É certo que as receitas dos grandes campeonatos organizados pela (ou sob a) FIFA provêm dos direitos televisivos. Ainda assim, e “se bem me lembro”, no Mundial de 2006 houve uma redução de preços para a sua retransmissão em África, no intuito de favorecer o acesso em canal aberto (não pago). Agora ocorre o CAN 2010. A venda dos direitos implicou a sua transmissão em canal pago (satélite, tvcabo). Em Moçambique e na generalidade do continente. Em termos da velha política da FIFA – expansão do futebol em África – é um contrassenso. Em termos nacionais – o futebol como veículo de “construção da nação” – idem. Ontem os “mambas” de Moçambique jogaram com os “faraós” egípcios (a Itália de África, dizia-se). O povo de Maputo aglomerou-se junto dos ecrãs públicos [a pobre telefotografia demonstra o estádio "Cristal", na Av. 24 de Julho]. Imagino que por todo o país, distritos em particular, se juntou em torno dos rádios – pois onde haverá tvcabo ou parabólicas? E quem a elas terá acesso?
Uma pena, isto de se vender tão cara a “festa do povo”. Sob o olhar, gordo, da FIFA!
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
15.6 Costa Marfim (P.E.); 21.6. Coreia Norte (Cape Town); 25.6 (dia Moçambique, já agora) Brasil (“mesmo aqui ao lado” Durban) – grande volta à África do Sul, melhor não se podia pedir. É a corrida aos bilhetes …
No passado domingo, 29 de Novembro, o meu amigo Asterix e o seu “brada” Obelix comemoraram os seus quinquagésimos aniversários. E eu nem uma palavra lhes enviei, uma indesculpável distracção. Mas que não significa menos afecto. Daqui seguem grandes abraços para os dois, com toda a amizade e admiração. E muita gratidão, reconhecido pelo tanto que têm feito por mim nos últimos 41 anos. Verdadeira família, como tenho comprovado nestes últimos dois anos, tão gentis tios da minha Carolina têm sido.
É uma amizade profunda, de convívio sempre querido – ainda que por vezes a vida, essa ditadora, nos afaste um pouco no quotidiano. Mas “estamos juntos“. E estaremos, em particular dentro de algum tempo - pois a eles me juntarei nos próximos meses nessa grande aventura “Asterix no País do Arco-íris“.
por ABM (Alcoentre, domingo, 22 de Novembro de 2009)
Como a Senhora Baronesa e o JPT acharam uplifting falar de retretes e saneamento, hoje abordo o igualmente importante tópico da relva.
Quando a semana passada a equipa nacional de futebol de Moçambique derrotou a Tunísia por um golo a zero, o mais que os tunisinos sabiam repetir depois do jogo é que estava muito calor nesse dia e que o relvado artificial do Estádio da Machava estava tão quente que os seus pés quase que derretiam com o calor. Memoravelmente, o holandês que treinava os Mambas limitou-se a dizer que os meninos haviam dormido uns diazitos sem ar-condicionado lá em casa.
Não percebo nada de relvados, muito menos de relvados de futebol. Quando era miúdo lembro-me vagamente de, mesmo antes de a Frelimo ter marchado para Lourenço Marques e decretado a independência e uma revolução, o último grito na cidade, cujos campos de futebol eram todos de…areia, foi plantarem relva. Aquilo ficou tudo lindo como nunca. Mas com o fim do colonialismo, a relva, como o camarão e a carne de porco, fugiu. Quando visitei Maputo após nove anos de “socialismo revolucionário” em 1984, as prioridades eram outras e os clubes mal sobreviviam à sombra de parcas esmolas que os seus patrocinadores estatizados logravam dar. A piscina do Desportivo mal sobrevivia com uns donativos de cloro da companhia das águas – mas quase nunca havia cloro, nem sequer para a água da rede pública. A relva, essa morreu e foi para o céu. Hoje, vinte e cinco anos mais tarde, nem os estádios sobreviveram. O belo estádio dos CFM na Machava – onde foi declarada a independência do país e filmada uma memorável cena do filme “Muhamad Ali”, está sub-aproveitado e preterido em favor de um estranho “estádio nacional” que é, tanto quanto entendi, um donativo dos novos grandes amigos, os chineses. O campo de jogos do Xipamanine, onde o pai BM ajudou a fazer história com o Nova Aliança, desapareceu pura e simplesmente. Os antigos campos de futebol do Sporting (agora Maxaquene) e do Desportivo aparentemente foram vendidos para se fazerem prédios no local, o que dá um novo contorno ao termo “negociatas imobiliárias”. Presumo que os seus departamentos de futebol vão passar a treinar na rua ou algures nas Mahotas. Boa sorte aos futuros Eusébios.
A relva é uma coisa bonita e confortável quando alguém que não nós tem que tomar conta dela. Quando eu era miúdo, o pai BM, que obviamente não se sabia aproveitar dos benefícios laborais do sistema imperial-colonial, indigitou-me para tratar da relva que tínhamos no quintal. Aquilo era um inferno. A relva crescia quando queria, morria quando queria, quando crescia demais lá tinha que eu ir com uma daquelas maquinetas manuais para cima e para baixo para que aquela porcaria parecesse normal. Uma vez por ano, eu tinha que andar de traseiro para o ar uma manhã inteira a plantar os bocadinhos do “tapete” de relva (termo aqui perfeitamente alegórico) onde a dita cuja não pegava. Ainda por cima a terra na Polana é aquela terra encarnada que se vê na Ponta Vermelha, muito bonita mas acho que aquilo está para a relva como a areia do deserto para os esquimós. Isto para não falar das ervas e bicaharada que por lá cresciam. Enfim.
Mas, voltando ao futebol, ou, melhor, à relva do futebol, eu pensava que esta coisa da relva do futebol era assunto pacífico. Contratava-se uns jardineiros e a coisa compunha-se. Isto até ler hoje que não era bem assim. No caso do mundial de futebol, ainda mais estranho é. Assim, descobri que há uma espécie de Polícia da relva da Fifa que, depois de uma recente inspecção dos campos de futebol todos onde se vai disputar aquele campeonato, decretou que a África do Sul tinha que mudar a relva em todos os seus estádios, pois a que lá está é feia e desagradável de se jogar por cima.
Os sul-africanos usam nos relvados que são os seus campos de futebol um tipo de relva chamado kikuyu grass. Aguenta melhor o tempo quente e a falta de água. A Fifa agora diz que eles têm que usar european rye grass, que é mais verdinha, aguenta levar mais pancada dos jogadores e é mais bonita de se ver na televisão. É verdinha como a que está na fotografia acima. Só que isto implica arrancar a relva que está lá e plantar a tal relva rye european, que funciona bem nos climas muito mais temperados e húmidos da Europa mas que não se dá mesmo na África do Sul, a não ser que se gaste uma nota forte em água, adubos e jardineiros.
O mais curioso é que já se fizeram avanços enormes na tecnologia das relvas artificiais e quer a Uefa quer a Fifa já aprovaram padrões para relvados artificiais e inclusivé já os aprovou para competições internacionais. Poupam rios de água e trabalho e dinheiro e os especialistas indicam que não tem qualquer impacto na qualidade do jogo.
Mas não neste caso, parece. Os sul-africanos vão plantar a rye european a tempo do Mundial e, quando aquilo tudo acabar, vão ter que arrancar tudo outra vez e plantar de novo a kikuyu grass.
(por AL com ajuda de Augusto da Silva Júnior e do fotógrafo António Veríssimo, correspondentes em Dili)
Eu sei o que o nosso editorial diz, desconfio mesmo que a minha inclusão na maschamba se deve em parte ao meu apelido, mas há coisas boas demais para se deixarem passar. Aqui há atrasado já a minha amiga Katia, cabo-verdiana linda e bem disposta, me tinha contado que as lojas dos chineses na Cidade da Praia tinham enchido a ilha de T-shirts dos clubes portugueses. Até aqui nada demais, só que, quiçá por ignorância de futebol ou da importância das cores nestas coisas da bola, as T-shirts dos chineses não tinham respeitado o código dos clubes. Assim, as T-shirts do Sporting tinham o logotipo do clube sobre um fundo vermelho (The horror! The horror!) e por aí adiante com os outros clubes não mencionáveis por decreto editorial da maschamba. Hoje recebo de Dili – Timor Leste, cidade que se orgulha duma enorme sede do Sporting (Filial Nr. 85), bem situado em frente ao porto e praticamente no coração da cidade, a foto que aqui reproduzo. Sem mais comentários, que uma imagem às vezes vale por mil palavras… Ah Leão!
["Pôrras", Portugal-Suécia, campanha de apuramento para o Mundial de 2010]
A selecção nacional de futebol aquando em grandes competições internacionais assume cognomes. A maioria das vezes recolhidos da mitologia nacional como “Magriços” (celebrizados no Mundial 1966), “Patrícios” (Euro-1984) “Infantes” (Mundial-1986), “Conquistadores” (Euro-2004, Mundial 2006). Mas também no vernáculo, como o algo ridículo mas pelo menos não “épico” “Tugas” (no Mundial-2002).
Agora, para a campanha de 2010 na África do Sul – e antes que surjam os pomposos ”Padrões”, “Adamastores” ou coisa quejanda – convém lembrar e exigir o cognome óbvio a usar nesse país:
África do Sul, here they go.
Acho que os moçambicanos vão ver muitos portugueses outra vez….mas desta vez de férias….e Eusébio e Queiroz vão visitar a terra outra vez.
O país de Vichy, o dos descendentes de Pétain, do “senhor” Marc Batta, do “mergulhador” Thierry Henry (esse que quando “rasteirado” sofre impulsões verticais …), do “ilustre” Michel Platini (que não quer imagens para controlar os seus “henrys”), também lá estará.
Uma noite a ver futebol. E sinto-me irlandês.
(para os apreciadores de futebol: basta ver devagar, o juiz-de-linha não tem ninguém entre ele e Henry. E se eu, com visão do ângulo oposto e em Maputo, vi a mão …)
Só para memória, para não esquecermos a mafia francesa do futebol, “the french way of life”, é ir aos 3 minutos para ver a “arte” de Thierry Henry:
E para quem não se lembra, eis o arquétipo de França – Marc Batta:
A vitória dos Mambas sobre a equipa nacional da Tunísia por um golo marcado no minuto 83 lê-se como se de um engano se tratasse e que nada tinha quer ver com o jogo em si. “Estava muito calor, mais do que 30 graus”, “a relva artificial do Estádio da Machava era muito quente”, “fisicamente não estávamos preparados para estas condições”.
Realmente?
Mart Noijj, o treinador dos moçambicanos, disse à BBC que preparou os seus homens mandando-os dormir sem ar-condicionado nos dias que antecederam o jogo, o que me surpreendeu pois quando eu era miúdo ter ar-condicionado em casa não era um elemento que influia no desporto: praticamente ninguém tinha.
Mas acho que o mais importante foi a atitude. Noijj achava que ia ganhar aos tunisinos. E atitude é meio caminho andado.
No xadrez das qualificações, a vitória dos Mambas caiu como uma supresa e um choque e confundiu os analistas. Para Moçambique, foi o bilhete de entrada para a Taça das Nações Africanas em Angola no ano que vem. Para a Tunísia, cujo treinador é um português (Humberto Coelho) o afastamento do Campeonato do Mundo e a entrada da Nigéria, que no mesmo dia bateu o Quénia por um golo, ganhando os pontos necessários para ir à África do Sul em 2010 no Grupo B.
Como não tenho uma foto dos Mambas, que com o seu treinador e equipa estão de parabéns, fiquei-me pelo que acima se vê. Afectuosamente.
Claro que não foi penalti, tal como o “lance polémico” anterior não tinha sido. Uma roubalheira.
Claro que ontem, em Leiria, não foi penalti – desde quando um jogo perigoso é livre directo? [Enjoei ao ouvir o comentador Pedro Henriques a explicar a temática do lançamento lateral posterior sem conseguir explicar porque é que tinha sido penalti. E ganha dinheiro para aquelas trivialidades desonestas].
Claro que me irrita isto do Apito Dourado ter mais cores do que o Azul. E de ver o Jorge Costa (uma carreira às costas dos árbitros) agora vitimizável. É o Portugal. Como se filme de Scorsese.
Adenda: “o que está em causa” são árbitros como o abaixo filmado (Duarte Gomes) e quem nomeia tais “livres-arbítrios imparciais” para jogos de futebol profissional (como o próximo Porto-Sporting).
Uma singela homenagem à bela Monsanto, terra natal desse meu patrício dos quatro costados, que ontem tão bem se apresentou no reino da Dinamarca (onde, mais uma vez, alguma coisa estava podre)
Semana do início do campeonato* português de futebol. Cuja preparação realça a implausibilidade do penta. Esperando lisura de procedimentos é óbvia a grande expectativa quanto aos sucessos do melhor treinador e do mais esperançoso plantel: o Nacional da Madeira de Manuel Machado é favorito. Força Nacionalão!!**
*Afirmar o campeonato vs o revivalismo de “liga” é um acto de resistência ideológica.
** Colocar um duplo ponto de exclamação é um acto de resistência sociológica.
Com o jogo de ontem (Portugal-Suécia, 0-0) é quase certo que a selecção portuguesa de futebol não estará presente no próximo Mundial, a realizar aqui na vizinhança. Há um lado positivo nisso, poupa-se uma enorme injecção de patrioteirismo, essa boçalidade produzida via futebolismo. Mas não me parece que compense, na África do Sul há uma enorme comunidade portuguesa e/ou lusodescendente que muito gostaria (gostará?) de acompanhar a selecção – e que mal viria ao mundo por isso? Rigorosamente nenhum. E todos os outros patrícios, a perderem uma boa distracção, que não será por ela que se distrairão mais do que a conta que já levam.
Por mim hesito: seria uma grande diversão, mas com toda a certeza implicaria despesas avantajadas, que me seriam pouco convenientes. Pois já me imaginava em digressão, cachecol patríótico, excessivos insumos alcoólicos, junk food, alterações cardíacas, rouquidões matinais.
Talvez seja melhor assim, diz a parte racional.
Sobre ontem: sei que o treinador de bancada e/ou de sofá costuma ter sempre razão, falando a posteriori. Mas este militante quando reparou que a selecção iniciou a segunda parte de um jogo quase(?) decisivo com 4 jogadores adaptados à posição (mais de um terço da equipa, lembre-se), resmungou para a companhia (a Gata Joana, que poderá o comprovar se questionada sobre o assunto): “f…, assim não vamos lá!”. Como não fomos.
Se o seleccionador se chamasse Agostinho Oliveira (que já o foi, e bem), Manuel José (que não o foi e deveria ter sido), Jesualdo Ferreira (que não o foi mas será), Luis Felipe Scolari (que o foi e correu muito bem) ou qualquer outro nome (que com toda a certeza o virá a ser) estaria agora a ser crucificado com requintes à Mel Gibson.
Mas como se chama Carlos Queiroz o culpado, o demo, é a bola que não quer entrar.
Durante décadas o cinema americano produziu filmes sobre os tortuosos bastidores do boxe, paíxão popular (muito gostaria de ler uma história social do boxe nos EUA). O futebol passa imune por esse crivo, talvez pela dificuldade de encenar verdadeiros espectáculos, talvez pela menor amplitude para integrar a típica personagem “(anti)herói individual”.
Com isso vive o futebol um deficit de ilustração significativa. Haverá um superavit factual, um quase-quotidiano acumular de factos televisionados, mas não há nada “bigger than life” que se nos impregne, que faça recuar a adesão. Pelo contrário a simplicidade da “língua de pau” da discussão constante (consagrada nos painéis de semi-especialistas) só reforça o predomínio, por influência dos mídia e por cúmulo de opções individuais, desse modo de raciocinar (e de falar). E produz a crescente futebolização social.
Unanimidades contextuais há poucas, coisas “maiores do que a vida” idem, factos significantes que sejam realmente demarcadores. Mas o filme que aqui transcrevo será, pelo menos em contexto português, uma das poucas: 1997, o final da campanha para qualificação do Mundial de França. Portugal tinha uma boa selecção, a “geração de ouro” no seu apogeu, e ia jogar à Alemanha. Esta se perdesse seria eliminada, Portugal teria que ganhar para se apurar. A eliminação alemã seria um “escândalo” desportivo e, evidentemente, um rombo financeiro na vizinha França.
A FIFA enviou um árbitro do país organizador, Marc Batta, já anteriormente acusado e investigado de corrupção em competições europeias. O resto é da história do futebol: Portugal esteve a ganhar e, perto do fim do jogo, Rui Costa foi expulso de modo inusitado. A Alemanha apurar-se-ia. “Bigger than life” o episódio, com a dramaticidade das lágrimas convulsivas do actual director do Benfica ao sentir-se de tal modo injustiçado. Drama sublinhado pelo patriotismo, até patrioteiro, que os jogos de selecção provocam – em última análise é esse o seu papel.
Faltam ilustrações destas, verdadeiras unanimidades. Para refrear a adesão, como tal reduzindo o negócio. Para limpar um espectáculo? Sim, também. Mas acima de tudo porque o futebol, e a sua futebolização, produz valores – esses do desenrascanço a todo custo, do “o que interessa é ganhar” seja lá como for, valores que não nascem no futebol mas nele têm uma enorme caixa de ressonância. E que se vão tornando estruturantes do agir, uma ética social que reconhecemos, naturalizada (normalizada), em inúmeras e importantes actividades. Pois numa sociedade futebolizada o futebol é uma máquina de fazer pessoas.
Mas não só. Esta conivência com o modo futebolístico implica também uma convivência com o discurso nele dominante, esse que tem como matriz o rame-rame das entre-acusações falsamente historiográficas: “como podes ser contra o penalti de hoje se não protestaste no jogo da primeira volta; como criticas o luís filipe vieira se não criticas o pinto da costa; dizes mal do lisandro e não te lembras do joão pinto…”. É uma ladaínha encantatória, pois sem-fim, reproduzindo a adesão pois constantemente gerando dívidas argumentativas a exigirem contra-golpes do mesmo teor. Como tal este é um discurso na sua essência desprovido da hipótese de um corolário lógico.
É assim um discurso não analítico ainda que com toda a aparência de erudito (de conhecedor, de memorialista, de arquivista – abrindo campo para a “erudição neo-popular”, antes operária, hoje pequeno-burguesa). Tudo isto legitimado no reenvio deste domínio “da bola” para o campo dos “afectos”, “paixões”, donde não escrutinável nem por uma razão, nem por várias razões. O reino do simpático holigão de sofá.
Ora este tipo de discurso, encadeado, ritualizado, anti-analítico, é também ele extrovertido para as restantes áreas da actividade, naturalizado na futebolização da sociedade. Pois se nesta o futebol produz um discurso incessante ele é fundamentalmente uma máquina que produz discursadores. Ao seu modo.
Exemplo traumático disso é que acabo de ouvir de Pacheco Pereira, insuspeito de tendências futebolísticas, no Quadratura do Círculo (audível aqui, e exactamente no fim do programa). Interrogado sobre as declarações do Papa sobre o preservativo responde: “como podem criticar o Papa se não criticaram as teorias de Thabo Mbeki sobre a sida.” O mais puro do discurso “futebolês”, reproduzido por um dos poucos que lhe tinha vindo a resistir e, inclusivé, contra ele protestar.
Esta sahelização dos discursos privados e públicos, esta ritualização anódina da palavra e dos interesses que a invocam, é um processo em constante crescimento. Nem sempre foi assim. A sua força motriz é bem identificável: a vontade de cada um.
Um texto a propósito de quê? Acabo de ver no telejornal da SIC uma entrevista do árbitro Lucílio Baptista. Postura de homem digno, corajoso, sentido, assumindo e lamentado um erro, como “homem sério, honesto, de família”. Em explícita, e intocável, figura de honradez e até de coragem máscula. Funcional.
Disse também que errou porque “lhe faltou a sorte”. Ou seja decidiu pois “viu” algo por dedução. Entenda-se, é explícito, “viu” algo porque “deduziu” algo. E teve azar porque a dedução estava errada. Teve, com toda a certeza.
Que importa o futebol, a taça, o penalti? Pouco, nada mesmo. O que importa mesmo é que o discurso público seja o da apologia de uma decisão, de um julgamento (não o do penalti, o das coisas sérias) por dedução. Ainda que passível de ser alvo do “azar” e da “sorte”, essas entidades mágicas.
No futebolês ninguém se lembrará de referir – de ir para além do penalti – que a dedução é, por definição, um raciocínio preconceituoso, dado a que se “preveja”, não a que se “veja”. Assim em mais uma ladaínha do futebolês ficamos com o elogio da dedução. Do preconceito. E à espera de não venhamos a ter “falta de sorte”.
Chama-se a isto produção de valores. De cosmovisões, se se quiser. Pouco dadas à análise, já agora.
Os resultados da sondagem ma-schamba são inequívocos, não se justifica protelar a apresentação dos dados. Note-se que para além da votação recebi várias opiniões por e-mail (votos por correspondência, por assim dizer), a maioria das quais apontava à sondagem o defeito de não considerar Manuel José, antigo treinador do clube e que tanto sucesso tem obtido no Egipto.
Contabilizados os votos, consultáveis na coluna da direita, constata-se que para a esmagadora maioria dos leitores do ma-schamba o futuro treinador do Sporting deverá ser o prestigiado técnico e antigo jogador do clube,
Acabo de integrar o sistema de “sondagens” no ma-schamba. Muito desconfio da eficácia e representatividade desta abordagem aos leitores, e de que as respostas obtidas signifiquem um sentir mais geral na(s) sociedade(s) a que eles pertencem. Ainda assim acho estimulante o desafio. Não sei se o repetirei, mas a primeira sondagem “ma-schamba” aqui está, ao cimo da coluna da direita, a responder até ao final do próximo domingo.