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Fotografias de vida

Sergio Niassa

[Sérgio Santimano, Macalange, Niassa oriental, 2001]

Todos teremos imagens de vida. E nessas, talvez, fotografias de vida. Esta é uma das fotografias da minha vida. Ao revê-la exposta, agora na Bienal TDM 2009, logo a paixão disse “presente”. É paixão, não tem qualquer argumentação que a ancore. “Bigger than life” dizia-se do cinema quando ele o era, “Deeper than life” direi eu desta “(Mulher de) Macalange” encontrada no seu quotidiano percurso ao celeiro pelo Sérgio Santimano.

A fotografia moçambicana produziu alguns símbolos – e nesse sentido produziu a nação, construíu a identidade por via simbólica. Para cada era haverá um ou outro ícone particular: “os lavabos” e o “ferro em brasa” de Ricardo Rangel, o “banho dos soldados” de Kok Nam (que abaixo deixo), são fotos que considero particularmente relevantes. E se Rangel foi um grande reporter-narrador de Moçambique já a Kok Nam vejo-o, fundamentalmente, como um pintor de ícones – algo que obrigará à recolha da sua obra em livro, o que tarda -, bem adequado à época do seu apogeu fotógrafo, a do voluntarismo pós-independência.

Kok Banho
[Kok Nam, "Sem título, Rio Révue, Manica, 1981". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Ricardo Ferro em Brasa
[Ricardo Rangel, (rapaz marcado com ferro). Reproduzida em Ricardo Rangel Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004]

Ricardo Lavabos
[Ricardo Rangel, "Casas de Banho. Onde só o negro podia ser criado e só o branco era um homem, Lourenço Marques, 1957". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Mas para mim, indivíduo aqui imigrado, há 3 fotografias moçambicanas que me são cruciais, que me construíram a auto-imagem, meio auto-reconhecimento, meio auto-embelezamento: uma “Aldeia Comunal” de Kok Nam (que vi na sua exposição individual da Photofesta, e que nunca consegui recuperar), a crucial Apetecido Quintal de Caniço (reproduzida abaixo) de Rangel, e esta “Macalange“. Um trio que faz o “meu” Moçambique. Ou melhor, me faz em Moçambique.

Ricardo Apetecido Quintal de Caniço
[Ricardo Rangel, "Apetecido Quintal de Caniço". Reproduzida em Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite, Marimbique, 2004]

A (Mulher de)”Macalange” de Sérgio Santimano pertence a uma exposição individual dedicada à província do Niassa, que tem sido apresentada de forma itinerante. E está reproduzida – é apenas assim que a possuo – no livro “Terra Incógnita“, publicado na Suécia em 2006, contendo fotografias de Sérgio Santimano e textos de Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Bosse Hammarstrom, Henning Mankell

 Sergio Niassa Capa

É fruto de um longo trabalho de pesquisa, repetidas viagens à província. Um projecto possibilitado pelo apoio da “cooperação” sueca, penso que inscrito num esforço de testemunhar o papel desenvolvimentista que esta teve (e penso ainda ter) na província - o que marcará o livro, que tem como ponto fraco algum excesso de imagens (algumas pobres páginas com oito fotos cada), talvez no intuito de mostrar trabalho. Do patrocinador, do fotógrafo.

Mas esse é ponto fraco. De resto o livro é bem apetecível. Pois se “Fotografar é assumir uma responsabilidade. As imagens que ficam para trás são rastos importantes para o futuro.” (Mankell) o que Santimano deixa, responsavelmente, não é apenas um conjunto de postais sobre a beleza natural do Niassa (ainda que aqui e ali ela surja, avassaladora). É o mundo humano, feito do camponês, como o espantoso “homem emergindo do rio, que não é Narciso” (Patraquim?). Mas também, e nisso rompendo com  o constante e atávico olhar exoticizador dos fotógrafos em bolandas, com um mergulho no trabalho industrial do Niassa, de trazer a sua densidade, beleza. Essa a ”responsabilidade” do Sérgio Santimano, a de afastar sem hesitação a folclorização. Do Niassa, do mundo. E, só assim, de o representar.

Também por isso, talvez por isso, toda a minha paixão por esta (Mulher de)”Macalange“.

jpt

Ricardo Rangel, por Alexandra Prado Coelho

Um texto sobre Ricardo Rangel, publicado no jornal Público.

Ricardo Rangel, o fotógrafo que ofereceu um espelho aos moçambicanos

Por Alexandra Prado Coelho

1924-2009

Os amigos disseram-lhe adeus ao som de Charlie Parker, como ele teria gostado. O jazz era, a seguir à fotografia, a grande paixão de Ricardo Rangel, o decano dos fotojornalistas moçambicanos, que morreu aos 85 anos. Desapareceu o homem com “um clique mágico”.

Um dia, numa conversa de café, o fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel ouviu falar de um miúdo negro que era pastor e trabalhava para um criador de gado português que, como castigo por ele ter perdido um animal, o tinha marcado na testa com o mesmo ferro em brasa que usava para marcar o gado. Rangel pegou no carro e, juntamente com Raul Alves Calane da Silva, companheiro de redacção, pôs-se a caminho para a zona de Changalane, onde lhe tinham dito que o miúdo vivia. Procurou-o durante dois dias até finalmente o encontrar. Chamavam-lhe “o oito”, por causa dessa marca, em forma de oito deitado. Rangel fotografou-o – os olhos de uma tristeza infinita, e a marca do patrão gravada na testa. “O indivíduo [o português] queria dar-nos um tiro”, recorda Calane da Silva, ao telefone com o P2 a partir de Maputo, a capital moçambicana, poucas horas depois do funeral do seu grande amigo e companheiro de aventuras desse tempo em que perseguiam as notícias “até às últimas consequências, mesmo com risco de vida”.

Ricardo Rangel morreu no dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de Estado. A última despedida dos amigos foi como ele tinha pedido: “ao som de Charlie Parker”, conta Calane da Silva. “O Ricardo tinha um clique mágico”, continua o amigo. “Estava sempre com os olhos atentíssimos e aliava o fotojornalismo à arte fotográfica.” Gostava de sair para a rua e fotografar, mesmo sabendo que no Moçambique pré-independência a censura não iria deixar passar a grande maioria das imagens. “Ele guardava-as porque tinha o sentido da História. Ia-as recolhendo, sabendo que um dia seriam a imagem histórica do que aconteceu.”Ia registando um país.

E fazia-o “com uma consciência política muito mais marcada que o resto do pessoal”, sublinha ao P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e companheiro de trabalho de Rangel em várias publicações. “Ele já era anticolonial nos anos 40. Teve sempre muito a noção da exploração do homem pelo homem.”

A Rua Araújo

Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar finalmente aos jornais, tornando-se “foto-repórter” do Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o Notícias. “A fotografia sempre foi para mim uma coisa mágica e comecei no laboratório, a varrer o laboratório. Andei anos nisso”, confidenciou a Luís Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO. “Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo assim, quase às escondidas.”Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção que, com a “Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios ingénuos”, a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço Marques, relata Patraquim. “No começo não sabia porque tirava certas fotos”, confessa-lhe Rangel. “As pessoas diziam-me: ‘Tu não és preto, porque é que andas a tirar fotografias a pretos?’ Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o ‘indígena’. Tirei muitas fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os negativos.”

Mais tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e 70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. “A Rua Araújo era impublicável”, conta Rangel nessa entrevista. “Muitas das minhas chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que, ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse é material que me pertence.”Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens. “Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo.”

A paixão pelo jazz.

Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam, lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página chamada Objectiva, “que seria como que o editorial dos repórteres fotográficos”, e do peso que a fotografia conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna Rangel “fez grandes reportagens nos subúrbios, quando ninguém pegava nos subúrbios”, e como, apesar de “não ser um fotógrafo oficial”, fotografou três chefes de Estado depois da independência. “Viveu tudo, deixou uma grande obra, deixou a história de Moçambique registada.”Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço começou a ter um contacto mais intenso com ele. “Partilhávamos visões sobre o colonialismo e pertencíamos ao mesmo grupo”, conta ao P2. Mas foi depois da independência, na época em que Cabaço se tornou ministro da Informação, que “a amizade se consolidou”, e quando decidiu criar “o Domingo [em 1981], que era um jornal muito gráfico, muito ligado à vida quotidiana”, o ministro achou que “a pessoa óbvia” para o dirigir era Rangel. “Era a primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção de um jornal”, sublinha. Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma Cabaço. “Deu-nos uma grande lição de alegria de viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação com as injustiças.” Amava a fotografia e amava profundamente o jazz. “O jazz tinha raízes na afirmação africana, na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento fundamental para compreender as várias dimensões através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo”, explica o antigo ministro. Até à chegada de Rangel, “a fotografia em Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como complemento”. Ele “traz o colonizado para sujeito do processo de registo, na sua dimensão de dominado e explorado”, e assim torna-se “um construtor privilegiado do imaginário anticolonial”. Era nas imagens dele que o novo país se podia finalmente ver ao espelho.

E esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel mostrou na primeira exposição que fez em Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal português, brancos de meia idade, transportando cimento à cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que “os colonos também podem ser gente como nós”. Quando, em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um mundo e o outro não eram assim tão grandes. “Era também uma pedagogia”, explica Calane da Silva.

Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias gerações de fotógrafos moçambicanos aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano, hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no Domingo. E não esquece o muito que aprendeu. Não esquece, por exemplo, o dia em que, encarregue de fazer fotos para um trabalho sobre o amor, ouviu as críticas de Rangel. “‘Sérgio’, disse ele, ‘isto não é amor. Sabes o que é fome?’, perguntou. E de repente meteu a fotografia na boca e começou a comê-la. ‘Sabes o que é dançar?’ E, sem eu ter tempo de reagir, agarrou-me e começou a dançar. Percebi o que ele queria dizer: a fotografia não pode ser meios-termos, meio gás.” Mais tarde, já depois de viver na Suécia, encontrava-se às vezes com Rangel e falava-lhe nos seus projectos fotográficos. “Ele brincava com isso. ‘Tu tens sempre projectos’, dizia. ‘Eu nunca tive nenhum projecto. Acho que um dia também vou ter que arranjar um projecto.’

“Santimano e todos os outros que aprenderam com ele “partilham a mesma visão humanista”, escreve Simon Njami, director da bienal de fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004. Rangel “ensinou-lhes a importância de uma interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um auto-retrato”.

Apetecido Quintal de Caniço

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Ricardo Rangel

Ricardo Rangel. Homenagem de Amigos

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Pioneiro do jornalismo fotográfico Moçambique, olhar único na sua mescla de paixão e ironia, há pelo menos uma década que Ricardo Rangel vem assistindo a uma sucessão de homenagens oficiais. Mais que merecidas, e duplamente pois Rangel não as troca por particular vénia, mantendo-se dono daquele tom jovial, corrosivo, que convoca os circundantes. A pensarem, nisso que lhe são decerto homenagens privadas quotidianas. Que me lembre desde que alguém em Portugal se lembrou de o condecorar como Oficial da Ordem do Infante (1998) seguiram-se a moçambicana Nanchingwea e a francesa Cavaleiro das Artes e Letras (2007). Agora a Universidade Eduardo Mondlane atribuíu-lhe o doutoramento honoris causa, coincidindo com a evocação dos seus 50 anos de actividade profissional como fotógrafo. Efeméride saudada com uma exposição retrospectiva apresentada no Centro Cultural Franco-Moçambicano, “Ricardo Rangel. História, histórias … 50 Anos de fotojornalismo em Moçambique” – os franceses atentos a não se ficarem pela condecoração, claro -, honesta conjugação de meia centena de fotos comissariada por Marie Lelièvre e produzida pelo próprio “Franco”.

Poderia esta exposição ter mais brilho? Ter originado um catálogo e texto enquadrador? Com toda a certeza, mas decerto que os meios não abundavam e essa certeza sublinha-lhe os méritos.

Mas neste cortejo particular relevo terá esta recente colectânea de textos, explicitamente deixada como “Ricardo Rangel. Homenagem de Amigos” (Ndjira, 2008), obra organizada por Ramiro Oliveira, integrando reproduções de quadros sobre suas fotografias da autoria do seu velho companheiro de há quarenta anos, o pintor José Pádua. A essas se juntam 12 textos sobre o fotógrafo, desde uma nota de Ricardo Saavedra sobre uma exposição de 1969 até ao texto de António Pinto de Abreu sobre este livro, memória de quatro décadas de olhares sobre Rangel que incluem autores como António Sopa, Calane da Silva, Luís Bernardo Honwana, Mia Couto, Nelson Saúte e outros. Gente rendida, anos a fio, a essas lentes de carinho que foram fazendo um longo “álbum de crítica aos poderes prostituintes … [no qual] reúnes a tua consciente desobediência, teu cívico inconformismo, a tua indocilidade e a tua infracção às regras do jogo … deles.”, como disse José Craveirinha (14-15).

Exposição Retrospectiva de Ricardo Rangel

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A partir de 21 de Outubro, no Franco-Moçambicano, um mês para a retrospectiva de Ricardo Rangel. A ver. E a esperar que a produção seja esmerada – digo-o pois o sítio não é bom para exposições, para além do habitual descuido nas montagens e da tradição da inexistência de materiais complementares às exposições. Num caso destes exigir-se-á um verdadeiro catálogo, ainda para mais.

É de antever que estes “50 anos” tenham surgido para serem integradas na Photofesta – infelizmente cancelada. Se assim foi será de esperar um cuidado particular, uma verdadeira produção, aquilo que Ricardo Rangel merece. Nesse caso será, indiscutivelmente, o acontecimento do ano.

Rangel

No Caminhos da Memória nota sobre “Ferro em Brasa”, o filme de Licínio de Azevedo sobre Ricardo Rangel.

Um trio do Pão Nosso de Cada Noite



Boa notícia é regressar a Maputo e encontrar o precioso “Pão Nosso de Cada Noite” de Ricardo Rangel (edição Marimbique) nas livrarias, e distribuído com quantidade.

Carlos Cardoso

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[Carlos Cardoso e o filho, Ibo. Fotografia Ricardo Rangel.
Reproduzido de Paul Fauvet e Marcelo Mosse, É Proibido Pôr Algemas Nas Palavras. Carlos Cardoso e a Revolução Moçambicana, Maputo, Ndjira, 2003]

Cumprem-se hoje 5 anos (já!) do assassinato de Carlos Cardoso. Às 18 h. haverá homenagem no local do atentado. Até logo.

Chez Rangel

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Estabelecido num edifícios mais bonitos da cidade, a estação dos CFM, e da gare fazendo bela esplanada, aí está o novo clube de jazz em Maputo: Chez Rangel, casa aberta pela união do velho Rangel com o velho Quadros. Música gravada à semana, ao vivo nas matinées de sábado – essas que já vão demorando até começar domingo, coisas da sua qualidade e do bom ambiente. Estes a misturarem-se e a fazerem-se.

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Vai ganhando, ou seja vai ficando. E, nada pormenor, pormaior até, o menu de balcão em processo de assumir-se. Registo-lhe agora a dignidade, extrema, do inusitado recuperar do feijão-jugo, ali aperitivo. Vénia a quem assim do tradicional faz original, escapando ao aqui constante esquecimento do que é local.

A muito animar-se a casa nestes seus dois meses. Já frequência de gentes misturadas, numa faixa entre os dos late 20s e os já nos early 80s. Assim não vai mal. Recomendável. E ainda para mais porque as chuvas hão-de chegar, a acabar este frio e a fazer mais esplanada.

Aqui o bloguista cede a si próprio deixando-se publicitar ter sido o 1º cliente da casa a pagar uma bebida – é estatuto, acho.

Livros moçambicanos, modo de adquirir alhures (cont.)

A aquisição em Portugal de livros moçambicanos (abaixo abordada) é efectivamente possível via Escolar Editora. O Nuno Ferreira abaixo comentou que já recebeu livros por esta via, indo hoje buscar o “Pão Nosso de Cada Noite” de Ricardo Rangel que, assim denotando muito bom gosto, encomendou.

Assim fica o aviso, com prova empírica, do como obter os livros aqui editados. Aviso geral, e em particular para os vários interessados que via email (ou comentários) me têm questionado sobre as formas de comprar o livro do Rangel ou outros. Repito, é usar o email

servicos[o tal arroba]livraria-escolar-editora.pt

Fotografias de Bolso

Conheço-a agora, uma presumível colecção de livros de bolso com fotógrafos moçambicanos. Presumível colecção pois não sei se estão projectados novos títulos, para além destes três.

Boa edição francesa (Éditions de l’Oeil), textos em português e inglês, não deslustra quanto à impressão, bom papel, um preço muito acessível (60 mil meticais), um excelente cartão de visita dos autores. Belos objectos. A fazer esgotar.

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[Ricardo Rangel Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004; texto de Calane da Silva]

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[Mauro Pinto Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004; texto de Jean-Louis Mechali]

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[Luís Basto Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004; texto de Berry Bickle e Luís Basto]

Publicações financiadas pelo Serviço de Cooperação e de Acção Cultural da Embaixada de França em Moçambique.

E sobre esta última matéria calo-me, que de retórica em retórica, de pompa em pompa, sempre me questiono do porquê patrício.

Major Araújo Blues

Quando me chegaram as provas do livro avisei:

o “Pão Nosso de Cada Noite“, do Ricardo Rangel, está a chegar. Finalmente, décadas à espera. Saúde-se o Saúte, Nelson claro. Esse da Marimbique editora. Saúdo, invejoso, que este tão quis editar. Saúdo invejoso e grato.

São vinte anos da prostituição da Rua Araújo do porto laurentino, essa que lá continua agora Bagamoyo, capital Maputo. Sempre no Xilunguine.

(Apetecido quintal de caniço [1961])

Já o disse, não é um documento, não é história nem etnografia. E muito menos é a denúncia. É a noite, aquela vida, a muita beleza das mulheres, a muita música. E Rangel a olhar, a viver. Olhar atento, lente aberta. Lente atenta e muito olhar aberto. Que se a película é preto e branco não o é a vida. Fica um mar de companheirismo, o saber do mundo.

(As Três Marias [1970])

Rangel é desses tão raros homens do tamanho da vida. A entoar-nos este Major Araújo Blues.

[lançamento a 15 de Fevereiro, provavelmente na Mediateca do BCI, rua Joaquim Lapa, Prédio Casa Pfaff, por ocasião do 81º aniversário do autor]

Foto-Jornalismo ou Foto-Confusionismo

[Ricardo Rangel, Foto-Jornalismo ou Foto-Confusionismo, Maputo, Imprensa Universitária, 2002]

Não é um manual de Foto-Jornalismo. É um livro para aprender. Demonstrando caso a caso as idiotices na publicação jornalística das fotografias (foto-confusionismo, claro está), a ironia de Rangel – lendária e aqui quase infinita – quase resvala para o sarcasmo. Mas isso apenas porque os exemplos recolhidos são peças únicas, monumentos. Colectados em categorias elucidativas: “Foto-Aberrantismo”, “Foto-Confusionismo”, “Foto-Copulismo”, “Foto-Ilusionismo”, “Foto-Ilogismo”, “Foto-Repetitismo”, “Foto-Anti Jornalismo”, “Foto-Jornalismo”, “Foto-Esbanjismo”.

Muito presente, norteando parte do trabalho, a tentativa de transmitir aos fotógrafos e editores o valor comunicacional da fotografia. Que se basta a si própria. E nisso a luta contra a redundância da palavra escrita, da legendagem. Acompanhada do apelo (maiêutico) à inteligência do escriba quando complementar.

Deixo exemplo paradigmático:

[a legenda da foto no jornal diz: "Numa luta contra a imundície e falta de pudor, até a redundância serve neste aviso que a imagem ilustra: "É proibido mijar e fazer xixi".]

Rangel, implacável face à meta-redundância comenta: “O autor da legenda também caiu em redundância mas ficou-se pelo meio. Faltou-lhe acrescentar que a multa é de 50 000 MT e que é proibido urinar nesse lugar…” [p. 55]

Atenção, a minha transcrição não se quer redundância (supra-meta), apenas se deve a que reprodução da página do livro não ficou muito explícita, daí que é mera ajuda para olhos mais cansados]

Uma lição socrática para o (foto)jornalismo moçambicano. Mas….a palavra dos velhos já não é tão escutada como o terá sido.

Pão Nosso de Cada Noite, de Ricardo Rangel

Pão Nosso de Cada Noite


Está pronto e belo, que há alguns dias tive as provas na mão, o tão esperado (anos de espera militante) livro de Ricardo Rangel, “Pão Nosso de Cada Noite“, fotografias preto-e-branco na noite dos anos 60 e 70 da então rua Major Araújo (hoje Bagamoyo), à época coração da boémia e prostituição da cidade.

Não, não é um documento, nem história, nem etnografia, e muito menos denúncia. É a noite, aquela vida, a muita beleza das mulheres, a muita música, e Rangel a olhar, a viver.

[Uma edição Marimbique, estará à venda muito provavelmente em Janeiro, a festa será em Fevereiro].

Iluminando Vidas (II)

O excelente Janela Indiscreta ecoa a apresentação da exposição fotográfica “Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana“, na Culturgest do Porto até 9 de Dezembro.

[Também aqui referida]

Da Janela Indiscreta aproveito ainda reprodução do cartaz.

 

Iluminando Vidas

(reprodução do convite para a exposição no Museu Nacional de Etnologia, Nampula, decorrida em Maio de 2004)
Inaugurou ontem, 9 de Outubro, na Galeria Culturgest no Porto a exposição Iluminando Vidas. Fotografia Moçambicana 1950-2001. Ricardo Rangel & the Next Generation, e demorar-se-á até 12 de Dezembro.
Mais do que aconselhável. Para o apreciador de Moçambique. Para o curioso da fotografia. Vice-versa. E para os amantes de ambos.
Fotos de Rangel, Kok Nam, Rui Assubuji, Luís Basto, José Cabral, Joel Chiziane, Funcho, Alexandre Fenias, Martinho Fernando, Albino Mahumana, Fehart Vali Momade, Alfredo Mueche, Alfredo Paco, Sérgio Santimano, Naíta Ussene.

E será mais do que avisado levar para casa o livro. Moçambique. Um Moçambique de história e pessoas. Umas fotógrafas outras fotografias. Se não estiver à venda restar-vos-á a inveja.

Uma nota, nem muito lateral. Vejo que a Culturgest escolheu para o cartaz uma célebre foto de Rangel (que já aqui reproduzi).


Uma foto emblemática, simbolizando uma história que alguns continuam a querer barrar com o mel da luso-tropicalismo, da lusofonia, o que quiserem. Acima de tudo armados de essencialismos. E tudo isso desnecessário – mas isso é assunto para outros textos.

Ricardo Rangel Octogenário

Desde anteontem que Ricardo Rangel é octogenário. E quão bem ele em tal se tornou. Aqui antepassado e sempre mestre da fotografia. E também amante, divulgador e organizador do jazz em Moçambique, nunca esquecer. E a embrulhar um rumo que lhe tem sido cheio e belo vem a sua muito especial fineza e aquele humor irónico que tanto tem de implacável como de gentil. Face a ele um misto de encanto e de inveja, é o que sempre me ocorre.

Para além de tudo isso ainda a memória de ter sido ele um daqueles que inventaram a moçambicanidade, ali em remoínhos de jovem com outros poetas, Noémia de Sousa, José Craveirinha, similitudes tantas que ainda chamam quem as sublinhe. Como tão bem o fez o José Luís Cabaço, durante a bonita, jazzy e porreira festa de domingo na AMF, a lembrar que nas fotos de Rangel se tinha transformado de laurentino em moçambicano.

As fotografias, a indignação, a ironia. E assim uma incessante e inteligente luta, ainda hoje. E sempre bela.

Depois, e sem surpresa, noto que quando lhe vejo as fotos é o meu povo aquele que ele transporta.

Repetido abraço de parabéns e mais um beijo à Beatrice.

[Fotos roubadas ao "Iluminando Vidas"]