Archive for the ‘Globalização’ Category

A TAPROBANA* E O FIM DA OCIDENTAL PRAIA LUSITANA

Terça-feira, Junho 29th, 2010

por ABM (Terça-feira, 29 de Junho de 2010)

Este pequeno texto vem a propósito da frase, proferida por essa personalidade mística – o Dr. Mário Soares – que há uns dias referiu que ou a Europa se punha a pau ou estaria condenada a tornar-se apenas na obsoleta extensão ocidental da Ásia.

A visitante Maschambiana Joana Lopes, que tem um blogue onde isolou a frase, chamou-me a atenção para a profundidade prescrutável da afirmação Soariana. Eu, que quase nunca comento nos blogues dos outros, no entanto abri uma excepção: com as teclas do computador, lembrei à Joana e aos seus clientes, que por acaso acabara de ler o prefácio de um recente livro pelo legendário conservador norte-americano Patrick Joseph Buchanan, em que, presumo que partindo do lado oposto da paliçada ideológica, diz exactamente o mesmo. Pior: ele diz que já aconteceu há algum tempo e que nós civilização ocidental, ou arrepiamos caminho, ou estamos condenados a ser uma irremediável curiosidade histórica, arrasados por uma aliança afro-asiático-terceiro mundista.

Mas quem conhece o Patrick, que, democraticamente, odeia tudo e todos inclusive os judeus e outras minorias, sabe que isto é apenas o início da conversa.

O tema da decadência da nossa civilização ocidental é um tópico favorito estes dias e o Patrick não é excepção.

Em Portugal, agora que a recessão vai começar a bater com força e vai permanecer assim nos próximos dois anos, os algozes da desgraça vão dizer que é o fim do mundo. Na verdade, é apenas o fim do estilo de vida de regabofe subsidiado e do golpismo económico dos últimos trinta anos, a bater-nos à porta.

Chegou a hora de pagar a factura e ninguém que manda parece ter reparado para onde colectivamente estávamos a caminhar. Pois esse estavam muito ocupados a encher os bolsos e a aprender a jogar golfe no Alentejo.

Para não falar de um taxa de crescimento populacional que em cem anos nos reduzirá para metade da população que temos agora.

Para variar, ou talvez não, o decano da política portuguesa tem razão. Terá?

*- nome antigo dado pelos gregos e romanos à ilha de Ceilão, actual Sri Lanka. Como é que eles sabiam que o Ceilão estava ali antes dos tugas lá terem ido, não sei.


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A DESGRAÇA AO VIVO

Sábado, Junho 12th, 2010

Free Webcam Chat at Ustream

por ABM (12 de Junho de 2010)

Se o exmo leitor não tiver mais nada que fazer hoje, poderá achar interessante assistir ao vivo, enquanto bebe um cafézinho, a não sei quantos mil metros de profundidade, ao maior derrame de rama de petróleo na história da Humanidade, algures no golfo do México, cortesia da empresa British Petroleum. A emissão vem-nos pela mão da cadeia norte-americana PBS.

Claro que isto tudo pode ser resolvido, se todos nós passarmos a andar a pé e a não desperdiçar electricidade e a consumir desenfreadamente.

Mas fazer isso não é civilizado, pois não? então de vez em quando a consequência é o que se vê ali em cima.

Um repucho de petróleo em bruto, ao vivo e a côres.


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AS GUERRAS DA INTERNET

Segunda-feira, Junho 7th, 2010

por ABM (7 de Junho de 2010)

Os dados agora publicados pelo Internet Systems Consortium dão uma vaga ideia do que se vai fazendo na internet a nível mundial, e reflectem certos níveis de actividade pois estão tabelados por domínio.

Eles podem ser vistos aqui.

Por piada, fui buscar os dados para os falantes da língua portuguesa.

Domain – Hosts

br – 18.848.263
pt – 3.142.618
mz – 21.244
ao – 3.697
st – 1.442
tp – 316
mo – 253
gw – 83
cv – 29

Em que:

br – Brasil
pt – Portugal
mz – Moçambique
ao – Angola
st – São Tomé e Príncipe
tp – Timor-Leste
mo – Macau
gw – Guiné-Bissau
cv – Cabo Verde

Um pedaço de informação curiosa e de dúbia utilidade. Mas dá uma ideia da grandeza das coisas. Comparados com alguns outros países e “esferas culturais”, nós luso-falantes somos uma pequena tribo.


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O ALMIRANTE ZHENG HE E VASCO DA GAMA

Sábado, Junho 5th, 2010

por ABM (5 de Junho de 2010)

Há uns anos, amiga minha que vive em Joanesburgo e que tem digamos que algum, pouco disfarçado desprezo “histórico-ideológico” pelos portugueses (e certamente considerando-me um, mas não um daqueles que se pode dizer coisas como “ah, vocês portugueses…!”) deu-me para ler um livro publicado há uns anos, da autoria de Gavin Menzies, chamado 1421.

O tema do livro é uma quase circum-navegação do mundo por parte de uma vasta, poderosa e sofisticada frota naval chinesa, ocorrida precisamente no Ano de Deus de 1421, quando na Europa os poderes constituídos ainda jogavam ao berlinde em matérias de navegação de longo curso.

Os portugueses de 1421, ainda sob a alçada do pouco socratiano Dom João I, fundador da Dinastia de Avis com uma indisfarçável ajuda do agora santo católico Nuno Álvares Pereira, haviam há pouco arrebatado a praceta marítima marroquina de Ceuta e andavam a prospectar as fraquezas mouras na costa marroquina, a fazer umas razias, e a pensar no que fazer com aquilo tudo.

Isto na face do espanto geral dos católicos europeus pelo inédito feito de mais ou menos furarem o bloqueio muçulmano do Mar Mediterrâneo e ainda mais a abertura de uma certa perspectiva de desafiar o muito mais dificilmente contornável bloqueio da Europa dos produtos originados da Ásia, cujo acesso só se fazia a partir do Médio Oriente, a preços obscenos, tornados ainda mais obscenos quando os Otomanos tomaram Constantinopla trinta e dois anos mais tarde.

Recorde-se que, em termos do que estava para acontecer, os portugueses tinham acabado de descobrir a Madeira, mas não os Açores, as Canárias e Cabo Verde, plataformas absolutamente essenciais para apoiar as expedições que vieram mais tarde.

Mais importante, não dominavam ainda as técnicas de navegação e de orientação, bem como outros aspectos essenciais para a navegação em alto mar e longe da costa.

Mas a crer no livro de Menzies, nesse preciso ano os chineses, cuja tecnologia e poderio estimado ofuscava o que havia na Europa, e que haviam constituído uma absolutamente formidável frota naval liderada pelo Almirante eunuco chinês Zheng, a mando do então imperador (o tal que mandou fazer a Cidade Proibida no que é hoje em dia o centro da capital chinesa, Pequim)  zarparam em todas as direcções, aparentemente à procura de negócios e de um pouco de conquista (muito pouco, depreendi).

Mais interessante, apesar de as provas serem digamos que um pouco menos que impressionantes, Menzies argumenta que, em 1421, os chineses andaram a passear pela costa oriental e ocidental africana, e terão ido tão longe como as Caraíbas e a América do Norte.

Portanto terão estado algures na actual costa moçambicana, e por aí além, oitenta anos antes de Gama, Cão, etc.

Continuando a saga de Menzies, só foi por uma questão de acaso ou de ventos cruzados que parte da frota Zhenguiana, em vez de ter ido directamente para as Caraíbas,  não ter desaguado na foz do rio Tejo, ali mais à direita de quem sobe o Atlântico, pregando assim o mais valente dos cagaços aos então relativamente primários cidadãos da cidade de Lisboa, cuja visão do Demónio na altura se cingia aos mouros, aos castelhanos e aos judeus.

Mas, mais dramático para a história, e parece que foi verdade, o imperador chinês que veio a seguir parece que não gostava destas aventuras pelo mundo e mandou acabar com aquilo tudo de uma assentada, desmembrar as frotas, queimar todos os registos, e impor a pena de morte ao desgraçado que dissesse seja o que for sobre o assunto. E ai de quem se atrevesse a sair da China.

Assim – e por enquanto, continua o argumento – hoje o mundo ainda tem que aturar esta coisa ficcionada de terem sido portugueses os que há uns quinhentos anos primeiro mapearam os oceanos do mundo e tocaram os quatro cantos do mundo – incluindo aquele postozinho na margem direita do Rio das Pérolas chamado Macau. E o Japão. E a América Latina. E África.

Pois na verdade, argumenta Menzies, o verdadeiro herói da fita é o tal de Almirante Zheng (que pelos vistos era um verdadeiro homem das Descobertas Chinesas). Não o comandante Vasco da Gama, que Manuel I de Portugal, sobrinho e sucedâneo de D. João II, foi buscar à vilinha piscatória de Sines e mandou seguir a costa africana em 1497, para ver se havia maneira de chegar pelo mar às Índias, em três barquetas pequenas mais a barcaça dos suprimentos, que ficou pelo caminho a seguir à paragem na Ilha de Moçambique. Um ano e tal depois, voltaram duas naus, fragilmente dirigidas por menos que cinquenta homens, com umas especiarias, um mapa e uma história para contar.

Ora, eu sou daqueles que, havendo prova, até acreditarei que há marcianos e que Elvis Presley ainda está vivo e reside em Marracuene. Mas creio que esta dos chineses terem ido desde Pequim até Miami em 1421, bem, digamos que vou esperar mais um pouco para ver antes de mudar a letra de A Portuguesa.

Mas, talvez porque estejamos estes dias a atravessar uma onda global de sinofilia, esta semana acabei de ler um outro livro, este da autoria de uma senhora americana, de nome Heather Terrell (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, tradução de Patrícia Xavier), que é basicamente sobre o mesmo tema, mas desta vez assumidamente ficcionado e com um outro ângulo completamente diferente.

O livro de Terrell, que é uma advogada e que obviamente andou a fazer os habituais circuitos histórico-turísticos de Portugal, com ênfase dado ao Convento de Tomar (o verdadeiro centro da história de Portugal, segundo alguns), chama-se O Mapa Desaparecido.

Nesta aventura, que se lê mais ou menos como um guião de filme, intercalando sucessivamente datas e eventos entre a actualidade e 1421, vemos ao vivo e a cores o almirante chinês a fazer a tal volta até Miami, só que aqui o herói da fita não é ele: é Zhi, um obscuro jovem eunuco (um eunuco é alguém a quem se corta a pila. Está tudo explicado no livro) que, secretamente, arriscando o pescoço após os éditos imperiais que mandaram destruir tudo após a Grande Viagem, elabora um mapa completo de Tudo e Mais Alguma Coisa Sob o Céu.

Ora como ele terá ido desde Pequim até Miami, o exmo. Leitor já pode imaginar o que é que o mapa indica: essencialmente,  é um mapa do mundo, com os contornos de África.

E poderá imaginar o que vem a seguir: na verdade, e mais uma vez, os tugas não descobriram coisa nenhuma. O que fizeram foi comprar uma cópia do mapa a um qualquer que fazia a rota da Seda, que Dom Manuel I guardava a sete chaves, e que deram a um subalterno de Vasco da Gama, chamado António, deixando o leitor do livro – e assim o resto do mundo – saber que em 1497 Vasco da Gama meramente seguiu o mapa de Zhi até Calecute e arredores, em vez de, corajosamente, ir por ali acima às apalpadelas.

Parte do enredo, como não podia deixar de ser, inclui um tal Visconde de Tomar, uma influente e singularmente patética figura, que tudo fará para que a verdade sobre o tal de mapa de Zhi não seja divulgado, para que os portugueses, estes dias já tristes com a crise internacional e a candidatura à presidência de Manuel Alegre pelo PS, não ficarem agora traumatizados pelo épico barrete enfiado por Dom Manuel há quinhentos anos.

Convenientemente, durante quinhentos anos, a cópia portuguesa do mapa de Zhi fica guardada nada menos que algures na estranhíssima Charola do Convento de Tomar, que a heroína do filme, uma desenrascada investigadora americana de roubos de arte, com a ajuda de um amigalhaço e a antecipável estupidez colectiva de um grupo de tomarenses distraídos, rouba da Charola e assim força a jogada do Visconde.

Se o livro de Menzies já me fazia sorrir um pouco, o de Terrell, que se lê numa noite, ao contrário do outro, já me faz soltar uma gargalhada ligeiramente mais sonora, se bem que, reconheça-se, está relativamente bem pesquisado nos essenciais, tirando a afirmação de que os Açores ficam situados a Sul da Madeira e ainda que Terrell se tenha esquecido que um aspecto fundamental do percurso técnico que possibilitou as viagens de então foi o desenvolvimento da capacidade de navegar contra o vento.

Também não percebo a insistência em chamar “navios” às naus de Vasco da Gama.

Apesar de Menzies e de Terrell, e sendo a História eternamente reinterpretável, proponho no entanto que de momento os Maschambianos sigam o conselho daquele poeta, Luís Vaz de Camões, e considerem aquilo que aqueles antigos portugueses fizeram, verdadeiramente, uma coisa do outro mundo.

Porque foi.


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TEMPOS MODERNOS por Tiziano Terzani

Quarta-feira, Abril 14th, 2010

“Boa gente, os marinheiros! Mas também eles destinados a desaparecer. Já nem se chamam por esse nome. «Marinheiros», «grumetes» e «mestres» foram abolidos e no lugar deles, por razões sindicais, surgiu uma nova categoria, a dos «não-graduados polivalentes», homens para todo o serviço.
Passa-se o mesmo com a sabedoria dos marinheiros, acumulada ao longo dos séculos. O mundo moderno não sabe o que fazer dela. Hoje os instrumentos fazem tudo. Antigamente, um marinheiro tinha de esforçar a vista para reconhecer, numa certa encrespação das ondas, a presença de um cardume de peixes, para ver de longe se uma enseada era navegável, ou para se aperceber a tempo de um baixio em que o navio poderia encalhar. Agora todo esse trabalho é confiado aos sonares e aos radares, que de ano para ano se tornam mais precisos.
Contudo, quanto conhecimento se perde! Quantas antenas naturais caem da cabeça do homem, para serem substituídas por antenas electrónicas!
«É tudo automático. Já não é preciso olhar para o mar!» dizia o capitão, desconsolado. E o mar, quando se olha para ele, é extraordinário! A todas as horas é diferente, tem cores diferentes, intensidades diferentes, diferente consistência, sons diferentes, movimentos diferentes, espéctaculos diferentes.
Uma vez foram os golfinhos a nadar ao lado do navio, outra vez uma baleia que mergulhou, ágil, como que assustada com a nossa monstruosidade, depois, os cardumes de peixes voadores entretidos a brincar com a quilha e os tubarões que-diziam os marinheiros-, naquela época, iam acasalar e reproduzir-se ao largo do Djibuti.

(…)

Enquanto estivemos a bordo do navio, tínhamos sempre a sensação de estar a assistir a qualquer coisa que terminava.
Até que um dia essa sensação se definiu: a nossa viagem era um funeral. Pouco depois de termos dobrado o Cabo Guardafui, «olha e foge», o radiotelegrafista recebeu uma mensagem dos sindicatos convidando a tripulação a fazer greve, pois a sociedade estatal proprietária do Trieste estava em negociações para a sua venda. No regresso, o navio já pertenceria a uma multinacional qualquer, que lhe daria outro nome, o registaria em qualquer país conveniente e substituiria os italianíssimos «não-graduados polivalentes» por marinheiros asiáticos, talvez chineses, pagos a menos de 50 dólares por mês.
Portanto, aquela era a última viagem de um dos poucos navios ainda com a bandeira italiana.
Sentado à popa, perguntava-me quanto tempo poderá ainda durar um mundo asssim, regido exclusivamente pelos critérios incultos, desumanos e imorais da economia. Ao avistar a sombra de ilhas longínquas, imaginava uma ainda habitada por uma tribo de poetas, ali conservados para quando, após a Idade Média do materialismo, a humanidade tiver de recomeçar a introduzir outros valores na sua vida.”

in Disse-me um Advinho, de Tiziano Terzani

PSB


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JOSÉ SÓCRATES E AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Sábado, Março 20th, 2010

por ABM (20 de Março de 2010)

Os dados acima reproduzidos, divulgados no Economist de ontem, foram preparados pelo Met Office Hadley for Climate Change, sedeado no Reino Unido, uma das instituições europeias líderes no estudo das alterações climáticas.

Do lado esquerdo, em azul, vêem-se as variações das médias das temperaturas em terra. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais.

Do lado direito, em azul, estão as variações das médias das temperaturas nos oceanos. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais. A linha laranja, mesmo por cima, indica as tendências relativamente à temperatura do ar mesmo por cima do mar.

Claramente, algo se passa no mundo desde pelo menos o final dos anos 70. E não são só estes dados, publicados ontem, que o indicam. O norte-americano Albert Gore, o antigo vice-presidente de William Clinton, ganhou um prémio Nobel por conduzir uma campanha, centrada num filme que paguei para ver, em que foca nas tendências em termos da componente de dióxido carbono na atmosfera terrestre.

Concumitantemente, nos últimos dez anos, pessoas, governos e empresas começaram a adoptar medidas no sentido de mitigar os efeitos altamente poluentes do nosso actual estilo de vida.

Olhemos ao que se passou no mundo nos últimos 35 anos.

Essencialmente, a Guerra Fria acabou, o Brasil, a China e a Índia surgiram como gigantes industriais e tecnológicos, e a população do mundo quase que duplicou.

Consideremos agora Portugal e em maior detalhe.

Para um português com mais do que 45 anos (e eu tenho 50) 35 anos é mais ou menos desde que alguns militares que fizeram um pronunciamento em Portugal acabaram com o projecto colonial português entregando o poder aos movimentos de guerrilheiros da altura e assim despacharam Angola e Moçambique e o resto.  Em Portugal, os comunistas estiveram a um fio de tomar o poder e, com a ajuda de uns valentes sacos de dinheiro dos nossos amigos alemães, de Frank Carlucci e dos outros militares, estes os não comunistas,  Mário Soares adquiriu as suas credenciais degladiando-se com Cunhal e ajudando a inaugurar a III república. Com um algo doentio complexo de esquerda, a III república proclamou-se “socialista” e democrática.

Economicamente, a III república tem sido basicamente um desastre. Logo no início, com uma justificação sócio-política, expropriou praticamente tudo o que interessava às classes previamente abastadas, acompanhadas por vagas ameaças de mandados de captura e assédio a sério. Champalimaud, Mellos e Espíritos Santos refugiaram-se na Suíça, Espanha e Brasil e quase que tiveram que começar do zero. Aqui, aumentaram-se generosamente os salários – 13º mês, subsídio de férias, emprego garantido para toda a vida e o maior sector público de sempre. Mediante a constante desvalorização do escudo e o aliciamento, com um custo significativo, do envio dos fundos ganhos no estrangeiro por portugueses emigrados, a economia foi-se aguentando até ocorrer um pequeno crash, entre 1983 e 1985. Foi nessa altura que Mário Soares um dia foi à televisão antes do Natal e disse aos portugueses que trabalhavam que o subsídio de Natal desse ano ia ser comido como imposto. Um pouco como está a acontecer agora com os chamados “bónus”.

Por essa altura, ocorreu a adesão à então Comunidade Económica Europeia, que foi negociada por Soares mas aproveitada por um então praticamente desconhecido Aníbal Cavaco Silva. Durante os quinze anos que se seguiram, choveu dinheiro em Portugal.

Foi uma verdadeira festa.

Os dois mandatos consecutivos de Cavaco Silva foram curiosos, pois se por um lado se assistiu a um enorme acrescento na infra-estrutura pública, e a um aparente regresso a uma economia um pouco mais empresarial, em que surgiram dois bancos privados de raíz e se iniciou a privatização de parte do que o que os comunistas tinham nacionalizado em 1975, na realidade o que sucedeu foi que o aparelho de Estado, e especialmente as despesas públicas, e ainda mais os impostos, dispararam quase desmesuradamente. Foi Cavaco Silva que introduziu o IVA, que instituiu aumentos de ordenados fantásticos para os funcionários públicos e, quase no fim do seu mandato, negativamente simbolizado por um protesto contra um aumento na portagem em uma das pontes que serve Lisboa, e ainda por não ter concedido tolerância de ponto num dia de carnaval, Cavaco muda fundamentalmente as regras de financiamento do Estado.

Até então, o governo financiava-se essencialmente junto da banca portuguesa, o que tinha um efeito de crowding-out em termos da procura doméstica do dinheiro. Isso significava que o crédito no país era extremamente caro e limitado. O crédito ao consumo era proibitivo praticamente proibido, e financiar uma casa era a 12 anos e custava entre 20 e 25% de juros ao ano – o exmo leitor lembra-se?

Ao passar a financiar-se no estrangeiro, de repente a banca portuguesa tinha uma fonte quase inesgotável de dinheiro, mas sem saber o que fazer com ele. A solução? emprestá-lo – ou melhor, nalguns casos impingi-lo – aos consumidores e empresas. Simultaneamente, ao aderir ao Sistema Monetário Europeu, que desembocaria em 2002 na extinção do Escudo e a adopção do euro, as taxas baixaram para níveis impensáveis apenas quatro anos antes.

Foi a segunda festa, ainda maior que a primeira, pois por esta altura os portugueses já se tinham habituado à boa vida. Mas pela primeira vez em séculos, os portugueses tiveram a ilusão de que eram “europeus”. Toda a gente comprou casa, comprou carro, passou a aquecer a casa no inverno, passou a ir de férias uma e duas vezes por ano ao estrangeiro, passou a usar roupa de marca, passou a andar de telélé na mão, televisão a cores na sala e no quarto. Quase duma assentada, criaram-se gigantescos centros comerciais por toda a parte, o maior dos quais chama-se Freeport.

Rapidamente, os bancos portugueses tiveram tanto sucesso nos seus esforços que também eles começaram-se a financiar no estrangeiro. A certa altura, dezenas de milhões de euros por dia fluiam para Portugal em empréstimos públicos e privados.

Mas o que aconteceu entretanto na indústria e no comércio? por via da entrada maciça de produtos europeus, sucedidos por produtos chineses após a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, Portugal passou a importar quase tudo e a preços que não havia uma empresa que conseguisse bater. A partir do fim dos anos 90, assistiu-se à crescente desindustrialização do país nos têxteis, na pesca, na agricultura, no calçado. Ineficazes, e por causa da forma como as leis operam em Portugal, as empresas não faliam: vegetavam numa longa, infindável agonia. A forma de combate normal a um mercado de trabalho insuportavelmente rígido e com férreas leis que protegem os empregados para além de quase qualquer lógica era convidar pessoas com 40, 50 anos de idade para a “reforma”. Cá chamam-lhes “reformas antecipadas”. Isto sem considerar as situações, amplamente divulgadas, de pessoas que, inexplicavelmente, acumulam duas, três, quatro reformas. O rol de “reformados” disparou e, para fazer face à crescente despesa, aumentaram-se mais os impostos e os descontos forçados.

E entretanto os portugueses, que se tornaram ricos, e já praticamente não tinham filhos, deixaram de fornicar ao nível mínimo para manter uma população sustentável. Para além do aparecimento das empregadas ucranianas, dos dentistas brasileiros e dos médicos angolanos (todos bem-vindos, atalhe-se) criou-se uma situação em que daqui a dez anos, cada português que trabalhe terá que sustentar com os seus impostos um reformado. Na geração do meu pai o rácio era de 10 para 1. Incapaz de atrair investimento, o governo pagou milhões à Volkswaggen e a outras empresas para abrirem fábricas em Portugal.

Entretanto, e ao mesmo tempo que a manufactura, a indústria e o comércio implodiam, e os níveis de emprego eram mantidos artificalmente, citavam-se dogmas indecifráveis para o cidadão comum: que Portugal estava-se a deslocar para uma economia de conhecimento, para uma produção com valor acrescentado, para uma nova era tecnológica, para uma economia “limpa”.

Enquanto tudo era dito, silenciosamente, o governo engordava, aumentava os impostos e a dívida pública e privada e pública explodiam.

Entra José Sócrates em cena.

Em boa verdade, quando José Sócrates ganha a sua maioria absoluta em 2004, os males que acima descrevio  já estavam basicamente em fase quase terminal.

Mas como é típico dos políticos portugueses, ele fez o que todos fazem quando confrontado com um défice medonho: simplesmente, aumentou os impostos.

E a coisa teria corrido bem mais uns anitos, não fosse a circunstância de os americanos se terem metido naquele inferno chamado “a crise do sub-prime”, que começou no final de 2007 mas que abalou o mundo no final de Setembro de 2008, quando, no espaço de duas semanas, a quase totalidade do sistema financeiro mundial, liderado pelos Estados Unidos, entrou em colapso.

A resposta do governo português foi gastar o que tinha e o que não tinha, em nome de coisas nobres como a estabilidade, a coesão social e outras coisas. No fim de 2009, a taxa de desemprego estava nos 10%, o défice do orçamento 9.3% do produto nacional bruto português e as taxas de endividamento público e privado verdadeiramente astronómicas. O incêndio da falência de dois bancos foi apagado com uma loucura em termos de dinheiro (não se sabe ainda ao certo esse velor, que é na ordem dos milhares de milhões de euros). As exportações caíram 20%.

Para além dos constantes escândalos e suspeitas e amigos duvidosos – e isso já dava panos para mangas, – o mandato de José Sócrates tem sido marcado por algumas características peculiares, algumas em contradição umas com as outras.

Por um lado, ele é o primeiro ministro das grandes obras que nunca mais se fazem: mais pontas sobre o Tejo, um novo aeroporto primeiro na Ota e depois não sei aonde no outro lado do rio junto duns campos de arroz, de auto-estradas de toda a parte para toda a parte, de uma linha de comboio cuja lógica eu simplesmente não entendo, de subsídios para assegurar “padrões mínimos de riqueza.

É o ministro das iniciativas com nomes sonantes, desde o “Plano Tecnológico” às “Novas Oportunidades”, o (caríssimo) programa do computador Magalhães, da reforma dos procedimentos administrativos do Estado, da desburocratização.

É o ministro da ecologia, das energias renováveis e limpas, do uso do aquecimento solar, dos benefícios fiscais para as renováveis, dos parques eólicos, dos carros eléctricos. Quer que Portugal seja líder mundial nesta área. Acabou de lançar a iniciativa misteriosamente apelidade de “re, new,able”.

Por outro lado, ele é suposto endireitar as contas públicas de alguma forma. Face ao rescaldo de 2008, ele praticamente não fez nada em 2009 para além de atirar dinheiro à fogueira (havia eleição em finais de Setembro, que ele venceu com maioria simples) e agora aumentou novamente os impostos, em toda a linha. Ainda quer fazer alguns dos projectos acima referidos, e basicamente não vai fazer nada com as despesas públicas, usando em vez disso uns últimos cartuchos que sobraram de 1975, vendendo (a quem, não sei, mas não deve ser a portugueses) o que resta das empresas públicas em que o estado mantém participações.

Ora, eis o paradoxo, que desdobro em dois:

1. A criação de mecanismos para a produção de energias alternativas, sendo totalmente meritória, é quase ruinosamente cara, numa altura em que em todo o mundo os combustíveis fósseis continuam a ser muito mais competitivos do que as alternativas (e Portugal fingir que não é assim é patético, mesmo adoptando medidas oportunistas e ruinosas dos cidadãos tais como artificialmente e exageradamente tributar o preço da electricidade e dos combustíveis que em Portugal são dos mais caros da Europa perante o poder de compra do consumidor português).

Portugal não só não dispõe de capital para investir neste esquema, como, mesmo que o faça, o custo por unidade de custo de energia no fim será tão caro que não há indústria que resista a estes preços. Não vão conseguir competir. Ou seja, isto de ser líder nas energias vem com um custo que terá que ser pago agora, e vai ser caro, no contexto das prioridades que se apresentam agora, para benefícios que podem representar pouco ou nada em termos de competitividade.

2. O segundo paradoxo é parcialmente ilustrado pelo quadro acima reproduzido: Portugal ainda está inserido no planeta Terra, e em que é menos que 1 por cento da população europeia e uma verdadeira insignificância em termos da população mundial, que já vai nos cerca de 6200 milhões de pessoas. Os portugueses são 10 milhões. A actual geração defronta-se com desafios titânicos em termos de pôr a casa em ordem e de competir numa economia em que os bens e capitais (ainda) fluem livremente. Um Portugal limpo e verde e ecológico é excelente – mas será competitivo, quando temos uma Ásia que ainda não tem regras e uns EUA que estão ainda a começar a discutir, vagamente, o assunto? será que o que 10 milhões de portugueses vão fazer vai afectar de alguma forma as estatísticas que acima estão indicadas? e a que custo?

Eu acho que tenho o azar de pertencer à primeira geração em muitas décadas que suspeita que a geração que vem a seguir, a dos nossos filhos, vai herdar um mundo que pode ser pior do que o que o meus pais me deixaram.

E isso é muito triste.


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ÁFRICA E O JOGO DA CHONCA EM MACAU

Quinta-feira, Março 4th, 2010

Vestígios do jogo na Etiópia

por ABM (4 de Março de 2010)

Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.

Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.

Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).

Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.

E em Macau é Chonca.

Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.

Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.


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O NUNO, O ZÉ, A CNN E O GOOGLE

Domingo, Fevereiro 28th, 2010

por ABM(28 de Fevereiro de 2010)

Isto é apenas uma memória domingueira.

Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.

Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).

Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.

Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.

Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.

Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.

Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.

As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.

E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.

Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.

Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.

Pois afinal nós éramos ricos. Não?

Foi uma festa.

Só que ninguém estava a pagar a conta.

Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.

A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.

Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.

Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.

Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.

Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.

Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.

Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.

Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.

Nós temos o Maschamba.

Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.

Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.

Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.

Um bom domingo a todos.


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A Mensagem de Avatar

Quarta-feira, Dezembro 23rd, 2009

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por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.


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Best New Song

Sexta-feira, Dezembro 11th, 2009

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.


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Incongruências climáticas

Terça-feira, Dezembro 8th, 2009

(por AL confusa e indignada) –

Começou ontem na Dinamarca a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas rodeada, como de costume, pelo circo armado pela putativa sociedade civil. Não querendo perder o comboio da indústria da pobreza a campanha que mais se salienta é talvez a Hopenhagen, “um movimento gerado pela Associação Internacional de Publicidade representando a indústria global de publicidade em apoio das Nações Unidas”. Excuse me? Isso mesmo! Da indústria que alimenta o consumismo e que cria necessidades.  Da indústria que gera milhões em rendimentos das necessidades que criou.Para não falar das toneladas de lixo em papel que produz.

A missão da campanha é “ligar todas as pessoas, cidades e nações a Copenhaga. Dar esperança a toda a gente e criar uma plataforma de acção. Criar um movimento comunitário com o poder de influenciar a mudança.” Pressupõe-se, portanto, que é uma campanha virada para a sociedade civil com acesso a electricidade, computadores e internet; com barriga cheia e tempo nas mãos para se debruçar sobre estas questões globais, ainda que se sinta marginalmente afectada por elas. Que adira ao merchandising da campanha, porque não? Cujos fundos irão para?

Não disputo o enorme problema global que são as alterações climáticas, nem a  necessidade de este ser debatido, nem a urgência de se tomarem medidas. Nem disputo sequer o tremendo impacto que as alterações climáticas podem ter em comunidades à beira da sobrevivência; do peixe que começa a escassear porque as águas estão agora mais quentes, ou menos salgadas; das culturas que se perdem porque faltaram as chuvas, ou porque vieram chuvas a mais.

O que disputo, me indigna e confunde e me parece descabido são os cartazes da campanha, que são dois.

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Num, o rosto sublime e digno de uma mulher africana com todas as marcas que a vida lhe deu, olhar perdido no horizonte como quem não espera muito mais da Sorte. Noutro, temos um jovem asiático, bem vestido, com sapatilhas de marca, num fundo luxuriante e olhando para cima num gesto de esperança.

Indigna-me este reforço subliminar de que a pobreza é mulher e é africana. Indigna-me o uso que me parece abusivo de um rosto digno. Indigna-me o uso sistemático de África para ilustrar desgraças e de asiáticos para ilustrar esperança ou potenciais soluções. Confunde-me que ambos tenham sido usados e disseminados sem que objecções se tivessem levantado dos que clamam representar e defender os mais vulneráveis; daqueles que os querem proteger de todas as formas de exploração. A Vergonha? Essa não tem cara porque há muito que se perdeu….


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(Des)Armamento?

Sábado, Dezembro 5th, 2009

(por AL em tom de esperança) –

Finalmente ontem, no que é o culminar de um processo de décadas, 153 países, incluindo os principais produtores de armas, acordaram nas Nações Unidas um calendário para um Arms Trade Treaty, que controle as transferências de armas convencionais. Dezanove países abstiveram-se (Arábia Saudita, Bahrein, Bielorrússia, Qatar, China, Cuba, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Índia, Irão, Kuwait, Líbia, Nicarágua, Paquistão, Rússia, Sudão, Síria e Venezuela) e um único país – o Zimbabwe (que surpresa!) – votou contra.

Trata-se de uma resolução importante uma vez que quase todos os esforços desenvolvidos até agora no controle de armas a nível mundial têm sido feitos a jusante, colocando o ónus do controle não em quem produz as armas mas sim em quem sofre com a sua proliferação.

Para os leitores da maschamba terem uma ideia da dimensão do problema, vou somente referir que as exportações legais de armas ligeiras ronda os 5 biliões de dólares (biliões americanos que são milhões de milhão) e o mercado ilegal das mesmas se situa entre os 2 e 10 biliões de dólares. Calcula-se ainda que existam 875 milhões de armas ligeiras a nível mundial e que as armas causam mais de 300.000 mortes e de 1 milhão de feridos por ano.

Aqui fica agora um pouco de advocacia e não vos vou incomodar mais com este assunto que tão perto fica do meu coração. Contra os canhões lutar, lutar!


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Big Brother in Mozambique (Mano Velho [?] em MoÇambique)

Sábado, Novembro 28th, 2009

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A Cara de Moçambique no Big Brother Africa em entrevista no Moz Culture (assim, em inglês no título, em português nos textos). Não fazia a mínima ideia de que “Moçambique” já havia chegado a esta modernidade. Global, claro. Interessante, para além da participação do jovem neste evento do neo-pan-africanismo, é o facto de ser divulgado na imprensa dedicada à “cultura e desporto”: será desporto? Qual, o radical?

Mas o realmente interessante, aquilo que denota o novo olho (donde novos conceitos), surge assim: perguntado sobre Das experiências vividas no programa qual é o conselho que deixa aos futuros candidatos a participantes? responde: “Deixe-me dizer a todos jovens moçambicanos “ para pensarem grande” é preciso que os artistas, desportistas e jovens em geral pensem em “furar” fronteiras para difundir as suas habilidades nas mais diversas áreas.” A lógica que apreendeu, que é mediaticamente reproduzida, é cristalina. “Estar” no espectáculo real televisivo é estar no mundo artístico (e desportivo?). Daí os conselhos aos “colegas”.

jpt


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O Império dos Alimentos

Quarta-feira, Novembro 25th, 2009

(por AL com encenação da amiga Ana Lisa em 24 Nov 2009) –

Durante anos e anos, consultores de nacionalidades ocidentais diversas com quem tive o prazer (ou desprazer) de me cruzar em Africa acabavam invariavelmente por me perguntar que obsessão seria esta que os Africanos tinham pela posse da terra. De início pensei estarem eles a referir-se à acumulação de terra por parte de elites, como se tem assistido em diversos países da África Austral. Mas não, incluídos nesta “obsessão pela posse da terra” estariam igualmente incluídos os milhões de agricultores de subsistência que pelo continente abundam. A mim, que até penso conhecer alguma da cultura africana e que nunca me tinha ocorrido classificar como obsessão o desejo legítimo de querer possuir o garante da nossa sobrevivência, esta pergunta sempre me inquietou. E durante anos me perguntei porque razão continuávamos nós na Europa a produzir arroz ou beterraba açucareira, competindo assim com países em vias de desenvolvimento cuja vantagem comparativa seria exactamente essa – a capacidade de produzir estes mesmos produtos em excedente, permitindo assim a exportação dos mesmos e a geração de rendimentos nacionais. Porque inundávamos nós – ocidentais ricos – o mercado do açúcar ou do algodão, cuja produção mecanizada nos nossos países poucos empregos criava, fazendo assim baixar os preços mundiais e, consequentemente, o rendimento de colheitas que nos países em desenvolvimento tanto emprego criavam? Porque subsidiávamos nós a exportação de leite em pó para países como o Ghana ou o Mali, onde este acabava por ser mais barato que o bom leite da vaquinha que o pobre do produtor local até tinha comprado com um subsídiozito ocidental, inserido num qualquer esquema de combate à pobreza e de “empowerment” local, acabando assim por roubar o magro mercado ao homem, levando-o à falência?

Até que aqui há uns dois ou três anos uma qualquer greve em França, creio, criou um bloqueio tal na Europa que em Portugal começaram a faltar alimentos básicos. Foi então que a ficha caiu e o conceito de segurança alimentar, que até ali usara tão abundantemente num contexto de desenvolvimento, se iluminou nestes meus neurónios deformados por uma vida de relativo conforto e abundância. E foi esta a minha epifania da auto-suficiência alimentar.

Temos falado aqui na maschamba sobre as guerras do futuro, como se lutarão, o que as despoletará e se a corrida ao armamento teria ou não sido já iniciada. O artigo que despoletou este post parece-me bem ilustrativo do que aqui temos vindo a discutir. Talvez a terra, os alimentos transgénicos, as sementes melhoradas e afins sejam algumas dessas armas e, se assim for, a corrida ao armamento há já muito que se iniciou!

Sobre uso e posse de terra em Africa


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China e África: A Análise de Uma Relação

Segunda-feira, Novembro 16th, 2009

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Por ABM (Cascais, 16 de Novembro de 2009)

Loro Horta, um Visiting Fellow numa Universidade em Singapura, publicou recentemente, no Centro para o Estudo da Globalização da Universidade norte-americana de Yale, um comentário, baseado numa série de entrevistas e visitas que fez no continente, sobre a percepção que os africanos tinham da quase súbita atenção dada pela China às suas relações económicas e políticas com África.

Refira-se ainda que Loro, um académico e consultor, é timorense e o filho de José Ramos Horta e Ana Pessoa, respectiva e actualmente o Presidente e a Procuradora Geral do único país da Ásia que tem esta língua como oficial. Ana Pessoa viveu exilada vários anos em Moçambique durante a ocupação indonésia da sua terra e terá trabalhado em Moçambique nos tribunais.

A conclusão de Loro sobre o assunto é que há actualmente em África – com nuances variando de país para país – duas percepções muito claras mas quase diametralmente opostas em relação à presença, investimentos e forma de estar dos chineses no continente.

Por um lado, as elites em geral favorecem e vêm com bons olhos essa presença, que preenche uma importante lacuna em matéria de investimentos e importação de conhecimentos (know-how), especialmente numa altura em que, quando se sentia uma maior pressão para desenvolver, os países e as empresas ocidentais não só diminuíram o seu empenho no desenvolvimento e nos negócios em África, como ainda dificultaram o processo interligando aos donativos e investimentos todo um conjunto de imposições, desde reformas políticas e administrativas à prática de políticas humanitárias e ambientais as quais são frequentemente percepcionadas como neo-colonialismo ou interferência com as suas soberanias. Sendo conhecido que a China tem-se demonstrado quase ostensivamente blasé em termos dessas questões.

Pelo contrário, o modelo de desenvolvimento económico e social chinês, baseado num dirigismo algo rígido do PC Chinês (Loro chama-lhe em inglês “China’s model of a strong government”) é visto em muitas capitais africanas como uma tentação, senão uma inspiração, especialmente se se tiver em conta aquilo que vêm como a imposição “neo-colonialista” do modelo democrático-liberal ocidental por parte dos investidores e doadores que, reclamam, não funciona na perfeição em África.

Dos investimentos Chineses, alguns em condições particularmente favoráveis e em projectos de infra-estruturas e na agricultura (onde os países ocidentais não investem) resultam ainda parcerias muito interessantes que ajudam essas elites a fazer negócios e assim enriquecer.

Por outro lado, reporta Loro, as classes sociais menos abastadas nesses países vêm muito desfavoravelmente essa presença, a bordejar no racismo anti-asiático puro e duro, principalmente porque invariavelmente o investimento originado na China vem acompanhado de milhares de trabalhadores não especializados (frequentemente em condições miseráveis) para executar os projectos, logo não oferecendo trabalho à mão de obra local e em contraste flagrante com nalguns casos estritas quotas em termos do número de estrangeiros que podem trabalhar numa empresa ou numa empreitada (veja-se os casos em Moçambique e Angola, países que Loro conhece e refere especificamente e em que contrasta esta forma de estar com a dos portugueses, sujeitos ao total cumprimento das leis que limitam a presença de nacionais seus nos projectos).

Adicionalmente, o investimento chinês é também acompanhado por um abrir de portas dos países (visto mais como uma invasão) de pequenos e médios comerciantes, a maioria deles relativamente pobres, que trazem milhares de produtos a preços imbatíveis, competindo contra, e ameaçando, o pequeno e médio comércio local, que é absolutamente crucial para a sobrevivência de milhares e milhares de famílias africanas.

Os chineses tendem ainda a viver isolados do resto da população local e nem sempre seguem as melhores práticas ambientais nos projectos que patrocinam, provocando desconfiança na população e a hostilidade dos grupos ambientalistas.

Loro termina o seu artigo recomendando alguma reflexão sobre estas tendências a ambos os lados e o seu impacto na relação China-África e citando um anterior ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano que não identificou, que em relação à China fez o seguinte comentário: “No fim do dia, é a nossa responsabilidade. Os chineses, como quaisquer outros, têm os seus interesses e extorquirão de nós (o termo usado em inglês é mais violento: “they will plunder us”) aquilo que conseguirem até onde permitirmos. O futuro de África estã nas nossas mãos, tal como sempre tem estado. Deixemos de culpar os outros e de esperar que os outros tenham pena de nós”.


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