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Só os loucos são firmes e resolutos.

[Montaigne, Da Educação das Crianças, Três Ensaios, Vega, p. 44]

Pragmatismo é conservadorismo com aparência de acção. Conserva o existente dando a ideia de haver movimento.”

(R. Dahrendorf, Ensaios Sobre o Liberalismo, Lisboa, Fragmentos, 1993, 21)

Por isso quando considero e avalio no meu pensamento todas essas comunidades que florescem hoje em dia por toda a parte, assim Deus me ajude, não vislumbro senão uma certa conspiração de ricos procurando as suas próprias vantagens em nome e sob a tutela da comunidade. Inventam e planeiam todos os meios e possibilidades (…) para usar e abusar do trabalho e labor dos pobres pelo mínimo possível de dinheiro. Esses planos, quando o rico os decretou (…) são tornados leis

(Thomas More, Utopia)

Interregno universal. Bem no fundo tudo se resume nisto.

(adenda: com a óbvia excepção dos piercings, deles exceptuando os brincos, e estes se modestos quando masculinos).

Anda por ai um escroque, partilha comigo a nacionalidade. Cada um como cada qual, e “os bons espiritos sempre se encontram”. Do seu acolhimento pelos nao-patricios ser-me-a indiferente, crente que sou na certeira fabula do escorpiao. Que sejam pois picados. Mas espanta-me que instituicao nossa, e a qual tanto lesou, o acolha. Formal ou informalmente, isso e indiferente. Apenas concluo, repito, “os bons espiritos sempre se encontram”. Mas ainda assim, tao obvio aquilo surge …

O olhar deve estar voltado para a pessoa com quem se fala, mas este deve ser calmo, franco e não denotar nem descaramento nem maldade. Fixar os olhos no chão, como faz o catoblèpas* leva a supor uma má consciência; fitar alguém de viés é testemunhar-lhe aversão.” [*Nota (de Alcide Bonneau, 1847): segundo Plínio (Hist. Nat., VIII, cap. XXII,) um touro de África, cuja cabeça contém uma grande quantidade de veneno e que se vê obrigado a deixá-la pender constantemente para o solo – o que é uma sorte para aqueles que com ele se cruzam, porque um só dos seus olhares bastaria para matar um homem! Elieno diz praticamente o mesmo (Hist. Animalium, livro VII)],

(Erasmo de Roterdão, A Civilidade Pueril, Lisboa, Editorial Estampa, 1978. Tradução de Fernando Guerreiro)

“Assim que viu o Helesponto inteiro coalhado de navios, todas as suas margens e as planuras de Ábidos cobertas pelos seus homens, Xerxes felicitou-se a si próprio, mas em seguida, chorou.

Logo que se apercebeu disso, Artábano, aquele que anteriormente aventara livremente a opinião de que não era aconselhável marchar contra a Grécia, esse homem, ao notar as lágrimas de Xerxes, disse-lhe: “Ó Rei, como é diversa a tua atitude de agora e de há pouco! Há momentos felicitavas-te, agora choras!” “É que me veio ao pensamento - disse ele - lamentar a brevidade de toda a vida humana, uma vez que, de tantos homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um só sobreviverá.” Artábano respondeu: “Ainda sofremos outra calamidade mais deplorável ao longo da vida. É que, sendo ela tão curta, não há homem algum tão feliz, nem dos que aqui estão, nem de outros, a quem não suceda, muitas vezes, e não uma só, preferir morrer a viver. As desgraças que se abatem sobre nós e as doenças que nos afligem fazem com que a vida pareça longa, a despeito da sua curta duração. E assim a morte se tornou para o homem o refúgio de eleição contra tão penosa vida. E o deus, depois de nos dar a provar um pouco a doçura da vida, nisso mesmo mostra a sua inveja.”

[Heródoto de Halicarnasso, Histórias, Livro VII (tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)]

Que não duvideis, por um lado, de que há espíritos do género masculino, mas duvideis, por outro lado, que os haja do género feminino mais parece fantasia do que dúvida razoável. E se for essa a vossa opinião, ela seria mais conforme, afigura-se-me, à imaginação do vulgar, que estabeleceu que Deus é do género masculino e não do feminino.”

[Baruch de Espinosa, “Carta LIV, Setembro de 1674″, Baruch de Espinoza, Hugo Boxel, Sobre Espectros e Espíritos, Lisboa, Teorema, 2005, pp. 25-26]

Só os loucos são firmes e resolutos.
[Montaigne, Da Educação das Crianças, Três Ensaios, Vega, p. 44]

Poesia

Na minha opinião, estas conversas acerca de poesia assemelham-se muito aos banquetes de pessoas medíocres e vulgares. Incapazes, pela sua ignorância, de fazer as despesas da conversa num banquete, com a sua voz e os seus discursos, encarecem as tocadoras de flauta, pagando por alto preço um voz estranha, a voz das flautas, por meio da qual conversam uns com os outros.”

[Platão, Protágoras, tradução de A. Lobo Vilela]

Na minha opinião, estas conversas acerca de poesia assemelham-se muito aos banquetes de pessoas medíocres e vulgares. Incapazes, pela sua ignorância, de fazer as despesas da conversa num banquete, com a sua voz e os seus discursos, encarecem as tocadoras de flauta, pagando por alto preço um voz estranha, a voz das flautas, por meio da qual conversam uns com os outros.

[Platão, Protágoras, tradução de A. Lobo Vilela]

Assim, também a Musa inspira ela própria e, através destes inspirados, forma-se uma cadeia, experimentando outros o entusiasmo. Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esse belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos…
Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui…Nos outros géneros cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos…

[Platão, Íon (tradução de Victor Jabouille)]

Para além da História

O novo problema reside sempre naquilo em que não vemos uma saída imediata. Estamos sem saída porque os métodos existentes já não são adequados. Se um destes métodos servisse, seríamos capazes de solucionar o problema. Portanto quando nos encontramos mentalmente bloqueados apercebemo-nos de que estamos numa situação em que a história não pode simplesmente repetir-se.

Esta situação sem precedente é, de facto, extremamente estimulante porque, seja o que for que descubramos … esta descoberta leva-nos muito para além de um passado conhecido. Assim a história de uma ideia não é, no fundo, essencial para nos revelar como se dão os fenómenos … o único teste válido em física radica nas nossas experiências - a história é, fundamentalmente, irrelevante. (89)

A única ciência que não admite qualquer indagação histórica é, com certeza, a física. Costumamos dizer que nesta área científica há sobretudo leis. Eis aqui as leis actuais!, dizemos. Nunca nos detemos a perguntar a maneira como chegaram a ser formuladas … supomos simplesmente que as leis existiram sempre nessa forma, sempre as mesmas leis…

Assim, pode ser, afinal de contas, que mesmo na física, estas leis não sejam idênticas ao longo do tempo e que haja, sim, um aspecto histórico ou evolucionário.” (98)

[Richard P. Feynman, Uma Tarde Com o Sr. Feynman, Lisboa, Gradiva, 1991]

“As leis mecânicas que nos permitem prever os fenómenos do universo são muito simples…A Natureza, sabemo-lo, porém, é mais simples do que poderemos imaginá-la através da nossa lógica”. (91-96)

“O que caracteriza os bons cientistas é que, façam o que fizerem, nunca estão completamente seguros de si próprios, em comparação com a maioria das outras pessoas. Vivem na e com a dúvida; podem pensar “talvez…” e agir mesmo com essa dúvida, muito embora saibam que tudo não passa de um “talvez”. (121)

“Recordemos também a nossa tendência para tornarmos tudo muito mais complexo do que deveras é. Há dias lia … uma passagem de Espinosa…O raciocínio era absolutamente infantil, mas encontrava-se revestido de um tal palavreado de atributos, de substâncias e de outras banalidades que … desatámos a rir às gargalhadas. Bem, deve achar que estou a exagerar, rir-me de um filósofo da estatura de Espinosa! Mas acontece que Espinosa não tem realmente qualquer desculpa…Veja bem, pegue numa proposição de Espinosa; a seguir, transforme-a na proposição contrária e examine-a bem. Aposto que não pode dizer-me qual das duas é a correcta.

As pessoas deixam-se impressionar com Espinosa porque este filósofo teve a coragem de encarar as questões importantes. Mas para que serve esta coragem se não leva efectivamente a nada?” (114-115)

“[Os filósofos] Tiram proveito do facto de, provavelmente, não haver uma partícula fundamental última para nos exortarem a não irmos mais além. E ei-los, a seguir, a pontificarem: “O vosso pensamento não chega ao fundo das coisas, deixem-nos dar-lhes uma definição preliminar do mundo”. Mas assim não pode ser! Estou decidido a explorar o mundo sem ter dele qualquer definição!” (115)

[Richard P. Feynman, Uma Tarde Com o Sr. Feynman, Lisboa, Gradiva, 1991]

Os Etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz achatado,
Enquanto os Trácios afirmam que os seus têm olhos azuis e cabelo ruivo.
Porém, se os bois ou os cavalos ou leões tivessem mãos e pudessem desenhar
E fossem capazes de esculpir como os homens, então os cavalos poderiam desenhar os seus deuses
Como cavalos, e os bois como bois, e cada um esculpiria então
Corpos de deuses, cada qual, à sua própria imagem

Os deuses não nos revelaram, desde o início,
Todas as coisas; mas, no decorrer dos tempos,
Podemos aprender através da busca, e conhecer melhor as coisas…
Estas coisas são, imaginamos nós, a verdade.

Mas a verdade certa, nenhum homem a conhece
Nem virá a conhecer; nem a dos deuses
Nem a de todas as coisas de que falo.
E mesmo se, por acaso, pudesse dar voz
À verdade final, ele próprio não a conheceria:
Porque tudo não passa de uma intrincada teia de suposições.

[Xenófanes, em Karl Popper, O Mito do Contexto]

Pensar Portugal, hoje

Vozes lá de fora e também in-blog a anunciarem e a muito recomendarem o ensaio-olhar


Mão amiga, essa que nunca é invisível (e eis como num mero trocadilho “voo de pássaro”, ao correr da tecla, se desnuda uma ideia do social, muito para lá daquele conjunto de indivíduos tão iguais e livres, esse mercado aberto parece que tão na moda lá no rincão), trouxe o livro até deste lado.

Para uma leitura muito ambivalente, com trechos perturbantes, outros auto-confirmações, desses livros com quem vamos dialogando página a página - e que maior elogio?

Entre outros trechos, José Gil como se a escrever sobre bloguismo, até a referir o JPT (confesso que concordo e apreciei, ainda que entristecido): “…os cortes, as interferências abruptas que mudam num ápice a direcção da conversa são, por assim dizer, bem-vindos. Saltita-se de um assunto para outro, o que proporciona um pequeno prazer. Este tipo de trocas e baldrocas verbais tem efeitos no pensamento. A inatenção, a falta de concentração exercitam-se na contínua dispersão - vivíssima, porém - das palavras. E quando se busca um “fio condutor”, uma visão de conjunto, não se recorre à análise, visa-se a síntese (tão ao gosto português de pensar) - melhor, visa-se um modo sincrético de pensamento. Por isso pensamos tão pouco, e de forma rotineira, geral e superficial.” (56-7) - não será esta a causa do super-sucesso do bloguismo português?

Mas também um registo muito problemático de aceitar, um espanto entristecido com o corolário politiquês de um ensaio sobre “mentalidades” - afinal Santana Lopes não será um mero epifenómeno? para quê desembocar nele o garimpar sobre Portugal. Não o desvalorizará? E, sublinhando este epílogo, Durão Barroso apresentado como indigno lider de oposição - porquê? Ou porquê ele e não tantos outros? Um anti-climax, e isto não é por simpatias minhas, é mesmo uma sensação de desiquilíbrio entre o denso do miolo e o mero polemista final.

E o desconforto com quem escreve coisas destas: “Compõe-se assim a estranha imagem de um povo com um fundo de barbárie envolvido por inúmeras camadas de cultura (desde o paganismo grego e latino aos celtas e árabes) que não conseguem transformar completamente esse fundo em civilização” (107-8) - este registo ainda colhe admiração tão geral no meu país, no hoje em dia? E o generalizar constante, tipo “Os portugueses não sabem admirar, porque não sabem perder a cabeça de admiração” (99) - peço desculpa, mas que significa isto? Como serve de base para reflexão? E o texto está cheio deste tipo de afirmações.

Uma leitura ambivalente. Apreciando para logo me desiludir. Entusiasmando-me, mesmo que discordando, para logo menear, fugindo. Interessante será saber como foi recebido o livro (se só louvado in-blog, se mesmo bastante lido), pois dirá algo da auto-imagem nacional dos leitores. Ou de como José Gil a influencia. E fico à espera de que alguém tenha a sapiência e o poder (sim, o poder) para se debruçar de modo verdadeira e intensamente crítico sobre este livro. De moda, perdão.

“…Sartre era um moralista. Não podia admitir que as minhas tomadas de posição, talvez erradas, não fossem culpadas. Para ele, moralista, era difícil aceitar os argumentos de um homem que tomava uma posição radicalmente diferente da sua. Logo, condenava-me moralmente. Aliás sempre pensei que ele era mais moralista do que político. E creio que muitas vezes se perdeu na política, precisamente porque era essencialmente um moralista, mas de um estilo muito diferente do tipo habitual: um moralista ao contrário, um moralista da autenticidade e de modo algum do moralismo burguês do qual tinha horror.”
[R. Aron, O Espectador Comprometido. Diálogos com Jean-Louis Missika e Dominique Wolton, Lisboa, Moraes, 1983, p. 142]

Peço desculpa, mas há livros que são delícias avulsas (2)

Most notably in recent times, James Watt, Ronald Reagan’s unlamented secretary of the interior, a deeply conservative thinker and prominent member of the Pentecostal Assembly of God, stated that we need not worry unduly about environmental deterioration (and should therefore not invest much governmental time, money, or legislation in such questions) because the world will surely end before any deep damage can be done“.
(S. J. Gould, Questioning the Millennium, Vintage, 1998, p.20)

Peço desculpa, mas há livros que são delícias avulsas (1)

People really are funny - and fascinating beyond all possible description

(S. J. Gould, Questioning the Millennium, Vintage, 1998, p.20)

A Verdade. “Pegai numa ideia qualquer, por mais louca que seja, pensai nela durante bastante tempo e vereis que um dia vos parecerá verdadeira“.

(Pascal, citado por H. Reeves, Abordagens do Real, D. Quixote, 1987, p. 40)

Pares

Among the devices that we use to impose order upon a complicated (but by no means unstructured) world, classification - or the division of items into categories based on perceived similarities - must rank as the most general and most pervasive of all. And no strategy of classification cuts deeper - while providing such an even balance of benefits and difficulties - than our propensity for division by two, or dichotomy.

…so we might argue that dichotomization amounts to little more than good observation of the external world. But far more often than not, dichotomization leads to misleading or even dangerous oversimplification. People and beliefs are not either good or evil … and organisms are not either plant or animal, vertebrate or invertebrate, human or beast.”

(S.J. Gould, Questioning the Millenium, Vintage, 1998, p.30)