Archive for the ‘Cooperação’ Category

Cidades Africanas

Sexta-feira, Julho 30th, 2010

Num recanto de uma livraria lisboeta (no King) descubro alguns exemplares desta revista, a qual desconhecia.O nº 5 da “Ur. Cadernos da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa“, dedicado a “Cidades Africanas“. Publicada em Maio de 2005 (12 euros). Um maná para nós, interessados – profissional ou afectivamente: tem mais de 20 artigos sobre a matéria. Artigos de Cristina Delgado Henriques, Pancho Miranda Guedes, José Forjaz (e ainda uma sua entrevista concedida a Isabel Raposo), e tantos outros nomes com obras reconhecidas sobre a matéria, José Manuel Fernandes, Maria Clara Mendes, Ilídio do Amaral, Isabel Raposo, etc. Apesar da já antiguidade da revista (5 anos), valerá com toda a certeza um mergulho atento.

Depois o resmungo. Este tipo de revista não esgota, aliás as académicas custam a fazer circular. Esta, como tantas outras, foi publicada com o apoio de instituições estatais. Entre elas o IPAD (instituto português de apoio ao desenvolvimento, a chamada “cooperação”). Com toda a certeza este apoio implica a recepção de exemplares (é a prática usual). Mas estes não são distribuídos, perdendo-se assim a possibilidade de divulgar os trabalhos dos especialistas, por esse modo criando possibilidades de diálogo e, até, de trabalho comum. Nem distribuição de exemplares – há alguma lógica de apoiar isto e não o anunciar/distribuir nas faculdades de ciências sociais com as quais se tem “cooperação”? -nem tampouco a divulgação da publicação (via internet, via delegações nos países com os quais o instituto trabalha). Nada, dá-se o apoio financeiro e pronto, está concluída a função. Passam-se os anos e não muda a atitude. É, entenda-se, falta de gosto no que se faz. Nada mais.

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Lusofonia literária

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Muito bem diz o Henrique Fialho qu’isto de morrerem os escritores é momento em que “pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria.”, e está a falar da morte do Nobel lusófono, Saramago. Percorro os escaparates comerciais da lusófona Maputo e nada – queixar-se-ão que vendem poucos livros? Mas como criticar se nem as vitrinas institucionais o fazem? Não existem (também) para isso?

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ESTAMOS JUNTOS 1 – TUDO BOM 0

Quinta-feira, Junho 24th, 2010

por ABM (Quinta-feira, 24 de Junho de 2010)

Na véspera da data em que Moçambique completa trinta e cinco anos de independência, certamente se vai assinalar a efeméride com a habitual lenga-lenga da longa noite da treva colonial e de que estas três décadas e meia foram uma celebração de virtudes. Alguns mais avisados, fizeram como o meu caríssimo José Luis Cabaço (cujo pai era um distinto sócio do Desportivo, a minha alma mater moçambicana) que aproveitou para dar os retoques finais numa longa (looonga) tese de doutoramento no Brasil sobre o assunto. Numa entrevista que foi transcrita no Jornal de Angola, publicada ontem na cidade de Luanda, Cabaço contou que, entre as bênçãos da (sua) geração que governou depois de 1974, ter logrado manter o conceito da unidade nacional entre os moçambicanos. Tudo bem, mas para que fique registado, não me recordo de os portugueses coloniais terem sequer pensado em retalhar o país. E quando diz que ainda permanece o problemazito “herdado” do tempo colonial” da sociedade a duas velocidades (a da cidade e o pessoal no mato), aí a coisa já dá para algum debate. Ah afinal isto foi herdado do tempo colonial? foi uma coisa desses malandros colonialistas? não terá sido um fenómeno normal em qualquer sociedade rural que se moderniza? e a sua resolução é uma questão política? ah é? e como se vai resolver isso?

Obviamente uma questão para os senhores que vêm a seguir.

Mas, a propósito, queria aproveitar para fazer uma pequena pré-celebração do 25 de Junho. Eu tenho a boa fortuna de estar na lista de distribuição da Ferro & Ferro, uma excelente empresa de comunicação baseada em Maputo, que ao princípio da noite enviou aos seus subscritores um comunicado da empresa de telecomunicações celulares MCel, indicando que no domingo passado, a empresa havia instalado o seu serviço de comunicação celular no longínquo Distrito de Majuni, na província nortenha do Niassa (longínquo para quem está em Maputo, isto é. Para os Majunianos aquilo é a casa deles).

O facto não seria tão assinalável não fosse a nota indicando que, com este melhoramento, certamente muito bem vindo na localidade, a MCel no domingo completou o seu programa de cobertura de todo o território nacional (bem, as Quirimbas vai ser complicado mas há-de chegar o dia).

E se José Luis Cabaço refere a unidade nacional em termos políticos, creio que este anúncio da MCel não é menos significativo e precisamente pela mesma razão: com esta infra-estrutura, Moçambique cada vez mais é só um país e um povo.

Apropriado, na véspera de mais um feriado nacional.

Por isso felicito os moçambicanos e também a MCel. Os países fazem-se, e traçam os seus destinos, por actos como estes.

E o povo de Majuni agradece.


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O Novo “Sítio” de Pancho Guedes no Seu 85º Aniversário

Quinta-feira, Maio 13th, 2010

Hoje no Consulado de Portugal aconteceu a comemoração em Maputo do 85º aniversário de Pancho Guedes. Lançamento do guia “112 Edifícios de Pancho Guedes em Maputo. Lista e Localização“, um roteiro produzido e oferecido pelo consulado, que contém mapa e identificação nominal, com respectivo endereço, da obra do arquitecto nesta cidade. Uma publicação inestimável. Em seu complemento foi lançado um concurso fotográfico dedicado aos trabalhos de Pancho Guedes – o qual para além do fazer reviver os edifícios, de os dar a conhecer, de combater o esquecimento destrutivo a que muitos estão votados, é também forma de procurar a identificação de alguns outros que ainda não estão inventariados neste assumidamente “trabalho em progresso”.

Mas mais, foi ainda apresentado o sítio Pancho Guedes [também ainda em progresso mas já funcional], uma forma de a todos dar a (re)conhecer esse marco da arquitectura no país.

Mais uma vez, e tal como foi aventado aquando da recente visita do arquitecto a Maputo, foi referida a hipótese não só de uma homenagem académica mas também a criação de um local físico dedicado ao seu trabalho e personalidade, uma “casa de Pancho Guedes” – e para isso muito será necessária a intervenção do Estado moçambicano, bem como de instituições privadas, seduzíveis para tal objectivo. Penso que seria muito interessante a sua articulação com instituições portuguesas – e muito obviamente do instituto de acção cultural externa nacional, o Instituto Camões cuja colaboração me parecerá com todo o cabimento (palavra que também tem, como é sabido, uma dimensão semântica explicitamente orçamental).

É imprescindível sublinhar que o ânimo de toda esta actividade em torno da obra de Miranda Guedes tem sido a cônsul portuguesa em Maputo, Graça Gonçalves Pereira. Ao longo dos anos aqui no ma-schamba tenho sido muito parco em elogios pessoais. E ainda bem, pude assim guardar a quantidade disponível para lhos atribuir, até em regime de monopólio. Devidos por esta actividade de diplomacia cultural em torno de Pancho Miranda Guedes mas também por múltiplas outras actividades, públicas e administrativas. É uma personalidade fantástica e, por isso mesmo, uma excepcional diplomata. Pelo seu dinamismo e competência cativou a “comunidade” portuguesa (ou seja, os portugueses residentes) e os seus interlocutores nacionais. A gente está a gostar. Muito. Que se registe isso.

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Freirices

Segunda-feira, Maio 3rd, 2010

(por AL relativamente contente)

"imagem 'roubada' a pagina do clube de fas de Mocambique no Facebook"

Já referi aqui no comentário a um post do ABM que a visita do Presidente Guebuza a Portugal me passou (literalmente) ao lado. Não  que, comigo, tal coisa seja difícil de acontecer, mas foi assim mesmo. Vejo hoje na página do Facebook do clube de fãs de Moçambique, que a visita já deu frutos na forma de acordos de cooperação assinados entre os dois países e muito do agrado de todos.

Em relação à cooperação portuguesa tenho sempre sentimentos mistos. Quando em reuniões internacionais,  as propostas portuguesas eram-me embaraçosas e acolhiam geralmente olhares depreciativos. Embaraço meu devido não tanto aos programas e projectos apresentados, mas sim pela forma como eles eram propostos. As raízes do luso-tropicalismo parecem calar fundo na nossa alma lusa! Lembro-me de um ‘plano de desenvolvimento nacional’ totalmente elaborado nos gabinetes em Lisboa por ‘técnicos e peritos’ que nem um pé puseram no país que pretendiam ‘desenvolver’ e que o representante da cooperação portuguesa teimava em defender com o argumento que ‘ele gostam de nós e nós entendemo-nos. Não há necessidade de deslocar equipas até cá, nem de fazer consultas, porque nós sabemos o que eles querem’. O plano era de tal forma detalhado que incluía mesmo pormenores de carácter político, tais como a forma de descentralização e composição do governo local, a língua nacional, lei eleitoral, etc!

Outro tesourinho deprimente foi uma conferência em Chatham House em Londres, onde o orador português defendia a ‘relação especial’ de Portugal com as suas ex-colónias, tendo mesmo chegado a invocar o tal dito de que Deus fez o branco e preto e o português fez o mulato, para justificar essa relação especial. O chibalo, o xamboco e outros mimos afins do regime colonial tapados assim pela proezas do macho luso e do ‘somos marinheiros, somos albuquerques’.

Mas por outro lado, pondo de lado o discurso luso-tropical, as propostas da cooperação portuguesa pareciam-me bem mais honestas que a maioria. Apresentavam-se nuas, despidas de hipocrisias e chavões (ditos) humanitários; não se escondiam atrás de putativos ideais de desenvolvimento; não invocavam as altas esferas morais que se usam para tapar preconceitos; não disfarçavam o interesse de promover empresários portugueses ( ainda que de dúbia reputação) e as tecnologias portuguesas (sejam elas quais forem). Parecia-me, que a diferença fundamental entre a cooperação portuguesa e a dos outros países residia sobretudo no grau de sofisticação do discurso; na capa de verniz; no menor grau de exigências feitas ao país receptor. O paternalismo condescendente estava ali, sem subterfúgios de cariz moral tão típicos de muitos ditos programas de desenvolvimento ou cooperação. Assim um bocado como a China, só que com menos dinheiro.

Neste caso particular, agrada-me que se estreitem os laços entre os dois países; gosto muito de Moçambique e agrada-me pensar que o país e as suas gentes podem beneficiar com estes acordos. Espero que beneficiem com eles!


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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

Domingo, Fevereiro 14th, 2010

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

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(Des) Retratos

Quinta-feira, Fevereiro 11th, 2010

(por AL sem justificação)

Não tenho particular simpatia por agências internacionais de “apoio humanitário” ou de “auxílio ao desenvolvimento”. Tenho-as visto demasiadas vezes em acção em todo o seu esplendor, para ter por elas qualquer respeito. Uma que “desgosto” particularmente é a Oxfam. Hoje (quase) mudei de ideias.

Abri, como é usual todas as manhãs assim que acordo e enquanto bebo o meu café, o site do jornal Independent e dou com um artigo chamado Rankin in Africa: Images of love in a land of conflict.

Rankin, fotógrafo inglês famoso pelas suas fotos de celebridades, foi convidado pela Oxfam para ir até ao Congo (RDC) fotografar o povo na comunidade de Sange na região leste do país, onde o conflito ainda se mantém. Pretende a Oxfam, obviamente, angariar fundos para os projectos de sanidade e água limpa que tem na região. Pois!

Diz ainda o artigo que a estratégia de Rankin foi fotografar as gentes do Congo com o objecto do seu amor – um parceiro, um livro, um amigo… Pretendia Rankin retirar as pessoas ao miserabilismo das imagens de guerra e sofrimento e retratá-las como qualquer um de nós (nós no sentido do nosso relativo conforto), como seres humanos. Diz Rankin no artigo do Independent: “Queria que as pessoas [os espectadores] se identificassem com a sua [dos fotografados] humanidade, com as expressão dos seus olhos e dos seus rostos. Estas não são nem imagens feias de brutalidade, nem imagens sentimentais de sofrimento. Queria que fossem como que uma imagem do espelho”.

Não podia concordar mais! Já por várias vezes me tenho insurgido aqui no maschamba contra a forma miserabilista com que, particularmente, África e os africanos são retratados; contra a exploração quase pornográfica do sofrimento alheio e contra a falta de respeito e indignidade que tal representa. Alegrei-me por ver um fotógrafo famoso ter esta atitude.

Rankin fotografou uma avó com o neto ao colo, casais jovens, pares de amigos, um miúdo com o seu livro favorito, um homem com a sua viola, e muitos outros. A todos pediu que explicassem porque era aquele/a o objecto do seu amor. Entusiasmei-me com a ideia que me parece fantástica – a de se apresentar o outro que sofre, não no seu sofrimento, que esse a gente conhece por demais, mas sim naquilo que o iguala a nós, no conforto dos nossos amores e na ilusão dos nossos sonhos.

Fui imediatamente ao site correspondente da Oxfam, pronta a redimir-me por todas as minhas críticas passadas e dúvidas presentes. Logo ao abrir da página vejo algumas das fotos de Rankin, reconhecíveis pois ele fotografa toda a gente em frente de um écran branco. Clicam-se nas fotos e aparece o discurso dos retratados. Sim, a razão do amor pelo objecto com que se retratam está lá, mas, sabiamente tecido com o discurso individual, vem o habitual discurso do coitadinho. Pois!

Não mudei de opinião. Portanto!


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Beau Geste

Sexta-feira, Janeiro 15th, 2010

A. é jovem (bem jovem, 18 anos). Em breve partirá de Bruxelas para estudar em Oxbridge. Nestes seus últimos tempos pré-universitários será voluntário (pau-para-toda-a-obra) numa escola da província de Nampula. Esta madrugada fui deixá-lo no aeroporto, de partida para o seu beau geste. De ora em diante acompanhá-lo-ei no Mukwatelo (“gesto”, em macua). Encantadora alvorada de uma biografia.

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“A Invenção das Ilhas”, de Virgílio de Lemos

Quarta-feira, Dezembro 9th, 2009

VirgilioLemos invençaco

Comemorações (já!) do 10º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique. Feliz iniciativa, a de publicar este “A Invenção das Ilhas“, uma antologia de Virgílio de Lemos, organizada por António Cabrita, e que contém ainda uma longa entrevista ao poeta, realizada em 1999 por Carmen Lucia Tindó Secco, para ser integrada na publicação da obra por ela organizada “Eroticus Moçambicanus” (editada por Nova Fronteira). A obra contém ainda, em regime de posfácio, um colóquio do organizador consigo mesmo, “A Buganvília Que Ri. Sobre a Poesia e Outros Suspensórios ou Breve Telegrama para o Virgílio de Lemos, Poeta da Luz e do Tricórnio“. O volume contém vários dos seus heterónimos, Bruno dos Reis, Duarte Galvão, Lee Li-Yang, Virgílio de Lemos, cruzando a produção destes autores desde o início de 1950s até à presente década.

Avisam-me de planos para a publicação da sua obra completa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E ainda a iniciativa da tradução para português de (parte da?) sua obra em francês. Um conjunto de iniciativas que trarão Virgílio de Lemos para o convívio de poetas moçambicanos, uma presença hoje quase invisível como afirma Cabrita. Coisa talvez do seu percurso biográfico, há longas décadas vivendo em França e com muito raras visitas a Moçambique. E também ao relativo esquecimento, apesar do reconhecimento que alguns, como Eduardo Lourenço e Patraquim lhe votam.

Fica, não como exemplo, mas como nota de quem então partiu para não voltar, este poema de 1963, da autoria de Duarte Galvão:

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.


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Águas Correntes

Sábado, Novembro 21st, 2009

(por AL em parceria com Angela McIntyre e apoiada pela WaterAid) -

Na passada quinta-feira, 19 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Retrete sob o auspício da ONG internacional – WaterAid. Ridículo? Absurdo? Pensemos primeiro nisto:

  • 2,5 bilhões de pessoas não dispõem de um local seguro, privado ou higiénico para a importante função vital de defecar
  • 1 grama de fezes contem 10 milhões de vírus, um milhão e bactérias, 1.000 parasitas enquistados e 100 ovos de parasitas
  • O saneamento adequado dos resíduos fecais e a lavagem das mãos depois do acto podem reduzir em 40% as diarreias infantis, responsáveis pela morte de 1,8 milhões de crianças por ano

Pessoalmente tenho que admitir que quando parto para trabalho de campo o que mais me custa é a perspectiva das casas de banho sem água e das latrinas. A imagem da casa de banho pública do Xai-Xai há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida! Não me importam os ossos doridos por dias de solavancos em picadas; passo por cima dos insectos e moscas peganhentas; confio no Baygon verde para tratar dos colchões com vida interior; conformo-me com um chão de palhota para passar a noite; aceito o desjejum com mandioca cozida temperada de fumo; tolero o fato de suor e pó que habitualmente me cobre e que uma mão cheia de água não chega para remover; mas a latrina? A latrina? Confesso: tenho PAVOR da latrina! Aquele buraco escuro que eu suspeito estar cheio de coisas vivas; o oscilar das tábuas quando a terra está ensopada das chuvas; a privacidade questionável; a vulnerabilidade da posição e o cheiro mais ou menos pungente… Tudo na latrina me confrange!

É este meu pavor partilhado pela minha amiga Angela McIntyre, companheira de muitos anos de desconforto latrinal e a única com quem costumo ter estas conversas de m…a. Enviou-me ela, no Dia Mundial da Retrete, um email recordando as piores retretes da sua vida. Apesar de ser em inglês, por termos partilhado tantas delas e pela graça com que ela as descreve, acho que merece reprodução aqui na maschamba:

Toilets Without Borders (by Angela McIntyre)Today is World Toilet Day, and so I pay tribute to the humble loo. There is a spotless, perfectly flushing loo, stocked with ludicrously soft 3-ply, next to a sink with hot running water, a mere 5 meters away from me. In fact, hang on just a second while I, um, powder my nose…Much better. Ok. Where were we? Nampula, Mozambique 1994, the town water supply has been off for 2 weeks and you have to drive 20 or so km to a reservoir with buckets if you want some. Here you flush sparingly, once a day, it is your bath, cooking and drinking water you are pouring down there, and you’ve lugged it up 3 flights of stairs to boot. Everyone else flushes their loo once a day too, and the whole town is positively aromatic. Better to have a hole in the ground when the modcons are unreliable. If you have a place to dig one, that is. Mozambique Island, 1993: one side you can swim on, the other side is the communal toilet, flushed by the tide. Water is just too scarce – it comes from a large communal rainwater cistern at a 300 year old fortress. You wait in the queue til it is your turn to lower your bucket in. You lug it home and boil, literally, the LIVING SHIT out of it, and still get giardia, unmistakable for the tectonic rumble it produces in your intestines and sulfurous breath. I digress. Maputo, 1995: there is an old-fashioned tank with a chain up on the wall, which might actually work if there was water in it, but at least you can fill buckets from the standpipe in the street. Little consolation when you live in a crumbling apartment block with a broken elevator, on the 10th floor. What on earth were those Soviets thinking? Let’s travel a ways north on the public bus – the Machimbombo – as it is fondly called – to Xai Xai, where there is a public loo at the bus station. Its state of perpetual overuse and overflow has compelled someone to simply build a low brick walla cross the doorway to contain the horror, in which there are things swimming, visible to the naked eye. There are new species evolving in there, worthy of a Discovery Channel Documentary. Inhassoro, 2006: I arrive at my new digs, where I will live for 2 years, on the beach, in a thatch-roofed hut. It is charming and typical, waterproof, lit by kerosene lamps at night. Then there is the loo. It is about 20 meters from the hut, 40 at night in the pitch dark. A deep, murky hole with a skimpy wall of reeds around it and a thatched roof. There is a bat nesting in the thatch, which swoops down disconcertingly while you are at your most vulnerable, trousers down around ankles trying not to slip into the HOLE. Some months later I suggest to the UNDP Evaluation Mission, come to look at my community vegetable garden project, that the sanitation here is less than satisfactory. There is no functioning water system in the village and we could use an Improved Latrine Program so we don’t get stinky, messy backups and cholera during the rainy season when the water table rises. They recoil in horror at my loo setup and vow to Do Something About It. Several months later, there is a UN truck spinning its tires in the beach sand outside my hut, villagers diligently trying to push it out. I see they have unloaded a shining, new, modern sparkling bathroom suite. Sink, tub, toilet, and yes, that mysterious other thing known as a ‘bidet’. The villagers gather round, gaping and whispering to one another. The white lady really is mad, it is now official. My village-cred has gone down the hole, but they are kind, charitable people and someone humors me, “Dona Angela, you have the nicest bathroom in all of Inhassoro!” Later we grow tomato plants in the bathtub and water the goats from the bidet. The toilet is cemented over the HOLE, allowing one to launch one’s self more easily to safety and avoid losing a flipflop to the abyss when the bat is startled. It was the nicest toilet in Inhassoro.

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China e África: A Análise de Uma Relação

Segunda-feira, Novembro 16th, 2009

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Por ABM (Cascais, 16 de Novembro de 2009)

Loro Horta, um Visiting Fellow numa Universidade em Singapura, publicou recentemente, no Centro para o Estudo da Globalização da Universidade norte-americana de Yale, um comentário, baseado numa série de entrevistas e visitas que fez no continente, sobre a percepção que os africanos tinham da quase súbita atenção dada pela China às suas relações económicas e políticas com África.

Refira-se ainda que Loro, um académico e consultor, é timorense e o filho de José Ramos Horta e Ana Pessoa, respectiva e actualmente o Presidente e a Procuradora Geral do único país da Ásia que tem esta língua como oficial. Ana Pessoa viveu exilada vários anos em Moçambique durante a ocupação indonésia da sua terra e terá trabalhado em Moçambique nos tribunais.

A conclusão de Loro sobre o assunto é que há actualmente em África – com nuances variando de país para país – duas percepções muito claras mas quase diametralmente opostas em relação à presença, investimentos e forma de estar dos chineses no continente.

Por um lado, as elites em geral favorecem e vêm com bons olhos essa presença, que preenche uma importante lacuna em matéria de investimentos e importação de conhecimentos (know-how), especialmente numa altura em que, quando se sentia uma maior pressão para desenvolver, os países e as empresas ocidentais não só diminuíram o seu empenho no desenvolvimento e nos negócios em África, como ainda dificultaram o processo interligando aos donativos e investimentos todo um conjunto de imposições, desde reformas políticas e administrativas à prática de políticas humanitárias e ambientais as quais são frequentemente percepcionadas como neo-colonialismo ou interferência com as suas soberanias. Sendo conhecido que a China tem-se demonstrado quase ostensivamente blasé em termos dessas questões.

Pelo contrário, o modelo de desenvolvimento económico e social chinês, baseado num dirigismo algo rígido do PC Chinês (Loro chama-lhe em inglês “China’s model of a strong government”) é visto em muitas capitais africanas como uma tentação, senão uma inspiração, especialmente se se tiver em conta aquilo que vêm como a imposição “neo-colonialista” do modelo democrático-liberal ocidental por parte dos investidores e doadores que, reclamam, não funciona na perfeição em África.

Dos investimentos Chineses, alguns em condições particularmente favoráveis e em projectos de infra-estruturas e na agricultura (onde os países ocidentais não investem) resultam ainda parcerias muito interessantes que ajudam essas elites a fazer negócios e assim enriquecer.

Por outro lado, reporta Loro, as classes sociais menos abastadas nesses países vêm muito desfavoravelmente essa presença, a bordejar no racismo anti-asiático puro e duro, principalmente porque invariavelmente o investimento originado na China vem acompanhado de milhares de trabalhadores não especializados (frequentemente em condições miseráveis) para executar os projectos, logo não oferecendo trabalho à mão de obra local e em contraste flagrante com nalguns casos estritas quotas em termos do número de estrangeiros que podem trabalhar numa empresa ou numa empreitada (veja-se os casos em Moçambique e Angola, países que Loro conhece e refere especificamente e em que contrasta esta forma de estar com a dos portugueses, sujeitos ao total cumprimento das leis que limitam a presença de nacionais seus nos projectos).

Adicionalmente, o investimento chinês é também acompanhado por um abrir de portas dos países (visto mais como uma invasão) de pequenos e médios comerciantes, a maioria deles relativamente pobres, que trazem milhares de produtos a preços imbatíveis, competindo contra, e ameaçando, o pequeno e médio comércio local, que é absolutamente crucial para a sobrevivência de milhares e milhares de famílias africanas.

Os chineses tendem ainda a viver isolados do resto da população local e nem sempre seguem as melhores práticas ambientais nos projectos que patrocinam, provocando desconfiança na população e a hostilidade dos grupos ambientalistas.

Loro termina o seu artigo recomendando alguma reflexão sobre estas tendências a ambos os lados e o seu impacto na relação China-África e citando um anterior ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano que não identificou, que em relação à China fez o seguinte comentário: “No fim do dia, é a nossa responsabilidade. Os chineses, como quaisquer outros, têm os seus interesses e extorquirão de nós (o termo usado em inglês é mais violento: “they will plunder us”) aquilo que conseguirem até onde permitirmos. O futuro de África estã nas nossas mãos, tal como sempre tem estado. Deixemos de culpar os outros e de esperar que os outros tenham pena de nós”.


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A cooperação portuguesa a propósito da visita a Moçambique do ministro da Justiça português

Terça-feira, Março 3rd, 2009

Para quem entenda algo de cooperação internacional (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é difícil encontrar causas para a tendencial  ineficiência da cooperação portuguesa em Moçambique. Situam-se na história e na sociologia da administração pública portuguesa e no seu enquadramento cultural. Os anos passam e pouco (algo?) muda.

Corolário dessas características é a hiper-descentralização da cooperação, em que cada organismo estatal português (e aqui inclua-se a dimensão camarária) entende ter uma “agenda de cooperação” própria, a prosseguir com os seus parceiros locais. Para tantos dos intervenientes ou observadores  - e até funcionários – é óbvio ser este traço uma sobrevivência, a permanência da noção da administração diferida, um modus faciendi herdado do tempo colonial em que os organismos metropolitanos articulavam com os governos coloniais/”provinciais”.

No início das relações de cooperação bilaterais, após as independências, essa metodologia de contacto directo afirmou-se, até pelo facto dos organismos públicos portugueses terem acolhido antigos funcionários coloniais, com seus conhecimentos técnicos e pessoais e seus interesses (não obrigatoriamente interesseiros), que imprimiam uma dinâmica e um formato peculiares às concepções de cooperação e sedimentavam os “departamentos de cooperação” ou similares nos organismos públicos. Mas essa geração já não está no activo, a persistência do modelo depende hoje das inércias burocráticas, das reclamações políticas de autonomia sectorial e, não o menos importante, dos estratégias de carreira dos funcionários. Tudo isso impede a racional concentração (financeira e intelectual) desta área da política externa nos organismos devidos, tutelados pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

Resultante desta metodologia economicamente perdulária e politicamente irracional, Portugal acumula “projectos” de cooperação de muito duvidosa viabilidade, real interesse ou capacidade de execução. Os dados estatísticos não mentem: em Moçambique, país onde abunda a cooperação internacional, Portugal tem muitissimo mais projectos agendados do que qualquer outro país, bem como do que todas as agências das Nações Unidas em conjunto. É apenas suplantado, e por escassa margem, pela Comissão Europeia, o maior doador em Moçambique. [Para que não se diga que é maledicência vejam-se os dados aqui e siga-se a documentação possível]. Nunca será demais dizer que esta volúpia “projectista” não é acompanhada nem por meios financeiros consistentes nem, e fundamentalmente, pelos recursos técnicos necessários (seja para co-execução seja para avaliação). E é importante frisar que este modelo baseado na figura do “projecto” está em contra-ciclo face às abordagens abrangentes, dominantes na cooperação internacional.

Um dos efeitos deste formato é o da intensa rede de visitas ministeriais e sub-ministeriais por parte dos governantes portugueses, obviamente excessiva, quantas vezes supérfula, por todos sentida como tal, até ridicularizada. Entenda-se, para além de outros considerandos sobre a sua eficiência, o trânsito governamental português em Moçambique (tal como, presumo, noutros países ex-colónias) é original, para não dizer excêntrico.

Vem isto a propósito de mais uma visita, a do ministro da Justiça Alberto Costa, ocorrida na passada semana, aqui deslocado para negociar o próximo programa trienal de actividades. Uma visita que, nas suas ocorrências, epitomiza o que de mal existe na cooperação portuguesa, nas suas dimensões executiva, conceptual e cultural.

A área da Justiça sempre foi considerada por ambos os Estados como prioritária nas relações de cooperação bilaterais. Para Moçambique tal inscreve-se numa especificidade nacional, considerada a manter, circundado que está por países herdeiros do sistema legal britânico. Daí o interesse mútuo, estratégico, em potenciar as acções nesta área (as duas décadas de ensino universitário a cargo da Faculdade de Direito de Lisboa são um bom exemplo de cooperação).

Por isso mesmo foram surpreendentes as declarações da ministra Justiça moçambicana, criticando publicamente o actual estado das relações de cooperação no sector, e identificando a causa da ineficiência nos próprios termos do acordo bilateral. Surpreendentes porque são inusitadas, ainda para mais em momentos de recepção. Entenda-se, o tom da ministra não se prende com as cíclicas (e até rituais?) retóricas de afastamento entre-Estados, e a isso não deve ser reduzido. É uma crítica política e técnica rara de ouvir a este nível, e evidentemente traduzindo uma desfuncionalidade da cooperação portuguesa nesta área sempre considerada fundamental.

O ministro português apresentou-se com uma vasta comitiva, uma dezena de pessoas, e cruzou o país até à Ilha de Moçambique, picando projectos [um resumo destes na peça da Lusa]. Poupo-me à ira algo demagógica com as despesas havidas – ainda assim tudo aquilo parece excessivo. em contramão a uma imagem de contenção orçamental. É claro que haverá sempre argumentos próprios a justificarem o séquito e os percursos. Mas registo que tamanho grupo não é o costume e que tamanhos desvios não são o costume. E que dão, aqui, a todos, uma óbvia aparência de digressão de veraneio de quem apouca a missão de que está incumbido.

Mas o fundamental serão os resultados. Uma grande delegação para renegociar os termos de um trabalho conjunto considerado vital e em actual depressão. Foram os novos termos ponderados, frutos de uma análise conjunta eficaz, serão potenciadores? Daqui a três anos alguém (?) fará a avaliação, mas parece-me óbvio que não foi isso o acontecido. De novo a incompreensão, a incapacidade para ouvir, analisar, integrar – até para cumprir as obrigações protocolares. Tudo isto emanando de uma atitude cultural que é, pelo menos, anacrónica. E que acampa como adversária dos interesses do Estado e do país. 

Como remate final da infeliz visita surge o ministro Alberto Costa propondo a adesão moçambicana à “Marca Lusófona”. Não valerá a pena insistir no descabido da fixação portuguesa no jargão “lusófono”, muito mais um obstáculo nas relações entre Estados e uma incongruência político-intelectual do que um eficaz instrumento. Julgava até essa retórica um pouco em desuso mas, como se vê, vai resistindo em alguns estratos da semi-intelectualidade ligada às esferas do poder actual. Entenda-se, para além de assim mostrar uma a-política incompreensão dos contextos visitados este discurso ministerial vem poluir as já difíceis relações sectoriais.

Uma perfeita ineficácia, até incompetência. Ainda para mais, e em complemento das problemáticas políticas e ideológicas ligadas ao hastear do jargão lusófono, é incompreensível que se venha a Moçambique, em crucial momento de relançamento de cooperação estratégica, propor uma económica “Marca Lusófona” exactamente quando aqui se procede ao lançamento da económica Marca Moçambique. Tudo mal pensado e, até, mal calendarizado. Um cúmulo de arrogante incompetência que nenhuma benevolência pode transformar em acaso ou distracção.

Claro que nada disto ecoa em casa própria. Nem este caso nem tantos outros. Aqui enquadrados por um corpo diplomático e afim que pratica o mutismo opinativo e, até, a elisão factual, e por uma imprensa pública (RDP, LUSA, RTP) que não arrisca a distância crítica, os agentes deste “modo cooperante” encomendam ainda trabalhos laudatórios na imprensa privada, realizados por jornalistas (quantas vezes juniores) que pouco ou nada compreendem do país que visitam, que pouco ou nada sabem da questão “cooperação” e que, fundamentalmente, estão constrangidos por essa realidade de viajarem a convite do Estado, como se em “missão nacional”. Veja-se, como exemplo, esta inenarrável peça de auto-propaganda, publicada no jornal Sol. O ministro mente. Ponto final parágrafo. O jornalista serve. Aliás, reproduz.

Há muito tempo que é tempo de isto mudar.


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Um euro, uma pessoa

Sábado, Julho 19th, 2008

Caridade, ainda que lhe chamem solidariedade, fraternidade, até internacionalismo, e mesmo (oops) cooperação. Coisas de que está o ateu inferno cheio, quanto mais o crente. Mas está(ão) ele(s) apinhado(s) [partilharemos o mesmo inferno?] de coisas e gentes bem piores: um velho (pois “antigo” aparenta uma cessação) amigo avisa-me deste Um euro por mês, um poço em Moçambique, um projecto ecológico e solidário numa escola da Azambuja, ali ao Alentejo. Não sei se muitos poços brotarão. Mas se a bela professora (e era-o, diz-me a memória) deste modo fizer brotar melhor gente entre os seus vale(rá) a pena: “um euro, um homem”, “um euro, uma mulher”, coisa de formar putos para além do rame-rame do que lá se é. Lá e não só.

(abraço joão nuno. vénia à mana)


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Bronislaw Geremek e a pobreza

Quinta-feira, Julho 17th, 2008

Aqui tomo conhecimento da morte de Bronislaw Geremek.

E logo me recordo das palavras introdutórias ao seu esplêndido “A Piedade e a Forca“, que sempre me acompanham, vivendo como vivo num país subjugado ao calão do Banco Mundial, feito mito omnipresente (e dito omnisciente) da Luta Contra a Pobreza Absoluta, o constante PARPA. Não diz só isto, na sua história da utilização do termo “pobreza”. Mas assim é inultrapassável:

Na Europa do século XIX ainda encontramos em certa literatura polemística e no pensamento social uma visão da pobreza como uma “doença vergonhosa” da sociedade moderna que urge debelar por meios novos. Concomitantemente, porém, assiste-se a uma gradual reformulação da abordagem conceptual das análises sociais e do estilo do discurso ideológico. A crise dos programas filantrópicos, o despertar da consciência social das masas e as mutações nas estruturas da vida política fazem com que seja praticamente eliminado da linguagem económica e social o termo “pobreza” (e “miséria”): porque carrega um sentido subjacente de piedade, apresenta-se como um juízo de valor que confere uma atitude de superioridade ao que o emprega. Essa carga semântica emotiva torna-o demasiado ambíguo para servir de instrumento de reflexão e, portanto, pouco operacional nas investigações da ciências sociais. Todavia, quando se estuda o fenómeno nos seus aspectos históricos (…) assiste-se igualmente ao acentuar da tendência para enquadrar a questão da miséria no âmbito (…) da análise das causas das desigualdades sociais e da repartição do rendimento nacional vem substituir a tradicional problemática da pobreza.”

[Bronislaw Gemerek, A Piedade e a Forca. História da Miséria e da Caridade na Europa, Lisboa, Terramar, 1995 [1986], tradução de Maria da Assunção Santos]


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Homenageando uma amiga

Sábado, Maio 31st, 2008

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[Maio de 2008]

Comemorações do Dia Mundial dos Museus no Museu da Ilha de Moçambique, uma actividade de quatro dias, realizada pelo seu director e pela curadora dos museus da Ilha. Aqui registo de uma das palestras da curadora Sara Teixeira. Minha homónima, minha patrícia, minha ex-colega (de quando eu fui cooperante português), mulher de mão-cheia e de grande paixão profissional pelo que vem fazendo. Com denodo animando os museus locais. E em terríveis condições logísticas existenciais.

Para ela e para as três miúdas – mais novas que a Carolina – um grande beijo. Foi um desprazer nocturno ter que ir carregar-vos os bidões de água. Sem carro numa ilha? E esta agora sem água? Vénia dobrada pelo profissionalismo e pela paixão. Redobrada pela coragem. Tridobrada pelo resto todo.

Aliás, lá de onde vimos já não há gente assim. Partiram o molde, ouvi dizer.

Sara, um abraço ao Rui.


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