Parecem-me pois argumentos suficientes para arrumar com a hipotética versão culpabilizadora da tal (incógnita) “natureza humana”.
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Maio 6th, 2007 — Descolonização
Maio 6th, 2007 — Descolonização
Rui Rodrigues (coord.) Os Últimos Guerreiros do Império. Amadora, Editora Erasmos, 1995
“A guerra é uma coisa horrorosa, é uma bestialidade: as pessoas matam-se umas às outras. Mas, por vezes, faz-se. E a verdade é que há diferentes maneiras de a fazer. Pode-se fazer achando que, apesar de tudo, os combatentes inimigos são criaturas de Deus, como nós, ou podemos olhá-las como meros indivíduos a abater, como se fossem animais.”(declarações de José Pedro Simões Caçorino Dias, Coronel, p. 111)
“Para mim e para muitos camaradas meus, o mais revoltante foi o que se passou depois da independência da Guiné-Bissau. O mais revoltante era dizerem que éramos portugueses, quando afinal não éramos portugueses. Nós pensávamos que ficávamos portugueses, que pertencíamos à geração dos que pertencem a Portugal. Mas chegámos à conclusão de que não era assim. Não se podia imaginar que a tropa portuguesa ia mandar para a Guiné a lista dos que, lá, tinham pertencido à tropa portuguesa. Não sabemos quem é que mandou essa lista, mas sabemos que a mandaram, no tempo de Luís Cabral.Eu estive preso cinco vezes, e na prisão mostravam essa lista, com o carimbo do quartel-general daqui e tudo, e com os nomes dos que tinham condecorações e louvores.
(…)
Não culpamos o governador Bettencourt Rodrigues, que, esse, foi preso depois do 25 de Abril. Culpamos, sobretudo, o governador português e também o último governador que esteve lá, Carlos Fabião. Foi ele que nos disse que tinha recebido uma carta de Portugal, do general Spínola, para nós deixarmos a tropa. Precisamente no dia 19 de Agosto de 1974. Mostrou a carta, mas ninguém leu.
(…)
No mês de Março de 1975 começaram as prisões. Foi um mês negro para os comandos. Eu fui preso. E fui torturado. Como muitos outros camaradas. Tenho testemunhas, e alguns estão cá em Portugal. Obrigaram-nos a carregar pneus gigantescos, pneus de Berliet, com jantes e tudo. Era uma das torturas, mas havia outras: como pendurar uma pessoa pelos pés, com cordas e dar-lhe chicotadas.
Dentro da prisão obrigavam as pessoas a andar despidas, só com as cuecas. Em Bula obrigaram muitos camaradas a andar com pneus de Berliet à cabeça, na rua. O comandante do PAIGC, na altura em que faziam isso, chamava-se Benjamim Correia. Mas o homem da segurança, o carrasco de todos esses camaradas, foi Fernando Quadé.
(…)
Houve camaradas que estiveram presos seis, sete ou oito anos. Alguns já tinham sido fuzilados, e os familiares continuavam a levar-lhes comida e cigarros. Às vezes, os guardas pediam cigarros, dos bons, para os presos: as famílias estranhavam, diziam que eles não fumavam. Diziam que tinham passado a fumar. Já estavam mortos.
Outros ficaram aleijados para sempre, por causa dos maus tratos. Uma vez fui passar férias à Guiné, e encontrei um soldado da minha companhia, que tinha sido muito valente, chamado Mumó Sissé. Quando me viu começou a chorar. Contou-me que passou seis meses numa cela onde não se podia pôr de pé nem estender as pernas. Quando de lá saíu tinha uma perna e uma mão paralíticas. E por lá anda.
(…)
Houve camaradas que foram presos no Senegal, na Gâmbia, e na Guiné-Conacry. Foram mandados para a Guiné como se fossem peixe, para serem fuzilados.
Tudo se passou no tempo de Luís Cabral. Podem dizer o que quiserem de Nino Vieira, mas todas essas perseguições acabaram depois do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980.” [meu negrito]
(declarações de João Seco Mamadu Mané, Fuzileiro Comando, pp. 166-168)
“Não posso nem quero deixar de dizer uma palavra sobre o que foi, depois, o destino desses homens do Batalhão de Comandos Africanos. Em 1974 estive em Londres, com o Dr. Mário Soares, o Dr. Almeida Santos e com o Prof. Jorge Campinos, já falecido, a negociar com o PAIGC, representado por Pedro Pires (…)
As indicações que levava do general Spínola eram muito claras e eram as mesmas que tinha recebido, na Guiné, o major Carlos Fabião: aceitação pelo PAIGC de que ninguém tocava nos africanos, não só nos oficiais e sargentos do Batalhão de Comandos, como nos comandantes das milícias, que tinham cerca de 20 000 homens, com insígnias e uniformes próprios, e que tinham sido comandados pelo major Fabião.
Nas nossas conversas com o PAIGC ficou sempre assente que haveria uma integração desses pessoal: não iam, com certeza, continuar a ser oficiais e sargentos, isso percebia-se, mas seriam reabsorvidos como civis.
Não foi isso que o PAIGC fez. O PAIGC fuzilou barbaramente a maioria dos meus oficiais do Batalhão de Comandos Africanos. Creio que o primeiro a ser fuzilado foi o capitão Jamanca
(…)
Os meus oficiais foram assassinados pelo PAIGC, com conhecimento de Luís Cabral e de Nino Vieira. Não o posso provar, mas não tenho dúvidas nenhumas, pois tenho relatos de familiares, nomeadamente da mulher do tenente Zacarias Saiegh. Os meus sargentos foram também quase todos fuzilados; só nos soldados é que eles não tocaram.
(…)
Disse-se que daqui, de Lisboa, foi mandada para a Guiné uma lista dos comandos africanos, com postos, condecorações, louvores e tudo.
(…)
Num programa de televisão, em 1994, Luís Cabral foi fortemente pressionado pelo comandante Alpoim Calvão - e viu-se que ele ficou aflito. Como é que ele podia não saber? Então ele era presidente e não sabia?”
(declarações de João Almeida Bruno, General de Quatro Estrelas, pp. 76-78)
“No princípio, os jovens eram apanhados como pássaros para irem para a tropa, às vezes eram amarrados para não fugirem e depois eles punham nos papéis que eram voluntários. Nos últimos anos da guerra os guineenses já iam para a tropa voluntariamente, porque o PAIGC matava mulheres e crianças nos povoados que não estavam com eles.”(declarações de Marcelino da Mata, Tenente Coronel Graduado Comando, p. 183)
(José Freire Antunes, A Guerra de África. Lisboa, Círculo de Leitores, 1º volume 1995)
“Quem desarmou os comandos foi o Carlos Fabião. A 15ª Companhia, em Mansoa, não aceitou o desarmamento. A maioria deles foram fuzilados.”
(declarações de Marcelino da Mata, p. 554)
Maio 6th, 2007 — Descolonização
Amigo leitor diz-me que achou excessivo este texto. Ora se até ele, que me conhece, dá um tom “reaccionário” a tal desabafo o que será com quem não me conhece? Breve sumário: uma coisa é tecer loas (anacrónicas e tontas) ao tonto e anacrónico regime colonial português, assente na mitologia do Império e do colonialismo afectuoso e “de cama” (que gente da esquerda socialista nada periférica ainda agita, sem pruridos); outra é papar sem azia a mitologia dos “heróicos capitães de Abril”, feitos Santos Condestáveis amais a Ala dos Namorados. A história faz-se de coisas sujas, não vejo que seja necessário esquecê-las. Mais que não seja porque são bom material fílmico. A ver se animam as comemorações que alguns acham desinteressantes.
Ou, por melhores razões, por auto-respeito.
(Como alguns leitores habituais afirmaram o seu desconhecimento do episódio seguem-se algumas citações, que presumo sirvam para vosso esclarecimento. Mais, vai isto sem apontar dedos a responsáveis, os quais desconheço e não imagino. Mas crente que este desconhecimento é um desconhecimento provocado. Um véu a esconder o nome de quem traíu os homens que arregimentou, socializou [”nacionalizou”], treinou, usou. E abandonou. E que para esconder tamanha infâmia albergou um mísero assassino, este sob o véu PAIGC.
Mais, vai também crente que o silêncio sobre tal situação tem outra implicação - a concepção censória, nada democrática, de que há fontes que não são fidedignas, apenas por razões ideológicas.)
Maio 4th, 2007 — Descolonização
Uma vergonha, recrutar tropas e abandona-las a morte as maos de ditadores. Uma vergonha continuada, no silencio desde entao. Um silencio, vergonhoso, que e nitidamente filho do racismo, do desprezo por esses ex-convocados por isso mesmo assassinados. “Apenas soldados landins”, estou certo, sera o humus de tal silencio.
Mas maior vergonha ainda o asilo e benesses dados ao responsavel por esses massacres. O assassino Luis Cabral, beneficiando da mitologia cabraliana, beneficiando da mitologia dos putativos “interesses nacionais” portugueses na Guine-Bissau, beneficiando da mitologia racica (sendo mulato nao cabe no arquetipo do sanguinario e bocal ditador africano sempre agitado nas europas), o assassino Luis Cabral vive descansadamente, sem remorsos, sem vergonha, ha 27 anos no meu pais.
Aquela nossa direita, imperial envergonhada e vegetando na imbecilidade revanchista, esquece tamanha vizinhaca. Aquela nossa esquerda, sempre festiva na sua imbecilidade justiceira, esquece tamanha vizinhanca.
Sei agora que o o miseravel Luis Cabral entra em estertores. Nao me contenta, esta nos hospitais publicos portugueses, apos uma longa vida, prazenteira decerto. Nao passou os ultimos anos enjaulado e desprezado em Haia, como alguns servios ou quejandos, tambem dados aos etnocidios como este Cabral o foi.
Quando morrer tera uma campa. Nao lhe estara destinado a vala comum em que arrumou os seus concidadaos. Que lhe seja bem pesada a terra! Tao pesada como a vergonha do pais que o acolheu.
Outubro 2nd, 2006 — Descolonização, Sociedade portuguesa
Repito, um texto absolutamente acreditável. Corolário do pomposo doutoral, a embrulhar um mero reaccionarismo. Hoje colonial, amanhã outra coisa qualquer. Liberal?
Vale a pena resmungar? Nem tanto. Mas apenas notar, o tristemente, afinal também, acreditável. Se a tantos inúmeros dislates se sucedem dezenas ou centenas de comentários, coisa de grande blog, a um velho-fascismo destes acorrem uma dúzia de comentários, nem discordantes. Modos colectivos de olhar a história recente.
(Para quem se interesse: sobre as tropas africanas das forças armadas portuguesas, e o tratamento recebido, botei no princípio do blog).
Agosto 4th, 2006 — Blogs, Descolonização
No bloguismo cada vez mais me interessa o memorialismo [ícones, imagens, narrativas, o que seja …], extractos que transmitem, e que conversam, bem mais do que o constante presenteísmo opinativo. Exemplo maior disso encontro-o num blog que desconhecia: a narração, crua, até rude, da descolonização em Moçambique vista por uma então menina. Está no O Mundo Perfeito.
Abril 13th, 2005 — Descolonização, Portugal-África
Depois queixam-se que os EUA não aceitam o tribunal de Haia? Esse onde luís cabral deveria apodrecer os seus últimos anos. Com tal vazio em casa queixam-se os militantes da justiça por imbecilidade? Por ignorância? Por distracção? Ou é mesmo só desonestidade?
Abril 5th, 2005 — Descolonização
100 livros? Que dor.
"Regressados"
Agosto 28th, 2004 — Descolonização
Foi já por aqui, contactando alguma gente da minha geração por ora regressada a África, que passei boas conversas partilhando as suas recordações desses tempos de meninice, eles então feitos “retornados”. Epopeias familiares. Pouco contadas ainda.
[Se até hoje, quando antevemos o regresso, a ser planeado, desejado, estruturado, calmo, ficamos transidos, aterrorizados, com o que nos esperará, imagine-se o abismo que terá parecido o torna-viagem de então]
Um agradecimento pela memória ao vizinho Canto do Xirico, um blog espaçado que merece o olhar atento às suas actualizações.
Descolonização: ainda e ponto final parágrafo
Abril 30th, 2004 — Descolonização, Portugal-África
Leia e opte. Porque não há conciliação possível.
Opte, porque não há ponte possível. E saiba, que é em momentos como estes, até pequeninos, que sabemos, que provamos, que o universalismo é impossível.
Era uma vez um antropólogo conhecido que escreveu algo como (e vai de memória): “bárbaros são aqueles que acreditam na existência de bárbaros”.
Da descolonização
Abril 19th, 2004 — Descolonização
(Des)Colonização
Fevereiro 10th, 2004 — Descolonização, Portugal-África
Acredito que o teor desse texto esteja vinculado a dois factores: a um reflexo da polémica partidária que lhe é anterior; a um profundo desconhecimento do seu autor sobre o assunto que aborda. E, talvez, a um desejo de cutucar aqui e ali. O texto vale o que vale, as respostas que recebeu em casa própria servem para o ultrapassar. E, provavelmente, VLX terá curiosidade em se informar um pouco melhor sobre a matéria, agora que escreveu sobre ela, agora que se cumprem trinta anos sobre os processos de independência das colónias portuguesas.
A descolonização?
Fevereiro 6th, 2004 — Descolonização
Mas apesar do lema, não resisto a botar opinião sobre a descolonização:


