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Janeiro 9th, 2010 — Europa-África, Politica Portuguesa, Sociedade portuguesa

por ABM (Cascais, 8 de Janeiro de 2010)
O exmo leitor que desculpe a imagem, só queria ver se andava mesmo à roda.
Enquanto serenamente lia os meus e-mails ao fim desta manhã, a estação de rádio lisboeta TSF transmitia ao vivo do parlamento português a gritaria que pelos vistos antecedeu a votação (e posterior aprovação, a crer nas notícias) de um diploma que, a ser ratificado pelo presidente da República, extende, com uma aparente interdição à adopção, o casamento civil a pessoas do mesmo sexo.
A interdição à adopção por estas pessoas é, parece-me um preciosismo algo insípido senão inconstitucional por via do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, na actual conjuntura manda mais que o que quer que seja que os parlamentos da União Europeia legislem. Mas, hipoteticamente, se então se levar até às últimas consequências esse raciocínio, o Estado deveria também tomar providências para confiscar os filhos a qualquer pai ou mãe que pratiquem aquilo com alguém da mesma persuasão sexual.
Decorre, não é?
A parte que achei mais piada foi aquela em que, aludindo a uma sugestão creio que de um senhor qualquer do PSD, que o tal de casamento civil não fosse chamado “casamento civil”, um outro senhor qualquer do PS perguntou, alarmado, que anotação se inseriria então, quanto ao estado civil, nos bilhetes de identidade dos, presume-se, felizes usufrutuários (e usufrutuárias) desta medida.
Recordo que as actuais opções são: solteiro (SOLT), casado (CAS), divorciado (DIV) e víuvo(VIU).
Atenta, a Patroa postula que os gays são todos gajos porreiros mas um tanto destravados e concorda que o nome deve ser reservado para a Heteromaioria e sugere o termo “contrato de união”.
Sendo que nesse caso a abreviatura a aparecer no BI seria, naturalmente … “CU”.
Como os exmos leitores podem ver, enquanto se afunda alegre e suavemente numa lama de dívidas e de insustentabilidades, o desemprego já a 10.3% e a agravar-se, o país dos lusos enfrenta decisões traumatizantes como esta: qual a abreviação a pôr no BI para isto do casamento das pessoas do etc e tal.
Também a crer nas notícias, o carnaval ainda vai durar uns tempos até que o assunto esteja resolvido.
Confesso que o que me chocou mais (num contexto em que já quase nada me choca, claro) foi quando há alguns anos passou-se uma fascinante legislação a regular uma coisa fantasmaglórica chamada “união de facto”. Essa, sim, um verdadeiro atentado ao casamento civil, mas na altura poucos sequer comentaram. E está na lei.
Boa sorte a todos.
Interessante coincidência foi ter-me hoje apercebido, via a BBC World Television há bocado, e que confirmei, de que, na nação africana do Uganda, a conversa vai precisamente na direcção contrária: para além de legislação draconiana contra quaisquer vislumbres de homosexualidade na população, os legisladores ali queriam afinar ainda mais a coisa para incluir, entre outros embelezamentos que incluiam a pena de morte para certos actos de violência lá tidos como parte do que lá consideram “homosexualidade”, os seguintes:
- a proibição e criminalização da discussão da homosexualidade em público.
- a proibição e criminalização do aluguer de casas ou apartamentos a casais do mesmo sexo (presumo que espreitando à noite pela janela para ver se os ditos andam a fazer aquilo).
Precise-se que, nos termos do código civil local, qualquer manifestação de homosexualidade neste momento já é ilegal e punível por lei, nalguns casos com a pena de prisão perpétua.
Segundo a notícia que li, pressionados pelos EUA e pela União Europeia, que acham aquilo um bocadinho exagerado, os políticos ugandeses, que afinal são todos uns gajos porreiraços e boa gente, estão a pensar atenuar vagamente a coisa um nadinha apenas, para calar os doadores que no fundo os sustentam, passando tudo o que é morte por fuzilamento para uma mais amigável pena de prisão perpétua.
Como aquilo é mais ou menos uma ditadura, quem vai decidir tudo no fim é o presidente, o Senhor Museveni, que já teve o seu país nas notícias por melhores assuntos que perseguir os seus cidadãos que fazem aquilo. uns com os outros.
* descrição do acto sexual na língua ronga, falada no extremo sul de Moçambique.
Outubro 31st, 2009 — EUA, Europa-África

por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)
Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.
Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.
Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.
Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.
Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.
Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.
Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.
Era outro mundo.
Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.
Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13″ com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.
Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.
Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.
Setembro 28th, 2009 — Europa-África

DE ABM - Nicolas Sarkozy, o Presidente da República Francesa, fez no dia 23 de Setembro um discurso interessante na sessão de abertura da 64ª AG da ONU, em Nova Iorque, em que fez eco das suas perspectivas sobre o mundo actual e que merece leitura atenta (ver o texto original do discurso e o vídeo do discurso).
Interessante foi quando disse (pardonnez-moi, vai em francês) o seguinte sobre África:
Nous savons ce qu’il nous reste à faire, élargir /le cercle des membres permanents et non permanents du Conseil de sécurité. Je le dis au nom de la France, il est inacceptable que le continent africain n’ait pas un seul membre permanent au Conseil de sécurité, c’est inacceptable, parce que c’est injuste. Il est inacceptable que le continent sud-américain, avec cette grande puissance qu’est le Brésil, que l’Inde avec son milliard d’habitants, ou encore le Japon ou l’Allemagne soient exclus des membres permanents du Conseil de sécurité. C’est inacceptable et je le dis ici, il en va de la légitimité de l’ONU. Soit l’ONU se réforme et elle sera plus légitime, soit l’ONU choisit l’immobilisme et les grandes décisions, hélas, se prendront à l’extérieur de l’ONU.
Ok. Toda a gente sabe que o Conselho de Segurança das Nações Unidas é uma estrutura que espelha mais ou menos o equilíbrio de forças tal como era em fins de 1945, especialmente a composição e os poderes dos seus Membros Permanentes. Nesse grupo, que inclui os EUA, o Reino Unido e a França, a constituição da ONU a China Nacionalista foi trocada pela China de Mao em 1971 e a União Soviética pela Rússia em 1991. De resto ficou tudo mais ou menos na mesma.
O Conselho de Segurança (cuja sala tive o prazer único de visitar no ido verão de 1981, guiado pela Mrs. Ruth Bunche, viúva desse gigante americano e Prémio Nobel que foi Ralph Bunche e que tinha um daqueles passes que dava acesso a toda a parte dentro do edifício da ONU) foi protagonista de muitos, grandes e tensos momentos da Guerra Fria. Mas desde há bastante tempo que se critica a sua estrutura e normativos. O Brasil e a Índia, para não ir mais longe, não são membros permanentes. E – como Sarkozy fez o favor de recordar, o continente africano não está representado. Mas a verdade seja dita que com um cocktail de países que incluem o Egipto, o Sudão, a Líbia, o Congo e a Nigéria, não se vislumbra a fórmula para se chegar a uma almejada representatividade africana.
No cerne da questão está o facto de que aos membros permanentes do CS é acordado o direito de vetarem as resoluções. Isto é, qualquer um dos cinco membros permanentes pode vetar decisões para acções, mesmo que todo o CS vote a favor.
Ora a questão do aumento do número de membros permanentes coloca imediatamente e no mínimo a questão da eficácia e operacionalidade do Conselho, pois aumenta o número dos membros que pode vetar uma resolução. Mais importante, os actuais membros permanentes têm perfis relevantes na cena internacional: todos são potências nucleares, são economicamente relevantes, todos mantêm um poderio militar considerável e todos têm uma forte capacidade de mobilização de forças e de opinião em casos de crises ou disputas.
Segundo, se na América Latina o Brasil seja por exemplo uma escolha lógica (e quanto a isso os Exmos Leitores dos outros países que se pronunciem) em África a escolha de um país para membro permanente complica-se enormemente. Quase nem sei por onde começar.
Terceiro, e decorrente do ponto segundo, a questão da representatividade geográfica parece politicamente correcta à primeira vista, só que há um pequeno detalhe: no CS os países representam-se a si próprios e aos seus interesses acima de tudo. Não falam por regiões, por raças, cores ou credos. Podem, por conveniência de ocasião, dizer que o fazem, e até que agem em prol da Humanidade, da Democracia, mas tal não é nem pode ser verdade.
Portanto, de que falava o Senhor Sarkozy? Porquê usou o palanque na sala da AG da ONU há uns dias para defender a inclusão de um país africano no CS?
A meu ver, porque fica-lhe bem. Fica bem à França – ela própria um dos membros permanentes cuja lógica de permanência será hoje e cada vez mais e mais dúbia dado o que se acima configura. Fica bem falar antes dos outros daquilo que se sabe um dia terá que ser feito (de alguma forma) mas que na verdade não há qualquer consenso em como se deve fazer. E muito menos quando. Mas naturalmente recebeu palmas da platéia quando o disse.
Ao contrário da AG, onde todo e qualquer país pode botar a sua proverbial posta de bacalhau quando e como quiser, o CS é sobre um jogo de poderes muito mais real e efectivo. É sobre a representatividade, naquela organização, desse poder. Sim, um dia a Índia e o Brasil poderão encontrar-se lá representados. Mas um país africano? Quem? Porquê?
Isso Sarkozy não explicou.
Prevenido, vou esperar sentado por esse dia.
Setembro 2nd, 2008 — Descolonização, Europa-África
Cinco mil milhões de dólares durante 25 anos, eis o que Berlusconi – decerto que insuspeito de leituras “pós-coloniais” – anuncia como compensação pela presença colonial italiana na Líbia. Oscilo entre o sorriso (paga o Estado italiano, lucrarão as empresas italianas?) deste estreitar de laços e o esgar – aberta que assim está a Vasilha de Pandora: qual o poder actual que não pedirá a coima devida ao ex-colono? (Interessar-me-ão, fundamentalmente, os mecanismos de definição dos respectivos agentes …)
Dezembro 30th, 2007 — Europa-África, África do Sul
(18.12.2007) Ainda a Cimeira Europa-África: “Nova Era” de relacionamento; respeito por “direitos humanos”, políticas de “desenvolvimento”, apoio à “transparência”, implementação da “boa governação” [aka "governância"]. Depois? Depois Zuma.
Enfim, a insustentável melodia retórica face ao ritmado do real.
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África, Portugal-África
Há dois anos o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. Nessa altura Socrates incentivou o poderoso visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-”palop”.
Na época foram declarações que passaram mais ou menos despercebidas – que me lembre só Paulo Gorjão as ecoou. A mim ocorreu-me algo mas deixei seguir.
Não tanto sobre a auto-menorização que isto significava, deixar entender sociedade e economia portuguesas como mero “oliveira de figueira”. Indicaria isso um projecto? Mas não era bem isso que se me despertou, crítica até talvez um pouco patrioteira, concedo.
O que me arrepiou nessas declarações foi o demonstrarem desatenção e até desentendimento sobre o que se passa(va): em substância ali estava uma declaração de menoridade aos Estados e economias africanas, como se estas precisando de serem tutelados na sua extroversão (erro político – que decerto não passou despercebido – e que se paga caro); e ainda uma menoridade chinesa nas suas relações internacionais (erro que se paga[rá] bem caro), tanto do ponto de vista do seu potencial económico como da sua capacidade negocial e diplomática [já agora, falam as línguas, enquanto 450 anos em Macau não foram suficientes para criar um tradição sinófila portuguesa].
Mas, fundamentalmente, significou (ou transpareceu) a desatenção para uma mudança de paradigma nas relações internacionais com África: ao invés do que agora se geme a chegada chinesa não criou a depredação ambiental (opõe-se sim aos tímidos esforços ecológicos deste início de milénio). A chegada chinesa assumiu-se como opção, e é assim entendida, ao paradigma da “cooperação” desde os anos 90s – com eles não há imposições de “condicionalidade política” ou de “boa governação” (parece que agora é “governância” …). O multipartidarismo pode dirigir-se para o velho modelo mexicano de democracias multipartidárias de partido único e, entre outras coisas, as administrações estatais africanas não terão que seguir uma agenda burocrática estabelecida em torno das metodologias (e laboriosos procedimentos) impostas por Cotonou e as respectivas fiscalizações. Que mais pedir? E também os cientistas sociais deixam de estar prisioneiros da dificil equação (e de complexa comprovação histórica): democracia=desenvolvimento.
Pois nessa altura Portugal, pela voz do P.-M. Socrates, enquanto integra(va) o pelotão europeu, o qual neste contexto é tantas vezes conduzido pelos “puritanos” escandinavos, oferecia-se para mediar o torpedear da sua (europeia) política africana. Desatenção? Ou maquiavelismo? A história responderá.
Adenda: sobre esta questão da política europeia sobre África não resisto a citar o excelente Kontratempos. Em texto com o qual concordo em parte substancial interessa-me a sua semântica do texto: a China não está interessada no desenvolvimento, transparência ou direitos humanos em África. Algo com que concordo (enquanto dou graças pelo facto dos bancos suíços não pertencerem à União Europeia). E a China tem uma “presença tentacular” em África.
Depois rimo-nos (ou protestamos) com o Kadhafi e com o Mugabe a falarem de colonialismo e isso. Munições ofertadas por europeus, diga-se. Em particular os das boas intenções.
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África, Zimbabué
Copo em copo, nisto do rescaldo da cimeira África-Europa. E do Mugabe, claro. De como sai reforçado (mais tarde, na noite da rtp António Vitorino intervala a negociação pós-Cahora Bassa para os seus “quinze minutos de propaganda” e dirá que Mugabe saiu enfraquecido da cimeira. Claro que não, e Vitorino sabe-o, de parvo não tem um grama que seja) – Mugabe pôs os brancos no lugar, foi lá à cimeira e botou o que quis. Sai reforçado, até cair de velho e então se gerar o pós-ditaduras gerontocráticas de sempre. Apoiado por pares e elites políticas vizinhos, por elites intelectuais (até blogs moçambicanos de ilustres académicos lhe incensam ter feito mal aos brancos), por “gente comum” (que é uma coisa que somos todos, mas alguns não acreditam).Copo em copo diz-me um amigo, conhecedor da minha terra: “isto de pôr a gente a dizer mal do Mugabe será como pôr os tipos do bloco de esquerda a dizerem mal do Fidel Castro“. No alvo …
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África, Memórias, Portugal-África
Abaixo poderei ter aparentado desmerecer os protocolos político – diplomáticos. Mas será uma mera aparência, apenas me desgostei com a superficialidade jornalística. Pois os protocolos significam … A esse respeito lembro-me de uma história exemplar que há anos me foi contada, durante uma recepção, pelo então embaixador britânico (Alto Comissário, ainda insistem a dizer), devastado com o incidente.Corria 1999 e a Raínha Isabel II veio a África, visitando três países: presumo que o Quénia, depois a África do Sul e, para terminar, Moçambique. Aqui curta visita, mas muito simbólica, pois o país tinha recentemente aderido à Commonwealth no seu particular estatuto de único membro que não foi possessão britânica. E lembro ainda do frisson que cruzou a cidade na expectativa da ilustre visita.
O perfil da deslocação era explícito quanto seu conteúdo simbólico. Saindo de Joanesburgo a comitiva aterraria em Maputo logo de seguida, cerca do meio-dia, participaria num banquete oferecido pelo então Presidente Chissano e de imediato partiria para Londres, numa visita particularmente cronometrada. Assim aconteceu.
O avião real aterrou em Mavalane, a comitiva dirigiu-se ao Hotel Polana onde Isabel II e o príncipe consorte descansaram breves momentos nos aposentos reservados para o efeito. Às 13 horas saíram para o almoço presidencial, cruzaram de novo o reverente Polana e entraram na limusine estacionada à porta, encabeçando a comitiva que se deslocava para a Ponta Vermelha, o embaixador no carro imediatamente seguinte, precedidos da tradicional escolta motorizada, essa que mistura simbólico estatutário com a necessária segurança.
Entrado no carro o casal real presumiu que a escolta se movimentasse, decerto que esta obedecendo a ordens. Mas aí ficaram, esperando. Então Filipe, o príncipe consorte, saíu do carro, dirigindo-se para a escolta (ali estacionada ao portão do hotel), braço no ar gesticulando, o embaixador aflito correndo atrás dele, “o homem é muito alto“, veio-me ele a dizer sublinhando o efeito cénico (e, presumo eu, já imaginando o seu futuro profissional num bunker de Argel ou Cabul). Protestava, desabrido, o príncipe “Ou avançamos já ou seguimos de imediato para o aeroporto!”, assim originando de imediato a partida da comitiva para o destino previsto.
“Dois minutos“, foi a espera, “dois minutos, se tanto“, lamentava-se o embaixador. Ainda aflito.
Mas, claro, conhecedor das linguagens do protocolo. Significantes, hiper-significantes.
Dezembro 9th, 2007 — Europa-África
Cimeira África-Europa, reportagem centrada na parte social e nos discursos protocolares. Significativo. Ecoa-se o discurso inaugural de José Socrates, anfitrião, coisa da presidência da União Europeia. Diz aos participantes que “estamos aqui entre iguais”. Haverá outra forma formal? Quem escreve os discursos? Quem os aprova?
Dezembro 9th, 2007 — Europa-África, Imprensa Portuguesa
Telejornal da RTP (canal estatal, serviço público), a saber coisas da cimeira África-Europa. Excitação editorial, do banquete, “por esta porta entraram para a sala do banquete” diz a petiza do microfone, em directo. Quem está à mesa, quem não está, como entraram, onde se sentaram, enfim, decerto que as coisas substantivas que ocorreram à direcção de informação para serem perseguidas. Termina a reportagem (a seguir regresso ao acidente rodoviário que já abrira o estendal) com o cardápio do repasto, diz(-nos) a rapariga que o jantar será peixe (robalo, acho) “pois muitos dos convidados são muçulmanos e não se querem ferir susceptibilidades“. Valerá a pena comentar? Registar?
Dezembro 6th, 2007 — Europa-África
Janeiro 8th, 2007 — Citações, Europa-África, George Steiner
“Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)
“E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pos-voltairiano.A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as furias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (…) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparavel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)
*No texto traduzido “aplicarmos”, mas presumo que seja gralha
George Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] – atente-se na data da edicao original.
Junho 28th, 2005 — Europa-África
na sua primeira deslocação a África no seu actual posto esteve cá este fim-de-semana (depois da África do Sul e antes do Congo – sempre me fascinou a resistência física de alguns políticos, em especial os ligados à política externa. Autênticos atletas).
Dois pontos: um, de vital importância económica mas ainda mais simbólica. Foi assinado o acordo de financiamento para a ponte sobre o Zambeze (UE + 2 países membros, talvez Itália e Holanda, não estou certo, e qualquer jornal o poderá indicar). Algo absolutamente crucial, finalmente possibilitando uma ligação rodoviária directa norte-sul. Pois a ponte D. Ana (Sena-Mutarara) é uma alternativa muito falha, ainda que as estradas secundárias aí sejam uma maravilha paisagística – mas falo de economia, não de passeios.
O segundo é o que transpira. Moçambique é um dos países topo no universo ACP, no respeitante à utilização da ajuda externa europeia (Lomé/Cotonou). Diga-se mesmo topo, topo, topo. Ao que consta não há melhor. E é um constar não moçambicano. Mérito de quem aqui executa, os nacionais e os expatriados.
Um bom amigo moçambicano a quem avanço este nada diz-que-diz logo remata, irónico (mas agradado) “Hi, como serão os outros!…”. Sim, como serão os outros. Mas ao mesmo tempo, uma brecha no niilismo de alguns. Os niilistas daqui e os niilistas de além. É um suporte ao gradualismo. Esperemos que assim continue.
E um abraço a alguns dos meus amigos gradualistas.
(O gradualismo não é moralista. Nem fervoroso do óptimo. É desenvolvimentista.)
Junho 21st, 2005 — Cooperação, Europa-África
Devagar, lá se aflora a política blairiana (Anglo-americana) para África, e começam as críticas, claro está, como se ecoa aqui por exemplo. (Dentro de em breve veremos Bush ser acusado de estatista, de esquerdista, de etc e tal).
Em tudo isto está presente, lá no fundo, a angústia da intervenção política na economia. E daí o primado da recusa da política de ajuda.
Honestamente não creio que mais Ajuda Internacional e que o Perdão da Dívida venham resolver o problema do desenvolvimento em África. Tenho muitas dúvidas, tal a complexidade do(s) problema(s). E tal o(s) constrangimento(s) do(s) mercado(s). E porque também me parece que uma metodologia ultra-liberal não arrancará África do subdesenvolvimento.
Mas tudo isto não cabe num post. Não por falta de espaço. Acima de tudo por falta de saber deste Jpt. E neste caso se tivesse algo a dizer de relevante, relevante mesmo, ia vendê-lo, não o machambava gratuito. Mas não tem.
Tem apenas isto, o gemido da corrupção, da falta de liberdade, da inutilidade desta política, desta crescente ajuda e perdão de dívida, ancora não só no referido dogma da intocabilidade da economia. Ancora também numa monumental ignorância. Ignoram os processos político-económicos liberalizadores que foram adoptados/impostos/induzidos e controlados numa variedade de países africanos. Se correctos, benfazejos, desenvolvimentistas, não é o que discuto. Mas que desde há, grosso modo, 15 anos foram espalhados: desestatização das economias e das sociedades, democratização multipartidária, primado da good-governance. Em alguns países surgiu a imagem (tão portuguesa) do “bom aluno”, noutros não.
Não digo que funcione, não juro a certeza. Mas vir, a seco, agitar papões sem olhar para o processo, semicerrando os olhos a essa “áfrica” todajuntamiserávelselva, isto é duracell, “e escrevem, e escrevem, e escrevem”…
Junho 12th, 2005 — Europa-África, Mundo, Portugal-África
O perdão da dívida a 18 países paupérrimos. Agora. Outros, faseados, se seguirão. Uma grande campanha internacional, uma grande iniciativa política. Não a resolução do problema da pobreza radical, mas também não mero paliativo. E também semi-corolário de um conjunto de dispositivos político-administrativos impostos e apoiados. Portanto não apenas dádiva.
Moçambique foi abrangido, por ser do clube dos mais pobres, triste título. Mas por ter realizado ou estar a realizar vários dos processos sugeridos e/ou impostos. Apesar do niilismo (exógeno mas às vezes também endógeno), esse que se recusa a ver coisas boas porque as há más.
[Recordo que no final do milénio passado, ainda no tempo do ministro das finanças Sousa Franco, Portugal perdoou grande parte da dívida moçambicana, acho que 82%, não estou certo. Um bom passo na altura. Mas nem isso conseguem estrategizar. Mais que não fosse isso.
Constato, nada surpreendido o relativo silêncio português sobre o assunto. Nada que tenha visto na imprensa nos últimos dias. Ontem na RTP o telejornal deu a notícia lá para o fim, apenas um pouco mais de tempo do que o desabamento de terras na China e o Harrods com produtos portugueses, o sal português como coqueluche agora, é assim que lá se olha o mundo. Sobre a questão nem um comentador, nem um comentário, nem um especialista, nem um político. Uma vergonha, este umbiguismo, este vazio.
Hoje nos jornais "de referência" portugueses nem uma chamada de primeira página. No bloguismo luso pouco pouco, que tenha visto (uma pequena parcela, que ele é já infinito, país que somos de bloguistas) apenas uma ou outra referência. E, perdoem-se-me os maus fígados, mais referências ao Sr. Blair, socialismo oblige, do que à verdadeira questão.
Esmorece o país no pequeno quotidiano. E quando, em bico-de-pés, espreita para além do muro ainda o faz apenas a alimentar as tricas internas. Nem cabotagem é, mera lagoa. Ou charco?
A ver vou o telejornal público. Será que acordaram, na ressaca do tintol e da sardinhada?]
adenda: a desradicalizar a coisa, que nos blogs se vai falando: The Serendipitous Cacophonies, o Golfinho (Bono, pois claro) entre decerto muitos outros. Não será um must, mas há gente atenta, bem haja.
Junho 12th, 2005 — Europa-África, Mundo
Um pequeno passo para a banca, um grande passo para a humanidade.
Estamos todos de parabéns.
[em português, e mais detalhado: aqui. Ambas as notícias estão transcritas abaixo]
(Sunday, June 12, 2005 Posted: 0654 GMT)
G8 ministers back Africa debt deal
LONDON, England — Finance ministers from the world’s wealthiest nations have agreed to a historic accord to cancel up to $55 billion worth of debt owed by the world’s poorest nations.
The Group of Eight (G8) ministers — meeting for a second day Saturday in London — backed a deal that calls for an immediate scrapping of 100 percent of the debt owed by 18 countries.
Those countries — many in sub-Saharan Africa — owe about $40 billion to the World Bank, the International Monetary Fund and the African Development Bank.
The G8 ministers also said 20 other countries could be eligible for debt relief if they meet targets for good governance and tackling corruption — bringing the total package to more than $55 billion.
British Finance Minister Gordon Brown called the accord a “new deal” for relations between the rich and the poor countries.
“What we have decided today, conscious of the poverty that we face, is a decision of 100 percent debt cancellation for the poorest countries backed up by greater trade justice, by a doubling of European aid, by a commitment to provide AIDS treatments for people by 2010,” said Brown.
Finance ministers from the United States, Britain, Japan, Canada, Russia, Germany, Italy and France agreed to the package ahead of a G8 summit July 6-8 in Gleneagles, Scotland. (Special report).
Hopes of an accord on debt relief were raised Friday with reports of an agreement between the United States and Britain on writing off debt owed by the 18 countries. (Full story)
The countries are Benin, Bolivia, Burkina Faso, Ethiopia, Ghana, Guyana, Honduras, Madagascar, Mali, Mauritania, Mozambique, Nicaragua, Niger, Rwanda, Senegal, Tanzania, Uganda and Zambia.
Sub-Saharan Africa owe about $68 billion to international lending agencies.
Saturday’s accord is aimed at helping countries free up funds used for debt repayment in redirect the money to health care, education and other needs. One of the major issues that these countries face is the AIDS crisis.
“A real milestone has been reached,” U.S. Treasury Secretary John Snow told reporters.
“Lifting the debt burden from the poorest countries in the world brightens their prospects enormously. This is an achievement of historic proportions.”
He also said “we did that because as we looked at the situation, there was something fundamentally wrong about this cycle of lend and forgive, lend and forgive, which had borne down upon the poorest countries for decades.”
The agreement was greeted with less enthusiasm by some.
Stephen Rand, of the Make Poverty History campaign, said this is “good news, but more needs to be done.”
“This is some of the debts of some of the world’s poorest countries. And we have been campaigning for that 100 percent to be 100 percent of all the debts of all the world’s poorest countries,” Rand said.
Make Poverty History is a coalition dedicated to the eradication of poverty
British Prime Minister Tony Blair — current G8 president — had demanded that poor countries’ debts be cancelled and their aid doubled.
The debts would be written off by the lenders in an effort to allow the debtor countries to start fresh, get their books in order and eventually be able to borrow again for economic development, health, education and social programs, rather than simply to repay existing loans.
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(Diário de Notícias, 12.06.05)
Reunião do G8 perdoa dívida de 18 dos países mais pobres
Acordo anula dívidas de 33 mil milhões de euros ao Banco Mundial, FMI e BAD
Os ministros das Finanças dos países mais ricos do mundo chegaram ontem a um acordo histórico em Londres, anulando de “imediato” a dívida externa pública de 18 dos países mais endividados do mundo – cujo valor é de 40 mil milhões de dólares (33 mil milhões de euros).
Contudo, o acordo sobre as dívidas – ao Banco Mundial (BM), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) – é mais vasto, pois abrange 38 países e envolve 55 mil milhões de dólares (44 mil milhões de euros). Assim, nos “próximos 12 a 18 meses” será anulada a dívida de 11 mil milhões de dólares (8,8 mil milhões de euros) a nove outros países e, desde que cumpram os “critérios necessários” (combate à corrupção, respeito pela democracia), o mesmo será feito aos 4000 milhões de dólares (3,3 mil milhões de euros) de outros 11 Estados.
No final da reunião de dois dias dos ministros das Finanças do G8 – Alemanha, Canadá, EUA, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia -, o titular das Finanças britânico, Gordon Brown, não escondia a sua satisfação “Estamos a apresentar a maior declaração alguma vez produzida pelos ministros das Finanças sobre a questão da dívida, da ajuda ao desenvolvimento e da luta contra a pobreza.”
Os países cuja dívida será anulada de imediato são Benim, Bolívia, Burkina Faso, Etiópia, Gana, Guiana, Honduras, Madagáscar, Mali, Mauritânia, Moçambique, Nicarágua, Níger, Ruanda, Senegal, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.
Os que verão a sua dívida anulada dentro de 12 a 18 meses são Camarões, Chade, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau, Malawi, República Democrática do Congo, São Tomé e Príncipe e Serra Leoa.
Os outros 11 países que também poderão beneficiar do acordo são Angola, Burundi, Burma, Costa do Marfim, Comores, Congo, Libéria, República Centro-Africana, Somália, Sudão e Togo.
A maioria destes países já integra a Iniciativa para os Países Pobres Altamente Endividados, criada em 1996 para perdão de dívidas.
Gordon Brown, grande mentor do chamado “Plano Marshall para África” – que permita alcançar os chamados Objectivos de Desenvolvimento para o Milénio (definidos pela ONU) -, não viu alcançado já outro dos objectivos da presidência britânica do G8 duplicar para 100 mil milhões de dólares (82 mil milhões de euros) o montante da ajuda aos países mais pobres.
Porém, a um mês da cimeira dos chefes de Estado e de Governo do G8, que se realiza na Escócia (6 a 8 de Julho), os seus ministros das Finanças propuseram também a criação de um fundo (a financiar voluntariamente, em especial por produtores de petróleo) para ajudar países afectados pelas variações de preços das matérias-primas.
Tendo em conta as reservas que a França e a Alemanha colocavam à capacidade das organizações financeiras internacionais poderem continuar a ajudar os países pobres, o acordo estabelece que os Estados mais ricos compensarão o BM e o BAD. Quanto ao FMI, recorrerá a fundos próprios e, em caso de dificuldade, aos países doadores.
Até à cimeira da Escócia, os membros do G8 vão trabalhar dois outros instrumentos de ajuda aos países altamente endividados. O primeiro, proposto pela França e apoiado pela Alemanha, visa aplicar uma taxa aos bilhetes de avião que reverterá para aqueles Estados. O segundo, apresentado por Londres, cria um novo mecanismo financeiro (International Financial Facility) para obter 50 mil milhões de dólares (duplicando o montante da ajuda ao desenvolvimento).
O “acordo histórico”, nas palavras do secretário do Tesouro norte-americano, John Snow, deverá ter uma outra consequência “desmotivar” as centenas de milhares de manifestantes que iriam acompanhar a Cimeira da Escócia.
Além das agências humanitárias que saudaram o acordo, apesar de não abranger “pelo menos outros 40 países”, segundo um responsável da ActionAid, também os músicos irlandeses Bono e Bob Geldof (organizador do concerto Live8, a 2 de Julho) o fizeram. “Pela primeira vez, 280 milhões de africanos acordarão amanhã sem dever” um cêntimo, disse Geldof.
Junho 1st, 2005 — Europa-África
- Sim, sim…bem, tira lá o Ruanda.
- Porquê?
- Porque é diferente dos outros.
- Porquê?
- Bem … uhhhh, uhhhh…
- Porquê?
- Bem … uhhh, uhhh … bem, aqui só entre nós esse não me serve para as minhas discussões.
- Porquê?
- Bem…uhhh, uhhh, tu também….enfim, esses gajos não são pretos?
- Porquê?
- Bem … és um mal-criado.
- Porquê?
- Adivinho o que estás a pensar.
- Uhhh…Uhhh
Novembro 28th, 2004 — Europa-África, Fotografia Moçambique, Hélia Correia, Literatura, Rui Assubuji

(Rui Assubuji)
Sim, já aqui deixei esta Velha que o Kiko captou algures, e que nos é oferecida no livro colectivo Imagem Passa Palavra.
Mas trago-a outra vez, por ela que tanto o justifica, mas também pelo texto que a acompanha, “A Velha a Rir“. A autora, Hélia Correia, é escritora, não lhe exijo requebros e cuidados de ensaísta, de gente das academias, a esculpirem conceitos antes das botaduras (e quantas vezes assim a tudo esfarelarem). Escritora, Hélia Correia, é aqui apenas um espelho, do ainda seu tempo, da ainda sua gente. Diz ela, desta Velha que o Kiko apanhou:
“Esta velha pertence a um grupo humano que nunca se afastou demais do chão. Nem sei se haverá nela cristianismo, mas a sua aliança espiritual faz-se decerto com natureza e os antepassados que ela integra. Não é inteiramente um indivíduo, porque pertence ao corpo da aldeia, respira, sofre e alegra-se em uníssono. Alguma coisa envolve as casas e as famílias, um calor de matilha, a concordância genética do sangue. E tudo se alicerça na memória e na grande energia da linguagem com mais longevidade e arquitectura do que as nossas cidades tecnológicas” (Imagem Passa Palavra, p. 118).
Confesso que já nem me intriga a persistência desta ideia do africano em comunhão com a natureza, uma comunhão que é também com os seus, pois eles próprios tão naturais. Tamanha que esse “indivíduo” ainda não brotou em gente magma. Nem tampouco despontou esse deus, cristão claro, deus superior porque apartado do meio envolvente, natureza e antepassados; e que destes aparta, que se crê num deus produtor de indivíduos, que a sua graça é também a razão, uma estranha teologia tantas vezes inconsciente, mas enfim…
Esta constante crença no homem natural em África, deficitário pois claro, surge por vezes negativa, apenas racista ou somente sofredora com a, ainda assim, magestosa selva a la Conrad – e isso que tanto se nota por cá, com tanta gente chamando “mato” aquilo que foi desmatado (e cultivado) pela população.
Mas, e como neste caso, surge também como se positiva, num fado do bom selvagem. Como o encontram não sei – ao ler isto saltou-me, do fundo da memória, uma Hélia Correia aqui vinda em 1997 por mão do Travessias/Identidades, em absoluto êxtase naturalista com esta “África tão pura” que encontrava nos meandros dos prédios de Maputo.
Já disse, não me intriga a persistência destes preconceitos. Nem me choca o evolucionismo ignaro neste tipo de textos tão bem-intencionados, até querendo-se poéticos. Nem o racismo explícito (não, não é implícito!) ainda que tão apreciador e até solidário. Pois textos destes são espelho violento de quem, afinal, não percebe nada do seu próprio meio e do seu próprio eu, e como tal se desnuda no imaginar de tantos deficits alheios.
Novembro 7th, 2004 — Europa-África
A reacção francesa na Costa do Marfim, e o apoio unânime que recebeu vão ter efeitos duradouros. [textos abaixo transcritos, ainda que preveja a sua rápida desactualização]
Por um lado regressa a velha questão da separação das missões da ONU: deverão ser de “manutenção de paz” ou de “construção de paz”? Questão de implicações vastissimas. Por outro lado irá levantar inúmeras dificuldades à efectivação de novas missões. Quanto ao apoio e participação por parte dos países e organizações regionais.
É notório o desconforto, e até a ineficácia, de missões militares de manutenção de paz impossibilitadas de um efectivo uso da força – e o caso do Ruanda, mesmo que velho de dez anos, nunca nos deverá sair da mesa de cabeceira.
Mas também será notório que a afirmar-se o paradigma da utilização da força por parte das missões da ONU isso implicará que os países participantes voltem a ser, em exclusivo, “os suspeitos do costume”. Então em África nem se discutirá, com mais ou menos exércitos subcontratados, nigeriano ou outros, explicitar-se-á a velha ordem, essa territorialidade imperial que teima em subsistir nas mentes e na ordem política internacional.
E entre estas opções qual a escolher?
Ainda que compreendendo a reacção francesa será de desejar a rápida reafirmação do paradigma “manutenção de paz”. E o da multiplicidade das forças nacionais envolvidas.
YAMOUSSOUKRO, 6 Nov 2004 (IRIN) – Ivorian government warplanes bombed a French military base on Saturday, killing nine peacekeepers and wounding 31 as Cote d’Ivoire’s army continued its offensive on the rebel-held north for the third day.
The French military said a US national had also been killed in the attack on the town of Bouake, the stronghold of the New Forces group.
“We retaliated and destroyed two Sukhoi 25s [warplanes] on the ground at Yamoussoukro airport,” Col Henri Aussavy, spokesman for the French peacekeeping force in Cote d’Ivoire, told IRIN.
The order to retaliate came directly from French President Jacques Chirac in Paris.
“(He) ordered the immediate destruction of the Ivorian military resources used in violation of the ceasefire,” his office said in a statement.
Defence Minister Michele Alliot-Marie said later that five Ivorian government helicopters had also been destroyed.
The UN Security Council held an emergency meeting in New York on Saturday to discuss the Ivorian crisis.
Some 4,000 French peacekeepers along with 6,000 UN troops patrol a buffer zone that cuts through Cote d’Ivoire, dividing the world’s top cocoa producer into a rebel-held north and a government-controlled south.
A ceasefire between Ivorian President Laurent Gbagbo and the rebels had been in place for eighteen months, until government war planes launched an aerial assault on Thursday.
On Saturday, shooting broke out in the main southern city Abidjan as French forces clashed with Ivorian troops around the international airport.
Humanitarian sources in Abidjan said pro-Gbagbo militants, known as the Young Patriots, had set fire to three French grammar schools in the city and looted French property.
The militants also descended on the French military base and the offices of the UN Mission in Cote d’Ivoire (ONUCI) to demonstrate and voice their anger over the retaliatory strikes carried out by the French.
The French government said on Saturday it had dispatched three warplanes on standby to Libreville, Gabon, where France also has a military base.
“The situation is deteriorating in Abidjan,” Aussavy of the French forces said.
An anti-French demonstration was also staged at Man, a town held by the rebels in the west of the country near the border with Liberia. French military sources said the protesters threw Molotov cocktails and stones at the peacekeepers, whom they accused of not taking action against the government army.
Rebel leader Guillaume Soro made a similar complaint. “You are going to see a massacre in Abidjan,” he told IRIN on Saturday. “We are going to have a catastrophic situation because of France’s hesitation.”
The Ivorian government’s offensive began on Thursday when its warplanes unleashed bombs on the central town of Bouake, and Korhogo, another rebel stronghold further north. On Friday the air attacks continued against several towns east and west of Bouake.
Soro said on Saturday that there had been fighting on the ground between his rebel troops and the government forces in Bouake. He also confirmed the two sides had clashed in the town of Zouen-Houenien, near the Liberian border, and at the nearby Ity gold mine.
Medecins sans Frontieres, which runs a hospital in Bouake, said its emergency services had admitted 11 seriously wounded people on Saturday, bringing the total for the past three days to 50, and that more were expected.
Abril 5th, 2004 — Europa-África, Memórias
Há uns meses participei numa missão internacional aqui decorrida. No briefing, longo diga-se, sobre a situação, objectivos e cuidados logísticos os organizadores sublinharam que em caso de atropelamento os membros da missão deveriam afastar-se do local o mais rápido possível, dirigindo-se à esquadra mais próxima. Tudo isso devido ao perigo de linchamento popular em que os condutores envolvidos incorrem.
Insurgi-me na altura. Referi a ausência de dados efectivos sobre situações semelhantes. Sublinhei a escassez de ambulâncias no país, salientando a importância de acompanhamento dos feridos aos hospitais e centros de saúde, ainda que quebrando a regra de ouro dos serviços de saúde alhures, não tocar num acidentado.
Hoje telefona-me um colega amigo, abatido. Durante o fim-de-semana teve a infelicidade de atropelar mortalmente um peão, uma situação malfadada que lhe foi completamente impossível de evitar. E, em pleno grande Maputo, após alguns minutos no local do acidente, esperando os socorros já então inúteis, teve que fugir do local aproveitando a boleia do primeiro carro que passou, pois o linchamento ia iniciar-se.
Sem leituras apressadas logo me surgem estes episódios como demonstrativos do profundo hiato existente entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, desse extraordinário signo de distinção. Gente de um outro mundo, culpada de imediato. Atropelamentos feitos catarse de uma extrema estratificação?
Fevereiro 11th, 2004 — Europa-África
Realce total para a notícia de que a Itália se apresta em devolver o obelisco de Axum à Etiópia.
A questão da devolução de itens cruciais do património cultural é vasta, e de nada serve abordá-la a correr (a meio de uma manhã de trabalho então nem pensar). Mas a pausa do café dá para saudar este caso particular. E lembrar que este não é nada um caso particularmente africano, como o demonstram as reclamações gregas junto ao Reino Unido. Como o lembrou, deliciosamente, V. Graça Moura na carta dirigida ao Ministro (dos Negócios Estrangeiros?) francês no ano passado, a reboque da questão iraquiana, então exigindo a devolução do produto das pilhagens napoleónicas
Sem dogmatismo esta é questão em que cada caso é um caso. Lembro o impacto que teve na África do Sul, também no ano passado (?), a devolução dos restos mortais da mulher Khoi-San levada para a Europa nos inícios do século XIX como curiosidade científica e circense.
Finalmente, regressar a esta notícia, citando-lhe um aspecto que abala algumas certezas incertas com que vamos olhando para estas questões: “Até aqui os governos italianos tinham recusado todos os pedidos de devolução, garantindo que a Etiópia não estava em condições de assegurar a sua preservação. Mais de 60 anos depois, a realidade vem provar o contrário: o obelisco que ficou em Roma foi atingido por um raio e está muito danificado pela poluição, os dois monólitos que ficaram em Axum encontram-se em perfeito estado de conservação.” refere o Público.
Enfim, caso a seguir com interesse. Até pelas implicações de precedente que poderá vir a ter
Janeiro 27th, 2004 — Cooperação, Europa-África, Memórias
Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.
Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.
Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.
É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.
Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.
A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim…
Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.
Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.
A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito…Ir até ao núcleo ver as novas obras?…é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande… Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.
Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me…? …chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver …? nada, quem sou eu … não resolvo nada… a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves… não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me…
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Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.
Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro… O qué? … o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.
Qué?…afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não…também vocês, têm cada ideia!
Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.
[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]
Dezembro 17th, 2003 — Europa-África, Globalização
Mr. Blatter, afinal?
Acabadinho de roubar do “Jogo”…
“Joseph Blatter disse o que lhe vai na alma ao prestigiado “Financial Times”. O presidente da FIFA não usou de meias palavras para definir o estado actual do desporto-rei: “Os principais clubes europeus funcionam cada vez mais como verdadeiros neocolonialistas, implicando-se na violação social e económica, ao roubarem aos países em desenvolvimento os seus melhores jogadores“.”