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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

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(Des) Retratos

(por AL sem justificação)

Não tenho particular simpatia por agências internacionais de “apoio humanitário” ou de “auxílio ao desenvolvimento”. Tenho-as visto demasiadas vezes em acção em todo o seu esplendor, para ter por elas qualquer respeito. Uma que “desgosto” particularmente é a Oxfam. Hoje (quase) mudei de ideias.

Abri, como é usual todas as manhãs assim que acordo e enquanto bebo o meu café, o site do jornal Independent e dou com um artigo chamado Rankin in Africa: Images of love in a land of conflict.

Rankin, fotógrafo inglês famoso pelas suas fotos de celebridades, foi convidado pela Oxfam para ir até ao Congo (RDC) fotografar o povo na comunidade de Sange na região leste do país, onde o conflito ainda se mantém. Pretende a Oxfam, obviamente, angariar fundos para os projectos de sanidade e água limpa que tem na região. Pois!

Diz ainda o artigo que a estratégia de Rankin foi fotografar as gentes do Congo com o objecto do seu amor – um parceiro, um livro, um amigo… Pretendia Rankin retirar as pessoas ao miserabilismo das imagens de guerra e sofrimento e retratá-las como qualquer um de nós (nós no sentido do nosso relativo conforto), como seres humanos. Diz Rankin no artigo do Independent: “Queria que as pessoas [os espectadores] se identificassem com a sua [dos fotografados] humanidade, com as expressão dos seus olhos e dos seus rostos. Estas não são nem imagens feias de brutalidade, nem imagens sentimentais de sofrimento. Queria que fossem como que uma imagem do espelho”.

Não podia concordar mais! Já por várias vezes me tenho insurgido aqui no maschamba contra a forma miserabilista com que, particularmente, África e os africanos são retratados; contra a exploração quase pornográfica do sofrimento alheio e contra a falta de respeito e indignidade que tal representa. Alegrei-me por ver um fotógrafo famoso ter esta atitude.

Rankin fotografou uma avó com o neto ao colo, casais jovens, pares de amigos, um miúdo com o seu livro favorito, um homem com a sua viola, e muitos outros. A todos pediu que explicassem porque era aquele/a o objecto do seu amor. Entusiasmei-me com a ideia que me parece fantástica – a de se apresentar o outro que sofre, não no seu sofrimento, que esse a gente conhece por demais, mas sim naquilo que o iguala a nós, no conforto dos nossos amores e na ilusão dos nossos sonhos.

Fui imediatamente ao site correspondente da Oxfam, pronta a redimir-me por todas as minhas críticas passadas e dúvidas presentes. Logo ao abrir da página vejo algumas das fotos de Rankin, reconhecíveis pois ele fotografa toda a gente em frente de um écran branco. Clicam-se nas fotos e aparece o discurso dos retratados. Sim, a razão do amor pelo objecto com que se retratam está lá, mas, sabiamente tecido com o discurso individual, vem o habitual discurso do coitadinho. Pois!

Não mudei de opinião. Portanto!

Beau Geste

A. é jovem (bem jovem, 18 anos). Em breve partirá de Bruxelas para estudar em Oxbridge. Nestes seus últimos tempos pré-universitários será voluntário (pau-para-toda-a-obra) numa escola da província de Nampula. Esta madrugada fui deixá-lo no aeroporto, de partida para o seu beau geste. De ora em diante acompanhá-lo-ei no Mukwatelo (“gesto”, em macua). Encantadora alvorada de uma biografia.

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“A Invenção das Ilhas”, de Virgílio de Lemos

VirgilioLemos invençaco

Comemorações (já!) do 10º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique. Feliz iniciativa, a de publicar este “A Invenção das Ilhas“, uma antologia de Virgílio de Lemos, organizada por António Cabrita, e que contém ainda uma longa entrevista ao poeta, realizada em 1999 por Carmen Lucia Tindó Secco, para ser integrada na publicação da obra por ela organizada “Eroticus Moçambicanus” (editada por Nova Fronteira). A obra contém ainda, em regime de posfácio, um colóquio do organizador consigo mesmo, “A Buganvília Que Ri. Sobre a Poesia e Outros Suspensórios ou Breve Telegrama para o Virgílio de Lemos, Poeta da Luz e do Tricórnio“. O volume contém vários dos seus heterónimos, Bruno dos Reis, Duarte Galvão, Lee Li-Yang, Virgílio de Lemos, cruzando a produção destes autores desde o início de 1950s até à presente década.

Avisam-me de planos para a publicação da sua obra completa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E ainda a iniciativa da tradução para português de (parte da?) sua obra em francês. Um conjunto de iniciativas que trarão Virgílio de Lemos para o convívio de poetas moçambicanos, uma presença hoje quase invisível como afirma Cabrita. Coisa talvez do seu percurso biográfico, há longas décadas vivendo em França e com muito raras visitas a Moçambique. E também ao relativo esquecimento, apesar do reconhecimento que alguns, como Eduardo Lourenço e Patraquim lhe votam.

Fica, não como exemplo, mas como nota de quem então partiu para não voltar, este poema de 1963, da autoria de Duarte Galvão:

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.

Águas Correntes

(por AL em parceria com Angela McIntyre e apoiada pela WaterAid) -

Na passada quinta-feira, 19 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Retrete sob o auspício da ONG internacional – WaterAid. Ridículo? Absurdo? Pensemos primeiro nisto:

  • 2,5 bilhões de pessoas não dispõem de um local seguro, privado ou higiénico para a importante função vital de defecar
  • 1 grama de fezes contem 10 milhões de vírus, um milhão e bactérias, 1.000 parasitas enquistados e 100 ovos de parasitas
  • O saneamento adequado dos resíduos fecais e a lavagem das mãos depois do acto podem reduzir em 40% as diarreias infantis, responsáveis pela morte de 1,8 milhões de crianças por ano

Pessoalmente tenho que admitir que quando parto para trabalho de campo o que mais me custa é a perspectiva das casas de banho sem água e das latrinas. A imagem da casa de banho pública do Xai-Xai há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida! Não me importam os ossos doridos por dias de solavancos em picadas; passo por cima dos insectos e moscas peganhentas; confio no Baygon verde para tratar dos colchões com vida interior; conformo-me com um chão de palhota para passar a noite; aceito o desjejum com mandioca cozida temperada de fumo; tolero o fato de suor e pó que habitualmente me cobre e que uma mão cheia de água não chega para remover; mas a latrina? A latrina? Confesso: tenho PAVOR da latrina! Aquele buraco escuro que eu suspeito estar cheio de coisas vivas; o oscilar das tábuas quando a terra está ensopada das chuvas; a privacidade questionável; a vulnerabilidade da posição e o cheiro mais ou menos pungente… Tudo na latrina me confrange!

É este meu pavor partilhado pela minha amiga Angela McIntyre, companheira de muitos anos de desconforto latrinal e a única com quem costumo ter estas conversas de m…a. Enviou-me ela, no Dia Mundial da Retrete, um email recordando as piores retretes da sua vida. Apesar de ser em inglês, por termos partilhado tantas delas e pela graça com que ela as descreve, acho que merece reprodução aqui na maschamba:

Toilets Without Borders (by Angela McIntyre)Today is World Toilet Day, and so I pay tribute to the humble loo. There is a spotless, perfectly flushing loo, stocked with ludicrously soft 3-ply, next to a sink with hot running water, a mere 5 meters away from me. In fact, hang on just a second while I, um, powder my nose…Much better. Ok. Where were we? Nampula, Mozambique 1994, the town water supply has been off for 2 weeks and you have to drive 20 or so km to a reservoir with buckets if you want some. Here you flush sparingly, once a day, it is your bath, cooking and drinking water you are pouring down there, and you’ve lugged it up 3 flights of stairs to boot. Everyone else flushes their loo once a day too, and the whole town is positively aromatic. Better to have a hole in the ground when the modcons are unreliable. If you have a place to dig one, that is. Mozambique Island, 1993: one side you can swim on, the other side is the communal toilet, flushed by the tide. Water is just too scarce – it comes from a large communal rainwater cistern at a 300 year old fortress. You wait in the queue til it is your turn to lower your bucket in. You lug it home and boil, literally, the LIVING SHIT out of it, and still get giardia, unmistakable for the tectonic rumble it produces in your intestines and sulfurous breath. I digress. Maputo, 1995: there is an old-fashioned tank with a chain up on the wall, which might actually work if there was water in it, but at least you can fill buckets from the standpipe in the street. Little consolation when you live in a crumbling apartment block with a broken elevator, on the 10th floor. What on earth were those Soviets thinking? Let’s travel a ways north on the public bus – the Machimbombo – as it is fondly called – to Xai Xai, where there is a public loo at the bus station. Its state of perpetual overuse and overflow has compelled someone to simply build a low brick walla cross the doorway to contain the horror, in which there are things swimming, visible to the naked eye. There are new species evolving in there, worthy of a Discovery Channel Documentary. Inhassoro, 2006: I arrive at my new digs, where I will live for 2 years, on the beach, in a thatch-roofed hut. It is charming and typical, waterproof, lit by kerosene lamps at night. Then there is the loo. It is about 20 meters from the hut, 40 at night in the pitch dark. A deep, murky hole with a skimpy wall of reeds around it and a thatched roof. There is a bat nesting in the thatch, which swoops down disconcertingly while you are at your most vulnerable, trousers down around ankles trying not to slip into the HOLE. Some months later I suggest to the UNDP Evaluation Mission, come to look at my community vegetable garden project, that the sanitation here is less than satisfactory. There is no functioning water system in the village and we could use an Improved Latrine Program so we don’t get stinky, messy backups and cholera during the rainy season when the water table rises. They recoil in horror at my loo setup and vow to Do Something About It. Several months later, there is a UN truck spinning its tires in the beach sand outside my hut, villagers diligently trying to push it out. I see they have unloaded a shining, new, modern sparkling bathroom suite. Sink, tub, toilet, and yes, that mysterious other thing known as a ‘bidet’. The villagers gather round, gaping and whispering to one another. The white lady really is mad, it is now official. My village-cred has gone down the hole, but they are kind, charitable people and someone humors me, “Dona Angela, you have the nicest bathroom in all of Inhassoro!” Later we grow tomato plants in the bathtub and water the goats from the bidet. The toilet is cemented over the HOLE, allowing one to launch one’s self more easily to safety and avoid losing a flipflop to the abyss when the bat is startled. It was the nicest toilet in Inhassoro.

China e África: A Análise de Uma Relação

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Por ABM (Cascais, 16 de Novembro de 2009)

Loro Horta, um Visiting Fellow numa Universidade em Singapura, publicou recentemente, no Centro para o Estudo da Globalização da Universidade norte-americana de Yale, um comentário, baseado numa série de entrevistas e visitas que fez no continente, sobre a percepção que os africanos tinham da quase súbita atenção dada pela China às suas relações económicas e políticas com África.

Refira-se ainda que Loro, um académico e consultor, é timorense e o filho de José Ramos Horta e Ana Pessoa, respectiva e actualmente o Presidente e a Procuradora Geral do único país da Ásia que tem esta língua como oficial. Ana Pessoa viveu exilada vários anos em Moçambique durante a ocupação indonésia da sua terra e terá trabalhado em Moçambique nos tribunais.

A conclusão de Loro sobre o assunto é que há actualmente em África – com nuances variando de país para país – duas percepções muito claras mas quase diametralmente opostas em relação à presença, investimentos e forma de estar dos chineses no continente.

Por um lado, as elites em geral favorecem e vêm com bons olhos essa presença, que preenche uma importante lacuna em matéria de investimentos e importação de conhecimentos (know-how), especialmente numa altura em que, quando se sentia uma maior pressão para desenvolver, os países e as empresas ocidentais não só diminuíram o seu empenho no desenvolvimento e nos negócios em África, como ainda dificultaram o processo interligando aos donativos e investimentos todo um conjunto de imposições, desde reformas políticas e administrativas à prática de políticas humanitárias e ambientais as quais são frequentemente percepcionadas como neo-colonialismo ou interferência com as suas soberanias. Sendo conhecido que a China tem-se demonstrado quase ostensivamente blasé em termos dessas questões.

Pelo contrário, o modelo de desenvolvimento económico e social chinês, baseado num dirigismo algo rígido do PC Chinês (Loro chama-lhe em inglês “China’s model of a strong government”) é visto em muitas capitais africanas como uma tentação, senão uma inspiração, especialmente se se tiver em conta aquilo que vêm como a imposição “neo-colonialista” do modelo democrático-liberal ocidental por parte dos investidores e doadores que, reclamam, não funciona na perfeição em África.

Dos investimentos Chineses, alguns em condições particularmente favoráveis e em projectos de infra-estruturas e na agricultura (onde os países ocidentais não investem) resultam ainda parcerias muito interessantes que ajudam essas elites a fazer negócios e assim enriquecer.

Por outro lado, reporta Loro, as classes sociais menos abastadas nesses países vêm muito desfavoravelmente essa presença, a bordejar no racismo anti-asiático puro e duro, principalmente porque invariavelmente o investimento originado na China vem acompanhado de milhares de trabalhadores não especializados (frequentemente em condições miseráveis) para executar os projectos, logo não oferecendo trabalho à mão de obra local e em contraste flagrante com nalguns casos estritas quotas em termos do número de estrangeiros que podem trabalhar numa empresa ou numa empreitada (veja-se os casos em Moçambique e Angola, países que Loro conhece e refere especificamente e em que contrasta esta forma de estar com a dos portugueses, sujeitos ao total cumprimento das leis que limitam a presença de nacionais seus nos projectos).

Adicionalmente, o investimento chinês é também acompanhado por um abrir de portas dos países (visto mais como uma invasão) de pequenos e médios comerciantes, a maioria deles relativamente pobres, que trazem milhares de produtos a preços imbatíveis, competindo contra, e ameaçando, o pequeno e médio comércio local, que é absolutamente crucial para a sobrevivência de milhares e milhares de famílias africanas.

Os chineses tendem ainda a viver isolados do resto da população local e nem sempre seguem as melhores práticas ambientais nos projectos que patrocinam, provocando desconfiança na população e a hostilidade dos grupos ambientalistas.

Loro termina o seu artigo recomendando alguma reflexão sobre estas tendências a ambos os lados e o seu impacto na relação China-África e citando um anterior ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano que não identificou, que em relação à China fez o seguinte comentário: “No fim do dia, é a nossa responsabilidade. Os chineses, como quaisquer outros, têm os seus interesses e extorquirão de nós (o termo usado em inglês é mais violento: “they will plunder us”) aquilo que conseguirem até onde permitirmos. O futuro de África estã nas nossas mãos, tal como sempre tem estado. Deixemos de culpar os outros e de esperar que os outros tenham pena de nós”.

A cooperação portuguesa a propósito da visita a Moçambique do ministro da Justiça português

Para quem entenda algo de cooperação internacional (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é difícil encontrar causas para a tendencial  ineficiência da cooperação portuguesa em Moçambique. Situam-se na história e na sociologia da administração pública portuguesa e no seu enquadramento cultural. Os anos passam e pouco (algo?) muda.

Corolário dessas características é a hiper-descentralização da cooperação, em que cada organismo estatal português (e aqui inclua-se a dimensão camarária) entende ter uma “agenda de cooperação” própria, a prosseguir com os seus parceiros locais. Para tantos dos intervenientes ou observadores  - e até funcionários – é óbvio ser este traço uma sobrevivência, a permanência da noção da administração diferida, um modus faciendi herdado do tempo colonial em que os organismos metropolitanos articulavam com os governos coloniais/”provinciais”.

No início das relações de cooperação bilaterais, após as independências, essa metodologia de contacto directo afirmou-se, até pelo facto dos organismos públicos portugueses terem acolhido antigos funcionários coloniais, com seus conhecimentos técnicos e pessoais e seus interesses (não obrigatoriamente interesseiros), que imprimiam uma dinâmica e um formato peculiares às concepções de cooperação e sedimentavam os “departamentos de cooperação” ou similares nos organismos públicos. Mas essa geração já não está no activo, a persistência do modelo depende hoje das inércias burocráticas, das reclamações políticas de autonomia sectorial e, não o menos importante, dos estratégias de carreira dos funcionários. Tudo isso impede a racional concentração (financeira e intelectual) desta área da política externa nos organismos devidos, tutelados pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

Resultante desta metodologia economicamente perdulária e politicamente irracional, Portugal acumula “projectos” de cooperação de muito duvidosa viabilidade, real interesse ou capacidade de execução. Os dados estatísticos não mentem: em Moçambique, país onde abunda a cooperação internacional, Portugal tem muitissimo mais projectos agendados do que qualquer outro país, bem como do que todas as agências das Nações Unidas em conjunto. É apenas suplantado, e por escassa margem, pela Comissão Europeia, o maior doador em Moçambique. [Para que não se diga que é maledicência vejam-se os dados aqui e siga-se a documentação possível]. Nunca será demais dizer que esta volúpia “projectista” não é acompanhada nem por meios financeiros consistentes nem, e fundamentalmente, pelos recursos técnicos necessários (seja para co-execução seja para avaliação). E é importante frisar que este modelo baseado na figura do “projecto” está em contra-ciclo face às abordagens abrangentes, dominantes na cooperação internacional.

Um dos efeitos deste formato é o da intensa rede de visitas ministeriais e sub-ministeriais por parte dos governantes portugueses, obviamente excessiva, quantas vezes supérfula, por todos sentida como tal, até ridicularizada. Entenda-se, para além de outros considerandos sobre a sua eficiência, o trânsito governamental português em Moçambique (tal como, presumo, noutros países ex-colónias) é original, para não dizer excêntrico.

Vem isto a propósito de mais uma visita, a do ministro da Justiça Alberto Costa, ocorrida na passada semana, aqui deslocado para negociar o próximo programa trienal de actividades. Uma visita que, nas suas ocorrências, epitomiza o que de mal existe na cooperação portuguesa, nas suas dimensões executiva, conceptual e cultural.

A área da Justiça sempre foi considerada por ambos os Estados como prioritária nas relações de cooperação bilaterais. Para Moçambique tal inscreve-se numa especificidade nacional, considerada a manter, circundado que está por países herdeiros do sistema legal britânico. Daí o interesse mútuo, estratégico, em potenciar as acções nesta área (as duas décadas de ensino universitário a cargo da Faculdade de Direito de Lisboa são um bom exemplo de cooperação).

Por isso mesmo foram surpreendentes as declarações da ministra Justiça moçambicana, criticando publicamente o actual estado das relações de cooperação no sector, e identificando a causa da ineficiência nos próprios termos do acordo bilateral. Surpreendentes porque são inusitadas, ainda para mais em momentos de recepção. Entenda-se, o tom da ministra não se prende com as cíclicas (e até rituais?) retóricas de afastamento entre-Estados, e a isso não deve ser reduzido. É uma crítica política e técnica rara de ouvir a este nível, e evidentemente traduzindo uma desfuncionalidade da cooperação portuguesa nesta área sempre considerada fundamental.

O ministro português apresentou-se com uma vasta comitiva, uma dezena de pessoas, e cruzou o país até à Ilha de Moçambique, picando projectos [um resumo destes na peça da Lusa]. Poupo-me à ira algo demagógica com as despesas havidas – ainda assim tudo aquilo parece excessivo. em contramão a uma imagem de contenção orçamental. É claro que haverá sempre argumentos próprios a justificarem o séquito e os percursos. Mas registo que tamanho grupo não é o costume e que tamanhos desvios não são o costume. E que dão, aqui, a todos, uma óbvia aparência de digressão de veraneio de quem apouca a missão de que está incumbido.

Mas o fundamental serão os resultados. Uma grande delegação para renegociar os termos de um trabalho conjunto considerado vital e em actual depressão. Foram os novos termos ponderados, frutos de uma análise conjunta eficaz, serão potenciadores? Daqui a três anos alguém (?) fará a avaliação, mas parece-me óbvio que não foi isso o acontecido. De novo a incompreensão, a incapacidade para ouvir, analisar, integrar – até para cumprir as obrigações protocolares. Tudo isto emanando de uma atitude cultural que é, pelo menos, anacrónica. E que acampa como adversária dos interesses do Estado e do país. 

Como remate final da infeliz visita surge o ministro Alberto Costa propondo a adesão moçambicana à “Marca Lusófona”. Não valerá a pena insistir no descabido da fixação portuguesa no jargão “lusófono”, muito mais um obstáculo nas relações entre Estados e uma incongruência político-intelectual do que um eficaz instrumento. Julgava até essa retórica um pouco em desuso mas, como se vê, vai resistindo em alguns estratos da semi-intelectualidade ligada às esferas do poder actual. Entenda-se, para além de assim mostrar uma a-política incompreensão dos contextos visitados este discurso ministerial vem poluir as já difíceis relações sectoriais.

Uma perfeita ineficácia, até incompetência. Ainda para mais, e em complemento das problemáticas políticas e ideológicas ligadas ao hastear do jargão lusófono, é incompreensível que se venha a Moçambique, em crucial momento de relançamento de cooperação estratégica, propor uma económica “Marca Lusófona” exactamente quando aqui se procede ao lançamento da económica Marca Moçambique. Tudo mal pensado e, até, mal calendarizado. Um cúmulo de arrogante incompetência que nenhuma benevolência pode transformar em acaso ou distracção.

Claro que nada disto ecoa em casa própria. Nem este caso nem tantos outros. Aqui enquadrados por um corpo diplomático e afim que pratica o mutismo opinativo e, até, a elisão factual, e por uma imprensa pública (RDP, LUSA, RTP) que não arrisca a distância crítica, os agentes deste “modo cooperante” encomendam ainda trabalhos laudatórios na imprensa privada, realizados por jornalistas (quantas vezes juniores) que pouco ou nada compreendem do país que visitam, que pouco ou nada sabem da questão “cooperação” e que, fundamentalmente, estão constrangidos por essa realidade de viajarem a convite do Estado, como se em “missão nacional”. Veja-se, como exemplo, esta inenarrável peça de auto-propaganda, publicada no jornal Sol. O ministro mente. Ponto final parágrafo. O jornalista serve. Aliás, reproduz.

Há muito tempo que é tempo de isto mudar.

Um euro, uma pessoa

Caridade, ainda que lhe chamem solidariedade, fraternidade, até internacionalismo, e mesmo (oops) cooperação. Coisas de que está o ateu inferno cheio, quanto mais o crente. Mas está(ão) ele(s) apinhado(s) [partilharemos o mesmo inferno?] de coisas e gentes bem piores: um velho (pois “antigo” aparenta uma cessação) amigo avisa-me deste Um euro por mês, um poço em Moçambique, um projecto ecológico e solidário numa escola da Azambuja, ali ao Alentejo. Não sei se muitos poços brotarão. Mas se a bela professora (e era-o, diz-me a memória) deste modo fizer brotar melhor gente entre os seus vale(rá) a pena: “um euro, um homem”, “um euro, uma mulher”, coisa de formar putos para além do rame-rame do que lá se é. Lá e não só.

(abraço joão nuno. vénia à mana)

Bronislaw Geremek e a pobreza

Aqui tomo conhecimento da morte de Bronislaw Geremek.

E logo me recordo das palavras introdutórias ao seu esplêndido “A Piedade e a Forca“, que sempre me acompanham, vivendo como vivo num país subjugado ao calão do Banco Mundial, feito mito omnipresente (e dito omnisciente) da Luta Contra a Pobreza Absoluta, o constante PARPA. Não diz só isto, na sua história da utilização do termo “pobreza”. Mas assim é inultrapassável:

Na Europa do século XIX ainda encontramos em certa literatura polemística e no pensamento social uma visão da pobreza como uma “doença vergonhosa” da sociedade moderna que urge debelar por meios novos. Concomitantemente, porém, assiste-se a uma gradual reformulação da abordagem conceptual das análises sociais e do estilo do discurso ideológico. A crise dos programas filantrópicos, o despertar da consciência social das masas e as mutações nas estruturas da vida política fazem com que seja praticamente eliminado da linguagem económica e social o termo “pobreza” (e “miséria”): porque carrega um sentido subjacente de piedade, apresenta-se como um juízo de valor que confere uma atitude de superioridade ao que o emprega. Essa carga semântica emotiva torna-o demasiado ambíguo para servir de instrumento de reflexão e, portanto, pouco operacional nas investigações da ciências sociais. Todavia, quando se estuda o fenómeno nos seus aspectos históricos (…) assiste-se igualmente ao acentuar da tendência para enquadrar a questão da miséria no âmbito (…) da análise das causas das desigualdades sociais e da repartição do rendimento nacional vem substituir a tradicional problemática da pobreza.”

[Bronislaw Gemerek, A Piedade e a Forca. História da Miséria e da Caridade na Europa, Lisboa, Terramar, 1995 [1986], tradução de Maria da Assunção Santos]

Homenageando uma amiga

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[Maio de 2008]

Comemorações do Dia Mundial dos Museus no Museu da Ilha de Moçambique, uma actividade de quatro dias, realizada pelo seu director e pela curadora dos museus da Ilha. Aqui registo de uma das palestras da curadora Sara Teixeira. Minha homónima, minha patrícia, minha ex-colega (de quando eu fui cooperante português), mulher de mão-cheia e de grande paixão profissional pelo que vem fazendo. Com denodo animando os museus locais. E em terríveis condições logísticas existenciais.

Para ela e para as três miúdas – mais novas que a Carolina – um grande beijo. Foi um desprazer nocturno ter que ir carregar-vos os bidões de água. Sem carro numa ilha? E esta agora sem água? Vénia dobrada pelo profissionalismo e pela paixão. Redobrada pela coragem. Tridobrada pelo resto todo.

Aliás, lá de onde vimos já não há gente assim. Partiram o molde, ouvi dizer.

Sara, um abraço ao Rui.

Ilha de Moçambique: Vila do Milénio no Lumbo

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[Maio de 2008]

A primeira pedra da Vila do Milénio, belo projecto de assentamento populacional a desenvolver muito em breve, baseado no projecto Aldeias do Milénio (Millenium Project) das Nações Unidas, uma inspiração desenvolvimentista de Jeffrey Sachs. Na sua versão moçambicana, como este projecto no Lumbo, uma obra encabeçada pelo excelente Venâncio Massingue, ministro da Ciência e da Tecnologia – prova que o desenvolvimento rural é um objecto de transferência científica e só assim se pode cumprir.

Aníbal Cavaco Silva na Ilha de Moçambique

LNT pede-me notícias da visita do presidente Cavaco Silva a Moçambique. Presumo que a imprensa portuguesa faça a cobertura – eu, avisadamente, olharia a Lusa, cujo jornalista Pedro Figueiredo me parece bem menos folclórico do que os jornalistas habitualmente comitivos [a vantagem do jornalista oficial sobre os jornalistas oficiosos, porventura].

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["Posição da Ilha de Moçambique", imagem recolhida de Raquel Soeiro de Brito, No Trilho dos Descobrimentos. Estudos Geográficos, Lisboa, CNCDP, 1977, p. 213]

Mas posso adiantar que hoje Aníbal Cavaco Silva visita a Ilha de Moçambique. Espero que vinculando a “cooperação” portuguesa a um efectivo e competente esforço, o qual está planeado, nessa região – economicamente deprimida e cujo grande simbolismo é também um recurso económico. Lembro que em 1997 o presidente Jorge Sampaio não foi à Ilha também porque não havia nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (considerando então que não havia razões políticas para a deslocação). E que em 1998 o primeiro-ministro António Guterres foi lá apesar de não haver nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (óbvios diferentes entendimentos sobre o conteúdo de uma visita de Estado a Moçambique).

Sobre a ilha já deixei aqui dois longos textos (I e II) – que são o melhor do Ma-schamba. E uma série alargada de entradas. Para além de sublinhar a esperança não me alongo mais, LNT – ali é o sítio onde combato o meu cepticismo. Rejuvenesço, por assim dizer.

Hoje é também dia de orgulho. Pois o grupo Anuaril Hassanate Bairro 16 de Junho (aldeia Mesquita Gulamo), do qual sou presidente

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foi chamado para actuar na recepção ao meu presidente da República. De orgulho um pouco triste: sou mais uma vez um presidente absentista. E hoje gostava de não o ser.

“Cooperação”

No correr do ma-schamba os leitores habituais aqui leram algumas referências ao meu estatuto profissional (e até dele encontrei blogoeco aqui e ali), em especial como contextualizador da minha actividade e, até, do como ela transparecia nisto do bloguismo. Para eles fica então a actualização, deixo de ser “cooperante”, sob contrato com o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento. Foi um prazer servir. Espero que recíproco.

Sítio ODAMoz

ODAmoz “é um novo instrumento electrónico financiado pela CE que fornece uma informação da Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (ODA a Moçambique). Foi criado como resposta à Declaração de Paris segundo a qual deve – se fortificar a harmonização e alinhamento entre os doadores e alinhamento entre os Governos. A ODAmoz permite captar projectos e Programas dos doadores e Agências das Nações Unidas a operarem no país.”
Tem uma vasta gama de informações. A ligação constante fica afixada na coluna da direita, no grupo “sítios” (há quem chame “sites” mas existem escolas de línguas).

Eu e o Miguel, patrício que daqui (Pemba e Quelimane) avançou para Angola, a conversarmos sobre a “cooperação” portuguesa.

E também acaba hoje a mostra do acervo do Instituto Camões em Maputo, 42 obras de autores moçambicanos e portugueses que expuseram naquelas instituição (presumo que desde 2000, como explicita a documentação referente à anterior mostra semelhante, dado que esta não tem referências de datação). Um bom momento para olhar a actividade de “cooperação” que a instituição vem fazendo desde então no domínio das artes plásticas. E a próxima mostra poderia trazer algo mais profundo sobre essa actividade bem como sobre o contexto em que decorre, e ainda sobre os autores representados, mera proposta minha.

O sítio do

  • IPAD
  • , o organismo de Ajuda Pública ao Desenvolvimento (cooperação) portuguesa. Fica na coluna de elos.

    Anda por ai um escroque, partilha comigo a nacionalidade. Cada um como cada qual, e “os bons espiritos sempre se encontram”. Do seu acolhimento pelos nao-patricios ser-me-a indiferente, crente que sou na certeira fabula do escorpiao. Que sejam pois picados. Mas espanta-me que instituicao nossa, e a qual tanto lesou, o acolha. Formal ou informalmente, isso e indiferente. Apenas concluo, repito, “os bons espiritos sempre se encontram”. Mas ainda assim, tao obvio aquilo surge …

    O olhar deve estar voltado para a pessoa com quem se fala, mas este deve ser calmo, franco e não denotar nem descaramento nem maldade. Fixar os olhos no chão, como faz o catoblèpas* leva a supor uma má consciência; fitar alguém de viés é testemunhar-lhe aversão.” [*Nota (de Alcide Bonneau, 1847): segundo Plínio (Hist. Nat., VIII, cap. XXII,) um touro de África, cuja cabeça contém uma grande quantidade de veneno e que se vê obrigado a deixá-la pender constantemente para o solo – o que é uma sorte para aqueles que com ele se cruzam, porque um só dos seus olhares bastaria para matar um homem! Elieno diz praticamente o mesmo (Hist. Animalium, livro VII)],

    (Erasmo de Roterdão, A Civilidade Pueril, Lisboa, Editorial Estampa, 1978. Tradução de Fernando Guerreiro)

    A Riqueza das Nações, de Francisco Noa

    Um necessario texto, hoje publicado no jornal Noticias. Francisco Noa rematando contra o nao-pensamento que se quer dominante. Eis:A Riqueza das Nações
    Francisco Noa

    Um país se faz com homens e livros.
    Monteiro Lobato, escritor brasileiro

    Colocação

    A Riqueza das Nações é o título de uma das obras mais emblemáticas da era moderna. Da autoria do escocês Adam Smith (1723?-1790), trata-se de um grandioso trabalho dividido em cinco livros, fruto de um aturado e notável exercício de investigação, em que cruzando teoria e prática, o autor emerge como o pai da economia do nosso tempo e um dos teóricos mais relevantes do liberalismo económico.

    Defensor acérrimo da iniciativa privada, pressuposto segundo o qual o governo deve ter pouca ou nenhuma intervenção, Adam Smith entendia que era na actuação dos indivíduos, com muito trabalho e muito empenho, e numa base de livre concorrência, que se realizaria o crescimento económico e a inovação tecnológica que, em última instância, resultaria na riqueza das nações.

    As teorias deste ilustre pensador do século XVIII, que obviamente tiveram os seus detractores e seguidores, influenciaram não só gerações inteiras de economistas e políticos do mundo inteiro, como serviram de inspiração a muitos dos países que são hoje as mais destacadas referências de desenvolvimento económico, social e tecnológico.

    Equívocos

    Nos últimos tempos, com apreensão e assombro, tenho escutado de alguns quadrantes da sociedade moçambicana, políticos, sócio-económicos e, mesmo (pasme-se!) académicos(!), com uma insistência que raia a afronta indecorosa e irresponsável, afirmações do género: “precisamos de riqueza não de teorias”, “não é com palavras que se desenvolve o país”, “empreendedorismo faz-se com trabalho não com livros”, “a academia precisa de produzir riqueza e não andar a escrever livros bonitos”, etc…

    E a agravar esta percepção temos a perversa associação feita entre o livro e as ciências sociais, as humanidades e todos os seus correlatos que surgem assim interligados se não como uma das causas do nosso atraso quase endémico, pelo menos como factores de entrave para o salto que se pretende dar. Isto, justamente, porque na óptica esclarecida dessas pessoas, esses domínios representam teorias e ideias estéreis, imobilismo, parasitismo e alienação em relação a questões fundamentais para o desenvolvimento do país.

    Por outro lado, está claramente implícito nas pressuposições destas respeitáveis figuras que se, por um lado, a riqueza só pode ser material, por outro, ela irá brotar somente quando os homens meterem desenfreadamente as mãos na terra, nas ferramentas, nas máquinas e nos negócios. Mais grave, ainda, um estranho golpe de amnésia faz com que se esqueçam que tanto eles como o mundo chegaram onde chegaram, por terem franqueado a entrada para os trilhos da edificação pessoal através do conhecimento, especialmente daquele que está sistematizado nos livros.

    Penso que podemos encontrar parte da justificação destas posições nas razões que, de seguida, proponho:

    · primeiro, devido a uma enraizada e atávica reminiscência da matriz cultural do nosso colonizador disseminou-se, neste país, uma cultura de afirmação intelectual, social e profissional que, cada vez mais, assenta na pose, no estatuto, no cargo que se ocupa, no título académico (doutores e outros que tais) e nas mesuras ao poder do que propriamente na capacidade de intervir produtiva, crítica e qualitativamente na resolução das grandes questões do país

    · segundo, o desregramento galopante de valores a todos os níveis que fazem as pessoas perderem, ou não adquirirem nunca, a capacidade de destrinçar o essencial do acessório, o contingente do estratégico e o efémero daquilo que é duradoiro

    · terceiro, a colagem ao princípio da performatividade, responsável pela hegemonia da racionalidade técnica e tecnológica, e que adoptado de forma apressada e perfunctória leva as pessoas a acreditarem que só é válido tudo aquilo que tem uma aplicação prática, visível e imediata

    · quarto, a crise da legitimação do conhecimento muito bem analisado por Jean-François Lyotard no seu livro A Condição Pós-Moderna (1989), onde entre outras colocações, o autor chama a atenção para o facto de se viver um dilema sobre o estatuto actual do saber científico que torna mais vincada a questão da dupla legitimação: quem decide o que é o saber e quem sabe o que convém decidir. Daí que a subordinação das universidades aos poderes (político, económico) e às demagogias é apenas um passo. Isto é, deixam de ser as instituições de ensino superior a determinarem os critérios da sua auto-legitimação e de legitimação das competências fundamentais para o desenvolvimento do saber e da sociedade.

    Que ninguém tenha dúvidas que a riqueza de um país vai resultar da cultura de trabalho que for assumida sábia e responsavelmente por cada um e por todos os cidadãos dessa nação. Mas que se desengane quem acreditar que essa riqueza será fruto única e exclusivamente do trabalho braçal, da monótona circularidade das máquinas e dos negócios que se possam desenvolver, no nosso caso, muitas vezes, de forma obscura, penosa e inconsequente. Ou, por outro lado, estará redondamente enganado quem assumir que o conceito de riqueza se circunscreve única e exclusivamente à realidade objectual e aos bens materiais.

    Duas das grande revoluções que permitiram o saldo intelectual e tecnológico do Ocidente, Revolução Científica (secs. XVI-XVIII) e Revolução Industrial (séc. XVIII), só triunfaram, efectivamente, e tiveram o alcance que tiveram e cujos efeitos perduram, porque foram acompanhadas e profundamente alimentadas por um sistemático, intenso e profícuo exercício filosófico e humanista. Temos, neste particular, entre outros, Erasmo de Roterdão, Francis Bacon, René Descartes, John Locke, Thomas Hobbes, Diderot, Kant, Voltaire, Montesquieu, Rousseau, etc…

    O inquestionável sucesso desenvolvementista de países como o Japão, a China, a Índia, a Coreia do Sul, Singapura só é real porque o investimento nas tecnologias é acompanhado, quando não antecipado, por uma profunda e consequente profusão de ideias e de teorias, das mais arrojadas às mais realistas, das mais mirabolantes às mais pragmáticas. E sobretudo porque existe um profundo lastro humanista materializado no lugar que a cultura e o próprio homem ocupam nas estratégias que se inscrevem no projecto de país que cada uma dessas nações desenha e define claramente.

    Num país como a China que, como é sabido, de há uns anos para cá vem apresentando os maiores índices de crescimento económico, em todo o mundo, e num regime político muito rígido, a acção de intelectuais, em que, entre outros, se destaca o historiador Wang Hui, tem levado o governo a flexibilizar as suas posições e a introduzir alterações profundas em questões de impacto social como seja a melhoria das condições dos trabalhadores nas cidades e no campo, no maior respeito pelos direitos humanos, em geral, ou caso da aplicação da pena de morte, em particular.

    Do saber e da liberdade de pensar

    Retomando as posições a que fiz referência, no início, gostaria de tentar desfazer alguns equívocos:

    · primeiro, a insistência na demarcação epistemológica entre ciências sociais e humanas e ciências naturais e tecnológicas, ou entre saber teórico e saber prático ou, simplesmente, entre ciência e técnica; trata-se, obviamente, de uma distinção dicotómica, de natureza anacrónica e que resulta do facto de se resistir a perceber, ainda, as grandes transformações teóricas, científicas, culturais e filosóficas que se vêm processando desde os meados do século XIX e que demonstram a inutilidade, ineficácia e a falta de sentido desse tipo de dualismos, perante uma racionalidade que, segundo Boaventura de Sousa Santos, em Um Discurso sobre as Ciências (2003), é aglutinadora, problematizadora e pluralista. Por outro lado, a vocação interdisciplinar das ciências pós-modernas e a crise das evidências fazem ruir as demarcações que a viva força se tentam fazer entre os vários campos de conhecimento.

    · segundo, não existe desenvolvimento real e efectivo enquanto não houver clareza e honestidade intelectual na definição de estratégias. E toda a estratégia, para ser bem sucedida, é incompatível com visões imediatistas, miméticas, dogmáticas, sectárias e míopes. Acabei, há dias, de ler Memórias em Voo Rasante (2006) de Jacinto Veloso, um livro extremamente interessante e curioso sobretudo por aquilo que ele não diz. Julgo que o princípio que, segundo ele próprio, rege a acção da diplomacia entre serviços secretos de “nunca falar mentira e raramente dizer a verdade” será o grande responsável por essa estimulante margem do muito que ficou por dizer. Nesta obra, são várias as passagens em que o autor não só sugere como faz referência aos inúmeros erros que foram cometidos ao longo destes últimos quarenta anos – acto absolutamente notório por ser raro, como se fosse sustentável acreditar-se que ninguém se engana, ninguém comete erros e ninguém tem dúvidas -, como também insiste quer na necessidade se um projecto do país realista, consistente e consequente quer na importância de estratégias eficazes para viabilizar esse mesmo projecto. “Recordar Eduardo Mondlane”, como último capítulo do livro, parece-me, neste aspecto, uma escolha eloquentemente significativa e intencional.

    · terceiro, meter no mesmo saco, ciências sociais, livro, cultura (refiro-me a cultura como edificação), como alvos a abater, implícita e explicitamente, é bem um dos grandes sintomas de ligeireza do nosso tempo e da tirania do materialismo pós-industrial e rasca. E é também revelação do temor que se tem em relação à palavra enquanto expressão de ideias livres, plurais, dinâmicas, construtivas, inconformadas, diversificadas, questionadoras. Sobretudo, enquanto afirmação de sabedoria e de um apurado sentido crítico.

    Sabemos todos que por razões várias, internas e externas, os países africanos vão teimosa e dolorosamente disputando os últimos lugares na lista dos países em vias de desenvolvimento. A expressão “vias de desenvolvimento” não passa, em muitos casos, de um eufemismo que disfarça mal a aviltante condição dessas nações.

    E teimosamente continuamos a não perceber que o défice intelectual, reflexão e de debate (não a demagógica e populista; aliás, o Elísio Macamo tem várias vezes apelado para a questão da competência no debate) vai impedindo que as nossas mentes e vontades vislumbrem as soluções e os caminhos que, adequados ao nosso tempo e aos nossos circunstancialismos, verdadeiramente nos iriam colocar nos trilhos de um desenvolvimento real, sólido e irreversível.

    Nenhuma sociedade, especialmente no mundo actual, se pode considerar minimamente funcional e estável enquanto não assumir o conhecimento, na sua totalidade e profundidade, como seu maior fundamento.

    Num livro já antigo mas muito actual, Jean-Marie Domenach, em O Retorno do Trágico (1968), chama a atenção para o facto de toda a sociedade em transformação pedir aos seus intelectuais doutrinas estáveis, onde os enigmas encontrem soluções e o sofrimento consolação. Isto é, só o pensamento sistemático, livre, fundamentado e diversificado assegura um destino mais suportável e mais risonho para os países.

    É, nesta conformidade, e com lúcida frontalidade, que o historiador congolês Elikia Mbongolo, numa entrevista reproduzida pelo semanário Savana (23/02/2007), reconhece que não existe propriamente uma intelligentsia real, em Moçambique, capaz de, à semelhança de outros países africanos como o Senegal, o Gana, o Quénia e a Nigéria, debater os interesses do país, tomar posições e fazer avançar as suas resoluções. Para ele, um intelectual tout court, deve assumir uma liberdade de análise, de abordagem, de tom e de palavra.

    Muito recentemente, perante a absurdidade do morticínio e da devastação causada pela explosão do paiol, nos arredores da cidade de Maputo, foi notória a inépcia e quase inexistência dessa intelectualidade que, encolhida e temerosa, ficou-se pelo silêncio envergonhado e pela indignação sussurrada. A reacção espontânea, por isso talvez desarticulada e desapoiada, de cerca de sessenta pessoas, maioritariamente jovens, numa manifestação rápida e desproporcionalmente reprimida e abafada, demonstrou que nem tudo está perdido. A indignação funciona, muitas vezes, como uma válvula de escape daquilo que as pessoas têm de mais profundo e nobre.

    Há dias, colocava os meus estudantes – como o tenho feito sempre na minha actividade como professor há cerca de vinte e cinco anos – perante um dos desafios que considero absolutamente prementes e inadiáveis para o nosso tempo e para a nossa sociedade, em particular: eles (todos nós, afinal) tinham que rapidamente escolher entre pertencerem à massa pensante, crítica e inconformada ou serem simplesmente massa esparguete.

    Não tenho dúvidas, também, que o processo de esparguetização desta sociedade está em curso e de forma acelerada. Basta que nos detenhamos a olhar para o espaço público e para espaços que deviam ser verdadeiras fábricas de soluções e de conhecimento, caso das universidades, e verificar como todos eles estão invadidos pela incompetência, o aventureirismo, o analfabetismo funcional, a subserviência, o arrivismo, a impostura intelectual e uma assustadora ausência de profissionalismo indiciando uma insuportável tibieza no que concerne a posturas, atitudes, valores e exigências.

    Ode à riqueza do espírito

    Entre muitas coisas que se nos vão impondo, a cada um e a todos, o que precisamos, mesmo, é de produzir muito pensamento, muita investigação, muita imaginação (sobretudo muita imaginação para nos sabermos reinventar a nós próprios e aos nossos destinos), muita cultura, materializados em ideias, arte, ciência, acções concretas e livros infindáveis, belíssimos e úteis.

    Livros com muita teoria e livros com um incomensurável sentido prático e da realidade.

    Livros que nos ensinarão a escolher as melhoras culturas para a nossa agricultura precária, as melhores máquinas para a nossa indústria quase inexistente, os melhores instrumentos para contornarmos a nossa indigência quase generalizada.

    Livros com os quais aprenderemos a melhor desenhar e construir as nossas casas, escolas, hospitais, estradas, pontes e barragens. E que nos expliquem, sobretudo, como criar uma burguesia forte, instruída, trabalhadora e patriótica.

    Livros que nos permitirão ter melhores médicos, melhores professores e melhores técnicos, no geral.

    Livros que exprimirão e elevarão a nossa sabedoria, livros que resgatarão o que de melhor existe dentro de nós, livros que nos ensinarão a melhor governar os nossos atormentados países, territórios inóspitos onde escasseiam os livres pensadores, a criatividade e a possibilidade de intervenção efectiva e consequente.

    Livros, enfim, que nos farão melhores cidadãos, tanto do país em que vivemos como do mundo que aspiramos habitar. Cidadãos conscientes dos nossos direitos e dos nossos deveres.

    Livros como o que foi superiormente escrito por Adam Smith e por outros em múltiplos e variados domínios de conhecimento, ou, então, os que nos têm sido legados pelas consciências verdadeira e notoriamente iluminadas por esse mundo fora e ao longo dos tempos: Homero, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Proust, Henry James, Jane Austen, Thomas Mann, Dostoiewski, Machado de Assis, Pessoa, Kafka, Hemingway, Jorge Amado, Sartre, Senghor, Cesaire, Nkrumah, Cesare Pavese, Fanon, Garcia Marquez, Nadine Gordimer, Soyinka, Chinua Achebe, Craveirinha, Cotzee, etc, etc, e que são, afinal, a suprema expressão da riqueza das nações e da humanidade. Por isso mesmo, todos eles, livros belíssimos, incontornáveis e imortais.

    Não tenho dúvidas de que a respiração de uma nação é feita através produções de espírito que ela realiza. Em especial, dos livros que ela lê, produz e faz circular.

    Para terminar, entendo que o desafio primordial que se nos coloca antes de continuarmos a falar em desenvolvimento e de combater o que quer que seja, será o de clarificarmos, individual e colectivamente, qual a nossa relação com o pensamento livre, questionador, consequente e plural, pensamento como real expressão de elevação, de sabedoria e de cultura. O que pretendemos, afinal, a sua demonização ou a sua consagração?

    Maputo, Abril de 2007

    Médicos do Mundo Portugal

    (Namaacha, fronteira com a Swazilandia, Novembro de 2006. Quiosque de divulgacao da prevencao do Sida)

    Sempre interessante (e até surpreendente) encontrar uma ong portuguesa.


    Inhambane, sede do projecto Apopo. Dele apenas tenho a informação que me foi dada pelo guarda do edifício: um projecto de desminagem que utiliza ratos (o que se depreende da fotografia, apesar de tirada por mim). Bem-vindo, como qualquer projecto de desminagem. Mas o que me chama a atenção são os doadores – uma das questões que presumo ser quebra-cabeças para a administração moçambicana é a pluralidade de doadores (cooperações) a actuar no país. Todos com suas metodologias e idiossincrasias próprias. Não julgo nem desvalorizo (ainda para mais cooperante), nem tampouco hierarquizo. Mas presumo a trabalheira do “cada cabeça sua sentença”, como é óbvio.

    Ainda que hoje tempos de coperação multilateral, conjugação, concertação. Mas de súbito deparo-me com a cooperação flamenga. Já nem os países chegam como interlocutores? Até as “nações” o são? A Europa, a Europa, não haja dúvida. Dirimir fora (e bem longe) as questões internas?

    (tocando a fotografia ela ficará um pouco maior, porventura mais legível)

    No A Peste Jorge Vaz Nande enceta as suas impressões da visita a Maputo, integrado na III Bienal de Jovens Criadores da CPLP [?]. Interesse pela imagem individual mas também pelo testemunho do que uma iniciativa dessas imprime nos participantes. Se imprime …

    Inhambane, a biblioteca na Associação Cultural Xiphefo.


    Um sucesso, dizem-na, porque uma necessidade, claro. Leitores por turnos até, tamanha a procura. Dizem-me … Em tempos conheci o tipo que se convenceu a fazê-la. “Que não” diziam-lhe os competentes. Espero que passe por aqui – um abraço meu, com saudades. Muitas.

    Futebol e Desenvolvimento

    [retirado daqui]

    Bruxelles, le 9 juillet 2006

    La Commission européenne et la FIFA signent un protocole d’accord en faveur du football en Afrique et dans les pays des Caraïbes et du Pacifique


    Désireuses d’unir leurs forces, la Commission européenne et la FIFA ont signé un protocole d’accord visant à faire du football un moteur du développement en Afrique et dans les pays des Caraïbes et du Pacifique.

    Il faut savoir, par exemple, que, dans toute l’Afrique, environ 50 millions de personnes jouent au football régulièrement – et les joueurs occasionnels y sont encore bien plus nombreux. Pour nombre de ces enfants, de ces hommes et de ces femmes, le football n’est pas seulement un sport formidable: pour ceux qui vivent dans des pays déchirés par les catastrophes naturelles, la guerre ou la pauvreté, il s’agit aussi d’un acte de survie. C’est un moyen de rétablir la normalité dans des communautés traumatisées, de faire renaître la confiance et d’inciter à la tolérance et à la solidarité. Le football peut et doit être un instrument de développement en Afrique.

    Pour de nombreux pays africains, la Commission européenne est un partenaire politique et financier essentiel. Chaque année, la Commission européenne consacre environ 3,5 milliards € à l’aide au développement en Afrique. La FIFA propose d’apporter son savoir-faire, en tant qu’instance dirigeante du football au niveau international et premier organisme sportif au monde. Ce protocole d’entente couvre des domaines très variés, depuis les droits des enfants jusqu’à l’intégration sociale et la lutte contre la discrimination, en passant par la santé et les efforts de reconstruction au sortir des conflits.

    M. José Manuel Barroso, président de la Commission européenne, a affirmé: «Le football a un grand pouvoir – celui de rapprocher les gens. Cet aspect est particulièrement important dans la perspective de la prochaine Coupe du monde de la FIFA, en 2010, qui, pour la première fois, sera organisée en Afrique du sud. Cette initiative permettra au football de contribuer à renforcer les capacités de développement dans le monde.»

    M. Louis Michel, membre de la Commission chargé du développement et de l’aide humanitaire, a déclaré: «Je suis souvent impressionné de voir, dans les camps de réfugiés que je visite, des enfants qui jouent au football, pieds nus, en arborant des tee-shirts de Ronaldinho, Drogba, Zidane, Figo… Ce sont les héros modernes de notre époque mondialisée. Le football est un sport puissant. Si nous parvenons à tirer parti de cette puissance gigantesque en l’associant à nos programmes de développement, nous pouvons améliorer la vie de millions d’enfants.»

    La Commission européenne et la FIFA ont également décidé d’utiliser le sport le plus populaire de la planète comme tribune pour donner une image positive de l’Afrique. Au moins 30 milliards de personnes ont regardé, en moins en partie, la Coupe du monde de football en 2002 – un chiffre qui sera sans doute dépassé cette année. La FIFA et la Commission veulent saisir l’opportunité qui leur est donné, par cet événement si populaire, de faire connaître les potentialités de l’Afrique et de mobiliser les gens contre le racisme et la discrimination.

    «Le football, c’est l’école de la vie, qui touche à tous les aspects de notre monde. La prochaine Coupe du monde de la FIFA organisée en Afrique du sud fournira une chance historique d’utiliser l’influence du football pour promouvoir l’éducation et la paix et lutter contre le racisme et les maladies. Ce protocole d’accord signé avec la Commission européenne constituera une bonne base pour le projet ‘le football pour un monde meilleur’, destiné à aider la jeunesse de notre monde», a indiqué M. Sepp Blatter, président de la FIFA.

    Cette coopération entre la Commission et la FIFA débute à moment crucial. En décembre l’année dernière, les dirigeants de l’Union européenne, résolus à renforcer leur engagement en faveur du continent africain, ont adopté une nouvelle stratégie globale pour l’Afrique. À la même époque, la FIFA a pris la décision, historique, de choisir, pour la première fois de son histoire, un pays africain pour accueillir la prochaine Coupe du monde de football.

    Grâce à cette décision symbolique, l’Afrique se retrouvera, comme l’Europe avant elle, au centre de l’attention du monde entier. Au cours des quatre prochaines années, la Commission européenne et la FIFA veulent se servir de cette dynamique pour améliorer la vie de millions de citoyens africains.

    Como (quase) sempre sobre cooperação portuguesa em África só no Bloguítica se pode escutar eco. A acompanhar, com múltiplo interesse. Ou seja, múltiplo ponto de vista.

    O 25 cm de Neve diz que eu exagero. Tem razão. Exagero. É o meu vice-versa. E, também, algum frisson escatológico

    Good Governance

    Quando se fala em cooperação (Ajuda Pública ao Desenvolvimento, bilateral ou multilateral), da sua necessidade em África, há sempre umas excelsas luminárias, mui viajadas em capitais europeias e estâncias semi-tropicais de turismo sexual, que dissertam sobre a sua ineficiência, mero desbarato do dinheiro dos contribuintes “ocidentais”, tudo isso devido às corrupções africanas, realidade provavelmente congénita ou, quanto muito, filha dos estados barbáricos em que tais populações ainda vivem. E, se em conversa, se contra-argumenta não só pela sua necessidade como pela panóplia de instrumentos que a procuram tornear, toda essa “condicionalidade política” a que chamam(os) “good governance”, enciclopédias de procedimentos que os Estados receptores têm que cumprir para continuar a receber os fundos internacionais, logo todo esse mundo desconhecido aos prestáveis opinativos é desvalorizado, logo surge a “empiria” deles conhecida, o ministro da Bordúria que pede dinheiro, o polícia de trânsito da Sildávia que é ladrão.

    Ora a maioria do dinheiro que em Portugal se investe em obras públicas é de origem europeia (os “fundos estruturais”). Entenda-se, é ajuda pública ao desenvolvimento. A situação é similar, até análoga, ao acontecido em países africanos. A corrupção grassa, e os imbróglios públicos na Justiça são seu mero reflexo. Grassa e bem mais e muito do que em países africanos – há mais taco, há menos controle externo. Esta inversão custa muito ao olhar racista interno. De vez em quando alguém abre a boca e mostra um pouco do estendal corrupto que o sistema político português é: do governo até cá baixo. Depois tudo passa. E quem continua irritado, quem protesta e desconfia, enojado, quanto muito leva com o epíteto de adepto do “independentismo”, se entre simpatias bloguistas. E pior, se noutro palco qualquer.

    Há anos que o penso: Portugal, como receptor da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, precisa que se lhe cerrem mais as obrigações de “good governance”. O controle sobre a sua decadente administração pública e corrupto sistema político tem que ser assumido por instâncias internacionais, segundo os ditames da “good governance”. Para que haja desenvolvimento. Para que haja democracia. Hoje, em Portugal, ser um “nacionalista” consciente é estar consciente de que é necessário prescindir de uma retórica “soberania nacional”.

    Nota lateral: Às vezes aqui no Ma-schamba ao escrever sobre Portugal irrito-me um bocado demais, o tom da escrita azeda. Agora elei um texto elucidativo chamado “Nojo”! Talvez as visitas mais frequentes possam compreender o azedo de alguns textos daqui. É que eu não tenho nem mais um grama de nojo por quem é político corrupto do que por quem o apoia. E tenho muito mais nojo por quem escreve, in-blog ou out-blog, favoravelmente a esta cáfila (ainda por cima quantos com ares de desprendidos, como se superiores) do que por ela mesma. Um corrupto ao menos está a fazer pela sua vidinha, e da dos seus amigos. Um teclo-apoiante faz o quê? Sitemeteriza-se?

    Animat’África

    Via correio electrónico chega-me circular desta Animat’África, associação benfazeja, sede lá “no meu Portugal”. Informam que há poucos meses realizaram uma missão de voluntariado em Conhanhe, aqui nas “vizinhanças”. “Somos uma equipa de jovens empenhados, motivados e sempre realistas.”, dizem. Espero, e creio, que sim. O sítio informático não é muito funcional, mas a boa-vontade parece abundar.

    Confesso que não sou grande fã deste tipo de caminhos. Mas também não sou grande adversário. O voluntarismo é bonito e forma pessoas. Entenda-se, forma os voluntários, quase sempre gente boa. O voluntarismo, muitas vezes, tem um olhar que … enfim.

    Para quem acha que a solidariedade se pode, aconselho a visita. Para quem torce o nariz sempre vou lembrando que o adversário não é este.

    Não deixo a nota, sem remoque. Não gosto do nome da associação, e não é pouco o desgosto. Coisas ideológicas, claro está. Ou seja, do conceber.

    Húmus do inferno

    Abaixo está uma entrada que se integra numa corrente bloguística. Foi-me proposta a adesão, convite amável. Está aí.

    Muda-se o mundo mudando a vida de alguém!

    Mantém-se o assim do mundo mudando a vida de alguém!

    Mal não fazem, as boas vontades. Húmus do inferno. Esse que tanto prezamos.

    Onde é que está o Geldof?

    Pois sobre a ajuda a África, sobre o perdão da dívida, sobre a cimeira do G8, sobre a iniciativa Blair. Pois sobre o Live8. Pois…

    Where is Geldof now?

    George Monbiot:
    Mail & Guardian Online, 09 September 2005 03:00

    Two months have elapsed since the G8 summit and already almost everything has turned to ashes. Even the crustiest sceptics have been shocked by the speed with which its promises have been broken.

    It is true that they didn’t amount to much. The World Development Movement described the agreement as “a disaster for the world’s poor”. ActionAid complained that “the G8 have completely failed to deliver trade justice”. Christian Aid called July 8 “a sad day for poor people in Africa and all over the world”. Oxfam lamented that “neither the necessary sense of urgency, nor the historic potential of Gleneagles, was grasped by the G8″. But one man had a different view.

    Bob Geldof, who organised the Live 8 events, announced that “a great justice has been done … On aid, 10 out of 10; on debt, eight out of 10 … Mission accomplished, frankly.” Had he not signed off like this, had he not gone on to describe Kumi Naidoo, a South African campaigner who had criticised the deal, as “a disgrace”, Geldof could have walked away from the summit unencumbered by further responsibility. He could have spent the rest of his life on holiday, and no one would have minded. But it was because he gave the G8 his seal of approval, because he told us, in effect, that we could all go home and stop worrying about Africa, that he now has a responsibility to speak out.

    Immediately after the summit, as the world’s attention shifted to the London bombs, Germany and Italy announced that they might not be able to meet the commitments they had just made, due to “budgetary constraints”. A week later, on July 15, the World Development Movement obtained leaked documents showing that four of the International Monetary Fund’s European directors were trying to overturn the G8’s debt deal. Four days after that, British Finance Minister Gordon Brown dropped a bombshell. He admitted that the aid package the G8 leaders had promised “includes the numbers for debt relief”. The extra money they had promised for aid and for debt relief were in fact one and the same.

    Nine days after that, on July 28, the United States, which had appeared to give some ground at Gleneagles, announced a pact with Australia, China and India to undermine the Kyoto Protocol on climate change. On August 2, leaked documents from the World Bank showed that the G8 had not, in fact, granted 100% debt relief to 18 countries, but had promised enough money only to write off their repayments for the next three years. On August 3, the United Nations revealed that only one-third of the money needed for famine relief in Niger and 14% of the money needed by Mali had been pledged by the rich nations. About five-million people in the western Sahel remained at risk of starvation.

    Two weeks ago, we discovered that John Bolton, the new US ambassador to the United Nations, had proposed 750 amendments to the agreement that is meant to be concluded at next week’s UN summit. He was, in effect, striking out the Millennium Development Goals on health, education and poverty relief, which the UN set in 2000. ActionAid released a report showing that the first of these goals — equal access to schooling for boys and girls by 2005 — has been missed in more than 70 countries. “Africa,” it found, “is currently projected to miss every goal”. There is so little resolve at the UN to do anything about it that the summit could deliver “a worse outcome than the situation before the G8″.

    Yet, Geldof remains silent. To the corporate press, and therefore to most of the public, he is a saint. Among those who know something about the issues, he is detested.

    He seized a campaign that commanded great public enthusiasm, that had the potential to gravely embarrass Tony Blair and George Bush. He asked us to focus not on the harm the G8 leaders were doing, but on the help they might give. When they failed to deliver, he praised them anyway. His endorsement, and the public forgetfulness it prompted, helped license them to start reversing their commitments. When they did so, he said nothing. This looks to me like more than just political naivety. It looks as if he is working for the other side.

    There is just one thing Geldof can now do for Africa. This is to announce that his optimism was misplaced, that the mission was not accomplished, that the struggle for justice is as urgent as ever. But, while he holds his tongue, he will remain the man who betrayed the poor.