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Dezembro 30th, 2007 — Africa Austral, Europa-África
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África, Portugal-África
Na época foram declarações que passaram mais ou menos despercebidas - que me lembre só Paulo Gorjão as ecoou. A mim ocorreu-me algo mas deixei seguir.
Não tanto sobre a auto-menorização que isto significava, deixar entender sociedade e economia portuguesas como mero “oliveira de figueira”. Indicaria isso um projecto? Mas não era bem isso que se me despertou, crítica até talvez um pouco patrioteira, concedo.
O que me arrepiou nessas declarações foi o demonstrarem desatenção e até desentendimento sobre o que se passa(va): em substância ali estava uma declaração de menoridade aos Estados e economias africanas, como se estas precisando de serem tutelados na sua extroversão (erro político - que decerto não passou despercebido - e que se paga caro); e ainda uma menoridade chinesa nas suas relações internacionais (erro que se paga[rá] bem caro), tanto do ponto de vista do seu potencial económico como da sua capacidade negocial e diplomática [já agora, falam as línguas, enquanto 450 anos em Macau não foram suficientes para criar um tradição sinófila portuguesa].
Mas, fundamentalmente, significou (ou transpareceu) a desatenção para uma mudança de paradigma nas relações internacionais com África: ao invés do que agora se geme a chegada chinesa não criou a depredação ambiental (opõe-se sim aos tímidos esforços ecológicos deste início de milénio). A chegada chinesa assumiu-se como opção, e é assim entendida, ao paradigma da “cooperação” desde os anos 90s - com eles não há imposições de “condicionalidade política” ou de “boa governação” (parece que agora é “governância” …). O multipartidarismo pode dirigir-se para o velho modelo mexicano de democracias multipartidárias de partido único e, entre outras coisas, as administrações estatais africanas não terão que seguir uma agenda burocrática estabelecida em torno das metodologias (e laboriosos procedimentos) impostas por Cotonou e as respectivas fiscalizações. Que mais pedir? E também os cientistas sociais deixam de estar prisioneiros da dificil equação (e de complexa comprovação histórica): democracia=desenvolvimento.
Pois nessa altura Portugal, pela voz do P.-M. Socrates, enquanto integra(va) o pelotão europeu, o qual neste contexto é tantas vezes conduzido pelos “puritanos” escandinavos, oferecia-se para mediar o torpedear da sua (europeia) política africana. Desatenção? Ou maquiavelismo? A história responderá.
Adenda: sobre esta questão da política europeia sobre África não resisto a citar o excelente Kontratempos. Em texto com o qual concordo em parte substancial interessa-me a sua semântica do texto: a China não está interessada no desenvolvimento, transparência ou direitos humanos em África. Algo com que concordo (enquanto dou graças pelo facto dos bancos suíços não pertencerem à União Europeia). E a China tem uma “presença tentacular” em África.
Depois rimo-nos (ou protestamos) com o Kadhafi e com o Mugabe a falarem de colonialismo e isso. Munições ofertadas por europeus, diga-se. Em particular os das boas intenções.
Dezembro 11th, 2007 — Africa Austral, Europa-África
Copo em copo diz-me um amigo, conhecedor da minha terra: “isto de pôr a gente a dizer mal do Mugabe será como pôr os tipos do bloco de esquerda a dizerem mal do Fidel Castro“. No alvo …
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África
Corria 1999 e a Raínha Isabel II veio a África, visitando três países: presumo que o Quénia, depois a África do Sul e, para terminar, Moçambique. Aqui curta visita, mas muito simbólica, pois o país tinha recentemente aderido à Commonwealth no seu particular estatuto de único membro que não foi possessão britânica. E lembro ainda do frisson que cruzou a cidade na expectativa da ilustre visita.
O perfil da deslocação era explícito quanto seu conteúdo simbólico. Saindo de Joanesburgo a comitiva aterraria em Maputo logo de seguida, cerca do meio-dia, participaria num banquete oferecido pelo então Presidente Chissano e de imediato partiria para Londres, numa visita particularmente cronometrada. Assim aconteceu.
O avião real aterrou em Mavalane, a comitiva dirigiu-se ao Hotel Polana onde Isabel II e o príncipe consorte descansaram breves momentos nos aposentos reservados para o efeito. Às 13 horas saíram para o almoço presidencial, cruzaram de novo o reverente Polana e entraram na limusine estacionada à porta, encabeçando a comitiva que se deslocava para a Ponta Vermelha, o embaixador no carro imediatamente seguinte, precedidos da tradicional escolta motorizada, essa que mistura simbólico estatutário com a necessária segurança.
Entrado no carro o casal real presumiu que a escolta se movimentasse, decerto que esta obedecendo a ordens. Mas aí ficaram, esperando. Então Filipe, o príncipe consorte, saíu do carro, dirigindo-se para a escolta (ali estacionada ao portão do hotel), braço no ar gesticulando, o embaixador aflito correndo atrás dele, “o homem é muito alto“, veio-me ele a dizer sublinhando o efeito cénico (e, presumo eu, já imaginando o seu futuro profissional num bunker de Argel ou Cabul). Protestava, desabrido, o príncipe “Ou avançamos já ou seguimos de imediato para o aeroporto!”, assim originando de imediato a partida da comitiva para o destino previsto.
“Dois minutos“, foi a espera, “dois minutos, se tanto“, lamentava-se o embaixador. Ainda aflito.
Mas, claro, conhecedor das linguagens do protocolo. Significantes, hiper-significantes.
Dezembro 9th, 2007 — Europa-África
Dezembro 9th, 2007 — Europa-África, Imprensa Portuguesa
Dezembro 6th, 2007 — Europa-África
Janeiro 8th, 2007 — Ciências Sociais, Europa-África
“Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)
“E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pos-voltairiano.
A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as furias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (…) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparavel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)
*No texto traduzido “aplicarmos”, mas presumo que seja gralha
George Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] - atente-se na data da edicao original.
Novembro 28th, 2004 — Europa-África, Fotografia Moçambique, Hélia Correia, Rui Assubuji
Sim, já aqui deixei esta Velha que o Kiko captou algures, e que nos é oferecida no livro colectivo Imagem Passa Palavra.
Mas trago-a outra vez, por ela que tanto o justifica, mas também pelo texto que a acompanha, “A Velha a Rir“. A autora, Hélia Correia, é escritora, não lhe exijo requebros e cuidados de ensaísta, de gente das academias, a esculpirem conceitos antes das botaduras (e quantas vezes assim a tudo esfarelarem). Escritora, Hélia Correia, é aqui apenas um espelho, do ainda seu tempo, da ainda sua gente. Diz ela, desta Velha que o Kiko apanhou:
“Esta velha pertence a um grupo humano que nunca se afastou demais do chão. Nem sei se haverá nela cristianismo, mas a sua aliança espiritual faz-se decerto com natureza e os antepassados que ela integra. Não é inteiramente um indivíduo, porque pertence ao corpo da aldeia, respira, sofre e alegra-se em uníssono. Alguma coisa envolve as casas e as famílias, um calor de matilha, a concordância genética do sangue. E tudo se alicerça na memória e na grande energia da linguagem com mais longevidade e arquitectura do que as nossas cidades tecnológicas” (Imagem Passa Palavra, p. 118).
Confesso que já nem me intriga a persistência desta ideia do africano em comunhão com a natureza, uma comunhão que é também com os seus, pois eles próprios tão naturais. Tamanha que esse “indivíduo” ainda não brotou em gente magma. Nem tampouco despontou esse deus, cristão claro, deus superior porque apartado do meio envolvente, natureza e antepassados; e que destes aparta, que se crê num deus produtor de indivíduos, que a sua graça é também a razão, uma estranha teologia tantas vezes inconsciente, mas enfim…
Esta constante crença no homem natural em África, deficitário pois claro, surge por vezes negativa, apenas racista ou somente sofredora com a, ainda assim, magestosa selva a la Conrad - e isso que tanto se nota por cá, com tanta gente chamando “mato” aquilo que foi desmatado (e cultivado) pela população.
Mas, e como neste caso, surge também como se positiva, num fado do bom selvagem. Como o encontram não sei - ao ler isto saltou-me, do fundo da memória, uma Hélia Correia aqui vinda em 1997 por mão do Travessias/Identidades, em absoluto êxtase naturalista com esta “África tão pura” que encontrava nos meandros dos prédios de Maputo.
Já disse, não me intriga a persistência destes preconceitos. Nem me choca o evolucionismo ignaro neste tipo de textos tão bem-intencionados, até querendo-se poéticos. Nem o racismo explícito (não, não é implícito!) ainda que tão apreciador e até solidário. Pois textos destes são espelho violento de quem, afinal, não percebe nada do seu próprio meio e do seu próprio eu, e como tal se desnuda no imaginar de tantos deficits alheios.
Atropelamentos
Abril 5th, 2004 — Europa-África, Roupa Velha
Hoje telefona-me um colega amigo, abatido. Durante o fim-de-semana teve a infelicidade de atropelar mortalmente um peão, uma situação malfadada que lhe foi completamente impossível de evitar. E, em pleno grande Maputo, após alguns minutos no local do acidente, esperando os socorros já então inúteis, teve que fugir do local aproveitando a boleia do primeiro carro que passou, pois o linchamento ia iniciar-se.
Sem leituras apressadas logo me surgem estes episódios como demonstrativos do profundo hiato existente entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, desse extraordinário signo de distinção. Gente de um outro mundo, culpada de imediato. Atropelamentos feitos catarse de uma extrema estratificação?
O Obelisco de Axum
Fevereiro 11th, 2004 — Europa-África
A questão da devolução de itens cruciais do património cultural é vasta, e de nada serve abordá-la a correr (a meio de uma manhã de trabalho então nem pensar). Mas a pausa do café dá para saudar este caso particular. E lembrar que este não é nada um caso particularmente africano, como o demonstram as reclamações gregas junto ao Reino Unido. Como o lembrou, deliciosamente, V. Graça Moura na carta dirigida ao Ministro (dos Negócios Estrangeiros?) francês no ano passado, a reboque da questão iraquiana, então exigindo a devolução do produto das pilhagens napoleónicas
Sem dogmatismo esta é questão em que cada caso é um caso. Lembro o impacto que teve na África do Sul, também no ano passado (?), a devolução dos restos mortais da mulher Khoi-San levada para a Europa nos inícios do século XIX como curiosidade científica e circense.
Finalmente, regressar a esta notícia, citando-lhe um aspecto que abala algumas certezas incertas com que vamos olhando para estas questões: “Até aqui os governos italianos tinham recusado todos os pedidos de devolução, garantindo que a Etiópia não estava em condições de assegurar a sua preservação. Mais de 60 anos depois, a realidade vem provar o contrário: o obelisco que ficou em Roma foi atingido por um raio e está muito danificado pela poluição, os dois monólitos que ficaram em Axum encontram-se em perfeito estado de conservação.” refere o Público.
Enfim, caso a seguir com interesse. Até pelas implicações de precedente que poderá vir a ter
MIL DESCULPAS
Janeiro 27th, 2004 — Cooperação, Europa-África, Roupa Velha
Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.
Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.
É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.
Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.
A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim…
Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.
Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.
A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito…Ir até ao núcleo ver as novas obras?…é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande… Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.
Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me…? …chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver …? nada, quem sou eu … não resolvo nada… a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves… não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me…
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Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.
Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro… O qué? … o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.
Qué?…afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não…também vocês, têm cada ideia!
Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.
[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]
Dezembro 17th, 2003 — Europa-África, Globalização
Acabadinho de roubar do “Jogo”…
“Joseph Blatter disse o que lhe vai na alma ao prestigiado “Financial Times”. O presidente da FIFA não usou de meias palavras para definir o estado actual do desporto-rei: “Os principais clubes europeus funcionam cada vez mais como verdadeiros neocolonialistas, implicando-se na violação social e económica, ao roubarem aos países em desenvolvimento os seus melhores jogadores“.”

