Eduardo Pitta, Persona, Braga, Angelus Novus, 2000
Três breves contos em trajecto biográfico ocorrido no Moçambique colonial, episódios de puberdade, tardo-adolescência on the road e jovem militar no quase final da guerra. Uma escrita superlativa, uma contenção que se torna cúmulo de ritmo e de elegância [p. ex., talvez só daqui se possa surpreender o quão excêntrico é no registo “em Moçambique”, apesar de tão adequado e neutral, algo como “
A casa que Afonso tinha alugado na ilha [de Moçambique],
um loft do primeiro quartel do século XIX …” (47)]. Um despojamento que deixa adivinhar (sentir) as emoções sem obrigar o leitor a sofrê-las (e quão sofredora é sempre a escrita lusa sobre África, gemebunda até), um despojamento que é também sinal da classe que fala, um raríssimo olhar da grande burguesia colona (também) sobre o mundo onde vivia, um desprendimento sem impulsos nativistas ou nostálgicos, sem rituais denunciatórios de uma qualquer índole. O “onde” (e o “como”) circunscreve-se de início: “
Afinal, em Moçambique os brancos nunca foram muitos … Dois terços viviam em Lourenço Marques, repartidos a oriente e ocidente da Avenida Manuel de Arriaga, difusa linha de fronteira entre dois mundos (Nos primórdios da libertação, coube a José Craveirinha dizer que “a longa e sinuosa estrada que vai da Polana à Mafalala exprime uma grandeza e não uma separação”, mas, trinta anos depois de o haver dito, continua a ser uma mentira piedosa.)” (11).
O cerne do livro, e a sua primeira coisa muito boa (e apelo para muitos), poderá ser o tão normal da sexualidade omnipresente, uma naturalidade do sexo sem embrulhos romântico-passionais, contextos marcadores e originários, suores exóticos, causas libertárias. Só a vida, vestida e cozinhada. Mas também, ou principalmente, e com excelência inédita em textos portugueses, o pano de fundo do final colonial – não como contexto/causa da biografia (coisa que lhe seria menorizadora) mas como o “onde” da biografia (coisa que lhe é excelência). Absolutamente únicas as brevíssimas passagens, epítomes, uma “história sociológica” de Lourenço Marques (pp. 39-42) e um fabuloso encerrar do Império (pp. 53-54): “Quando Afonso voltou à Couceiro da Costa nem sequer encontrou o Bentley prateado da Fiona. O mundo começava a ruir …. À mesa, Afonso pediu espadarte e Sauternes. Decididamente, o mundo começava a ruir.” (54). Lendo-o, a primeira impressão foi a de que aqui residia a estrutura inicial de um romance sobre o fim do regime colonial. Mas logo me vi errado, pois para esse crepúsculo imperial nada melhor do que este condensado brevíssimo, lesto e abissal como o são os crespúsculos locais.
Ainda que este tipo de afirmação sempre pareça de uma grandiloquência ridícula, este é o grande texto literário português sobre o final da colonização em Moçambique. E se calhar mais …
[nunca encontrei este livro à venda em Moçambique]
Dizer-te que a Ilha continua linda?
Pouco tenho para alinhavar
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido
o pretexto adiado
e a memória a estiolar
(Eduardo Pitta, incluído em Viagem - Ilha de Moçambique, Porto, Lugar do Desenho, 2004)