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Um livro a ler

Chega-nos no Natal, oferta de como se compadres assim a fazerem-nos família. E os livros também são a sua origem. A Inês (que está farta de não ser explicitada no blog) logo o lê e ordena-me que avance, “gostei muito” algo que eu já percebera, que por ele fora trocado durante dois dias em Inhambane. E isto não sendo ela muito dada a enredos policiais - certo que o livro disso não é exemplo, deixando até dois assassinatos por desvendar, virei a descobrir. Enfim, tamanhas as recomendações que interrompo a pilha ali ao lado e avanço, afã também reforçado por leituras anteriores, livros e blogs do autor.

Para logo ser surpreendido com a insídia, tanta e tão infundamentada, até disfarçada, que me interroga sobre os limites que devemos colocar às liberdades literárias: “A que horas saiu da sala de jantar?” “Eu?” “Não. O administrador.” “Por volta das três, um pouco antes. Um jogo de futebol, havia um jogo de futebol ontem à noite, e ele queria saber o resultado. Por princípio perguntaria a um empregado, a alguém que andasse ali, mas ele é muito cioso quando se trata de futebol. É sportinguista”, explicou, pedindo: “Compreenda”. (31). Hesito, resmungo a estes implícitos, mas continuo: agora num “é preciso conhecer o inimigo”. Para depois, e logo, me deixar conquistar por completo. Sei que o autor é premiado e elogiado, daí que (já) lhe serão menos simpáticas comparações elogiosas mas mesmo assim não deixo de confessar: dei comigo a sentir-me como nos grandes Le Carré – ok, para meu gosto o “O Espião Perfeito” é uma obra-prima -, imersão minha até ao final. A seguir o protagonista, tão denso que até arrisca a ser dessas personagens-eucalipto, que tudo esbatem em volta. Mas não aqui, sorte dele pois narrado por alguém que se engana quando quer confessar “Sou um biógrafo sem sorte” (87), pois não o seria se o fosse. Sigo-o talvez por identificação, por bem saber (e querer) que “Um homem a caminho de velho tem de ter vida, mesmo se não é uma vida heróica, cheia de glórias e de benefícios para a carreira.” (55), assim dele companheiro.

Sigo este nosso polícia guardião que sempre nos é desagradável pois ”A burguesia gosta de segurança, da tranquilidade dos seus bairros – mas detesta falar do assunto …” (88), sigo-o no seu método absolutamente científico, um Holmes das ciências de hoje, “… não escrevia ou raramente escrevia as suas notas. No seu gabinete, limitava-se a encostar-se na cadeira … e a semicerrar os olhos na direcção da janela, como se olhasse realmente o fio de telhados desalinhados. O resto era imaginação, uma espécie de exercício a que se entregava para não ter de preencher impressos ou elaborar relatórios ...” (88). Sigo-o a desembrulhar tramas vindas do passado que é presente, mesmo que o queiramos esquecer, negar, um homem como tantos outros pois de um “Pobre país que se interessa pelo seu passado, e vive pendurado numa parede como um quadro velho e impopular que as visitas têm de ver. Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Macau, pobre memória, pobre país que vive suspenso da aprovação dos outros, com medo de ter falhado onde falhou. O império, o coração do império. ( … ) tu próprio queres regressar à Guiné, onde a morte esteve próxima de ti, adormecendo no teu ombro, muito amiguinha, onde a vida estava suspensa de um fio, onde havia o cheiro que não esqueces. Fugiste da Guiné e olha o que te acontece: (…) cada inquérito persegue-te com o cheiro de África e os que dizem “ah, o cheiro de África”, mas nunca estiveram diante dos teus cheiros de África – o da merda, o da pobreza, o do lixo, o das coisas apodrecendo ao ar livre nos subúrbios, o dos mortos acumulados no mato, esquecidos, rendidos. Merda para África ...” (119-120).

Deixa-nos uma história africana que portuguesa é. Uma dessas que “a burguesia [que] gosta de segurança (…) detesta falar do assunto”. Deixa-nos o “homem a caminho de velho” assim foco (grão-exemplo?): “Em certas alturas só podemos imaginar, é o que nos resta. Esta é uma história de portugueses que nunca completaram a sua vida, que deixaram episódios por contar e que são portugueses de um império desaparecido. Nós somos os que vêm a seguir, para contar a história completa, mesmo que não seja a verdadeira.” (228).

Não há livros obrigatórios, nem imperdíveis. Isso são hipérboles mentirosas. Mas há livros bons. E este é um livro muito bom. Mais do que o recomendo.

 

[Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, Porto Editora, 2009]

jpt [que em nome da família agradece ao PSB e à CA a oferta do livro]

O Centenário da República e Nossa Senhora de Fátima

[Vasco Pulido Valente, A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]

Foi o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes Histórias de Portugal actuais (a de José Mattoso e a de João Medina) estão na longínqua Lisboa, fui reler o livro, a ver se me situo na efeméride. Mas nem tanto. Ainda assim entre algumas coisas retiro duas ideias, sendo a primeira a referência à lenda de Nossa Senhora de Fátima, a qual aqui transcrevo para alegria dos mais crentes, principalmente para os que já se afadigam na expectativa da próximas visita de Sua Santidade a Portugal, decerto que inscrita – de forma muito particular – nas comemorações do centenário da instauração da República. É uma longa citação mas vale a pena:

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (pp. 115-117)

E há uma segunda característica deste livro que fala comigo. Isto décadas depois de ter aprendido isso da “objectividade” e “subjectividade” no discurso das ciências sociais, suas fronteiras e namoros. É que o tom de Vasco Pulido Valente é – constantemente, e à excepção deste curto “… gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa horrorizava.” (p. 25) decerto inconsciente avatar de um certo “bom povo português” – de um enorme desprezo pelos agentes da história. Populares ou graúdos, políticos e anónimos, monárquicos ou republicanos de qualquer tendência, turba ou cáfila, é tudo gente “patética”, “miserável”, incompetente. São páginas e páginas de uma enorme superioridade do narrador, de uma enorme moralização (des-valorização) sobre o que (quem) fala. Ora aprendemos nós a desconfiar dos “engajados”, dos “exotizados” (então tontos antropólogos apaixonados pelos seus nativos – dantes – ou pelas suas minorias exploradas/discriminadas – hoje - é um festival constante) para cair na esparrela inversa? Ou seja, na mesma? Bah…! Vai o livro directamente para a fila de trás da estante – apesar da história da freguesia de Fátima.

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Clint – o homem da luz


[Blood Work]

Agora que espero Invictus, de Clint Eastwood a angústia assalta-me. Coisa da idade, a descrença. Essa que me leva a duvidar (a desesperar?) de que ali cumprirei as minhas expectativas. Pois não poderiam elas ser mais altas. Como?, se se trata do modelo de realizador (o homem que sempre alumia), do melhor dos políticos (e dos homens?), do maior dos jogos?

Por isso vou acalmando a expectativa na companhia deste magnífico livro, que mão muito amiga me trouxe há algum tempo e que vivamente recomendo:

[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem com Passado, Lisboa, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]

Nele uma bela entrevista a Clint Eastwood (realizada por Nicolas Saada e Serge Toubiana), um conjunto de suas declarações sobre vários dos seus filmes (seleccionadas pela organizadora do livro), uma excelente “cinebiografia” do mestre também da autoria de M.J. Madeira (“O Contador de Histórias”), a sua cinematografia. E múltiplas fotografias. E ainda sete outros textos – os quais ainda não terminei – dedicados a Eastwood, e que chegam com a autoria de Manuel Cintra Ferreira, Fabien Gaffez, João Bonifácio, Vasco Câmara, Kent Jones, Luis Miguel Oliveira, Joana Ascensão (neste último caso um belíssimo texto em fotogramas) . Edição da Cinemateca, quem não tem o livro (nem as minhas maravilhosas amigas ofertadoras) faça o favor de ir lá comprar.

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A acompanhadora

[Nina Berbérova, A Acompanhadora, Ambar, 2003, tradução de António Pescada]

Sónetchka é a jovem pianista acompanhante da bem sucedida cantora Maria Nikoláevna Trávina. Feia, sem brilho, sem particular talento, esta filha ilegítima de uma modesta professora de piano parte com a sua protectora (a cantora) para Moscovo no tempo da revolução comunista. E  daí para Paris, o exílio russo dos anos 20. Sempre presente o constante ciúme, nem sequer racionalizado, da pianista pela Trávina, à qual deve o desafogo. Um ciúme cego, manso, que a levará a tramar a perdição da sua protectora, ainda que tal não ocorra – nem para tal tem talento.  A Trávina partirá, no seu sucesso musical e amoroso. Deixando-a para trás, e sem a ter realmente entendido, ela que é personagem vazia até da sua própria auto-compreensão. Do livro fica-me um eco da pobreza mental real, do vazio existente. De que nem nos apercebemos – o dos outros, o nosso próprio.

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Os relógios de cuco de Orson Welles

O outro dia a bater teclas para aqui de repente lembrei-me dos relógios de cuco de “O Terceiro Homem” (Carol Reed, 1949). Um maravilhoso soco contra o “politicamente correcto” (avant la lettre) saído da boca e da mente de Orson Welles, pois a tirada não estava no argumento original do filme protagonizado por Joseph Cotten mas que Welles abrilhantou. As maravilhas do youtube trazem-nos a casa:

Para quem não se lembre (ou nunca o tenha visto) o filme provém de uma história escrita por Graham Greene, a qual ascendeu a livro: O Terceiro Homem (aqui a edição portuguesa, Europa-América, 1977, tradução de Ana Maria Sampaio). E tendo-me lembrado da história lá fui mais uma vez reler o livro.

 

Já o sabia mas é sempre bom recordar isso. Este é um bom exemplo a utilizar contra os literatos furiosos que dizem ser um livro sempre melhor do que o filme que origina. Neste caso – como em tantos outros, onde nem atentamos no livro original, ali escondido no genérico – um pequeno livro originou um grande filme (é certo que com a ressalva que o texto foi escrito em função do filme): nele não está a espantosa Viena negra pós-guerra do filme nem tampouco a personagem do vilão tem a densidade e a verve, a crueza, que no filme adquiriu e a este deu fama.

Ainda assim é Greene, a culpa e a redenção como hipótese. E a falsa moralidade, um pouco. O protagonista Rollo Martins é um modesto escritor de policiais (um pouco um alter ego desvalorizado de Greene) que chega à Viena do pós-guerra, chamado por Lime o seu idolatrado amigo de juventude (Welles no filme). Para descobrir não só que este é um criminoso como apenas o quer usar, usando-se do apelo a uma afinal falsa amizade. Assim Rollo, e em nome de uma causa justa (Lime trafica medicamentos escassos), acaba por o matar. No fundo levado pela descoberta de não ser amado (amizado, seria melhor dito, mas não há em português). Onde está a culpa? A imoralidade? Com toda a certeza que em Rollo, inocente-sem-o-ser, aparente braço da justiça. E está tudo no princípio do livro, encapotado num ”Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós” (23). Depois é uma história sobre o despeito, o ciúme entre homens.

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Um embuste perfeito, de Italo Svevo

[Italo Svevo, Um Embuste Perfeito, Quasi, 2008, tradução de Vasco Gato]

Mario Samigli é um literato triestino de sessenta anos. Publicou na juventude um romance, esquecível e esquecido. Desde então dedica-se à escrita de fábulas anódinas, e a uma vida casta, vazia e rotineira, habitando na companhia de seu irmão mais velho, Giulio, única audiência das suas construções literárias. Tudo isso nada lhe pesa, convicto que está da sua futura celebridade, da grandeza da sua obra: espera, calmamente, o seu reconhecimento, e disso retira uma quase-muda sensação de superioridade face aos demais e uma satisfação generalizada face à vida. Um dia, em pleno final da I Guerra Mundial (aquando da tomada de Trieste aos alemães-austríacos), um seu conhecido, Gaia um caixeiro-viajante popularucho, e que também tivera os seus devaneios poéticos na juventude, lança-lhe um embuste: uma celebrada editora internacional anunciara-lhe o propósito de editar o romance de Semigli. Pouco depois o pobre escritor descobre que tudo não passa de um embuste, ridicularizando-o.

Mas Svevo é aqui pacato, trata com desvelo as suas personagens, poupa-lhes sofrimentos extremados  e desilusões radicais. Semigli continuará o seu percurso literário, aceitando a condição doméstica da sua literatura, as pobres fábulas partilhadas como registo de amor com seu irmão.

No final, de imediato resmungo com a docilidade do livro, sem o abismo que prometia esta trama sobre a crença no sucesso, sua absorção, sobre a realidade da constante desilusão humana. Mas depois solidarizo-me, eu afinal Semigli. Pois não teria Svevo, se escrevesse hoje, feito do protagonista um mero bloguista?

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Livros de férias

Nunca percebi o hábito corrente (e muito vísivel) de transportar livros grandes (muitas vezes intitulados best-sellers) para serem lidos nas férias. Sempre me pareceu que a ventania arenosa, as cíclicas idas a banhos, as caminhadas desentorpecedoras, as cervejas muitas, as besuntadelas de creme protector, o apelo das crianças e os dos vendedores ambulantes, o “esplanadismo”, uma-que-outra beleza que passa, enfim um não sei quantas coisas que vão acontecendo nesses feriados, essa estafa de estar em férias, implicam que o pobre leitor vai perdendo o fio à meada literária (presumindo que esta existe), confundindo personagens, esquecendo tramas, trocando episódios, derivando pensamentos, tudo aquilo que presumo se vá acumulando nas centenas de páginas quando agregadas em monovolume. E já nem falo do peso do livro, a transportar no seio de toda a tralha inútil que acompanha o veraneante.

Em assim sendo para mim as férias são o momento de ler pequenos textos, o sempre temido livro de poesia, os mais que amados contos curtos, até a novela, as crónicas. Coisas de andar na mão, até no bolso, próprio ou no da mochila, de se ler aos bocados com vagares. E até, ao sol ou às estrelas, de ficar a ruminar algo que se acabou de acabar, fruir. Sem ficar para o dia seguinte …

Vem tudo isto a propósito da recente ida a Inhambane, mais exactamente à praia de Barra. Onde encetei o saco por este Tolstoi (A Morte de Ivan Ilitch, Quasi, 2008, tradução de Adolfo Casais Monteiro).

Para quem não leu resumo que o entretanto falecido Ivan Ilitch é um homem de qualidade, juiz competente, cumpridor de obrigações profissionais e sociais. Certo é que o seu mimetismo mundano afirma o seu desejo de aceitação e, até, de ascensão social. E nesses passos, distraidamente, acaba por esvaziar a sua vida afectiva e espiritual, por não se cumprir como pessoa. Ainda assim caminha sereno pela vida, recompensando-se em pequenos prazeres e rotina laboral.  Subitamente, aos ainda jovens 45 anos, cai doente (“um rim flutuante”, dir-lhe-ão os médicos) e morre, após breves três meses de terrível agonia (muito realisticamente descrita).

Da trama retiro esse retrato da morte lenta, rara na literatura, principalmente a dos tempos de uma outra medicina. Mas também encontro o velho Tolstoi moralista: pois se Ilitch começa por recusar a morte, a sua pertinência ou justiça, logo os pavores da agonia o fazem entender que desperdiçou a vida devido ao seu apego pelas convenções, a um conservadorismo materialista e hipócrita, no fundo a um desleixo espiritual (simbolizado no episódio da representação de Sarah Bernhardt, a que a família assiste deixando-o só no leito da morte). Neste caminho é o Tolstoi da renúncia que se afirma, mas também o da valorização naturalista (e como tal desvalorizadora) dos camponeses: a única personagem piedosa (solidária, diríamos hoje) é o criado Guerassime, que diante do sofrimento e da morte ostenta uma naturalidade até irreflectida, e por isso verdadeiramente humana. Só nesse camponês – e, já no final, no filho criança Ilitch - o autor reconhece humanidade e amor, ainda não esmagados pelas convenções, pela civilização.

Sorrio no fim diante deste moralismo extremo, adversário da sociedade, elogiando a natureza campónia, assim explicitamente associada à infância. Mas depois não deixo de, incomodado até, me perguntar: “mas que raio faço eu, exactamente aos 45 anos, a ler tamanho drama nas praias de Inhambane“?

Tragam-me um best-seller!”, terei exclamado.

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Correctices, segundo Orwell

A propósito da efeméride (o escritor morreu a 21 de Janeiro de 1950) aproveito para lembrar este conjunto de ensaios de George Orwell, “Inside the Whale and Other Essays” (Penguin Books, 1962 [1957]), escritos nos anos 30-40 de XX. Tem textos deliciosos, entre outros “Inside the Whale” onde mergulha nas três primeiras décadas de XX da literatura anglófona, centrado no “Trópico de Câncer” de Miller  – o qual não só qualifica de excelente mas, acima de tudo, como exemplar da atitude da época, um “Jonismo”, um deixar-se refugiar para o interior da baleia (ainda que Jonas tivesse sido engolido por um peixe, lembra Orwell), submergindo-se na /submetendo-se à realidade. Uma baleia transparente no caso de Miller, explicita ainda, frisando que a “obscenidade” do autor não conta, nem positiva nem negativamente, para a avaliação do seu trabalho. E lembro um fantástico texto ”Boys’ Weeklies“, uma belíssima análise da literatura juvenil, bem precursora de trabalhos similares.

Mas foram as recentes polémicas aqui que me lembraram o livro, em particular o pequeno “Shooting an Elephant“, a narrativa de um episódio da estadia do autor como polícia na Birmânia britânica, e da sua radical recusa do mundo colonial, vivida em ambivalência pessoal. Um discurso muito distante dos panfletarismos de causas que tantas décadas depois (o texto é de 1936!) continuam a ser entoados, sem bons e maus, apenas mostrando as duplicidades de sentimentos e práticas em que os indivíduos históricos navegam, e os preconceitos tantas vezes absurdos que os constroem e dinamizam.

E de um outro texto do livro deixo um trecho completamente actual, demonstrando as gentes que nos continuam quotidianamente a entrar “em casa”, com grande afã:

The distinction that really matters is not between violence and non-violence, but between having and not having the appetite for power. There are people who are convinced of the wickedness both of armies and of police forces, but who are nevertheless much more intolerant and inquisitorial in outlook than the normal person who believes that it is necessary to use violence in certain circumstances. They will not say to somebody else, “Do this, that and the other or you will go to prison“, but they will, if they can, get inside his brain and dictate his thoughts for him in the minutest particulars. Creeds like pacifism and anarchism, which seem on the surface to imply a complete renunciation of power, rather encourage this habit of mind. For if you have embraced a creed which appears to be free from the ordinary dirtiness of politics – a creed from which you yourself cannot expect to draw any material advantage – surely that proves that you are in the right? And the more you are in the right, the more natural that everyone else should be bullied into thinking likewise.” (“Lear, Tolstoy and the Fool“, p. 118)

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Os cinquenta anos de Astérix

A comemoração dos cinquenta anos de Astérix e Obélix ["O Aniversário de Astérix e Obélix. Álbum de Ouro"] é mais uma triste vez a confirmação do seu estado de orfandade. Apesar da já provecta idade. Uderzo convoca os resistentes asterixianos que insistem em ler o que vai saindo, uma paixão serôdia que mal vai resistindo às constantes desilusões, já velhas de décadas. E, dizem os serviços de vendas (aka marketing e jornais), vai incrementando as vendas a números nunca alcançados pelos verdadeiros “àlbuns de ouro” (os escritos por Goscinny e, justiça seja feita, alguns dos primeiros que fez a solo), o que deixa adivinhar gentes que chegam a este “asterix” sem nunca terem lido o Astérix.

Desta vez o autor vai ao baú e dele retira várias personagens dos álbuns anteriores, chamadas para ilustrarem a festa de aniversário, uma piscadela de olho aos fiéis. Elas por ali passam, mais ou menos paisagem. De resto nada se passa, pormenores desgarrados, sem qualquer consistência (mesmo um velho texto de 1966 de Goscinny sobre as “férias gaulesas”, uma glosa aos Guias Michelin, é algo menor e aqui surge metido à força). E um conjunto de pastiches, de quadros célebres e situações, apenas para encher vinhetas, sem mesmo humor. Tudo paupérrimo, ao nível dos últimos álbuns ou ainda pior.

É uma tristeza, Uderzo não tem respeito nem por Goscinny nem por ele próprio, nem pelos seus leitores. Pior do que tudo, não tem qualquer respeito pelos indefectíveis gauleses. É pior do que um romano, nem sequer teme a poção mágica.

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Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

Fotografias de vida

Sergio Niassa

[Sérgio Santimano, Macalange, Niassa oriental, 2001]

Todos teremos imagens de vida. E nessas, talvez, fotografias de vida. Esta é uma das fotografias da minha vida. Ao revê-la exposta, agora na Bienal TDM 2009, logo a paixão disse “presente”. É paixão, não tem qualquer argumentação que a ancore. “Bigger than life” dizia-se do cinema quando ele o era, “Deeper than life” direi eu desta “(Mulher de) Macalange” encontrada no seu quotidiano percurso ao celeiro pelo Sérgio Santimano.

A fotografia moçambicana produziu alguns símbolos – e nesse sentido produziu a nação, construíu a identidade por via simbólica. Para cada era haverá um ou outro ícone particular: “os lavabos” e o “ferro em brasa” de Ricardo Rangel, o “banho dos soldados” de Kok Nam (que abaixo deixo), são fotos que considero particularmente relevantes. E se Rangel foi um grande reporter-narrador de Moçambique já a Kok Nam vejo-o, fundamentalmente, como um pintor de ícones – algo que obrigará à recolha da sua obra em livro, o que tarda -, bem adequado à época do seu apogeu fotógrafo, a do voluntarismo pós-independência.

Kok Banho
[Kok Nam, "Sem título, Rio Révue, Manica, 1981". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Ricardo Ferro em Brasa
[Ricardo Rangel, (rapaz marcado com ferro). Reproduzida em Ricardo Rangel Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004]

Ricardo Lavabos
[Ricardo Rangel, "Casas de Banho. Onde só o negro podia ser criado e só o branco era um homem, Lourenço Marques, 1957". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Mas para mim, indivíduo aqui imigrado, há 3 fotografias moçambicanas que me são cruciais, que me construíram a auto-imagem, meio auto-reconhecimento, meio auto-embelezamento: uma “Aldeia Comunal” de Kok Nam (que vi na sua exposição individual da Photofesta, e que nunca consegui recuperar), a crucial Apetecido Quintal de Caniço (reproduzida abaixo) de Rangel, e esta “Macalange“. Um trio que faz o “meu” Moçambique. Ou melhor, me faz em Moçambique.

Ricardo Apetecido Quintal de Caniço
[Ricardo Rangel, "Apetecido Quintal de Caniço". Reproduzida em Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite, Marimbique, 2004]

A (Mulher de)”Macalange” de Sérgio Santimano pertence a uma exposição individual dedicada à província do Niassa, que tem sido apresentada de forma itinerante. E está reproduzida – é apenas assim que a possuo – no livro “Terra Incógnita“, publicado na Suécia em 2006, contendo fotografias de Sérgio Santimano e textos de Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Bosse Hammarstrom, Henning Mankell

 Sergio Niassa Capa

É fruto de um longo trabalho de pesquisa, repetidas viagens à província. Um projecto possibilitado pelo apoio da “cooperação” sueca, penso que inscrito num esforço de testemunhar o papel desenvolvimentista que esta teve (e penso ainda ter) na província - o que marcará o livro, que tem como ponto fraco algum excesso de imagens (algumas pobres páginas com oito fotos cada), talvez no intuito de mostrar trabalho. Do patrocinador, do fotógrafo.

Mas esse é ponto fraco. De resto o livro é bem apetecível. Pois se “Fotografar é assumir uma responsabilidade. As imagens que ficam para trás são rastos importantes para o futuro.” (Mankell) o que Santimano deixa, responsavelmente, não é apenas um conjunto de postais sobre a beleza natural do Niassa (ainda que aqui e ali ela surja, avassaladora). É o mundo humano, feito do camponês, como o espantoso “homem emergindo do rio, que não é Narciso” (Patraquim?). Mas também, e nisso rompendo com  o constante e atávico olhar exoticizador dos fotógrafos em bolandas, com um mergulho no trabalho industrial do Niassa, de trazer a sua densidade, beleza. Essa a ”responsabilidade” do Sérgio Santimano, a de afastar sem hesitação a folclorização. Do Niassa, do mundo. E, só assim, de o representar.

Também por isso, talvez por isso, toda a minha paixão por esta (Mulher de)”Macalange“.

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O Akhenaton de Naguib Mahfouz

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[Naguib Mahfouz, Akhenaton, o Rei Herege, O Quinto Século, 2007]

 

O meu primeiro livro de Mahfouz e logo sobre esta intrigante e apaixonante personagem histórica, Akhenaton o faraó monoteísta. Uma completa desilusão. A estratégia narrativa é simplista (uma colecção de entrevistas aos participantes na odisseia de Akhenaton, para daí traçar o seu perfil psicológico). E um enorme rosário de anacronismos: o protagonista, o jovem Miriamon, é o arquétipo do “intelectual”, desinteressadamente apaixonado em busca da verdade, essa que paira acima dos homens ou melhor, deles é modal. Os participantes, quase todos enredados numa abordagem psicologista ao anterior faraó (como é possível?), assim explicitamente afirmando que da psicologia individual teria brotado a nova religião. Alguns deles, pró-Amon e pró-Aton, com uma perspicácia sociológica sobre a ligação entre a religião estatal e o controle político da população – o culto politeísta, sob o reino de Amon, visto como forma de controlar a população e de aquisição e controle de bens pela “classe” sacerdotal.. E mais do que tudo, Akhenaton como origem do dualismo, raiz da filosofia ocidental: fala Akhenaton “Tu dás mais importância ao corpo, como se ele fosse tudo, enquanto a verdadeira força está no espírito, pois ele é eterno. Quanto ao corpo, ele é uma estrutura fraca, suja e imoral, que se desmorona com uma simples picada de insecto” (p. 106), um registo que não me parece derivar de um qualquer “afrocentrismo” mas sim das prisões do autor no conceber a espiritualidade, a religião e, em particular, o edifício monoteísta.

Enfim, se é para aludir aos dias de hoje em regime de manifesto, é uma grosseira caricatura. Se é uma tentativa de reconstrução, analítica, é pobre. Muito pobre. Como ficção inexiste.

Edição [muito feia] de O Quinto Selo, com tradução de Adel A. Jabbar Mohammed Daroga.

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Chico Buarque, Leite Derramado

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[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]

Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.

O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.

Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].

Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.

Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?

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Récits d’un Jeune Médecin, de Mikhail Bulgakov

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“Récits d’un jeune médecin” inclui sete contos, seguidos de “Morphine” e ainda “Les Aventures Singulières d’un Docteur”. O conjunto pode ser lido como linha biográfica do dr. Bomgard, a personagem central, um registo auto-biográfico do início da carreira de Bulgakov, antes médico de província e depois integrando num exército russo branco no Cáucaso . Os sete contos iniciais narram a experiência de um jovem médico recém-formado e enviado para uma longínqua e paupérrima zona. O crucial é a apologia do saber experimental, de como a teoria aprendida (e o estudo constante) apenas corporiza no trabalho de campo (ali insano). É a apologia da modernidade, diante de todas as maleitas o médico apenas intenta curar, combater a ignorância popular feita destemor. É um tempo que não inclui qualquer relativismo, nenhuma sedução pelos saberes locais, a serem combatidos, nem pelas gentes cuja ignorância lhe repugna. “Morphine” é um texto lindissimo, cruzando o vício com a solidão, um desespero que será melhor prosa de Bulgakov.

Tudo se passa de 1917 em diante e é interessante ler estas histórias do ideal modernizador cruzadas com o eco muito distante e até insignificante da revolução de então – explícita a distância face à revolução em “Morphine”, onde as preocupações pessoais emudecem os tais dias que noutros “mudaram o mundo” -, uma separação nada inocente. O enigmático final de “Les Aventures …” deixando o distante médico possivelmente como desertor, refugiado na Argentina, é significativo do afastamento do autor ao tom de então.

Não sei se está traduzido em português (a net por vezes é um labirinto, e os títulos das traduções muito pouco fiáveis). Mas é livro que mais do que justifica uma edição.

Pandora e Prometeu

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[Jean-Pierre Vernant, Pandora, la Première Femme, Bayard, 2006]

Um pequeno livro que é uma delícia, reproduzindo o texto de uma conferência proferida em 2005. Como será óbvio trata-se da interpretação do texto cosmogónico de Hesíodo. De como o colaboracionismo do pequeno deus Prometeu permitiu aos homens aceder a um mínimo de conforto por via do acesso à carne, ao vegetal cultivado e ao fogo. E de como a represália maliciosa consistiu nessa oferenda dessa cadela deslumbrante, ladra carismática, devoradora insaciável: Pandora. Portadora que foi de todas as desgraças, de todo o mal, mas também da ideia de futuro – da crença e da esperança -, ou seja de humanidade.

Mas isto é sabido, e nem justificaria o post. Este vem do eco da má-disposição do leitor. Estou eu deliciado com a leitura e de súbito irrito-me com a política do autor (mas quem sou eu para criticar o Vernant?). Pois diz ele, fiel à ideia do Prometeu revolucionário, que este é como um “soixante-huitard”. Ora nada! Titã aliado de Cronos, do partido apeado do poder anárquico (do poder de ditar a e viver em anarquia), Prometeu procura intervir na nova legislação, matizar a tendência oligárquica no Olimpo, filantropicamente redistribuindo os bens para conforto dos pobres desapossados. Quanto muito, e até exagerando, Prometeu é um social-democrata. Nada vermelho. E nisso peca Vernant.

Novela Teatral, de Mikhail Bulgakov

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[Mikhail Bulgakov, Novela Teatral, Madrid, Alianza Editorial, 1967, tradução de José Laín]

Releio estas desventuras de Bulgakov, aqui feito este Serguei Leontievich Maxudov, em tentativas de fazer representar a sua primeira peça “Neve Negra”. E nisso a bater no muro, intransponível, de uma gerontocracia (artístico-teatral, no caso) na qual o conservadorismo é questão da sua sobrevivência, manutenção de estatuto, nem mesmo lhe vem de coisas estéticas. Que nem todas as opressões são Estaline, suspira a azeda novela, de canelada em canelada nas proas académicas de então – Stanislavski, Ostrovski -, às teorias sacralizadas. E às hierarquias meritocráticas por elas estabelecidas: “… Ivan Vasílievich – que llevaba cinquenta y cinco años de director artístico – había inventado una teoría famosa, y que todos consideraban genial, acerca de cómo el actor deve preparar su papel. Ni um solo momento he dudado de que la teoría era realmente genial, pero su aplicación práctica me sumía en la desesperación.” (202)

Nisto, claro, surgirá, mesmo que em mera passagem, o Gato de Bulgakov, o magistral Gato Heurístico: “El gato es un estúpido – replicó Bombardov … – padece miocarditis y neurastenia. Se pasa el día entero echado en la cama, no ve a nadie y, lógicamente, se assustó.” “!El gato es uns neurasténico, conforme! – grité – Pero tiene buen olfato y comprendió perfectamente la escena. !Se dio cuenta de que era falsa! ? Comprende? ! Repugnantemente falsa!” (170).

Vale sempre a pena o Gato do Bulgakov.

Alfredo Margarido, As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos

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[Alfredo Margarido, As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos, Elo, 1995]

 

Estudo sobre as descobertas no domínio da flora durante a expansão renascentista portuguesa e das formas como esta foi integrada no quadro intelectual da época. Aborda ainda, de modo mais sumário, as transferências intercontinentais de plantas induzidas pelos portugueses. O autor situa nessa época o surgimento da Ecologia-Mundo, dínamo da Economia-Mundo (utilizando o conceito de Wallerstein). Recusa a visão da expansão como economicamente monopolizada na busca de especiarias. Pois a a esta encontra-a articulada com a “culturalização” da natureza pela introdução das plantas mediterrânicas com tradução religiosa cristã (uva e trigo) mas fundamentalmente com a adopção de culturas comerciais, objectivo logo inicial, como prova a introdução da cana-de-açúcar na Madeira.

O processo seguinte será de trânsito intercontinental de plantas, alterando a paisagem natural (e simbólica), em busca de resultados económicos. É este processo, global, que aponta como marcador do advento da Modernidade. E que vê cruzado, nos seus sucessos e insucessos, pelas resistências diferenciadas das populações às adopções alimentares, derivadas do etnocentrismo alimentar.

Analisa ainda os processos como os cronistas e especialistas portugueses de XV e XVI narraram a descoberta da nova flora, inicialmente tentando reduzir a novidade ao quadro intelectual existente, em particular através das analogias escritas, posteriormente com o ilustrador Christoual Acosta (meados de XVI) tentando explorar as divergências encontradas face à flora conhecida – ou seja, o autor valoriza a tecnologia de comunicação enquanto factor de produção intelectual. Lembra ainda como com autores como Duarte Barbosa e Garcia da Orta se rompe, pela primazia do conhecimento empírico e experimental, com a autoridade dos textos da antiguidade, em particular com a influência de Plínio, esse generalizado processo do Renascimento.

Defeitos: sendo o livro profusamente ilustrado com gravuras da ópoca sobre plantas estas não estão identificadas. Regista-se ainda que sobre muitas das plantas que são referidas como integradas no processo de transferência intercontinental são-no em breves textos, quase “fichas” de referência, sem particular detalhe sobre seus efectivos percursos históricos. Dando assim um ar inacabado ao trabalho.

Katherine Mansfield, In a German Prison

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[Katherine Mansfield, In a German Pension, Hesperus Press Limited, 2003 (1911)]

Contos baseados numa experiência autobiográfica, publicados em 1911, e que tornaram Mansfield ícone da escrita modernista. Descrição do ambiente pequeno-burguês alemão, encontrado numas termas, dissecado com ironia cruel que chega ao sarcasmo. Não lhe perdoa o arrivismo de ideias e maneiras  – a pobre criada que se faz passar por nobre e que, como tal, recebe todos os respeitos e até desponta paixões, assim desnudando a incapacidade local para reconhecer os códigos que anseiam mimetizar. E o grosseiro preconceito anti-britânico (a autora é neo-zelandesa e obviamente ali assimilada à Grã-Bretanha), sempre expresso na rudeza, até inconsciente, dos pequenos actos e ditos – denunciando o vigor do germanocentrismo, que logo provocaria a guerra mundial. 

Um século depois o que mais se nota, para além da verrina sobre os costumes e um estilo seco de escrita que se veio a propagar, é um feminismo explícito, à época com toda a certeza polémico. O qual surge sem tom de manifesto, assim eficaz na forma como transpira nas personagens que vão passando. O ridículo marido em “A Birthday”, que estando a mulher em trabalho de parto se preocupa com o seu próprio sofrimento e se será esse reconhecido. E as mulheres exemplares, a trabalhadora ignorante e ingénua (protagonista em “At Lehman’s” e “The Child “Who Was Tired”), desprovida de saber afectivo e fisiológico, verdadeiro símbolo de vítima mas apresentada sem espírito de denúncia. E a crítica da mulher aparentemente emancipada, simbolizada no provincianismo burguês da escritora respeitada (por o ser, sendo mulher) que em ““The Advanced Lady” propaga, para aceitação geral – dado ser ela a Professora, a Escritora – a essência da Mulher Moderna: “not one of those violent creatures who deny their sex and smother their frail wings uncer … the lying garb of false masculinity”, portanto nunca esquecendo ser o seu verdadeiro papel o de “incarnation of comprehending love.” (88).

Granta dedicada ao 50ª aniversário da Índia

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Edição da revista “Granta” de 1997 comemorativa do quinquagésimo aniversário da independência da Índia. Um normal mas vincado cunho britânico, não só pelo peso dos textos sobre a vida colonial ou sobre a ruptura que o seu fim causou (o poema de Ondaatje “What we Lost” é uma suma; o texto de Tully “My father´s raj” sobre a cosmovisão colonial, o texto de Knightley “An Accidental Spy” sobre a perenidade da relação em termos biográficos). Mas é britânica também no enfoque tido com a questão de Cachemira, ou seja a separação dos estados pós-independência por razões religiosas e os conflitos que disromperam a unidade política indiana ou, melhor dizendo, do Raj colonial (o texto de Buchan ou de Mehta.

Independentemente da origem dos autores é interessante notar este enfoque sobre a divisão Paquistão-Índia, deixando entrever a ideia de uma desordem gerada no fim do colonialismo. E também, por textos ou depoiamentos populares, notar as opiniões que desvalorizam a importância da independência – seja porque diminuta face aos conflitos religiosos que originou, sej aporque não foi apercebida pelas massa, como o ecoam alguns indivíduos em declarações recolhidas (em particular uma tocante autobiografia de uma intocável iletrada).

Doze anos depois tem ainda o interesse de ver a homenagem a Naipaul (transcrição de manuscritos e de páginas de A Wounded Civilization), antes do seu sacralizador Nobel. E de notar que entre os vários consagrados escritores que foram incluídos (Narayan, Ved Mehta, Nirad Chauduri) surgiam pré-publicações muito atentas, de escritoras então desconhecidas e que viram a obter rápido reconhecimento: Arundhati Roy e Anita Desai.

O tom do livro fica no soneto de Vikram Seth, “Sampati”: “Why do you cry?” “I flew too high. Undone, all see me fall“. São as dores de ser país, mas acima de tudo mostra as dores de ser ex-colono

Um Caso Arrumado

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Graham Greene, Um Caso Arrumado (A Burnt Out Case), Lisboa, Ulisseia, 1977 (1960)

Querry, o protagonista, é um arquitecto célebre, cuja fama lhe decorre em parte das igrejas e catedrais de que foi autor. Mundano, e agora sexagenário, está esgotado, percebeu que “Há um período da vida em que um homem, com um pouco de habilidade para representar, pode enganar-se até a si próprio” (174) e compreendeu a inanidade da representação. Segue sem sem fé na religião, sem fé no amor (do qual foi cultor), sem fé na profissão, sem fé em si mesmo. Está despojado.

Decidindo, num ápice, partir da Europa numa fuga ao vácuo que o oprime aporta, por mero acaso e incógnito, a uma leprosaria católica algures no Congo Belga (perto da capital provincial Luc, cidade inexistente) – como conclusão da subida de um rio [a metáfora conradiana tornou-se difícil de ultrapassar para os novelistas anglófonos que olham África]. Aí encontra Colin, o médico ateu, verdadeiramente pejado de amor pelo próximo, assente numa desencantada mas persistente crença na evolução, no progresso ["Não sinto amizade pelo pterodáctilo" (184)], assim recusando o cinismo, verdadeiro exemplo da dinâmica moralmente positiva dos progressistas.

“Um Caso Perdido” perde na tradução – burnt out case é a expressão atribuída aos leprosos que se curaram, mutilados “O êxito é uma mutilação” (282). A opção está entre a mutilação, enquanto cura, e a dor, devido ao atrofiamento muscular. Querry é o mutilado da fé, mas também é o paciente, submerso numa dor do atrofiamento (da graça, como dirá um dos padres). Nada há nele dos outros: farto de mulheres, que usou para se amar (para delas retirar amor), farto de construir, pois nele as construções são conspurcadas pelas pessoas que as usam. Está abandonado no seu mundo próprio, forma de desespero, “onde o riso era como um sibilar desconhecido de uma língua inimiga” (20).

É nesse universo que encontra uma imagem positiva do catolicismo, que quis (? ou teve de) afrontar, nas múltiplas formas em que é ali vivido: sim, o próprio Colin, caritativo na sua solidariedade, cheio de silencioso amor (o médico que mexe nas chagas dos leprosos apenas para que eles sejam mexidos, não-evitados) afinal também símbolo do quão cristã é a crença progressista ocidental, mesmo nas suas variantes científico-racionalistas; e os padres, mais preocupados com as questões materiais necessárias para ajudar o seu rebanho leproso, nada preocupados com as práticas sexuais e conjugais nada “católicas” ali praticadas (“em cada país seus costumes“, dirá um deles), tão longe do arquétipo seminarista, nítidos efeitos da influência do real. Com isto contrastando o vácuo céptico do jornalista ali chegado em busca de Querry mas acima de tudo com as certezas, impenetráveis ao real e humano, torcendo as ideias alheias e até o catolicismo, características do padre mais ortodoxo (Thomas, afinal ambicioso) e do colono católico Rycker, exemplo máximo da hipocrisia inconsciente e da petulância. Mas também eles, afinal, parte do todo – como pode Querry, se de tudo tinha desistido, recusar algo, recusar as personagens irritantes Rycker e Thomas? É aliás a irritação com Rycker que anuncia o regresso de Querry à efectividade sentimental. Pois passa a preocupar-se.

Quarenta anos depois da sua escrita é interessante uma outra abordagem: Greene fala dos “colonos”, retrata-os como universo próprio na própria Europa, até aí frequentando os mesmos restaurantes, as mesmas praias, mantendo a sua unidade, sabendo-se também gente desprezada pelos outros europeus. [203-204).

Mas, muito interessante é a noção de África e dos africanos. Se Greene é um escritor envolvido na realidade (Haiti, pós-guerra europeu, México, abordados noutros livros), aqui ela perpassa como uma longínqua nuvem. Apenas na festa de inaguração do novo hospital se acolhe a ideia de que algo (e não particularmente benéfico) está a caminho - um pequeno grupo de leprosos, de longínqua origem e diferente língua, canta algo pouco simpático para os padres e médicos ("os brancos nada sabem ..."). Alguns rumores, nada explícitos, de conflitos na distante (e invisível) capital. E nada mais. Certo que o conflito existe e Greene assume-o: as crenças aparentemente irracionais de que o material médico recém-chegado servirá para torturar os doentes são talvez não tão irracionais assim pois "Hola Camp, Sharpville e Argel justificam todas as crenças possíveis na crueldade dos europeus." (62). Mas na realidade há um hiato, uma diversa humanidade entre europeus e africanos que é explicitada: "O passageiro do camarote [Querry] … O capitão … Navegavam os dois juntos e sozinhos no rio havia dez dias – sozinhos se exceptuarmos os seis membros da tripulação africana ou a dúzia de passageiros da coberta ...” (11) enceta o livro, demonstrando de imediato os dois universos que são impenetráveis, um porosidade apenas permitida pela caridade cristã – católica, à moda pragmática daqueles padres e freiras; ateia – à moda do doutor Colin; auto-salvadora, à moda de Querry. Os leprosos, os africanos, são a matéria-prima do devir espiritual dos europeus. Há entre estes e os africanos uma proximidade física, “Mas eram como pessoas observando-se como telescópios a uma imensa distância.” (204), uma distância que não é só cultural ou linguística. Querry está a redescobrir-se mas também a descobrir-se. Por isso atentará, devido ao acidente do seu criado Deo Gratias, que “Nunca tinha realmente ouvido falar um africano até então. Bem sabe como é, ouvimo-los sempre meio distraídos, como se ouvem as crianças.” (84).

Estrelas: 5

Adenda: Um grupo de leitores do livro que trocam opiniões

Um Punhado de Pó

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[Evelyn Waugh, Um Punhado de Pó (A Handful of Dust), Lisboa, Cotovia, 2008 (1934) (Tradução de Daniel Jonas)]

Tony e Brenda Last são casal quase exemplo, enredados numa morna relação. Vivem em Hetton Abbey, a mansão familiar dos Last. Ela, sentindo-se acantonada, enfastia-se. Ele, proprietário terratenente semi-arruinado, algo pedante e vácuo, esgota os seus interesses na preservação da casa e na continuidade já anacrónica do velho modo de vida local, que considera associado ao seu estatuto. O tom satírico de toda a trama desvenda-se nas características neo-góticas do edifício, então fora de moda, assim desvalorizando aos olhos alheios todo aquele empenho, até ridicularizando a personagem. Um ridículo que é também desvalorização social, pois denota-lhe a ausência do “gosto correcto” da época, desajustando-o ao seu meio social.

O pano de fundo é o quadro da decadência entre-guerras (anos 1930s) dos proprietários ingleses (as grandes casas como sobrevivência de tempos passados, é uma afirmação dos trabalhistas ecoada por uma das personagens), a qual obriga a economias de minudência (os bilhetes de comboio de terceira classe, os pequenos negócios da vendedora Beaver, as opções sobre aquisições ou obras domésticas, as preocupações de alimentação em regime de quase miséria, etc) que tudo contrastam com a auto-percepção do grupo enquanto elite e com as suas práticas sociais (as festas, os clubes – modos de fazer e reproduzir uma topologia de estatutos sociais), o que também vai traduzindo o jogo de aparências públicas necessárias para a manutenção de um estatuto social.

A sátira desvendadora estende-se ao ambiente moral vigente. Disso exemplo é o eco na “sociedade” do caso amoroso entre Brenda e o empobrecido e desinteressante Beaver, uma relação sem particular encanto. É uma recepção até divertida, encarando-a não como escândalo mas como evento necessário à quebra do fastio rotineiro, o “adultério da estação”. Mas, por integrável que seja na rotina, não ofendendo sobremaneira os valores vigentes, a relação implica a manutenção, subtil do statu quo: Beaver não recolhe nenhuma ascensão social dessa relação com Lady Brenda (a ruptura consumar-se-á em parte devido ao inderimento da sua candidatura a um clube) e esta enfrenta um horizonte de muda queda económica e social devido ao seu caso amoroso. Corolário deste tom é a afirmação do pragmatismo sentimental, o recasamento de Brenda com o amigo da família Jock Grant-Menzies – para quem conheça estes caminhos literários é algo expectável ao longo da narrativa, ainda que nunca indiciado, o que empobrece a trama. O pouco eco da morte dramática de John Andrew, o petiz herdeiro dos Last, será também traço distintivo de uma aparente superficialidade sentimental geral – ou, o que me parece mais claro, uma pobreza devida à economia narrativa, até porque contrastando com a questão fundamental do livro, a da vontade de perenidade.

A centralidade da questão económico-social denota-se no destino de Tony Last: perde primeiro a mulher, devido à sua “distracção”, monopolizado pelos assuntos da propriedade; perderá o filho num coreagrafado acidente de caça, resquício do modus vivendi senhorial (e no qual a intervenção de um autocarro é símbolo de uma modernidade [tecnológica] que vem disromper a geneo-lógica vigente); perder-se-á a si próprio, finalmente, devido à sua recusa no divórcio. Com efeito, ao ser confrontado com as exigências financeiras da mulher – ainda que ela seja a adúltera [e toda essa situação, portanto o próprio destino do livro, incrusta-se nas características legais de então] -, que o obrigariam a vender a propriedade, portanto implicariam uma radical destituição sociológica (de conteúdo espiritual), Last recusa-se a conceder o divórcio. Algo que o impele a um período de nojo, um afastamento sazonal que lhe permita “manter a face” no seio do seu meio. A viagem final em que incorre é assim causada pelo seu desejo de imobilidade, social e geográfica.

Mas nela, e seus efeitos, explicita-se também uma concepção individualista dos percursos sociológicos, pois são as tramas conjugais que demonstram a incapacidade individual de manter, estrategicamente, o estatuto social herdado. Ou seja, os efeitos da viagem, que causa o desapossamento radical (da liberdade e da vontade, o proprietário feito escravo) fica explícita a mensagem subliminar: o desastre individual é causado pelas estratégias que procuram suportar o primado da propriedade, num meio social terratenente serôdio.

Enxertado no livro, culminando-o, surge o conto “O homem que gostava de Dickens”, uma curta saga amazónica, cuja conjugação parece pouco plausível. Irrealidade que nem o tom satírico da novela minora, pois ele ancora num realismo explícito. Há até uma disparidade de ritmos narrativos, a vibrante descrição da selva contrasta com o calmo, e até viperino, realismo descritivo do ambiente tardo-eduardino. Contraste talvez legitimado pelos diferentes contextos, mas causando estranheza, até incoerência.

E que também contrasta com as características do protagonista. Certo que nele culmina a continuada apatia de Last, a concepção de que as mudanças geográficas não mudam as personalidades (“Para quê viajar?”, será a questão), ainda que lhes possam alterar (e até inverter) os estatutos. Mas é também certo que o próprio perfil aventureiro da viagem é infundamentado, não condizente com o conteúdo psicológico do protagonista, e muito pouco justificável pela dimensão da personagem Messinger, o explorador que dinamiza a viagem (influenciando o influenciável Last), mas cujos traços meramente esboçados, quase caricaturais, não convencem como potencial dínamo.
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No entanto as linhas de ruptura entre a novela e o enxerto centram-se no objecto fundamental: é certo que o episódio final demonstra que o civilizado em queda escravizado pelo bárbaro, o anacrónico Last vitimizado pelos novos tempos e assim condenado a servir, ecoando o saber racional moderno a quem, ainda que apreciando-o (o som das palavras) verdadeiramente não o percebe – que dickensiano apaixonado, como Todd aparenta ser, escravizaria um indefeso? É uma polissémica crítica da exportação da modernização, casando os dois núcleos textuais.

Mas mais fundo está a tal ruptura: pois Todd, na sua rudeza curiosa e amoral é símbolo da barbárie. Não da selvajaria, essa característica da inanidade dos ameríndios que o rodeiam – e que na sua maioria deles descendem, grande procriador que se reclama. Filho mestiço e analfabeto de missonário anglófono, deste herdou não só uma mala de velhos livros como a paixão por Dickens. Não é um selvagem, é um bárbaro, estádio intermédio da evolução que lhe advém da ascendência biológica e do contacto civilizado (e cristão). Mas é também um estádio intermédio da involução, aos seus múltiplos filhos não transmitiu essa vontade imaginativa. Em ambos os cenários, o britânico e o amazónico, Waugh fala da “Queda”. Todd, na sua boçalidade inane, é um avatar de Last, procurando manter a sua Hetton Abbey, o seu Dickens ali anacrónico, ali absurdo. A escravização de Last, a sua putativa morte, é uma osmose. Ou seja, a barbárie está no destino de Todd e no de Last, a dissolução da mensagem passeia-se em Todd a caminho da selvajaria, a sua Queda está também em Hetton Abbey.

Há ainda o final alternativo, remedeio que Waugh compôs para possibilitar a publicação do livro nos EUA, onde o conto já tinha sido editado autonomamente. Ainda que a narrativa possa assim parecer mais coerente com o registo anterior do que o enxerto amazónico aparenta, o certo é que não só o tom muda radicalmente (o texto aparenta ter sido escrito de rajada, por razões pragmáticas) , mas também o ideário. Aqui o casal sobrevive enquanto tal, mas com papéis actuantes invertidos: Tony regressa a Londres, mergulhando nas teias da infidelidade, Brenda recolhe a Hetton Abbey, à domesticidade reprodutiva assim assegurando a perenidade. É notória a inflexão do conteúdo moral. Não é de Queda que se fala, mas da Ressureição, para a qual apenas se exigirá a alteração das práticas individuais – de novo o individualismo. Que a apatia de Last se desvaneça, que Brenda se recolha e a continuidade sobrevirá. Um conformismo individualista que ultrapassa, por completo, qualquer intenção satírica.

Finalmente. A tradução aparenta ser pastosa (algo que surge “escondida na ideia”, por exemplo), sublinhando que Waugh se lê no original. Para mais a edição tem notas algo desnecessárias (uma nota explicitando o que é “Senegal” será necessária? Um mapa legendado não substituiria as cansativas notas – no fim ainda para mais – relativas a zonas e bairros londrinos?)

Estrelas: 3

Adenda: Waugh na Wikipédia; A Handful of Dust na Wikipédia.

O Mundo dos Ricos

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[Graham Greene, O Mundo dos Ricos (Doctor Fischer of Geneva or The Bomb Party, 1980), Lisboa, Europa-América, (tradução de J. Teixeira de Aguilar - também é bloguista)]

Alfred Jones é um vulgar cinquentão viúvo, mero tradutor numa fábrica de chocolates suíços, cuja modéstia de horizontes e inexistência de ambições cristaliza a sua relativa decadência social, filho que é de um antigo diplomata britânico, nobilitado em fim de carreira. Num inusitado coup-de-foudre vem a casar-se com Anna-Louise, a muito jovem filha do Doutor Fischer, milionário por via da invenção de um dentífrico, personagem basto desagradável, repugnante à filha devido aos maus-tratos psicológicos à sua mãe, morta por desgosto, infere-se.

A trama romanesca praticamente não existe, é um encontro ocasional que faz ultrapassar os trinta e cinco anos de diferença entre ambos, mais denotando o vácuo (o limbo?, adiante referido no habitual registo teológico em Greene) das respectivas existências. Aparentemente seria uma ligação freudiana. Mas a homologia etária entre Jones e Fischer (marido e pai) associa-se a uma inversão de outro âmbito. Se Jones corporiza um lento declínio social fá-lo através de uma desistência existencial, uma inanidade biográfica próxima da realização pessoal, a qual associa a uma (relativa) pureza de sentimentos, apenas mitigada pelo orgulho da pobreza que Fischer virá a desnudar. Isso confronta-o ao seu sogro, cujo enriquecimento o fez ascender socialmente, processo que lhe faz advir uma tal insatisfação, um desagrado feito de objectivos pragmáticos realizados, um tudo isso que o torna um cúmulo de desagradável. É uma ironia, até algo explicitada por Jones, o facto de Fischer ser o impuro que é por produzir um produto higiénico e Jones ser quem é (dotado de pureza de sentimentos) enquanto trabalha para os poluentes (pois nada saudáveis) chocolates – o inverso dos seus estados de alma, a radical oposição de perfis.

Este livro é normalmente apresentado como dedicado à crítica da cobiça e da ganância. Pois retrata o destino escolhido de Fischer, fazendo-se rodear de falsos amigos, gente mui rica à qual aviva a cobiça que lhes é própria (enquanto ricos) ao cumulá-los de preciosos presentes, corolários de grotescos jantares ritualizados, durante os quais se dedica a maltratar e humilhar os circundantes, condição essa sine qua non para a recepção das ofertas. [Honestamente, a trama é muito pouco plausível e pouco interessante] É isso, reclama, o seu estudo sobre a natureza humana, a sua reflexão teológica sobre a alma humana, dir-se-ia, se no constante registo de Greene. Mas o que transpira ao longo do texto é que Fischer surge aos humanos olhos da filha (e de Jones) como o inquietante e perturbador arquétipo do mal, a diabólica desumanidade.

Mas não será assim. No diálogo entre os cônjuges concluirão que o milionário não tem alma. Pois se “Quando se tem alma, não é possível estar-se satisfeito consigo próprio.” diz Alfred Jones (89) explicando a sua vaga religiosidade cristã em resposta à questão de Anna-Louise:”Toda a gente tem alma, não? Quer dizer, desde que se acredite na alma.”. Para ele “Essa é a doutrina oficial, mas a minha é diferente. Acho que a alma se desenvolve de um embrião, tal como nós. O nosso embrião não é ainda um ser humano, tem ainda qualquer coisa de peixe, e o embrião da alma não é ainda uma alma. Duvido que as crianças pequenas tenham mais alma do que os cães. … Talvez fosse por isso que a igreja católica inventou o limbo.” (88-89)

Mas tudo culmina na festa final, e em sentido inverso, como se o livro fosse um romance de formação interrompido (pela morte precoce de Anna-Louise), dotando os personagens de saber e dúvidas. Aí se suicidará o seu pai (e se a tentação suicida de genro e sogro é nada católica, em cenário greeniano ela é até recorrente) . Não sem antes Jones o invectivar, descobrindo-o “como V. se deve desprezar“. Assim, afinal, o mal (Fischer) tem alma, descontente do seu aparente sucesso, por ele feito histriónico. É essa a mensagem do livro. Como sempre o mal radica em nós, o humano bem real.

Ainda assim, para mim o pior livro de Greene.

Estrelas: 1

Aya de Yopougon

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Aya de Yopougon 1 de Marguerite Abouet (argumento) e Clément Oubrerie (desenho) [Gallimard, 2005]

Volume inicial de uma série que já vai no terceiro, premiado em Angouleme 2006 como melhor primeiro álbum. Uma delícia, no desenho e na visão de uma África mundo (algo autobiográfica, a argumentista é uma costamarfinense), sem os clichés miserabilistas ou poéticos habituais quando se narra “áfrica”. A vida de Aya e suas amigas, no seu final da adolescência, em Yopougon, subúrbio de Abidjan em finais de 1970.

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Os namoros – literalmente “às escuras” nas bancas deste bazar feito nas noites poético “Hotel das Mil Estrelas” -, as festas de bairro, os muito explícitos jogos de sedução, os “tios” mais-velhos, no atrevimento de recusarem a idade, uma narrativa risonha daquele mundo que é também para além dele. 

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E as ingenuidades, as estratégias de cada uma, entre a vertigem da festa e a perspicácia em que tantas buscam marido que dali as tire. E Aya na escola com afinco querendo fugir ao futuro “Série C“: “cabeleireiro, costura, caça ao marido“, que lamenta em seu torno. Mas opção própria, apresentada sem puritanismo, quase como mera casmurrice.

Uma absoluta jóia. A acompanhar nos episódios entretanto publicados.

Cartas de Guerra, de Lobo Antunes

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Já antiga prenda de bela amiga só agora leio “D’este viver aqui neste papel descripto“, as cartas de guerra de António Lobo Antunes à sua mulher Maria José (D. Quixote, 2005).

Livro especial, na altura da sua edição nos jornais muito se louvou a escrita de Lobo Antunes, a transcrição da intensidade do seu amor, o seu sentir da guerra. Ora o que leio (vou a meio do livro) é algo diverso. Se Lobo Antunes é um escritor extraordinário não é o nestas cartas – nem tinha que o ser, são cartas para a sua mulher, nunca pensadas como objecto literário. E se muito amava a sua mulher (a qual surge como de uma Beleza perturbante) não seria isso relativamente generalizado nos seus camaradas de armas? Amará mais um escritor do que um amanuense? E não serão a guerra e a sua solidão extrema dinamizadores do sentimento do amor? Ele escreveu esse amor e outros não, a diferença. Que justifica juntarmo-nos à volta destas palavras, não precisando para isso de outros sublinhados.

Nessas cartas surpreendem duas coisas: por um lado a narrativa da guerra, nada (aparentemente) escondido, um nunca capear os perigos e os medos - um pacto entre o casal? Mas acima de tudo surpreende o homem, a ingenuidade que transparece nos seus 28 anos, até a estreiteza do interesse sobre o que o rodeia, homem do seu espaço e do seu tempo, um tempo onde se podia escrever “as hóstias sabem a papel almaço“. É isso que espanta pois, por mais céptico que se vá ficando, ao ler um Escritor como este, imenso, imagina-se o homem como quasi-omnisciente, homem imenso também, uma inata apreensão do circundante. Mas não, mero homem que amadurece(rá). Esse, para mim, o interesse do livro. Extremo.

Tudo se poderá resumir assim. O médico militar vai a uma povoação (7.3.71, pp. 80-82) e “Hoje, domingo, passei a manhã numa cerimónia curiosa, a assistir à esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela. Como sou uma personagem de marca sentaram-me na única cadeira existente, dando a direita ao soba. Depois 3 homens tocavam tambor, a doente foi sentada numa esteira, e a malta dançava e cantava em volta uma melopeia estranhíssima. Estava um calor como não me lembro de ter sentido na minha vida, não havia uma única nuvem no céu e tudo brilhava e reluzia. Assisti à cerimónia por acaso, porque andava à procura de cachimbos e pentes. Aquelas coisas de madeira em que se faz o pirão, uma espécie de almofariz assim, mais ou menos trabalhado, ficava estupendo em nossa casa como cesto de papéis ou outra coisa qualquer. Há-os muito bonitos, mas são bastante pesados. Estou a pensar mandar fazer um baú para levar os objectos que por aqui vou juntando, e que nunca vi em parte nenhuma em Lisboa. Os bibelots ficam por minha conta. A fim de escolher só coisas que valem realmente a pena tenho passado o meu tempo livre a esquadrinhar os quimbos. Hoje, por exemplo, vi um cachimbo giríssimo mas não mo quiseram vender, apesar de eu oferecer a exorbitante quantia de 10$00. Tenho a impressão de que a tia Hiette, por exemplo, perderia a cabeça por estas paragens. Espero que não te horrorizes quando me vires chegar cheio de coisas para as quais, talvez, pelo número, não tenhamos lugar em casa. Vamos a ver se levo algumas em Outubro, quando aí for. E o mais incrível é que no meio disto tudo ainda só gastei 20$00!

Não é crítica minha. É até comovente ver um (ainda) jovem recém-casado a escrever à mulher grávida, as minudências da decoração do lar, uma verdadeira bricolage para manter o registo de casal (quotidiano, como as cartas o tendem a ser). Mas ao mesmo tempo ao ler isto espanto-me, o Lobo Antunes, futuro médico psiquiatra (ainda que não lhe fosse a vocação, há-de resmungar durante anos) passa, forçado e distraidamente por uma exorcização, e segue descrevendo com minúcia o bric-a-brac? Coisas desse tempo, ileituras desinteressadas desse tempo, o hiato entre-homens de séculos, de então. E se até o Lobo Antunes assim pairava, como seriam, como seguiriam todos os outros?

Depois, enquanto vou passando as páginas e decido voltar atrás para sublinhar, percebo que o tempo não passa. Não andam hoje esses profissionais produtores de exótico às voltas, maravilhados, com as “medicinas tradicionais”, não são eles os nativistas do “conhecimento autóctone” os distraídos consumidores deste bric-a-brac d’agora? Completamente. E com o (gigantesco) senão de não serem Lobo Antunes …

Fagin le Juif, de Will Eisner

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Will Eisner está para além dos adjectivos, mas como falar dele sem os usar? Este Fagin le juif (Delcourt, 2004) é um livro extraordinário. Artisticamente é sumptuoso – poderia ser de outro modo? Sendo a obra um diálogo crítico com “Oliver Twist”, o mundo de Dickens, tão gráfico ele próprio, é eisnerizado de um modo tal que somos brindados com um universo coerente mas que reclama uma dupla paternidade. Enriquecedora. Só por este exemplo máximo do mundo de Eisner o livro é imperdível.

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Mas há mais. Eisner reentra em Oliver Twist, convocando o próprio Dickens à liça. E nisso desmonta os preconceitos anti-semitas carregados pelo autor. Pois este, arquétipo da inquietação com a ”questão social”, fonte de tanta denúncia literária, jornalística e filosófica da injustiça social, enredava-se no preconceito prejudicial (passa a aparente redundância) face aos judeus, estigmatizados nesta personagem “Fagin”. Assim demonstrando a hierarquia das preocupações sociais de então. E, como Eisner diz, até pela penetração na literatura infantil que “Oliver Twist” veio a ter (sua desvalorização no senso comum?), assim contribuindo para reprodução continuada de estereótipos racistas. Dickens homem do seu tempo? Não só,  pois ele próprio evoluindo a sua concepção, disso consciente, como o mostraram as suas tentativas de retrabalhar a figura de Fagin, o velho judeu, em edições posteriores de Oliver Twist (tentativas infrutíferas, dado o enorme sucesso inicial da obra, obstando à sua substituição). Nisso, porventura, indiciando também alguma mudança à época das concepções sobre judeus nos meios letrados britânicos.

Mas na limpeza que Eisner faz não há traço do mero correctismo. Há um recontar da história, olhando-a de outro modo, olhando os contextos de formação dos indivíduos, não como desculpabilizadores/desresponsabilizadores (o que é isso da “culpa”, da “responsabilidade”?) mas como enquadradores das opções e dos percursos. Assim longe do essencialismo dickensiano (de que a personagem Twist é exemplo máximo), um atender aos contextos, à gente formada nas circunstâncias. Para além do aparente bem e mal. Gente boa e má, não boa ou má.

Óbvio se torna que é também produto (como não o poderia ser?) de uma visão sociologicamente muito mais rica do que a que lhe é um século e meio anterior – assim ficando exemplo de como a leitura racialista, racista, essencialista, é acima de tudo uma leitura ignorante, iletrada, ainda que tantas vezes treslida.

RG. Bangkok-Belleville, de F. Peeters

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Já tinha referido a minha descoberta de RG, a série de Pierre Dragon e Frederik Peeters, um excelente policial realista, algo sublinhado pelo facto do co-argumentista Pierre Dragon ser pseudónimo (individual?) de um (?) polícia no activo, o que ajudará à consistência do argumento. Agora trouxe o segundo volume RG. Bangkok-Belleville [Outra recensão aqui] (Gallimard, 2008).

Deixo duas ligações para recensões pois enfatizam duas vertentes a elogiar: por um lado uma arte narrativa excelente, pela qual também nos é deixada uma Paris nada estereotipada. Por outro há uma densidade psicológica na galeria dos polícias, bem para além do comum.

Não sei se a série está traduzida em português. Mas se não há público para isto que público haverá para banda desenhada?

Ernie Pike

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É também o peso, em particular das edições de capa dura, que inibe a aquisição e importuna o transporte transcontinental de todo este Ernie Pike (Casterman), de Hugo Pratt e Hector German Oesterheld. Veio o tomo 4 dos cinco que julgo publicados.

Polémica ultrapassada sobre a sua autoria – o reconhecimento do papel autoral de Oesterheld não foi imediato nas edições europeias – fica o importante: pequenas histórias de guerra (a II Mundial, a da Coreia), heróis soldados anónimos, gente que afinal não é tão má como o poderia ser, alguns explorados que não são tão bons como tantos os gostam de pintar. Poesia de paz em caminhos muito únicos. O de haver algo de humano, portanto inesperado, nesses que se encontram em situações limites.

Depois há um interesse suplemantar. A recusa da teleologia daqueles que vêm a obra de Pratt como um caminho para chegar a Corto. Vale por si mesmo.

Ou seja, a exigir novas remessas destas capas duras.

Afrika, de Hermann

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O problema em Hermann é que passaram quarenta anos desde que começou a desenhar o Comanche de Greg, arquétipo (literalmente falando) do “western”. E por mais esplendor gráfico que Hermann apresente as suas personagens são, desde então,  sempre pálidos estereótipos. E os enredos nunca daquela densidade. Assim, e por mais injusto que isso seja, o leitor compara (once a Red Dust, always a Red Dust).

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Daí a pouca empatia com este Dario Ferrer de Afrika (Éditions du Lombard, 2007 [1993]), o eterno hermannesco desajustado, envelhecido mercenário, agora ecologista desamparado, vítima de um mundo que já não quer aceitar. A maturidade como crescente recusa, de si-próprio e de vós-outros. Figura anti-herói constante, que na galeria recorrente só nos traz o excêntrico item de ser careca.

Mas acima de tudo a desilusão com a tal “Afrika” que ele anuncia, uma constante desistência cognitiva europeia, o “k” de “isto é Afrika”, um não-west de oportunidades, um sim-south de desorganização e ingerências, um factor “k” na equação de uma selva de trevas. Daí ao suicidário Ferrer nem um passo vai. Simplicidade de olhar.

Para além do esplendor gráfico – o que sempre vale no olhar de Hermann – é isso que fica.

Bilal e a alterglobalização: Le Vaisseau de Pierre

Um peculiar Verão, o dos bruxelenses. Famílias em vestes encaloradas, mangas curtas e calções, nós de camisolas e chapéus-de-chuva, nariz pingando. Unidos no parque, um festival de teatro infantil, mímicos, cantores e saltimbancos. Um número óptimo, um grupo saltimbanco, figuras monstruosas, em histriónico bailado pop-rock bilaniano puro. O delírio, um pouco assustado, dos miudos. E sorrisos progenitores. Também protectores.

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Logo mergulho nas bdrias. Recompro este “Le Vaisseau de Pierre” (Les Humanoides Associès, 2003), os inícios de Bilal (e Christin) lá em 1976. Há quanto tempo não o lia? E agora a fazer-me lembrar que foi Bilal a trazer a insuportável herança gótica (Druillet e quejandos) para a respeitabilidade do “bom-gosto” (oops).

E a delícia ideológica: aqui uma utopia anti-capitalista pura. Confrontando-se com a instalação de um gigantesco complexo turístico a aldeia piscatória e todos os seus ancestrais milenares

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(inclusive os monstruosos seres iniciais, raízes de menires, sempre incógnitos), acantonados no velho castelo (nas cercanias da anta) à guarda do merliniano cego, são transferidos, pedra a pedra, espírito a espírito, para uma América Latina (terra de indígenas que tocam flautas), regressando à paz equilibrada, ecológica, espiritual.

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Não ocorreu ao duo Bilal/Christin de então que o castelo (e a anta?), a aldeia edificada, e toda a sua gente viva e passada, fossem uma agressão gigantesca aos monstruosos seres e milenares ancestrais lá nas terras dos actuais flautistas? E ao ambiente dos actuais?

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Tal e qual como o novo hotel lá na terra afinal pré-bíblica deles?

Não se trata só de afirmar uma ontologia benéfica ao “bom povo” e suas raízes – um romantismo medievalista um pouco mais exótico, projectando o desconhecimento da história (não era o castelo o sítio dos enrugados e engordados donos da corveia e do direito de pernada?). Trata-se também de lhe associar, implicitamente, a ideia da tábua rasa exo-europeia.

Os primórdios da alterglobalização na sua vertente anti-industrialista, anti-capitalista.

Em suma? Diverti-me imenso no bailado bilaniano. E adorei reler o mestre. Que se lixem as interpretações. Eunucas.

Orgias, de Luis Fernando Verissimo

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Luis Fernando Verissimo, Orgias (D. Quixote, 2008)

É a badana que o exalta, Verissimo é “autor de mais de 60 livros”. E isso nota-se, vários dos textos são inúteis, até falhos de humor, chegando a repetir-se – “Festa de aniversário” e “Festa de criança” são a mesma coisa -, livro nascido da falta de selecção nas recolhas, de um exaustivo injustificado em especial quando é óbvio que são textos de ocasião – obrigações de cronista?

Ainda assim há algum Verissimo à solta: sonhando um mundo sem celulares (aliás, telemóveis) em “Hipóteses”, absolutamente genial no seu Genesis “A Primeira Pessoa”, texto que só por si justifica comprar e ler o livro: “E Deus viu que eu me entediava, pois de que vale ser um nobre no seu parque se não existem os outros para nos invejar?” (105); corrosivo em “Vidão”, desse Gilmar que enjoava o champanhe e as ostras mas que sempre tentava pois esse era o “vidão” que sonhara ter. E crente no “Deus, o primeiro autocrata, fez o mundo como bem quis, sem ouvir as bases, sem plesbicito. O que, pensando bem, foi a nossa sorte, pois, se o Criador tivesse optado pelo método democrático, o universo não estaria pronto até hoje e estaríamos perdendo todos os bons seriados na TV. Vivemos no mundo como ele nos foi dado e ainda não ouvi ninguém chamar o processo de fascismo divino“. (36)

Verissimo avisa que “Pouca gente sabe que existia, na Roma Antiga, até a profissão de organizador de orgias, ou baccanum, profissional muito valorizado, tanto que é daí que vem a palavra “bacana” … Os baccanae funcionavam assim como os modernos bufês, que se encarregam de todos os detalhes de uma recepção.” (9). Neste “Orgias” não será muito “bacana”. Ainda que alguns “números” sejam bem divertidos.