Entries Tagged 'Globalização' ↓

ÁFRICA E O JOGO DA CHONCA EM MACAU

Vestígios do jogo na Etiópia

por ABM (4 de Março de 2010)

Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.

Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.

Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).

Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.

E em Macau é Chonca.

Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.

Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.

O NUNO, O ZÉ, A CNN E O GOOGLE

por ABM(28 de Fevereiro de 2010)

Isto é apenas uma memória domingueira.

Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.

Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).

Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.

Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.

Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.

Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.

Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.

As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.

E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.

Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.

Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.

Pois afinal nós éramos ricos. Não?

Foi uma festa.

Só que ninguém estava a pagar a conta.

Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.

A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.

Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.

Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.

Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.

Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.

Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.

Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.

Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.

Nós temos o Maschamba.

Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.

Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.

Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.

Um bom domingo a todos.

A Mensagem de Avatar

avatar-movie-picture-7

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.

Best New Song

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.

Incongruências climáticas

(por AL confusa e indignada) –

Começou ontem na Dinamarca a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas rodeada, como de costume, pelo circo armado pela putativa sociedade civil. Não querendo perder o comboio da indústria da pobreza a campanha que mais se salienta é talvez a Hopenhagen, “um movimento gerado pela Associação Internacional de Publicidade representando a indústria global de publicidade em apoio das Nações Unidas”. Excuse me? Isso mesmo! Da indústria que alimenta o consumismo e que cria necessidades.  Da indústria que gera milhões em rendimentos das necessidades que criou.Para não falar das toneladas de lixo em papel que produz.

A missão da campanha é “ligar todas as pessoas, cidades e nações a Copenhaga. Dar esperança a toda a gente e criar uma plataforma de acção. Criar um movimento comunitário com o poder de influenciar a mudança.” Pressupõe-se, portanto, que é uma campanha virada para a sociedade civil com acesso a electricidade, computadores e internet; com barriga cheia e tempo nas mãos para se debruçar sobre estas questões globais, ainda que se sinta marginalmente afectada por elas. Que adira ao merchandising da campanha, porque não? Cujos fundos irão para?

Não disputo o enorme problema global que são as alterações climáticas, nem a  necessidade de este ser debatido, nem a urgência de se tomarem medidas. Nem disputo sequer o tremendo impacto que as alterações climáticas podem ter em comunidades à beira da sobrevivência; do peixe que começa a escassear porque as águas estão agora mais quentes, ou menos salgadas; das culturas que se perdem porque faltaram as chuvas, ou porque vieram chuvas a mais.

O que disputo, me indigna e confunde e me parece descabido são os cartazes da campanha, que são dois.

print_woman_small
print_boy_small

Num, o rosto sublime e digno de uma mulher africana com todas as marcas que a vida lhe deu, olhar perdido no horizonte como quem não espera muito mais da Sorte. Noutro, temos um jovem asiático, bem vestido, com sapatilhas de marca, num fundo luxuriante e olhando para cima num gesto de esperança.

Indigna-me este reforço subliminar de que a pobreza é mulher e é africana. Indigna-me o uso que me parece abusivo de um rosto digno. Indigna-me o uso sistemático de África para ilustrar desgraças e de asiáticos para ilustrar esperança ou potenciais soluções. Confunde-me que ambos tenham sido usados e disseminados sem que objecções se tivessem levantado dos que clamam representar e defender os mais vulneráveis; daqueles que os querem proteger de todas as formas de exploração. A Vergonha? Essa não tem cara porque há muito que se perdeu….

(Des)Armamento?

(por AL em tom de esperança) –

Finalmente ontem, no que é o culminar de um processo de décadas, 153 países, incluindo os principais produtores de armas, acordaram nas Nações Unidas um calendário para um Arms Trade Treaty, que controle as transferências de armas convencionais. Dezanove países abstiveram-se (Arábia Saudita, Bahrein, Bielorrússia, Qatar, China, Cuba, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Índia, Irão, Kuwait, Líbia, Nicarágua, Paquistão, Rússia, Sudão, Síria e Venezuela) e um único país – o Zimbabwe (que surpresa!) – votou contra.

Trata-se de uma resolução importante uma vez que quase todos os esforços desenvolvidos até agora no controle de armas a nível mundial têm sido feitos a jusante, colocando o ónus do controle não em quem produz as armas mas sim em quem sofre com a sua proliferação.

Para os leitores da maschamba terem uma ideia da dimensão do problema, vou somente referir que as exportações legais de armas ligeiras ronda os 5 biliões de dólares (biliões americanos que são milhões de milhão) e o mercado ilegal das mesmas se situa entre os 2 e 10 biliões de dólares. Calcula-se ainda que existam 875 milhões de armas ligeiras a nível mundial e que as armas causam mais de 300.000 mortes e de 1 milhão de feridos por ano.

Aqui fica agora um pouco de advocacia e não vos vou incomodar mais com este assunto que tão perto fica do meu coração. Contra os canhões lutar, lutar!

Big Brother in Mozambique (Mano Velho [?] em MoÇambique)

bbmoc

A Cara de Moçambique no Big Brother Africa em entrevista no Moz Culture (assim, em inglês no título, em português nos textos). Não fazia a mínima ideia de que “Moçambique” já havia chegado a esta modernidade. Global, claro. Interessante, para além da participação do jovem neste evento do neo-pan-africanismo, é o facto de ser divulgado na imprensa dedicada à “cultura e desporto”: será desporto? Qual, o radical?

Mas o realmente interessante, aquilo que denota o novo olho (donde novos conceitos), surge assim: perguntado sobre Das experiências vividas no programa qual é o conselho que deixa aos futuros candidatos a participantes? responde: “Deixe-me dizer a todos jovens moçambicanos “ para pensarem grande” é preciso que os artistas, desportistas e jovens em geral pensem em “furar” fronteiras para difundir as suas habilidades nas mais diversas áreas.” A lógica que apreendeu, que é mediaticamente reproduzida, é cristalina. “Estar” no espectáculo real televisivo é estar no mundo artístico (e desportivo?). Daí os conselhos aos “colegas”.

jpt

O Império dos Alimentos

(por AL com encenação da amiga Ana Lisa em 24 Nov 2009) –

Durante anos e anos, consultores de nacionalidades ocidentais diversas com quem tive o prazer (ou desprazer) de me cruzar em Africa acabavam invariavelmente por me perguntar que obsessão seria esta que os Africanos tinham pela posse da terra. De início pensei estarem eles a referir-se à acumulação de terra por parte de elites, como se tem assistido em diversos países da África Austral. Mas não, incluídos nesta “obsessão pela posse da terra” estariam igualmente incluídos os milhões de agricultores de subsistência que pelo continente abundam. A mim, que até penso conhecer alguma da cultura africana e que nunca me tinha ocorrido classificar como obsessão o desejo legítimo de querer possuir o garante da nossa sobrevivência, esta pergunta sempre me inquietou. E durante anos me perguntei porque razão continuávamos nós na Europa a produzir arroz ou beterraba açucareira, competindo assim com países em vias de desenvolvimento cuja vantagem comparativa seria exactamente essa – a capacidade de produzir estes mesmos produtos em excedente, permitindo assim a exportação dos mesmos e a geração de rendimentos nacionais. Porque inundávamos nós – ocidentais ricos – o mercado do açúcar ou do algodão, cuja produção mecanizada nos nossos países poucos empregos criava, fazendo assim baixar os preços mundiais e, consequentemente, o rendimento de colheitas que nos países em desenvolvimento tanto emprego criavam? Porque subsidiávamos nós a exportação de leite em pó para países como o Ghana ou o Mali, onde este acabava por ser mais barato que o bom leite da vaquinha que o pobre do produtor local até tinha comprado com um subsídiozito ocidental, inserido num qualquer esquema de combate à pobreza e de “empowerment” local, acabando assim por roubar o magro mercado ao homem, levando-o à falência?

Até que aqui há uns dois ou três anos uma qualquer greve em França, creio, criou um bloqueio tal na Europa que em Portugal começaram a faltar alimentos básicos. Foi então que a ficha caiu e o conceito de segurança alimentar, que até ali usara tão abundantemente num contexto de desenvolvimento, se iluminou nestes meus neurónios deformados por uma vida de relativo conforto e abundância. E foi esta a minha epifania da auto-suficiência alimentar.

Temos falado aqui na maschamba sobre as guerras do futuro, como se lutarão, o que as despoletará e se a corrida ao armamento teria ou não sido já iniciada. O artigo que despoletou este post parece-me bem ilustrativo do que aqui temos vindo a discutir. Talvez a terra, os alimentos transgénicos, as sementes melhoradas e afins sejam algumas dessas armas e, se assim for, a corrida ao armamento há já muito que se iniciou!

Sobre uso e posse de terra em Africa

China e África: A Análise de Uma Relação

china_africa_21

Por ABM (Cascais, 16 de Novembro de 2009)

Loro Horta, um Visiting Fellow numa Universidade em Singapura, publicou recentemente, no Centro para o Estudo da Globalização da Universidade norte-americana de Yale, um comentário, baseado numa série de entrevistas e visitas que fez no continente, sobre a percepção que os africanos tinham da quase súbita atenção dada pela China às suas relações económicas e políticas com África.

Refira-se ainda que Loro, um académico e consultor, é timorense e o filho de José Ramos Horta e Ana Pessoa, respectiva e actualmente o Presidente e a Procuradora Geral do único país da Ásia que tem esta língua como oficial. Ana Pessoa viveu exilada vários anos em Moçambique durante a ocupação indonésia da sua terra e terá trabalhado em Moçambique nos tribunais.

A conclusão de Loro sobre o assunto é que há actualmente em África – com nuances variando de país para país – duas percepções muito claras mas quase diametralmente opostas em relação à presença, investimentos e forma de estar dos chineses no continente.

Por um lado, as elites em geral favorecem e vêm com bons olhos essa presença, que preenche uma importante lacuna em matéria de investimentos e importação de conhecimentos (know-how), especialmente numa altura em que, quando se sentia uma maior pressão para desenvolver, os países e as empresas ocidentais não só diminuíram o seu empenho no desenvolvimento e nos negócios em África, como ainda dificultaram o processo interligando aos donativos e investimentos todo um conjunto de imposições, desde reformas políticas e administrativas à prática de políticas humanitárias e ambientais as quais são frequentemente percepcionadas como neo-colonialismo ou interferência com as suas soberanias. Sendo conhecido que a China tem-se demonstrado quase ostensivamente blasé em termos dessas questões.

Pelo contrário, o modelo de desenvolvimento económico e social chinês, baseado num dirigismo algo rígido do PC Chinês (Loro chama-lhe em inglês “China’s model of a strong government”) é visto em muitas capitais africanas como uma tentação, senão uma inspiração, especialmente se se tiver em conta aquilo que vêm como a imposição “neo-colonialista” do modelo democrático-liberal ocidental por parte dos investidores e doadores que, reclamam, não funciona na perfeição em África.

Dos investimentos Chineses, alguns em condições particularmente favoráveis e em projectos de infra-estruturas e na agricultura (onde os países ocidentais não investem) resultam ainda parcerias muito interessantes que ajudam essas elites a fazer negócios e assim enriquecer.

Por outro lado, reporta Loro, as classes sociais menos abastadas nesses países vêm muito desfavoravelmente essa presença, a bordejar no racismo anti-asiático puro e duro, principalmente porque invariavelmente o investimento originado na China vem acompanhado de milhares de trabalhadores não especializados (frequentemente em condições miseráveis) para executar os projectos, logo não oferecendo trabalho à mão de obra local e em contraste flagrante com nalguns casos estritas quotas em termos do número de estrangeiros que podem trabalhar numa empresa ou numa empreitada (veja-se os casos em Moçambique e Angola, países que Loro conhece e refere especificamente e em que contrasta esta forma de estar com a dos portugueses, sujeitos ao total cumprimento das leis que limitam a presença de nacionais seus nos projectos).

Adicionalmente, o investimento chinês é também acompanhado por um abrir de portas dos países (visto mais como uma invasão) de pequenos e médios comerciantes, a maioria deles relativamente pobres, que trazem milhares de produtos a preços imbatíveis, competindo contra, e ameaçando, o pequeno e médio comércio local, que é absolutamente crucial para a sobrevivência de milhares e milhares de famílias africanas.

Os chineses tendem ainda a viver isolados do resto da população local e nem sempre seguem as melhores práticas ambientais nos projectos que patrocinam, provocando desconfiança na população e a hostilidade dos grupos ambientalistas.

Loro termina o seu artigo recomendando alguma reflexão sobre estas tendências a ambos os lados e o seu impacto na relação China-África e citando um anterior ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano que não identificou, que em relação à China fez o seguinte comentário: “No fim do dia, é a nossa responsabilidade. Os chineses, como quaisquer outros, têm os seus interesses e extorquirão de nós (o termo usado em inglês é mais violento: “they will plunder us”) aquilo que conseguirem até onde permitirmos. O futuro de África estã nas nossas mãos, tal como sempre tem estado. Deixemos de culpar os outros e de esperar que os outros tenham pena de nós”.

Acabou o Século XX (2)

eu_flag

por ABM (Cascais, 4 de Novembro de 2009)

Quando vi o título da nota do JPT sobre o fim do Século XX, pensei que era sobre um assunto completamente diferente do que ele versou – o desaparecimento do ilustre antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss.

Sendo assim, escrevo abaixo a nota que pensei que iria ler :) :

O século XX acaba no dia 1 de Dezembro de 2009.

O (relativo) fenómeno da construção de uns Estados Unidos da Europa, numa versão um pouco mais tribal que a norte-americana, chegou a mais um passo crucial esta semana com a relutante assinatura, pelo presidente da República Checa, dos termos do documento chamado Tratado de Lisboa. Depois da aprovação do Tratado pela Irlanda há poucas semanas, este era o único impedimento formal para que a União Europeia (UE) procedesse com a aplicação dos seus termos, e que constituem uma considerável reforma e evolução no seu funcionamento a todos os níveis e ainda na sua operacionalidade, desde a recente expansão para Leste da sua abrangência territorial.

Segundo um artigo do Times de Londres – e se calhar apropriadamente – o chamado Tratado de Lisboa terá sido uma congeminação de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy para ultrapassar a “muralha eurocéptica” ao nível das urnas, remetida para cima de um inteiramente pródigo, sorridente e receptivo José Sócrates (corria então a presidência portuguesa da UE, que durou seis meses, portanto ao conteúdo franco-alemão adicionou-se o rótulo português, importante e inútil simbologia para o povão português, que como de costume estava completamente a Leste do paraíso – conquanto chovam subsídios europeus, claro).

Isto porque havia a total consciência de que, apesar do seu peso e importância em termos estatísticos, e num mundo cada vez mais balcanizado em enormes blocos continentais, a Europa não sucedia em focalizar e tornar efectivo esse seu capital económico, moral, cultural, diplomático e militar nos principais teatros de conflito e negociação mundiais. E que o tempo não estava do lado dos europeus em termos de tornar essa união mais evidente junto dos seus interlocutores. O texto do Tratado pretende tornar esse protagonismo potencial em algo mais palpável.

Pela primeira vez, por exemplo, são criadas as figuras de Presidente da UE e uma espécie de ministro dos Negócios Estrangeiros da União.

Naturalmente, já anda tudo à estalada sobre quem serão os elegíveis.

Talvez mais importante a longo prazo, fica aprovada uma Carta de Direitos Humanos que se aplica a todos e cada residente na União.

Se bem que inúmeros atributos permaneçam antes que se possa vislumbrar uma entidade integrada ao mesmo nível que os EUA – em matérias óbvias como a adopção de uma língua franca, a harmonização social, fiscal, militar, em matérias de saúde e de justiça, a versão da UE que emergirá às zero horas do dia 1 de Dezembro próximo representa um marco que assinala o fim de um século de guerras, morte e mudanças sem precedente no continente europeu.

No início do século passado a Europa era caracterizada por “impérios” internacionais, multi-nacionais e multi-étnicos mais ou menos estanques que estendiam os seus tentáculos por quase todo o mundo, talvez com a excepção – sob o chapéu da Doutrina Monroe – da América Latina.

Das rivalidades intestinas, disparidades, inconsistências e conflitos latentes no espaço Europeu resultou a (então) Grande Guerra de 1914-1918, provocada por um assassínio e uma estúpida sequência de eventos, que, não sendo uma resolução definitiva dessas questões, como se viu vinte e um anos mais tarde com o oportunismo fratricida da máquina Nacional-Socialista alemã, teve as poderosas consequências de a) proporcionar o ensaio para uma nova forma, mais transparente e mais participada, de conduzir as relações internacionais, b) estabelecer alguns princípios morais e doutrinas que deveriam nortear a conduta dos Estados – de que a génese das ideias que levariam às descolonizações se seguiriam anos mais tarde, c) acordar, ainda que muito efemeramente, o colosso norte-americano para o mundo, e d) criar as condições para o aparecimento e consolidação do comunismo soviético, esse verdadeiro cancro do século XX.

Mas não havia projecto político, económico e social europeu, nem mesmo depois da derrota Nazi em Maio de 1945, do Plano Marshall (que Salazar, eternamente desconfiado e displicente em relação aos americanos, rejeitou) e da criação, com o patrocínio milionário dos Estados Unidos, do pacto de que resultou a criação da NATO. Em muitos aspectos, parecia que quanto mais as coisas mudavam, mais elas ficavam na mesma. Era business as usual.

A mudança veio através de um mais ou menos obscuro acordo, celebrado em 1951, para facilitar as trocas de aço e carvão entre alguns países na região central da Europa não ocupada pelos soviéticos. Subjacente estava o propósito de apoiar a integração europeia e reduzir ou tornar impraticável o recurso à guerra para a resolução de conflitos na Europa.
Daí atè à criação da Comunidade Económica Europeia em 1967 foi um grande passo, com os habituais passodobles entre britânicos e franceses. Portugal e Espanha entraram para a CEE em 1 de Julho de 1986.

O passo seguinte resultou do colapso do comunismo na Europa e na União Soviética, simbolizado pelo início do derrube, na noite de 9 de Novembro de 1989, do muro de Berlim, que a) abriu as possibilidades de uma reunião da família Europeia numa comunidade alargada, b) quase imediatamente reabriu e de forma diabolicamente sangrenta o dossier Balcãs – curiosamente, quase os mesmos ódios que estavam na origem da I Guerra Mundial e c) sinalizou o crescente questionar do então já caro e algo extemporâneo patrocínio, pelos Estados Unidos, da cobertura estratégica da segurança militar europeia contra o antigo império soviético pelas forças armadas dos EUA. Apesar de alguns desentendimentos (por exemplo, os americanos insistiam na dependência europeia do sistema GPS, que era propriedade de e controlada pelos EUA), os americanos favoreciam a consolidação da Europa e ainda mais que os Europeus se organizassem e pagassem a sua própria defesa – algo impraticável no contexto da infinita complexidade e pulverização dos processos de decião europeia.

Nestes termos, a conclusão lógica de um século de conflitos dilacerantes e mudanças radicais na Europa era, obviamente, a consolidação de uma união entre as nações da Europa. Algo que, após o Tratado de Maastrich e a implementação do Euro em 2002 ficou a um fio de distância.

O Tratado de Lisboa cobre esse fio e desse modo encerra finalmente um processo que começou em 1914 e que cobriu quase todo o século XX.

Que assim se encerra, concluída mais ou menos a “birra” de Vaclav Klaus com a sua assinatura (ver acima como ele o faz, irritado e reclamando até ao fim) providenciando a ratificação do Tratado de Lisboa (a razão para a recusa era que ele gostava de manter o seu país livre e soberano e ainda a sua exigência – que foi satisfeita – de uma isenção especial, para o seu país, da obrigação, nos termos da Carta Europeia de Direitos, de pagar indemnizações a cidadãos suecos cujos bens terão sido arrestados e nacionalizados na sequência da II Guerra Mundial.

O Século XXI será um século de consolidação, um novo capítulo e, com sorte, com uma minimização de conflitos.

Sendo que nesse tópico sou como aquele jogador do Sporting que um dia disse: “prognósticos, prognósticos, só depois do jogo”.

George Bush e Barack Obama

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Este é o segundo de dois programas que recomendo vivamente que veja.

O contexto é este: a maior parte de nós que assistimos à eleição histórica de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América associa a esse evento duas coisas: a saída de George Bush 2 da cena, uma maior moralização da política externa norte americana, e a promessa de uma saída mais limpa dos exércitos norte-americanos do Médio Oriente. Enquanto isso, a economia americana, dramaticamente nos últimos meses do segundo mandato de Bush, quase entrou em colapso – e com ela o resto do mundo.

Mas há uma muito mais importante história que aqui é escalpada: a do que aconteceu ao défice norte-americano. Como ele cresceu, onde ele está, e com o que é que os EUA e o resto do mundo se confrontam neste momento e no futuro. Isolado, só este tópico vai ser um dos maiores, senão o maior, desafio para Barack Obama – já o é. Ao ponto que, cedo no seu mandato, alguns assistiram com alguma surpresa a um presidente Obama a dizer na televisão que o maior problema de longe dos Estados Unidos era … a questão do sistema de saúde nos EUA.

O sistema de saúde?? então e as guerras, o Irão, Israel, etc?

Este programa indica-nos que, para além das demais prendinhas deixadas por Bush, foi uma quase incompreensível série de medidas de simultaneamente a) aumentar dramaticamente a despesa do governo com duas guerras (Iraque e Afeganistão) e um brutal aumento nas despesas do governo com um plano médico para a terceira idade e b) dois cortes muito significativos nos impostos. O buraco foi sendo pago pela compra de dívida do governo por estrangeiros, de que se destaca a … China (eu se tivesse que inventar isto não conseguia). Ou seja, os norte-americanos devem montanhas e montanhas de deinheiro ao estrangeiro. Por causa disso o mapa financeiro do mundo mudou radicalmente e o valor do dólar oscila como erva ao vento.

Acho que sem se entender esta dinâmica, não se conseguirá entender o que foi que Obama encontrou e com que tem que lidar nestes próximos tempos. Pois antes de ser líder mundial, ele é presidente dos EUA.

Conseguirá Barack Obama aligeirar os efeitos quase devastadores do que Bush fez? como dizem os árabés, inshallah. Ou nós, oxalá.

Este programa, da PBS, foi para o ar em 29 de Março de 2009, mas mantém toda a actualidade. Em inglês, dura 54 minutos. Veja enquanto bebe um cházinho de tília.

O Segundo 11 de Setembro

por ABM (Cascais, 29 de Outubro de 2009)

Enquanto me vou aprendendo e surpreendendo com o que existe na internet, tento utilizar o que encontro para tentar melhor entender o mundo que nos rodeia, o que acontece e porquê.

Há cerca de um ano, pouca gente se apercebeu de que o mundo esteve a um fio de cabelo de uma catástrofe económica (e, logo, política e social, eventualmente militar) sem precedente na história da humanidade. Curiosamente, o início e o desenrolar desse desastre oribinou nos sagrados corredores do capitalismo norte-americano: Wall Street, Nova Iorque, e Washington, a capital federal dos Estados Unidos.

Alguns dos leitores do Maschamba, que tem uma firme “verve” cultural e histórica, poderão à primeira pensar que perceberam o que aconteceu, ou então que não perceberam mas não querem perceber, ou que não perceberam, ou que nem são capazes de o fazer.

Ou ainda que isto pode não interessar.

Deixem-me dizer o seguinte de forma clara: o que aconteceu nos sete meses entre Março e Outubro de 2008 – e cujos efeitos ainda nem de perto estão resolvidos em todos os cantos do mundo – vai ser tópico de conversa durante décadas. Os vossos filhos e netos um dia vão perguntar-vos o que é que aconteceu em 2008.

E nós estávamos cá.

Porque nunca na minha vida – e eu tenho quase 50 anos de idade e já assisti a guerras, descolonizações, recessões, todo o tipo de tragédias – estivemos todos nós tão perto, tão perto de, de um momento para o outro, passarmos de uma vida de relativo conforto e de expectativa de normalidade, para o maior caos, miséria e total desorientação.

Todos nós, onde quer que estivéssemos.

Talvez por isso valha a pena ver o que foi, e como foi, desde a falência da firma de investimento Bear Stearns, à falência da firma Lehman Brothers, e o que aconteceu logo a seguir.

O vídeo que está em cima, em inglês e que dura uns “meros” 56 minutos e 23 segundos, com a maior das clarezas, calmamente e com uma qualidade fenomenal, explica tudo. Foi produzido para a cadeia de televisão pública norte-americana PBS (sim, há uma nos EUA) e exibido no programa Frontline, um dos meus favoritos de sempre.

De vez em quando valer a pena tentar perceber o que se passa com a economia. A cultura enche-nos o espírito e a alma. A economia ajuda-nos a pôr o pão na mesa para nós e as nossas famílias.

Esta é uma lição de humildade e também de como todos dependemos uns dos outros. Frequentemente de formas que nem sonhamos.

Na realidade o título acima é apenas uma leve provocação. Na verdade, o ataque terrorista ocorrido no dia 11 de Setembro de 2001 foi um piquenique de crianças comparado com o que aconteceu em 2008.

O Bravo Novo Mundo

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Confesso aos exmos leitores que ia pôr um título diferente e mais brejeiro, qualquer coisa como “estamos todos f—-os”. Mas como o Maschamba de vez em quando invoca a obrigatoriedade moral de manter, quando possível, elevados padrões linguísticos e comportamentais, tirei atrás o “odid” e mudei acima o título.

Mas vejam o vídeo, da autoria de Karl Fisch, Scott McLood e Jeff Brodman, e irão perceber do que falo. É qualquer coisa que dá para pensar. Essencialmente, da progressão da informação, do mercado e da tecnologia nestes últimos anos, e a que se prevê venha a acontecer.

É feito por e para americanos, mas nós aqui nas periferias europeia e africana aprendemos alguma coisa a ver a crista da onda. É estonteante, perturbador, avassalador, quase cataclísmico.

Refiro apenas duas estatísticas mencionadas na apresentação:

1. O vocabulário da língua inglesa actualmente – 540 mil palavras – contém cinco vezes mais palavras do que existiam no tempo da maior figura da literatura em língua inglesa, William Shakespeare.

2. estima-se que uma semana de notícias do The New York Times contém mais informação que uma pessoa média tinha acesso durante toda a sua vida no século XVIII.

O que é que isto tudo quer dizer?

Bem, se se assumir que mais de metade da internet é chat chat, spam, bullshit e pornografia, se calhar estamos na mesma só que tecnologicamente mais dextros.

Mas como não sei, registei este texto sob “globalização”.

O discurso de Óscar Arias

Só agora, e por referência de Fernando Ferreira Mendes, tomei contacto com o imperdível discurso de Óscar Arias, em Abril de 2009, na Cimeira Americana, em Trindade e Tobago. Uns meses antes do já referido discurso de Obama no Gana, e igualmente importante. A dependência não é uma irrealidade mas o dependentismo é um mero mito. Pernicioso.

(Transcrevo abaixo, para arquivo, pois estas ligações tendem a ser perecíveis):

Tengo la impresión de que cada vez que los países caribeños y latinoamericanos se reúnen con el presidente de los Estados Unidos de América, es para pedirle cosas o para reclamarle cosas. Casi siempre, es para culpar a Estados Unidos de nuestros males pasados, presentes y futuros. No creo que eso sea del todo justo.

No podemos olvidar que América Latina tuvo universidades antes de que Estados Unidos creara Harvard y William & Mary, que son las primeras universidades de ese país. No podemos olvidar que en este continente, como en el mundo entero, por lo menos hasta 1750 todos los americanos eran más o menos iguales: todos eran pobres.

Cuando aparece la Revolución Industrial en Inglaterra, otros países se montan en ese vagón: Alemania, Francia, Estados Unidos, Canadá, Australia, Nueva Zelanda… y así la Revolución Industrial pasó por América Latina como un cometa, y no nos dimos cuenta. Ciertamente perdimos la oportunidad.

También hay una diferencia muy grande. Leyendo la historia de América Latina, comparada con la historia de Estados Unidos, uno comprende que Latinoamérica no tuvo un John Winthrop español, ni portugués, que viniera con la Biblia en su mano dispuesto a construir “una Ciudad sobre una Colina”, una ciudad que brillara, como fue la pretensión de los peregrinos que llegaron a Estados Unidos.

Hace 50 años, México era más rico que Portugal. En 1950, un país como Brasil tenía un ingreso per cápita más elevado que el de Corea del Sur. Hace 60 años, Honduras tenía más riqueza per cápita que Singapur, y hoy Singapur –en cuestión de 35 ó 40 años– es un país con $40.000 de ingreso anual por habitante. Bueno, algo hicimos mal los latinoamericanos.

¿Qué hicimos mal? No puedo enumerar todas las cosas que hemos hecho mal. Para comenzar, tenemos una escolaridad de 7 años. Esa es la escolaridad promedio de América Latina y no es el caso de la mayoría de los países asiáticos. Ciertamente no es el caso de países como Estados Unidos y Canadá, con la mejor educación del mundo, similar a la de los europeos. De cada 10 estudiantes que ingresan a la secundaria en América Latina, en algunos países solo uno termina esa secundaria. Hay países que tienen una mortalidad infantil de 50 niños por cada mil, cuando el promedio en los países asiáticos más avanzados es de 8, 9 ó 10.

Nosotros tenemos países donde la carga tributaria es del 12% del producto interno bruto, y no es responsabilidad de nadie, excepto la nuestra, que no le cobremos dinero a la gente más rica de nuestros países. Nadie tiene la culpa de eso, excepto nosotros mismos.

En 1950, cada ciudadano norteamericano era cuatro veces más rico que un ciudadano latinoamericano. Hoy en día, un ciudadano norteamericano es 10, 15 ó 20 veces más rico que un latinoamericano. Eso no es culpa de Estados Unidos, es culpa nuestra.

En mi intervención de esta mañana, me referí a un hecho que para mí es grotesco, y que lo único que demuestra es que el sistema de valores del siglo XX, que parece ser el que estamos poniendo en práctica también en el siglo XXI, es un sistema de valores equivocado. Porque no puede ser que el mundo rico dedique 100.000 millones de dólares para aliviar la pobreza del 80% de la población del mundo –en un planeta que tiene 2.500 millones de seres humanos con un ingreso de $2 por día– y que gaste 13 veces más ($1.300.000.000.000) en armas y soldados.

Como lo dije esta mañana, no puede ser que América Latina se gaste $50.000 millones en armas y soldados. Yo me pregunto: ¿quién es el enemigo nuestro? El enemigo nuestro, presidente Correa, de esa desigualdad que usted apunta con mucha razón, es la falta de educación; es el analfabetismo; es que no gastamos en la salud de nuestro pueblo; que no creamos la infraestructura necesaria, los caminos, las carreteras, los puertos, los aeropuertos; que no estamos dedicando los recursos necesarios para detener la degradación del medio ambiente; es la desigualdad que tenemos, que realmente nos avergüenza; es producto, entre muchas cosas, por supuesto, de que no estamos educando a nuestros hijos y a nuestras hijas.

Uno va a una universidad latinoamericana y todavía parece que estamos en los sesenta, setenta u ochenta. Parece que se nos olvidó que el 9 de noviembre de 1989 pasó algo muy importante, al caer el Muro de Berlín, y que el mundo cambió. Tenemos que aceptar que este es un mundo distinto, y en eso francamente pienso que todos los académicos, que toda la gente de pensamiento, que todos los economistas, que todos los historiadores, casi que coinciden en que el siglo XXI es el siglo de los asiáticos, no de los latinoamericanos. Y yo, lamentablemente, coincido con ellos. Porque mientras nosotros seguimos discutiendo sobre ideologías, seguimos discutiendo sobre todos los “ismos” (¿cuál es el mejor? capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo…), los asiáticos encontraron un “ismo” muy realista para el siglo XXI y el final del siglo XX, que es el pragmatismo . Para solo citar un ejemplo, recordemos que cuando Deng Xiaoping visitó Singapur y Corea del Sur, después de haberse dado cuenta de que sus propios vecinos se estaban enriqueciendo de una manera muy acelerada, regresó a Pekín y dijo a los viejos camaradas maoístas que lo habían acompañado en la Larga Marcha: “Bueno, la verdad, queridos camaradas, es que mí no me importa si el gato es blanco o negro, lo único que me interesa es que cace ratones” . Y si hubiera estado vivo Mao, se hubiera muerto de nuevo cuando dijo que “ la verdad es que enriquecerse es glorioso ”. Y mientras los chinos hacen esto, y desde el 79 a hoy crecen a un 11%, 12% o 13%, y han sacado a 300 millones de habitantes de la pobreza, nosotros seguimos discutiendo sobre ideologías que tuvimos que haber enterrado hace mucho tiempo atrás.

La buena noticia es que esto lo logró Deng Xioping cuando tenía 74 años. Viendo alrededor, queridos Presidentes, no veo a nadie que esté cerca de los 74 años. Por eso solo les pido que no esperemos a cumplirlos para hacer los cambios que tenemos que hacer.

Muchas gracias.”

Ken Lee

Enviaram-me este curto filme que logo me disseram ser já antigo. Hilariante. Depois pungente. Só depois se consegue olhá-lo de outro modo. Como suma de um tudo.

Uma concorrente, candidata a cantora, na sequela búlgara do “American Idol”, o mesmo modelo desses “Operação Triunfo” ou “Famashow” que cada país vem implantando e repetindo até à exaustão das audiências. Onde o conteúdo é sempre similar, a imitação do bom, do bom produto (a competência, o estilo), do bom tom (o timbre, as vestes, o gestual), do ser (o repertório).

Um bom que vem de fora, de um determinado “fora” correcto – mesmo quando o produto copiado é nacional é porque é um “nacional” dentro dos conformes já instituídos. Claro que há recriações, reapropriações, reutilizações, novos sentidos criados [a chegada apotéotica à Beira do jovem vencedor do primeiro Famashow é significativa]. Mas fazendo tábua rasa das arestas inconformadas. O cerne de tudo é um produto pisado e repisado em que o Valor é o auto-esvaziamento, uma transição para ser-recipiente.

Daí que o desvario desta candidata a Mariah Carey, ante o olhar estupefacto de um juri também ele cópia doutras Mariahs Careys, apenas um pouco mais buriladas, seja tão exemplar. Hilariante. Desesperadamente hilariante. Espelho do nosso comboio.

calamidades


(22 Peto; Mopeia. Marco 2007)


(22 Peto; Chupanga. Marco 2007)

e …

(Soekarnoputri; Aldeia 1 de Maio, Caia. Marco 2007)

Coisas do neo-celibato, à última hora descobre-se que quase tudo do importante vai faltando na casa quasi-pós-camping. Agora o termómetro, obrigatoriedade de pai. Ali à farmácia num pulo, confrontado com duas hipóteses. A mais barata, 230 meticais, origem indiana. A mais cara, 370 meticais, origem alemã. Hesito, confesso, quando inerte tendo ao buy european, proudly eurocentric, essas coisas. Depois, reajo, e não é só a bolsa que o provoca, é mesmo ideológico. Ser global é, agora, isto, o comprar indiano. Ser global, ser justo. E já agora, poupo 140 paus.

E lá vou medir a febrezita da minha princesa, dona desta nova casa. Ela consciente da tarefa até ao pi-pi-pi, e coisa grave não será, que não o aparenta. Mas, quanto? … Hâ…hâ… Ah, afinal. Pois o termómetro indiano, apesar da imagem do pacote mostrar o contrário, só dá temperaturas em Fº, enormes? No dia seguinte, febre debelada é certo, lá regresso à farmácia, “Senhora o termómetro que me vendeu? só dá temperaturas em Fahrenheit”, “O quê?”, mas logo investiga e se satisfaz “mas tem aqui a tabela das conversões”. Até me rio, num “era o que faltava”, troque-me (e trocou, vá lá, vá lá) lá isto pelo alemão mais caro.

Ser global?

Globalização (significados e significantes)

(Ilha de Moçambique, Outubro de 2006)

Globalização

(Ilha de Mocambique, Outubro de 2006)

Globalização e Linguística

(Namaacha, Novembro de 2006)

Globalização

Afinal, desindustrialização?

Aqui referi a problemática da abertura dos mercados. Necessária e fundamental. Mas por alguns vistos como resolução – como se a um omnipotente Estado “Paizinho dos Povos” se sucedesse uma outra omnipotência, a do Mercado Mágico.

Que formas históricas assumiu o liberalismo económico? E em que condições globais? São questões pouco dadas à proclamação de grandes princípios, e à negação (analfabeta, pois então) dos conteúdos sociopolíticos da economia. Muito em voga no meu país, que o giro iletrado dá jeito à gargalhada. E à audiência.

A este propósito transcrevo uma notícia do jornal “País”. Apenas uma notícia de jornal, não uma verdade indiscutida. Mas a questionar os factores do desenvolvimento africano.

***

Os produtores de algodão da África Austral estão preocupados com os baixos preços do algodão no mercado internacional, para além da generalizada falência que caracteriza o sector têxtil e de confecções de todo o continente. (…) as dificuldades que caracterizam o sector do algodão na África Austral são os mesmos de todo o continente. O grande constrangimento relaciona-se com os baixos preços praticados no mercado. (…) a abertura que aconteceu a partir de 1 de Janeiro do ano em curso está a impor uma outra dinâmica no mercado mundial (…) os países africanos não estão em condições de concorrer com os grandes produtores tais como a Índia, a China e a Indonésia. (…) Existe a percepção que o Lesotho conseguiu estabelecer a sua indústria têxtil e de confecções, mas trata-se de uma realidade aparente (…) a tendência também é para cair. O Quénia, por exemplo, só tem encomendas para mais um mês…

[texto de Arão Valoi, publicado no Pais, 19 Março 2005]

Pois é prezado MacGuffin, concordo, concordo. Em tudo. E, paradoxalmente, apenas em parte.

Porque a liberalização do comércio será fundamental para o desenvolvimento do sul (simplificação este norte-sul, mais um chavão). E provocará ondas de choque lá nos nortes. Com resmungos e oposições dos antigos internacionalistas, claro.

Mas a liberalização do comércio não chega. Cá em baixo produzem-se a baixa produtividade (aumentará com o mercado, claro) produtos primários. E os mercados estão cheios (aqui resmunga-se, o algodão, a copra, o sisal, o milho, etc, etc,) – algo que não aconteceu noutros processos de desenvolvimento, em épocas outras. E mais, alguns desses mercados estão controlados, muito cartel explícito e implícito – a Mão será Invisível mas a Luva da dita manápula não é nada branca, é bem Berrante. Peço desculpa aos hipotéticos leitores, sei que quando se põe em causa a invisibilidade da dita se ofendem os liberais (económicos), é afirmação tão anti-cristo como dizer aos comunistas que não há ideologia de classe economicamente determinada.

E quanto a uma industrialização, enfim, seria preciso mais do que eu para alinhavar os tantos obstáculos para que surja ela, rápida e em força. E competitiva.

Quebrar o proteccionismo (quando não houve proteccionismo?) é fundamental para um impulso. E que impulso! Mas há que fazer intervir mais do que o mercado. Para, e simplificando, não reproduzir na eternidade a diferença riquissimos-paupérrimos (mesmo que então já não moribundos). Estados? Organizações internacionais (Estados conjuntos)? E aqui isso chocará com as perspectivas do centro e direita, sabida que é a tradicional aversão ao subsídio, à “ajuda”, à intervenção estatal (excepto quando somos o receptáculo, claro está). Em suma, um verdadeiro desenvolvimento internacional implica um susto generalizado nos canteiros intelectuais aí. Era só isto.

E já agora, nesta questão os telhados aí já não têm vidros. E espero que chova bem. E que neve.

Mr. Blatter, afinal?

Acabadinho de roubar do “Jogo”…

“Joseph Blatter disse o que lhe vai na alma ao prestigiado “Financial Times”. O presidente da FIFA não usou de meias palavras para definir o estado actual do desporto-rei: “Os principais clubes europeus funcionam cada vez mais como verdadeiros neocolonialistas, implicando-se na violação social e económica, ao roubarem aos países em desenvolvimento os seus melhores jogadores“.”