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Exposição “Vai Fazer Bom Preço”

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Vai Fazer Bom Preço” é a exposição que o fotógrafo português, cá residente, Pedro Sá da Bandeira está a apresentar no Instituto Camões (até 8 de Março). São 24 fotografias - cujas reproduções aqui são empobrecedoras - em estilo de retrato-pose mostrando 24 vendedores de rua - a maioria ambulantes, alguns nem tanto, que bem conheço o seu poiso certo. Estimulante exposição: por um lado a mostrar o modo inteligente, nada exótico ou exotizante, com que o fotógrafo se animou na cidade e com a gente nela, como a capta sem subterfúgios “poetizadores”; por um outro lado porque neste olhar cara-a-cara, apenas aparentemente despido, deixa um documento da paisagem humana (um olhar etnográfico, se se quiser) dos tempos que passam; finalmente, porque este mostrar os vendedores, nomeando-os (nome e local de trabalho) sem os empacotar (”artística” ou “poeticamente”), é um óbvio manifesto, um combate ao anonimato social de uma classe de trabalhadores que o são (anónimos) por excelência, ostracizados e estigmatizados - estigma auto-reproduzido, pouco atreitos a serem fotografados e mostrados pela exo-desvalorização individual que assumem como própria.

Uma bela iniciativa muito bem captada pelo Daniel da Costa que, no texto de apresentação, deixa: “Os seus olhos [do fotógrafo] são alérgicos às feridas. Em silêncio, tratou de eliminar da moldura uma boa parte dessa imagem e arregaçou as mangas de novo. Foi à procura do outro lado da história, um lado real, sem o cliché do costume, mas algo ausente dos nossos álbuns. (…) A objectiva entendeu assim dar a César o que é de César. Devolveu ao vendedor ambulante o segundo pé e a dignidade que lhe é roubada todos os dias um pouco.”

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A visitar por todos - em particular pelos que têm, seja por profissão seja por aspiração, a ideia de representar (até analiticamente) a gente que faz o real. A ver se despem um pouco o seu ver.

Acho que podia ter havido um maior arrojo no acto de expor - sem colocar em questão o central do projecto. Espero que isso venha a acontecer nas próximas apresentações desta exposição, que presumo virem a acontecer nas cidades a centro e norte do país.

Lendo Xingondo, anterior obra de Daniel da Costa.

(entrada colocada originalmente em Maio de 2004)

[Daniel da Costa, Xingondo, Ndjira, 2003, 82 pp (capa ilustração de Gemuce)]

Como abaixo se desvendou um modo de adquirir livros moçambicanos no estrangeiro permitir-me-ei alguns conselhos [e, qual coluna gastronómica, assumo o compromisso de apenas falar de livros que tenha comprado ao preço de venda ao público].

Já o referi, com foto não encenada de admiradora do autor. E ainda antes aqui botei: “Do delicioso “Xingondo”, belas crónicas de Daniel da Costa …o cronista que mais me encanta nesta terra, não um imortal, mas algumas das peças bem conseguidas e, mais do que tudo, com uma ironia suave por aqui tão única”.

Mas para além dessa suave, e aguda, análise do quotidiano profundo, há também um tom programático, que em nada agride exactamente pela suavidade da prosa e, mais do que tudo, pela elegância do autor. Xingondo mostra-nos o país como raras vezes o vemos, e pensa o país como raramente se pensa.

“Aprendam a dividir a Pátria em pequenas partes. Não vos aconselho a enveredarem por coisas demasiado grandes. Sabem que a vida é curta demais e não haverá tempo depois para medir os progressos. Dediquem-se por isso às vossas patriazinhas, ou seja, aos meus netos que não sei se terei a sorte de os conhecer a todos. Deêm-lhes educação e instrução. Com isso, eles hão-de conseguir trabalhar e gerir a herança deste povo” (Carta para os meus filhos, p. 43)

“…a origem do termo xingondo. Pelo que se sabe, os falantes do xi-xangana aplicavam o rótulo a pessoas que tinham um condão guerreiro…Regra geral eram pessoas de outras paragens, falantes de outras línguas, donos de outros hábitos…o termo é hoje usado num sentido depreciativo. Ser xingondo é quase sempre o sinónimo de rude, de boçal, de selvagem…É curioso que em quase todas as línguas há uma gaveta para arrumar o seu xingondo. Assim, somos todos xingondos em cultura diferente da nossa…

Mas há um pormenor. Existe um mecanismo para se deixar de ser xingondo … há sempre um mecanismo. É preciso passar-se por uma espécie de ritual de purificação.” (Xingondo, p. 80-81)

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Ontem encontrei Daniel da Costa, breve conversa na qual me avisou, naquele seu jeito calado e nada auto-promotor, que em Junho entregará um novo livro, coisa diferente. Foi uma boa notícia. Para quem não ainda não leu convém começar já por este conjunto de crónicas

Com um abraço ao Daniel da Costa.