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Escrita feminina

P: E quanto ao dualismo da escrita masculina por oposição à escrita feminina.?G.S. Nas melhores mulheres escritoras, está ausente. Seria impossível dizer onde está a “feminidade” numa página anónima de George Eliot ou de George Sand; talvez se deixe vagamente entrever nas Bronte; mas decerto que não em Jane Austen, que era muito simplesmente melhor do que qualquer outro escritor do sexo masculino. Não diferente, mas melhor: mais precisa, incisiva, cheia de humor, de espírito, irónica, condensada. Hoje as coisas são diferentes. Hoje, a questão deu lugar a uma causa, a uma vontade de desforra, a uma esperança eminentemente consciente. Há diferenças importantes, tenho a certeza. O que é muito triste, porque nunca há senão uma escrita boa e uma escrita má.” (141)

George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

Tardia nota a propósito do 2ª Encontro de Escritores Hispano-Africanos, aqui realizado em Novembro, uma preguiçosa organização que colocou seis escritores e alguns académicos, e os persistentes assistentes, a discutirem durante quatro dias o assunto “Escrita Feminina”.

Que não duvideis, por um lado, de que há espíritos do género masculino, mas duvideis, por outro lado, que os haja do género feminino mais parece fantasia do que dúvida razoável. E se for essa a vossa opinião, ela seria mais conforme, afigura-se-me, à imaginação do vulgar, que estabeleceu que Deus é do género masculino e não do feminino.”

[Baruch de Espinosa, “Carta LIV, Setembro de 1674″, Baruch de Espinoza, Hugo Boxel, Sobre Espectros e Espíritos, Lisboa, Teorema, 2005, pp. 25-26]

Regras

No penúltimo Savana Machado da Graça [que faz o favor de ser leitor do Ma-schamba, e que lhe deu um filão em breve a ser explorado] narrava um encontro em que esteve, nos arredores de Maputo. Incomodado.
Tinha chegado à reunião, a sala ainda não estava cheia, cadeiras várias por ocupar, mulheres e homens à espera do início. À medida que se aproximava a sessão mais participantes iam chegando, as mulheres levantando-se para ceder o lugar aos homens e indo-se sentar no chão. Incomodado, e lamentando a situação, um seu parceiro logo comentou que se fosse nalgum país europeu o contrário seria a regra, os homens oferecendo as cadeiras às mulheres. A retórica do texto dá-nos esta como a situação correcta. E a sua conclusão também, utilizando o evento para uma defesa das mulheres.
Não pude deixar passar. Porque será positivo que os homens cedam o bom lugar às mulheres, porque será negativo o inverso? Não há absolutamente razão nenhuma para dizer isso. Apenas o costume burguês europeu…nem em tanto campo isso acontece(ia). Costume diferente do que ali se encontra. O incómodo, que é recorrente, não passa de puro preconceito. Sem razão, ainda que nós nos levantemos, claro está.
Ah, quantas vezes fui mal-criado, fazendo questão que as mulheres passem à minha frente…que rudeza, a fazer hesitações, a desfazer em sorrisos desculpabilizadores.
Em Roma sê romano. Veja-se lá onde se está e sentemo-nos ou levantemo-nos consoante…que não é por isso que as coisas mudam para melhor.
Adenda: pois o Machado da Graça veio até cá. E deixou assim,
Ao contrário do que deduzes da minha retórica, a minha posição não é a que citei no meu artigo. Para te dizer a verdade nem sei se é a da pessoa que fez o comentário, em termos mais factuais e menos opinativos.
Não tenho por hábito levantar-me para dar lugar a senhoras só pelo facto de serem do sexo feminino. Acho que têm tão boas pernas como eu. Levanto-me quando é para dar o lugar a alguém que, por qualquer razão, está diminuido na sua capacidade para estar em pé. Acho que a igualdade entre os sexos passa também por aí.
Uma das minhas passadas companheiras de vida achava, com toda a razão, que eu devia partilhar das tarefas domésticas. O que passei a fazer. Isto ficou prejudicado no dia em que ela chegou a casa e me informou que o carro tinha um pneu furado e estava na praça X onde eu deveria ir trocar o pneu e trazer o carro para casa.
Mas que fazer
?”
O teste do pneu, universal, é terrível. Concordo em absoluto. Bem, eu continuo a levantar-me, troco os pneus quando tem que ser. Mas, confesso, a ser um traste na cozinha.
Abraço.