“É detrás dessa muralha da China do que fomos, ou antes de um passado voluntária e nada inocentemente mitificado, que nos encerrámos para que um futuro onde nos não vemos como nos sonhámos se esqueça de nós e nos deixe à glosa interminável da nossa felicidade onírica.
Na ordem quotidiana, Portugal e os Portugueses adaptam-se às chamadas necessidades do real com um pragmatismo que espanta numa cultura tão lírica. Na ordem do imaginário, esse famoso lirismo … não desmente esse pragmatismo. Mas os seus efeitos são inversos, porque o seu escopo não é o de transfigurar ou superar os obstáculos, mas de os evaporar. Vamos para o século XXI em carruagem-cama, indiferentes às tragédias do mundo e às nossas próprias. Os problemas caem-nos em casa já resolvidos. É o mundo que tem problemas, não nós. Os portugueses que não pensam assim não são bons portugueses. Nunca o foram….No tempo de Salazar imaginou-se que essa maneira nossa de não estar no presente e diferir simbolicamente o futuro era um vezo de uma ideologia assumidamente conservadora. Não era. Apenas uma expressão coerente dela. Vinte anos após o fim de tão longo reino, agora vivendo e vivendo-se como normalidade democrática num tempo europeu e no mais vasto de uma cultura planetária do estilo americano, Portugal e o tempo português não mudaram de configuração. (…)
A que se deve tão extraordinária capacidade de estar fora do tempo como presente … ? Reflexo de velho povo e velha cultura, conscientes de que o seu embate sério com uma sociedade tão incontrolável como a que a cada segundo atravessa os ecrãs planetários nos destruiria? Ou íntima convicção de que, mesmo ganha, a nossa aposta num futuro incontornável nunca nos trará de volta aquela imagem que veneramos sob as várias metamorfoses de um quinto império? (…) Reciclámos os restos imperiais que é o melhor que temos e único sinal de mútuo reconhecimento. (…) Enquanto o tempo da realidade se nos impõe e nos arrasta sem contemplações, o nosso tempo simbólico converte-o - e não só na ficção - em fantasmagoria virtual. (…) entraremos no século XXI. E com ele, queiramo-lo ou não, na história real, a nossa, de pequeno povo e sonhos compensatórios, para que não nos demos conta disso. Será o fim do tempo português e o começo do tempo de Portugal, um país como os outros a contas nunca certas com o tempo. Quer dizer, com a rugosa essência da realidade.” (107-109)
[Eduardo Lourenço, “Tempo português”, em A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, Lisboa, Gradiva, 1999]

