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Fevereiro 21st, 2007 — Ciências Sociais, Ensino
Em adição ao que andei
auto-comentando:
“Humilhada em 1870-71, a França encontra-se ávida de “seriedade”. Não tinha sido o sistema teutónico a prevalecer, mas sim a superioridade prussiana em matéria de ensino e de pensamento sistemáticos, tanto na área da ciência como das humanidades. O Gymnasium alemão, as universidades após as reformas de Humboldt e os padrões que regiam a investigação e as publicações eruditas haviam encorajado um tipo de mentalidade que sublinhava a frivolidade, o amadorismo e os caprichos dos costumes intelectuais e académicos do Segundo Império. A preeminência militar fora um resultado lógico dos hábitos de rigor analítico encarnados por Hegel (…). Alexandre Dumas, em 1873: “Já não se pretende ser espirituoso, ligeiro, libertino, escarnecedor, céptico e tolo.” A França deve agora confrontar o “muito sério”. Se não conseguir fazê-lo perecerá.
(…) As duas vozes dominantes, os Mestres deste renascimento, serão Ernest Renan e Hippolyte Taine. (…) Renan faz do “sejamos sérios” a pedra-de-toque do ensino secundário e superior.” (83-84)
(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral)
Julho 28th, 2005 — Ensino
“
O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e discípulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo?
O pulso do ensino é a persuasão. O professor solicita atenção, concordância e, idealmente, divergência colaborativa … A dinâmica é a mesma: construir uma comunidade de comunicação, uma coerência de sentimentos, paixões e rejeições partilhados. Na persuasão, na solicitação, seja ela do tipo mais abstracto e teórico - a demonstração de um teorema matemático, o ensino do contraponto musical - verifica-se um inelutável processo de sedução, voluntário ou acidental … Na emissão e recepção, o psicológico e o físico são absolutamente inseparáveis (veja-se uma aula de ballet). O processo exige o envolvimento da mente e do corpo
.”
[George Steiner, As Lições dos Mestres, Gradiva, pp. 30-31]
Maio 22nd, 2005 — Ensino, Politica Portuguesa
O excelente Azul Cobalto a propósito da luso-blogoverborreia deste final de semana, e cansado com a ignorância patente, remete para um fundamentado artigo “O Insuportável Brilho da Escola”, de Olga Pombo. Lê-se com agrado, em especial quando se (auto)reconhece a ignorância sobre o tema, coisas do papel da escola e seu contexto.Quando súbito, e em “bold” (negrito), lá estão as bases da reflexão, sobreviventes a tanta e tão profunda bibliografia: “Estamos pois perante uma situação terrível - a mais terrível de todas, a meu ver - a progressiva e alarmante transferência para a escola das responsabilidades educativas que, naturalmente, e desde sempre, pertencem à família“. (p. 11)
Valerá a pena continuar a argumentar? Valerá a pena continuar a verborreia ignara diante de tais (tão bibliograficamente fundamentadas) certezas? Valerá a pena lembrar que nada mais é do que atoarda dizer “naturalmente” (algo natural é algo universal, já agora) quanto às funções da família? Que nada mais é do que atoarda dizer “desde sempre”, portanto universal e natural, quanto às funções da família? Pegando assim nesta “família” e dizendo-a natural, universal e eterna quanto a funções e, obviamente, configurações.
Negando, de modo altaneiro, qualquer discussão valorativa e/ou comparativa sobre as estratégias a assumir face ao conteúdo das relações familiares?
Continuar a verborreia? Diante de um texto destes, nem sendo um singelo post de blog, mas um texto “académico”, com todos os signos da distinção, bibliografia constante e tudo?
Continuar a verborreia? Marrar o obscurantismo? Não vale a pena. A “sagrada família” está na cabecinha, arrogante aliás, de quem tão bem pensa. E o resto é presépio.
Maio 21st, 2005 — Ensino, Sociedade portuguesa
Espantam-me a este propósito tantas certezas, vistas como absolutamente normais, despejadas como irredutíveis ou pelo menos como certeiras. Nada é contextual, as coisas são assim. Ou devem ser assim. Quanto tudo é absolutamente conjuntural, meras opções. Que se defendam, mas vistas como efémeras. Meras hierarquias de valores.
Mero exemplo, sem qualquer crítica. Via
100Nada chego a um texto, bem sacado e com o qual globalmente concordo, que
recusa a educação sexual em sentido amplo. Mas que aceita a educação da afectividade (óptimo). E que no sentido estrito (fisiólogico, à falta de melhor termo) da sexualidade considera legítimo ensinar a evitar DTS e a gravidez. Ok, acho que todos concordamos, e é visão que já vi em vários outros posts. Ensinar a higiene sim, ensinar a não ter crianças sim. Ensinar técnicas sexuais não (isso só entre classes de idade, grupos etários). Isto é uma hierarquia de valores que não se deve discutir. Mas porquê? Isso é óbvio que denota uma especial classificação, valorização de “técnicas sexuais”. Uma particular concepção. E eu acho que estigmatização. (Insisto, acontece em tantos outros sítios que não há razão universal para considerar isso uma perversão ou uma fonte de problemas. É eco de trauma, colectivo).
Mas há mais, muitos concordam em ensinar métodos de planeamento familiar, como não ter filhos. Mas não vejo em nenhum post ou texto de jornal a possibilidade de ensinar métodos de facilitar a gravidez ou reduzir a infertilidade. Nem como uma hipótese académica. Isto numa população com baixa taxa de fertilidade, com elevadas percentagens de “estéreis” (horrorosa palavra) e de casais inférteis. Alog que é uma verdadeira chaga social, subterrânea. E como não está no top dessa hierarquia de valores da época não aparece naturalizada, óbvia. Apenas porque o socialmente importante é não ter filhos, não quebrar o velho valor da filiação conjugal, da descendência legítima (um quase mito, mas enfim). E para não quebrar o novo valor da “carreira” profissional (um quase mito, mas enfim).
Enfim, são estes espantos e outros que me puseram a falar sobre algo de que pouco conheço. Acima de tudo sempre espantado como os espelhos nos fazem sempre tão belos.
E de sexo não mais falo. Até porque não parece bem. Em especial com a minha provecta idade. Ainda se fosse este um blog de adolescente.
Maio 20th, 2005 — Ensino, Sociedade portuguesa
Lá no meu país discussão, a “direita” indigna-se pois o Estado (malévolo leviatão) quer ensinar aos meninos para que servem os pipis e as pilinhas, e em anexo um “Faça Você Mesmo”. E a “esquerda” anima-se pois o Estado (querido mano mais velho) quer ensinar aos meninos para que servem os pipis e as pilinhas, e em anexo um “Faça Você Mesmo”.
Não há “direita/esquerda”? Claro que há. Dicotomia de moral pública. Na cabotagem portuguesa pouco mais.
No O Acidental aflição com o leviatão a ensinar o “Faça Você Mesmo” às crianças. Presumo que no(s) “O Acidental” canhoto(s) frémitos com o leviatão a ensinar o “Faça Você Mesmo” às crianças.
Na cabotagem portuguesa quem ensinará, em sua casa, aos seus filhos, o tal “Faça Você Mesmo”? Quem ensinará da masturbação em diante? Os “dextros” e os “canhotos”?
Uns nem na escola. Os outros que seja na escola. Não há “direita/esquerda”? Claro que há. Dicotomia de moral pública. Na cabotagem portuguesa pouco mais.
E assim lá vão todos ensinando aprendendo a punheta. Que de masturbação silêncio. Por pecado ou desconforto.
O subdesenvolvimento é isto. Não ensinar.
Maio 20th, 2005 — Ensino, Sociedade portuguesa
Até aqui de longe, sem saber do que se tratava, logo me cheirou a esturro sacrista o alarido vs a perfídia insana da pedagogia sexual em Portugal. O mofo sente-se, e não há naftalina que lhe valha. Escrevi aí em baixo algo superficial. E também no
Quase em Português. Foi lá que agora vejo a ligação a um texto do
Diário de Notícias que apenas torna óbvio o mais que óbvio.
Mas como a matéria causou textos e comentários no
Quase em Português, ali também a propósito de um texto no
A Natureza do Mal ainda lá botei escritadura a propósito. Aqui a reproduzo, uma botadura no estilo (mais) descuidado dos comentários, e que também dialoga com alguns (poucos) comentários
aqui recebidos.
“Bem, eu não sou adepto da carreira “professor de ensino secundário, disciplina Educação Sexual”. Ainda para mais na variante mini-concurso (ainda há isso?). Mais, não conheço a polémica que aí vai sobre o assunto, apenas alguns ecos blogosféricos, e uma imagem no Acidental. Estou a escrever um bocado no ar, reconheço.
Mas o que me levou a isso foi o imediato repúdio aquando de uma tentativa de ensino sexual escolar. Isto é um absurdo. Tem vários pontos em discussão e não tenho grande apetência/saber para me envolver nisso. Mas já que cheguei até aqui:
1. o que quis dizer nesta caixa de comentários é que o texto que referes [o do A Natureza do Mal] tem pontos muito interessantes (o radical individualismo da sexualidade - permito-me dizer que isto advém da sacralização / tabuização da sexualidade; ela surge como O Domínio irredutível, o resto não. Não concordo, mas isso é mera opinião pessoal). E suporta-se numa falácia, a que evoquei - a de que a sexualidade é o natural, de que há 100 000 anos que é assim, uma descoberta/aprendizagem/”aventura”(?) pessoal. Isso não corresponde minimamente à verdade, e é meramente um “eurocristocentrismo” (grande palavrão) e mesmo assim selectivo. A esmagadora maioria [aqui no Ma-Schamba eu preferiria ter escrito “grande número”] das sociedades históricas têm ritos de iniciação em que abordam (não exclusivamente) sexualidade (e afectividade) e onde os mais velhos ensinam (socializam) os mais novos. Não é assim tão estranho, não é assim tão grave. A moral cristã não encara isso, ok. Mas não venham falar do paleolítico - fiz-me entender?
E partindo daqui não me parece necessário estar a contrariar os argumentos individualistas da Sara [Monteiro], o instinto etc. Não concordo, e não lhe vejo particulares fundamentos (poéticos talvez). Para mais, e tal como comentários que tenho no ma-schamba, tudo isso pressupõe e afirma a quase-universalidade de uma sexualidade sábia [em Portugal](para não dizer feliz ou completa, termos poluentes), as pessoas aprendem livres e ficam a saber - ora isso surpreende-me, não sabia que era assim, não sabia que havia tanta sabedoria, assumpção, completude, realização sexual de geração em geração. Até acredito que assim seja (!????!!!) mas poder-me-ão indicar as fontes dessas certezas, os estudos - é só para confirmar que não são apenas opiniões pessoais, sem fundamento empírico.
Finalmente, e ainda que algo lateral, quando se fala de aborto (e já escrevi para ai 20 textos contra o aborto, chega) sempre me aparecem os adversários do liberalização da lei e os seus defensores a argumentarem com a necessidade de melhorar a educação sexual - e agora ai, ai… [o termo é diferente, planeamento familiar é diferente de educação sexual e há uma perversa tendência para misturar ambos].
Eu insisto, porque raio se outros o ensinam nós não o podemos ensinar, e parece até anti-natura (violador do “eu”, até)? E insisto, se se ensina a fotossintese porque raio não se ensina a sexualidade? Hierarquia de valores, nada mais.”
Adenda: Caro António Torres, como disse estou a escrever um pouco no ar. Agradeço-lhe o comentário com o qual concordo. Apenas lhe acrescentaria também o temor pelo “exagero e o experimentalismo de mentes avançadas, sobre crianças que são [seus] filhos”, pobres filhos - ou talvez não, porque “casa de ferreiro, espeto de pau”; e neste caso felizmente.
Agosto 23rd, 2004 — Ensino
Ensino Superior. No Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique uma interessante palestra de Teresa Rios sobre Pedagogia, ela uma professora brasileira doutorada em Filosofia da Educação, do departamento de Teologia da PUC. E uma bela saída:
“costumo ouvir muitos professores a lamentarem-se que já não há alunos como antes, mas a quererem continuar a ser professores tal como se era antes“.