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Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)

E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pos-voltairiano.A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as furias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (…) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparavel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)

*No texto traduzido “aplicarmos”, mas presumo que seja gralha

George Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] - atente-se na data da edicao original.

“A condição de monoglota é uma obsessão romântica. Herder e Hamann acreditavam que cada um de nós tem as raízes no sangue e nos ossos de uma só língua. O que é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.” (137)

“Para a arraia-míuda como a minha, ser poliglota é uma espécie de limite. É mais do que evidente que existem graus de à-vontade natural, de interioridade … que me serão para sempre inacessíveis. Por outro lado ser poliglota é uma riqueza ilimitada: é uma janela aberta que me permite olhar múltiplas paisagens!” (139)

“Ao contrário dos psicólogos e dos sociólogos do Reader’s Digest, que gostariam de nos fazer crer que educar as crianças em várias línguas é uma ocasião de esquizofrenia, sei na minha carne que isso é uma mentira absoluta, que as várias línguas são a promessa de uma profusa riqueza de experiência humana e, talvez, de sobrevivência, quando nos vemos reduzidos à fuga. (…) A vida é maravilhosamente diferente quando se muda de língua …” (140)

“Grosso modo, a partir da década de 1890, começou a desenvolver-se uma grande literatura poliglota. Oscar Wilde, que escreveu a sua Salomé em francês, terá sido uma das figuras mais significativas de toda a literatura moderna. A extraterritorialidade do irlandês relativamente ao inglês é um aspecto decisivo. Não sabemos em eu língua(s) Beckett compunha. Nunca falava disso. Borges é poliglota. Repete incessantemente que está mais perto do inglês do que do espanhol. Acima de tudo, há Nabokov: o francês, o russo, o inglês e o anglo-americano, que é ainda outra coisa. Os romances anglo-ingleses, como a Verdadeira Vida de Sebastian Knight e Convite Para Uma Degolação, são muito diferentes, digamos, de Lolita. Nele há, pois, uma comutação quádrupla, ou talvez anda mais do que isso. O maior livro de poesia inglesa, diz-se muitas vezes, é o Milton de 1667, que mistura o hebraico, o grego, o italiano, o latim e o inglês” (139)

George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

Escrita feminina

P: E quanto ao dualismo da escrita masculina por oposição à escrita feminina.?G.S. Nas melhores mulheres escritoras, está ausente. Seria impossível dizer onde está a “feminidade” numa página anónima de George Eliot ou de George Sand; talvez se deixe vagamente entrever nas Bronte; mas decerto que não em Jane Austen, que era muito simplesmente melhor do que qualquer outro escritor do sexo masculino. Não diferente, mas melhor: mais precisa, incisiva, cheia de humor, de espírito, irónica, condensada. Hoje as coisas são diferentes. Hoje, a questão deu lugar a uma causa, a uma vontade de desforra, a uma esperança eminentemente consciente. Há diferenças importantes, tenho a certeza. O que é muito triste, porque nunca há senão uma escrita boa e uma escrita má.” (141)

George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

Tardia nota a propósito do 2ª Encontro de Escritores Hispano-Africanos, aqui realizado em Novembro, uma preguiçosa organização que colocou seis escritores e alguns académicos, e os persistentes assistentes, a discutirem durante quatro dias o assunto “Escrita Feminina”.

Mais despropósitos

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Sei que não está na moda afirmar o que se segue, mas a procura abnegada da verdade abstracta é culturalmente específica: a sua história é relativamente curta, e possui uma geografia muito própria“.

(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d’Água, 2003 [1974], p. 71)

A despropósito?

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A impressão ocidental de insucesso, de potencial caos sociopolítico, conduziu igualmente a uma reacção contra o centralismo étnico e cultural que caracteriza o pensamento europeu e anglo-saxão … A ideia de que a civilização ocidental é superior a todas as outras e de que a filosofia, ciência e instituições políticas ocidentais estão manifestamente destinadas a conduzir e transformar o globo deixou de ser uma evidência. Muitos ocidentais, especialmente os jovens, acham-na odiosa. Aterrados pela loucura das guerras imperialistas e irados com a devastação ecológica causada pela tecnologia ocidental, hippies e freaks, militantes libertários e vagabundos místicos viraram-se para outras culturas. São as tradições da Ásia, dos índios americanos ou dos africanos negros que os atraem. É entre esses povos que encontram as qualidades de dignidade, solidariedade comunal, invenção mitológica e envolvimento com as ordens vegetais e animais que o homem ocidental perdeu ou erradicou brutalmente. Esta busca da inocência contém muitas vezes um impulso genuíno de reparação. Onde o pai colonial massacrou e explorou, o filho hippie procurar preservar ou compensar.”

(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d’Água, 2003 [1974], pp. 66-67)

Sonho Colonial

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“A Europa é feita de cafetarias, de cafés … Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa

[G. Steiner, A Ideia de Europa, Gradiva, 2005]

Satanás

Surpreendentemente, o Satanás de Job sugere a figura do crítico. Mantém com a Divindade essa intimidade marcada de azedume que é demasiadas vezes a dos críticos com os artistas. Talvez o seu papel tenha sido determinante: talvez Satanás tenha impelido Deus a criar. “Mostra-me”, troveja o crítico e teorizador. E assim que a criação se desdobra diante dos seus olhos, Satanás começa a procurar-lhe os defeitos. Ironiza sobre a auto-satisfação do Criador, sobre o seu “muito bom“.”

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d’Água, p. 61]

Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da crição, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.”

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d’Água]

Walter Benjamim sonhava publicar um livro inteiramente composto de citações. Pelo meu lado, falta-me a originalidade necessária para tanto.”

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Lisboa, Relógio d’Água]