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Águas Correntes

(por AL em parceria com Angela McIntyre e apoiada pela WaterAid) -

Na passada quinta-feira, 19 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Retrete sob o auspício da ONG internacional – WaterAid. Ridículo? Absurdo? Pensemos primeiro nisto:

  • 2,5 bilhões de pessoas não dispõem de um local seguro, privado ou higiénico para a importante função vital de defecar
  • 1 grama de fezes contem 10 milhões de vírus, um milhão e bactérias, 1.000 parasitas enquistados e 100 ovos de parasitas
  • O saneamento adequado dos resíduos fecais e a lavagem das mãos depois do acto podem reduzir em 40% as diarreias infantis, responsáveis pela morte de 1,8 milhões de crianças por ano

Pessoalmente tenho que admitir que quando parto para trabalho de campo o que mais me custa é a perspectiva das casas de banho sem água e das latrinas. A imagem da casa de banho pública do Xai-Xai há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida! Não me importam os ossos doridos por dias de solavancos em picadas; passo por cima dos insectos e moscas peganhentas; confio no Baygon verde para tratar dos colchões com vida interior; conformo-me com um chão de palhota para passar a noite; aceito o desjejum com mandioca cozida temperada de fumo; tolero o fato de suor e pó que habitualmente me cobre e que uma mão cheia de água não chega para remover; mas a latrina? A latrina? Confesso: tenho PAVOR da latrina! Aquele buraco escuro que eu suspeito estar cheio de coisas vivas; o oscilar das tábuas quando a terra está ensopada das chuvas; a privacidade questionável; a vulnerabilidade da posição e o cheiro mais ou menos pungente… Tudo na latrina me confrange!

É este meu pavor partilhado pela minha amiga Angela McIntyre, companheira de muitos anos de desconforto latrinal e a única com quem costumo ter estas conversas de m…a. Enviou-me ela, no Dia Mundial da Retrete, um email recordando as piores retretes da sua vida. Apesar de ser em inglês, por termos partilhado tantas delas e pela graça com que ela as descreve, acho que merece reprodução aqui na maschamba:

Toilets Without Borders (by Angela McIntyre)Today is World Toilet Day, and so I pay tribute to the humble loo. There is a spotless, perfectly flushing loo, stocked with ludicrously soft 3-ply, next to a sink with hot running water, a mere 5 meters away from me. In fact, hang on just a second while I, um, powder my nose…Much better. Ok. Where were we? Nampula, Mozambique 1994, the town water supply has been off for 2 weeks and you have to drive 20 or so km to a reservoir with buckets if you want some. Here you flush sparingly, once a day, it is your bath, cooking and drinking water you are pouring down there, and you’ve lugged it up 3 flights of stairs to boot. Everyone else flushes their loo once a day too, and the whole town is positively aromatic. Better to have a hole in the ground when the modcons are unreliable. If you have a place to dig one, that is. Mozambique Island, 1993: one side you can swim on, the other side is the communal toilet, flushed by the tide. Water is just too scarce – it comes from a large communal rainwater cistern at a 300 year old fortress. You wait in the queue til it is your turn to lower your bucket in. You lug it home and boil, literally, the LIVING SHIT out of it, and still get giardia, unmistakable for the tectonic rumble it produces in your intestines and sulfurous breath. I digress. Maputo, 1995: there is an old-fashioned tank with a chain up on the wall, which might actually work if there was water in it, but at least you can fill buckets from the standpipe in the street. Little consolation when you live in a crumbling apartment block with a broken elevator, on the 10th floor. What on earth were those Soviets thinking? Let’s travel a ways north on the public bus – the Machimbombo – as it is fondly called – to Xai Xai, where there is a public loo at the bus station. Its state of perpetual overuse and overflow has compelled someone to simply build a low brick walla cross the doorway to contain the horror, in which there are things swimming, visible to the naked eye. There are new species evolving in there, worthy of a Discovery Channel Documentary. Inhassoro, 2006: I arrive at my new digs, where I will live for 2 years, on the beach, in a thatch-roofed hut. It is charming and typical, waterproof, lit by kerosene lamps at night. Then there is the loo. It is about 20 meters from the hut, 40 at night in the pitch dark. A deep, murky hole with a skimpy wall of reeds around it and a thatched roof. There is a bat nesting in the thatch, which swoops down disconcertingly while you are at your most vulnerable, trousers down around ankles trying not to slip into the HOLE. Some months later I suggest to the UNDP Evaluation Mission, come to look at my community vegetable garden project, that the sanitation here is less than satisfactory. There is no functioning water system in the village and we could use an Improved Latrine Program so we don’t get stinky, messy backups and cholera during the rainy season when the water table rises. They recoil in horror at my loo setup and vow to Do Something About It. Several months later, there is a UN truck spinning its tires in the beach sand outside my hut, villagers diligently trying to push it out. I see they have unloaded a shining, new, modern sparkling bathroom suite. Sink, tub, toilet, and yes, that mysterious other thing known as a ‘bidet’. The villagers gather round, gaping and whispering to one another. The white lady really is mad, it is now official. My village-cred has gone down the hole, but they are kind, charitable people and someone humors me, “Dona Angela, you have the nicest bathroom in all of Inhassoro!” Later we grow tomato plants in the bathtub and water the goats from the bidet. The toilet is cemented over the HOLE, allowing one to launch one’s self more easily to safety and avoid losing a flipflop to the abyss when the bat is startled. It was the nicest toilet in Inhassoro.

China e África: A Análise de Uma Relação

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Por ABM (Cascais, 16 de Novembro de 2009)

Loro Horta, um Visiting Fellow numa Universidade em Singapura, publicou recentemente, no Centro para o Estudo da Globalização da Universidade norte-americana de Yale, um comentário, baseado numa série de entrevistas e visitas que fez no continente, sobre a percepção que os africanos tinham da quase súbita atenção dada pela China às suas relações económicas e políticas com África.

Refira-se ainda que Loro, um académico e consultor, é timorense e o filho de José Ramos Horta e Ana Pessoa, respectiva e actualmente o Presidente e a Procuradora Geral do único país da Ásia que tem esta língua como oficial. Ana Pessoa viveu exilada vários anos em Moçambique durante a ocupação indonésia da sua terra e terá trabalhado em Moçambique nos tribunais.

A conclusão de Loro sobre o assunto é que há actualmente em África – com nuances variando de país para país – duas percepções muito claras mas quase diametralmente opostas em relação à presença, investimentos e forma de estar dos chineses no continente.

Por um lado, as elites em geral favorecem e vêm com bons olhos essa presença, que preenche uma importante lacuna em matéria de investimentos e importação de conhecimentos (know-how), especialmente numa altura em que, quando se sentia uma maior pressão para desenvolver, os países e as empresas ocidentais não só diminuíram o seu empenho no desenvolvimento e nos negócios em África, como ainda dificultaram o processo interligando aos donativos e investimentos todo um conjunto de imposições, desde reformas políticas e administrativas à prática de políticas humanitárias e ambientais as quais são frequentemente percepcionadas como neo-colonialismo ou interferência com as suas soberanias. Sendo conhecido que a China tem-se demonstrado quase ostensivamente blasé em termos dessas questões.

Pelo contrário, o modelo de desenvolvimento económico e social chinês, baseado num dirigismo algo rígido do PC Chinês (Loro chama-lhe em inglês “China’s model of a strong government”) é visto em muitas capitais africanas como uma tentação, senão uma inspiração, especialmente se se tiver em conta aquilo que vêm como a imposição “neo-colonialista” do modelo democrático-liberal ocidental por parte dos investidores e doadores que, reclamam, não funciona na perfeição em África.

Dos investimentos Chineses, alguns em condições particularmente favoráveis e em projectos de infra-estruturas e na agricultura (onde os países ocidentais não investem) resultam ainda parcerias muito interessantes que ajudam essas elites a fazer negócios e assim enriquecer.

Por outro lado, reporta Loro, as classes sociais menos abastadas nesses países vêm muito desfavoravelmente essa presença, a bordejar no racismo anti-asiático puro e duro, principalmente porque invariavelmente o investimento originado na China vem acompanhado de milhares de trabalhadores não especializados (frequentemente em condições miseráveis) para executar os projectos, logo não oferecendo trabalho à mão de obra local e em contraste flagrante com nalguns casos estritas quotas em termos do número de estrangeiros que podem trabalhar numa empresa ou numa empreitada (veja-se os casos em Moçambique e Angola, países que Loro conhece e refere especificamente e em que contrasta esta forma de estar com a dos portugueses, sujeitos ao total cumprimento das leis que limitam a presença de nacionais seus nos projectos).

Adicionalmente, o investimento chinês é também acompanhado por um abrir de portas dos países (visto mais como uma invasão) de pequenos e médios comerciantes, a maioria deles relativamente pobres, que trazem milhares de produtos a preços imbatíveis, competindo contra, e ameaçando, o pequeno e médio comércio local, que é absolutamente crucial para a sobrevivência de milhares e milhares de famílias africanas.

Os chineses tendem ainda a viver isolados do resto da população local e nem sempre seguem as melhores práticas ambientais nos projectos que patrocinam, provocando desconfiança na população e a hostilidade dos grupos ambientalistas.

Loro termina o seu artigo recomendando alguma reflexão sobre estas tendências a ambos os lados e o seu impacto na relação China-África e citando um anterior ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano que não identificou, que em relação à China fez o seguinte comentário: “No fim do dia, é a nossa responsabilidade. Os chineses, como quaisquer outros, têm os seus interesses e extorquirão de nós (o termo usado em inglês é mais violento: “they will plunder us”) aquilo que conseguirem até onde permitirmos. O futuro de África estã nas nossas mãos, tal como sempre tem estado. Deixemos de culpar os outros e de esperar que os outros tenham pena de nós”.

Bronislaw Geremek e a pobreza

Aqui tomo conhecimento da morte de Bronislaw Geremek.

E logo me recordo das palavras introdutórias ao seu esplêndido “A Piedade e a Forca“, que sempre me acompanham, vivendo como vivo num país subjugado ao calão do Banco Mundial, feito mito omnipresente (e dito omnisciente) da Luta Contra a Pobreza Absoluta, o constante PARPA. Não diz só isto, na sua história da utilização do termo “pobreza”. Mas assim é inultrapassável:

Na Europa do século XIX ainda encontramos em certa literatura polemística e no pensamento social uma visão da pobreza como uma “doença vergonhosa” da sociedade moderna que urge debelar por meios novos. Concomitantemente, porém, assiste-se a uma gradual reformulação da abordagem conceptual das análises sociais e do estilo do discurso ideológico. A crise dos programas filantrópicos, o despertar da consciência social das masas e as mutações nas estruturas da vida política fazem com que seja praticamente eliminado da linguagem económica e social o termo “pobreza” (e “miséria”): porque carrega um sentido subjacente de piedade, apresenta-se como um juízo de valor que confere uma atitude de superioridade ao que o emprega. Essa carga semântica emotiva torna-o demasiado ambíguo para servir de instrumento de reflexão e, portanto, pouco operacional nas investigações da ciências sociais. Todavia, quando se estuda o fenómeno nos seus aspectos históricos (…) assiste-se igualmente ao acentuar da tendência para enquadrar a questão da miséria no âmbito (…) da análise das causas das desigualdades sociais e da repartição do rendimento nacional vem substituir a tradicional problemática da pobreza.”

[Bronislaw Gemerek, A Piedade e a Forca. História da Miséria e da Caridade na Europa, Lisboa, Terramar, 1995 [1986], tradução de Maria da Assunção Santos]

Sítio ODAMoz

ODAmoz “é um novo instrumento electrónico financiado pela CE que fornece uma informação da Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (ODA a Moçambique). Foi criado como resposta à Declaração de Paris segundo a qual deve – se fortificar a harmonização e alinhamento entre os doadores e alinhamento entre os Governos. A ODAmoz permite captar projectos e Programas dos doadores e Agências das Nações Unidas a operarem no país.”
Tem uma vasta gama de informações. A ligação constante fica afixada na coluna da direita, no grupo “sítios” (há quem chame “sites” mas existem escolas de línguas).

A Riqueza das Nações, de Francisco Noa

Um necessario texto, hoje publicado no jornal Noticias. Francisco Noa rematando contra o nao-pensamento que se quer dominante. Eis:A Riqueza das Nações
Francisco Noa

Um país se faz com homens e livros.
Monteiro Lobato, escritor brasileiro

Colocação

A Riqueza das Nações é o título de uma das obras mais emblemáticas da era moderna. Da autoria do escocês Adam Smith (1723?-1790), trata-se de um grandioso trabalho dividido em cinco livros, fruto de um aturado e notável exercício de investigação, em que cruzando teoria e prática, o autor emerge como o pai da economia do nosso tempo e um dos teóricos mais relevantes do liberalismo económico.

Defensor acérrimo da iniciativa privada, pressuposto segundo o qual o governo deve ter pouca ou nenhuma intervenção, Adam Smith entendia que era na actuação dos indivíduos, com muito trabalho e muito empenho, e numa base de livre concorrência, que se realizaria o crescimento económico e a inovação tecnológica que, em última instância, resultaria na riqueza das nações.

As teorias deste ilustre pensador do século XVIII, que obviamente tiveram os seus detractores e seguidores, influenciaram não só gerações inteiras de economistas e políticos do mundo inteiro, como serviram de inspiração a muitos dos países que são hoje as mais destacadas referências de desenvolvimento económico, social e tecnológico.

Equívocos

Nos últimos tempos, com apreensão e assombro, tenho escutado de alguns quadrantes da sociedade moçambicana, políticos, sócio-económicos e, mesmo (pasme-se!) académicos(!), com uma insistência que raia a afronta indecorosa e irresponsável, afirmações do género: “precisamos de riqueza não de teorias”, “não é com palavras que se desenvolve o país”, “empreendedorismo faz-se com trabalho não com livros”, “a academia precisa de produzir riqueza e não andar a escrever livros bonitos”, etc…

E a agravar esta percepção temos a perversa associação feita entre o livro e as ciências sociais, as humanidades e todos os seus correlatos que surgem assim interligados se não como uma das causas do nosso atraso quase endémico, pelo menos como factores de entrave para o salto que se pretende dar. Isto, justamente, porque na óptica esclarecida dessas pessoas, esses domínios representam teorias e ideias estéreis, imobilismo, parasitismo e alienação em relação a questões fundamentais para o desenvolvimento do país.

Por outro lado, está claramente implícito nas pressuposições destas respeitáveis figuras que se, por um lado, a riqueza só pode ser material, por outro, ela irá brotar somente quando os homens meterem desenfreadamente as mãos na terra, nas ferramentas, nas máquinas e nos negócios. Mais grave, ainda, um estranho golpe de amnésia faz com que se esqueçam que tanto eles como o mundo chegaram onde chegaram, por terem franqueado a entrada para os trilhos da edificação pessoal através do conhecimento, especialmente daquele que está sistematizado nos livros.

Penso que podemos encontrar parte da justificação destas posições nas razões que, de seguida, proponho:

· primeiro, devido a uma enraizada e atávica reminiscência da matriz cultural do nosso colonizador disseminou-se, neste país, uma cultura de afirmação intelectual, social e profissional que, cada vez mais, assenta na pose, no estatuto, no cargo que se ocupa, no título académico (doutores e outros que tais) e nas mesuras ao poder do que propriamente na capacidade de intervir produtiva, crítica e qualitativamente na resolução das grandes questões do país

· segundo, o desregramento galopante de valores a todos os níveis que fazem as pessoas perderem, ou não adquirirem nunca, a capacidade de destrinçar o essencial do acessório, o contingente do estratégico e o efémero daquilo que é duradoiro

· terceiro, a colagem ao princípio da performatividade, responsável pela hegemonia da racionalidade técnica e tecnológica, e que adoptado de forma apressada e perfunctória leva as pessoas a acreditarem que só é válido tudo aquilo que tem uma aplicação prática, visível e imediata

· quarto, a crise da legitimação do conhecimento muito bem analisado por Jean-François Lyotard no seu livro A Condição Pós-Moderna (1989), onde entre outras colocações, o autor chama a atenção para o facto de se viver um dilema sobre o estatuto actual do saber científico que torna mais vincada a questão da dupla legitimação: quem decide o que é o saber e quem sabe o que convém decidir. Daí que a subordinação das universidades aos poderes (político, económico) e às demagogias é apenas um passo. Isto é, deixam de ser as instituições de ensino superior a determinarem os critérios da sua auto-legitimação e de legitimação das competências fundamentais para o desenvolvimento do saber e da sociedade.

Que ninguém tenha dúvidas que a riqueza de um país vai resultar da cultura de trabalho que for assumida sábia e responsavelmente por cada um e por todos os cidadãos dessa nação. Mas que se desengane quem acreditar que essa riqueza será fruto única e exclusivamente do trabalho braçal, da monótona circularidade das máquinas e dos negócios que se possam desenvolver, no nosso caso, muitas vezes, de forma obscura, penosa e inconsequente. Ou, por outro lado, estará redondamente enganado quem assumir que o conceito de riqueza se circunscreve única e exclusivamente à realidade objectual e aos bens materiais.

Duas das grande revoluções que permitiram o saldo intelectual e tecnológico do Ocidente, Revolução Científica (secs. XVI-XVIII) e Revolução Industrial (séc. XVIII), só triunfaram, efectivamente, e tiveram o alcance que tiveram e cujos efeitos perduram, porque foram acompanhadas e profundamente alimentadas por um sistemático, intenso e profícuo exercício filosófico e humanista. Temos, neste particular, entre outros, Erasmo de Roterdão, Francis Bacon, René Descartes, John Locke, Thomas Hobbes, Diderot, Kant, Voltaire, Montesquieu, Rousseau, etc…

O inquestionável sucesso desenvolvementista de países como o Japão, a China, a Índia, a Coreia do Sul, Singapura só é real porque o investimento nas tecnologias é acompanhado, quando não antecipado, por uma profunda e consequente profusão de ideias e de teorias, das mais arrojadas às mais realistas, das mais mirabolantes às mais pragmáticas. E sobretudo porque existe um profundo lastro humanista materializado no lugar que a cultura e o próprio homem ocupam nas estratégias que se inscrevem no projecto de país que cada uma dessas nações desenha e define claramente.

Num país como a China que, como é sabido, de há uns anos para cá vem apresentando os maiores índices de crescimento económico, em todo o mundo, e num regime político muito rígido, a acção de intelectuais, em que, entre outros, se destaca o historiador Wang Hui, tem levado o governo a flexibilizar as suas posições e a introduzir alterações profundas em questões de impacto social como seja a melhoria das condições dos trabalhadores nas cidades e no campo, no maior respeito pelos direitos humanos, em geral, ou caso da aplicação da pena de morte, em particular.

Do saber e da liberdade de pensar

Retomando as posições a que fiz referência, no início, gostaria de tentar desfazer alguns equívocos:

· primeiro, a insistência na demarcação epistemológica entre ciências sociais e humanas e ciências naturais e tecnológicas, ou entre saber teórico e saber prático ou, simplesmente, entre ciência e técnica; trata-se, obviamente, de uma distinção dicotómica, de natureza anacrónica e que resulta do facto de se resistir a perceber, ainda, as grandes transformações teóricas, científicas, culturais e filosóficas que se vêm processando desde os meados do século XIX e que demonstram a inutilidade, ineficácia e a falta de sentido desse tipo de dualismos, perante uma racionalidade que, segundo Boaventura de Sousa Santos, em Um Discurso sobre as Ciências (2003), é aglutinadora, problematizadora e pluralista. Por outro lado, a vocação interdisciplinar das ciências pós-modernas e a crise das evidências fazem ruir as demarcações que a viva força se tentam fazer entre os vários campos de conhecimento.

· segundo, não existe desenvolvimento real e efectivo enquanto não houver clareza e honestidade intelectual na definição de estratégias. E toda a estratégia, para ser bem sucedida, é incompatível com visões imediatistas, miméticas, dogmáticas, sectárias e míopes. Acabei, há dias, de ler Memórias em Voo Rasante (2006) de Jacinto Veloso, um livro extremamente interessante e curioso sobretudo por aquilo que ele não diz. Julgo que o princípio que, segundo ele próprio, rege a acção da diplomacia entre serviços secretos de “nunca falar mentira e raramente dizer a verdade” será o grande responsável por essa estimulante margem do muito que ficou por dizer. Nesta obra, são várias as passagens em que o autor não só sugere como faz referência aos inúmeros erros que foram cometidos ao longo destes últimos quarenta anos – acto absolutamente notório por ser raro, como se fosse sustentável acreditar-se que ninguém se engana, ninguém comete erros e ninguém tem dúvidas -, como também insiste quer na necessidade se um projecto do país realista, consistente e consequente quer na importância de estratégias eficazes para viabilizar esse mesmo projecto. “Recordar Eduardo Mondlane”, como último capítulo do livro, parece-me, neste aspecto, uma escolha eloquentemente significativa e intencional.

· terceiro, meter no mesmo saco, ciências sociais, livro, cultura (refiro-me a cultura como edificação), como alvos a abater, implícita e explicitamente, é bem um dos grandes sintomas de ligeireza do nosso tempo e da tirania do materialismo pós-industrial e rasca. E é também revelação do temor que se tem em relação à palavra enquanto expressão de ideias livres, plurais, dinâmicas, construtivas, inconformadas, diversificadas, questionadoras. Sobretudo, enquanto afirmação de sabedoria e de um apurado sentido crítico.

Sabemos todos que por razões várias, internas e externas, os países africanos vão teimosa e dolorosamente disputando os últimos lugares na lista dos países em vias de desenvolvimento. A expressão “vias de desenvolvimento” não passa, em muitos casos, de um eufemismo que disfarça mal a aviltante condição dessas nações.

E teimosamente continuamos a não perceber que o défice intelectual, reflexão e de debate (não a demagógica e populista; aliás, o Elísio Macamo tem várias vezes apelado para a questão da competência no debate) vai impedindo que as nossas mentes e vontades vislumbrem as soluções e os caminhos que, adequados ao nosso tempo e aos nossos circunstancialismos, verdadeiramente nos iriam colocar nos trilhos de um desenvolvimento real, sólido e irreversível.

Nenhuma sociedade, especialmente no mundo actual, se pode considerar minimamente funcional e estável enquanto não assumir o conhecimento, na sua totalidade e profundidade, como seu maior fundamento.

Num livro já antigo mas muito actual, Jean-Marie Domenach, em O Retorno do Trágico (1968), chama a atenção para o facto de toda a sociedade em transformação pedir aos seus intelectuais doutrinas estáveis, onde os enigmas encontrem soluções e o sofrimento consolação. Isto é, só o pensamento sistemático, livre, fundamentado e diversificado assegura um destino mais suportável e mais risonho para os países.

É, nesta conformidade, e com lúcida frontalidade, que o historiador congolês Elikia Mbongolo, numa entrevista reproduzida pelo semanário Savana (23/02/2007), reconhece que não existe propriamente uma intelligentsia real, em Moçambique, capaz de, à semelhança de outros países africanos como o Senegal, o Gana, o Quénia e a Nigéria, debater os interesses do país, tomar posições e fazer avançar as suas resoluções. Para ele, um intelectual tout court, deve assumir uma liberdade de análise, de abordagem, de tom e de palavra.

Muito recentemente, perante a absurdidade do morticínio e da devastação causada pela explosão do paiol, nos arredores da cidade de Maputo, foi notória a inépcia e quase inexistência dessa intelectualidade que, encolhida e temerosa, ficou-se pelo silêncio envergonhado e pela indignação sussurrada. A reacção espontânea, por isso talvez desarticulada e desapoiada, de cerca de sessenta pessoas, maioritariamente jovens, numa manifestação rápida e desproporcionalmente reprimida e abafada, demonstrou que nem tudo está perdido. A indignação funciona, muitas vezes, como uma válvula de escape daquilo que as pessoas têm de mais profundo e nobre.

Há dias, colocava os meus estudantes – como o tenho feito sempre na minha actividade como professor há cerca de vinte e cinco anos – perante um dos desafios que considero absolutamente prementes e inadiáveis para o nosso tempo e para a nossa sociedade, em particular: eles (todos nós, afinal) tinham que rapidamente escolher entre pertencerem à massa pensante, crítica e inconformada ou serem simplesmente massa esparguete.

Não tenho dúvidas, também, que o processo de esparguetização desta sociedade está em curso e de forma acelerada. Basta que nos detenhamos a olhar para o espaço público e para espaços que deviam ser verdadeiras fábricas de soluções e de conhecimento, caso das universidades, e verificar como todos eles estão invadidos pela incompetência, o aventureirismo, o analfabetismo funcional, a subserviência, o arrivismo, a impostura intelectual e uma assustadora ausência de profissionalismo indiciando uma insuportável tibieza no que concerne a posturas, atitudes, valores e exigências.

Ode à riqueza do espírito

Entre muitas coisas que se nos vão impondo, a cada um e a todos, o que precisamos, mesmo, é de produzir muito pensamento, muita investigação, muita imaginação (sobretudo muita imaginação para nos sabermos reinventar a nós próprios e aos nossos destinos), muita cultura, materializados em ideias, arte, ciência, acções concretas e livros infindáveis, belíssimos e úteis.

Livros com muita teoria e livros com um incomensurável sentido prático e da realidade.

Livros que nos ensinarão a escolher as melhoras culturas para a nossa agricultura precária, as melhores máquinas para a nossa indústria quase inexistente, os melhores instrumentos para contornarmos a nossa indigência quase generalizada.

Livros com os quais aprenderemos a melhor desenhar e construir as nossas casas, escolas, hospitais, estradas, pontes e barragens. E que nos expliquem, sobretudo, como criar uma burguesia forte, instruída, trabalhadora e patriótica.

Livros que nos permitirão ter melhores médicos, melhores professores e melhores técnicos, no geral.

Livros que exprimirão e elevarão a nossa sabedoria, livros que resgatarão o que de melhor existe dentro de nós, livros que nos ensinarão a melhor governar os nossos atormentados países, territórios inóspitos onde escasseiam os livres pensadores, a criatividade e a possibilidade de intervenção efectiva e consequente.

Livros, enfim, que nos farão melhores cidadãos, tanto do país em que vivemos como do mundo que aspiramos habitar. Cidadãos conscientes dos nossos direitos e dos nossos deveres.

Livros como o que foi superiormente escrito por Adam Smith e por outros em múltiplos e variados domínios de conhecimento, ou, então, os que nos têm sido legados pelas consciências verdadeira e notoriamente iluminadas por esse mundo fora e ao longo dos tempos: Homero, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Proust, Henry James, Jane Austen, Thomas Mann, Dostoiewski, Machado de Assis, Pessoa, Kafka, Hemingway, Jorge Amado, Sartre, Senghor, Cesaire, Nkrumah, Cesare Pavese, Fanon, Garcia Marquez, Nadine Gordimer, Soyinka, Chinua Achebe, Craveirinha, Cotzee, etc, etc, e que são, afinal, a suprema expressão da riqueza das nações e da humanidade. Por isso mesmo, todos eles, livros belíssimos, incontornáveis e imortais.

Não tenho dúvidas de que a respiração de uma nação é feita através produções de espírito que ela realiza. Em especial, dos livros que ela lê, produz e faz circular.

Para terminar, entendo que o desafio primordial que se nos coloca antes de continuarmos a falar em desenvolvimento e de combater o que quer que seja, será o de clarificarmos, individual e colectivamente, qual a nossa relação com o pensamento livre, questionador, consequente e plural, pensamento como real expressão de elevação, de sabedoria e de cultura. O que pretendemos, afinal, a sua demonização ou a sua consagração?

Maputo, Abril de 2007

Futebol e Desenvolvimento

[retirado daqui]

Bruxelles, le 9 juillet 2006

La Commission européenne et la FIFA signent un protocole d’accord en faveur du football en Afrique et dans les pays des Caraïbes et du Pacifique


Désireuses d’unir leurs forces, la Commission européenne et la FIFA ont signé un protocole d’accord visant à faire du football un moteur du développement en Afrique et dans les pays des Caraïbes et du Pacifique.

Il faut savoir, par exemple, que, dans toute l’Afrique, environ 50 millions de personnes jouent au football régulièrement – et les joueurs occasionnels y sont encore bien plus nombreux. Pour nombre de ces enfants, de ces hommes et de ces femmes, le football n’est pas seulement un sport formidable: pour ceux qui vivent dans des pays déchirés par les catastrophes naturelles, la guerre ou la pauvreté, il s’agit aussi d’un acte de survie. C’est un moyen de rétablir la normalité dans des communautés traumatisées, de faire renaître la confiance et d’inciter à la tolérance et à la solidarité. Le football peut et doit être un instrument de développement en Afrique.

Pour de nombreux pays africains, la Commission européenne est un partenaire politique et financier essentiel. Chaque année, la Commission européenne consacre environ 3,5 milliards € à l’aide au développement en Afrique. La FIFA propose d’apporter son savoir-faire, en tant qu’instance dirigeante du football au niveau international et premier organisme sportif au monde. Ce protocole d’entente couvre des domaines très variés, depuis les droits des enfants jusqu’à l’intégration sociale et la lutte contre la discrimination, en passant par la santé et les efforts de reconstruction au sortir des conflits.

M. José Manuel Barroso, président de la Commission européenne, a affirmé: «Le football a un grand pouvoir – celui de rapprocher les gens. Cet aspect est particulièrement important dans la perspective de la prochaine Coupe du monde de la FIFA, en 2010, qui, pour la première fois, sera organisée en Afrique du sud. Cette initiative permettra au football de contribuer à renforcer les capacités de développement dans le monde.»

M. Louis Michel, membre de la Commission chargé du développement et de l’aide humanitaire, a déclaré: «Je suis souvent impressionné de voir, dans les camps de réfugiés que je visite, des enfants qui jouent au football, pieds nus, en arborant des tee-shirts de Ronaldinho, Drogba, Zidane, Figo… Ce sont les héros modernes de notre époque mondialisée. Le football est un sport puissant. Si nous parvenons à tirer parti de cette puissance gigantesque en l’associant à nos programmes de développement, nous pouvons améliorer la vie de millions d’enfants.»

La Commission européenne et la FIFA ont également décidé d’utiliser le sport le plus populaire de la planète comme tribune pour donner une image positive de l’Afrique. Au moins 30 milliards de personnes ont regardé, en moins en partie, la Coupe du monde de football en 2002 – un chiffre qui sera sans doute dépassé cette année. La FIFA et la Commission veulent saisir l’opportunité qui leur est donné, par cet événement si populaire, de faire connaître les potentialités de l’Afrique et de mobiliser les gens contre le racisme et la discrimination.

«Le football, c’est l’école de la vie, qui touche à tous les aspects de notre monde. La prochaine Coupe du monde de la FIFA organisée en Afrique du sud fournira une chance historique d’utiliser l’influence du football pour promouvoir l’éducation et la paix et lutter contre le racisme et les maladies. Ce protocole d’accord signé avec la Commission européenne constituera une bonne base pour le projet ‘le football pour un monde meilleur’, destiné à aider la jeunesse de notre monde», a indiqué M. Sepp Blatter, président de la FIFA.

Cette coopération entre la Commission et la FIFA débute à moment crucial. En décembre l’année dernière, les dirigeants de l’Union européenne, résolus à renforcer leur engagement en faveur du continent africain, ont adopté une nouvelle stratégie globale pour l’Afrique. À la même époque, la FIFA a pris la décision, historique, de choisir, pour la première fois de son histoire, un pays africain pour accueillir la prochaine Coupe du monde de football.

Grâce à cette décision symbolique, l’Afrique se retrouvera, comme l’Europe avant elle, au centre de l’attention du monde entier. Au cours des quatre prochaines années, la Commission européenne et la FIFA veulent se servir de cette dynamique pour améliorer la vie de millions de citoyens africains.

No Ideias para Debate Q. Langa procura encetar um debate sobre sexualidade e identidades sexuais em Moçambique. Não acho que seja dos seus melhores textos, mas é uma pedrada no silêncio público aqui sobre tais temas. [Lembro exposição "As Manas" sobre prostituta/os travestis, apresentada em 2003 na Associação Moçambicana de Fotografia - um desconforto generalizado, uma falta de jeito visível no nervosismo dos visitantes].
Há “coisas sobre as quais não se fala”. Ou porque aqui “não existem” (o “homossexualismo”) ou porque não é coisa de “bom tom” (o “heterossexualismo”). A não ser nas conversas do entre nós, à mistura das gabarolices, lendas individuais, falsas voracidades.

O subdesenvolvimento é isto. Não falar.

Ainda crescimento e educação, mas para além disso

Respondeu, amável, João Miranda ao que aqui deixei, meio atabalhoado. Tem razão o comentário do MiguelS, ele próprio muito mais dotado e tarimbado para falar da economia daqui, já deixei texto excessivamente longo. Mas ainda assim regresso ao tema, maçando, pois certas palavras são como as castanhas do caju. E regresso face ao texto de JM pois parece-me que não terei sido explícito, ainda que longo.

1. Eu não afirmo que o investimento na educação seja universalmente precedente, e causa do crescimento económico. Foi afirmado uma relação causal empírica, procurei (e demorei) afirmar que quanto muito serão, neste caso, concomitantes. (JM sublinha 10 anos de crescimento económico, eu claro que concordo, mas vou dizendo que são 30 anos – incluindo os da guerra – de acelerado crescimento educacional: e isto num país ainda muito pobre e ainda com baixa escolaridade).

2. Sublinho que a essas precedências causais torço o nariz. Um pouco similar é o postulado mainstream actual, o qual afirma a democracia como causa do desenvolvimento. Também aqui acho muito forçado a universalização. Afirmo-o aqui para reforçar a minha reacção ao texto de JM. Não lhe quero inverter causalidades, discordo do exemplo empírico escolhido e, mais do que tudo, da abordagem.

3. Enquanto meio para o crescimento económico (e eu fujo a encher o Ma-Schamba com a questão da relação nada linear crescimento-desenvolvimento, aqui não é o meu local de trabalho) posso interrogar-me se uma sociedade sem recursos endógenos ou exógenos pode investir na educação. Aí JM terá razão. Mas também poderemos questionar se uma sociedade sem recursos humanos formados pode produzir e integrar/reproduzir a riqueza produzida? Não falo de “pescadinhas de rabo na boca”, soluções eunucas. Falo de que me choca a linearidade causal.

4. Há uma dimensão implícita no texto de JM, e também no meu exemplo paralelo. É a educação um meio ou um fim, um instrumento ou um valor em si? Ou, para retomar a dicotomia a que eu apelei, é a democracia um meio ou um fim, um instrumento ou um valor em si?

5. No que toca à formulação de JM a subordinação causal não surge como mera descrição. É também uma postura intelectual. Não quero violentar o pensamento alheio, mas parece-me óbvio que o que afirma é um privilegiar do investimento social no crescimento económico em detrimento de uma política sublinhando a educação. Mais, quando diz que “os países que investem” eu não resisto a lê-lo como afirmando (e estou a interpretar o bloguista que já vou conhecendo) “os Estados que investem”.

Esta é uma posição política crítica perfeitamente legítima. Aquilo que me choca é assentar (pelo menos bloguisticamente) em generalizações apressadas que, e desculpo-me do imperativo, a ilegitimam. Torno a chamar a atenção para o comentário do Luís Aguiar-Conraria sobre os pressupostos da utilização da comparação.

6. Vai longo e não quero maçar mais. Apenas isto. Porquê tanta linha sobre blog outro? Acho piada ao Blasfémias, uma azáfama. Mas mais do que isso, é muito interessante ver um blog liberal cheio de sucesso e leitores. Eu não me revejo no liberalismo económico, talvez costela aqui ou ali, mas espinal medula social-democrata. Mas em Portugal não há tradição de pensamento e disseminação de informação sobre o liberalismo: herança católica, fascismo e coorporativismo, sua oposição muito marxizante, uma democracia estadocentrada (por herança do brevissimo período revolucionário mas acima de tudo porque sistema de reprodução política).

Daí que um blog liberal, cheio de gente de boa e rápida tecla é interessantissimo e mais do que tudo, bem-vindo. Talvez por isso me irrite tanto com a pressa linear que vou aqui e ali descobrindo – ainda que não esteja a exigir uma revista filial de universidades inglesas, claro está.

7. Referir o interesse do Blasfémias não é afirmar-lhe nenhuma responsabilidade social. Credo! Tudo menos isso. Já disse, e repito, cada blog como cada qual (ou quais). Do bloguismo, e repito-me de novo, velho, acho que o mais interessante é o fenómeno de auto-edição (poesia, prosa, desenho, foto) e colectânea. Mas esta disseminação da expressão escrita política é também fundamental, ainda para mais cruzando gente a pensar diferente, o que talvez impelisse a um menor linearismo (palavra aqui posta para fugir ao panfletarismo, que é assim um bocadinho agressivo). E neste sentido aqui chamo a atenção para um texto ao qual cheguei via Ideias-Soltas, colocado no Albardeiro, blog que desconhecia.
Cito-lhe excerto: “Pelo contrário, a blogosfera permite o alargamento exponencial daquilo que Pierre Bourdieu define como “competência social” para ter opinião política, retirando-a do domínio exclusivista da tecnicidade burocrático-profissional. E se, em muitos casos, essa dimensão interventiva dos blogs ainda não se verifica, como diz o ditado “o caminho faz-se caminhando”.
E acho que caminharemos melhor se juntarmos a ligeireza e a brevidade do post com um bocadinho menos de pressa. Falo da educação em Moçambique? Também, mas muito das irritações deste Ma-Schamblog, como disse o Mar Salgado.
A seguir a esta verborreia vou passar uns dias a meter fotos, claro está.

Crescimento e Educação II

Concluindo o texto ontem encetado, relativo à utilização que João Miranda fez do caso moçambicano para afirmar dissociação entre educação e enriquecimento nacional.

JM baseia o seu raciocínio numa consideração. Moçambique tem uma baixa taxa de escolaridade. Portanto pressupõe uma não aposta na educação. Relaciona isto com o facto de que Moçambique ter um elevado crescimento económico (10%). E assume o corolário lógico, que logo generaliza (“globaliza”?), a educação não é anterior ao crescimento económico.

Não vou aqui discutir essa tese. Mas o caso empírico que serve, indutivamente, para provar a afirmação de JM.

1. Moçambique tem uma baixa taxa de escolaridade, mas isso não implica uma não-aposta. Recorro, sumariamente, à história. À época da independência a população escolarizada era mínima. Sei que dizer isso para leitores portugueses é estar a chamar o coro dos “eu tinha colegas negros no liceu”. Honestamente não vale a pena discutir com esses, ainda hoje vêm o mundo do tamanho do seu quintal de então (onde, dizem, tratavam bem os empregados) e da sua sala de aula. E 30 ou 40 anos depois ainda não cresceram.

Com os que vale a pena argumentar poder-se-á resumir: o ensino (tal como a sociedade) era muito racializado; a população negra que ascendia ao ensino secundário era da camada “assimilada” (pouco mais de 1% da população) e mesmo nesta nem todos o conseguiam. Esta chegada ao ensino secundário foi tardia, na sua maioria nos anos 60. As causas desta barreira racial não são estranhas: a criação de uma camada negra formada era vista como inútil (racismo explícito), perigosa (criação de mentes independentistas ou rebeldes), contraproducente (criação de uma concorrência no mercado de trabalho face aos portugueses – aliás houve uma política de branquização dos serviços no LM de finais de XIX, em prejuízo de uma pequenissima camada “crioula” então existente) e desnecessária (não esquecer que a própria população portuguesa era muito pouco escolarizada: “o vinho é que induca”).

O ensino avançado restringia-se a essa pequena parcela de filhos de “assimilados”, do qual uma ínfima parte ascendeu à universidade. Havia ainda um ensino proporcionado em especial pela Igreja Católica, que tendo dimensão quantitativa (muito propalado no mito colonial, e ainda hoje) se restringia, na sua maioria, a uma espécie de 3ª classe muito rudimentar. Refiro ainda outras missões cristãs, de difícil relacionamento com o Estado de então, e com políticas mais extensivas de ensino.

Na independência escasseiam os quadros. Retiram-se (por vontade própria e muito por indução) os portugueses.

Daí em diante houve um esforço na criação de um sistema educativo. Até com uma crença, que hoje parecerá estranha, nas capacidades endógenas, cria-se no final do subdesenvolvimento em vinte anos. Um típico voluntarismo revolucionário.

Depois a guerra civil. Múltiplas causas. E um dos efeitos será o da destruição do sistema educativo entretanto criado. Pela guerra, pela deslocação de populações. Mas também pelo facto de que o professor rural, tal como o enfermeiro, era o símbolo do Estado, o funcionário do Estado no mundo rural. Donde o primeiro alvo.

Após a paz de 1992 retoma-se a construção de um sistema de educação generalizado. Julgo que cerca de 1997 a cobertura estava já ao nível de 1983, quando os efeitos da guerra começaram a implicar a sua retracção. Tem continuado a crescer, ainda que com enormes lacunas. Na segunda metade de 90 criaram-se 7 Institutos do Magistério Primário, procurando aumentar número e qualificações dos professores. Alarga-se a formação de professores do ensino secundário ao centro e norte. Etc, etc.

Também o ensino superior foi crescendo em número, sendo descentralizado. Crescem as universidades privadas, que contam com apoios indirectos do Estado. Em suma, há uma verdadeira aposta na educação. Digo-o consciente do gigantesco deficit que o sistema de educação moçambicano tem. Mas esse deficit não pode ser considerado uma não-aposta. Deve é ser considerada uma aposta realizada a partir de condições muito frágeis, muito incipientes. E num país com muito poucos recursos, e muito dependente nesta matéria da ajuda externa. E nessa condição ser uma política passível de críticas. Mas isso são contas de outro rosário, não aqui, não meu.

Ou seja, a base do raciocínio de JM, a não aposta na educação porque há baixa taxa de escolaridade é totalmente falsa.

E atenção, seguindo-lhe a metodologia de raciocínio. Se um exemplo de JM serve para provar a sua tese, será que afirmar-lhe a inexactidão empírica é suficiente para a infirmar?

2. A economia cresce 10%, é fantástico. Mas as estatísticas são muito falíveis, os sistemas de recolha de informação são muito frágeis, como em grande parte da África subsahariana. É voz corrente, ainda, que as estatísticas moçambicanas foram durante anos a fio subavaliadas, no sentido de garantirem posições privilegiadas na recepção de ajuda internacional. Mais, aquilo que é economia “formal” e “informal” e suas interrelações é muito fluído, no ano-a-ano. Portanto é possível relativizar o tal crescimento. [E isto não nos poderá surpreender, sabendo o local estratégico que o INE português constitui].

Mas mais importante, este crescimento económico assenta em alguns, e muito poucos projectos. A instalação de uma fábrica de alumínio em Maputo, a Mozal, implicou um crescimento macroecómico na ordem daquilo que JM fala, e o seu desenvolvimento continua a influenciar os agregados macroeconómicos. O reestabelecimento da produção de Cahora-Bassa (aliás associado ao funcionalmento da Mozal) inflaccionou estes números. Há, aceite-se, uma lenta melhoria económica do país (notícia de agora, a produção de açúcar a níveis do tempo colonial). Mas os números não são assim tão mágicos, reflectem o impacto de poucas unidades de capital estrangeiro (e exportável, atenção) numa economia praticamente desindustrializada. Não estou a criticar o modelo, estou a constatar.

Ou seja, falar de um grande crescimento económico deverá acompanhar duas questões. Sobre a natureza dos números, o seu efectivo fundamento. E, acima de tudo, sobre o seu impacto social. Quando falo de “social” não estou a falar de redistribuição, pobrezinhos e etc. Estou a falar do seu impacto na sociedade, e nas suas modalidades de reprodução.

Ou seja, o segundo termo da equação de JM é muito discutível [eu não sou economista, não posso mergulhar nesta contra-argumentação com tanto arreganho como no ponto anterior]. Se um exemplo de JM serve para provar a sua tese, então afirmar-lhe um exemplo discutível servirá para lhe provar o contrário?

3. A articulação entre educação e crescimento tem aqui um exemplo interessante. Já aqui falei da Mozal, fábrica de alumínio de aparência sul-africana, bandeira australiana, capital da Mitsubishi, mas verdadeira sede alemã. O seu impacto na economia (os tais números) do país foi gigantesco. É uma unidade fabril moderna, ao que parece de ponta – um colega meu, o excelente Paulo Granjo do ICS está a trabalhar sobre ela, e muito mais poderia dizer do que eu. Mas aqui o que será interessante é notar que para uma fábrica de ponta, com processos tecnológicos e organizativos radicalmente novos no país (e salários elevados para este mercado) foram recrutados operários com ensino secundário e licenciaturas – eu próprio tive um aluno de ciências jurídicas que lá é operário. Porque essa escolarização era preferencial para a selecção de futuros operários a trabalharem com metodologias inovadoras no país.

4. Entenda-se, esta minha argumentação, que espero não parecer panegírica, porque não tem essa intenção, não invalida a tese de JM. Nem a discute. Nos comentários ao meu texto o Luís Aguiar-Conraria tece considerações sobre cuidados prévios à utilização do método comparativo. Concordo no global.
É que acima de tudo interessa-me aqui ver como se afirmam verdades gerais assentes em extrapolações sobre casos individuais nada compreendidos. Isto não é um erro inibitório. Se assim fosse não poderíamos falar de algo sobre o qual não fossemos bastante conhecedores (para evitar o extremismo “especialista”). Mas o vigor deste tipo, constante, de extrapolações é uma falência do raciocínio, em última análise matriz dos dogmatismos que o Lutz ali adivinha. No fundo os mesmos processos dos velhos marxistas ortodoxos. Nem mais.
O interesse do real é ser tão complexo. Não cabe num post. Em especial quando o queremos assertivo.

(isto está um bocado mal mastigado, mas hoje terá que ficar assim, que é de madrugada já)

Crescimento e Educação

João Miranda acaba de colocar um texto no Blasfémias utilizando Moçambique como exemplo de uma tese.

1. Há alguns dias que tenho grandes dificuldades em comentar no sistema blogspot, recebo negativas mal-criadas deste teor: “Open proxy detected. Comment posting disabled. If you think you have received this message in error, please contact the webmaster.” Como o Blasfémias tem um ritmo trepidante de colocações julgo que quando conseguir meter algo por lá o texto em causa já estará no limbo do pé de ecrã. Daí que o aborde aqui. Reza assim:

“Moçambique tem das mais baixas taxas de escolaridade do mundo.

Moçambique tem das mais altas taxas de crescimento económico do mundo (na casa dos 10% ao longo dos últimos anos).

Conclusão: os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos.”

2. Para mim JM é um caso complicado na blogosfera portuguesa. Lendo-o há meses, desde os tempos do seu blog individual, confesso que ainda não o percebi. Bloguista talentoso é-o, verve e acutilância, síntese e provocação. Mas é a sério ou é a brincar? A sociobiologia light, os simplismos sobre o liberalismo, as analogias históricas, tudo isto é assim mesmo ou são só carolos para “abrir cabeças”, pedradas na pasmaceira? Confesso-me confuso, medíocre intérprete. Mas custa-me crer num projecto a tão longo prazo de ironia grosseira [leia-se "grossa"] de aparência intelectual (até porque me parece pouco eficaz quanto a “abrir cabeças”). Cada vez mais me convenço em que tudo aquilo é a sério. Se calhar este meu pendor para uma versão “séria” está influenciada pelo actual (e sério) relativo mal-estar de alguns membros do Blasfémias, o qual espero seja em breve ultrapassado. Que aquele postar contínuo já faz parte da blogoespreitadela quotidiana.

3. Isto não é uma questão pessoal, eu leio JM porque gosto de o ler. Se não gostasse ia à minha vida, lia outras coisas, não se justificaria andar para aqui a escrever sobre tudo isto.

Mas tem a ver com o que acho disto tudo, do bloguismo. Há bloguistas que se levam a sério, alguns exageradamente a sério. Outros surgem ligeiros, outros irónicos e, o supra-sumo, auto-irónicos. Há ainda outros insuportavelmente ligeiros.

Cá em casa mora um que tem dias de insuportável auto-convencimento, preocupado com os males do mundo (mais do seu país) e convicto de que a sua palavra vale de algo, heurístico curandeiro. Soberba diria, se católico. Mera estupidez diz, quando mais bem-dormido. Mas entendendo eu um blog como um diário também lhe aceito as variações do humor, e que cada um tem o direito de se achar importante ou desimportante, útil ou inútil, clarividente ou tralalá. E de mudar de ideias ao longo do(s) dia(s).

4. Regresso a JM, porque ilustre blogard. E ao seu post de hoje. Da síntese sobre Moçambique retira uma tese (oops, dialéctica, os alemães, os alemães…): o investimento na educação é exógeno ao crescimento económico.

Ora veja-se, a síntese não vale um caracol. É errada nos seus termos. Absolutos. E relativos (não, não é o temido relativismo, é contextualização, história – e atenção, contextualizar com a história não é historicismo).

[Agora vou à clínica com a miúda, lá para a madrugada continuarei]
[Lamento, fica para logo de manhã]

Bazaruto Goes Beverly Hills [?]

[Ali abaixo, nos comentários, grande comment]

Retirei a notícia daqui.

Bazaruto Goes Beverly Hills

Business Day (Johannesburg)
November 24, 2004

Developers target the rich and famous for island residential project.

MOZAMBIQUE’s Bazaruto Island will soon feature an exclusive residential development aimed at the world’s rich and famous.

It will be the first residential development on the island and the last, because Bazaruto is a nature reserve.

Because of this the resale values of the properties will run into millions of dollars.

Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta are among the potential buyers said to be interested in the development.

Developers Jean Reyneke and Chris Krause, directors of Bazaruto Holdings, will be launching The Palms at Bazaruto today but say it is an invitation-only launch.

Reyneke says the development will comprise 24 stands ranging from 2500m’ to 3500m’ in size and priced from R4,5m.

The buyers will then be given a list of architects and guidelines for the houses they want built, but the common theme will be “colonial maritime”.

Reyneke says the style of properties will be similar to those in Martha’s Vineyard in the US and that the development is aimed at the top 10% of the market.

“We want to recreate The Hamptons in Mozambique,” Reyneke says.

Reyneke says there are 160 palm trees in the central communal area of the site. “It’s the only part of the island where there are natural palm trees.”

Although the land is purchased on a 99-year lease, the owners will receive title deeds once they build their homes.

“We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots,” says Reyneke.

Some of the interested parties include African presidents, as well as businessmen from SA, the Emirates and the rest of Africa.

The Palms is also being marketed in Europe and the US. “In the US we are marketing it directly to people like Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta. The agency I’m using in the US is the Ferrari family, who lease properties to all the A-list stars.”

Reyneke says The Palms is an exclusive development because Bazaruto along with the other four islands off the Mozambican coast have been declared nature reserves and no further development will be allowed. The only other major development on Bazaruto is the five-star Indigo Bay Hotel.

Reyneke says there is also easy access to the island. “There is a brand new tarred 1500m airstrip on the island which can handle corporate jets and other aircraft. The flight from Johannesburg is only two hours long ,” he says.

He says there are also daily scheduled flights with South African firm Pelican Air to the island. He says most people fly to Vilanculos and then either charter a boat or travel by ferry.

***
Pois:

“We want to recreate The Hamptons in Mozambique” em “colonial maritime”. apesar de “We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots”, enfim vão ter que gramar com a vizinhança.

E já agora, aquilo é uma reserva marítima. A primeira vez que eu e a Inês fomos a Magaruque nos dois primeiros dias éramos os únicos hóspedes. Uma maravilha, natural e romântica. Mas ainda assim, tão vazio, do lado do continente havia óleo dos barcos à tona de água. Como será pós-The Hamptons? Apesar do “colonial maritime”?

Ajuda Alimentar e Alimentos Transgénicos

Por falar em causas. Fala-se muito de causas. Há uma cosmologia de causas. Há, e é evidente, uma blogocosmologia de causas no meu Portugal.
E depois há causas, que são também perguntas. Neste caso os alimentos transgénicos e a sua exportação / experimentação através dos programas de ajuda alimentar, muito bem lembrada pelo Blogo Social Português. Estas causas sim, a serem, realmente, discutidas. Haja gente.
Sobre esta matéria há alguns argumentos contraditórios. Eu sou leigo, mas profundamente desconfiado. Claro, tenho referido aqui o meu crescente conservadorismo. Num caso destes as opiniões (grátis, como todas) têm que ser cientificamente fundamentadas, o que não as torna nem certas nem absolutas, apenas honestas.
O que nunca poderá ser aceite como honesto é a obrigatoriedade dos países pauperizados aceitarem (?!) ser cobaias via recepção dos excedentes dos países industrializados. Ou, doutra forma, serem consumidores/viabilizadores de uma (agro)indústria em arranque, e deste modo financiada pelos Estados (liberais???), enquanto não houver nesses países industrializados um contrato social interno sobre esta matéria.

Eu sei que isto acabou, mas tendo este “cantinho de orador” disponível não quero deixar de o utilizar para ecoar a minha alegria com o Acordo na Organização Mundial do Comércio.

É um passo, mas não um pequeno passo. É um grande passo. Não irá resolver tudo, claro. Nem nada o fará. Talvez nem tenha os efeitos grandiloquentes que se antecipam. Mas é um extraordinário momento. Talvez o mais importante dos últimos anos – ainda que os media ocidentais não lhe irão dar essa dimensão, coisa pouca decerto.

É um grande momento para o desenvolvimento das áreas mais miseráveis do mundo. Falo com uma alegria gradualista, entenda-se, sem sonhar com amanhãs dourados. Mas sonhando com amanhãs em que haja menos fome e menos dor. Menos morte adiável.

É também um grande momento para o desenvolvimento do “mundo ocidental”. Desenvolvimento ético e alimentar. Porque é uma decisão menos omnívora do que a estrutura de pensamento que o domina, esse contrato social entre grande capital e populações. Omnívoro não, antes vampírico, canibal.

Curiosidade: ver como os “movimentos sociais” aí de cima vão reagir. Entender onde se lhes acaba a “esquerda”.

E, já que ando em releituras, aqui fica trecho muito apropriado (nem de propósito):

Nada e mais doloroso na sociedade humana, e daí mais difícil de conseguir, do que a mudança das estruturas de direitos…Direitos e privilégios são o mote das revoluções” (R. Dahrendorf, Ensaios Sobre o Liberalismo, Fragmentos, 1993, 24). É isso que aqui estou a saudar.

Posso estar a ser ingénuo, mas esta é a melhor segunda-feira de manhã de que me lembro.

[Ah, e porque a minha alegria não é utópica, quanta mais amazónia cortada para pastarem as vacas agora liberalizadas? Quantos mais machambeiros sem-terra, esta agora bem mais apetecível à agro-indústria?]

Jack Goody

Pois…

A importação em grande escala de produtos estrangeiros permite às massas de hoje gozar os luxos dos ricos de ontem. Estes produtos são o fruto do trabalho desenvolvido nos países mais pobres, tendo as diferenças internas nos padrões de vida dos habitantes dos países industrializados diminuído, pelo menos nas fases iniciais, à custa do crescimento do abismo existente entre o consumo das regiões e nações e o do Terceiro Mundo

(J. Goody, Cozinha, Culinária e Classes, Lx., Celta, 1998:3)