Abre hoje, 3.3., no Instituto Camões uma exposição do fotógrafo português – oriundo de Moçambique – António Leitão Marques, intitulada “Moçambique, Labirinto da Saudade“. Nada mais sei sobre o que integra (nem quanto tempo estará disponível). Mas posso presumir que valerá visitá-la. Aqui deixo duas belissimas e já antigas fotografias suas (empobrecidas nas reproduções) que possuo em livro publicado em 1997.
["Cantina no Chiúre"]
["O Padrão e o Fortim da Ilha de Moçambique"]
As fotografias foram retiradas deste livro, que contém trabalhos de vários autores entre os quais, dedicados a Moçambique, os de António Leitão Marques, Sérgio Santimano e Faizal Sheikh.
Ao lado da “Patisserie Versailles” há um Fotógrafo com estúdio aberto. Passo por lá frequentemente, a caminho do café de saco da pastelaria, único lugar onde tomo essa variante, aliás. Digamos que são hábitos antigos. Os “Estúdios Luís Soares” vão mostrando ao passante o seu trabalho que vai variando do retrato de infantes asseados com as roupas finas de Domingo, à noiva em pose relativamente estudada e iluminação adequada à circunstância, ou retratados de porte altivo ou com ar vagamente pensativo. Enfim, normalmente se tratam estes fotógrafos com algum desdém,mas aqui lhes presto devida vénia pela paciência e criatividade. Fazer do feio bonito não é tarefa de somenos.
Voltemos à rua e à montra que anuncia os “Estúdios Luís Soares”.
Devidamente emoldurada, uma foto daquilo que à 1ª vista podia ser confundido com um padrão dos descobrimentos e que, afinal, é tão somente, a imagem de uma espécie de obelisco com um galináceo no cimo. Ao lado, e igualmente emoldurado, um texto explicativo para tão bizarra imagem. Segue na íntegra.
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Historial sobre o Monumento à Galinha
Algures no norte de Moçambique, na província de Tete, a poucos quilómetros de Furacungo, capital da Região da Mucanga, onde começa um planalto que entra pela Zâmbia e o Malawi, foi construído, em pleno mato, longe de qualquer aldeia indígena, um monumento em honra das galinhas.
Esta homenagem deve-se ao facto, aliás verídico, do pessoal dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que ao chegar a esse local para aí fazer os estudos e prospecções necessários que levariam os caminhos de ferro à Zâmbia, a única coisa que encontraram para se sustentar foram as galinhas.
E, assim, esta empresa mandou o seu pessoal pelas aldeias da região com a finalidade de comprarem todas as galinhas, bem como trazerem as que encontravam no mato, para poderem se sustentar.
Foi de tal maneira a quantidade consumida que decidiram reunir todos os ossos dos galináceos, amassá-los com cimento, e erigir um monumento como gratidão às galinhas que os ajudaram a sobreviver.
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Ao mesmo tempo que agradeço a involuntária contribuição aos “Estúdios Luís Soares”, peço desculpa pela péssima qualidade da imagem obtida com a câmara manhosa do telefone.
Atrevimento óbvio de quem, a horas mortas e por involuntária insónia, aqui vem deixar um postal ilustrado de Moçambique. Desengane-se quem pensar que palmilhei o país de lés-a-lés ou sequer que conheço muito do seu território, só porque as minhas primeiras colaborações nesta “casa” são apontamentos moçambicanos. Nada disso, apenas uns rabiscos fotográficos de uma viagem demasiadamente curta com os quais tento justificar estes tempos no ma-schamba.
Desta feita,a estrela brilha desde Maputo e é o internacionalmente famoso Polana, Hotel Polana.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.
Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.
Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.
Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.
Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.
Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?
Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.
Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.
Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.
Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.
(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)
(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)
Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.
Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).
O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.
Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.
Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:
“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”
Enfim.
Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.
Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.
(The Baptistas golfing in Estoril)
No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.
Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.
(Alfredo Korda posa para la posteridad)
Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.
(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).
Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.
Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.
(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)
Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.
Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.
Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.
E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.
No café “Sol” uma exposição dedicada à Ilha de Moçambique, da autoria da fotógrafa amadora (uma belíssima e elogiosa palavra, nunca esquecer) Vânia Moreira. Vale a pena ir lá ver.
Todos teremos imagens de vida. E nessas, talvez, fotografias de vida. Esta é uma das fotografias da minha vida. Ao revê-la exposta, agora na Bienal TDM 2009, logo a paixão disse “presente”. É paixão, não tem qualquer argumentação que a ancore. “Bigger than life” dizia-se do cinema quando ele o era, “Deeper than life” direi eu desta “(Mulher de) Macalange” encontrada no seu quotidiano percurso ao celeiro pelo Sérgio Santimano.
A fotografia moçambicana produziu alguns símbolos – e nesse sentido produziu a nação, construíu a identidade por via simbólica. Para cada era haverá um ou outro ícone particular: “os lavabos” e o “ferro em brasa” de Ricardo Rangel, o “banho dos soldados” de Kok Nam (que abaixo deixo), são fotos que considero particularmente relevantes. E se Rangel foi um grande reporter-narrador de Moçambique já a Kok Nam vejo-o, fundamentalmente, como um pintor de ícones – algo que obrigará à recolha da sua obra em livro, o que tarda -, bem adequado à época do seu apogeu fotógrafo, a do voluntarismo pós-independência.
[Kok Nam, "Sem título, Rio Révue, Manica, 1981". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]
[Ricardo Rangel, (rapaz marcado com ferro). Reproduzida em Ricardo Rangel Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004]
[Ricardo Rangel, "Casas de Banho. Onde só o negro podia ser criado e só o branco era um homem, Lourenço Marques, 1957". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]
Mas para mim, indivíduo aqui imigrado, há 3 fotografias moçambicanas que me são cruciais, que me construíram a auto-imagem, meio auto-reconhecimento, meio auto-embelezamento: uma “Aldeia Comunal” de Kok Nam (que vi na sua exposição individual da Photofesta, e que nunca consegui recuperar), a crucial “Apetecido Quintal de Caniço“ (reproduzida abaixo) de Rangel, e esta “Macalange“. Um trio que faz o “meu” Moçambique. Ou melhor, me faz em Moçambique.
[Ricardo Rangel, "Apetecido Quintal de Caniço". Reproduzida em Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite, Marimbique, 2004]
A (Mulher de)”Macalange” de Sérgio Santimano pertence a uma exposição individual dedicada à província do Niassa, que tem sido apresentada de forma itinerante. E está reproduzida – é apenas assim que a possuo – no livro “Terra Incógnita“, publicado na Suécia em 2006, contendo fotografias de Sérgio Santimano e textos de Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Bosse Hammarstrom, Henning Mankell.
É fruto de um longo trabalho de pesquisa, repetidas viagens à província. Um projecto possibilitado pelo apoio da “cooperação” sueca, penso que inscrito num esforço de testemunhar o papel desenvolvimentista que esta teve (e penso ainda ter) na província - o que marcará o livro, que tem como ponto fraco algum excesso de imagens (algumas pobres páginas com oito fotos cada), talvez no intuito de mostrar trabalho. Do patrocinador, do fotógrafo.
Mas esse é ponto fraco. De resto o livro é bem apetecível. Pois se “Fotografar é assumir uma responsabilidade. As imagens que ficam para trás são rastos importantes para o futuro.” (Mankell) o que Santimano deixa, responsavelmente, não é apenas um conjunto de postais sobre a beleza natural do Niassa (ainda que aqui e ali ela surja, avassaladora). É o mundo humano, feito do camponês, como o espantoso “homem emergindo do rio, que não é Narciso” (Patraquim?). Mas também, e nisso rompendo com o constante e atávico olhar exoticizador dos fotógrafos em bolandas, com um mergulho no trabalho industrial do Niassa, de trazer a sua densidade, beleza. Essa a ”responsabilidade” do Sérgio Santimano, a de afastar sem hesitação a folclorização. Do Niassa, do mundo. E, só assim, de o representar.
Também por isso, talvez por isso, toda a minha paixão por esta (Mulher de)”Macalange“.
“A Magmaphotography vai realizar a sua 1ª exposição de fotografia dos fotógrafos Solange dos Santos e Dominique Andereggen na Estação de Caminhos de Ferro de Maputo de 3 a 20 de Dezembro.
“Fotografias Koloridas” procura dar a conhecer pelos olhos destes dois fotógrafos a cidade de Maputo, uma Cidade onde a contemporaneidade está presente e como qualquer outra capital do mundo vivendo de novas tendências, presos à história…, aos usos e costumes…, diversa nas paisagens que oferece…, na vida que proporciona aos seus habitantes…, multi-cultural e moderna.”
Por mero acaso, e num ambiente excêntrico – uma quermesse na Escola Americana de Maputo -, há alguns meses conheci o trabalho destes fotógrafos. Garanto que valeu a pena o martírio daquela tarde entre-gritaria de crianças e pais babados, vendas de tudo-e-nada, sorrisos constantes. Por (grande) maioria de razão valerá a pena ir até aos CFM ver a exposição.
Gabriel Maurício Teixeira foi, entre outros cargos Governador Geral de Moçambique durante três mandatos consecutivos, entre 1946 e 1958.
Antes disso, foi um célebre Governador de Macau que, com o legendário desenrascanço português, conseguiu com que os exércitos japoneses não ocupassem aquela colóniazita asiática durante a 2ª Guerra Mundial. Na ligação em baixo conta-se o episódio.
Um grande governador de Moçambique, não tanto como José Cabral, mas deixou a sua marca. Também é recordado por ser mulherengo que não bastasse, e de frequentemente se passear frequentemente de cavalo, sózinho, pelas ruas de Lourenço Marques.
Já antes desempenhara cargos na administração colonial naquele território em Cabo Delgado e em Lourenço Marques.
Há cerca de um ano, um filho seu, José Castro Teixeira, gentilmente doou ao IICT em Lisboa a documentação abaixo, respeitante a Moçambique.
Para além do mais, fiquei a saber que a piscina do Grupo Desportivo, onde cresci e passei boa parte da infância, foi inaugurada por ele no dia 24 de Julho de 1949 (ver item 59). Há sessenta anos.
E já nem me lembrava que, por razões que me ainda escapam por completo, no tempo antes da Independência, o dia da cidade era, pelos vistos erradamente, celebrado no dia 24 de Julho.
Talvez mais importante dum ponto de vista histórico, eis um conjunto de documentos que até este momento não foram analisados por quem mais entenda do assunto.
1. Álbum fotográfico do regresso do Governador-geral de Moçambique em 1951.
2. Álbum da Associação dos velhos colonos de Moçambique.
3. Álbum relativo á visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
4. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao distrito de Gaza (Março 1957).
5. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul (1947-1948).
6. Documentário fotográfico do ensino e assistência prestada na Colónia de Moçambique aos Indígenas para elevação do seu nível social.
7. Álbum relativo á visita do Ministro do Ultramar Comandante Sarmento Rodrigues.
8. Documentário fotográfico da visita do Presidente da Republica General Craveiro Lopes a Moçambique em 1956 (Reportagem completa em 3 volumes.).
9. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao Quénia.
10. Álbum relativo à Companhia Industrial da Matola.
11. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul em Junho de 1952.
12. Álbum fotográfico relativo á Ilha de Moçambique e Província de Nampula.
13. Álbum fotográfico da visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
14. 4 Pastas contendo o arquivo das negociações havidas entre o Governo Português, Governo Moçambicano e o Governo da Rodésia do Sul para a transferência da posse do Porto e Caminho-de-ferro da Beira para a Administração Portuguesa.
15. Pasta contendo duplicados de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério do Ultramar 1949.
16. Pasta contendo correspondência confidencial e secreta relativamente ao Caminho-de-ferro de Téte.
17. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para o Governador-geral de Moçambique.
18. Pasta contendo telegramas secretos do Governador-geral de Moçambique para o Ministro das Colónias em 1949-1950.
19. Pasta contendo telegramas secretos do Ministro das Colónias para o Governador-geral de Moçambique em 1949-1950.
20. Pasta contendo ofícios confidenciais e secretos expedidos e recebidos.
21. Pasta com correspondência relativa ao empréstimo de 1 Milhão de Contos a Moçambique em 1947-1950.
22. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para Moçambique.
23. Pasta contendo de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério das Colónias.
24. Pasta com Arquivo confidencial relativa a assuntos económicos da Junta de Exportação de Moçambique.
25. Pasta relativa a assuntos económicos da Comissão Reguladora de Importação.
26. Projecto de beneficiamento Hidro-Agrícola do Baixo Incomati do Eng. Sousa Monteiro (Setembro 1959).
27. Relatório sobre as cooperativas dos Agricultores Indígenas referente ao Ano de 1958.
28. Informação sobre as condições de Produção e Exportação de Chá relativas ao Ano Agrícola de 1945-1946 (Junta de Exportação da Colónia de Moçambique).
29. Relatório da Sociedade de Emigração para S. Tomé e Príncipe (1914).
30. Dendrologia de Moçambique Vol. IV e V.
31. Conferências na Escola Superior Colonial Ano Lectivo de 1942-1943.
32. O mundo Arabo-Islâmico e o Ultramar Português por José Júlio Gonçalves.
33. Relatório dos 2 Anos de Governo de Angola Junho de 1907 a Junho de 1909 por Henrique de Paiva Couceiro em Angola acompanhado de ensaio sobre a vida e acção de Paiva Couceiro em Angola pelo General Norton de Matos.
34. Relatório sobre o resgate dos “Machongos” do sul do Save referente a 31 de Dezembro de 1957 pelo Eng. Sousa Monteiro.
35. Panorama da Industria de Moçambique. Gabinete de Estudos da Direcção dos Serviços de Economia e Estatística Geral.
36. Relatório do Governador do Distrito de Huila (1912).
- The Sea Fishes of Southern Africa by Prof. J.L.B. Smith.
37. Quadros da História de Moçambique pelo Cónego Alcantra Guerreiro (Vol. I e II).
38. Moçambique Documentário Trimestral:
nos 10, 49, 51-57, 60
39. A Música Chope-Gentes afortunadas Hugh Tracey.
40. Relatório do Concelho de Câmbios. Ano 1948.
41. Mensagem dirigida ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira em 13 de Fevereiro de 1950.
42. Mensagem da Associação Africana da Zambézia.
43. Mensagem da Casa de Moçambique em Portugal.
44. Diploma de Sócio Honorário da Associação de Futebol de Lourenço Marques.
45. Mensagem da Junta Local de Gaza.
46. Mensagem da População de Namaacha (Moçambique), Outubro 1947.
47. Pasta contendo correspondência enviada pelo Ministro do Ultramar Prof. Doutor Raul Ventura ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
48. Pasta contendo correspondência trocada entre o Presidente do Conselho Prof. Doutor Oliveira Salazar e o Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
49. Pasta contendo diversos documentos e cartas relativo ao período em que o Comandante Gabriel Teixeira foi Governador-geral de Moçambique.
50. Visita do governador-geral à Cidade da Beira em Junho de 1947.
51. 2 Álbuns relativos à eleição do Presidente da República General Craveiro Lopes.
52. Aspectos do regresso a Moçambique do governador-geral Comandante Gabriel Teixeira em 05/11/1947.
53. Álbum relativo à entrega do porto e caminho-de-ferro da Beira.
54. Álbum relativo à visita do Presidente da República General Craveiro Lopes à Vila de João Belo em Agosto de 1956.
55. Álbum com imagens da visita do Orfeão Académico de Coimbra a Lourenço Marques Setembro/Outubro de 1949.
56. Álbum relativo à visita do governador-geral à plantação Chá Tacuane, Lda.
57. Álbum relativo à visita do governador-geral à Rodésia do Sul em Junho 1952.
58. Álbum relativo à visita do governador-geral à Associação Indo-Portuguesa.
59. Álbum relativo à inauguração da piscina do Grupo Desportivo de Lourenço Marques em 24 de Julho de 1949.
60. Álbum fotográfico da manifestação por ocasião do regresso à Colónia do governador-geral (edição da Câmara Municipal de Lourenço Marques).
61. Álbum relativo à participação de Moçambique na feira de Industria Portuguesa em 1951.
62. Álbum oferecido ao governador-geral pela comunidade Indiana de Lourenço Marques relativo à proclamação da República da Índia.
63. Reportagem da visita do governador-geral à Província da Zambézia em 1948.
64. Álbum oferecido ao governador-geral pelos Presidentes das Cooperativas dos Agricultores de Zavala.
Sobre a interessante biografia de Gabriel Teixeira, consulte-se este sítio, páginas 194 a 198.
A foto acima, é uma parte de um slide que o pai BM tirou em 1971. A melhor fotografia da piscina do Desportivo que há na internet – cortesia do Maschamba.
- Luz – O que é, como se utiliza
- Rolo/Digital – Sensibilidades e sua importância
- Velocidade/Tv – Conceito, aplicações práticas
- Abertura/Av – Função, importância e relação com
- Profundidade de campo – O que é, para que serve
- Trabalho de campo
Equipamentos:
- Cameras – Tipos, funções e possibilidades.
- Objectivas – Tipos, aplicações, limitações, aberrações.
- Tripé/monopé – Importância e aplicação prática
- Flash – Porquê, como e quando
- Fotómetro – Luz incidente e luz reflectida
- Trabalho prático
Tomada de Vistas:
- Tema – Objectivo e função
- Composição – Estética e plasticidade.
- Enquadramento – Regras gerais, importância
- Retrato, Paisagem, Desporto – Como e o que fazer.
- Trabalho prático
Trabalhos práticos:
- Avaliação do trabalho produzido, discussão e esclarecimento de dúvidas
Data
Horário
Local
Sábado – 21 de Nov.
09:00h – 12:00h
Clube Marítimo de Desportos
Quarta 25 Nov.
18:30h – 20:00h
Clube Marítimo de Desportos
Quinta 26 Nov.
18:30h – 20:00h
Clube Marítimo de Desportos
Terça 01 Dez
18:30h – 20:00h
Clube Marítimo de Desportos
Quinta 03 Dez
18:30h – 20:00h
Clube Marítimo de Desportos
Sábado 05 Dez
09:00h – 12:00h
Baixa e CMD
Preço – $400USD
Sócios do Clube Marítimo de Desportos: 10% desconto
Muito importante: Trazer sempre a sua máquina para ser utilizada. Não importa o modelo nem tamanho.
Nota: a responsabilidade do curso é do Luís Abélard. A inscrição presume-se que será feita no Clube Marítimo. Ou via endereço electrónico:
No âmbito da realização da XXª edição da Bienal TDM 09, a sua Comissão organizadora preparou um conjunto de actividades paralelas ao evento de entre as quais ciclos de debate destinados a reflectir e aprofundar o conhecimento e problemática das Artes Plásticas em Moçambique. As sessões decorrerão no Museu Nacional de Arte.
1. Conversa com os artistas premiadosFaizal Omar, Domingos Mabongo e Titos Pelembe 05-11-09, Quinta-feira, às 18 horas
2. A Fotografia documental e as possibilidades actuais.
Oradores: Sérgio Santimano e Luís Abelard 11-11-09, Quarta-feira, às 18 horas
3. Bienal TDM 2009: Espaços de Hoje: Desafios e Limites – Curadoria
Oradores: Jorge Dias, Gilberto Cossa e José Teixeira 12-11-09, Quinta-feira, as 18 horas
[esta entrada foi ficando para trás, a exposição já foi retirada, mas como as fotografias são interessantes põe-se o rascunho visível]
Na Fortaleza de Maputo foi apresentada a exposição World Press Photo 2009. Como exposição tem alguns contras, tradicionais nesta iniciativa anual. Os critérios de selecção temática, e assim sendo também de premiação, têm algo a ver com um roteiro de desgraças do ano transacto, o que traduz uma ideia do que é “press” – mais do que a informação é o espectáculo (visual, estético) da desgraça que é procurado. Diga-se que “não há festa nem festança onde não vá a dona Constança“, não há desgraça para a qual não haja categoria de premiação da World Press Photo, tudo debruado com uma tempestade atmosférica ou um leopardo-das-neves, para “alargar” o âmbito. Não quero forçar a nota mas a representação do ano, todos os anos, inclina-se para essa dimensão do horror humano. Desiquilibra-se. Para quem discorde desta minha opinião apelo a que olhe para os prémios dados à fotografia sobre Natureza – aí apela-se à estética, não se integra nessa dimensão uma vontade de denúncia das maleitas e horrores. E se há horrores e maleitas na natureza. Ou seja, os valores que pretendem ser mostrados na parte fotografia de natureza são diferentes (aparentemente mais apolíticos, mas só na aparência, pois na prática é mesmo um discurso político articulado) do que os que procuram ser transmitidos na parte fotografia humana.
Enfim, tem esse conteúdo mental sobre o que é imprensa. E tem alguns critérios de valorização de fotos verdadeiramente surpreendentes, mas para isso cada juri é soberano.
Yasuyoshi Chiba, fotógrafo japonês, sobre os conflitos no Quénia.
Mão amiga fez-me chegar esta fotografia de grupo dos estudantes da Escola Especial de Lourenço Marques, tirada em 1937. O exmo leitor Maschambiano se teve família lá nessa altura prima a imagem acima, imprima e mostre aos familiares (bem, sugiro que comece de avós para cima…) e pode ser que veja um antepassado seu lá. Aqui estão membros de algumas das mais velhas famílias da cidade. Se encontrar avise que a Secção Fotográfica do Maschamba faz um crop e envia por e-mail.
A Escola Especial era uma escola particular muito conceituada, na altura a única da cidade. Ficava situada na Avenida 24 de Julho no princípio do Alto-Maé, mesmo em frente a um jardim que terá tido o nome de 1º de Maio (não sei se ainda tem esse nome, provavelmente já deve ter mudado).
Um aspecto curioso da imagem (a que aqui se reproduz tem uma resolução de 500 kb, em casa a minha tem 50 MB…) é a enorme diversidade racial dos estudantes (se bem que whites estão 10 a 1 para blacks, o que revela um pouco como as coisas eram naqueles tempos).
Já foi há quinze dias, mas fica aqui o registo. A curiosa iniciativa “Karl Marx dezoito trinta quatro“. Na prática Mabunda, o cada vez mais celebrizado escultor de armas recicladas e ferro-velho, transforma a sua casa em galeria e abre a porta para uma colectiva, uma óptima forma de “receber”. Não foi a primeira vez. Na altura da primeira (Março 2009) escapara-me a iniciativa
que juntou três gerações: o próprio Mabunda, Mauro Pinto, Idasse e Reinata.
Desta vez Mabunda e MauroPinto repetiram e juntaram-se-lhes alguns outros artistas (ver convite). A casa cheia de obras, algumas muito recentes (fotografias frescas do Mauro – que tinha um quarto para ele - por exemplo) outras já conhecidas mas sempre a recordar (como a bela série de BerryBickle). Estava pois a casa cheia e também de pessoas, que o sábado à tarde foi dia de KM 1834. Quem abrilhantou a cena foi o agrupamento “Sem Crítica“, com música e declamações (“coisas” como eles dizem que fazem). Deixo três pobres fotos para memória, alguns deles tocando diante do Cristo de Mabunda (no chão) e ombreando com o fantástico Músico de TitosMabota (abaixo em grande plano)
KM 1834 é uma bela onda. Não só por poder juntar as pessoas com as obras (e as pessoas com as pessoas, e as obras com as obras). Mas porque desinformaliza um meio que aqui tende, muitas vezes, ao pomposo. A repetir, espero. Assim para que fiquemos no meio dos estranhos mundos que nos propõem, assim pelo menos durante algum tempo saindo das nossas próprias estranhezas …
45 fotografias de Jean-Paul Vermelen sobre o parque da Gorongosa, dito “O Santuário Selvagem“, o processo de renovação da fauna e ainda sobre a zona tampão. No “Franco” entre 20 e 31 de Outubro próximos.
Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.
Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.
A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.
Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.
No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.
Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.
Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”
Do primeiro desses textos retiro esta longa citação sobre os primórdios da fotografia em Moçambique:
“Nas colónias, mais significativamente em Moçambique devido à sua localização geográfica, foram muitos os olhares estrangeiros. Na então África Oriental Portuguesa estiveram:
Louis Hilly (França, 1851 – Moçambique, 4 Set. 1949), chega a Lourenço Marques em 1889 a convite do governo da colónia. Foi o primeiro fotógrafo a montar estúdio na recente capital Moçambicana na rua Alexandre Herculano. Em 1894 tinha atelier na Rua da Nossa Senhora da Conceição, quando da sua morte a “Foto Hilly” então na Av. Manuel de Arriaga passou para os seus filhos Susana e Alexi que a exploraram até à independência em 1975. Louis Hilly esteve nas barricadas em defesa de Lourenço Marques, quando das investidas dos guerreiros Vátuas comandados por Gungunhana.
Thomas Lee fotógrafo, comercialmente activo na África do Sul. Entre 1893 e 1899 teve um estúdio em Barberton, Mpumalanga. (Bensusan, p. 240). Testemunhou e registou em albuminas a construção da capital Moçambicana quando esta se mudou da Ilha de Moçambique para a então muito pantanosa e muito inglesa Delagoa Bay.
Sidney Hocking –(13 de Junho de 1872, Lourenço Marques – 14 de Junho de 1932). Inicia a sua actividade com atelier na Travessa da Fonte, em Lourenço Marques. Em 1909 adquire aos irmãos Lazarus o seu estúdio situado na rua Araújo (actual rua de Bagamoyo) quando estes se passaram para o edifício “Avenida Bulding”. Em 1931 ganha uma medalha de prata na Exposição de Sevilha. Apesar de ter falecido pouco tempo depois (1932), o seu estúdio sobreviveu até 1937.
A. Wiberforce Bayly – Em 1914 monta atelier no “Avenida Building”, em Lourenço Marques no mesmo espaço onde esteve instalado o atelier dos irmãos Lazarus.
Willie N. Singh – Willie N. Singh – Photographer, fotografou para a Administração Urbana da Beira, Moçambique alguns trabalhos podem ser vistos num álbum da Companhia de Moçambique de 1928/33.
J. e M. Lazarus – Em 1899 os irmãos Lazarus são já proprietários de uma casa em Lourenço Marques, mais tarde estão também estabelecidos na Beira e em Barbeton, na República do Transwal. O estúdio na capital da província estava então situado na rua Araújo (actual rua de Bagamoyo), tendo posteriormente passado para o edifício “Avenida Building” onde, em 1914, a empresa “A. W. Bayly” viria a instalar um atelier fotográfico, sob orientação técnica de Wiberforce Bayly. Acabariam em Lisboa proprietários da “Photographia Ingleza” a fazer retratos no n.º 53 da rua Ivens. (Sebastião Langa, “Retratos de uma vida” Arquivo Histórico de Moçambique, Dezembro de 2001). Os Lazarus estão aqui assinalados porque até hoje não conseguimos apurar a sua verdadeira nacionalidade, possivelmente são de origem judia.
J. Wexelsen fotógrafo profissional provavelmente de origem Bóer, com estúdio na Beira, Moçambique. A mulher de J. Wexelsen fotografada num riquexó na cidade da Beira, aparece num postal editado em 1907. Outros nomes, outros fotógrafos estrangeiros se passearam pelas Áfricas portuguesas banhadas pelo atlântico. Descobrir e estudar estes fotógrafos é tarefa urgente que, parece ainda não ser uma prioridade para a maioria das instituições científicas portuguesas, lá chegaremos…”
Ora a ligação ao local onde Ângela Camila Castelo Branco colocou as sete fotografias de Thomas Lee chegou-me acompanhada de um texto cujas semelhanças me permite atribuí-lo aos mesmos autores, mas para o qual não encontro a origem. Dado que tem algumas diferenças de pormenor e informações complementares transcrevo-o, pelo seu interesse, ainda que desprovido de referência autoral certa e respectiva fonte:
“Nas colónias, mais significativamente em Moçambique devido à sua localização geográfica, foram muitos os olhares estrangeiros. Em 1873, na então África Oriental Portuguesa, o inglês H. Kische anunciava no “Boletim Oficial” do Governo da Colónia de Moçambique. Este fotógrafo do séc. XIX trabalhou ao longo de toda a costa moçambicana do Índico, no seu litoral e no interior. A sua actividade como retratista era comercialmente compensada com a venda de álbuns com vistas da colónia.
Louis Hilly (França, 1851 – Moçambique, 4 Set. 1949), chega a Lourenço Marques em 1887. A 10 de Novembro do mesmo ano, Lourenço Marques é elevada a cidade por decreto “d’El Rei D.Luiz I de Portugal e dos Algarves”, e em 1889 passaria a ser a capital da colónia.
No ano de 1888 o fotógrafo Manuel Romão Pereira, à testa de uma “expedição fotográfica”, foi encarregue de documentar em imagens todo o Moçambique, enviado pelo ministro conselheiro Frederico Ressano Garcia. Esta tarefa terminaria em 1891 no tempo de António Enes. Manuel Pereira seria o primeiro “photographo – desenhista” profissional de Lourenço Marques e talvez de Moçambique. Na edição do jornal “Distrito de Lourenço Marques” de 2 de Fevereiro de 1889 vinha o seguinte anúncio publicado: “Atenção! Vende-se em casa do photographo Pereira, frente à residência parochial, milho bom, porcos e leitões”.
No entanto, o mais antigo estúdio de um fotógrafo estrangeiro na capital pertenceu ao francês Louis Hilly. Este chegou a Moçambique contratado pelo governo da colónia em 1889 e em 1895 já tinha atelier na Rua da Nossa Senhora da Conceição. Aquando da sua morte, a “Foto Hilly” então na Av. Manuel de Arriaga passou para os seus filhos Susana e Alexi que a exploraram até à independência em 1975. Louis Hilly esteve nas barricadas em defesa de Lourenço Marques, quando das investidas dos guerreiros Vátuas comandados por Gungunhana.
Em 1914 a empresa “A. W. Bayly” instalou um atelier de fotografia , sob orientação técnica de Wilberforce Bayly, no mesmo local onde tinha funcionado o segundo estúdio dos irmão J. e M. Lazarus, no edifício “Avenida Building”. Os irmãos Lazarus editaram o primeiro álbum fotográfico sobre Lourenço Marques. “A Souvenir of Lourenço Marques an album of views of the town”.
A estes dois nomes dos primórdios da fotografia em Moçambique podemos juntar-lhe o de Sid Hocking que iniciou a sua actividade nesta cidade em 1926 na Travessa da Fonte. Em 1931 foi premiado em Sevilha com uma medalha de prata. Hocking morreu em 13 de Dezembro de 1932 mas, o seu estúdio funcionou até 1937.
Thomas Lee fotógrafo, comercialmente activo na África do Sul, entre 1893 e 1899 teve um estúdio em Barberton, Mpumalanga. (Bensusan, p. 240). Testemunhou e registou em albuminas a construção da capital Moçambicana, quando esta se mudou da Ilha de Moçambique para a então muito pantanosa e muito inglesa Delagoa Bay.”
No primeiro texto há ainda uma interessante referência à fotografia dedicada a Moçambique, um enigma absolutamente exemplar das modalidades da época de representação dos africanos. Desde a mitologia associada até às modalidades de composição gráfica, cristalizadoras do imaginário associado. E, claro, às formas explícitas da associação do fotografar como tomar:
“Um fotógrafo que teve estúdio na rua dos Mártires n.º 34, 1.º em Lisboa foi E. Thiesson que fotografou meia Lisboa e a quem A. Feliciano de Castilho dedicou um artigo publicado no Jornal de Belas Artes intitulado “Luz Pintora”, onde se confirma o estúdio do francês na capital em 1845. Provavelmente foi nesse mesmo estúdio visitado por Castilho que Thiesson terá feito uma série de daguerreótipos de africanos residentes em Lisboa, entre os quais estaria a famosa nativa de Sofala, Moçambique. O daguerreótipo pertence hoje à colecção George Eastman, Rochester, Nova Yorque; estes esclarecem que a retratada é a Rainha do Xai-Xai de Zavala- Moçambique e que aí foi retratada por Thiesson em condições climatéricas adversas. E nós que até suspeitamos que o fotógrafo nunca esteve em Moçambique, não deixamos de simpatizar com a história da Casa George Eastman. Os americanos lá terão as suas fontes! Para nós, será sempre uma Rainha do Sabá.”
Adenda: Imparável o ABM envia-me mais ligações sobre este mundo maravilhoso da história da fotografia em Moçambique. Agora uma ligação para o fundo de 1173 fotografias digitalizadas pelo Instituto de Investigação Científica e Tropical, respeitantes a várias épocas do período colonial. É certo que o excelente trabalho realizado pelo Instituto é algo manchado pela desmesurada inscrição do deselegante acrónimo institucional, com toda a certeza haveria outra mais cavalheiresca forma de garantir “o seu ao seu dono”. Mas a fotografia dada não se olha a dente …
[Mesquita de Maputo, na Baixa, por Lazarus, 1902? - a velha fachada, desnecessariamente destruída no início deste milénio.]
Como exemplos desse riquíssimo acervo aqui fica um exemplar das 29 fotografias da autoria dos irmãos Lazarus, referidos acima, produzidas no início de XX (a maioria de 1902), retratando Maputo (Lourenço Marques) e Quelimane. E este chamar de atenção culmina com esta curiosíssima fotografia de Sousa Machado. Impagável exemplar para a mitologia colonial. E para a construção da história nacional.
Continuará até 16 de Outubro no CEB (agora Centro Cultural Brasil Moçambique, levará algum tempo até se lhe chamar “CCBM” – porque não atribuir-lhe o polissémico petit nom de “BM”?) a exposição fotográfica “No Topo da Gorongosa”.
Um texto sobre Ricardo Rangel, publicado no jornal Público.
“Ricardo Rangel, o fotógrafo que ofereceu um espelho aos moçambicanos“
Por Alexandra Prado Coelho
1924-2009
Os amigos disseram-lhe adeus ao som de Charlie Parker, como ele teria gostado. O jazz era, a seguir à fotografia, a grande paixão de Ricardo Rangel, o decano dos fotojornalistas moçambicanos, que morreu aos 85 anos. Desapareceu o homem com “um clique mágico”.
Um dia, numa conversa de café, o fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel ouviu falar de um miúdo negro que era pastor e trabalhava para um criador de gado português que, como castigo por ele ter perdido um animal, o tinha marcado na testa com o mesmo ferro em brasa que usava para marcar o gado. Rangel pegou no carro e, juntamente com Raul Alves Calane da Silva, companheiro de redacção, pôs-se a caminho para a zona de Changalane, onde lhe tinham dito que o miúdo vivia. Procurou-o durante dois dias até finalmente o encontrar. Chamavam-lhe “o oito”, por causa dessa marca, em forma de oito deitado. Rangel fotografou-o – os olhos de uma tristeza infinita, e a marca do patrão gravada na testa. “O indivíduo [o português] queria dar-nos um tiro”, recorda Calane da Silva, ao telefone com o P2 a partir de Maputo, a capital moçambicana, poucas horas depois do funeral do seu grande amigo e companheiro de aventuras desse tempo em que perseguiam as notícias “até às últimas consequências, mesmo com risco de vida”.
Ricardo Rangel morreu no dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de Estado. A última despedida dos amigos foi como ele tinha pedido: “ao som de Charlie Parker”, conta Calane da Silva. “O Ricardo tinha um clique mágico”, continua o amigo. “Estava sempre com os olhos atentíssimos e aliava o fotojornalismo à arte fotográfica.” Gostava de sair para a rua e fotografar, mesmo sabendo que no Moçambique pré-independência a censura não iria deixar passar a grande maioria das imagens. “Ele guardava-as porque tinha o sentido da História. Ia-as recolhendo, sabendo que um dia seriam a imagem histórica do que aconteceu.”Ia registando um país.
E fazia-o “com uma consciência política muito mais marcada que o resto do pessoal”, sublinha ao P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e companheiro de trabalho de Rangel em várias publicações. “Ele já era anticolonial nos anos 40. Teve sempre muito a noção da exploração do homem pelo homem.”
A Rua Araújo
Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar finalmente aos jornais, tornando-se “foto-repórter” do Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o Notícias. “A fotografia sempre foi para mim uma coisa mágica e comecei no laboratório, a varrer o laboratório. Andei anos nisso”, confidenciou a Luís Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO. “Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo assim, quase às escondidas.”Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção que, com a “Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios ingénuos”, a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço Marques, relata Patraquim. “No começo não sabia porque tirava certas fotos”, confessa-lhe Rangel. “As pessoas diziam-me: ‘Tu não és preto, porque é que andas a tirar fotografias a pretos?’ Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o ‘indígena’. Tirei muitas fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os negativos.”
Mais tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e 70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. “A Rua Araújo era impublicável”, conta Rangel nessa entrevista. “Muitas das minhas chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que, ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse é material que me pertence.”Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens. “Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo.”
A paixão pelo jazz.
Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam, lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página chamada Objectiva, “que seria como que o editorial dos repórteres fotográficos”, e do peso que a fotografia conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna Rangel “fez grandes reportagens nos subúrbios, quando ninguém pegava nos subúrbios”, e como, apesar de “não ser um fotógrafo oficial”, fotografou três chefes de Estado depois da independência. “Viveu tudo, deixou uma grande obra, deixou a história de Moçambique registada.”Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço começou a ter um contacto mais intenso com ele. “Partilhávamos visões sobre o colonialismo e pertencíamos ao mesmo grupo”, conta ao P2. Mas foi depois da independência, na época em que Cabaço se tornou ministro da Informação, que “a amizade se consolidou”, e quando decidiu criar “o Domingo [em 1981], que era um jornal muito gráfico, muito ligado à vida quotidiana”, o ministro achou que “a pessoa óbvia” para o dirigir era Rangel. “Era a primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção de um jornal”, sublinha. Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma Cabaço. “Deu-nos uma grande lição de alegria de viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação com as injustiças.” Amava a fotografia e amava profundamente o jazz. “O jazz tinha raízes na afirmação africana, na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento fundamental para compreender as várias dimensões através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo”, explica o antigo ministro. Até à chegada de Rangel, “a fotografia em Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como complemento”. Ele “traz o colonizado para sujeito do processo de registo, na sua dimensão de dominado e explorado”, e assim torna-se “um construtor privilegiado do imaginário anticolonial”. Era nas imagens dele que o novo país se podia finalmente ver ao espelho.
E esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel mostrou na primeira exposição que fez em Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal português, brancos de meia idade, transportando cimento à cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que “os colonos também podem ser gente como nós”. Quando, em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um mundo e o outro não eram assim tão grandes. “Era também uma pedagogia”, explica Calane da Silva.
Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias gerações de fotógrafos moçambicanos aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano, hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no Domingo. E não esquece o muito que aprendeu. Não esquece, por exemplo, o dia em que, encarregue de fazer fotos para um trabalho sobre o amor, ouviu as críticas de Rangel. “‘Sérgio’, disse ele, ‘isto não é amor. Sabes o que é fome?’, perguntou. E de repente meteu a fotografia na boca e começou a comê-la. ‘Sabes o que é dançar?’ E, sem eu ter tempo de reagir, agarrou-me e começou a dançar. Percebi o que ele queria dizer: a fotografia não pode ser meios-termos, meio gás.” Mais tarde, já depois de viver na Suécia, encontrava-se às vezes com Rangel e falava-lhe nos seus projectos fotográficos. “Ele brincava com isso. ‘Tu tens sempre projectos’, dizia. ‘Eu nunca tive nenhum projecto. Acho que um dia também vou ter que arranjar um projecto.’
“Santimano e todos os outros que aprenderam com ele “partilham a mesma visão humanista”, escreve Simon Njami, director da bienal de fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004. Rangel “ensinou-lhes a importância de uma interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um auto-retrato”.
A colecção de álbuns de Santos Rufino é coisa de culto. Agora que sei haver uma colecção completa à minha espera em Portugal, aquisição de um bom amigo (quem tem amigos assim … temo até não merecer tamanha felicidade), não resisto a partilhar o acervo digitalizado, algo integrado no trabalho espantoso de Memórias de África, o qual nunca será demais salientar.
Ontem, no meio de uma feira na Escola Americana, encontro uma banca com estes fotógrafos. Vale a pena visitar, em especial alguns itens “natureza” e, em particular, “arquitectura e design” – aparentemente mais ao gosto dos fotógrafos.
Foi na Ilha de Moçambique que encontrei um curioso livro, editado em 2008 pela Editorial Minerva. Trata-se de uma colectânea de fotógrafos amadores que se apresentam em formato bloguístico (ou fotobloguístico), condignamente impressa, o Fragmentos de Emoção. Como será normal num projecto que integra trabalhos de cinquenta fotógrafos o livro é bastante heterogéneo, nas temáticas e abordagens.
Lá está representada a Ilha de Moçambique, através das fotografias da Isabel Osório. Esperando eu que essa primeira edição sirva de trampolim para um trabalho – exposição, álbum – da Okhwiri, que sobre a Ilha construíu um belíssimo trabalho fotográfico. E que tem a “obrigação” de o partilhar.
Pedro Sá da Bandeira está a apresentar a exposição “Dança – 30 anos depois”, baseada na Companhia Nacional de Canto e Dança. No Instituto Camões até 22 de Maio.
A exposição foi pensada para se integrar no 30º aniversário da Companhia, com riscos de se tornar qual “retrato oficial”. Mas o repórter conjugou-se com a costela de etnógrafo do quotidiano do PSB. E disso resultou a fuga ao estereotipado olhar sobre a dança, a tal deriva oficialista. O compadre PSB meteu a mão nas entranhas alheias, bastidores e esquissos, incorrecções técnicas e improvisos. E assim deixou a memória da dança, viva de pujante.
Não há duas sem três, diz-se. Fica comprometido PSB a uma futura (e terceira) exposição sobre o Moçambique que olhou. Agora que se prepara para partir que monte uma retrospectiva do que aqui foi fazendo. E regresse para a mostrar.
[A imagem reproduzida é um excerto do folheto da exposição. Amputada para evitar o design que, em muito, o prejudica. Caramba, um fotógrafo destes merecerá um lettering decente. Pelo menos...]
Referi abaixo este Moçambique. Imagens da Arte Colonial, livro organizado por Fernando Couto e editado pela Ndjira em 1998. A obra reproduz 86 fotografias do espólio de Carlos Alberto Vieira, fundamentalmente dedicadas a obras arquitectónicas, monumentos, algumas vistas aéreas urbanísticas e arte sacra. Se a selecção não é exaustiva cobre o país [17 fotos de Maputo, 2 de Zavala, 2 de Xai-Xai, 2 de Inhambane, 4 da Beira, 2 de Quelimane, 10 de Tete, 2 de Angoche, 2 de Nampula, 32 da Ilha de Moçambique, 4 da Cabaceira Grande, 5 do Ilha do Ibo, 1 da Ilha da Quirimba, 1 de Pemba].
Não sei se ainda estará disponível - na altura a edição atingiu 1500 exemplares, número aqui apreciável. Mas será, com toda a certeza, interessante recuperar a obra, introduzindo-lhe o que então foi impossível integrar, uma identificação mais completa das obras apresentadas – autoria e data da instalação das peças, datação das fotografias. Com toda a certeza um projecto nada irrealizável. E que em nada choca com as recentes edições em Portugal de livros sobre o espólio do fotógrafo Carlos Alberto Vieira, tanto porque são estes de maior abrangência temática como pelo facto de também essas edições não apostarem na identificação exaustiva dos objectos retratados.