelos jornais. Para eles deve ter sido um grande sapo para engolir.

De certo modo, fico com pena e algo expectante. Milhazes está baseado em Moscovo, e se há dados interessantes e relevantes sobre as perspectivas soviéticas e o seu envolvimento na fase que antecedeu e sucedeu a independência de Moçambique, presumo que certamente esses dados existam na actual Rússia. Assim, quer em termos absolutos, quer em termos relativos (se se comparar, por exemplo, com a profundidade da obra de Vladimir Shubin sobre o ANC, cuja capa reproduzo abaixo), este livro soube a pouco. Espero que esta seja apenas uma primeira tentativa e que Milhazes volte à carga um dia destes com uma versão de 400 páginas muito mais aprofundada sobre o papel soviético em Moçambique.

Entretanto, José Milhazes alimenta um excelente blogue chamado “Da Rússia“, que se recomenda.


  • Share/Bookmark

QUEM VIVE NA PERIFERIA

Terça-feira, Março 30th, 2010

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

Nas últimas semanas referi primeiro um projecto ambicioso para construir um bairro de luxo nos aterros onde se situava a FACIM na zona baixa da cidade de Maputo, e a seguir um artigo sobre o crescimento quase desmedido da periferia da capital moçambicana. É oportuno ver o quadro acima, baseado em dados da ONU, sobre o que se tem passado no mundo, e tirar uma ou duas ilacções.

Refira-se que os dados, citados numa peça do Economist desta semana, compreendem o periodo entre 1990 e 2007, ou seja, excluem os efeitos da crise que estalou em Outubro de 2008 e que começou com a falência do banco norte-americano Lehman Brothers.

Já por mais que uma vez afirmei que a maior revolução em termos do planeta e da nossa espécie, iniciada no século XVIII na Europa e que agora percorre o planeta, é a urbanização, isto é, a saída em massa das populações das zonas rurais para cidades. Esta migração tem tido e continuará a ter consequências profundíssimas em todos os aspectos da vida e actividade humanas, para o ambiente, para a terra. É uma revolução cataclísmica.

Referirei aqui a África do Sul, que está no quadro, e Moçambique e Portugal, que não estão.

Em vinte anos, a população sul-africana que vive em bairros da lata, que em 2007 se estimava ser cerca de 8.4 milhões de pessoas, diminuiu em cerca de metade em termos percentuais. Ou seja, presume-se que essa alteração assentou na integração de milhões de pessoas na fibra das cidades sul-africanas, o que em parte reflecte a evidência de que o objectivo – o sonho – de um (essencialmente, negro) sul-africano poder viver numa cidade é não só altamente desejável como um objectivo exequível.

Ora a taxa de sucesso nesta migração, ainda que se tenha reflectido em maiores taxas de criminalidade e a saturação das infra-estruturas sul-africanas, paradoxalmente é se calhar o maior sucesso da fase do pós-apartheid. De certa forma manteve a África do Sul a caminho do futuro (e o futuro, inexoravelmente, é a urbanização) e politicamente permitiu manter a paz política através da concretização do novo “sonho sul-africano” e ainda (pelo menos por enquanto) relegar para segundo plano a questão emocional mas largamente irrelevante da posse da terra, que naquele país podia ser tão quente senão mais do que no vizinho Zimbabué. Que está e vai estar de rastos.

No caso de Portugal, a saída das pessoas das zonas rurais, quer por via da urbanização para as cidades portuguesas, quer por via da emigração (que na verdade é outra forma de urbanização) acentuou-se nos anos 50 do século passado e percentualmente está a atingir os níveis médios da Europa Ocidental, com a consequência que um tema recorrente e popular na política portuguesa nos últimos anos é a “desertificação” das zonas rurais e interiores (as principais cidades portuguesas situam-se na faixa litoral atlântica). Esta tendência não se vai alterar. As muitas vilas e aldeias portuguesas, que hoje fazem lembrar as boom towns desertas do Faroeste americano de há cento e trinta anos atrás, irão continuar a esvaziar-se à medida que as gerações mais velhas morrem. As escolas continuarão a fechar, os serviços a deslocarem-se para onde está agora a viver a maior parte dos portugueses (fábricas, hospitais, polícia, serviços). O luxuoso capricho de tentar “fixar” as populações no interior tem sido apenas isso: luxuoso, e caprichoso.

O caso de Moçambique é mais difícil de quantificar mas mais interessante .

É mais interessante pelo percurso da sua urbanização e pelas escolhas políticas feitas antes e depois da independência.

Nos anos 50 e 70 e até 1974, as cidades moçambicanas, em larga parte “alimentadas” pelo crescimento económico e industrial e pela migração de quadros médios e técnicos especializados, a maior parte dos quais vindos de Portugal dada a inexistência de meios de os formar na então província portuguesa (mais conhecidos localmente por “os brancos”) caracterizavam-se pelo crescimento concumitante de vastas periferias residenciais e industriais para onde gradualmente se deslocavam as populações africanas vindas das zonas rurais. No Sul, essa migração era há muito “desviada” pela então deslocação de centenas de milhares de homens para alimentar a indústria mineira e agrícola sul-africana, iniciada nos anos 80 do século XIX com as descobertas de vastos depósitos de ouro e de diamantes em Kimberley e no Witswatersrand.

Mas a situação alterou-se radicalmente com o advento da independência, quando a economia entrou em colapso quase imediato e radical, e a liderança política da altura fez dogma da ruralidade, consagrada numa legislação chamada lei da terra – legislação e dogma que, com enormes, quase aberrantes buracos, permanecem até este dia, com algumas consequências funestas.

O efeito combinado destas realidades foi que a população moçambicana permaneceu no mato e quer o processo de modernização social, representado pela urbanização, que invariavelmente se traduz em mais oportunidades de trabalho, maior disponibilidade de serviços e qualidade de vida, congelou. De facto, a apregoação das virtudes da vida rural tornou-se em quase uma religião de Estado e uma forte (mas, a meu ver, falsa no longo prazo) mola de apoio do regime. Ainda hoje faz parte do discurso político a (totalmente falaciosa) afirmação de que uma das grandes “conquistas” da independência foi a posse da terra pelo “povo” (na realidade, à disposição de quem manda).

Pois a prazo, a terra é apenas – apenas – um factor de produção. Como exemplo, nos Estados Unidos, de longe a maior potência agrícola do planeta, menos que 1 por cento da população trabalha a terra.

A segunda migração urbana de Moçambique consistiu em tirar os portugueses e seus descendentes (“os brancos”) das cidades e substitui-los por moçambicanos. Para o efeito, o governo, que, convenientemente, apregoava uma linha dura de marxismo-leninismo, para além da terra, nacionalizou quase tudo. Em 1984, quando visitei Moçambique pela primeira vez desde a independência, as cidades e arredores estavam congeladas, as casas construídas até 1974 cheias de gente que viera do mato e quase sem nada que fazer. Os efeitos das guerras e da consequente repressão começavam a fazer-se sentir.

A terceira migração ocorreu no fim dos anos 80 quando a guerrilha da Renamo, com o apoio logístico das forças de segurança sul-africanas, espalhou a guerra pelas vastas zonas rurais moçambicanas e aterrorizou as populações que ali viviam, uma parte das quais fugiu e refugiou-se nas cidades e suas periferias, cujo controlo e relativa segurança eram ainda asseguradas pela Frelimo. Quando a guerra acabou em Outubro de 1992, as principais cidades moçambicanas estavam inundadas por gente rural essencialmente refugiada.

Uma boa parte da qual não voltou para os campos, que estavam abadonados, minados e sem quaisquer infra-estruturas. Afinal, a miséria peri-urbana era menos sombria que a enorme incerteza de sobreviver no mato, sem qualquer rede de apoio.

As cidades moçambicanas e o establishment político levaram algum tempo a reagir. A ideologia “ruralista” e a lei da terra intocadas, a sensação do observador externo era que se esperava que, cessadas as hostilidades, as pessoas voltariam para os campos e tudo voltaria a ser como dantes.

Só que não voltaram.

E aconteceu entretanto outro fenómeno; a população continuou (e continua) a crescer agressivamente. O que significa que em 2008 Moçambique passa a ter um cenário curioso: ao mesmo tempo, apesar de todos os esforços, continua com perto de 80 por cento da sua população total, que se cifra perto dos 22 milhões de pessoas (havia 6 milhões em 1974) a viver no mato e primariamente da subsistência – eufemisticamente descrita como “actividade agrícola”- enquanto que os remanescentes 20 por cento residem nas cidades e suas periferias, as quais, na sua configuração básica, continuam a ter quase exactamente a mesma estrutura que tinham em 1974, com a agravante dela não ter sido mantida nem tão pouco expandida.

Aliás daqui se extrai uma curiosa estatística: apesar de percentualmente, segundo os magos destas coisas, haver hoje uma percentagem da população abaixo de um mitológico (qualquer) “limiar da pobreza absoluta”, em números reais hoje há muito mais moçambicanos na miséria do que nunca.

Os poderes constituídos, convertidos entretanto a uma espécie de capitalismo keynesiano em que os capitalistas são eles e a parte keynesiana é composta por um curioso sortido de países doadores, ONG’s, empréstimos de instituições internacionais e grandes empresas, têm feito o que podem. O que se tem traduzido por “grandes” projectos de extracção daquilo que os portugueses pelos vistos se esqueceram que estava debaixo dos seus pés durante 475 anos.

Só que, à excepção daquela estação espacial que é a Mozal, e que fica entre Boane e a Matola, esses projectos têm que ficar situados por cima de onde os bens se encontram, que são sítios como Moatize, Moma, Pande, etc.

Bom, mas não vai resolver por si só o problema dos números.

Nos países que passaram por este processo, a urbanização foi acompanhada por forte (ou melhor, quase selvagem) crescimento industrial e comercial nas cidades e suas periferias, que geravam, bem ou mal, empregos aos milhares.

Mas o mundo de hoje já não é o que era. Não é fácil promover a substituição de produtos manufacturados importados pelos mesmos produzidos domesticamente, até porque, neste caso, como se sabe, só entre a China e a vizinha África do Sul, não há quase nada que Moçambique possa possivelmente fazer que estes dois países não façam melhor, mais barato, mais depressa e com maior qualidade.

Portanto, se já há algum (peco aqui pela contenção) sub-emprego urbano e suburbano pela ausência de uma “revolução comercial e industrial” urbana, como é que vai ser quando, nos próximos 50 anos, aproximadamente metade da população rural de Moçambique, e os seus descendentes, se deslocarem para as periferias das cidades, em busca de emprego e de uma melhor vida? Estamos a falar de 12 milhões de pessoas. Como vão Maputo-Matola, a Beira, Nampula, Chimoio, Xai-Xai, Inhambane, aguentar?

Como vai ser gerir Maputo com cinco, seis milhões de habitantes, noventa por cento dos quais provavelmente, praticamente, à beira da miséria?

Por outro lado, o que vai acontecer nas zonas rurais?

Este irá ser seguramente um dos maiores desafios da liderança da geração dos pós-fundadores.

Um desafio logístico, político e de paradigma.


  • Share/Bookmark

JOSÉ GIL, MOÇAMBIQUE E A CARNEIRADA

Segunda-feira, Março 29th, 2010

José Gil de Quelimane, português via Paris



por ABM (Cascais, 29 de Março de 2010)

Que José Gil (que agora se reformou formalmente do seu emprego como professor numa universidade de Lisboa, após a habitual e orgiástica última aula de sapiência) tenha escrito um interessante livro dedicado a examinar o espírito doentio de carneirada dos portugueses residentes in lusus rectangulus é uma coisa. Como quase nada de fundamentalmente relevante funciona neste país dos portugueses (nos noventa e nove menos o um por cento de Olivença, que na verdade parece que já nem sequer isso é) e nada se pode fazer para curar o mal, há toda uma literatura dedicada ao tema dos defeitos dos portugueses e de Portugal.

Creio que esta longa e sempre florescente actividade livreira assenta numa subrreptícia necessidade neuro-terapêutica de delírio da cura pelos compradores destas obras: definir a doença e prescrever a cura.

A alternativa, em tempos menos complicados, claro, é simplesmente a de emigrar. Lá fora ou cá dentro.

E quanto mais ilustre o escriba, melhor. E nessa óptica, Gil, que nasceu em “Quilimani” e cresceu em Moçambique, é entre o melhor. Corta o podre chouriço nacional com a perícia de um cirurgião – ou será a perfídia do Dr. Jekill?

Mas há nestes, e não entendo bem, a tentação de passar da análise ao aconselhamento para a cura (Eça teve-a bem mas resistiu, deixando-se por Paris e pela aceitação da alguma beleza na mediocridade, o que considero supremamente irónico da sua parte – ou a suprema expressão da sua ironia na Cidade e as Serras). Gil não resistiu e escalpeliza a talvez menos subtil qualidade de muitos portugueses – a inveja.

Cuja melhor resposta, claro, é o mesmismo, a falsidade e a mediocridade.

Pois desses ninguém pode possivelmente ter inveja.

Não sei porque faz isso. Pois por definição está na natureza da carneirada ser carneirada, ignorar a sua condição e muito menos buscar formas de a alterar. A essência da carneirada está, mais do que no seu estatuto, na sua satisfação com o statu quo. Portanto vir para aqui dizer que há problema e qual é a (sempre dura, sempre penosa) solução, é, reconheçamos, terapéutico mas pouco político.

É precisamente por isso que, quando a mudança vem, vem sempre e apenas porque a mudança vem de fora, seja por invasões espanholas, francesas ou inglesas, pelas hecatombes da economia mundial, pelas delegações do FMI que nos pôem a ferro e fogo, ou pelo mais reles copianço das modas estrangeiras, importadas por alguns iluminários da casa.

Interessantemente, após a sua aula de despedida (que cá mete jornalistas, despedidas carpideiras como se o visado fosse para o céu e uns copitos e rissóis pelo meio) o Dr. José deu uma “grande” entrevista” ao Bruno Mateus do Correio da Manhã, que a publicou ontem, e em que ele diz umas coisas giras e, numa frase lapidar que deixarei ao Maschambiano mais atento a tarefa de a encontrar, o que ele acha do seu Moçambique.

Também gostei da mentira em que ele às tantas diz que não liga ao que dizem dele.

A entrevista de Gil, feita por Mateus, com vénia:

“Fez parte das elites intelectuais em frança nos anos 50, 60 e 70. Hoje, com 71 anos, o filósofo que acabou de dar a sua última aula na universidade analisa: “os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida”.

- Nesta fase da sua vida, sente que o País precise de si como filósofo?

- Não, porque o País não precisa de um personagem qualquer salvador. Eu não faço a união, há muita gente que pensa contra mim e que não suporta o que eu digo.

- Disse na sua última aula que “as pessoas pensam sozinhas”. Por que é que os portugueses pouco questionam as grandes decisões do Governo?

- Os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida, da vida social, da política.

- Somos um povo inteligente?

- Com certeza. Temos é uma infelicidade, por razões sociais: Substituímos a nossa inteligência – como povo que produz génios, intelectuais, cientistas – pela esperteza. Pior: Pela esperteza saloia.

- Nota isso na nossa governação?

- Absolutamente. Há qualquer coisa mesmo do espertismo saloio no próprio discurso político em Portugal. Foi um chico-espertismo toda – ou quase toda – a propaganda que o Governo fez antes das eleições, para imediatamente a desmentir.

- Falta memória aos portugueses?

- Falta. E falta talvez por um apego que os portugueses têm a um presente, que vale por si. Não estamos a pensar no passado, como nas sociedades rurais que estão a desaparecer. E como nas sociedades modernas – que ainda não somos – não estamos a pensar sempre no futuro.

- Teme pelo futuro?

- Só um tonto não teme pelo futuro. Os nossos dirigentes temem. Nós vivemos num clima ameaçador. De quê? De que realmente aconteça a catástrofe que é a perda do adquirido na qualidade de vida, nas expectativas, em tudo.

- Alguma vez teve medo de perder a sua reforma, como muitos têm?

- Vejo à minha volta muita gente que pensa que depois de 30 anos de trabalho não vai ter reforma. Se todos vão ser punidos pelas medidas que estão a ser tomadas, por que é que eu não haveria de ser?

- Disse que o auditório que assistiu à sua última aula estava a abarrotar por causa da “falta de acontecimentos” no País. Não acha que sejamos um povo de filosofar?

- Não se filosofa por razões interiores, é por acontecimentos externos a nós que nos abanam, que nos violentam o pensamento, e somos obrigados a pensar. Não temos muitos filósofos talvez porque há uma pregnância extrema da religião e talvez da poesia, que pretendem dar respostas àquilo que os filósofos se interrogam.

- Fale-me do medo. Pela primeira vez, na democracia nacional, sente que se caminha para um estado de medo do primeiro-ministro José Sócrates?

- As sondagens mostram o contrário. Mas elas são paradoxais porque o medo em relação ao futuro é maior hoje. A confiança em relação aos dirigentes, em geral, não me parece aumentar. E no entanto as sondagens dão uma confiança sólida constante que os portugueses manifestam em relação ao primeiro-ministro.

- Será também por falta de Oposição?

- É certamente falta de Oposição, que está em frangalhos. Mas é sobretudo resultado do medo que os portugueses têm de se encontrar perdidos. Nós estamos sob um clima ameaçador e estamos cada vez mais perdidos. Resta-nos um homem que aparece aí sabendo que o futuro vai ser bom. E os portugueses agarram-se a ele.

- E podemos confiar nele?

- Sócrates já passou a símbolo de único alicerce. É por isso que não se vai embora.

- É propaganda?

- Não. É o que uma personalidade e um discurso firmes, com certezas, provoca como efeito em pessoas perdidas.

- Isso serve os nossos interesses?

- Claro que não serve. Claro que se de repente tirar esse homem, cai tudo para o lado. E fica tudo ainda mais caótico.

- E está a construir alguma coisa?

- Está-me a levar agora para uma discussão sobre a política geral do Governo de Sócrates e do PS, não é?

- E não quer entrar por aí!?

- Não, é muito longo.

- Muito bem. Orgulha-se de ter pertencido à classe dos professores?

- Não é bem orgulho, tenho “fierté”, esse brio interior de pertencer a uma corporação em que o trabalho é para a comunidade. Ver, de repente, um aluno a abrir-se para qualquer coisa é um espectáculo extraordinário. Infelizmente não se dá a importância na sociedade aos professores.

- São maltratados?

- Foram. Há bastante tempo, mesmo antes do Governo de Sócrates e da ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter devastado o ensino, no meu entender.

- E continuam a ser?

- Ainda não se viu. É demasiado cedo.

- Publicou em 2005 o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’, considera-se popular?

- Popular é ser uma ‘star’ qualquer.

- Já se googlou? Procurou na internet saber o que se diz sobre si?

- Não. Já me fizeram ver o que dizem de mim na internet. E não me interessa.

- O que diziam de si?

- Sei lá. Repartia-se entre agradecimentos e o total desprezo pelo que digo.

- O que fez José Gil a este País para que se lesse o seu ensaio filosófico?

- Eu não tenho resposta para isso. Certamente que o tema interessa aos portugueses. E talvez porque consegui ser claro.

- E atingiu os medos das pessoas.

- Acho que sim. Isto resume-se numa frase: Temos extraordinárias potencialidades e múltiplos factores históricos e sociais que criaram em nós uma cultura de medo, o que inibe as nossas potencialidades de nos exprimirmos.

- A Economia será um dos inibidores?

- Será um factor maior. Além do medo de se exprimirem, existe um medo económico, que inibe o primeiro. Sabe aquelas imagens que vemos da Grécia?

- Teme uma convulsão social cá?

- Não tenho resposta. Acredito que possa haver muito mais manifestações de rua.

- Como vivem os partidos de Esquerda em Portugal?

- Partidos como PCP e o BE vivem numa espécie de equívoco interno, pelo facto de as suas críticas a tudo o que é de Direita se fundarem em qualquer coisa que é o Marxismo, sem que possam propor uma alternativa. O Marxismo não se renovou numa teoria do poder, por exemplo. Então, quando se pergunta qual a alternativa global que o PCP propõe para Portugal, o que vamos ter como resposta? Uma segunda União Soviética mas à maneira portuguesa? Está a ver que isso não dá.

- Onde é que se situa politicamente?

- Situo-me politicamente na Esquerda que não existe. Mas a Direita tal como nós a conhecemos tradicionalmente, o funcionamento do capitalismo, é para mim um dos factores de caotização da sociedade.

- Em quem vota?

- Não me pergunte. O meu voto é muitas vezes circunstancial. E infelizmente muitas vezes o meu voto é negativo. Voto em A porque não quero votar em B.

- O seu livro ainda está actual?

- Não sei. Muita coisa mudou, certamente. Mas as estruturas profundas que entravam esse dinamismo que devia haver na sociedade devem ter permanecido.

- É um homem de paixões?

- Ah, sim. Para mim a vida é fundamentalmente paixão. Quer dizer, um desencadear de energia que pode ser por exemplo a paixão pela criação. Isso abre uma liberdade.

- Está apaixonado pela vida?

- Eu não estou apaixonado pela vida. Se eu a vivesse como vivi… A vida deve ser vivida apaixonadamente.

- Por que é que fala no passado?

- Porque eu vivi um período colectivo, em França, único: Os anos 50, 60 e 70. A paixão intelectual atravessou milhares de pessoas. Foi o momento em que, em Paris, tudo se transformou – artes, cinema, literatura, filosofia, antropologia.

- O facto de ter nascido em Moçambique influenciou o seu pensamento?

- Certamente. E das maneiras mais esquisitas, não foi propriamente só de maneira harmoniosa. Por difracções, por desfasamentos entre a língua e o Sol e a geografia. Entre os espaçamentos entre uma comunidade negra imensa e ilhotas, que eram os brancos.

- Sentia-se apartado?

- Não. Mais tarde, aos vinte e tal anos, quando pensei nisso, verifiquei que ali havia qualquer coisa que me era interdita de viver. Mas que eu não sentia como falta.

- Voltou para Portugal há 29 anos; Gostava de ter ficado em França?

- Houve um tempo em que eu teria dito imediatamente que sim. O rumo do meu pensamento modificou-se sobretudo por falta de bibliotecas em Portugal. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade francesa é muito fechada aos estrangeiros. Eu nunca pretendi ser francês.

- O que resta hoje da sua família?

- Eu tenho uma grande família portuguesa do lado paterno e do lado materno. Já não via familiares da Beira, naquela região do Fundão, há muito tempo e há dois anos fui lá. Eu próprio tratei as pessoas como se tivesse deixado de as ver na véspera.

- Gosta dos seus 71 anos?

- A minha idade cronológica não corresponde a outra idade que não sei qual é, mas que é a idade de vida. Eu serei velho pela idade, mas não me sinto velho.

“A LITERATURA É UMA ACTIVIDADE QUE EM MIM É FRUSTRADA”

- Gostaria de ter seguido por uma área das Belas-artes? A sua mãe era poeta.

- Tenho três romances pequeninos publicados. A literatura é uma actividade que em mim é frustrada porque não segui por aí. Mas durante muitos anos, quando eu era novo, eu hesitava entre a filosofia e a literatura.

- Imagino que hoje já não hesita!?

- Hoje não hesito.

- Mas desde que deixa o ensino tem portas abertas para fazer o que quiser.

- Absolutamente. E é verdade que eu penso no que está a dizer.

“NÃO TENHO BEM IDEIA DO QUE FIZ”

- Na sua última lição não fez um balanço. Porquê?

- Porque em Portugal não há verdadeiramente uma comunidade filosófica. Eu não tenho bem ideia do que fiz e do que pude transmitir. Foi uma surpresa ver na última lição tanta gente. Se eu soubesse fazer o balanço, talvez não me devesse surpreender.

- Não lhe serve de balanço ter sido nomeado um dos 25 mais importantes pensadores do Mundo?

- Não me sobe à cabeça essa classificação. Eu tenho a consciência de uma certa singularidade até pelo que eu deliberadamente não faço: Quando há qualquer coisa já dita, já feita, eu não repito.

PERFIL

José Gil, 71 anos, nasceu em Moçambique. Em 1957 veio para Lisboa estudar Matemáticas. Mas depressa mudou para Filosofia e licenciou-se em Paris. Há 29 anos regressou para Portugal como professor de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, onde deu a sua última aula a 10 de Março último. É autor de vários livros, entre eles o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’ (ed. Relógio d’Água).

(fim)

Numa entrevista ao Público em 3 de Janeiro deste ano, Gil fez uns comentários curiosos, em que não me revejo de forma alguma mas que diz algo da sua experiência moçambicana:

O primeiro: “O nosso vocabulário lá [em Moz] era para os lírios do campo, que não existiam lá. Cantávamos canções na escola primária, que era sobre o campo, em Portugal. Portanto, vivíamos em distância”.

O segundo: “O facto de existirem criados cria nos filhos de colonos uma horrível noção de se julgarem eleitos. Sabe o que é ter cinco criados, alguns deles com barbas brancas, e você, com três, quatro anos, dá-lhes ordens?”. E conclui: “ Fica julgando que é rei do mundo. E isso continua. Isso forma-o. É um estrato que lhe provoca o pior. Uma consciência de uma suprioridade que não tem. Nada lhe permite esse sentimento de superioridade. Não tinha esta consciência, mas tinha este sentimento. Como todos os brancos.”

Bolas. Os BM deviam ser os únicos brancos do Moçambique colonial que praticamente não tinham criados. Tivemos um ou outro, por pouco tempo, nunca resultou, e um deles uma vez deu-me uma valente bofetada por eu lhe ter feito não sei o quê e a seguir ia levando outra da minha mãe. O que não é bem aquela cena do patrão colonial cabrão de que tanto se gosta de protagonizar. Lá em casa também não se deambulava sobre as implicações sócio-culturais da relação de forças entre o criado preto e o patrão branco e as ilacções cósmicas para ambas as partes e o mundo. E é uma pena, porque hoje daria panos para mangas e até está na moda regurgitar sobre isso.

São as memórias autobiográficas.

Mas é bom saber que havia gente como o Zé que lá em casa tinha cinco criados e que deixavam os putos de quatro anos dar ordens neles. Se eu fosse preto, assim, eu até eu matava tudo para me libertar.

Ou melhor, nas circunstâncias, para escolher outro jugo.

Pois cedo se descobre que na verdade na verdade, qualquer relação de subjugação tem surpreendentemente pouco a ver com a cor da pele. Tem muito mais que ver com o respectivo grau de estupidez das partes envolvidas. E que o “colonialismo” era apenas a codificação temporária da estupidez de uma geração numa dada era. Enfim. Os romanos tinham escrevatura, n’est ce pas?

Adorei ler o, e sobre o, Zé Gil, mas como ele não quer saber no Gúgele o que dizem dele, ele nunca vai saber disso.


  • Share/Bookmark

FOGE CÃO QUE TE FAZEM BARÃO – NA INHACA

Sexta-feira, Março 19th, 2010
ABM numa praia do Baronato de Inhaca, no dia 31 de Dezembro de 1974

ABM numa praia do Baronato de Inhaca, no dia 31 de Dezembro de 1974

por ABM (Cascais, 19 de Março de 2010)

Até Almeida Garrett, que terá vociferado a frase acima (sem a referência toponímica) antes de ter sido feito Visconde de Almeida Garrett, teria ficado surpreendido, como eu fiquei, quando, ao pesquisar um detalhe sobre concessões feitas no Sul de Moçambique no fim do século XIX, “descobri” que de facto houve um Barão de Inhaca.

O título de 1º Barão de Inhaca terá sido criado pelo inefável rei D. Carlos I em 8 de Novembro de 1892 e atribuído a um tal de Alfredo Auerbach, sobre quem não sei quase nada. A não ser que morreu em Sintra, que nuns documentos ficou registado um seu protesto relativo a umas concessões quaisquer na actual Suazilândia em 1888 (quando ele ainda não era barão) e que num obscuríssimo livro da autoria de E. Torre do Vale com a ajuda de João Albasini e Mulwana Shandrake, intitulado Dicionários de Shironga-Português, Português Shironga (livro impresso em 1906 na Imprensa Nacional de Lourenço Marques, aquele velho edifício que hoje fica na baixa de Maputo em frente ao Hotel Tivoli e do Prédio 33 Andares e que consta que vai ao ar para dar lugar a mais um desses prédios de arromba) diz assim na página 317: “Appendice, contendo uma interessante resenha dos principaes cognomes ou alcunhas, pelos quaes são conhecidos entre os indígenas alguns antigos e modernos residentes em Lourenço Marques”. E no meio da lista vem: “Habela: — Barão de Inhaca”.

Ora como aquilo é um dicionário, fui ver o que quer dizer em português habela em Shironga. É um verbo e supostamente quer dizer “voar para”.

Enfim, um facto misterioso do passado, para reflexão em mais um fim de semana chuvoso em Tugaland.

Mas confesso que não sabia que existiu um único título de nobreza associado a Moçambique, ao contrário de Angola, onde já conhecia pelo menos um.

Bom fim de semana.

Ou, como se diz em inglês, TGIF – Thank God it’s Friday.


  • Share/Bookmark

Monumentos da era colonial na Ilha de Moçambique

Segunda-feira, Março 15th, 2010

Nesta entrada falou-se de um monumento aos combatentes da I Guerra Mundial, sito na Ilha de Moçambique. O qual eu não recordei de imediato. Umbhalane, aqui comentador residente, aprestou-se então a enviar-me fotografias do referido monumento, ainda hoje colocado no jardim fronteiro à actual pousada. Bem como fotografia do padrão na ponta da ilha, pastiche mandado colocar por Sarmento Rodrigues no final do período colonial e eloquentemente retratado na referida exposição de Leitão Marques. Aqui ficam as fotografias e os agradecimentos ao emérito comentador cá de casa.

jpt


  • Share/Bookmark

SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL

Sexta-feira, Março 12th, 2010

Pintura de Sídonio Pais no Palácio de Belém

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, na altura MNE moçambicano

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE

Por ABM (11 de Março de 2010)

Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.

Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.

Mas há uma relação curiosa, se indirecta.

Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.

De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.

O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.

Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.

Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.

Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.

Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.

Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.

É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).

O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.

O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.

E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.

A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.

A realidade não foi bem essa.

A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.

Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.

Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.

A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.

Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.

A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.

E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.

E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.

Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.

E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.

Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.

Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.

Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.

Mas sobre isso ainda sei pouco.


  • Share/Bookmark