O “Prémio Maschamba 2010″ para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.
JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961
(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)
RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973
(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)
BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998
(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)
JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010
(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)
Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.
Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.
Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.
Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.
Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.
Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.
A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.
Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.
Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.
Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.
Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.
por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)
Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.
Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.
Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.
Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.
Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.
Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.
Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.
Era outro mundo.
Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.
Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13″ com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.
Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.
Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.
Este é o segundo de dois programas que recomendo vivamente que veja.
O contexto é este: a maior parte de nós que assistimos à eleição histórica de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América associa a esse evento duas coisas: a saída de George Bush 2 da cena, uma maior moralização da política externa norte americana, e a promessa de uma saída mais limpa dos exércitos norte-americanos do Médio Oriente. Enquanto isso, a economia americana, dramaticamente nos últimos meses do segundo mandato de Bush, quase entrou em colapso – e com ela o resto do mundo.
Mas há uma muito mais importante história que aqui é escalpada: a do que aconteceu ao défice norte-americano. Como ele cresceu, onde ele está, e com o que é que os EUA e o resto do mundo se confrontam neste momento e no futuro. Isolado, só este tópico vai ser um dos maiores, senão o maior, desafio para Barack Obama – já o é. Ao ponto que, cedo no seu mandato, alguns assistiram com alguma surpresa a um presidente Obama a dizer na televisão que o maior problema de longe dos Estados Unidos era … a questão do sistema de saúde nos EUA.
O sistema de saúde?? então e as guerras, o Irão, Israel, etc?
Este programa indica-nos que, para além das demais prendinhas deixadas por Bush, foi uma quase incompreensível série de medidas de simultaneamente a) aumentar dramaticamente a despesa do governo com duas guerras (Iraque e Afeganistão) e um brutal aumento nas despesas do governo com um plano médico para a terceira idade e b) dois cortes muito significativos nos impostos. O buraco foi sendo pago pela compra de dívida do governo por estrangeiros, de que se destaca a … China (eu se tivesse que inventar isto não conseguia). Ou seja, os norte-americanos devem montanhas e montanhas de deinheiro ao estrangeiro. Por causa disso o mapa financeiro do mundo mudou radicalmente e o valor do dólar oscila como erva ao vento.
Acho que sem se entender esta dinâmica, não se conseguirá entender o que foi que Obama encontrou e com que tem que lidar nestes próximos tempos. Pois antes de ser líder mundial, ele é presidente dos EUA.
Conseguirá Barack Obama aligeirar os efeitos quase devastadores do que Bush fez? como dizem os árabés, inshallah. Ou nós, oxalá.
Este programa, da PBS, foi para o ar em 29 de Março de 2009, mas mantém toda a actualidade. Em inglês, dura 54 minutos. Veja enquanto bebe um cházinho de tília.
Enquanto me vou aprendendo e surpreendendo com o que existe na internet, tento utilizar o que encontro para tentar melhor entender o mundo que nos rodeia, o que acontece e porquê.
Há cerca de um ano, pouca gente se apercebeu de que o mundo esteve a um fio de cabelo de uma catástrofe económica (e, logo, política e social, eventualmente militar) sem precedente na história da humanidade. Curiosamente, o início e o desenrolar desse desastre oribinou nos sagrados corredores do capitalismo norte-americano: Wall Street, Nova Iorque, e Washington, a capital federal dos Estados Unidos.
Alguns dos leitores do Maschamba, que tem uma firme “verve” cultural e histórica, poderão à primeira pensar que perceberam o que aconteceu, ou então que não perceberam mas não querem perceber, ou que não perceberam, ou que nem são capazes de o fazer.
Ou ainda que isto pode não interessar.
Deixem-me dizer o seguinte de forma clara: o que aconteceu nos sete meses entre Março e Outubro de 2008 – e cujos efeitos ainda nem de perto estão resolvidos em todos os cantos do mundo – vai ser tópico de conversa durante décadas. Os vossos filhos e netos um dia vão perguntar-vos o que é que aconteceu em 2008.
E nós estávamos cá.
Porque nunca na minha vida – e eu tenho quase 50 anos de idade e já assisti a guerras, descolonizações, recessões, todo o tipo de tragédias – estivemos todos nós tão perto, tão perto de, de um momento para o outro, passarmos de uma vida de relativo conforto e de expectativa de normalidade, para o maior caos, miséria e total desorientação.
Todos nós, onde quer que estivéssemos.
Talvez por isso valha a pena ver o que foi, e como foi, desde a falência da firma de investimento Bear Stearns, à falência da firma Lehman Brothers, e o que aconteceu logo a seguir.
O vídeo que está em cima, em inglês e que dura uns “meros” 56 minutos e 23 segundos, com a maior das clarezas, calmamente e com uma qualidade fenomenal, explica tudo. Foi produzido para a cadeia de televisão pública norte-americana PBS (sim, há uma nos EUA) e exibido no programa Frontline, um dos meus favoritos de sempre.
De vez em quando valer a pena tentar perceber o que se passa com a economia. A cultura enche-nos o espírito e a alma. A economia ajuda-nos a pôr o pão na mesa para nós e as nossas famílias.
Esta é uma lição de humildade e também de como todos dependemos uns dos outros. Frequentemente de formas que nem sonhamos.
Na realidade o título acima é apenas uma leve provocação. Na verdade, o ataque terrorista ocorrido no dia 11 de Setembro de 2001 foi um piquenique de crianças comparado com o que aconteceu em 2008.
Há um ano, enjoado com a “esquerda obamista” lusa (e a outra, lá-de-fora; e o racismo negro virado obamista) pus-me a resmungar contra os obamistas – para ter a prova de que estou fora de Portugal há muito: bem que fui gozado por não saber quem era Rui Tavares, o obamista de referência de então, hoje mais célebre pois já eurodeputado do Bloco de Esquerda, a simpática agremiação política portuguesa nada estalinista nem trotskista, ou por outra, nada neo-comunista que tanto atrai o voto dos militantes impensadores portugueses, e acolhe seus filhos e irmãos mais novos nas colónias de férias dos “pioneiros” de hoje.
Quando agora leio que o fantástico Obama se recusa a receber o líder anti-colonial Dalai Lama não posso, entre outras coisas, de lembrar os ruis tavares, os bloquistas de esquerda, os ex (e espero que não futuros) presidentes jorges sampaios. Entre eles há os parvos. Uma pequena minoria. E os patifes. A maioria. É, consta, a maioria de “esquerda”. Sinistra, literalmente.
Estava em férias e não li na altura, só hoje. Aqui fica o discurso de Obama no Gana, para consultas futuras. É um discurso presidencial. Mas é bem mais do que isso.
É normal que se atente nas eleições americanas. Mesmo gente que nunca olha para a política externa. Os EUA são importantíssimos. E produzem (muita) imagem. Nisso é pena mas é recorrente que os blogo-portugueses assumam partido, assim egocentricamente usando as eleições na maior potência mundial para afixarem os seus marcadores coloridos – no caso dos blogo-moçambicanos é (este ano) mais fácil, a rapaziada é obamista porque Obama é negro (se fosse moçambicano chamar-lhe-iam “mulato” e usariam os palavrões adjectivantes do costume, mas neste caso não dá jeito).
No primeiro caso é, em absoluto, o castafiorismo comentador, nada mais. Da parvoíce luso-obamista já rezei o suficiente. Mas não vai só: um tipo vê este tipo de núcleos republicanos e interroga-se como podem os “liberais” portugueses excitarem-se tanto no seu republicanismo militante. Optar por um dos lados? É normal, dada a tal importância e tamanha imagem. Excitarem-se no tecladismo? Só mesmo pelo mais radical dos anti-liberalismos (o “radicalismo euro-reaccionário de fachada liberal”, diria Cunhal se tivesse sido bloguista). E diria bem.
um tipo num blog (diário pessoal) mete o que quer. Um tipo que é pago para opinar num jornal (e de “referência”) tem algo mais … assim tipo responsabilidade social, dir-se-ia. Breves dias em Portugal deixam-me entender que há algumas vozes novas (pelo menos para mim) no grupo dos fazedores de opiniâo. Descobre-se (ou reconhece-se) um nome e logo o encontramos nos jornais, na tv, o prestígio está ganho.
Neste verão é Rui Tavares. A esquerda que ri, presumo. Leio-lhe no Público a opinião, decerto que abrilhantada com o brilho do intelectual: “sou um obamista“. Não se trata de discutir a falência do modelo bush, do cristo-reaccionarismo americano da ultima década, de entender a necessidade de alguma mudança por lá, da esperança numa outra política externa, mais complexa, e noutra interna, alimentando (ressuscitando?) o peso mundial de um modelo de sociedade social – e não a tralha omnívora a que alguns chamam (porquê?) neo-liberalismo (uma palhaçada intelectual que alimenta a “direita” bloguística portuguesa, de prosápias intelectuais mas muito dados a abridged versions ou “ensaios” – na lógica portuguesa da palavra). Nâo se trata disso, trata-se de uma esquerda moribunda, incapaz de se entender sem o farol americano (anti-americanista, agora obamista). O domínio radical do impensamento: o mundo visto do club med, o pequeno-burguês não vai mais longe por mais andanças que faça. É o novo-riquismo de batina académica …
Um gajo declara-se obamista: adepto “ista” de quem tem “director de fé”, de quem acredita no que vem na bíblia, de quem abre um congresso político com a mulher e as duas meninas dizendo-lhe (e à tv) que o amam muito – “ah, mas é na América, tem que ser assim!!” dirão, na explanação da sua profunda desonestidade intelectual (e não só – insisto, os textos nos jornais são pagos, é uma actividade laboral, a desonestidade no trabalho é igual para todos). Ou seja um qualquer McCain diz coisas de que não gostamos e desvenda a sua demoníaca essência! Um qualquer Obama diz coisas de que não gostamos e evidencia a mera necessidade de adequar a forma do discurso ao público.
É esta a esquerda que escreve em Portugal, enquanto ri – que é “ista” do irracionalismo dos “gurus” cristãos, que é “ista” da demagogia populista mais baixa, que é “ista” do “criaccionismo” ainda que subtil, que é “ista” do primeiro-damismo mais imbecil.
Que a esquerda política de cagança académica morrera já se sabia. Que os jornais acolhem os despojos também. Um tipo não se deve irritar. Apenas se enoja, nisto de vir de ano a ano, encontrar as novas caras. E entristece-se quando as poucas vozes que vão indo ainda dão cobertura a esta paródia.
Adenda: é evidente que não é com esta gente que se deve discutir a questão racial, o “agora é a nossa vez”. Pois interrogar isso exigirá querer interrogar. Sem ser “ista”. Para quem tiver a decência (no fundo não é nada mais do que isso) de não ser “ista” d’algo procure no youtube a cerimónia dos oscares pré-obama (oscar a hale berry, denzel washington, sidney poitier e … robert redford). Analisem: agora é a nossa vez. E pensem, o mundo não é só hollywood. Mas repito, não vale a pena discutir essas coisas com esses macainistas/obamistas.
Adenda Segunda: Rui Tavares teve a gentileza de deixar na caixa de comentários o artigo que referi, e que assim transcrevo.
Para quem tiver paciência visite a caixa de comentários: pois aí tenho que matizar um argumento contra Rui Tavares; e porque não concordo nada com os comentários aí deixados por alguns comentadores residentes do ma-schamba.
“Roosevelt contra Roosevelt
28 Agosto 2008 | por Rui Tavares
É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo do reverendo Wright, sob a impressão geral de que a candidatura de Barack Obama acabara de ser destruída pelo seu desbocado pastor protestante, uma decisão do Partido Democrata sobre as primárias da Florida e do Michigan acabara (do meu ponto de vista) de lhe possibilitar a vitória. Pouco depois, houve um sobressalto geral com a ponta final de Hillary Clinton, numa altura em que me parecia que na verdade Obama já tinha essa vitória na mão.
Isso foi nas primárias democratas; agora estamos na campanha para as eleições gerais e o candidato republicano, John McCain, acabou de ultrapassar Obama nas sondagens. A percepção geral é a de que Obama está em queda quando deveria estar muito à frente. É mais uma vez o momento indicado para relançar o meu palpite: salvo escândalo ou guerra, continuo a apostar numa vitória de Obama.
Em primeiro lugar, não faz sentido esperar que os democratas ganhem por muito. Há trinta anos que eles não ganham eleições presidenciais “normais”. Bill Clinton ganhou na primeira vez com o voto adversário dividido (entre Ross Perot e George Bush pai) e na segunda vez já como presidente. Mas Al Gore e John Kerry ficaram a poucos votos de ganhar e é a partir desse pecúlio que Obama poderá construir uma vitória, ampliando o número de estados competitivos que poderão cair para o seu lado. Por isso não é de esperar uma grande distância nas sondagens nacionais, embora seja possível que ela venha a ocorrer depois nos votos do Colégio Eleitoral, que são distribuídos por estado.
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Em segundo lugar, as diferenças entre candidatos. John McCain costuma dar como seu presidente ideal o republicano (e progressista) Theodore Roosevelt, cujo militarismo e voluntarismo aprecia e em cuja “obra” — o Canal do Panamá — ele próprio nasceu, literalmente. É duvidoso que o erudito e poliglota Theodore Roosevelt atacasse os seus adversários por serem “intelectuais e elitistas”, como McCain faz e é a moda da direita à escala internacional. Mas é verdade que John McCain é, ao menos, um político mais inspirador do que George W. Bush.
Mas não é de um Theodore Roosevelt que os americanos precisam agora. De quem eles precisam é de um Franklin Delano Roosevelt, seu sobrinho, o democrata que foi presidente quatro vezes depois da Grande Depressão. Tal como agora, Franklin Roosevelt apareceu numa altura em que a doutrina económica dominante se revelara disfuncional e os seus fundamentos morais aberrantes. Tal como Obama, Franklin Roosevelt apareceu com um discurso moderado e unificador, mas foi levado pelas circunstâncias a simplesmente refundar as estruturas do país. Foi ele que criou a Segurança Social nos EUA, e a criou de maneira a impedir que “um político qualquer a possa desmantelar”, como dizia e com razão (George W. Bush tentou e não conseguiu).
A Grande Depressão colocara a nu que a liberdade não se pode resumir à não-interferência do Estado. Liberdade é também liberdade para construir uma vida. Quem vive na pobreza ou no medo do desemprego não vive em liberdade. Distribuir liberdade por todos implica lutar por justiça social e segurança económica. Não precisamos de uma Grande Depressão para saber isso. Na verdade, o susto que já levamos deve chegar para os americanos perceberem que é preciso um caminho novo.”
Abaixo abordei (estreia na horta) o candidato yankee (gringo, em português) Barack Obama. E hoje belo jantar, queijos vários e vinhos “lá de cima”, dele cheio. Importante, decerto, no sítio onde está. No resto, diante desses que o iconizam para auto-posicionamento (e auto-legitimação, nunca esquecer), tipo “pago sem ver”, pokeristas católicos (coisa de milénios ou chegada em pleno XX, soam iguais) – coisa de culpas sonegadas -, só sorrio, compungido. Meu afastamento, algo que já referira
E (não sei meter youtubismos – será que funciona?)
sublinho hoje, aqui, ainda mais forte e de muito mais antes. Sem gringuismos. Nem outros “ismos”. Pois só um sol por aí. Por aqui. (Mas tantos palavrões sob ele. E, nunca esquecer, tantos pruridos. Em todos. Mas mais exactamente nesses.).
Telejornal português de ontem. Peça sobre a religião e a campanha presidencial americana. Ali relatada a figura dos “directores de fé” dos candidatos democráticos (juro que ouvi. E que não consumo psicotrópicos, apenas analgésicos para a ciática). Ali ecoada a realidade de que estes candidatos se referiram à religião já por centenas de vezes. Ali retransmitidos trechos de entrevistas de ambos: Clinton afirmando que tem vindo a estar, várias vezes, com o Espírito Santo; Obama, veemente, dizendo (é certo que com nuance retórica) que o que está escrito na Bíblia corresponde, substancialmente, à verdade. Depois a jornalista remata dizendo que à direita McCain pouco fala de religião (não infirma a presença de um “director de fé”, apenas deixa presumir).
As “esquerdas” africanas e europeias – racistas e genderistas – nem comentam. Blog para que te quero? A imbecilidade pega-se? Nada – é mesmo mera desonestidade intelectual. Em alguns, concedo, o desejo de não envelhecer, de flanarem nas aparências de hoje. Mas nada mais.
“Hergé retoma pela terceira vez a aventura americana para a edição publicada em 1973. O texto será comprimido para evitar os cortes de palavras no fim das linhas. Mas, sobretudo, fez uma importante concessão aos editores americanos: em três quadradinhos retira os negros que entram na história. Com efeito, os americanos opunham-se ao facto de negros e brancos figurarem lado a lado numa história destinada a um público jovem.
“Na prancha 1, o bandido negro, à direita do grupo ao qual Al Capone se dirige, é substituído por um malfeitor de origem porto-riquenha. O porteiro da Petroleum & Cactus Bank na prancha 29 passou a ser branco. O mesmo tratamento foi aplicado ao bebé que chora e à mãe deste, na prancha 47.”
(Michael Farr, Tintim. O Sonho e a Realidade, Lisboa, Difusão Verbo, 2005, p. 38)
Falso post-scriptum: antes que algum desses “semiólogos” fascistas de extracção marxista por aqui passe e erga a habitual catana: “Mas nas três versões (…) Hergé persiste na condenação do linchamento e do habitual racismo das pequenas cidades americanas“. (idem)
Já agora, sobre os pobres tontos que aderem a Obama porque ele é “negro” – triste impensamento – já a “Ana” pôs o ponto final parágrafo adequado.
O que venho blogolendo sobre Obama, o americano candidato às eleições presidenciais deste ano, ancora no mais absoluto vácuo racional. Por um lado há pessoas que pensam como se fossem americanos (“temos [repare-se no "nós"] um homem branco no poder desde XVIII“) – tontice que se explicará por excesso de consumo de cinema americano, esse que disponibiliza uma imensa galeria de alter egos [como se fará este plural?] à disposição. Por outro porque o pai do homem nasceu em África ele é “nosso, africano“. Quando isto vem de gente que trabalha com as questões sociais eu não percebo para que serve estudar.
Entretanto sobre as eleições americanas eu oscilo. Espero que ganhe ou o McCain ou o Edwards – porque os antepassados deles nasceram na Europa e, portanto, são também nossos, europeus. E porque são homens, tal como eu. Se não forem eles a ganhar espero que, pelo menos, não tenhamos (bis, tenhamos) um presidente como o Obama (um africano) nem, ainda pior, a Clinton (uma mulher) – e digo isto ainda que alguns dos meus antepassados tenham sido mulheres.
Como é arte não se pode inscrever em nenhum contexto, seja social, seja histórico. E não há nenhum fio condutor. Agora eu, como sou de esquerda (apesar de achar isto da “arte”), vou ali dizer mal dos EUA – sigam as minhas “tags”. De noite regressarei para escrever sobre a maravilhosa sessão dos óscares, essa grande comemoração da “indústria”.
Uma exposicao na AMF, antes ver Tomo no CCP, um pre-jantar no Mundo’s, ai mesa cheia de amigos, um novo bloguista na cidade, nos os dois a falarmos de blogs portugueses, os amigos (“nao ha paciencia para estas conversas”) gozando com os maluquinhos das teclas e dai a cutucarem-me de direitista, entre-ironias, foi pequeno passo.
Por isso, depois, vou dar uma voltita pelos blogs, que e coisa cada vez mais rara. Aqui o direitista, pro-americano ate, completamente clinteastwoodesco entre outras coisas, repara que, ano apos ano, os bloguistas de esquerda (e os esquerdistas tambem, ja agora) mergulham na oscarizacao. O ano inteiro no anti-bushismo. Mas tambem o ano inteiro no anti-capitalismo americano, no anti-industria americana, no anti-imperialismo (perdao, globalizacao) americano. Depois, parentesis, loas `a “industria”, se esta a do cinema (entao quando ela doura Scorsese, quao credora se trata). Como gostam de cinema la usam o bisturi para cortar o real ao seu gosto, e nem tratam da linguagem. E depois do parentesis la regressam. Teclam, teclam, teclam, como o coelho das pilhas.
O que aqui se passou é uma questão civilizacional. Com tudo o que de problemático tem tal conceito. De evolucionista, de preconceituoso. De normativo. Assim seja. Pois é, realmente, disso que se trata. Obliterar isso, varrer isso para debaixo do “nós vs eles”, da “direita e esquerda”, do “democratismo” vs “anti-americanismo” é mero regresso à barbárie. E em muitos casos de manutenção na barbárie.
De ligações [links] em ligações apanhei algumas pérolas, algumas em blogs que já nem visito habitualmente.
Uma (não recordo onde) considerando que os negros americanos são pobres porque são negros. O que não deixa de ser verdade, o que demonstra que a amplitude da língua. Ainda que eu também ache que os negros americanos são negros porque são pobres.
Uma outra (recordo-me bem, mas já nem ponho ligação), excelente. Dizendo que se houver um terramoto em Lisboa (longe vá o agoiro) não deverá haver ajuda do Estado (e da UE) às vítimas pois estas são responsáveis por terem escolhido viver num local perigoso.
Estes são os bloguismos célebres e acarinhados no meu país. Claro que há crise no país. E grande.
“Most notably in recent times, James Watt, Ronald Reagan’s unlamented secretary of the interior, a deeply conservative thinker and prominent member of the Pentecostal Assembly of God, stated that we need not worry unduly about environmental deterioration (and should therefore not invest much governmental time, money, or legislation in such questions) because the world will surely end before any deep damage can be done“.
(S. J. Gould, Questioning the Millennium, Vintage, 1998, p.20)
Todos o sabem, durante meses falou-se até à exaustão das eleições americanas. No bloguismo português foi uma correria, até eu me posicionei. Tenho, e tê-la-ei dito, a minha opinião. É óbvia a importância dos EUA para o contexto internacional mas, acima de tudo, ela não é nenhuma novidade, nem em grau nem em intensidade. Daí que o extraordinário fenómeno do “tomar partido” nas eleições americanas que ocorreu, “bisturizando” a tradição ideológico-política europeia, muito significa um grande empobrecimento ideológico.
Foi um tralalá, com gente a pensar por analogia, como se houvesse (ou fosse possível) a universalização (a “globalização”?) da dicotomia “democratas”/”republicanos”. E um tralalá cheio de argumentação sobre meros epifenómenos recorrentes, aka Iraque, um episódio que na prática apenas significa “nada de novo na frente global”.
Porque me lembro disto, hoje sexta-feira pré-Natal?
Porque muitos poucos exalto-bloguistas li discutir a política ambiental de Bush, essa sim estruturante, essa sim fundamental, essa sim urgente. Essa sim que tem a ver com o dia-a-dia das “famílias” e das “sociedades”. Por aqui escrevi que sempre me espanta um conservador que não está atento à preservação ecológica – é uma contradição de termos, intelectuais e morais.
Recordo que há anos Bush recusou uma política ecológica, urgentissima, sistematizada no protocolo de Kyoto, entendendo-a contrária ao “american way of life” – aliança óbvia aos grandes interesses industriais de curto-prazo (e de certa forma uma posição estatal contrária ao primado da concorrência criativa, em meu modesto entendimento) mas, mais do que tudo, uma explícita subordinação do “world way of life”, uma condensação de uma visão do mundo.
Há muito pouco foi noticiada a re-recusa do protocolo, afirmando-se-lhe falta de fundamentação científica. Significando a continuação de uma política ambiental absurda, e que a lusosfera continua a ignorar, na sua maioria. Política ambiental essa que, inclusive, foi apoiada em alguns blogs lusos (não retive nomes, nestas leituras rápidas).
Hoje leio a entrevista do Ministro do Ambiente português, Luís Nobre Guedes, decerto insuspeito de manipulações anti-americanas. Nobre Guedes refere isto:
“…défice em termos de alterações climáticas – uma política que pudesse fazer frente a este problema que é o problema número um do sec. XXI -, défice em termos de estruturação da água e dos resíduos”. Ou seja, anunciando que para ele Bassorá e as mesquitas dos arrabaldes de Argel não são o ponto focal da existência humana.
Bem, seria de esperar que agora, esmagada a Toupeira estalinista John Kerry e os seus acólitos Chamberlains, se começasse a pensar de modo algo diferente. Talvez o sossego permita re-olhar o mundo menos dicotomicamente. A preto e branco. Têm a palavra os mais bushistas? Ou todos?
Em tempos aprendi que os “testes” de QI serviam para medir a inteligência. E que a “inteligência” era aquilo que os testes mediam. Não era piada, era um discurso analítico crítico sobre a construção do conceito, da sua métrica. E também da sua utilização, pois foi ele socialmente aferido de molde a valorizar características culturais (mais) presentes nos indivíduos de determinados grupos sociais, étnicos, até nacionais e, também, de género.
Mais ou menos sociocêntricos, mais ou menos etnocêntricos, os “testes de QI” surgiam como instrumentos desqualificadores de grupos sociais, reprodutores de hierarquias sociais. Justificando-as como “naturais”, em cúmulo de repressão social, em cúmulo de inculcação auto-culpabilizadora dos desapossados, pois derivadas essas hierarquias, e respectivos lugares, das capacidades em “inteligência”, apresentadas como algo praticamente inato.
Entenda-se, os testes de QI apresentam uma hierarquia social como se que natural. Assente no critério mais valorizado nas sociedades modernas, a racionalidade individual, essa “Razão”.
Esta naturalização ideológica implica que os “testes de QI” surgem como mecanismos de exclusão social. De exploração. Produtos de técnicas engenheirísticas cuja aparente cientificidade lhes brota do cardápio de números alinhados que agitam sob o nariz dos incautos.
Mas isto aprendi há já uns tempos. Talvez tudo tenha mudado desde então.
Ainda assim, e porventura desactualizado, nestes últimos dias, ao ver uma pretensa esquerda brandir, de blog em blog, a tabela QI médio por estado (americano) / sentido de voto Bush vs Kerry, já não me surpreendi: porque esta não é uma “esquerda caviar” é uma esquerda “salsicha Nobre”.
E daqui sai um abraço, sobre as nossas hipotéticas diferenças, ao WR.
Campanha. Estou a gostar da lusa blogoatenção com o jogo bush-kerry. Todos votam, perdão, botam. E contam. E apontam. E todos com conhecimento de causa(s). …end of the day, we are all americans, assim vão dizendo os mais pró e os mais pró.
Lembra-me uma série de TV, muito fraquita, com mais de 20 anos e da qual esqueci o título. Emigrantes italianos, início de XX, e lá na coberta à visão da Estátua da Liberdade o frágil actor gemia, arrastado, olhos esbugalhados, “L’ Ámérica, L’ Ámérica” (ficou uma “piada privada” lá no meu meio, metáfora da imbecilidade. Será que alguém se recorda do título do raio da série?).
Aqui também há eleições à porta. É o que me vale para encher a vida com algum sentido. E também eu vou dizendo, arrastadissimo, “Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa”. E escrevendo posts sobre quem vai ganhar e porquê. E em quem votaria eu, e todos os detalhados porquês de tais opções. After all, “no fim do dia” we are all africans, specially lusophone africans…
E a este propósito não deixo de me interrogar, ainda que não reduzindo esta dramática questão ao momento actual: como se pode ser tão pró-Bush se o homem não tem o mínimo de sensibilidade ecológica? Se tranca os necessários e urgentíssimos compromissos ecológicos a um estapafúrdio “american way of life” (lembram-se?).
Ou será que a National Geographic agora é um agente dos russos, perdão, dos democratas?
Já agora, e um bocado a despropósito, há em Portugal, e nos seus blogs, uma corrente tão cerradamente pró-Bush que me parece que algum centro e a direita portuguesa (ou blogoportuguesa) está desnorteada nos seus referentes, que nenhuma outra bússola resta para além dos EUA. Um algum centro e uma direita que se diz conservadora, mas que surge absolutamente industrialista, incólume a qualquer preocupação ecológica. Uma total contradição intelectual e ideológica. Enfim.
Um algum centro e uma direita que se reclamam liberais, mas totalmente incólumes ao não liberalismo da política do governo Bush. Enfim.
Ou será que Bagdad é o centro do mundo, como a Jerusalem medieval o era para os incautos desses tempos?
Diga-se que vendo tanto socialista agarrado ao Kerry, jornalando e blogando de bandeirinha hasteada como se num caucus democrata, é óbvio que o mal do desnorte, da “americanização”, do empobrecimento intelectual parece ser geral. Que aconteceu à Europa?
Enfim, devem ser anos a mais em África, quem sou eu para me questionar com Europas?
Já agora, e ainda mais a despropósito, e porque referi o Causa Nossa, quando leio Luís Nazaré, homem da elite socialista, afirmar: “Sugiro-te que deixemos os exemplos estrangeiros de lado (porque não se nos aplicam) e a semântica ideológica para os doutorandos em filosofia política, porque do que precisamos é de política para o nosso tempo” (a ligação permanente é inválida) assusto-me, mergulhado neste anti-intelectualismo tecnocrata, o mito do “realismo”. E já nem entro no avesso ao “estrangeiro” porque até se poderia contextualizar. Até, só até.
Enfim, a torcer ainda mais o nariz ao que aí vem daquele lado.
Face ao absurdo da prisão de Bobby Fischer que foi “detido no Japão por tentar sair do país com um passaporte norte-americano inválido, foi hoje transferido para uma prisão destinada a pessoas com penas prolongadas.” Tal deve-se a que “Os EUA incluíram Fischer numa lista de pessoas procuradas desde 1992, quando, apesar de uma proibição para viajar até à Jugoslávia imposta pelas Nações Unidas, deslocou-se a esse país para realizar uma partida contra o seu antigo rival russo Boris Spassky, que lhe possibilitou amealhar um prémio milionário.” [e estou a citar o jornal Record], urge dizer
Alguém se lembra quando o seu génio foi bandeira da liberdade? Para quê este fundamentalismo administrativo, este revanchismo absurdo? Não tem tudo isto tanta semelhança com aquele outro que vigiava cada lance, cada roque, de Spassky? Cada abertura, cada sacrifício de Korchnoi?
Onde estão os que amam o génio? Onde estão os cantores da liberdade? Fischer não fica bem como causa? Porque solitário irredutível? Excêntrico? Não bannerizável?
Onde estão os democratas? E onde estão os libertários? E os liberais? Onde está a solidariedade com um homem tão especial? Tão gigante? Que efectivo crime cometeu ele? Onde está a indignação da coerência?
“On the pretext that Sudan was making anti-American bombs (and some people felt to correct the negative image created by the Monica Lewinsky scandal, to look decisive and presidential, even if meant risking lives and flattening foreign real estate), President Clinton ordered air strikes against the Sudan. He succeeded in destroying a pharmaceutical factory outside of Khartoum in August 1998. This bomb crater would be on my itinerary, for after the bombs were dropped no one in the United States took much interest. Though we become
hysterical at the thought that someone might bomb us, bombs that we explode elsewhere, in little countries far away, are just theater, of little consequence, another public performance of our White House, the event factory.”
Paul Theroux, Dark Star Safari. Overland from Cairo to Cape Town, Penguin Books, 2003, pp. 12-13
Leio Vital Moreira questionando se Bush não deveria sofrer um processo de destituição por ter falseado dados. (artigo transcrito em baixo).
Não sendo cidadão americano não opino. Mas, e ainda que julgue serem casos com diferente enquadramento formal, não posso deixar de sorrir à memória de tudo o que passou Clinton quando foi acusado de ter perjurado naquele caso em que foi vítima de assédio sexual.
Enfim, coisas das leis.
Por ter alegado ligações entre Saddam e a Al-Qaeda11 de Setembro: “The New York Times” exige pedido de desculpas de George W. Bush
Público (Última Hora)
17-06-2004 – 14h21
O diário norte-americano “The New York Times” defende hoje, em editorial, que o Presidente George W. Bush deveria “pedir desculpas” por ter justificado a guerra contra o Iraque com base na alegada ligação entre o regime de Saddam Hussein e a rede terrorista Al-Qaeda — desmentida ontem pela comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro.
Sustentando que a comissão foi “o mais clara possível”, ao afirmar que “nunca houve provas da existência de ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda, entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro”, o influente diário nova-iorquino afirma que “o Presidente Bush deve agora pedir desculpas ao povo americano, que foi levado a acreditar numa coisa diferente”.
O diário sustenta que, “de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão do Iraque”, “a mais desonesta” foi a de ligar a guerra com a luta contra o terrorismo internacional. “Se é possível que Bush e os seus colaboradores acreditassem realmente na existência de armas químicas, biológicas e nucleares no Iraque, sabiam durante todo esse tempo que não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda”, sustenta o jornal.
“Nenhum perito sério acreditava que essa ligação existisse”, lê-se no editorial, recordando que Richard Clarke, antigo conselheiro do Presidente para as questões do contraterrorismo, afirmou publicamente que Bush tinha sido informado disso.
“Mesmo assim, a Administração Bush convenceu uma maioria significativa de americanos, antes da guerra, de que Saddam Hussein estava, de alguma forma, ligado ao 11 de Setembro”, critica o jornal, lamentando que ainda esta semana, o vice-presidente, Dick Cheney, tenha afirmado que o ex-Presidente iraquiano “tinha laços estabelecidos há longo tempo com a Al-Qaeda”.
Para o diário nova-iorquino, não se trata apenas de “uma questão de diminuição da credibilidade do Presidente, por mais perturbante que isso seja”. O jornal vai mais longe e afirma que “a guerra contra o terrorismo foi prejudicada, na medida em que o conflito no Iraque desviou recursos militares e estratégicos de locais como o Afeganistão, onde realmente podem estar as forças da Al-Qaeda”.
Um blog é também um instrumento para fazer perguntas. Acho que pela Europa há um esvaziamento político. Velhas divisões prescreveram. Novas não terão surgido (ou não compraram orgãos de comunicação, pelo que não se ouvem). Pelo meu rincão idem, até mais. Estou, é claro a falar de democratas, aqueles que gostam de democracia representativa, não dos que apelam à democracia dos “movimentos sociais” (quais? perguntava há tempos um sábio inquiridor, e tão inteligentemente o fez), esses para os quais “representação” é mero novo nome para o velho “formal”. Desta “democracia formal” os mais novos não se lembram, aqui vos fica a memória de que era a alcunha da democracia que os fascistas ambidextros usavam.
Daí que as velhas divisões reestabeleceram-se usando polos americanos. O que dantes era a esquerda europeia agora é quasi-”democrata” (e antes não gostava dos gringos), o que dantes era a direita europeia agora é mesmo-”republicana” (e antes não gostava dos gringos).
Empobrecimento? Hollywood? Sei lá, vou vivendo em África.
Mas há uma pergunta que me aflige. Toda a gente no meu país fala em despesa pública, em gastos estatais. Os “euro”-republicanos odeiam o Estado, apupam o despesismo; e gostam de Bush o despesista-mor. Os “euro”-democratas adoram o Estado, exigem a despesa; e gostam de Clinton, o poupador-mor. Mas mesmo assim são muitos veementes, assertivos. Por vezes até mal-criados com os outros.
Em suma, alguém me consegue explicar isto? Alguma visita bondosa deixa aí comentário para que possa eu sossegar este meu não-saber como pensar?
Há dias enviaram-me transcrição de um texto desvalorizando as críticas às torturas dos norte-americanos no Iraque (muito provavelmente violando a convenção de Genebra) por não serem acompanhadas de denúncias sobre as torturas e ilegalidades do PREC. Estranhei tal mistura de alhos e bugalhos, imprópria ao refogado, o qual se quer atinado para correcta satisfação do palato e pacificação digestiva. Que nisto da alimentação ele há o devorar e o saborear.
[não que a história PRECquiana seja desprezível. Ainda que a sociedade portuguesa tenha optado por sombrear muitos dos desmandos. Com alguns custos, como a vergonhosa sentença dos FP-25 (alguns ainda andam por aqui). E a espantosa condecoração a Isabel do Carmo. Já para não falar na influência em partidos nacionais de gente como Ferreira Torres e Valentim Loureiro. Enfim, talvez seja altura de escrever e divulgar mais sobre essa época.]
Nesse mesmo dia dei com um texto bloguístico do mesmo teor, gozando as sensibilidades de quem se preocupa com tais minudências lá pelo Iraque. Irritei-me, depus longo comentário. E pensei em botar por cá sobre o assunto. Entre tantas coisas passou-me.
A este respeito queria então abordar dois pontos: 1. as implicações da violação (posteriormente confirmada) da convenção de Genebra; 2. os fundamentos do raciocínio que produz estes textos.
1. A aplicação da convenção ainda se liga à classificação de “forças armadas” legítimas porque formalizadas. Ou seja, legitima as partes inimigas segundo a presença de um Estado ou sistema político-militar algo centralizado. Implicita a velha distinção entre sociedades estatais e não-estatais (o art. 4º, ponto 2, poderá indiciar isso).
Mas o ponto fundamental é outro, mais perceptível via história. Até porque para des-politizar nada melhor do que des-actualizar. Lembro a II G.M. com a sua aplicação (em versão anterior), pelo menos relativa, entre alemães e aliados ocidentais (não esquecer que sou da geração do Colditz – via BBC e Livros do Brasil)
e a sua não-aplicação entre alemães e eslavos inimigos.
Assim a aplicação da convenção traduz classificações que graduam a Humanidade do inimigo. Obrigatoriamente aplicável aos mais próximos (“racial/cultural”, mas também “politicamente” – por comunhão de “civilização”, donde de Humanidade acrescida). De mais fluída aplicação no confronto com inimigos desvalorizados. Enfim, pela atitude face à convenção de Genebra regressam os marcos distintivos do “Nós” e do “Outros” (desculpem o antropologês), os quais se imaginariam hoje ultrapassados entre “Nós”.
Porque é essa ultrapassagem do “Nós/Outros”, essa universalidade, que julgamos (julgávamos?) traço central do nosso “Nós”.
2. O desvalorizar destes acontecimentos, este radical filoamericanismo, pode parecer estranho, uma sobrevivência de tempos recuados. Mas não. Na prática é um modo de pensamento/argumentação igual ao seguido durante décadas pelos comunistas. Óbvio em tantos textos de verdadeiros homens de cultura, de meros crentes, ou de apenas apparatchiks.
Essa gente tudo aceitava aos russos, todas acções, invasões, crimes, mentiras. Ou negando-as, como falácias da “contra-informação” burguesa (que sorriso ao lembrar essa arenga). Ou justificando-as, em nome de um objectivo final, de uma ideologia. Acríticos sempre. Ainda que prontos a ligeiras calibragens consoante os ventos de leste (e mesmo assim…).
O modelo de pensamento político é o mesmo, um fundamentalismo escatológico. A sua impotência cognitiva idem. E também partilham uma inadequação às respectivas epistemologias, marxista e liberal.
Mas acima de tudo surpreende-me algo mais que os ex-filorrussos e os actuais filoamericanos partilham: essa crença mágica no poder dos textos.
Acreditam que escrever coisas assim, acríticas, indubitáveis, influencia o real. Pois haverá outra razão para pessoas cultas (medianamente que sejam) serem tão facciosas? Tão indubitadas? No fundo acreditam-se feiticeiros escatológicos, com poderes de intervirem pela palavra no destino do mundo.
E como qualquer feiticeiro, dependente do poder dos seus antepassados, presos aos particularismos. Ditos irracionais.
Confesso que esta crença no poder mágico/feitícico da palavra escrita, que esta superstição me espanta. E a esse propósito lembro-me sempre do meu espanto lá pelos meados dos anos 1980, quando li “Margarita e o Mestre” (aquela velha edição, Estúdios Cor?) e “Novela Teatral” do Bulgakov: “como é que o comunismo resistiu a estes livros?”.
Hoje pergunto, se nem um Bulgakov mexeu com um regime político como poderá ambicionar um mero mortal escrevinhador reforçar um desses poderes do mundo. Que vaidade! Vã, como sempre.
Mas porque é que voltei a isto? Pois estreei-me num blog e lá reparei num texto sobre a questão (“Miséria”) o que me levou a recuperá-la (se um blog não tem função também não tem actualidade). E a morte de Reagan ainda para mais, a lembrar o tempo em que os russos eram os nossos inimigos.