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Sporting: nunca é demais recordar.

“A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer“, argumenta com toda a razão o hmbf, no seu Antologia do Esquecimento. Na nossa dolorosa antologia do esquecimento continua a constar o que abaixo reproduzo. Contra esse esquecimento eis uma acutilante e certeira entrevista do Senhor João Rocha, ínclito sportinguista e nosso extraordinário antigo presidente. Realizada em Fevereiro de 2006.

João Rocha: «Projecto Roquette liquidou o Sporting»
ANTIGO PRESIDENTE EM ENTREVISTA CONTROVERSA
Autor: JOÃO PEDRO ABECASIS (Jornal Record)
Data: Quarta-Feira, 15 Fevereiro de 2006

RECORD – Está preocupado com o Sporting a cerca de quatro meses de eleições?
JOÃO ROCHA – O Sporting está a atravessar a pior crise dos seus 100 anos. Convinha, no entanto, esclarecer, até porque os mais jovens não o sabem, que quando veio a revolução, os clubes passaram por uma crise muito grande, concretamente na altura do PREC. Eram, no fundo ‘presas’ a tomar de assalto. Criaram-se decretos e portarias à luz dos quais os jogadores se transferiam livremente, bastando uma carta. O Sporting passou essa crise colaborando em algo que era necessário, ou seja, apostando na massificação do desporto em Portugal. Não havia ginásios nem pavilhões e o Sporting começou por ter logo 15 mil atletas, um recorde. Nenhum clube da Europa o conseguia, nem o próprio Barcelona.

RECORD – Que acções foram levadas a cabo?
JOÃO ROCHA – Fizeram-se ginásios, pavilhões e compraram-se terrenos. Dinamizámos o desporto em Portugal. A ginástica foi de Norte a Sul do País com várias equipas. Promovemos as modalidades junto de entidades como os bombeiros, diversos tipos de associações, polícia, escolas, etc. Introduzimos em Portugal as artes marciais e a dinamização junto das instituições referidas foi a mesma.

RECORD – Disse-me que o clube comprou terrenos. Isso quer dizer que o património também cresceu?
JOÃO ROCHA – Começámos a ter um património invejável. Pagámos as dívidas do passado e sempre com dirigentes que nunca ganharam nada. Foram centenas de pessoas a participar neste projecto de servir o Sporting gratuitamente. O clube tem de estar grato a esses dirigentes que pagavam, inclusivamente, hotéis, e passes dos jogadores das modalidades de forma desinteressada. Com tudo isto, o Sporting passou a ter a primazia do desporto em Portugal e a ser a maior força desportiva nacional.

RECORD – Essa força foi consubstanciada em mais títulos do que os concorrentes?
JOÃO ROCHA – De tal forma que nos primeiros 10 anos após a revolução, o Sporting tinha 22 modalidades e ganhou 1.210 títulos nacionais e 52 Taças de Portugal. Conquistámos 8 taças europeias em 7 anos, tínhamos 105 mil sócios e, no futebol, entre campeonatos, Taças e Supertaças, o Sporting conquistou 8 títulos contra 10 do Benfica, 6 do FC Porto e 3 do Boavista. Conseguimos reconquistar o estatuto vivido, por exemplo, no tempo dos cinco violinos. Finalmente, juntando provas nacionais e europeias de alta competição, ganhámos 47 títulos contra 20 do Benfica e 13 do FC Porto, ou seja, mais do que os dois rivais juntos. Acrescente-se que mandámos uma equipa de ciclismo à Volta a França. Nenhuma equipa europeia com futebol o fez por duas vezes como nós. Foi importantíssimo para o país.

RECORD – Hoje em dia o panorama é, de facto, diferente. Como sente o clube?
JOÃO ROCHA – Quando saí, deixei o clube sem dívidas, com passivo zero, jogadores valorizados zero, estádio valorizado zero, tudo a preço zero e nada reavaliado. Além disso, 300 mil metros quadrados de construção aprovada, o que em termos actuais e se o Sporting tivesse sido administrado como deve ser, faziam dele hoje um dos maiores clubes da Europa. Só nesses 300 mil metros quadrados tinha um valor de 120 milhões de contos.

RECORD – Porque é que, na sua opinião, o Sporting não seguiu esse caminho ascendente?
JOÃO ROCHA – Eu saí. Não podia ficar, porque tinha uma doença grave. Nos últimos dois anos, já assistia deitado às reuniões da direcção. Só bebia leite e um médico americano disse-me que eu tinha de decidir entre a morte e o Sporting. Eu queria viver mais alguns anos e saí. Depois, o passivo foi aumentando ao longo dos anos, até que chegou José Roquette com o seu projecto.

RECORD – Um projecto que encheu de esperança todos os sportinguistas…
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Ninguém soube o que era o projecto, porque ele não dizia. Sabia-se, apenas, que era uma dezena de sociedades, dirigentes e funcionários superiores a ganhar centenas de milhares de contos. O projecto foi reduzir os sócios de mais de 100 mil para pouco mais de 30 mil, foi acabar com as modalidades amadoras, foi vender património, foram dezenas e dezenas de milhões de contos de prejuízo que não aparecem nos resultados, porque parte deles foram executados pelo Sporting. No caso da SAD deram-se informações falsas aos associados e à própria CMVM para a entrada na bolsa.

RECORD – Comos se explica isso?
JOÃO ROCHA – O que lhe posso dizer é que era tudo tão bom que ele próprio, José Roquette, ia subscrever capital e a primeira coisa que fez quando saiu foi vender todas as acções da SAD que tinha comprado. Isto levou os sócios a perderem quase 14 milhões de contos só na subscrição e nos resultados negativos.

RECORD – Você assistiu a isso sem nenhum tipo de reacção?
JOÃO ROCHA – Antes pelo contrário. Numa assembleia da SAD e para defender os interesses do Sporting, lembrei que ao abrigo do Artº 35, a Sociedade tinha de acabar, mas havia uma possibilidade que era a reavaliação dos jogadores, repondo capital necessário na SAD para esta não ser extinta.

RECORD – Muito objectivamente, na sua opinião, José Roquette é o responsável pelo actual passivo do Sporting?
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Disso já não restam dúvidas. Queria gerir o clube ditatorialmente e a primeira coisa que fez foi fechar as portas aos jornalistas nas assembleias gerais. No meu tempo, havia uma bancada só para os jornalistas. Não tínhamos receio de nada.

RECORD – Recordo-lhe que na altura da entrada de José Roquette foi dito por muitos elementos do universo leonino que o clube se encontrava em falência técnica. Lembra-se?
JOÃO ROCHA – Quando José Roquette entrou, o clube estava numa situação caótica, mas ele aceitou um passivo de 4 milhões de contos e, actualmente, ascende a 60 milhões de contos. É uma diferença enorme. Mas esse não é o grande problema. É preciso ter em conta os prejuízos, os quais foram colmatados com a venda de património e a reavaliação de todo o activo, incluindo jogadores. Esses prejuízos não foram contabilizados.

RECORD – Mas o clube também se valorizou patrimonialmente. Concorda?
JOÃO ROCHA – Fez-se a Academia e o estádio, mas nada disso é do Sporting. Mesmo que se venda aquilo que se está a propor vender, ainda vamos continuar a dever o estádio, que é fruto de compromissos com a banca e do contributo de alguns sócios que ajudaram em muitos milhares de contos, comprando lugares cativos.

RECORD – Um projecto totalmente falhado, no seu ponto de vista. Porquê?
JOÃO ROCHA – É muito simples. José Roquette julgava que o Sporting era uma operação tão fácil com a do Totta, em que ele, numa operação ilegal, ganhou 20 milhões de contos sem pagar um tostão de impostos e, ainda por cima, acabou por comprometer aquele que foi recentemente eleito Presidente da República, Cavaco Silva.

RECORD – Uma forte acusação. O que sabe desse processo?
JOÃO ROCHA – Não quero falar nisso neste momento, porque me interessa mais o Sporting.

RECORD – Lembro-me que durante o mandato de José Roquette,você se revoltou com acordos que nunca ficaram esclarecidos, nomeadamente entre o Sporting e o FC Porto. Quer revelar pormenores em relação a isso?
JOÃO ROCHA – Havia um projecto com o FC Porto que era muito prejudicial para o Sporting. Era mesmo inqualificável. Insurgi-me num Conselho Leonino e numa assembleia geral. Era um projecto gravíssimo que só podia sair da cabeça de um indivíduo sem responsabilidades. José Roquette dizia que era um projecto válido, porque era a única maneira de Sporting e FC Porto estarem sempre representados na Liga dos Campeões.

RECORD – Vai concretizar ou continuar a guardar trunfos?
JOÃO ROCHA – Não digo mais nada sobre isso. Foi falado no Conselho Leonino e eu disse ao líder da AG para mandar calar sobre essa informação, que foi longe demais. Disse-lhe ainda que o resumo do acordo com o FC Porto devia ser gravado de tão grave que era, porque talvez fosse necessário que essa gravação viesse a ser pública na defesa dos interesses do Sporting e dos seus sócios. Não vejo o desporto assim.
 

(recuperado através do sítio de apoio ao Sporting no Facebook)

jpt

O cachecolismo de José Eduardo Bettencourt

Apontado como único, excelso homem da finança e inteligência, aguardado membro da elite sportinguista, como tal da elite socioeconómica portuguesa. Homem único, solução dita única. Querem que dele ser dele crítico é estar contra o país, a nação, no mero bota-abaixismo. Perdão, não é disso que se trata: querem que dele ser crítico é estar contra o Sporting, a nação, no mero bota-abaixismo.

Logo que eleito Bettencourt cachecolizou-se, em demagogia rasteira, no ridículo oralilolé que aqui se recorda. Daí para a frente tem sido o despautério radical. Tentou bater num adepto. Depois invectivou alguns sócios de cretinos e assim presumiu todos os outros, ao anunciar terroristas internos, em delírio persecutório. Culminou negando o carácter democrático do clube, num “posso, quero e mando” completamente desaustinado. E desajustado, seja da história dos clubes portugueses seja da sociedade actual.

Depois cachecolizou-se de novo e escolheu Ricardo Sá Pinto como director (de crise), decerto que por ser ídolo das claques, dessa “mística” dos afinal “cretinos”. Conhecido por em tempos ter batido no seleccionador nacional. Mas, nunca esquecer, recomendável no seio dos ilustres: afinal foi o único homem do futebol presente no “casamento real”. Plebeu, é certo, mero “sá” e mero “pinto”, sem galicismos ou ostrogodismos no nome. Mas visita d’el-rei.

Agora, assumindo o cachecolismo ideológico do seu presidentem Ricardo Sá Pinto esqueceu-se de defender os profissionais a seu cargo e assumiu como seu o mal-estar do público virando-se contra os seus jogadores, acabando à pancada com o jogador Liedson. Demite-se!

José Eduardo Bettencourt, o esperado, o único, o ideólogo do cachecolismo, o último representante deste conglomerado de interesses da elite que lesou o Sporting Clube de Portugal em centenas de milhões de euros nos últimos quinze anos, continuará. Pois é a única solução, a única alternativa. Dizem os crentes.

Que melhor exemplo do futebolismo? Do mundo do futebol como espelho, cristalino, de Portugal? Do efeito do discurso das soluções únicas, indiscutíveis, das escatologias ameaçadas, dos vultos iluminados (“o mais bem preparado de todos”, dizia há tempos um bloguista amigo a propósito de um avatar desta tralha), das ideologias cachecolizadas, demagogias rasteiras? Da cretinização daqueles que se irritam?

Bettencourt continuará. Os avatares desta tralha também. Ricardo Sá Pinto pelo menos jogava à bola …

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

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34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

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36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt

Ressaca de Natal

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por ABM (Cascais, 27 de Dezembro de 2009)

Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.

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Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa

Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.

Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.

Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.

Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.

Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.

As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.

Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.

No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.

E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.

Esta, sim, uma ocasião de festa.

Pai Natal Sporting e Senador

O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde

Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.

Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…

Sportingofilia

sportinguistas no estádio

por ABM (Cascais, 3 de Dezembro de 2009)

Não sei como esta escapou à atenção do JPT. Deve ter sido a absorvente questão dos minaretes suíços.

Há dois dias, na televisão, fiquei a conhecer que os chefes do Sporting Clube de Portugal, munidos de um manancial de estatísticas, proclamaram que havia poucas mulheres entre as suas hostes de adeptos – cerca de 30% da lotasção dos estádios. Então uma solução para ajudar a encher o seu estádio com um maior número de mulheres foi criar uma promoção em que um sócio podia trazer, ou de graça ou com desconto, uma mulher para um jogo.

Claro que imediato apareceram aquelas questões difíceis de responder. Pode uma mulher que não é sócia trazer um homem? (sim) Pode uma mulher trazer outra mulher para ver um jogo ? (sim, “retiradas as devidas ilações”, foi a misteriosa resposta) mas se for assim isso não é descriminar contra um homem que queira trazer outro homem para um jogo e ter acesso ao mesmo benefício? (de acordo com o Sporting, não).

A conclusão é:

Lésbicas sportinguistas de todo o mundo, uni-vos!

Hoje Sporting-Benfica

jpt

We Wish You a Merry Christmas

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por ABM (Cascais, 24 de Novembro de 2009)

Devido à minha digressão norte-americana, para mim o calendário natalício só começa realmente depois do feriado americano do Thanksgiving, que é na última semana de Novembro. Do que me lembro lá, só depois desse dia é que de repente se começam a ver decorações de Natal um pouco por toda a parte e ouvir We wish you a merry Christmas encanados pelos sistemas de som  nos corredores dos centros comerciais.

Mas este ano em Portugal não é assim. Há pelo menos duas semanas que, para quem andar nas ruas e nas lojas já vê árvores e outras decorações de Natal e ouve aquela música empacotada de Natal.

Confesso que sou do tipo que gosto de dar prendas mas não de ocasião. Ter que andar a magicar que outra bugiganga posso embrulhar e dar a alguém pelo Natal é quase uma tortura, pois regra geral não consigo vislumbrar o que é que pode ser ou útil ou até simpático para oferecer a alguém – que não me coloque na bancarrota, isto é – e que seja adequado ao espírito natalício. É um exercício de burguesia rasca que pago para não ter que enfrentar, ao contrário da Patroa, que num ápice saca do Visa card e numa tarde no Cascais Shopping compra tudo para toda a gente, até um chocolatinho para o carteiro com um cartãozinho personalizado e ração especial para o cão, o gato e o piriquito.

Claro que quando chega o extracto do cartão dela em Janeiro é “Christmas all over again”.

Outra mudança desde há uns anos é que acabei com o envio dos cartões de Natal. Para além de ser caro e complicado em termos de logística (eu hoje já não tenho literalmente os endereços físicos da maior parte das pessoas que conheço), só de pensar em ir para a bicha dos correios nessa altura para mandar tudo a tempo dá-me dores de barriga. Havia ainda o psico-drama de decidir a quem mandar e a quem não mandar, depois a quem mandei e que não mandou, a quem não mandei que mandou, a quem mandei e que mandou mas que mandou já em Março num gesto de cortesia falhada.  E finalmente o que fazer com esses cartões todos depois de acabadas as festividades (caixote do lixo).

Felizmente que a internetização dos protocolos sociais sobrepôs-se a tudo isto e de repente toda a gente começou simplesmente a mandar um e-mail com uns bonequitos de Natal e já está. Imagino que o feicebúque este Natal vai parecer um presépio com árvores cintilantes e copiosa neve virtual.

Afinal o que conta é o espírito natalício, não é? e uma mensagem de Natal sempre é uma mensagem, certo?

Portanto este ano, devido à crise e a um futuro incerto, não há nada para ninguém.

Bem, abri apenas uma excepção pois não consegui resistir.

JPT, se vieres à tua terra, o que está lá em cima é para ti. Merry Christmas!! Antecipadamente.

(de notar que tirei a foto em que as garrafas do Sporting Reserva Alentejana 2006 Encostas do Alqueva estão em cima do livro do Bill Bryson…)

Sobre o Impacto da Expansão Amarela no Léxico das Cores ou Serão Eles Daltónicos?

(por AL com ajuda de Augusto da Silva Júnior e do fotógrafo António Veríssimo, correspondentes em Dili)

SportingTimor

Eu sei o que o nosso editorial diz, desconfio mesmo que a minha inclusão na maschamba se deve em parte ao meu apelido, mas há coisas boas demais para se deixarem passar. Aqui há atrasado já a minha amiga Katia, cabo-verdiana linda e bem disposta, me tinha contado que as lojas dos chineses na Cidade da Praia tinham enchido a ilha de T-shirts dos clubes portugueses. Até aqui nada demais, só que, quiçá por ignorância de futebol ou da importância das cores nestas coisas da bola, as T-shirts dos chineses não tinham respeitado o código dos clubes. Assim, as T-shirts do Sporting tinham o logotipo do clube sobre um fundo vermelho (The horror! The horror!) e por aí adiante com os outros clubes não mencionáveis por decreto editorial da maschamba. Hoje recebo de Dili – Timor Leste, cidade que se orgulha duma enorme sede do Sporting (Filial Nr. 85), bem situado em frente ao porto e praticamente no coração da cidade, a foto que aqui reproduzo. Sem mais comentários, que uma imagem às vezes vale por mil palavras… Ah Leão!

Última hora: apresentação do novo treinador do Sporting

jesualdo ferreira

De mal a pior.

“Não houve fracasso”. Uma cara de pau? Algo está podre no viscondado de Alvalade.

O Presidente do Sporting e o meu envelhecimento

Presidente João Rocha

Assisto na tv à conferência de imprensa do treinador Paulo Bento e do presidente do Sporting Clube de Portugal, José Eduardo Bettencourt. Elevado o treinador, a quem os sportinguistas devem respeito e agradecimentos. Elevado e clarividente quando reconhece que “fiquei quatro meses a mais no Sporting” (algo que até um mero bloguista pode antever em Fevereiro passado).

Completamente destrambelhado o presidente. Confundindo respeito, gratidão, solidariedade (tudo isso realmente devido a Paulo Bento) com supra-comoções, insinuações de inimigos internos, recados crípticos. E sinalizando o desnorte, na incapacidade de responder às questões óbvias que lhe colocaram os jornalistas. Uma tolice. E pior do que tudo, acabando a querer bater-se com um sócio do clube, como anunciam os jornais.

É este o “homem providencial”, o expert da alta finança de coração sportinguista, afirmado pela propagandeada elite socio-económica sportinguista – essa que desde o “projecto Roquette”, amparada por Santana Lopes, levou o clube à ruína. Aquele que o ex-proleta, agora muito socialista e admirador do grande capital, Oliveira e Costa aqui (em Maputo) e em todo o lado (tv) veio afirmando como o “homem certo” e inultrapassável.

No meio desta parvoíce toda de Bettencourt, um manifesto erro que foi logo anunciado na triste figura de cachecol e aos pulos na noite da sua eleição, traça-se o quadro do país. Da gente que nele manda. Da gente que escolhe quem vai mandando.

E não posso deixar de me sentir incomensuravelmente velho. Já gente de um milénio passado. De um tempo em que um Senhor como o Senhor João Rocha, cruzando tão difíceis eras, fez a obra que fez, com a elevação e discernimento que o caracterizou no posto de Presidente do Sporting Clube de Portugal.

Estamos agora condenados a isto. A um Sporting que não volta? Não, muito pior. A um Portugal que não volta. Que fenece entre cachecóis e intrigalhadas internas, e doutores e “engenheiros” inultrapassáveis, imprescindíveis.

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Análise da situação do Sporting Clube de Portugal

No A Norte de Alvalade o jornalista José Goulão publicou uma excelente reflexão sobre o estado do Sporting Clube de Portugal, uma análise muito para além da mera discussão sobre os resultados futebolísticos. Direi que obrigatório para sportinguistas lerem – e muito para além do rame-rame dos habituais comentadores televisivos.

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Três ligações a propósito do carácter visionário do ma-schamba

No ma-schamba, 13 de Fevereiro de 2009: O Futuro Treinador do Sporting.

No André Benjamim, “No comments”:

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No Antologia do Esquecimento, “Jesus, entre os seus”:

Psicologia para o Sporting

chicote

jpt

Sporting-Olhanense

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Claro que não foi penalti, tal como o “lance polémico” anterior não tinha sido. Uma roubalheira.

Claro que ontem, em Leiria, não foi penalti – desde quando um jogo perigoso é livre directo? [Enjoei ao ouvir o comentador Pedro Henriques a explicar a temática do lançamento lateral posterior sem conseguir explicar porque é que tinha sido penalti. E ganha dinheiro para aquelas trivialidades desonestas].

Claro que me irrita isto do Apito Dourado ter mais cores do que o Azul. E de ver o Jorge Costa (uma carreira às costas dos árbitros) agora vitimizável. É o Portugal. Como se filme de Scorsese.

Adenda: “o que está em causa” são árbitros como o abaixo filmado (Duarte Gomes) e quem nomeia tais “livres-arbítrios imparciais” para jogos de futebol profissional (como o próximo Porto-Sporting).

A extrema-esquerda em Portugal

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Tonel, o novo extremo-esquerdo do Sporting, sucessor de (entre outros) Paulo Futre. [Mãe do Céu, nos meus 45 anos e ainda a ligar ao vil futebol].

Twente-Sporting

Há uns meses na sequência de uma inovação tecnológica no ma-schamba escrevi isto. Agora que estou a aqui a ver o Twente-Sporting lembro-me desse post. Enfim …

 

Adenda: Louvado seja o Senhor!

Twente-Sporting não é transmitido?

O presidente do Sporting, José Eduardo Bettencourt, continua a sua campanha de aproximação aos sócios (recuperação de sócios): onze por semana, é o símbolo. Entretanto o jogo de hoje da liga dos campeões, Twente-Sporting, não será transmitido para a África Austral – como é costume nos jogos europeus do clube.

Já não percebo se esta política de “aproximação aos sócios” é só incompetência (do marketing do clube) ou se é mesmo parvoíce.

Colapso Económico Português

obriga o Sporting Clube de Portugal a procurar novos patrocínios. Para jogos caseiros

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e para jogos como visitante

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Parabéns à SAD pela argúcia criativa.

O Sporting na champions ligue

Ontem Sporting-Basileia. Mais uma vez o jogo europeu do Sporting não foi transmitido por qualquer dos inúmeros canais televisivos. No canal sul-africano que se dedica às transmissões dos jogos portugueses lá estava o donetsk-barcelona. Nos outros nada.

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De novo confrontadas com isto as cadeiras do núcleo esvaziaram-se.

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Em Março passado referi o espanto pela incapacidade da direcção do Sporting em estrategizar a transmissão dos seus jogos internacionais, e voltei ao assunto em Abril. Nesse mesmo mês referi [I, II] essa mesma incapacidade relativa à transmissão dos jogos nacionais.

Ou seja, a direcção do Sporting – em particular a sua área de comercialização e a sua vertente de expansão do clube – é incapaz de entender o papel das transmissões televisivas no estrangeiro como vertente de fidelização e potenciação de adeptos. Em suma, a direcção do Sporting está intelectualmente amputada, limita-se a vender os direitos televisivos sem qualquer estratégia futura.

O aniversário

Confirmo: foi um jantar muito agradável.

Ainda o Sporting-Benfica

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Oferta ao ma-schamba de um blogoamigo benfiquista (infelizmente não está assinada, para justo reconhecimento ao perspicaz autor).

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Um Belo Post.

Um Post Excepcional.

Continuo enraivecido – somos privados de ver os jogos do Sporting porquê? Depois, no Verão de lá, chamado defeso, mandarão uma velha glória com a dra. das Casas do clube a tentar animar a campanha de angariação de sócios. “Hão-de cá vir”…

Sporting, Benfica, Futebol e Televisão

Meia final da Taça de Portugal de futebol. O clássico dos clássicos, Sporting-Benfica. Em Portugal transmite a SIC. No estrangeiro a SIC Internacional não o faz (decisão de empresa privada, não discuto, apenas lhe incompreendo a lógica). Também não o faz a RTP (na versão África e na versão Internacional). Nenhum outro canal, português ou estrangeiro, o faz para esta zona do globo. Na imensidão de canais que existem, na constante transmissão de jogos de futebol, em directo e em diferido, é difícil compreender.

Aqui e aqui alarguei-me sobre a incompetência gritante dos responsáveis do Sporting Clube de Portugal no respeitante à gestão da imagem do clube, à sua divulgação e expansão através das televisões. Do que isso significa de apoucamento do clube, do que isso traduz da caduca e incompetente gestão do seu marketing.

Esse imobilismo chega ao limite – não produzir uma transmissão televisiva destinada aos adeptos emigrantes e aos países onde há apreço pelo futebol português, de um Sporting-Benfica meia-final da Taça de Portugal, troféu que o clube defende, demonstra o desadequamento radical de quem é responsável no clube.

Surpreendente ainda a forma como se desaproveitam, sistemática e continuadamente, estas ocasiões para divulgar as empresas patrocinadoras do clube. Surpreendente, acima de tudo, a cegueira dos patrocinadores que assim desaproveitam o produto que viabilizam.

A continuidade desta cegueira tem responsáveis. O marketing do clube tem responsáveis oficiais: estes. Alguém lhes pode ensinar esta dimensão do trabalho de que são (ir)responsáveis?

A RTP-África e o Sporting

(Este é um texto para o qual muito gostaria de ter um blog de grande audiência)

Quartos de final da taça UEFA. Jogo do Sporting em Lisboa, contra o Glasgow Rangers. A RTP adquire os direitos de transmissão e realiza-a para Portugal. A RTP-África (tal como a RTP-Internacional) não o faz. Não há qualquer impedimento para a transmissão para África dos jogos da taça UEFA em canal aberto – à mesma hora a TVM (a estação pública moçambicana, para quem não saiba) transmite o jogo Getafe-Bayern Munique. A inexistência da transmissão não tem qualquer justificação.

Várias vezes o referi ao longo dos anos. Mais de uma década decorrida desde a sua inauguração a RTP-África não conseguiu existir. Não levantou voo de início, rasteja hoje. Nunca teve uma ideia programática, um fio condutor, uma atitude de estação em busca de audiência. Um projecto, um plano, uma vontade. Nada. O único projecto relativamente característico, a informação africana no “Repórter África” anquilosou no modelo institucional, repetitivo - é uma tristeza acoplada à vergonhosa displicência que é o canal. Hoje, com a disseminação da televisão por cabo e por satélite nos países africanos, bem como com a introdução de canais privados em regime aberto a RTP-África vai-se tornando, país a país, uma dolorosa desnecessidade – seria interessante um estudo sobre a sua real audiência. Frisando tal preguiça, tamanha mediocridade da sua administração, nem o futebol português de algum impacto consegue transmitir.

Há pouco tempo aqui deixei uma jeremíada sobre o estado do Sporting e sobre a inexistência na sua direcção de uma vontade de fidelização e até expansão do clube. A incapacidade (se calhar até a oposição) da direcção do Sporting em perceber a importância a prazo, económica e simbólica, da transmissão dos seus jogos para as comunidades emigradas e para países onde ainda possui largos núcleos de adeptos – e até algum potencial de expansão – é absolutamente pungente. O “marketing” do Sporting é incompetente. Porventura sinal da incompetência da totalidade da sua direcção. Porventura não, apenas sinal da radical mediocridade de quem dirige esse âmbito do clube. As pessoas têm nome e existem – se não pensam o presente nem o futuro que sejam demitidas.

O Sporting e o “projecto Roquette”

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É certo que passei parte dos últimos meses do ano passado em zonas sem televisão. Ainda assim deu para entender que os jogos europeus do Sporting (na “xampions”, como agora dizem os entendidos) não foram transmitidos na África Austral por nenhum canal – a RTP (versão África ou Internacional) porque não tem os direitos de retransmissão, os canais nacionais moçambicanos porque retransmitem (por oferta ou a preços de saldo) as emissões do canal internacional francês (CFI) - tal como os angolanos -, as quais naturalmente assumem outras preferências. Os inúmeros canais desportivos nas redes de cabo ou satélite optaram por outros jogos, ligados a interesses dos seus público-alvo e às disponibilidades televisivas. Ou seja, aqui assistem-se a alguns jogos do campeonato português (“bwin” dizem os actualizados, já esquecidos do neo-anglicismo “liga”) por via dos canais nacionais abertos. E onde há parabólicas ou TVcabo assiste-se aos jogos portugueses (campeonato em modo extenso, até aos naval-união leiria, às taças e às competições europeias) na supersport 127 (Máximo), um canal sul-africano abrilhantado por locutores portugueses de jo’burg e por ex-futebolistas moçambicanos. Tudo isso à excepção dos jogos europeus do Sporting – na liga dos campeões e, surpresa, na taça uefa. Sem que pareça haver a mínima interferência, no sentido contário, por parte do clube.  É óbvio que este não manda nos canais televisivos. Mas pode com eles interagir, influenciar, bem para além das receitas imediatas a cobrar, ainda que sejam eles estrangeiros.

Entenda-se, o canal direccionado para o público português da África do Sul, bem como para os contextos suazis, angolanos e moçambicanos, não transmite os jogos do Sporting na “Liga dos Campeões” decerto devido a agendas de transmissões que, no entanto, poderão ser discutidos, até influenciadas.. Mas surpresa maior é isso também acontecer na Taça UEFA, na qual os direitos televisivos são geridos diferentemente, com maior autonomia clubística.

Exemplifique-se com o acontecido ontem, o Sporting-Bolton: o canal 127 (Máximo) anunciou durante o dia que à noite transmitiria a “Taça UEFA”. A rapaziada telefonou-se, combinou os vinhos e os pregos e toca de se juntar para ver o jogo Sporting-Bolton, a ver se os jogadores interrompiam o freudiano anseio parricida contra o Paulo Bento e se ganhavam a eliminatória. Chegada a hora o canal transmitiu o Getafe-Benfica em diferido, um dia depois! Ridículo. Critica-se o canal? Protesto? Um pouco, claro.

Mas acima de tudo exige-se um protesto com a política de comunicação do Sporting, uma reflexão sobre o destino do clube que ela exemplifica (e determina?). Com tudo aquilo que ali vem acontecendo e com o que acontece agora. Um clube longamente dirigido por um Grande Presidente, hoje esquecido pela mole da bola, o Senhor João Rocha. Que tomou encargo do clube em 1973, estava ele subjugado (já então) por uma terrível crise financeira. Que o assumiu, geriu durante as convulsões de meados daquela década, o cumulou de títulos, o tornou o clube de enorme ecletismo (o que é uma pura verdade, não é uma figura de estilo nem um imbecil “holiganismo”), pejado de títulos europeus, mundiais e até olímpico, e ainda carregado de praticantes verdadeiramente amadores – um clube de massas, um clube de famílias, um clube de desportistas. Que nisso tudo conseguiu fechar o estádio, acabando com o peão onde ainda acampei, dando-lhe ainda uma então importantíssima pista de ciclismo. E que o deixou senhor de alargado património fundiário - e tudo isso fez antes da “Europa” chegar com todo aquele imenso dinheiro e ser apenas preciso pedir dinheiro ao partido do poder para fazer obras da “câmara” em troca dos votos para continuarem no “comboio descendente” da legislatura. Um clube que a seguir foi dirigido por um decentissimo presidente, o dr. Amado de Freitas, um curto consulado apenas enublado pelo facto desse prestigiado associado ser desprovido de fortuna pessoal que ajudasse a ultrapassar dificuldades de tesouraria – lembremo-nos de que então ainda vigorava o modelo do presidente mecenático, dando origem a figuras credoras de grande respeito popular, como o referido João Rocha, ou Borges Coutinho e Ferreira Queimado no Benfica.

Depois os tempos mudaram, a II República de extracção populista impôs-se (também) no Sporting Clube de Portugal. A curta etapa Gonçalvista, entre o folclórica e o lamentável, deu lugar à típica e até humorista figura de Sousa Cintra, arquétipo do self made-man caricatural. Lembro-me do tão criticado que foi à saída, uma saída inglória, desprovida de progressos de clube e de vitórias na bola – deixara, aventavam os jornais, a calamitosa situação de 6 milhões de contos de deficit. Como sobreviviria o clube depois deste descalabro? A ruína, a falência ou, ainda pior, a belenização surgia no horizonte.

Surgiu então o “projecto Roquette”, ainda hoje no poder, agora sob outro avatar mas de similar conteúdo sociológico, uma filiação óbvia. Ditos génios da finança, representantes das grandes famílias de empresa, arvorando os hífens, as duplas consoantes, a sobriedade no estar e vestir, a aparência da seriedade que ostenta o dinheiro velho de gerações e sua sapiência. E, claro, a certeza do saber financeiro associando-se à honestidade que carregam, o seu poder simbólico – dinheiro velho, sabendo manter-se e reproduzir-se, gente de nome sem querer conspurcá-lo. E tudo sobrevivendo numa rede simbólica até excêntrica ao futebol, imagem higiénica resistindo à prisão por fraude contra o Estado de um dos seus membros. Uma vergonha, pela qual nunca foi solicitada à massa associativa e adepta a devida desculpa por parte dos então companheiros de direcção.

Alguns anos depois, construções anunciadas e feitas, terrenos utilizados, “Projecto Roquette” realizado, o buraco financeiro crescera, repetiam os jornais mas agora afirmando-o natural (qual o jornalista da bola que afronta interesses?), coisa como que impressa no programa genético dos tempos que correm. Aos vis 6 milhões de contos de deficit do popularucho Sousa Cintra (aquele dos fatos brilhantes) a elite sportinguista – viscondessas, administradores, descendentes dos baronetes de XIX, etc - transformou (segundo os jornais) num buraco de “270 milhões de euros”, coisa até quase incompreensível que significa 54 milhões de contos. Entenda-se, em dez anos uma dívida nove vezes maior. Isto enquanto vendeu o património fundiário – resmungando queixas do Estado e da Câmara (estes grão-empresários que tanto dependem do Estado …) – e conseguiu perder dinheiro com a construção civil e com as ”grandes superfícies” - devem ser os únicos grandes contrutores nacionais (Soares Franco é líder de uma das maiores empresas dessa área) a perderem milhões no seu negócio.

Percebo eu algo de gestão e de administração, de construção civil, de centros comerciais? Nada – mas surpreende-me que gente tão altaneira acumule catástrofes na gestão dessas áreas, nas quais são especialistas. Surpreende-me, lamento, e cada vez mais desconfio de uma radical incompetência – pois não lhes imputo esconsos interesses que causariam estes deslizes.

Na actualidade a calamitosa situação financeira do Sporting Clube de Portugal levou a que se tenha decidido fazer uma campanha de angariação de sócios para que a quotização assim a obter permita investir no funcionamento da instituição, fazendo-a respirar. Sorrio – é, evidentemente, uma contradição com tudo o que vem sendo dito na última década, durante a qual se publicitou o paradigma das empresas, dos accionistas, etc. Toda esta contradição – ideológica, sociológica – passa ao lado dos olhares sobre a bola, desde o dos encartados jornalistas ao dos afins televisivos, surgindo até alheia ao bloguismo especializado, seguidor do paradigma anunciado, esquecendo-lhe as esquinas e meneios..

Mas não é essa distracção que me espanta. O que é de realçar é que um clube apertado (condenado?) por uma suicidária política económica (e financeira?) se decide a apelar não aos grande capital (lembram-se do elencar de nomes ilustres e de grandes empresas presentes nas listas candidatas às eleições?) mas sim ao comum cidadão sportinguista, congregá-los no pagamento de pequenas quotas mensais para poder subsistir. É óbvio o recuar do paradigma da “empresa”, disfarçado até de “capitalismo popular”, o seu mesclar com outros modelos históricos - algo já antes acontecido com o histriónico “kit Benfica”. Fénómenos que ilustram bem o pantanoso estado da “empresarialização” do futebol e dos clubes. E silêncio analítico que denota o vazio intelectual do jornalismo interessado, e painelismo associado.

Mas mais surpreendente é que neste ciclo (ou será contra-ciclo?) o Sporting tenha um departamento de marketing ou uma direcção dessa área incapaz  de promover a difusão dos jogos europeus do clube numa zona do mundo onde há centenas de milhares de portugueses e ainda mais de adeptos atentos ao futebol português – maltratando os adeptos existentes, desperdiçando hipótese de os associar, descurando o crescimento (imediato e a prazo) da população adepta e associável – agora reentendida como fundamental para a respiração financeira do clube. Para a direcção do clube bastará, está visto, o tradicional circuito de deslocações regulares de alguns dos seus membros, acompanhados de “velhas glórias”, às “casas do clube” na longíqua emigração, sinal óbvio de uma visão convivencial, jantarística, e completamente anquilosada de uma estratégia de alargamento e fidelização de uma massa de adeptos.

Tudo isto me convoca um corolário (1.) e uma possível extrapolação (2.): 

1. o marketing do clube (em termos amplos) é incompetente – ainda para mais nos alvores da campanha de angariação de associados. Urge a substituição dos seus membros e dos seus procedimentos. Está pura e simplesmente a dormir na forma, por mais ancorado que esteja no acima referido capital simbólico social e na capa tecnocrática da competência profissional. É esta falsa, os responsáveis são incompetentes e de visões estreitas para o mundo actual.

2. Tamanha incompetência / sonolência na gestão da articulação das transmissões futebolísticas com os desígnios do clube será sinal de similar incompetência / dormência nos outros assuntos de administração económica-financeira do clube (e bem mais complexos tecnicamente, decerto)? Estou – ainda que em mera extrapolação – crente disso. A incapacidade neste domínio leva à dúvida sobre a capacidade do colectivo noutros domínios relevantes para o futuro do clube.

Apesar da minha ignorância neste sector de actividade profissional me impedir de uma cabal apreciação das estratégias económicas e financeiras e dos procedimentos que as corporizam deixei, definitivamente desde ontem, de ter alguma esperança na sageza desta direcção do clube. E dos seus indivíduos.

Resta-me ainda confiança na sua honestidade – a ver se, pelo menos neste ponto, não me virei a desiludir.

Completa inexistência de condições políticas

Portugal. Parece-me óbvio que após os acontecimentos deste passado fim de semana – no qual, note-se, 70 a 80 mil pessoas se manifestaram nas ruas de Lisboa – não existem quaisquer condições políticas para que Paulo Bento se mantenha no lugar que vem ocupando.

 

Custa-me imenso reconhecer isto. Mas o tempo de Paulo Bento à frente do Sporting acabou. Suicídio dele (casmurrice com Romagnoli e Purovic). [Quem me dera estar enganado].

Adenda: num ano Deivid; a seguir Alecsandro (e Bueno); agora Purovic. Uma coisa é não haver dinheiro para adquirir avançados, outra é esta escada descendente de mediocridades. Quem escolhe nem sabe nem aprende. É Paulo Bento? Grave. Outrém? Pior ainda.

No Núcleo do Sporting, ao Tirol.
Adenda: afinal fechado, nenhuma estação a transmitir. Indignação radical, em Portugal continua o desrespeito por aqueles que andam cá fora a ganhar a vida.
Ao meu indignado “É um atentado à lusofonia” retorquiu amiga avisada, até filósofa, no intercâmbio smsístico: “Se para ganharmos é preciso não ver volto de bom grado ao rádio de pilhas”. O regresso do transístor…

Sporting (uma maravilha).