Entries Tagged 'Descolonização' ↓

Como se me acabaram as fontes bibliográficas sobre o assunto abaixo referido fica um ante-comentário, para quem ache que os pós-guerras são assim, por qualquer natureza humana. No final das guerras coloniais (versão portuguesa) / guerras de libertação (versões africanas) as tropas africanas arregimentadas pelo Estado português em Moçambique e em Angola não foram submetidas a este tratamento. Será ainda interessante lembrar que em Angola a guerra interna continuou e em Moçambique recomeçou muito rapidamente, factores que poderiam ter levado à eclosão de movimentos repressivos (por desconfiança estatal) face a esses ex-militares.

Parecem-me pois argumentos suficientes para arrumar com a hipotética versão culpabilizadora da tal (incógnita) “natureza humana”.

Rui Rodrigues (coord.) Os Últimos Guerreiros do Império. Amadora, Editora Erasmos, 1995

A guerra é uma coisa horrorosa, é uma bestialidade: as pessoas matam-se umas às outras. Mas, por vezes, faz-se. E a verdade é que há diferentes maneiras de a fazer. Pode-se fazer achando que, apesar de tudo, os combatentes inimigos são criaturas de Deus, como nós, ou podemos olhá-las como meros indivíduos a abater, como se fossem animais.”

(declarações de José Pedro Simões Caçorino Dias, Coronel, p. 111)

Para mim e para muitos camaradas meus, o mais revoltante foi o que se passou depois da independência da Guiné-Bissau. O mais revoltante era dizerem que éramos portugueses, quando afinal não éramos portugueses. Nós pensávamos que ficávamos portugueses, que pertencíamos à geração dos que pertencem a Portugal. Mas chegámos à conclusão de que não era assim. Não se podia imaginar que a tropa portuguesa ia mandar para a Guiné a lista dos que, lá, tinham pertencido à tropa portuguesa. Não sabemos quem é que mandou essa lista, mas sabemos que a mandaram, no tempo de Luís Cabral.

Eu estive preso cinco vezes, e na prisão mostravam essa lista, com o carimbo do quartel-general daqui e tudo, e com os nomes dos que tinham condecorações e louvores.

(…)

Não culpamos o governador Bettencourt Rodrigues, que, esse, foi preso depois do 25 de Abril. Culpamos, sobretudo, o governador português e também o último governador que esteve lá, Carlos Fabião. Foi ele que nos disse que tinha recebido uma carta de Portugal, do general Spínola, para nós deixarmos a tropa. Precisamente no dia 19 de Agosto de 1974. Mostrou a carta, mas ninguém leu.

(…)

No mês de Março de 1975 começaram as prisões. Foi um mês negro para os comandos. Eu fui preso. E fui torturado. Como muitos outros camaradas. Tenho testemunhas, e alguns estão cá em Portugal. Obrigaram-nos a carregar pneus gigantescos, pneus de Berliet, com jantes e tudo. Era uma das torturas, mas havia outras: como pendurar uma pessoa pelos pés, com cordas e dar-lhe chicotadas.

Dentro da prisão obrigavam as pessoas a andar despidas, só com as cuecas. Em Bula obrigaram muitos camaradas a andar com pneus de Berliet à cabeça, na rua. O comandante do PAIGC, na altura em que faziam isso, chamava-se Benjamim Correia. Mas o homem da segurança, o carrasco de todos esses camaradas, foi Fernando Quadé.

(…)

Houve camaradas que estiveram presos seis, sete ou oito anos. Alguns já tinham sido fuzilados, e os familiares continuavam a levar-lhes comida e cigarros. Às vezes, os guardas pediam cigarros, dos bons, para os presos: as famílias estranhavam, diziam que eles não fumavam. Diziam que tinham passado a fumar. Já estavam mortos.

Outros ficaram aleijados para sempre, por causa dos maus tratos. Uma vez fui passar férias à Guiné, e encontrei um soldado da minha companhia, que tinha sido muito valente, chamado Mumó Sissé. Quando me viu começou a chorar. Contou-me que passou seis meses numa cela onde não se podia pôr de pé nem estender as pernas. Quando de lá saíu tinha uma perna e uma mão paralíticas. E por lá anda.

(…)

Houve camaradas que foram presos no Senegal, na Gâmbia, e na Guiné-Conacry. Foram mandados para a Guiné como se fossem peixe, para serem fuzilados.

Tudo se passou no tempo de Luís Cabral. Podem dizer o que quiserem de Nino Vieira, mas todas essas perseguições acabaram depois do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980.” [meu negrito]

(declarações de João Seco Mamadu Mané, Fuzileiro Comando, pp. 166-168)

Não posso nem quero deixar de dizer uma palavra sobre o que foi, depois, o destino desses homens do Batalhão de Comandos Africanos. Em 1974 estive em Londres, com o Dr. Mário Soares, o Dr. Almeida Santos e com o Prof. Jorge Campinos, já falecido, a negociar com o PAIGC, representado por Pedro Pires (…)

As indicações que levava do general Spínola eram muito claras e eram as mesmas que tinha recebido, na Guiné, o major Carlos Fabião: aceitação pelo PAIGC de que ninguém tocava nos africanos, não só nos oficiais e sargentos do Batalhão de Comandos, como nos comandantes das milícias, que tinham cerca de 20 000 homens, com insígnias e uniformes próprios, e que tinham sido comandados pelo major Fabião.

Nas nossas conversas com o PAIGC ficou sempre assente que haveria uma integração desses pessoal: não iam, com certeza, continuar a ser oficiais e sargentos, isso percebia-se, mas seriam reabsorvidos como civis.

Não foi isso que o PAIGC fez. O PAIGC fuzilou barbaramente a maioria dos meus oficiais do Batalhão de Comandos Africanos. Creio que o primeiro a ser fuzilado foi o capitão Jamanca

(…)

Os meus oficiais foram assassinados pelo PAIGC, com conhecimento de Luís Cabral e de Nino Vieira. Não o posso provar, mas não tenho dúvidas nenhumas, pois tenho relatos de familiares, nomeadamente da mulher do tenente Zacarias Saiegh. Os meus sargentos foram também quase todos fuzilados; só nos soldados é que eles não tocaram.

(…)

Disse-se que daqui, de Lisboa, foi mandada para a Guiné uma lista dos comandos africanos, com postos, condecorações, louvores e tudo.

(…)

Num programa de televisão, em 1994, Luís Cabral foi fortemente pressionado pelo comandante Alpoim Calvão - e viu-se que ele ficou aflito. Como é que ele podia não saber? Então ele era presidente e não sabia?”

(declarações de João Almeida Bruno, General de Quatro Estrelas, pp. 76-78)

No princípio, os jovens eram apanhados como pássaros para irem para a tropa, às vezes eram amarrados para não fugirem e depois eles punham nos papéis que eram voluntários. Nos últimos anos da guerra os guineenses já iam para a tropa voluntariamente, porque o PAIGC matava mulheres e crianças nos povoados que não estavam com eles.”

(declarações de Marcelino da Mata, Tenente Coronel Graduado Comando, p. 183)

(José Freire Antunes, A Guerra de África. Lisboa, Círculo de Leitores, 1º volume 1995)

Quem desarmou os comandos foi o Carlos Fabião. A 15ª Companhia, em Mansoa, não aceitou o desarmamento. A maioria deles foram fuzilados.”

(declarações de Marcelino da Mata, p. 554)

Amigo leitor diz-me que achou excessivo este texto. Ora se até ele, que me conhece, dá um tom “reaccionário” a tal desabafo o que será com quem não me conhece? Breve sumário: uma coisa é tecer loas (anacrónicas e tontas) ao tonto e anacrónico regime colonial português, assente na mitologia do Império e do colonialismo afectuoso e “de cama” (que gente da esquerda socialista nada periférica ainda agita, sem pruridos); outra é papar sem azia a mitologia dos “heróicos capitães de Abril”, feitos Santos Condestáveis amais a Ala dos Namorados. A história faz-se de coisas sujas, não vejo que seja necessário esquecê-las. Mais que não seja porque são bom material fílmico. A ver se animam as comemorações que alguns acham desinteressantes.

Ou, por melhores razões, por auto-respeito.

(Como alguns leitores habituais afirmaram o seu desconhecimento do episódio seguem-se algumas citações, que presumo sirvam para vosso esclarecimento. Mais, vai isto sem apontar dedos a responsáveis, os quais desconheço e não imagino. Mas crente que este desconhecimento é um desconhecimento provocado. Um véu a esconder o nome de quem traíu os homens que arregimentou, socializou [”nacionalizou”], treinou, usou. E abandonou. E que para esconder tamanha infâmia albergou um mísero assassino, este sob o véu PAIGC.

Mais, vai também crente que o silêncio sobre tal situação tem outra implicação - a concepção censória, nada democrática, de que há fontes que não são fidedignas, apenas por razões ideológicas.)

No Blasfemias recorda-se aquele que para mim foi o mais desatinado episodio no final do regime colonial portugues em Africa, algo que ja recordei no Ma-schamba duas vezes: as tropas guineenses a seu tempo arregimentadas para as forcas armadas portuguesas foram massacradas apos a independencia, apesar de um acordo entre Estados para a sua salvaguarda. Diante do total silencio portugues de entao, como bem recorda agora a Helena Matos. Diante do total silencio portugues desde entao.

Uma vergonha, recrutar tropas e abandona-las a morte as maos de ditadores. Uma vergonha continuada, no silencio desde entao. Um silencio, vergonhoso, que e nitidamente filho do racismo, do desprezo por esses ex-convocados por isso mesmo assassinados. “Apenas soldados landins”, estou certo, sera o humus de tal silencio.

Mas maior vergonha ainda o asilo e benesses dados ao responsavel por esses massacres. O assassino Luis Cabral, beneficiando da mitologia cabraliana, beneficiando da mitologia dos putativos “interesses nacionais” portugueses na Guine-Bissau, beneficiando da mitologia racica (sendo mulato nao cabe no arquetipo do sanguinario e bocal ditador africano sempre agitado nas europas), o assassino Luis Cabral vive descansadamente, sem remorsos, sem vergonha, ha 27 anos no meu pais.

Aquela nossa direita, imperial envergonhada e vegetando na imbecilidade revanchista, esquece tamanha vizinhaca. Aquela nossa esquerda, sempre festiva na sua imbecilidade justiceira, esquece tamanha vizinhanca.

Sei agora que o o miseravel Luis Cabral entra em estertores. Nao me contenta, esta nos hospitais publicos portugueses, apos uma longa vida, prazenteira decerto. Nao passou os ultimos anos enjaulado e desprezado em Haia, como alguns servios ou quejandos, tambem dados aos etnocidios como este Cabral o foi.

Quando morrer tera uma campa. Nao lhe estara destinado a vala comum em que arrumou os seus concidadaos. Que lhe seja bem pesada a terra! Tao pesada como a vergonha do pais que o acolheu.

Das guerras coloniais portuguesas. No grão-bloguismo português um texto absolutamente acreditável: comunitarista (sobreergue uma comunidade nacional, indiscutida; um país de então que se idealiza, apolítico claro, de indiscutível); colonialista (o fim do colonialismo expresso como uma “rendição”, implícita a traição); ignorante (desprezando as formas de cooptação de tropas africanas para as forças armadas portuguesas, seja como produto de coerção estatal, seja como estratégias de ascensão individual [para quê olhar isso, se num pobre quadro de análise comunitarista? poder-se-á contrapor e não sem razão], seja como estratégias de conflitos colectivos internos às populações africanas). Nada disso, apenas o arvorar de um “ser português”, antes-quebrar-que-torcer, que nunca-se-rende. [Para quê uma análise de uma história (sociológica), se se escreve e pensa que as “humanidades” não são ciência, dir-se-á? Pois sim, se se afirma, cavalgando ideias alheias, que a história (económica) produz juízos de facto (científicos). A retórica do tudo-vale, consoante o caso].

Repito, um texto absolutamente acreditável. Corolário do pomposo doutoral, a embrulhar um mero reaccionarismo. Hoje colonial, amanhã outra coisa qualquer. Liberal?

Vale a pena resmungar? Nem tanto. Mas apenas notar, o tristemente, afinal também, acreditável. Se a tantos inúmeros dislates se sucedem dezenas ou centenas de comentários, coisa de grande blog, a um velho-fascismo destes acorrem uma dúzia de comentários, nem discordantes. Modos colectivos de olhar a história recente.

(Para quem se interesse: sobre as tropas africanas das forças armadas portuguesas, e o tratamento recebido, botei no princípio do blog).

No bloguismo cada vez mais me interessa o memorialismo [ícones, imagens, narrativas, o que seja …], extractos que transmitem, e que conversam, bem mais do que o constante presenteísmo opinativo. Exemplo maior disso encontro-o num blog que desconhecia: a narração, crua, até rude, da descolonização em Moçambique vista por uma então menina. Está no O Mundo Perfeito.

Aqui deixo uma espécie de delenda cartago est privado: os soldados guineenses do exército português foram massacrados após a independência, apesar de um acordo explícito entre Estados para a salvaguarda dessa tropa. O então presidente da república luís cabral (sem maísculas, claro está) vive em Portugal (com maíscula?) desde então. ino ieira (sem iniciais), então comandante supremo, viveu em Portugal (com maíscula?) estes anos. ieira ainda foi ostracizado mas luís (sem apelido) ainda recolhe tença.

Depois queixam-se que os EUA não aceitam o tribunal de Haia? Esse onde luís cabral deveria apodrecer os seus últimos anos. Com tal vazio em casa queixam-se os militantes da justiça por imbecilidade? Por ignorância? Por distracção? Ou é mesmo só desonestidade?

100 livros? Que dor.

"Regressados"

Em boa hora o Canto do Xirico recupera um artigo de 1995 de Fernando Dacosta sobre os “retornados”. Ao (não)discurso sobre o regresso de África sempre o achei como o grande silêncio de um país que muito se desenvolveu nesses anos subsequentes. Mudanças e desenvolvimento sempre (e bem) atribuídos à democracia e à integração europeia. Mas nos quais o peso da disseminação de quase milhão de pessoas com experiências e horizontes tão mais vastos decerto teve uma importância extraordinária.

Foi já por aqui, contactando alguma gente da minha geração por ora regressada a África, que passei boas conversas partilhando as suas recordações desses tempos de meninice, eles então feitos “retornados”. Epopeias familiares. Pouco contadas ainda.

[Se até hoje, quando antevemos o regresso, a ser planeado, desejado, estruturado, calmo, ficamos transidos, aterrorizados, com o que nos esperará, imagine-se o abismo que terá parecido o torna-viagem de então]

Fernando Dacosta, no artigo transcrito, refere uma tese de mestrado de então, da autoria de Ana Simões SottoMayor de Almeida, intitulada “O luto no retorno dos portugueses das ex-colónias africanas”. Terá passado a livro? Haverá literatura sobre este assunto? Pois a mim parece-me que, 30 anos depois, continua o silêncio do esquecimento.

Um agradecimento pela memória ao vizinho Canto do Xirico, um blog espaçado que merece o olhar atento às suas actualizações.

Descolonização: ainda e ponto final parágrafo

Nestes últimos meses em Portugal falou-se de descolonização. Também no bloguismo isso soou.
Cada vez menos acredito em sínteses. Cada vez mais acredito em complicações. Ainda mais em matérias como estas, onde tantas “certezas” existem. Ainda para mais em matérias como estas, que para muitos de nada valem a não ser como barro para moldar o presente.
Então, e face a tantas “certezas” e tão pouca importância do assunto, para quê continuar a falar, para quê procurar “complicar”, desvendar?
Não há dúvida, há que simplificar, abreviar. Mas como se de tão difícil síntese? Opte-se. Opte-se por uma versão.
aqui, e se quiser consulte ainda aqui. Depois passe por aqui.
É certo que não estão a falar dos mesmos factos, das mesmas épocas históricas. Nem do mesmo mundo, diria. E também que não escrevem na mesma língua.
Mas acredito que o leitor consiga fazer uma analogia e, ainda, seja minimamente poliglota.
Leia e opte. Porque não há conciliação possível.
Estou a falar de qué? Descolonização? Não, isso já era. Agora é coisa séria…estou mesmo a falar da minha ética. E de Razão.
Opte, porque não há ponte possível. E saiba, que é em momentos como estes, até pequeninos, que sabemos, que provamos, que o universalismo é impossível.
Pois “eles” (sejam lá quem forem) não nos (e nós quem somos?) querem compreender. E nós (idem) também não os (aspas) compreendemos.
Vale-me às vezes ser “nós” às vezes ser “eles”! Mas há limites: bem burgueses os meus, os da decência. E, neste caso como noutros, são “eles” apenas e radicalmente indecentes.
Nada mais, tudo isso. E cansam. Enjoam, até. Mas atenção, “estes eles” nunca se enjoam. Mascam…
Adenda: um posteiro veio à liça chamando-me eliptico, querendo chave. Então lá vai, qual antropólogo:
Era uma vez um antropólogo conhecido que escreveu algo como (e vai de memória): “bárbaros são aqueles que acreditam na existência de bárbaros”.
Eu sou um bárbaro. Desses.

Da descolonização

Em plenos 30 anos do 25 de Abril o regresso à descolonização é normal. Sobre isso já desabafei e até (semi)botei.
Na semana passada Almeida Santos falou sobre a matéria, anunciando ainda um livro. Será interessante ler a sua versão, enquanto participante activo. Também Mia Couto publicou um artigo sobre o assunto [obrigado ao leitor “Mossuril” pelo pronto envio].
Ambos os textos têm interesse ainda que não avancem novidades ou leituras originais. Principalmente por integrarem algo que deveria ser óbvio. O final do colonialismo foi provocado, e portanto a análise da sua história tem que integrar as práticas de quem contra ele combateu.
Em Portugal o discurso traumático continua. A procura de culpabilização de políticas ou de individualidades não passa de uma leitura autocentrada do processo de então. Autocentrada e orfã de Império. O entendimento do final do colonialismo tem que o encarar como fruto de uma luta local e dos apoios que recebeu. Aliás também o 25 de Abril o foi, dito e redito que está o facto dos militares se terem revoltado contra a situação profissional, pessoal e política que uma guerra anacrónica lhes tinha causado, bem como ao país.
Não se trata de apagar as múltiplas perspectivas que havia então em Portugal sobre a questão. Trata-se de não encerrar a leitura do processo nessas dinâmicas. De certa forma é uma questão de português: Portugal não “fez” a descolonização, “aconteceu-lhe” a descolonização. Tivesse esse facto histórico inultrapassável sido planeado e discutido alguns anos antes outra formulação (linguística, refiro) seria possível.
Ainda hoje se fala muito de “culpa” (até Almeida Santos recupera a palavra, sacudindo-a de si próprio) e até de “traição”. Sendo um bocado demagógico, reconheço, apetece perguntar:
- a grande vaga de povoamento colonial ocorreu nos anos 50 e 60. Após a independência das colónias europeias na Ásia, durante e após a independência das colónias europeias em África. Quem “traíu” os futuros “espoliados do Ultramar”, de quem é a “culpa” dos seus destinos? Quem os convenceu que era um projecto para a vida, quando era óbvio que não o podia ser? Ou quem, à direita ou à esquerda, pró-soviético, pró-rodesiano ou pró-no meio, muito pouco podia fazer num mundo que já há muito tinha mudado?
Extra: em vez dessa bafienta elaboração de “culpas” e “traições” tão mais interessante estudar aprofundada e extensivamente o efeito social dos retornados no Portugal de 70. Tanto se fala do impacto da democracia, e depois da CEE/UE. E tão pouco do abanão que essa mole humana vinda de outras práticas terá tido aí no rincão.

(Des)Colonização

A “polemicazita” sobre a descolonização deslocou-se para o mundo blog. No colectivo Mar Salgado gerou uma polémica interna, em reacção a um texto ali colocado por V. Lobo Xavier, no qual se defende liminarmente o colonialismo português.

Acredito que o teor desse texto esteja vinculado a dois factores: a um reflexo da polémica partidária que lhe é anterior; a um profundo desconhecimento do seu autor sobre o assunto que aborda. E, talvez, a um desejo de cutucar aqui e ali. O texto vale o que vale, as respostas que recebeu em casa própria servem para o ultrapassar. E, provavelmente, VLX terá curiosidade em se informar um pouco melhor sobre a matéria, agora que escreveu sobre ela, agora que se cumprem trinta anos sobre os processos de independência das colónias portuguesas.

Não é portanto sobre esse texto que venho escrever. Mas sim sobre um outro do mesmo Mar Salgado, de FNV. Uma posição crítica à do seu parceiro, lúcida. Mas onde ainda se retira “O Regime pode ter feito uma colonização menos brutal…”, um traço recorrente na leitura do colonialismo português, e quase sempre conjugada com algum luso-tropicalismo, ainda que básico (não neste caso). Ideia baseada em alguns lugares comuns, frágil, preconceituosa.
A leitura da história e a realização da historiografia são actos políticos. Por isso não me pode surpreender que as perspectivas políticas surjam tão arreigadas quando se fala de Portugal em África. Mas o império acabou há já trinta anos, e não há apenas trinta anos. Para quê continuar a falar do colonialismo entricheirados em aparentes campos político-partidários?
O regime colonial era de uma brutalidade terrível. Não apenas pela violência política mas fundamentalmente pela sobrevivência quase até ao seu final de mecanismos violentos de exploração do trabalho local . Sobrevivência que não está ligada a qualquer “maldade” nacional (o que é isso de “maldade”?) mas à própria estrutura económica portuguesa, incapaz de desenvolver mais rapidamente outras formas de incentivos à produtividade. Está isso narrado, contado, analisado (ainda que não em demasia). Basta ler, olhos abertos e despido de alguns preconceitos serôdios, anacrónicos.
Olhar para isso, saber isso, nada deveria ter a ver com as perspectivas políticas que se defendem para a sociedade de hoje. Saber o passado apenas. Saber mais sobre um Portugal ainda recente. E despirmo-nos dessa ganga de ignorância que de retemperadora nada tem.
Pois senão o coro de discursos sobre o regime colonial e sobre o seu evidente corolário, a descolonização, possibilitarão o reavivar de uma velha ideia tantas vezes apregoada: a de que a esquerda é mais “intelectual”, “sábia” do que a direita. Ideia tão preconceituosa, irreal e anacrónica como as acima lamentadas.
Finalmente, e um pouco marginal a isto. Surpreende-me que um partido do governo, que o seu chefe parlamentar, usem a descolonização e a crítica radical aos regimes subsequentes como arma de política interna. Penso que foi Telmo Correia que disse quase isto “O dr. Mário Soares provocou e teve resposta apropriada“. Isto é de uma ligeireza absoluta. Porque pode prejudicar as relações entre Estados - e portanto são atitudes desprovidas de Razão de Estado. Porque pode prejudicar os interesses portugueses e as comunidades aqui imigrantes. Se fossem discursos integrados numa opção governamental de ruptura ou esfriamento com estes regimes não seriam ligeiros e seriam até legítimos (ainda que passíveis de discussão). Mas não é esse o caso. Assim são atitudes de dirigentes políticos tornados apenas ruído nas relações. E portanto ligeiras. E ligeireza em política é incompetência.

A descolonização?

Questiúnculas em Lisboa sobre a descolonização [meros reflexos de outras coisas, parece-me].
Mas mantenho-me fiel ao lema, que há poucos apontamentos me obriguei a relembrar: não me irritar. Ainda assim surpreende-me que se possa discutir a (des)colonização sem se discutir a colonização - parece-me um erro de lógica.
Mas com tanto lugar-comum apregoado é nítido que falam de si próprios e não tanto das realidades que invocam. Para falar delas bem que podiam ler [nota pessoal: ao escrever isto ando décadas para trás, estou igualzinho ao meu pai]. E, já agora, mergulhar no Companhia de Moçambique, coisa tão séria, e nada utilizável para pressas tonitruantes. Depois sim, podiam vir botar os discursos que quisessem, talvez mais informados
Mas apesar do lema, não resisto a botar opinião sobre a descolonização:
e porque não tê-la feito uns dez ou quinze anos antes?
e, afinal, quem é que fez a descolonização? Não, não, não estou a perguntar se foi o sr. dr. a ou o sr. dr. b. É mais tipo se foi por aí ou por aqui que se fez.
[desabafo: que raio de país é o meu, entalado entre ultramontanos bolorentos e patrimonialistas fundamentalistas]