O mesmo Grão-Comentador do ma-schamba, Umbhalane, conhecedor da minha adesão ideológica ao mundo barbeiro e do meu apreço por barbearias populares, enviou-me excelentes fotografias que encontrou no blog Beijo-de-Mulata. As excepcionais características dessas imagens, publicadas na entrada “nomes que dizem tudo”, tornam obrigatória a sua reprodução. Aqui está uma barbearia num bairro de Nampula.
João Rocha: «Projecto Roquette liquidou o Sporting»
ANTIGO PRESIDENTE EM ENTREVISTA CONTROVERSA
Autor: JOÃO PEDRO ABECASIS (Jornal Record)
Data: Quarta-Feira, 15 Fevereiro de 2006
RECORD – Está preocupado com o Sporting a cerca de quatro meses de eleições?
JOÃO ROCHA – O Sporting está a atravessar a pior crise dos seus 100 anos. Convinha, no entanto, esclarecer, até porque os mais jovens não o sabem, que quando veio a revolução, os clubes passaram por uma crise muito grande, concretamente na altura do PREC. Eram, no fundo ‘presas’ a tomar de assalto. Criaram-se decretos e portarias à luz dos quais os jogadores se transferiam livremente, bastando uma carta. O Sporting passou essa crise colaborando em algo que era necessário, ou seja, apostando na massificação do desporto em Portugal. Não havia ginásios nem pavilhões e o Sporting começou por ter logo 15 mil atletas, um recorde. Nenhum clube da Europa o conseguia, nem o próprio Barcelona.
RECORD – Que acções foram levadas a cabo?
JOÃO ROCHA – Fizeram-se ginásios, pavilhões e compraram-se terrenos. Dinamizámos o desporto em Portugal. A ginástica foi de Norte a Sul do País com várias equipas. Promovemos as modalidades junto de entidades como os bombeiros, diversos tipos de associações, polícia, escolas, etc. Introduzimos em Portugal as artes marciais e a dinamização junto das instituições referidas foi a mesma.
RECORD – Disse-me que o clube comprou terrenos. Isso quer dizer que o património também cresceu?
JOÃO ROCHA – Começámos a ter um património invejável. Pagámos as dívidas do passado e sempre com dirigentes que nunca ganharam nada. Foram centenas de pessoas a participar neste projecto de servir o Sporting gratuitamente. O clube tem de estar grato a esses dirigentes que pagavam, inclusivamente, hotéis, e passes dos jogadores das modalidades de forma desinteressada. Com tudo isto, o Sporting passou a ter a primazia do desporto em Portugal e a ser a maior força desportiva nacional.
RECORD – Essa força foi consubstanciada em mais títulos do que os concorrentes?
JOÃO ROCHA – De tal forma que nos primeiros 10 anos após a revolução, o Sporting tinha 22 modalidades e ganhou 1.210 títulos nacionais e 52 Taças de Portugal. Conquistámos 8 taças europeias em 7 anos, tínhamos 105 mil sócios e, no futebol, entre campeonatos, Taças e Supertaças, o Sporting conquistou 8 títulos contra 10 do Benfica, 6 do FC Porto e 3 do Boavista. Conseguimos reconquistar o estatuto vivido, por exemplo, no tempo dos cinco violinos. Finalmente, juntando provas nacionais e europeias de alta competição, ganhámos 47 títulos contra 20 do Benfica e 13 do FC Porto, ou seja, mais do que os dois rivais juntos. Acrescente-se que mandámos uma equipa de ciclismo à Volta a França. Nenhuma equipa europeia com futebol o fez por duas vezes como nós. Foi importantíssimo para o país.
RECORD – Hoje em dia o panorama é, de facto, diferente. Como sente o clube?
JOÃO ROCHA – Quando saí, deixei o clube sem dívidas, com passivo zero, jogadores valorizados zero, estádio valorizado zero, tudo a preço zero e nada reavaliado. Além disso, 300 mil metros quadrados de construção aprovada, o que em termos actuais e se o Sporting tivesse sido administrado como deve ser, faziam dele hoje um dos maiores clubes da Europa. Só nesses 300 mil metros quadrados tinha um valor de 120 milhões de contos.
RECORD – Porque é que, na sua opinião, o Sporting não seguiu esse caminho ascendente?
JOÃO ROCHA – Eu saí. Não podia ficar, porque tinha uma doença grave. Nos últimos dois anos, já assistia deitado às reuniões da direcção. Só bebia leite e um médico americano disse-me que eu tinha de decidir entre a morte e o Sporting. Eu queria viver mais alguns anos e saí. Depois, o passivo foi aumentando ao longo dos anos, até que chegou José Roquette com o seu projecto.
RECORD – Um projecto que encheu de esperança todos os sportinguistas…
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Ninguém soube o que era o projecto, porque ele não dizia. Sabia-se, apenas, que era uma dezena de sociedades, dirigentes e funcionários superiores a ganhar centenas de milhares de contos. O projecto foi reduzir os sócios de mais de 100 mil para pouco mais de 30 mil, foi acabar com as modalidades amadoras, foi vender património, foram dezenas e dezenas de milhões de contos de prejuízo que não aparecem nos resultados, porque parte deles foram executados pelo Sporting. No caso da SAD deram-se informações falsas aos associados e à própria CMVM para a entrada na bolsa.
RECORD – Comos se explica isso?
JOÃO ROCHA – O que lhe posso dizer é que era tudo tão bom que ele próprio, José Roquette, ia subscrever capital e a primeira coisa que fez quando saiu foi vender todas as acções da SAD que tinha comprado. Isto levou os sócios a perderem quase 14 milhões de contos só na subscrição e nos resultados negativos.
RECORD – Você assistiu a isso sem nenhum tipo de reacção?
JOÃO ROCHA – Antes pelo contrário. Numa assembleia da SAD e para defender os interesses do Sporting, lembrei que ao abrigo do Artº 35, a Sociedade tinha de acabar, mas havia uma possibilidade que era a reavaliação dos jogadores, repondo capital necessário na SAD para esta não ser extinta.
RECORD – Muito objectivamente, na sua opinião, José Roquette é o responsável pelo actual passivo do Sporting?
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Disso já não restam dúvidas. Queria gerir o clube ditatorialmente e a primeira coisa que fez foi fechar as portas aos jornalistas nas assembleias gerais. No meu tempo, havia uma bancada só para os jornalistas. Não tínhamos receio de nada.
RECORD – Recordo-lhe que na altura da entrada de José Roquette foi dito por muitos elementos do universo leonino que o clube se encontrava em falência técnica. Lembra-se?
JOÃO ROCHA – Quando José Roquette entrou, o clube estava numa situação caótica, mas ele aceitou um passivo de 4 milhões de contos e, actualmente, ascende a 60 milhões de contos. É uma diferença enorme. Mas esse não é o grande problema. É preciso ter em conta os prejuízos, os quais foram colmatados com a venda de património e a reavaliação de todo o activo, incluindo jogadores. Esses prejuízos não foram contabilizados.
RECORD – Mas o clube também se valorizou patrimonialmente. Concorda?
JOÃO ROCHA – Fez-se a Academia e o estádio, mas nada disso é do Sporting. Mesmo que se venda aquilo que se está a propor vender, ainda vamos continuar a dever o estádio, que é fruto de compromissos com a banca e do contributo de alguns sócios que ajudaram em muitos milhares de contos, comprando lugares cativos.
RECORD – Um projecto totalmente falhado, no seu ponto de vista. Porquê?
JOÃO ROCHA – É muito simples. José Roquette julgava que o Sporting era uma operação tão fácil com a do Totta, em que ele, numa operação ilegal, ganhou 20 milhões de contos sem pagar um tostão de impostos e, ainda por cima, acabou por comprometer aquele que foi recentemente eleito Presidente da República, Cavaco Silva.
RECORD – Uma forte acusação. O que sabe desse processo?
JOÃO ROCHA – Não quero falar nisso neste momento, porque me interessa mais o Sporting.
RECORD – Lembro-me que durante o mandato de José Roquette,você se revoltou com acordos que nunca ficaram esclarecidos, nomeadamente entre o Sporting e o FC Porto. Quer revelar pormenores em relação a isso?
JOÃO ROCHA – Havia um projecto com o FC Porto que era muito prejudicial para o Sporting. Era mesmo inqualificável. Insurgi-me num Conselho Leonino e numa assembleia geral. Era um projecto gravíssimo que só podia sair da cabeça de um indivíduo sem responsabilidades. José Roquette dizia que era um projecto válido, porque era a única maneira de Sporting e FC Porto estarem sempre representados na Liga dos Campeões.
RECORD – Vai concretizar ou continuar a guardar trunfos?
JOÃO ROCHA – Não digo mais nada sobre isso. Foi falado no Conselho Leonino e eu disse ao líder da AG para mandar calar sobre essa informação, que foi longe demais. Disse-lhe ainda que o resumo do acordo com o FC Porto devia ser gravado de tão grave que era, porque talvez fosse necessário que essa gravação viesse a ser pública na defesa dos interesses do Sporting e dos seus sócios. Não vejo o desporto assim.
Ontem o Exmo Senhor João Imala escreveu-me uma nota por e-mail de Maputo, questionando a minha afirmação (baseada numa fonte que considero muito credível) de que o pai de Eusébio da Silva Ferreira era branco. Sugeriu que eu estava errado e que buscasse na Mafalala informações adicionais sobre o assunto, cuja relevância aproveitou para questionar.
Claro que a relevância destas coisas é sempre relativa – mas pelos vistos foi-o o suficientemente para o bom Sr. Imala me escrever uma notinha.
Naturalmente que, na face das coisas, essa pareceria ser uma improbabilidade, pois que Eusébio parece ser negro, não mulato, como se poderia derivar desta informação sobre o pai.
Devo esclarecer que não sou perito em raças mais do que o vulgar cidadão na rua e confesso que uma consulta à página da Wikipedia sobre o assunto de raças só me baralhou. Tecnicamente falando, parece ser um assunto muito mais complicado do que à primeira vista parece. Especialmente quando elas se misturam, situação em que as regras são um bocado….obtusas.
Eusébio foi o quarto filho de D. Elisa Anissabeni, essa uma figura conhecida em Maputo nos seus tempos áureos.
E, segundo os registos mais ou menos detalhados do seu percurso a partir dos 15 anos com o Sporting de Lourenço Marques (nem acredito que o Desportivo não o aceitou, erro que já não aconteceu com a incomparável Lurdes Mutola pela mão do saudoso Sr. José Craveirinha), é a sua mãe, D. Elisa, quem assume todo o protagonismo parental. Nunca o pai dele é mencionado.
Felizmente para o Senhor Imala, e para quem tenha dúvidas, sou o feliz proprietário de uma publicação chamada Eusébio – A minha História, da autoria de João Malheiro, publicada em 2005 pela QN-Edição e Conteúdos. Uma edição de luxo sobre a vida da estrela de futebol.
A qual, na página 14, refere breve mas especificamente o seu pai.
E refere que o seu nome era Laurindo António da Silva Ferreira.
E que era angolano de nascença (de Malange).
E cita o próprio Eusébio: “Angolano e branco”.
A minha fonte conheceu o pai dele e confirma.
Em 1950 Laurindo Ferreira morreu de tétano com 35 anos de idade (Eusébio tinha então 8 anos de idade) após trabalhar durante alguns anos nos Caminhos de Ferro de Moçambique, para onde fora transferido de Angola.
Fora também jogador de futebol e Eusébio ainda terá visto o seu pai jogar futebol.
Em cima, o celebérrimo jogo dos quartos de finais do Mundial de Futebol de 1966 entre Portugal e a Coreia do Norte, disputado no Goddison Park em Liverpool no dia 23 de Julho de 1966. Aos 25 minutos da primeira parte Portugal já está a perder por 3 a 0. Mário Coluna é o capitão e no intervalo (Portugal ainda a perder por 3 a 2) terá dito nos baneários duas ou três ao plantel português.
Portugal acaba o jogo derrotando os norte-coreanos por 5 a 3.
Eusébio marcou quatro dos 5 golos (José Augusto marcou o 5º golo).
Algures na multidão de 52 mil pessoas que viram o jogo no estádio naquele dia, estava um jovem pai BM, que desertou a família por umas semanas para ver o campeonato em Inglaterra.
Alguns exmos leitores vão pensar “mas o ABM anda numa onda de futebol”. Bem, não é verdade. Acontece que, enquanto tento resistir ao frio de rachar aqui no mato ribatejano (quase estou sentado em cima do aquecedor eléctrico e com dois pullovers por cima do pêlo e de boca aberta com a notícia do défice de português de 9.3% em 2009) hoje cruzei-me com um fascinante texto sobre Matateu no jornal lisboeta “i” (o novo eleito favorito do JPT, que nestas coisas não brinca) escrito pelo jornalista Rui Tovar. Que reproduzo com a devida vénia.
Isto é cultura básica de moçambicanologia.
O texto de Rui Tovar:
Faz hoje dez anos que esta outra figura incontornável do futebol português e moçambicano morreu.
A importância do homem que morreu há exactamente dez anos mede-se pela alcunha: “a oitava maravilha do mundo”.
Maputo, capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, depois de Lisboa e Porto. Ao todo, são 16 e há de quase tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista mas só um foi apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. O i faz-lhe aqui a homenagem, precisamente no dia em que se celebra o 10.o aniversário da sua morte. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo (o do Inter), hoje com 93 anos, que treinou o avançado no Belenenses confirma-nos: “Matateu era uma maravilha.”
Para já, a pergunta sacramental: quem foi Matateu? “Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86', e roubou o título ao Belenenses, a favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destacava-se pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible. Era uma força da natureza.”
E que fez Matateu? “Além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.a divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 1954-55], era um autêntico quebra–cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de Setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de fazer corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por ver a estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting numa 1.ª jornada. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa.”
A alcunha da oitava maravilha do mundo veio mais tarde. Em Maio de 1955, a Inglaterra perdeu pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado do “Daily Sketch”, um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e que foi sugado na década de 70 pelo “Daily Mail”, descreveu Matateu da seguinte forma: “Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Lá foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu – um cognome que significa oitava maravilha do mundo – desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos.”
A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu foi eleito pela imprensa como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista “Miroir Sprint”, “Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu”. Em 1957, o Belenenses fez uma digressão pelo Brasil e jogou no Maracanã, onde Matateu atirou três à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco/Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: “Vistes os russos a chamar pelo meu nome?” Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca.
E lá voltamos ao Artur Quaresma. “Comigo a treiná-lo, nunca bebeu. Pedi-lhe com bons modos e ele acatou. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, em que um futebolista ganha mais que um treinador, o manda passear, faz o que lhe apetece.”
Depois do Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting, Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1.a divisão em 1966. No posterior pingue-pongue entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos.
O antigo jogador de futebol Eusébio completa hoje 68 anos de idade.
Aproveito assim para abordar brevemente esta figura do desporto português e moçambicano.
Ao contrário do clã BM, eu nunca liguei quase nada ao futebol, que em Moçambique antes da independência era uma total obsessão para muita gente. Fui a muitos jogos de futebol em Lourenço Marques, mas mais como castigo e para não causar distúrbios em casa aos fins de semana.
Olhando retrospectivamente, o futebol estabelecia uma das diferenças visíveis entre a África portuguesa e as colónias e ex-colónias inglesas, que rodeavam Moçambique, onde os desportos seguiam padrões raciais e culturais muito específicos. Na África do Sul, o futebol era, e ainda é, regra geral, um desporto predominantemente de e para os negros, enquanto que os brancos se cingiam quase exclusivamente ao râguebi e ao cricket e desprezavam o futebol como “desporto de preto”. Presumo que pouca gente então se apercebeu que o piropo também se dirigia aos portugueses, que aos olhos de muitos dos boers e dos sul-africanos brancos, eram uma raça “cafrealizada” – os kaffirs from the sea, como diziam alguns (touché).
Em Moçambique aquilo era mais um pagode, tudo ao molho e fé em Deus. Toda a gente ia e toda a gente vibrava com o futebol, independentemente das questões raciais, económicas e sociais que os analistas de hoje possam congeminar. Aos fins de semana muita gente ia ver o futebol e durante a semana falava-se do que tinha acontecido no fim de semana anterior. Os jogos eram transmitidos pelo rádio clube em simultâneo em português e em ronga. Nesse aspecto, fazia parte do ídílio africano de que falarei mais tarde e que pelos vistos se tornou desporto das classes literadas de hoje desafiar.
Se no esquema geral das coisas essa paixão partilhada entre brancos e negros na África portuguesa valia o que valia, ela existia e pelo menos baralhava um pouco as cartas em termos da dialéctica de então. Os portugueses do regime usavam-na para apontar credenciais não racistas ao mundo, enquanto que os restantes a desvalorizavam, apontando que praticamente não havia quaisquer moçambicanos negros em posições de poder e influência na nomenclatura nacional e colonial.
Mas, só para chatear – excepto no futebol.
Esta realidade foi a meu ver algo injusta em termos de verdadeiros talentos como Eusébio, Coluna e Hilário (por exemplo, mas há mais, como o Vicente, o Shéu, o Matateu, o Matine, o Abel) cujo valor deveria estar acima destas questões mas acabou, durante algum tempo, por ser questionado por temas que nada têm que ver com o facto de que eram atletas de invulgar talento.
As estrelas que Moçambique produziu foram muitas e brilharam. Outro dia ouvi um comentário que achei interessante e parcialmente correcto, não me lembro de quem, mas que dizia que a primeira “verdadeira” selecção de Moçambique foi a que Portugal levou ao Mundial de 1966 em Londres. Sem descurar os restantes jogadores, o talento moçambicano reunido naquela equipa era verdadeiramente excepcional.
E Eusébio, filho de um senhor branco e de uma senhora negra do Xipamanine (pois…) foi a estrela cadente desse conjunto de homens notáveis. Ao ponto de integrar, nas mentes do povão, com a tal de vidente Lúcia e a fadista Amália Rodrigues, uma espécie de santa trilogia do Portugal da segunda metade do salazarismo: Fátima, Fado e Futebol.
Ele era um deus em Moçambique quando eu era pequeno. Um dia, não sei bem por que razão, nos anos 60, ele visitou a casa onde os meus pais viviam na Polana. Não sei como, a palavra passou que ele estava lá, e em cinco minutos a casa estava rodeada de uma multidão a querer vê-lo e a pedir autógrafos. Diligente, eu passei o meu tempo a recolher livrinhos de autógrafos e levá-los ao Eusébio enquanto ele estava calmamente sentado a falar com o pai BM – e ia assinando os livrinhos.
Como um simbolo inescapável de Portugal, difícil foi, e tem sido, a reconciliação com o regime moçambicano, que, antes e depois da independência, nunca o viu como seu, e que nunca aceitou o portuguesismo de Eusébio – apesar de ele ser logicamente também tão moçambicano como qualquer outro, produto genuíno do Xipamanine e da Mafalala dos anos 50 do século passado.
Também não ajudou o facto de que, ao se nacionalizarem os bens imóveis em 1976, incluíram-se os investimentos que quer Coluna quer Eusébio tinham feito na sua terra. Na base da ideologia e de que não podiam abrir excepções, deixaram-nos mais pobres e mais ressabiados. Coluna, que regressou a Moçambique independente e refez lá a sua vida, ficou quase na miséria. Mas isso é história que dava panos para mangas.
Independentemente de todas essas questões, acho que a História já colocou Eusébio no seu lugar devido: o de ter ele sido um dos maiores talentos do futebol que o mundo jamais viu.
Um talento moçambicano.
E, também por isso, lhe dou hoje, e a nós também, os parabéns.
Apontado como único, excelso homem da finança e inteligência, aguardado membro da elite sportinguista, como tal da elite socioeconómica portuguesa. Homem único, solução dita única. Querem que dele ser dele crítico é estar contra o país, a nação, no mero bota-abaixismo. Perdão, não é disso que se trata: querem que dele ser crítico é estar contra o Sporting, a nação, no mero bota-abaixismo.
Logo que eleito Bettencourt cachecolizou-se, em demagogia rasteira, no ridículo oralilolé que aqui se recorda. Daí para a frente tem sido o despautério radical. Tentou bater num adepto. Depois invectivou alguns sócios de cretinos e assim presumiu todos os outros, ao anunciar terroristas internos, em delírio persecutório. Culminou negando o carácter democrático do clube, num “posso, quero e mando” completamente desaustinado. E desajustado, seja da história dos clubes portugueses seja da sociedade actual.
Depois cachecolizou-se de novo e escolheu Ricardo Sá Pinto como director (de crise), decerto que por ser ídolo das claques, dessa “mística” dos afinal “cretinos”. Conhecido por em tempos ter batido no seleccionador nacional. Mas, nunca esquecer, recomendável no seio dos ilustres: afinal foi o único homem do futebol presente no “casamento real”. Plebeu, é certo, mero “sá” e mero “pinto”, sem galicismos ou ostrogodismos no nome. Mas visita d’el-rei.
Agora, assumindo o cachecolismo ideológico do seu presidentem Ricardo Sá Pinto esqueceu-se de defender os profissionais a seu cargo e assumiu como seu o mal-estar do público virando-se contra os seus jogadores, acabando à pancada com o jogador Liedson. Demite-se!
José Eduardo Bettencourt, o esperado, o único, o ideólogo do cachecolismo, o último representante deste conglomerado de interesses da elite que lesou o Sporting Clube de Portugal em centenas de milhões de euros nos últimos quinze anos, continuará. Pois é a única solução, a única alternativa. Dizem os crentes.
Que melhor exemplo do futebolismo? Do mundo do futebol como espelho, cristalino, de Portugal? Do efeito do discurso das soluções únicas, indiscutíveis, das escatologias ameaçadas, dos vultos iluminados (“o mais bem preparado de todos”, dizia há tempos um bloguista amigo a propósito de um avatar desta tralha), das ideologias cachecolizadas, demagogias rasteiras? Da cretinização daqueles que se irritam?
Bettencourt continuará. Os avatares desta tralha também. Ricardo Sá Pinto pelo menos jogava à bola …
É certo que as receitas dos grandes campeonatos organizados pela (ou sob a) FIFA provêm dos direitos televisivos. Ainda assim, e “se bem me lembro”, no Mundial de 2006 houve uma redução de preços para a sua retransmissão em África, no intuito de favorecer o acesso em canal aberto (não pago). Agora ocorre o CAN 2010. A venda dos direitos implicou a sua transmissão em canal pago (satélite, tvcabo). Em Moçambique e na generalidade do continente. Em termos da velha política da FIFA – expansão do futebol em África – é um contrassenso. Em termos nacionais – o futebol como veículo de “construção da nação” – idem. Ontem os “mambas” de Moçambique jogaram com os “faraós” egípcios (a Itália de África, dizia-se). O povo de Maputo aglomerou-se junto dos ecrãs públicos [a pobre telefotografia demonstra o estádio "Cristal", na Av. 24 de Julho]. Imagino que por todo o país, distritos em particular, se juntou em torno dos rádios – pois onde haverá tvcabo ou parabólicas? E quem a elas terá acesso?
Uma pena, isto de se vender tão cara a “festa do povo”. Sob o olhar, gordo, da FIFA!
Apesar de supostamente terem poucas chances de ganhar um lugar de relevo na competição, quero desejar às equipas de Angola e de Moçambique boa sorte nos seus jogos.
Tendo costela moçambicana, uma palavra de encorajamento aos Mambas, que, tirando o guarda redes, que parecia estar em noite de azar, jogaram bem e pregaram um susto aqui à claque de Cascais (os jogos passam na televisão por cabo no canal da Eurosport) quando chegaram a estar a perder por 2-0 com o Benin, mas depois marcaram dois golos e empataram.
O mesmo aconteceu com os Palancas Negras, só que foi ainda mais assustador. Chegaram a estar a ganhar por 4 a 0 ao Mali mas nos últimos minutos do jogo acabaram por empatar. O público angolano ia tendo um ataque cardíaco.
Angola já ganhou ao conseguir organizar o evento. O que deploro, foi a decisão dos senhores da FLEC de tentar assassinar a equipa do Togo em Cabinda e a incapacidade das forças de segurança no local de impedi-lo.
Independentemente de questões políticas, eu sempre fui de opinião que usar a realização de eventos desportivos para causar violência deste tipo é criminoso e contraproducente.
Ainda tenho idade para me lembrar da incompreensível violência contra a equipa israelita nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, que vi com o Rui Abreu numa televisão numa quinta para os lados de Almada, antes de voltar para Moçambique. Foi horrível. Não entendo o ponto de matar gente perfeitamente inocente para …quê?
O imparável ABM acaba de encetar o The Delagoa Bay Company, um riquíssimo blog dedicado à história do desporto federado em Moçambique. Na fotografia estão os nadadores António Botelho de Melo, Rui Abreu e Paulo Frischknecht, à partida para os Jogos Olímpicos de Montreal (1976), os dois primeiros então oriundos da natação em Moçambique.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.
Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.
Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.
Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.
Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.
Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?
Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.
Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.
Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.
Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.
(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)
(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)
Num sábado chuvoso, a imagem de três grandes nadadoras de Moçambique do ante-pós: Dulce Gouveia, Manuela Gourinho e Susana Abreu. Do Grupo Desportivo Lourenço Marques.
Eram as melhores nadadoras de então, no Portugal pluri-continental, onde os moçambicanos (versão 0.0) jogavam cartas.
Foto tirada em fins de Julho de 1967 em Lisboa, na Piscina dos Olivais, e publicada na portuguesa TV Guia de 10 de Agosto de 1967.
(inauguração da Piscina dos Olivais)
A piscina dos Olivais, a primeira piscina da capital portuguesa com 50 metros de comprimento, foi por elas inaugurada no dia 25 de Julho de 1967, aquando dos Campeonatos Nacionais de Natação. Para o tempo uma quase monumental obra arquitectónica. Sempre mal utilizada, quase sempre desprezada.
Ora olhando para o que saiu na rifa da Fifa ontem à tarde, este é o itinerário dos tugalandeses e afins na África do Sul em meados de Junho do ano que vem.
Recapitulando:
15 de Junho – Port Elizabeth – Costa do Marfim
21 de Junho – Cidade do Cabo – Coreia do Norte
25 de Junho – Durban – Brasil
Ora eu já tive o prazer de visitar de carro estas cidades e posso garantir que seguir o circo da equipa portuguesa por este percurso vai ser uma aventura, talvez com a excepção de Durban, que, para quem vem de Maputo, pelo menos, é coisa relativamente fácil, se bem que eu não recomende atravessar a Suazilândia, pois aquilo parece outro planeta, com os polícias a pararem-nos a cada 30 kms para ver se os pneus estão cheios, as estradas miseráveis e não sinalizadas e as vacas a passear no meio da rua.
Como não entendo nada sobre futebol internacional, parece-me que o Brasil deve ser um nadinha mais difícil que os outros. A Costa do marfim não deve ser má, apesar de ser um país que deu uma voltas valentes desde que Hophué-Boigny morreu sem herdeiro. A Coreia do Norte…nem sabia que se jogava futebol na Coreia do Norte. Pensava que lá ou se ia para a tropa e fazia mísseis para chatear os americanos e os irmãos a Sul ou quase se morria de fome em comícios do “dear leader” a abanar adornos, vestido de bata azul-cueca.
Acresce que, tipicamente, faz um frio de rachar no Cabo e em Port Elizabeth em meados de Junho.
Portanto a possibilidade de ver os jogos na televisão em casa sentado no sofá com amigos é muito atraente, barata – e ecológica.
15.6 Costa Marfim (P.E.); 21.6. Coreia Norte (Cape Town); 25.6 (dia Moçambique, já agora) Brasil (“mesmo aqui ao lado” Durban) – grande volta à África do Sul, melhor não se podia pedir. É a corrida aos bilhetes …
Não sei como esta escapou à atenção do JPT. Deve ter sido a absorvente questão dos minaretes suíços.
Há dois dias, na televisão, fiquei a conhecer que os chefes do Sporting Clube de Portugal, munidos de um manancial de estatísticas, proclamaram que havia poucas mulheres entre as suas hostes de adeptos – cerca de 30% da lotasção dos estádios. Então uma solução para ajudar a encher o seu estádio com um maior número de mulheres foi criar uma promoção em que um sócio podia trazer, ou de graça ou com desconto, uma mulher para um jogo.
Claro que imediato apareceram aquelas questões difíceis de responder. Pode uma mulher que não é sócia trazer um homem? (sim) Pode uma mulher trazer outra mulher para ver um jogo ? (sim, “retiradas as devidas ilações”, foi a misteriosa resposta) mas se for assim isso não é descriminar contra um homem que queira trazer outro homem para um jogo e ter acesso ao mesmo benefício? (de acordo com o Sporting, não).
No passado domingo, 29 de Novembro, o meu amigo Asterix e o seu “brada” Obelix comemoraram os seus quinquagésimos aniversários. E eu nem uma palavra lhes enviei, uma indesculpável distracção. Mas que não significa menos afecto. Daqui seguem grandes abraços para os dois, com toda a amizade e admiração. E muita gratidão, reconhecido pelo tanto que têm feito por mim nos últimos 41 anos. Verdadeira família, como tenho comprovado nestes últimos dois anos, tão gentis tios da minha Carolina têm sido.
É uma amizade profunda, de convívio sempre querido – ainda que por vezes a vida, essa ditadora, nos afaste um pouco no quotidiano. Mas “estamos juntos“. E estaremos, em particular dentro de algum tempo - pois a eles me juntarei nos próximos meses nessa grande aventura “Asterix no País do Arco-íris“.
Devido à minha digressão norte-americana, para mim o calendário natalício só começa realmente depois do feriado americano do Thanksgiving, que é na última semana de Novembro. Do que me lembro lá, só depois desse dia é que de repente se começam a ver decorações de Natal um pouco por toda a parte e ouvir We wish you a merry Christmas encanados pelos sistemas de som nos corredores dos centros comerciais.
Mas este ano em Portugal não é assim. Há pelo menos duas semanas que, para quem andar nas ruas e nas lojas já vê árvores e outras decorações de Natal e ouve aquela música empacotada de Natal.
Confesso que sou do tipo que gosto de dar prendas mas não de ocasião. Ter que andar a magicar que outra bugiganga posso embrulhar e dar a alguém pelo Natal é quase uma tortura, pois regra geral não consigo vislumbrar o que é que pode ser ou útil ou até simpático para oferecer a alguém – que não me coloque na bancarrota, isto é – e que seja adequado ao espírito natalício. É um exercício de burguesia rasca que pago para não ter que enfrentar, ao contrário da Patroa, que num ápice saca do Visa card e numa tarde no Cascais Shopping compra tudo para toda a gente, até um chocolatinho para o carteiro com um cartãozinho personalizado e ração especial para o cão, o gato e o piriquito.
Claro que quando chega o extracto do cartão dela em Janeiro é “Christmas all over again”.
Outra mudança desde há uns anos é que acabei com o envio dos cartões de Natal. Para além de ser caro e complicado em termos de logística (eu hoje já não tenho literalmente os endereços físicos da maior parte das pessoas que conheço), só de pensar em ir para a bicha dos correios nessa altura para mandar tudo a tempo dá-me dores de barriga. Havia ainda o psico-drama de decidir a quem mandar e a quem não mandar, depois a quem mandei e que não mandou, a quem não mandei que mandou, a quem mandei e que mandou mas que mandou já em Março num gesto de cortesia falhada. E finalmente o que fazer com esses cartões todos depois de acabadas as festividades (caixote do lixo).
Felizmente que a internetização dos protocolos sociais sobrepôs-se a tudo isto e de repente toda a gente começou simplesmente a mandar um e-mail com uns bonequitos de Natal e já está. Imagino que o feicebúque este Natal vai parecer um presépio com árvores cintilantes e copiosa neve virtual.
Afinal o que conta é o espírito natalício, não é? e uma mensagem de Natal sempre é uma mensagem, certo?
Portanto este ano, devido à crise e a um futuro incerto, não há nada para ninguém.
Bem, abri apenas uma excepção pois não consegui resistir.
JPT, se vieres à tua terra, o que está lá em cima é para ti. Merry Christmas!! Antecipadamente.
(de notar que tirei a foto em que as garrafas do Sporting Reserva Alentejana 2006 Encostas do Alqueva estão em cima do livro do Bill Bryson…)
por ABM (Alcoentre, domingo, 22 de Novembro de 2009)
Como a Senhora Baronesa e o JPT acharam uplifting falar de retretes e saneamento, hoje abordo o igualmente importante tópico da relva.
Quando a semana passada a equipa nacional de futebol de Moçambique derrotou a Tunísia por um golo a zero, o mais que os tunisinos sabiam repetir depois do jogo é que estava muito calor nesse dia e que o relvado artificial do Estádio da Machava estava tão quente que os seus pés quase que derretiam com o calor. Memoravelmente, o holandês que treinava os Mambas limitou-se a dizer que os meninos haviam dormido uns diazitos sem ar-condicionado lá em casa.
Não percebo nada de relvados, muito menos de relvados de futebol. Quando era miúdo lembro-me vagamente de, mesmo antes de a Frelimo ter marchado para Lourenço Marques e decretado a independência e uma revolução, o último grito na cidade, cujos campos de futebol eram todos de…areia, foi plantarem relva. Aquilo ficou tudo lindo como nunca. Mas com o fim do colonialismo, a relva, como o camarão e a carne de porco, fugiu. Quando visitei Maputo após nove anos de “socialismo revolucionário” em 1984, as prioridades eram outras e os clubes mal sobreviviam à sombra de parcas esmolas que os seus patrocinadores estatizados logravam dar. A piscina do Desportivo mal sobrevivia com uns donativos de cloro da companhia das águas – mas quase nunca havia cloro, nem sequer para a água da rede pública. A relva, essa morreu e foi para o céu. Hoje, vinte e cinco anos mais tarde, nem os estádios sobreviveram. O belo estádio dos CFM na Machava – onde foi declarada a independência do país e filmada uma memorável cena do filme “Muhamad Ali”, está sub-aproveitado e preterido em favor de um estranho “estádio nacional” que é, tanto quanto entendi, um donativo dos novos grandes amigos, os chineses. O campo de jogos do Xipamanine, onde o pai BM ajudou a fazer história com o Nova Aliança, desapareceu pura e simplesmente. Os antigos campos de futebol do Sporting (agora Maxaquene) e do Desportivo aparentemente foram vendidos para se fazerem prédios no local, o que dá um novo contorno ao termo “negociatas imobiliárias”. Presumo que os seus departamentos de futebol vão passar a treinar na rua ou algures nas Mahotas. Boa sorte aos futuros Eusébios.
A relva é uma coisa bonita e confortável quando alguém que não nós tem que tomar conta dela. Quando eu era miúdo, o pai BM, que obviamente não se sabia aproveitar dos benefícios laborais do sistema imperial-colonial, indigitou-me para tratar da relva que tínhamos no quintal. Aquilo era um inferno. A relva crescia quando queria, morria quando queria, quando crescia demais lá tinha que eu ir com uma daquelas maquinetas manuais para cima e para baixo para que aquela porcaria parecesse normal. Uma vez por ano, eu tinha que andar de traseiro para o ar uma manhã inteira a plantar os bocadinhos do “tapete” de relva (termo aqui perfeitamente alegórico) onde a dita cuja não pegava. Ainda por cima a terra na Polana é aquela terra encarnada que se vê na Ponta Vermelha, muito bonita mas acho que aquilo está para a relva como a areia do deserto para os esquimós. Isto para não falar das ervas e bicaharada que por lá cresciam. Enfim.
Mas, voltando ao futebol, ou, melhor, à relva do futebol, eu pensava que esta coisa da relva do futebol era assunto pacífico. Contratava-se uns jardineiros e a coisa compunha-se. Isto até ler hoje que não era bem assim. No caso do mundial de futebol, ainda mais estranho é. Assim, descobri que há uma espécie de Polícia da relva da Fifa que, depois de uma recente inspecção dos campos de futebol todos onde se vai disputar aquele campeonato, decretou que a África do Sul tinha que mudar a relva em todos os seus estádios, pois a que lá está é feia e desagradável de se jogar por cima.
Os sul-africanos usam nos relvados que são os seus campos de futebol um tipo de relva chamado kikuyu grass. Aguenta melhor o tempo quente e a falta de água. A Fifa agora diz que eles têm que usar european rye grass, que é mais verdinha, aguenta levar mais pancada dos jogadores e é mais bonita de se ver na televisão. É verdinha como a que está na fotografia acima. Só que isto implica arrancar a relva que está lá e plantar a tal relva rye european, que funciona bem nos climas muito mais temperados e húmidos da Europa mas que não se dá mesmo na África do Sul, a não ser que se gaste uma nota forte em água, adubos e jardineiros.
O mais curioso é que já se fizeram avanços enormes na tecnologia das relvas artificiais e quer a Uefa quer a Fifa já aprovaram padrões para relvados artificiais e inclusivé já os aprovou para competições internacionais. Poupam rios de água e trabalho e dinheiro e os especialistas indicam que não tem qualquer impacto na qualidade do jogo.
Mas não neste caso, parece. Os sul-africanos vão plantar a rye european a tempo do Mundial e, quando aquilo tudo acabar, vão ter que arrancar tudo outra vez e plantar de novo a kikuyu grass.
(por AL com ajuda de Augusto da Silva Júnior e do fotógrafo António Veríssimo, correspondentes em Dili)
Eu sei o que o nosso editorial diz, desconfio mesmo que a minha inclusão na maschamba se deve em parte ao meu apelido, mas há coisas boas demais para se deixarem passar. Aqui há atrasado já a minha amiga Katia, cabo-verdiana linda e bem disposta, me tinha contado que as lojas dos chineses na Cidade da Praia tinham enchido a ilha de T-shirts dos clubes portugueses. Até aqui nada demais, só que, quiçá por ignorância de futebol ou da importância das cores nestas coisas da bola, as T-shirts dos chineses não tinham respeitado o código dos clubes. Assim, as T-shirts do Sporting tinham o logotipo do clube sobre um fundo vermelho (The horror! The horror!) e por aí adiante com os outros clubes não mencionáveis por decreto editorial da maschamba. Hoje recebo de Dili – Timor Leste, cidade que se orgulha duma enorme sede do Sporting (Filial Nr. 85), bem situado em frente ao porto e praticamente no coração da cidade, a foto que aqui reproduzo. Sem mais comentários, que uma imagem às vezes vale por mil palavras… Ah Leão!
["Pôrras", Portugal-Suécia, campanha de apuramento para o Mundial de 2010]
A selecção nacional de futebol aquando em grandes competições internacionais assume cognomes. A maioria das vezes recolhidos da mitologia nacional como “Magriços” (celebrizados no Mundial 1966), “Patrícios” (Euro-1984) “Infantes” (Mundial-1986), “Conquistadores” (Euro-2004, Mundial 2006). Mas também no vernáculo, como o algo ridículo mas pelo menos não “épico” “Tugas” (no Mundial-2002).
Agora, para a campanha de 2010 na África do Sul – e antes que surjam os pomposos ”Padrões”, “Adamastores” ou coisa quejanda – convém lembrar e exigir o cognome óbvio a usar nesse país:
África do Sul, here they go.
Acho que os moçambicanos vão ver muitos portugueses outra vez….mas desta vez de férias….e Eusébio e Queiroz vão visitar a terra outra vez.
O país de Vichy, o dos descendentes de Pétain, do “senhor” Marc Batta, do “mergulhador” Thierry Henry (esse que quando “rasteirado” sofre impulsões verticais …), do “ilustre” Michel Platini (que não quer imagens para controlar os seus “henrys”), também lá estará.
Uma noite a ver futebol. E sinto-me irlandês.
(para os apreciadores de futebol: basta ver devagar, o juiz-de-linha não tem ninguém entre ele e Henry. E se eu, com visão do ângulo oposto e em Maputo, vi a mão …)
Só para memória, para não esquecermos a mafia francesa do futebol, “the french way of life”, é ir aos 3 minutos para ver a “arte” de Thierry Henry:
E para quem não se lembra, eis o arquétipo de França – Marc Batta:
Capa do jornal desportivo O Jogo (edição de 18.11.2009), alusiva ao jogo Bósnia-Herzegovina- Portugal, decisivo do apuramento para o Mundial de 2010. Está bem que o futebol é hoje muito identitário, uma indústria que disso se serve, uns poderes que isso potenciam. Mas isto é uma total imbecilidade. E há militares (ou serão actores?) que a isto se prestam. Com as hierarquias a aplaudirem. Uma parvoíce abjecta, em termos de jornal – mas o que se pode esperar da imprensa desportiva portuguesa? E uma vergonha em termos de responsabilidade institucional.
A vitória dos Mambas sobre a equipa nacional da Tunísia por um golo marcado no minuto 83 lê-se como se de um engano se tratasse e que nada tinha quer ver com o jogo em si. “Estava muito calor, mais do que 30 graus”, “a relva artificial do Estádio da Machava era muito quente”, “fisicamente não estávamos preparados para estas condições”.
Realmente?
Mart Noijj, o treinador dos moçambicanos, disse à BBC que preparou os seus homens mandando-os dormir sem ar-condicionado nos dias que antecederam o jogo, o que me surpreendeu pois quando eu era miúdo ter ar-condicionado em casa não era um elemento que influia no desporto: praticamente ninguém tinha.
Mas acho que o mais importante foi a atitude. Noijj achava que ia ganhar aos tunisinos. E atitude é meio caminho andado.
No xadrez das qualificações, a vitória dos Mambas caiu como uma supresa e um choque e confundiu os analistas. Para Moçambique, foi o bilhete de entrada para a Taça das Nações Africanas em Angola no ano que vem. Para a Tunísia, cujo treinador é um português (Humberto Coelho) o afastamento do Campeonato do Mundo e a entrada da Nigéria, que no mesmo dia bateu o Quénia por um golo, ganhando os pontos necessários para ir à África do Sul em 2010 no Grupo B.
Como não tenho uma foto dos Mambas, que com o seu treinador e equipa estão de parabéns, fiquei-me pelo que acima se vê. Afectuosamente.
Assisto na tv à conferência de imprensa do treinador Paulo Bento e do presidente do Sporting Clube de Portugal, José Eduardo Bettencourt. Elevado o treinador, a quem os sportinguistas devem respeito e agradecimentos. Elevado e clarividente quando reconhece que “fiquei quatro meses a mais no Sporting” (algo que até um mero bloguista pode antever em Fevereiro passado).
Completamente destrambelhado o presidente. Confundindo respeito, gratidão, solidariedade (tudo isso realmente devido a Paulo Bento) com supra-comoções, insinuações de inimigos internos, recados crípticos. E sinalizando o desnorte, na incapacidade de responder às questões óbvias que lhe colocaram os jornalistas. Uma tolice. E pior do que tudo, acabando a querer bater-se com um sócio do clube, como anunciam os jornais.
É este o “homem providencial”, o expert da alta finança de coração sportinguista, afirmado pela propagandeada elite socio-económica sportinguista – essa que desde o “projecto Roquette”, amparada por Santana Lopes, levou o clube à ruína. Aquele que o ex-proleta, agora muito socialista e admirador do grande capital, Oliveira e Costa aqui (em Maputo) e em todo o lado (tv) veio afirmando como o “homem certo” e inultrapassável.
No meio desta parvoíce toda de Bettencourt, um manifesto erro que foi logo anunciado na triste figura de cachecol e aos pulos na noite da sua eleição, traça-se o quadro do país. Da gente que nele manda. Da gente que escolhe quem vai mandando.
E não posso deixar de me sentir incomensuravelmente velho. Já gente de um milénio passado. De um tempo em que um Senhor como o Senhor João Rocha, cruzando tão difíceis eras, fez a obra que fez, com a elevação e discernimento que o caracterizou no posto de Presidente do Sporting Clube de Portugal.
Estamos agora condenados a isto. A um Sporting que não volta? Não, muito pior. A um Portugal que não volta. Que fenece entre cachecóis e intrigalhadas internas, e doutores e “engenheiros” inultrapassáveis, imprescindíveis.