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Fevereiro 26th, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ecologia Moçambique

Qual The Artist Formerly Known as Prince, mas não como se crisálida, que não será de borboletas o futuro feito. Sim, dentro de pouco poderemos falar sobre The Beach Formerly Known as Wimbe.
Praia ícone em Moçambique, um pouco pela beleza natural, amena enseada olhando a baía de Pemba, mesmo ladeando-lhe a barra. Englobando aquela meia-dúzia de praias mais célebres desde o tempo colonial, talvez não tanto pela sua excelência - que partilham com tantos outros recantos da costa - mas pela antiguidade das suas infraestruturas turísticas: Tofo, Ponta do Ouro, Bilene, Zalala, Fernão Veloso. E o Wimbe, claro.
Ainda assim o Wimbe tem uma excelência única, exactamente o aconchego, a baía como horizonte, a (ainda) pacatez sob o arvoredo.
Memórias a manter, a guardar, agora que tudo isso mudará. Tive o “privilégio” de ver o novo projecto turístico para a praia, que gente ufana me mostrou, dessas crentes no progresso e isso, desenvolvimento turístico chamam-lhe e até acreditam. Na praia! exactamente na praia, no seio do arvoredo protector (a sul do Nautilus, para quem conhece) vão espetar um hotel, a deslizar para a água.
Este será uma construção da Vovó Donalda e do Tio Patinhas, puro Walt Disney. Tem a forma de um barco, como se paquete. Honestamente julguei que estivessem a brincar quando me mostraram as coloridas fotocópias. “Mas quem é que faz uma merda destas?” - perguntei, malcriadíssimo, ainda surpreeendido pois acreditava já ter visto tudo o que é possível nisto do campeonato do mau-gosto dos arquitectos em Moçambique (a colecção de cromos Sommerschield B - Bairro do Triunfo seria um must como programa cómico num sítio onde se saiba soletrar b-o-m-g-o-s-t-o). “Investidores moçambicanos“, dizem-me com orgulho, até nacionalista, ainda que ali um pouco desapontado dada a minha truculência, “arquitecto indiano … da Índia“.
Um arquitecto indiano aqui arribado para brincar ao Huguinho, Zezinho e Luisinho. Uns investidores moçambicanos a derrubarem o arvoredo protector, a alteraram a enseada, a assumirem a linha de água. Em suma, uma aliança internacional para foder o Wimbe. Será só cupidez e ignorância? Ou é mesmo má-vontade demencial?
Fevereiro 18th, 2008 — Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique

Sim, o “mighty Zambezi” em Chimuara. Sim, eu sei que as águas subiram ali, entrando nas barracas de comércio - as quais continuaram a funcionar, mas isso é outra história … O que eu continuo a não perceber, por mais anos que me passem, é como é que ninguém se lembra de colocar um contentor para o lixo. Não há administração por lá?
Fevereiro 11th, 2008 — Cheias, Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique

Telefona-me amigo a desmarcar encontro. Chego eu da Zambézia e para lá segue ele, ao encontro das cheias. Que o ocuparão nos próximos tempos - a barragem de Kariba vai aumentar as descargas dentro de muito poucos dias (amanhã?) e espera-se maior afluxo de águas por cá, talvez dentro de uma semana. Se o Zambeze já está como o vi - à vista desarmada tal como 2001, bem pior do que o ano passado, anos de cheias em que por ele andei - temo que venha bem pior agora. Para mais esperam-se agora cheias no norte da Zambézia, o Licungo transbordável [já agora, as minhas memórias das cheias do Zambeze e do Licungo de 2001 estão aqui].
No recato de Maputo alguns, ironizando, ainda encaixam as cheias com as vontades de receber/dar “ajuda”, assim invectivando receptores e doadores - será invisível a água?
No recato do burguês alguns continuam a vituperar os renitentes que não saem das áreas alagadiças. Será invisível o rude devir dos machambeiros?
No centro do país janto com quem muito percebe da terra e do como produzir. Pergunto-lhe a sua opinião sobre estes rumores de que a gestão do “grande rio” e dos seus transbordos procura afastar os camponeses das melhores terras de aluvião. “Nada”, diz. E complementa, dessa para mim sempre suspeita visão maquiavélica da História, “isso é conversa de quem não percebe”. Insiste, na bacia do rio há milhões de hectares “fillet mignon” que não estão explorados. Para instalar o grande capital agrícola não seriam precisos tais maquiavelismos.
Outubro 10th, 2007 — Ecologia Moçambique, Imprensa Portuguesa
E como tenho tendência para a repetição (a idade, a idade), vou ali
atrás só para informar os leitores dos jornais de referência portugueses: no ano passado não ardeu 83% da superfície do parque nacional da Gorongosa. Se os fogos e o abate florestal não fossem um drama divertir-me-ia este tipo de borregadas jornalísticas. Assim não tem piada nenhuma. É pura molenguice.
Outubro 1st, 2007 — Ecologia Moçambique, Imprensa Portuguesa
Distraído, ando eu. Forma suave de dizer alienado. Pois informa agora, e com destaque, o Público (jornal português) de domingo, por via de uma reportagem feito no local, que só em 2006 ardeu 83% da área do Parque Nacional da Gorongosa. E eu sem dar por nada - pois é, distraído, alienado. Egocentrismo, blogocentrismo, alienismo.
Março 29th, 2007 — Ecologia Moçambique

(Tchuma Tchato. Fotografia de Fernando Costa)
Fevereiro 8th, 2007 — Ecologia Moçambique
Por todo o lado, disse-o eu, observando à vista desarmada a razia florestal que ocorre em Moçambique.
Carlos Serra deixa-nos pistas para seguirmos trabalho da BBC sobre a hecatombe em curso. O último Savana (jornal obviamente decadente, pois não só desprovido de parque gráfico como do hoje corriqueiro acesso informático) denuncia a pilhagem via reportagem “Take Away Chinês”. Haverá alguma árvore de pé antes de se tomarem efectivas medidas? Há alguns anos diziam-me no Niassa que a fronteira Malawi-Moçambique era visível de avião, seguia a linha das árvores, lá sim, aqui não. Ou seja, sendo optimista, é possível evitar o drama, basta olhar o (pobre) vizinho.
(a questão ecológica é interessante se vista através do bloguismo em português. Fundamentalmente ou está presente em blogs dedicados (de causa) ou é ridicularizada em blogs liberalhos, gente tão vácua, imbecil e mal-educada - não no sentido de urbanidade, sim no sentido de educação intelectual, saber e emoção. Nos liberalhos reina a arreigada crença que a empresa humana, desde que liberta dos constrangimentos irracionais provenientes do anti-indivíduo Estado, é virtuosa. Como tal é ontologicamente impossível a decadência natural por via da empresa humana, quanto muito será aparente, episódica. Nisto tudo de somenos importância, mas surpreendente, é a atenção e o tempo dispendido por tanta gente isenta de atracção por Testemunhas de Jeová ou esquerdalhos, em ler a tralha liberal caviar que pulula no Atlântico em português.)
Janeiro 12th, 2007 — Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique
Janeiro 9th, 2007 — Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique
Já
antes abordei esta insuportavel realidade: a globalização das práticas culturais afrikaans, aka, a condução na areia. A maioria dos praticantes são dessa etnia, mas por razões socioeconomicas, pois a adesão à condução nas praias expande-se mais lesta do que a leitura dos evangelhos e do corão. Atente-se, os carros são levados para a praia não para desvendar selvagens destinos nem para transportar os barcos de recreio, mas apenas para evitar transportar os colemans (e suas bebidas espirituosas) aqueles vinte ou cinquenta metros.
A utilização de veículos motorizados nas praias é proibida em Moçambique (tal como o é na África do Sul - aliás, aquando das minhas observações participantes junto daquela etnia alguns desses nativos me informaram-me que um dos atractivos da costa mocambicana para os turistas sul-africanos é a facilidade de utilização dos carros nos areais). As autoridades vão fazendo algum controle (quando fazem), mas debatem-se sempre com falta de recursos, humanos e de transporte. Por que não confiscar os carros encontrados bronzeando-se à beira-mar? Sempre seriam dois (Xn) coelhos de uma cajadada.

Inhassoro, manhã solarenga, Dezembro de 2006…

Ei-los

É aqui mesmo …

molhando os pés …

o cabo-de-mar

Ok, lá terá que ser … (We Shall return?)

Continuemos: Inhassoro, manhã solarenga, Dezembro de 2006…


Mas … logo de seguida, e mais lestos do que o disparo do turista …
Dezembro 17th, 2004 — EUA, Ecologia Moçambique, Politica Portuguesa
Todos o sabem, durante meses falou-se até à exaustão das eleições americanas. No bloguismo português foi uma correria, até eu me posicionei. Tenho, e tê-la-ei dito, a minha opinião. É óbvia a importância dos EUA para o contexto internacional mas, acima de tudo, ela não é nenhuma novidade, nem em grau nem em intensidade. Daí que o extraordinário fenómeno do “tomar partido” nas eleições americanas que ocorreu, “bisturizando” a tradição ideológico-política europeia, muito significa um grande empobrecimento ideológico.
Foi um tralalá, com gente a pensar por analogia, como se houvesse (ou fosse possível) a universalização (a “globalização”?) da dicotomia “democratas”/”republicanos”. E um tralalá cheio de argumentação sobre meros epifenómenos recorrentes, aka Iraque, um episódio que na prática apenas significa “nada de novo na frente global”.
Porque me lembro disto, hoje sexta-feira pré-Natal?
Porque muitos poucos exalto-bloguistas li discutir a política ambiental de Bush, essa sim estruturante, essa sim fundamental, essa sim urgente. Essa sim que tem a ver com o dia-a-dia das “famílias” e das “sociedades”. Por aqui escrevi que sempre me espanta um conservador que não está atento à preservação ecológica - é uma contradição de termos, intelectuais e morais.
Recordo que há anos Bush recusou uma política ecológica, urgentissima, sistematizada no protocolo de Kyoto, entendendo-a contrária ao “american way of life” - aliança óbvia aos grandes interesses industriais de curto-prazo (e de certa forma uma posição estatal contrária ao primado da concorrência criativa, em meu modesto entendimento) mas, mais do que tudo, uma explícita subordinação do “world way of life”, uma condensação de uma visão do mundo.
Há muito pouco foi noticiada a re-recusa do protocolo, afirmando-se-lhe falta de fundamentação científica. Significando a continuação de uma política ambiental absurda, e que a lusosfera continua a ignorar, na sua maioria. Política ambiental essa que, inclusive, foi apoiada em alguns blogs lusos (não retive nomes, nestas leituras rápidas).
Hoje leio a entrevista do Ministro do Ambiente português, Luís Nobre Guedes, decerto insuspeito de manipulações anti-americanas. Nobre Guedes refere isto:
“…défice em termos de alterações climáticas - uma política que pudesse fazer frente a este problema que é o problema número um do sec. XXI -, défice em termos de estruturação da água e dos resíduos”. Ou seja, anunciando que para ele Bassorá e as mesquitas dos arrabaldes de Argel não são o ponto focal da existência humana.
Bem, seria de esperar que agora, esmagada a Toupeira estalinista John Kerry e os seus acólitos Chamberlains, se começasse a pensar de modo algo diferente. Talvez o sossego permita re-olhar o mundo menos dicotomicamente. A preto e branco. Têm a palavra os mais bushistas? Ou todos?
Dezembro 7th, 2004 — Desenvolvimento, Ecologia Moçambique
[Ali abaixo, nos comentários, grande comment]
Retirei a notícia daqui.
Bazaruto Goes Beverly Hills
Business Day (Johannesburg)
November 24, 2004
Developers target the rich and famous for island residential project.
MOZAMBIQUE’s Bazaruto Island will soon feature an exclusive residential development aimed at the world’s rich and famous.
It will be the first residential development on the island and the last, because Bazaruto is a nature reserve.
Because of this the resale values of the properties will run into millions of dollars.
Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta are among the potential buyers said to be interested in the development.
Developers Jean Reyneke and Chris Krause, directors of Bazaruto Holdings, will be launching The Palms at Bazaruto today but say it is an invitation-only launch.
Reyneke says the development will comprise 24 stands ranging from 2500m’ to 3500m’ in size and priced from R4,5m.
The buyers will then be given a list of architects and guidelines for the houses they want built, but the common theme will be “colonial maritime”.
Reyneke says the style of properties will be similar to those in Martha’s Vineyard in the US and that the development is aimed at the top 10% of the market.
“We want to recreate The Hamptons in Mozambique,” Reyneke says.
Reyneke says there are 160 palm trees in the central communal area of the site. “It’s the only part of the island where there are natural palm trees.”
Although the land is purchased on a 99-year lease, the owners will receive title deeds once they build their homes.
“We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots,” says Reyneke.
Some of the interested parties include African presidents, as well as businessmen from SA, the Emirates and the rest of Africa.
The Palms is also being marketed in Europe and the US. “In the US we are marketing it directly to people like Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta. The agency I’m using in the US is the Ferrari family, who lease properties to all the A-list stars.”
Reyneke says The Palms is an exclusive development because Bazaruto along with the other four islands off the Mozambican coast have been declared nature reserves and no further development will be allowed. The only other major development on Bazaruto is the five-star Indigo Bay Hotel.
Reyneke says there is also easy access to the island. “There is a brand new tarred 1500m airstrip on the island which can handle corporate jets and other aircraft. The flight from Johannesburg is only two hours long ,” he says.
He says there are also daily scheduled flights with South African firm Pelican Air to the island. He says most people fly to Vilanculos and then either charter a boat or travel by ferry.
***
Pois:
“We want to recreate The Hamptons in Mozambique” em “colonial maritime”. apesar de “We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots”, enfim vão ter que gramar com a vizinhança.
E já agora, aquilo é uma reserva marítima. A primeira vez que eu e a Inês fomos a Magaruque nos dois primeiros dias éramos os únicos hóspedes. Uma maravilha, natural e romântica. Mas ainda assim, tão vazio, do lado do continente havia óleo dos barcos à tona de água. Como será pós-The Hamptons? Apesar do “colonial maritime”?
Novembro 8th, 2004 — Ecologia Moçambique
Novembro 6th, 2004 — Ecologia Moçambique
Não é o texto mais bonito desde há muito. É o mais importante.


(Savana, 5.11.2004)
Novembro 4th, 2004 — Ecologia Moçambique, Mundo
A hierarquia das preocupações políticas é sempre interessante. A vertigem histriónica pelo curto prazo é denotativa. Por isso às vezes é refrescante ouvir pensar, o ruído pesado da lucidez:
Certo que a defesa de regimes democráticos é fundamental. Por si mesmos, a democracia como um bem em si mesmo, não como um meio. Mas também segundo a presunção (presunção, infelizmente) que é um sistema político racional e ecologicamente menos imperfeito.
Mas essa defesa é cacofónica…provoca muita deshierarquia. Contraditória, portanto.
Novembro 2nd, 2004 — Ecologia Moçambique
E Day. Para que as visitas do Ma-Schamba não pensem que o mundo deste rapaz acaba na sua machamba, aqui segue o meu ensaio político (vero “paper”) sobre o E Day, d’hoje: Quioto.
Notas de Rodapé: 1.não consigo conceber um verdadeiro conservador insensível à urgência ecológica. Deficit intelectual meu, decerto.
Outubro 29th, 2004 — Ecologia Moçambique, Economia Moçambique
O
Blogo Social Português é um blog excelente, muito informado, e prova de que a reflexão se quer nada demagógica.
Isto a propósito de um
texto sobre transgénicos, em que também disponibiliza ligações a um conjunto de documentação muito apetecível. Ainda para mais sobre matéria em que, sendo leigo, sempre me surge como um labirinto “ideológico” de aparência “científica”.
Face às imposições que os doadores colocam aos países africanos em receber alimentos transgénicos, o que já
aqui abordei, esta é temática a não perder.
Agosto 29th, 2004 — Augusto Cabral, Ecologia Moçambique, Livros Moçambique
Um dos livros mais interessantes nos últimos anos, uma verdadeira delícia e uma preciosidade: “Borboletas de Moçambique” da autoria de Augusto Cabral, publicado em 2000. Uma edição mecenática do grupo empresarial IPG.
O autor, director do Museu de História Natural há cerca de 30 anos, apresenta um breve texto introdutório à morfologia destes insectos e cerca de 145 ilustrações suas, identificando estes exemplares da fauna moçambicana. O livro conta ainda com um prefácio de Mia Couto aqui, quase como nunca, biólogo e escritor.

Abril 15th, 2004 — Ecologia Moçambique

Há anos que me dizem grassar epidemia de tuberculose entre os leões do
Kruger. Acredito, ainda que nunca tenha procurado informação científica. Dizem que será preciso abater grossa percentagem da população para a controlar. Uma dor de alma, imensa.
Veterinário cruzado na Gorongosa dizia do perigo para a disseminação de doenças e para o stress dos animais que a excessiva concentração de indivíduos na reserva (aparentemente enorme) significa.
Ninguém nunca me explicou a origem da epidemia. Diz-me agora, amigo veterano e vero amante do local, que a causa aparente deste surto de tuberculose felina se prende com a introdução de plantas exógenas aglutinadoras de insectos transmissores.
É uma fala de leigo, esta minha. Mas tem moral…a incomensurável capacidade de destruição, mesmo que involuntária. E, para mais, o quão rara é esta invontade.
Abril 14th, 2004 — Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique
O Niassa é deslumbrante. Esta é afirmação dogma. E digo-o sem sequer ter chegado à reserva natural, uma verdadeira reserva com pouquissimo turismo, em área inóspita. A única vez que estive realmente próximo, com tempo e dinheiro para me chegar até lá precisava de dois dias de estrada, que a chuva tinha caído. E mais dois para sair. Era-me então quase impossível e prescindi: ainda hoje estou arrependido.
Metade do tamanho de Portugal. Enorme população de elefantes, já agora. Fauna e flora única. Enfim, estou a falar de uma área realmente selvagem.

Vem isto a propósito do que se discute neste momento. O desenvolvimento do turismo local, como forma de preservação da região. Assim seja. Entretanto foi elaborado um relatório que preconiza como solução ideal o reassentamento da população aí residente - uma solução não dogmática, pois propõe alternativas. Cerca de 20 000 pessoas ao que consta.
Num país que conheceu tão traumáticas experiências de reassentamento forçado ou induzido (os aldeamentos coloniais, as aldeias comunais, e os campos de refugiados da guerra) causa sempre algum desconforto este tipo de proposta.
Mas como conciliar a vida selvagem com a população? Por um lado a depradação causada pela agricultura itinerante e pela recolha de lenha combustível. Por outro lado a caça (e pesca) artesanal - ainda que esta tenha efeitos muito reduzidos face à caça furtiva com armas de fogo. Questão crucial levantada na transformação do Kruger em transfronteiriço e ainda mais neste território intocado do Niassa.
Em abstracto defenderia um reassentamento que fosse economicamente positivo para esta população. Mas é um abstracto, pois duvido da capacidade actual em tal realizar. A ver vamos. Mas a preservação desta região natural deveria constituir uma prioridade internacional/nacional, atendendo à escassez de ecossistemas similares.
Quanto à complexa questão da convivência da população com a vida selvagem não resisto a transcrever aqui uma história verídica, que me foi narrada por um ex-amigo que a presenciou:
Há uns quatro ou cinco anos o então governador provincial visitou a área da reserva e fez um discurso à população, apelando à preservação do meio ambiente, da vida animal, chamando a atenção para a riqueza que isso significava e para os proventos que poderiam advir do turismo se tal fosse cumprido.
Eis que se levantou um velho, pedindo licença para intervir, queria colocar uma pergunta. E assim questionou ele, sábio:
“Excelência, quer ser governador de gente, ou governador de leão?”.
Dizer mais?
Abril 9th, 2004 — Cahora Bassa, Ecologia Moçambique, Marcelo Mosse
Tenho com Marcelo Mosse uma relação ambivalente. Gabo-lhe a inegável coragem intelectual e física, que faz deste ex-puto um tipo a respeitar. Torço o nariz a alguns desvarios que nem a ex-puto se deveriam perdoar (e sei muito bem do que falo, que até a mim já me calharam). Mas enfim, acho que o positivo se impõe e bastante.
Mesmo assim fiquei surpreendido com o artigo de hoje do Público. Surpreendido porque muito pela positiva, pela excelência.
[A ler obrigatoriamente, esteja lá onde estiver o leitor. O negrito é meu]
O Outro Problema de Cahora Bassa
Por MARCELO MOSSE
Sexta-feira, 09 de Abril de 2004
O futuro da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) não pode ser visto apenas pela perspectiva da maximização do lucro com a venda de energia eléctrica e do saneamento financeiro em função da dívida pública portuguesa, como pretendem os governos de Moçambique e de Portugal. Há uma componente social e ambiental quase catastrófica que, porventura, é pouco conhecida em Portugal e que, no seu auto-elogio enquanto negociador do intricado diferendo tarifário com a Eskom sul-africana, Luís Mira Amaral descurou completamente, num texto publicado na última edição do semanário “Expresso” (3 de Abril de 2004).
Convenhamos que as tarifas que a Eskom (companhia de electricidade sul-africana) vem pagando pela energia da HCB (durante muitos anos situadas em 2 cêntimos de rand/kwh) eram absurdas do ponto de vista custo-benefício (sendo fundamental a subida para 12,5 cêntimos de rand/kwh em 2007, em função do acordo recente, louvando-se, por isso o esforço negocial). Convenhamos também que continua a ser absurdo que Moçambique compre à Eskom a energia que produz, situação herdada do perfil colonial, que hoje perdura, de economia ao serviço da República da África do Sul.
Também foi absurda a destruição das torres de transmissão durante a guerra, como é absurdo que cerca de 90 por cento da população moçambicana não tenha ainda acesso à sua própria energia eléctrica. É igualmente absurdo que o empreendimento da Mozal tenha preferido comprar energia térmica e mais cara à Eskom, ao invés de usar Cahora Bassa, numa jogada estranhíssima engendrada pelas elites políticas e económicas de Maputo.
De acordo com Mira Amaral, a única coisa que preocupa Portugal relativamente a HCB é a garantia das condições para a sua viabilização económico-financeira, e apenas isso, e só depois é que haveria condições objectivas para a transferência da posição accionista de Portugal para Moçambique. Todo o perfil negocial sobre Cahora Bassa, na visão de Mira, assenta nessa maximização dos “cash flows”, pois esse é o “grande problema nacional” português.
Por outro lado, Portugal, daqui para frente, estará apenas interessado a “negociar questões jurídicas, técnicas e económicas de grande complexidade e também discutir qual a percentagem com que Portugal com que ficará na HCB em nome da cooperação Portugal-Moçambique”.
É terrível esta ditadura de cifrões à volta da HCB.
É imensamente terrível quando sabemos que a HCB é também uma grande fonte de problemas para Moçambique, fonte de pobreza e instabilidade social, uma vergonhosa externalidade contra o sistema ecológico local e regional e mundial. Esta é uma componente que tem vindo a ser esquecida nos longos anos da HCB e que não mereceu uma linha sequer, uma palavra por mais que escassa, do brilhante negociador.
Se o seu texto no “Expresso” é uma espécie de prestação de contas sobre essas negociações quase que secretas à volta de um empreendimento público luso-moçambicano (um secretismo que leva os moçambicanos a interrogarem-se sobre se a HCB vai, no futuro, continuar propriedade pública ou será “alienada” por interesses político-privados do eixo Maputo-Pretória), é ensurdecedor o silêncio de Mira Amaral quando à gestão ambiental da hidroeléctrica.
E Portugal tem responsabilidades a este nível.
A conclusão de Cahora Bassa em 1974 interrompeu as cheias anuais do rio Zambeze, os fluxos normais, e mudou os hábitos da população que vivia nas proximidades das várzeas. Antes de Cahora Bassa, o Zambeze inundava vastas áreas da sua bacia, incluindo o delta, as quais permitiam uma série de actividades de subsistência beneficiando mais de um milhão de camponeses. Com a sua conclusão, a bacia e o delta passaram a receber apenas 80 por cento das águas, estas reguladas através de comportas e com um caudal muito abaixo da média normal do período antes da regulação.
Como consequência, o regime hidrológico natural alterou-se completamente. O actual cenário no delta é de seca generalizada em longos períodos do ano. Estudos recentes mostram que as mudanças na hidrologia resultaram na perda de mais de 25 por cento dos habitats naturais do delta em 30 anos, causando uma queda drástica na ordem dos 95 por cento da fauna. Por outro lado, estima-se que a pesca industrial do camarão num distrito da Zambézia, junto ao delta, se reduziu drasticamente, dadas as dificuldades de regeneração da sua população em função da alteração ecológica causada.
Sabe-se que durante duas décadas, a barragem operou como uma anomalia permanente no “continuum” do rio Zambeze e, em 1996, logo que a paz o permitiu, um reconhecimento aéreo evidenciava claramente o impacte ecológico da sua negligente administração. Não mencionamos os prejuízos na pesca semi-industrial e artesanal em outras regiões sob a influência da hidrologia do Zambeze; da pesca artesanal nas terras húmidas, restringida agora aos leitos dos rios; da agricultura de subsistência a montante e a jusante.
A organização ambientalista moçambicana Justiça e Ambiente considera que a perda do padrão das cheias no Zambeze resultou da “má administração das águas da albufeira da Cahora Bassa”. Um estudo realizado por Richard Beilfuss para a World Comisson of Dams refere que, depois de longos anos de má gestão, a situação no delta é dramática e muito terá de ser feito para se restabelecer os seus equilíbrios.
Mas isto passa por uma transição das abordagens meramente económicas para um quadro analítico que considere o profundo valor cultural e ecológico que o Zambeze representa para Moçambique, para a bacia do mesmo nome, que cobre oito Estados da região e para o mundo. Passa por negociadores brilhantes como Mira Amaral demonstrarem um pequeno pedaço de consciência ambiental.
Numa época em que as questões ambientais têm manifestações locais mas repercussões mundiais e em que as sociedades civis actuam transversalmente à escala internacional, dado o carácter internacional da gestão económica e dos seus efeitos no equilíbrio ecológico global, parece-nos justo exigir um esclarecimento público por parte da administração da HCB, e dos governos português e moçambicano uma informação actualizada sobre a gestão ambiental da hidroeléctrica.
Como membro da União Europeia, que se rege por princípios de economia ecológica e de governação sustentável, estabelecidos justamente em Lisboa e donde ressalta o princípio da responsabilidade (”o acesso aos recursos ambientais acarreta a responsabilidade de os utilizar de um modo ecologicamente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justo”), Portugal é obrigado a dar uma explicação sobre todo o historial de degradação ambiental proporcionada pela HCB. Eis, pois, uma belíssima oportunidade para que os eurodeputados portugueses em Bruxelas, que levantaram questões sobre o tráfico de órgãos humanos em Moçambique, também chamem a atenção para este assunto. Em nome dos princípios de Lisboa.