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Abril 20th, 2008 — EUA
Telejornal português de ontem. Peça sobre a religião e a campanha presidencial americana. Ali relatada a figura dos “directores de fé” dos candidatos democráticos (juro que ouvi. E que não consumo psicotrópicos, apenas analgésicos para a ciática). Ali ecoada a realidade de que estes candidatos se referiram à religião já por centenas de vezes. Ali retransmitidos trechos de entrevistas de ambos: Clinton afirmando que tem vindo a estar, várias vezes, com o Espírito Santo; Obama, veemente, dizendo (é certo que com nuance retórica) que o que está escrito na Bíblia corresponde, substancialmente, à verdade. Depois a jornalista remata dizendo que à direita McCain pouco fala de religião (não infirma a presença de um “director de fé”, apenas deixa presumir).
As “esquerdas” africanas e europeias - racistas e genderistas - nem comentam. Blog para que te quero? A imbecilidade pega-se? Nada - é mesmo mera desonestidade intelectual. Em alguns, concedo, o desejo de não envelhecer, de flanarem nas aparências de hoje. Mas nada mais.
Março 5th, 2008 — Banda Desenhada, EUA

“Hergé retoma pela terceira vez a aventura americana para a edição publicada em 1973. O texto será comprimido para evitar os cortes de palavras no fim das linhas. Mas, sobretudo, fez uma importante concessão aos editores americanos: em três quadradinhos retira os negros que entram na história. Com efeito, os americanos opunham-se ao facto de negros e brancos figurarem lado a lado numa história destinada a um público jovem.

“Na prancha 1, o bandido negro, à direita do grupo ao qual Al Capone se dirige, é substituído por um malfeitor de origem porto-riquenha. O porteiro da Petroleum & Cactus Bank na prancha 29 passou a ser branco. O mesmo tratamento foi aplicado ao bebé que chora e à mãe deste, na prancha 47.”
(Michael Farr, Tintim. O Sonho e a Realidade, Lisboa, Difusão Verbo, 2005, p. 38)
Falso post-scriptum: antes que algum desses “semiólogos” fascistas de extracção marxista por aqui passe e erga a habitual catana: “Mas nas três versões (…) Hergé persiste na condenação do linchamento e do habitual racismo das pequenas cidades americanas“. (idem)
Já agora, sobre os pobres tontos que aderem a Obama porque ele é “negro” - triste impensamento - já a “Ana” pôs o ponto final parágrafo adequado.
Janeiro 6th, 2008 — EUA
O que venho blogolendo sobre Obama, o americano candidato às eleições presidenciais deste ano, ancora no mais absoluto vácuo racional. Por um lado há pessoas que pensam como se fossem americanos (”temos [repare-se no “nós”] um homem branco no poder desde XVIII“) - tontice que se explicará por excesso de consumo de cinema americano, esse que disponibiliza uma imensa galeria de alter egos [como se fará este plural?] à disposição. Por outro porque o pai do homem nasceu em África ele é “nosso, africano“. Quando isto vem de gente que trabalha com as questões sociais eu não percebo para que serve estudar.
Entretanto sobre as eleições americanas eu oscilo. Espero que ganhe ou o McCain ou o Edwards - porque os antepassados deles nasceram na Europa e, portanto, são também nossos, europeus. E porque são homens, tal como eu. Se não forem eles a ganhar espero que, pelo menos, não tenhamos (bis, tenhamos) um presidente como o Obama (um africano) nem, ainda pior, a Clinton (uma mulher) - e digo isto ainda que alguns dos meus antepassados tenham sido mulheres.
Fevereiro 28th, 2007 — Cinema, EUA
E ja agora, por falar em “indústria” (e em cinema), recordo a sorte de ver na mesma semana (facilidades da tvcabo) esta dupla de Redford:

Brubaker (1980) e

The Last Castle (2001) - fantástica ultima cena.
Como é arte não se pode inscrever em nenhum contexto, seja social, seja histórico. E não há nenhum fio condutor. Agora eu, como sou de esquerda (apesar de achar isto da “arte”), vou ali dizer mal dos EUA - sigam as minhas “tags”. De noite regressarei para escrever sobre a maravilhosa sessão dos óscares, essa grande comemoração da “indústria”.
Fevereiro 28th, 2007 — Cinema, EUA
Uma exposicao na AMF, antes ver Tomo no CCP, um pre-jantar no Mundo’s, ai mesa cheia de amigos, um novo bloguista na cidade, nos os dois a falarmos de blogs portugueses, os amigos (”nao ha paciencia para estas conversas”) gozando com os maluquinhos das teclas e dai a cutucarem-me de direitista, entre-ironias, foi pequeno passo.
Por isso, depois, vou dar uma voltita pelos blogs, que e coisa cada vez mais rara. Aqui o direitista, pro-americano ate, completamente clinteastwoodesco entre outras coisas, repara que, ano apos ano, os bloguistas de esquerda (e os esquerdistas tambem, ja agora) mergulham na oscarizacao. O ano inteiro no anti-bushismo. Mas tambem o ano inteiro no anti-capitalismo americano, no anti-industria americana, no anti-imperialismo (perdao, globalizacao) americano. Depois, parentesis, loas `a “industria”, se esta a do cinema (entao quando ela doura Scorsese, quao credora se trata). Como gostam de cinema la usam o bisturi para cortar o real ao seu gosto, e nem tratam da linguagem. E depois do parentesis la regressam. Teclam, teclam, teclam, como o coelho das pilhas.
Este direitista nao tem paciencia. Nem respeito.
Novembro 28th, 2005 — EUA
Da tortura
Vindo da revista em papel aqui deixo as ligações, especialmente para os que se julgam mais pró-americanos:
Torture’s Terrible Toll, artigo de John McCain (senador americano).
The Debate Over Torture, reportagem de Evan Thomas e Michael Hirsh.
Ou será a Newsweek um orgão de anti-americanismo? Isto, nos dias que correm, nunca se sabe.
Dezembro 17th, 2004 — EUA, Ecologia Moçambique, Politica Portuguesa
Todos o sabem, durante meses falou-se até à exaustão das eleições americanas. No bloguismo português foi uma correria, até eu me posicionei. Tenho, e tê-la-ei dito, a minha opinião. É óbvia a importância dos EUA para o contexto internacional mas, acima de tudo, ela não é nenhuma novidade, nem em grau nem em intensidade. Daí que o extraordinário fenómeno do “tomar partido” nas eleições americanas que ocorreu, “bisturizando” a tradição ideológico-política europeia, muito significa um grande empobrecimento ideológico.
Foi um tralalá, com gente a pensar por analogia, como se houvesse (ou fosse possível) a universalização (a “globalização”?) da dicotomia “democratas”/”republicanos”. E um tralalá cheio de argumentação sobre meros epifenómenos recorrentes, aka Iraque, um episódio que na prática apenas significa “nada de novo na frente global”.
Porque me lembro disto, hoje sexta-feira pré-Natal?
Porque muitos poucos exalto-bloguistas li discutir a política ambiental de Bush, essa sim estruturante, essa sim fundamental, essa sim urgente. Essa sim que tem a ver com o dia-a-dia das “famílias” e das “sociedades”. Por aqui escrevi que sempre me espanta um conservador que não está atento à preservação ecológica - é uma contradição de termos, intelectuais e morais.
Recordo que há anos Bush recusou uma política ecológica, urgentissima, sistematizada no protocolo de Kyoto, entendendo-a contrária ao “american way of life” - aliança óbvia aos grandes interesses industriais de curto-prazo (e de certa forma uma posição estatal contrária ao primado da concorrência criativa, em meu modesto entendimento) mas, mais do que tudo, uma explícita subordinação do “world way of life”, uma condensação de uma visão do mundo.
Há muito pouco foi noticiada a re-recusa do protocolo, afirmando-se-lhe falta de fundamentação científica. Significando a continuação de uma política ambiental absurda, e que a lusosfera continua a ignorar, na sua maioria. Política ambiental essa que, inclusive, foi apoiada em alguns blogs lusos (não retive nomes, nestas leituras rápidas).
Hoje leio a entrevista do Ministro do Ambiente português, Luís Nobre Guedes, decerto insuspeito de manipulações anti-americanas. Nobre Guedes refere isto:
“…défice em termos de alterações climáticas - uma política que pudesse fazer frente a este problema que é o problema número um do sec. XXI -, défice em termos de estruturação da água e dos resíduos”. Ou seja, anunciando que para ele Bassorá e as mesquitas dos arrabaldes de Argel não são o ponto focal da existência humana.
Bem, seria de esperar que agora, esmagada a Toupeira estalinista John Kerry e os seus acólitos Chamberlains, se começasse a pensar de modo algo diferente. Talvez o sossego permita re-olhar o mundo menos dicotomicamente. A preto e branco. Têm a palavra os mais bushistas? Ou todos?
Novembro 15th, 2004 — Ciências Sociais, EUA
Em tempos aprendi que os “testes” de QI serviam para medir a inteligência. E que a “inteligência” era aquilo que os testes mediam. Não era piada, era um discurso analítico crítico sobre a construção do conceito, da sua métrica. E também da sua utilização, pois foi ele socialmente aferido de molde a valorizar características culturais (mais) presentes nos indivíduos de determinados grupos sociais, étnicos, até nacionais e, também, de género.
Mais ou menos sociocêntricos, mais ou menos etnocêntricos, os “testes de QI” surgiam como instrumentos desqualificadores de grupos sociais, reprodutores de hierarquias sociais. Justificando-as como “naturais”, em cúmulo de repressão social, em cúmulo de inculcação auto-culpabilizadora dos desapossados, pois derivadas essas hierarquias, e respectivos lugares, das capacidades em “inteligência”, apresentadas como algo praticamente inato.
Entenda-se, os testes de QI apresentam uma hierarquia social como se que natural. Assente no critério mais valorizado nas sociedades modernas, a racionalidade individual, essa “Razão”.
Esta naturalização ideológica implica que os “testes de QI” surgem como mecanismos de exclusão social. De exploração. Produtos de técnicas engenheirísticas cuja aparente cientificidade lhes brota do cardápio de números alinhados que agitam sob o nariz dos incautos.
Mas isto aprendi há já uns tempos. Talvez tudo tenha mudado desde então.
Ainda assim, e porventura desactualizado, nestes últimos dias, ao ver uma pretensa esquerda brandir, de blog em blog, a tabela QI médio por estado (americano) / sentido de voto Bush vs Kerry, já não me surpreendi: porque esta não é uma “esquerda caviar” é uma esquerda “salsicha Nobre”.
E daqui sai um abraço, sobre as nossas hipotéticas diferenças, ao WR.
Outubro 26th, 2004 — Bloguismo, EUA, Sociedade portuguesa
Campanha. Estou a gostar da lusa blogoatenção com o jogo bush-kerry. Todos votam, perdão, botam. E contam. E apontam. E todos com conhecimento de causa(s). …end of the day, we are all americans, assim vão dizendo os mais pró e os mais pró.
Lembra-me uma série de TV, muito fraquita, com mais de 20 anos e da qual esqueci o título. Emigrantes italianos, início de XX, e lá na coberta à visão da Estátua da Liberdade o frágil actor gemia, arrastado, olhos esbugalhados, “L’ Ámérica, L’ Ámérica” (ficou uma “piada privada” lá no meu meio, metáfora da imbecilidade. Será que alguém se recorda do título do raio da série?).
Aqui também há eleições à porta. É o que me vale para encher a vida com algum sentido. E também eu vou dizendo, arrastadissimo, “Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa”. E escrevendo posts sobre quem vai ganhar e porquê. E em quem votaria eu, e todos os detalhados porquês de tais opções. After all, “no fim do dia” we are all africans, specially lusophone africans…
“Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa”
Setembro 14th, 2004 — EUA
Chego a este
National Geographic avisado pelo avisado Prof.
Vital Moreira.
E a este propósito não deixo de me interrogar, ainda que não reduzindo esta dramática questão ao momento actual: como se pode ser tão pró-Bush se o homem não tem o mínimo de sensibilidade ecológica? Se tranca os necessários e urgentíssimos compromissos ecológicos a um estapafúrdio “american way of life” (lembram-se?).
Ou será que a National Geographic agora é um agente dos russos, perdão, dos democratas?
Já agora, e um bocado a despropósito, há em Portugal, e nos seus blogs, uma corrente tão cerradamente pró-Bush que me parece que algum centro e a direita portuguesa (ou blogoportuguesa) está desnorteada nos seus referentes, que nenhuma outra bússola resta para além dos EUA. Um algum centro e uma direita que se diz conservadora, mas que surge absolutamente industrialista, incólume a qualquer preocupação ecológica. Uma total contradição intelectual e ideológica. Enfim.
Um algum centro e uma direita que se reclamam liberais, mas totalmente incólumes ao não liberalismo da política do governo Bush. Enfim.
Ou será que Bagdad é o centro do mundo, como a Jerusalem medieval o era para os incautos desses tempos?
Diga-se que vendo tanto socialista agarrado ao Kerry, jornalando e blogando de bandeirinha hasteada como se num caucus democrata, é óbvio que o mal do desnorte, da “americanização”, do empobrecimento intelectual parece ser geral. Que aconteceu à Europa?
Enfim, devem ser anos a mais em África, quem sou eu para me questionar com Europas?
Já agora, e ainda mais a despropósito, e porque referi o Causa Nossa, quando leio Luís Nazaré, homem da elite socialista, afirmar: “Sugiro-te que deixemos os exemplos estrangeiros de lado (porque não se nos aplicam) e a semântica ideológica para os doutorandos em filosofia política, porque do que precisamos é de política para o nosso tempo” (a ligação permanente é inválida) assusto-me, mergulhado neste anti-intelectualismo tecnocrata, o mito do “realismo”. E já nem entro no avesso ao “estrangeiro” porque até se poderia contextualizar. Até, só até.
Enfim, a torcer ainda mais o nariz ao que aí vem daquele lado.
Agosto 13th, 2004 — EUA

Face ao absurdo da prisão de Bobby Fischer que foi “
detido no Japão por tentar sair do país com um passaporte norte-americano inválido, foi hoje transferido para uma prisão destinada a pessoas com penas prolongadas.” Tal deve-se a que “
Os EUA incluíram Fischer numa lista de pessoas procuradas desde 1992, quando, apesar de uma proibição para viajar até à Jugoslávia imposta pelas Nações Unidas, deslocou-se a esse país para realizar uma partida contra o seu antigo rival russo Boris Spassky, que lhe possibilitou amealhar um prémio milionário.” [e estou a citar o jornal Record], urge dizer
Liberdade para Bobby Fischer, já!
FREE Bobby Fischer!!
Alguém se lembra quando o seu génio foi bandeira da liberdade? Para quê este fundamentalismo administrativo, este revanchismo absurdo? Não tem tudo isto tanta semelhança com aquele outro que vigiava cada lance, cada roque, de Spassky? Cada abertura, cada sacrifício de Korchnoi?
Onde estão os que amam o génio? Onde estão os cantores da liberdade?
Fischer não fica bem como causa? Porque solitário irredutível? Excêntrico? Não bannerizável?
Onde estão os democratas? E onde estão os libertários? E os liberais? Onde está a solidariedade com um homem tão especial? Tão gigante? Que efectivo crime cometeu ele?
Onde está a indignação da coerência?
Distraídos? Ou tudo é mero ruído?
LIBERDADE PARA BOBBY FISCHER, JÁ!
Junho 28th, 2004 — EUA, Literatura

“On the pretext that Sudan was making anti-American bombs (and some people felt to correct the negative image created by the Monica Lewinsky scandal, to look decisive and presidential, even if meant risking lives and flattening foreign real estate), President Clinton ordered air strikes against the Sudan. He succeeded in destroying a pharmaceutical factory outside of Khartoum in August 1998. This bomb crater would be on my itinerary, for after the bombs were dropped no one in the United States took much interest. Though we become
hysterical at the thought that someone might bomb us, bombs that we explode elsewhere, in little countries far away, are just theater, of little consequence, another public performance of our White House, the event factory.”
Paul Theroux, Dark Star Safari. Overland from Cairo to Cape Town, Penguin Books, 2003, pp. 12-13
Junho 18th, 2004 — EUA
Leio
Vital Moreira questionando se Bush não deveria sofrer um processo de destituição por ter
falseado dados. (artigo transcrito em baixo).
Não sendo cidadão americano não opino. Mas, e ainda que julgue serem casos com diferente enquadramento formal, não posso deixar de sorrir à memória de tudo o que passou Clinton quando foi acusado de ter perjurado naquele caso em que foi vítima de assédio sexual.
Enfim, coisas das leis.
Por ter alegado ligações entre Saddam e a Al-Qaeda11 de Setembro: “The New York Times” exige pedido de desculpas de George W. Bush
Público (Última Hora)
17-06-2004 - 14h21
O diário norte-americano “The New York Times” defende hoje, em editorial, que o Presidente George W. Bush deveria “pedir desculpas” por ter justificado a guerra contra o Iraque com base na alegada ligação entre o regime de Saddam Hussein e a rede terrorista Al-Qaeda — desmentida ontem pela comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro.
Sustentando que a comissão foi “o mais clara possível”, ao afirmar que “nunca houve provas da existência de ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda, entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro”, o influente diário nova-iorquino afirma que “o Presidente Bush deve agora pedir desculpas ao povo americano, que foi levado a acreditar numa coisa diferente”.
O diário sustenta que, “de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão do Iraque”, “a mais desonesta” foi a de ligar a guerra com a luta contra o terrorismo internacional. “Se é possível que Bush e os seus colaboradores acreditassem realmente na existência de armas químicas, biológicas e nucleares no Iraque, sabiam durante todo esse tempo que não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda”, sustenta o jornal.
“Nenhum perito sério acreditava que essa ligação existisse”, lê-se no editorial, recordando que Richard Clarke, antigo conselheiro do Presidente para as questões do contraterrorismo, afirmou publicamente que Bush tinha sido informado disso.
“Mesmo assim, a Administração Bush convenceu uma maioria significativa de americanos, antes da guerra, de que Saddam Hussein estava, de alguma forma, ligado ao 11 de Setembro”, critica o jornal, lamentando que ainda esta semana, o vice-presidente, Dick Cheney, tenha afirmado que o ex-Presidente iraquiano “tinha laços estabelecidos há longo tempo com a Al-Qaeda”.
Para o diário nova-iorquino, não se trata apenas de “uma questão de diminuição da credibilidade do Presidente, por mais perturbante que isso seja”. O jornal vai mais longe e afirma que “a guerra contra o terrorismo foi prejudicada, na medida em que o conflito no Iraque desviou recursos militares e estratégicos de locais como o Afeganistão, onde realmente podem estar as forças da Al-Qaeda”.
Junho 8th, 2004 — EUA
Um blog é também um instrumento para fazer perguntas. Acho que pela Europa há um esvaziamento político. Velhas divisões prescreveram. Novas não terão surgido (ou não compraram orgãos de comunicação, pelo que não se ouvem). Pelo meu rincão idem, até mais. Estou, é claro a falar de democratas, aqueles que gostam de democracia representativa, não dos que apelam à democracia dos “movimentos sociais” (quais? perguntava há tempos um sábio inquiridor, e tão inteligentemente o fez), esses para os quais “representação” é mero novo nome para o velho “formal”. Desta “democracia formal” os mais novos não se lembram, aqui vos fica a memória de que era a alcunha da democracia que os fascistas ambidextros usavam.
Daí que as velhas divisões reestabeleceram-se usando polos americanos. O que dantes era a esquerda europeia agora é quasi-”democrata” (e antes não gostava dos gringos), o que dantes era a direita europeia agora é mesmo-”republicana” (e antes não gostava dos gringos).
Empobrecimento? Hollywood? Sei lá, vou vivendo em África.
Mas há uma pergunta que me aflige. Toda a gente no meu país fala em despesa pública, em gastos estatais. Os “euro”-republicanos odeiam o Estado, apupam o despesismo; e gostam de Bush o despesista-mor. Os “euro”-democratas adoram o Estado, exigem a despesa; e gostam de Clinton, o poupador-mor. Mas mesmo assim são muitos veementes, assertivos. Por vezes até mal-criados com os outros.
Em suma, alguém me consegue explicar isto? Alguma visita bondosa deixa aí comentário para que possa eu sossegar este meu não-saber como pensar?
Junho 7th, 2004 — EUA, Literatura, Mundo
Há dias enviaram-me transcrição de um texto desvalorizando as críticas às torturas dos norte-americanos no Iraque (muito provavelmente violando a convenção de Genebra) por não serem acompanhadas de denúncias sobre as torturas e ilegalidades do PREC. Estranhei tal mistura de alhos e bugalhos, imprópria ao refogado, o qual se quer atinado para correcta satisfação do palato e pacificação digestiva. Que nisto da alimentação ele há o devorar e o saborear.
[não que a história PRECquiana seja desprezível. Ainda que a sociedade portuguesa tenha optado por sombrear muitos dos desmandos. Com alguns custos, como a vergonhosa sentença dos FP-25 (alguns ainda andam por aqui). E a espantosa condecoração a Isabel do Carmo. Já para não falar na influência em partidos nacionais de gente como Ferreira Torres e Valentim Loureiro. Enfim, talvez seja altura de escrever e divulgar mais sobre essa época.]
Nesse mesmo dia dei com um
texto bloguístico do mesmo teor, gozando as sensibilidades de quem se preocupa com tais minudências lá pelo Iraque. Irritei-me, depus longo comentário. E pensei em botar por cá sobre o assunto. Entre tantas coisas passou-me.
A este respeito queria então abordar dois pontos: 1. as implicações da violação (posteriormente confirmada) da convenção de Genebra; 2. os fundamentos do raciocínio que produz estes textos.
1. A aplicação da convenção ainda se liga à classificação de “forças armadas” legítimas porque formalizadas. Ou seja, legitima as partes inimigas segundo a presença de um Estado ou sistema político-militar algo centralizado. Implicita a velha distinção entre sociedades estatais e não-estatais (o art. 4º, ponto 2, poderá indiciar isso).
Mas o ponto fundamental é outro, mais perceptível via história. Até porque para des-politizar nada melhor do que des-actualizar. Lembro a II G.M. com a sua aplicação (em versão anterior), pelo menos relativa, entre alemães e aliados ocidentais (não esquecer que sou da geração do Colditz - via BBC e Livros do Brasil)

e a sua não-aplicação entre alemães e eslavos inimigos.
Assim a aplicação da convenção traduz classificações que graduam a Humanidade do inimigo. Obrigatoriamente aplicável aos mais próximos (”racial/cultural”, mas também “politicamente” - por comunhão de “civilização”, donde de Humanidade acrescida). De mais fluída aplicação no confronto com inimigos desvalorizados. Enfim, pela atitude face à convenção de Genebra regressam os marcos distintivos do “Nós” e do “Outros” (desculpem o antropologês), os quais se imaginariam hoje ultrapassados entre “Nós”.
Porque é essa ultrapassagem do “Nós/Outros”, essa universalidade, que julgamos (julgávamos?) traço central do nosso “Nós”.
2. O desvalorizar destes acontecimentos, este radical filoamericanismo, pode parecer estranho, uma sobrevivência de tempos recuados. Mas não. Na prática é um modo de pensamento/argumentação igual ao seguido durante décadas pelos comunistas. Óbvio em tantos textos de verdadeiros homens de cultura, de meros crentes, ou de apenas apparatchiks.
Essa gente tudo aceitava aos russos, todas acções, invasões, crimes, mentiras. Ou negando-as, como falácias da “contra-informação” burguesa (que sorriso ao lembrar essa arenga). Ou justificando-as, em nome de um objectivo final, de uma ideologia. Acríticos sempre. Ainda que prontos a ligeiras calibragens consoante os ventos de leste (e mesmo assim…).
O modelo de pensamento político é o mesmo, um fundamentalismo escatológico. A sua impotência cognitiva idem. E também partilham uma inadequação às respectivas epistemologias, marxista e liberal.
Mas acima de tudo surpreende-me algo mais que os ex-filorrussos e os actuais filoamericanos partilham: essa crença mágica no poder dos textos.
Acreditam que escrever coisas assim, acríticas, indubitáveis, influencia o real. Pois haverá outra razão para pessoas cultas (medianamente que sejam) serem tão facciosas? Tão indubitadas? No fundo acreditam-se feiticeiros escatológicos, com poderes de intervirem pela palavra no destino do mundo.
E como qualquer feiticeiro, dependente do poder dos seus antepassados, presos aos particularismos. Ditos irracionais.
Confesso que esta crença no poder mágico/feitícico da palavra escrita, que esta superstição me espanta. E a esse propósito lembro-me sempre do meu espanto lá pelos meados dos anos 1980, quando li “Margarita e o Mestre” (aquela velha edição, Estúdios Cor?) e “Novela Teatral” do Bulgakov: “como é que o comunismo resistiu a estes livros?”.
Hoje pergunto, se nem um Bulgakov mexeu com um regime político como poderá ambicionar um mero mortal escrevinhador reforçar um desses poderes do mundo. Que vaidade! Vã, como sempre.
Mas porque é que voltei a isto? Pois estreei-me num blog e lá reparei num texto sobre a questão (”Miséria”) o que me levou a recuperá-la (se um blog não tem função também não tem actualidade). E a morte de Reagan ainda para mais, a lembrar o tempo em que os russos eram os nossos inimigos.
Fevereiro 22nd, 2004 — EUA, Imprensa Portuguesa
A minha irritação de estimação é a constitucionalmente inexistente figura da “primeira dama”- um dia hei-de desabafar sobre o assunto.Mas aqui não é disso que trato. Apanho em Maputo os jornalistas que andam a traçar o passado de infância da candidata a mulher de presidente dos EUA. Aqui nascida, estudante em Durban e JHB, nos idos de 50-60. Quem quiser saber a versão americana poderá ir espreitando no Baltimore Sun. “Há-de sair” um destes dias.
Para saber a versão portuguesa terá que esperar que o marido da senhora seja eleito. Enfim, curioso, a ver como eles agarram num passado algo retocado de quasi-freedom fighter, com laivos de anacronismo.
Fevereiro 6th, 2004 — EUA, Roupa Velha
Li algures que alguns músicos cubanos foram impedidos entrar nos EUA para assistirem à entrega dos Grammys, para os quais estavam nomeados. Recusa de visto por estarem sob a alçada de suspeita de terrorismo.
Logo me lembrei de algo que escrevi há cerca de um ano, quando à falta de blog chateava os amigos invadindo-lhe as caixas de email com tralhas variadas. Vem muito a propósito, digo eu, imerso no dejá vu:
RY COODER E JOHN WAYNE
Já que anda tudo a entrefalar-se, entreescrever-se e entrefwdar-se sobre as aventuras do Jonh Wayne na Arábia também quero. E daí que segue opinião!
Mesmo que porventura elas sejam pouco legítimas ou necessárias confesso que até agora não me têm chocado muito. Talvez por serem já hábito antigo, o que há de novo neste mundo?
E também por não simpatizar lá muito com o outro tipo, aquele do deserto. E porque razão ou moral hei-de eu optar entre filhos da mãe só porque um é (bastante) mais fraco do que o outro?
E irritaram-me aqueles franceses tipo campeões da paz. Assim fugi aos antiusa, ali a aproveitarem, candidatos a vassalo “europeísta”, com frémitos dos atrevimentos do chiraque das bombas atómicas, e esse a sonhar-se magno no triunfo de Argel (terá havido algum assessor a sussurrar-lhe que era apenas humano?) e a reinventar-se imperador, na recepção à francofonia alargada, dezenas de gabirús ali a fingirem-lhe o beija-mão, mas com esses não se importam os pacifistas europeus , claro que desde que fiquem eles quietinhos a sul de Ceuta ou lá para o leste dos Urais.
(ah, estou velho, aqui a lembrar-me do avô Giscard, aquele que agora faz a constituição europeia, que era o tal que recebia prendas privadas, diamantes entenda-se, do velho Bokassa. Enfim, tudo napoleónico, n’est-ce pas?).
Mas o que me irritou mais ainda foi aí por casa, tantos tão felizes a reviverem timor enquanto davam cor às velhas bandeiras dos velhos estalinistas (que delícia, aquela aia a dizer-nos que o Iraque é uma democracia, e o outro, um soares adepto da coreia do norte. E são deputados, pagam-lhes ordenado?) e às novas bandeiras dos velhos estalinistas (esse louçã, peremptório à altura “o koweit é uma província do Iraque”, um artista português!). Marchar com eles? Caramba! A Razão me livre!
Com tudo isto fiquei-me, aqui a achar que com tanto traste à solta é mas é de deixar o tio fazer o que lhe apetece, que o Diabo já veio e já escolheu.
Entretanto lá foram e hoje, daqui, adivinho os meus patrícios entretidos, a distrairem o congelado das refeições e os amores que já nem têm, defronte à TV, os mortos em directo, replay com zoom nos corpos esburacados, record os cadáveres para mais tarde recordar, tudo como se fosse a etapa da Volta, meta volante em Bassorá, reabastecimento em Al Fallujah, prémio da montanha em Umm Qasr, descida trepidante para Manda, fuga do camisola amarela já em Ba’qubah, sprint para Bagdad, vitória final, claro está, de Lance Armstrong. É a beleza do ciclismo!
(e, tv desligada à hora do jantar, fico-me a resmungar que de todos os trastes acima lembrados o mais filho da puta é, evidentemente, o “senhor telespectador”).
Súbito, cá no Maputo, li (terá chegado aí?, nos jornais liberais não vi) que “Ry Cooder foi proibido de viajar para Havana e de trabalhar com músicos cubanos…também foi multado pelo Governo dos EUA em mais de 100 000 euros por não respeitar uma emenda legislativa do país, a America’s Trading With the Enemy, que estabelece restrições a relações comerciais com Cuba…” [“Notícias”, Maputo, 25.03.03]
Bolas, no meio disto tudo cada um tem o seu quê. Eis o meu! Talvez seja nestes pequenos pormaiores que melhor se veja a taradice alheia, ou será miopia minha?
E de repente fico-me para aqui a lembrar de um tipo que mais ou menos inventou o próprio John Wayne, o qual quando um dia o foram chatear com coisas destas (até a ele!) lhes disse que se chamava John Ford e fazia filmes de cóbois, e com isto os foi mandando aquela parte. E devia ter razão.
Ok, aliás, Certo, isto tudo saiu meio confuso. Mas até é natural, esta é das difíceis, que era para dizer que depois desta estou pronto para desfilar com o Louçã.
Porra, ao que desce um homem!