Archive for the ‘Cinema’ Category

ÁFRICA NO PORTO

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

por ABM (2 de Setembro de 2010)

Entre 4 de Setembro e 1 de Outubro, o Grupo Musical de Miragaia (programação de José Maia, organização da Confederação Núcleo para a Investigação Teatral) vai levar a cabo um ciclo de cinema a que chamam África Já Ali.

Entre outros, será projectado o filme de 2004, da autoria da portuguesa Margarida Cardoso sobre a guerra colonial em Moçambique, de que se pode ver o excerto acima.

Do texto divulgado (e que pode ser descarregado PRESS_ciclo cinema_Africa) lê-se:

Pelo olhar e pensamento de realizadores europeus de diferentes gerações, com obras de
ficção, etno-ficção e documentais iremos ver, (re)conhecer e reflectir como o ocidente
representou e representa, pensou e pensa África.

As obras que serão apresentadas neste ciclo compreendem diferentes enquadramentos
históricos, políticos, sociais e culturais permitindo-nos pensar:

Nós, o Outro e a relação entre Ocidente e África na cultura ocidental e na cultura africana
pelas obras de Alain Resnais e Chris Marker, Werner Herzog, Pier Paolo Pasolini;

o ocidente em África no período de colonização de África pela primeira obra cinematográfica
de reflexão crítica ao colonialismo África 50 de René Vautier e pelas obras de Jean Rouch e Pier
Paolo Pasolini;

o confronto com o olhar africano sobre o europeu e como e quanto europeu é o africano
colonizado pela obra Jean Rouch;

a colonização portuguesa, a Guerra Colonial o fim do Império e descolonização pela obras de
Manoel de Oliveira, Manuel Santos Maia e Margarida Cardoso;

África Hoje, após independências e o surgimento das novas nações africanas numa viagem
falada em português de Moçambique à “Terra Sonâmbola” do escritor Moçambicano Mia
Couto com Teresa Prata e outra em crioulo, que também tem base lexical portuguesa, até
à “Casa de Lava” de Pedro Costa, em Cabo Verde;

os fluxos migratórios africanos do norte de África para a Europa e a emigração cabo-
verdiana para Portugal serão verificados por Frederico Lobo e de Pedro Pinho e por Pedro
Costa;

África em Portugal, Hoje verificada pela presença de africanos, de portugueses

africanos e de africanos portugueses, resultado dos vários processos de migração de
uma “Juventude em Marcha” para Portugal;

e por fim

quanto e como somos hoje mais africanos?

Se o exmo. Leitor andar pelos lados de Miragaia, este ciclo parece ser interessante e denso de conteúdos.


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Deus Criou a Mulher

Terça-feira, Agosto 24th, 2010

["Sofia Loren em Portugal", Póvoa do Varzim, 1956 - fotografia de Agnes Varda; Postal Edições 19 de Abril, 1997]

 Miguel Marujo, no Cibertúlia atentou neste meu texto sobre espionagem e fez uma ligação. Aí mesmo, em teclado corrido e em conversa pouco cuidada com o blogo-confrade, e até um pouco a despropósito, deixei crítica ao seu E Deus Criou a Mulher, afamado blog do qual o Miguel Marujo é um dos responsáveis, e o qual é dedicado ao culto da beleza feminina, nisso acolhendo enfática recepção no mundo bloguista português. Para quem tenha interesse na minha má disposição ela argumenta-se aqui, na caixa de comentários.

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Polanski, o escritor-fantasma

Terça-feira, Julho 27th, 2010

Para quem vive com saudades de cinema sentar-se diante de O Escritor Fantasma, de Polanski é uma delícia. Não tanto pela óbvia, e sumptuosa, canelada que resume o argumento – ao qual pouco ligaremos. Pois o que conta mesmo é o ambiente que o velho continua a gerar nos seus filmes. Bem diferente do rame-rame da “indústria”, bem diferente do rame-rame da “arte”.

Ali no King também o bom de encontrarmos e trocarmos memórias com um bloguista sempre legível agora a convocar-nos para o seu novo Da Casa Amarela, sítio que será obrigatório para quem segue o cinema. Ou seja, coisas do “xenon”. Abraço do casal.

Adenda:

Lesto o Francisco Valente envia-me a memória do dito Xenon. Aqui fica, para mais tarde nos lembrarmos, agora que se avizinha o edifício de 11 ou mais andares, chaminé de mini-multiplex.

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4 Filmes Portugueses no Franco-Moçambicano

Segunda-feira, Junho 7th, 2010

(pressionando as imagens elas engrandecem)

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Dennis Hopper

Sábado, Maio 29th, 2010

Consoante a respectiva geração cada um terá o seu Dennis Hopper, que hoje morreu. Em mim ficou-lhe colada esta personagem do Apocalypse Now (o filme que Baudrillard tanto execrou). Onde Hopper é o século XX, na forma como dá corpo à imagem do intelectual.

Adenda: para quem não se lembre (!?) ou para quem não conheça (e eu tenho muitos vizinhos mais novos que nunca viram o filme!) aqui fica, via Hopper, um significativo excerto do intelectual de XX e sua relação com o poder, que encontrei no A Terceira Via [repugna-me um pouco incluir youtubadas no blog pois elas são constantemente retiradas do acesso público. Mas aqui fica como uma temporária ilustração]


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Alice in Genderland

Sábado, Maio 22nd, 2010

Vi a Alice de Tim Burton, dita “O Chapeleiro Maluco“. Também li coisas sobre o filme, uns gabam os “efeitos especiais” outros Tim Burton, indiscutível, e o actor Depp, muito do agrado das e dos espectadora/es. Daí que segue a minha opinião (abaixo o anúncio):

A qualidade do filme é ser sintomático. Se nenhum filme é etéreo há alguns que abusam no gozo com que ostentam as grilhetas que os prendem ao dia-a-dia – é o caso. Recentemente li algures um qualquer intelectual (do qual não fixei o nome) referindo-se ao filme dizendo que a obra de Lewis Carroll não é para crianças, pois estas não conseguem compreender o surrealismo que ali vai. Tosca opinião, certo que a Alice de Carroll não é só para crianças, mas também é – e ainda bem que o é, espero bem que a muitas as “alicie”. E este tipo de afirmações presume a homogeneidade dos leitores, que todos compreendem uma obra da mesma forma, que esta tem apenas um nível de leitura – mas não contamos nós o “Capuchinho Vermelho” às pobres crianças, assegurados da sua candura?. E há gente que fala coisas destas e ganha a vida anunciando o que pensa … Refiro isto pois fui ver o filme em família, pensando que o filme também era para crianças.

O fundamental do filme assenta em dois pontos:

a) um emprobrecimento da imaginação. O onírico radical de Carroll é transformado num combate sanguinolento entre o bem e o mal, totalmente em contramão ao original. Ou seja, como fazer uma adaptação da obra literária? Dar-lhe sangue e porrada, quanto mais tétrico melhor (é absurda a caminhada de Alice sobre o fosso de cabeças decepadas – ainda se fosse o Russell Crowe …). Para mais tudo isso encerrado no complexo mitológico britânico, a constante Excalibur mais a necessária morte do dragão, história incessantemente vista e contada. Uma pungente pobreza. Onde Carroll colocou densidade (até violenta) Burton põe, limitado, a intensidade (da violência física).

b) a filiação do livro ao idioma do “género” (gender). Alice é transformada numa campeã do bem, melhor dizendo numa paladina guerreira. O papel de paladino, do vencedor da hidra do momento, é tradicionalmente de um homem, o herói. Agora Alice não é apenas a protagonista, não é apenas a heroína sonhadora. É mesmo a paladina, excalibur na mão, actualização de Lancelot, ali decepando cabeças. Pura actualização, em versão “género”, dos velhos mitos. Depois, saída da toca, do mundo onírico e subterrâneo, Alice recusa o “bom” casamento que lhe propõem e, muito british colonial, parte como se o jovem rapaz aventureiro de tantas outras histórias (por ex. Jim Hawkins da “Ilha do Tesouro” de Stevenson), para a distante China. Onde Carroll punha uma viagem à profundidade do “eu” (do “nós”) põe Burton uma viagem ao distante exótico (do “eles”, chineses). Onde Carroll punha uma menina (como complexidade do “eu” de sempre) põe Burton um unissexo (como a “lisura” do “eu” de hoje), tipo meia-estação de armazém de roupa.

Com toda a certeza (os admiradores de Depp a isso obriga) virá a sequela. Já imagino a Alice post-China, pós-colonial, que nos será oferecida. Completamente de acordo com as equidades hoje correctamente obrigatórias. Porventura retirando a única “incorrecção” deste filme – a fealdade física (ainda) associável à maldade. E muitas outras “ex-fracturantes” inovações. Verão. Depois contem-me, que já não darei para esse peditório.

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Youtube

Sábado, Maio 22nd, 2010

O youtube é um espantoso desafio à noção de propriedade, algo que ainda não vi tratado (acredito que sim, na confusão textual actual, mas não encontrei). Não me refiro à propriedade autoral mas sim à do captador. O sistema propõe que abramos contas e aí alojemos uma mini-filmoteca nossa – até automaticamente partilhável nas redes sociais.

 [e tal levanta-me uma questão paralela: há anos decidi mostrar in-blog o meu "template", isto a propósito do anti-semitismo, e dos mitos que carrega. Fotografei a penca de perfil e coloquei no blog. Nem reparei mas no fundo da foto estava um canto de estante, com livros. Fui logo acusado de encenar uma literacia (uma "intelectualice"), de me mostrar com livros. Hoje tantos (e eu também) ligamos a rede social à conta youtube (mostramos a estante de filmes) e ninguém é por isso acusado de "intelectualices" - depois eu tenho mau feitio por não achar piada ao humor alheio. Principalmente quando ele mostra as pobres hierarquias de usos que vão subsistindo].

Mas não é esse o assunto disto. O desafio à propriedade é o facto de se abrir uma conta, aí guardarmos os filmes que seleccionamos e depois, quando lá voltamos, muitos deles foram retirados do “éter”. Que propriedade é esta? Que coleccionismo volátil nos é permitido? Ou seja, o youtube é o símbolo desta fluidez de “sítios” onde nos alojamos, que habitamos. Somos o que temos, o que escolhemos. Mas controlamos a sua posse? Controlamo-nos?

Enfim, tudo isto vem a propósito de um fantástico mini-filme com o qual abri, há tempos, a minha conta youtube. O protagonista é o Walken esse que, como tantos da minha geração, conheci no perturbadíssimo e perturbante Nick do The Deer Hunter (O Caçador). Trinta e tal anos depois mais uma espantosa transfiguração do homem. Fluido, na sua grandeza. O que é ele? O que somos nós, onde nos alojamos e em que “template”?

Mas mais vale ver o filme, antes que seja retirado.

Adenda: comentários chegados de Brasil e Portugal anunciam que nesses países não se pode ver o filme. É uma pena, que é uma delícia este “Fat Boy Slim – Weapon of Choice” com Christopher Walken a dançar maravilhosamente – sorte nossa em Moçambique, que o podemos ver. Mas ao mesmo tempo essa proibição vem sublinhar, julgo eu, o teor do texto. Como diz a comentadora Juraci, esta proibição (geograficamente demarcada) é ”Mais uma variável na composição dos guardados, ou do baú virtual“.

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As viagens da deputada socialista Inês de Medeiros

Quinta-feira, Abril 22nd, 2010

Resumo a história para quem não a conheça. Recentemente a actriz Inês de Medeiros, a quem se desconhecia prática política ou publicista, foi convidada pelo Partido Socialista a candidatar-se à Assembleia da República, sendo de imediato colocada no destacado terceiro lugar da lista por Lisboa. Após a eleição gerou-se um problema, pois a nova deputada reside em Paris e solicita que lhe sejam pagas as viagens semanais casa-trabalho, o que não está regulamentado para a sua situação. Felizmente encontrou-se agora uma solução para o caso, que muito barulho tem causado, ainda que essa aparentemente seja um desenrascanço, que pouco ilustra a Assembleia.

Sublinho que nada me move contra Inês de Medeiros, a qual é com toda a certeza o parlamentar socialista com quem mais simpatizo. Mas da situação retiro dois corolários, que me parecem importantes. O primeiro estritamente político, como se vê neste exemplo típico do fariseísmo que acampou na actual partidocracia portuguesa: António Filipe, deputado do PCP [ao qual chego via 100Nada] defende a solução encontrada, reduzindo os seus adversários a populistas anti-democráticos, um “populismo mediático que considera o parlamento uma instituição indesejável e que olha para os parlamentares como uma massa de gente improdutiva a viver à custa do erário público” enquanto anuncia a “seriedade” (sua e do seu partido), que diante de “uma solução razoável e justa” decidiram pela “abstenção.”. António Filipe não quer (ou não consegue) perceber que o populismo anti-democrático se alimenta exactamente deste tipo muito particular de “seriedade”. E creio que os seus co-parlamentares continuam seguindo conjuntos na mesma incompreensão.

O segundo é mais importante, e na mesma acepção é ainda mais alimentador do populismo anti-parlamentar. Refere-se à causa de toda esta situação, o motivo desta súbita e meteórica aparição política de Inês de Medeiros - tão súbita que nem os detalhes logísticos foram convenientemente pensados. Uma causa estritamente ideológica. Político-ideológica, se se quiser.

 

É por isso que considero que as viagens de Inês de Medeiros deverão ser pagas na totalidade. Pois o trabalho paga-se. Neste caso deveria ser com o apoio de todos os partidos, que navegam o mesmo tipo de discurso. E dos votantes, que o sufragam – com mais ou menos resmungos.

Adenda: gostaria de chamar a atenção para a ruptura de valores políticos, uma nova era ideológica, acima representada (até simbolizada) pela deputada (belíssima, belíssima) Malu Mader – a ascensão da importância votada à causa do sabonete líquido. E sublinhar, já agora, o igualitarismo desta corrente de pensamento, ecuménica, expressa no último anúncio.

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Nova adenda: via Meditação na Pastelaria chego à causa directa da contratação, perdão, do convite do PS a Inês de Medeiros. Num estudo encomendando pela PT, explicitamente para uso empresarial e governamental, as figuras públicas mais acarinhadas eram Luís Figo, o futebolista, e Inês de Medeiros. Figo foi contratado, recebendo apoio para acções da sua fundação – e veio a integrar a campanha socialista. Medeiros foi catapultada para o topo das listas partidárias. O populismo anti-parlamentar radica onde?

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Islândia

Segunda-feira, Abril 19th, 2010

Julgava-os lá no topo do mundo, descansados e ordeiros. Afinal, primeiro não controlam os gastos, abrem falência, incomodam-nos. Depois, não controlam os humores, libertam gases e cinzas, incomodam-nos. Não há quem os invada para pôr cobro ao despautério?

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Invictus, de Clint Eastwood

Domingo, Abril 18th, 2010

Mãos amigas trouxeram-me o filme. Que delas voou para o DVD. Tinha maus pressentimentos face a ele: a história de Nelson Mandela, o melhor dos políticos (dos homens?), e do mundial de râguebi, o melhor dos jogos, pelas mãos e olhos de Clint Eastwood, o melhor dos cineastas (e único alter ego). Expectativas muito altas, medo de me desapontar. Mas não, não se tratou de um desapontamento. Foi apenas um engano, trouxeram-me outro filme, enganaram-se na capa.

E por isso levei com uma grande pepineira! Trouxeram-me, afinal, um tele-filme com os maus tiques todos, as analepses para evitar o génio narrativo, as câmara-lentas para nos “fazer-sentir” (a câmara-lenta em cinema é o equivalente ao baralho marcado da mesa de jogo, com hipotética excepção do que às vezes aconteceu a Sam Peckinpah), uns excertos de râguebi ridiculamente mal jogado, por “jogadores” quase tão preguiçosos como o raio do argumentista (há uns pontapés de abertura que fariam rir um espectador menos furibundo), uma sucessão de inanidades, tudo previsível. Salva-se apenas o sotaque do actor que representa Nelson Mandela, um tal de Morgan Freeman. Actor que merecerá, pareceu-me, sair do registo televisivo e começar a fazer verdadeiros filmes de cinema.

O que terá acontecido? O que explicará isto? Pirataria?

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TEMPOS MODERNOS por Tiziano Terzani

Quarta-feira, Abril 14th, 2010

“Boa gente, os marinheiros! Mas também eles destinados a desaparecer. Já nem se chamam por esse nome. «Marinheiros», «grumetes» e «mestres» foram abolidos e no lugar deles, por razões sindicais, surgiu uma nova categoria, a dos «não-graduados polivalentes», homens para todo o serviço.
Passa-se o mesmo com a sabedoria dos marinheiros, acumulada ao longo dos séculos. O mundo moderno não sabe o que fazer dela. Hoje os instrumentos fazem tudo. Antigamente, um marinheiro tinha de esforçar a vista para reconhecer, numa certa encrespação das ondas, a presença de um cardume de peixes, para ver de longe se uma enseada era navegável, ou para se aperceber a tempo de um baixio em que o navio poderia encalhar. Agora todo esse trabalho é confiado aos sonares e aos radares, que de ano para ano se tornam mais precisos.
Contudo, quanto conhecimento se perde! Quantas antenas naturais caem da cabeça do homem, para serem substituídas por antenas electrónicas!
«É tudo automático. Já não é preciso olhar para o mar!» dizia o capitão, desconsolado. E o mar, quando se olha para ele, é extraordinário! A todas as horas é diferente, tem cores diferentes, intensidades diferentes, diferente consistência, sons diferentes, movimentos diferentes, espéctaculos diferentes.
Uma vez foram os golfinhos a nadar ao lado do navio, outra vez uma baleia que mergulhou, ágil, como que assustada com a nossa monstruosidade, depois, os cardumes de peixes voadores entretidos a brincar com a quilha e os tubarões que-diziam os marinheiros-, naquela época, iam acasalar e reproduzir-se ao largo do Djibuti.

(…)

Enquanto estivemos a bordo do navio, tínhamos sempre a sensação de estar a assistir a qualquer coisa que terminava.
Até que um dia essa sensação se definiu: a nossa viagem era um funeral. Pouco depois de termos dobrado o Cabo Guardafui, «olha e foge», o radiotelegrafista recebeu uma mensagem dos sindicatos convidando a tripulação a fazer greve, pois a sociedade estatal proprietária do Trieste estava em negociações para a sua venda. No regresso, o navio já pertenceria a uma multinacional qualquer, que lhe daria outro nome, o registaria em qualquer país conveniente e substituiria os italianíssimos «não-graduados polivalentes» por marinheiros asiáticos, talvez chineses, pagos a menos de 50 dólares por mês.
Portanto, aquela era a última viagem de um dos poucos navios ainda com a bandeira italiana.
Sentado à popa, perguntava-me quanto tempo poderá ainda durar um mundo asssim, regido exclusivamente pelos critérios incultos, desumanos e imorais da economia. Ao avistar a sombra de ilhas longínquas, imaginava uma ainda habitada por uma tribo de poetas, ali conservados para quando, após a Idade Média do materialismo, a humanidade tiver de recomeçar a introduzir outros valores na sua vida.”

in Disse-me um Advinho, de Tiziano Terzani

PSB


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Muito Lá De Casa

Quinta-feira, Março 25th, 2010

[João Bénard da Costa, Muito Lá De Casa, Assírio & Alvim, 2007 (2ª edição)]

Para quem goste de cinema é um prazer esta leitura, sê-lo-á para quem ainda não tenha chegado ao livro. Crónicas, já antigas de vinte anos (foram publicadas originalmente em 1989-1990 no jornal “O Independente”, e na altura eram um “must”), dedicadas aos actores e actrizes da vida de JBC. Que, para além de transpirar cinema – um saber que se enciclopédico era vivido, donde não precisava de se mostrar, ”apenas” transparecia - escrevia esplendidamente, tornando uma delícia esta visita às suas memórias sobre esses que lhe (nos) levantam a questão central: “Por que é que as máquinas fotográficas e as câmaras de filmar gostam de fazer amor com alguns mortais e murcham perante outros? … que méritos são exigidos aos humanos? A beleza, o talento, a inteligência ajudam (ajudam sempre), mas não são suficientes e às vezes nem são necessários.” (53). Por isso este livro sobre aqueles que “de cada vez que aparecem, o inexplicável acontece e a existência deles não se parece com a existência de ninguém mais.” (53), 38 deles abarcando um enorme arco de tempo, um quase todo-XX, entre Gary Cooper e Richard Burton, entre Marlene Dietrich e Brigitte Bardot (a aparição, temporalmente excêntrica, de Isabela Rosselini não será apenas uma paixão serôdia – muito justificável, já agora – mas também uma invocação da sua mãe). Quando o cinema era outro, com toda a certeza. Vivido com outros mitos. E sobre estes vale mesmo a pena ler este livro, não o deixar ficar para mono.

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Bénard da Costa e o catolicismo

Quarta-feira, Março 17th, 2010

[João Bénard da Costa, Nós, os Vencidos do Catolicismo, Edições Tenacitas, 2003]

Edição em livro de um texto publicado no jornal Independente em 1997. Em registo de memórias pessoais fica o percurso de uma franja da burguesia lisboeta católica oposicionista ao Estado Novo, um núcleo que veio a ser conhecido como “católicos progressistas” (apesar do seu desgosto pelo termo), e do seu progressivo afastamento face à hierarquia católica, primeiro, e ao próprio catolicismo, depois. Um retrato de época muito interessante – e não só por aqui se encontrar traçada a juventude de inúmeras personagens que vieram a ser relevantes nas décadas seguintes na sociedade portuguesa. Também nisso denotando a influência que a igreja católica tinha à altura no país e na formação das suas elites. 

Deixo três excertos. O primeiro, referente à juventude do autor, que poderá ser extrapolado (e que, porventura, ele-próprio terá extrapolado ao longo da vida) como visão do mundo bem para além do “cristianismo” a que se refere directamente, e que assim aborda a rábula do “lado correcto”, do raciocínio bipolar ainda hoje tão recorrente em Portugal; o segundo, que resume o incómodo sofrido por Bénard da Costa (e seu grupo?), teórico-teológico; e um terceiro que não escolho por qualquer anacrónica comicidade mas porque deixará entrever da justeza e pertinência de tantas das posições da igreja católica apostólica romana face à sociedade contemporânea:

“… cedo, demasiado cedo na vida, aprendi que as ameaças ao cristianismo não vinham de um só lado, mas de dois. Só aparentemente opostos.” (21)

O Concílio – pensava eu nesse tempo – ao introduzir … a noção essencial de Igreja como Povo de Deus (completando o tradicional conceito de Corpo Místico) vinha dizer a cada cristão que cada um de nós era Igreja … contruída com pedras vivas, numa comunidade de pessoas em que Cristo era o factor unitário, o valor vital fundamental, a norma viva e o único princípio de autoridade. Esse factor, esse valor, essa norma, esse princípio, deixavam de residir na Hierarquia ou no Clero e passavam a estar em cada um de nós. Daí que eu alargasse muito o conceito, então em voga, de “fim do constantinismo”. Em vez de ver nele, apenas, o fim da identificação da religião com o Estado ou o fim da identificação do cristianismo com uma civilização, eu via também na expressão o fim da identificação da fé individual com a fé na Igreja, o fim de uma visão dela como superestruturaa, que envolvesse, protegesse e sustentasse cada um dos seus membros. Secularmente, a Igreja abrigara-se sob a protecção do Estado para se defender. Secularmente, também, o cristão abrigara-se sob a protecção da Igreja com idêntico intuito. Chegara a altura de abandonar ambos os abrigos …” (88-89)

Foi o caso da pastoral sobre a Modéstia Cristã, que deu origem a um dos episódios que mais recordo desses tempos. No verão de 56, os bispos resolveram dissertar sobre a dita modéstia, julgando chegada a altura de se unirem aos cabo de mar para acabarem, nas praias, com homens de tronco nu e mulheres de fatos de banho de duas peças (ainda não se falava de biquinis). Evidentemente, o assunto era ingrato … Se já ninguém tinha muita pachorra para enfiar uma camisola interior quando o cabo se aproximava, menos ainda se considerava que o assunto devesse merecer a atenção do venerando episcopado.” (31)

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Clint – o homem da luz

Domingo, Fevereiro 7th, 2010


[Blood Work]

Agora que espero Invictus, de Clint Eastwood a angústia assalta-me. Coisa da idade, a descrença. Essa que me leva a duvidar (a desesperar?) de que ali cumprirei as minhas expectativas. Pois não poderiam elas ser mais altas. Como?, se se trata do modelo de realizador (o homem que sempre alumia), do melhor dos políticos (e dos homens?), do maior dos jogos?

Por isso vou acalmando a expectativa na companhia deste magnífico livro, que mão muito amiga me trouxe há algum tempo e que vivamente recomendo:

[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem com Passado, Lisboa, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]

Nele uma bela entrevista a Clint Eastwood (realizada por Nicolas Saada e Serge Toubiana), um conjunto de suas declarações sobre vários dos seus filmes (seleccionadas pela organizadora do livro), uma excelente “cinebiografia” do mestre também da autoria de M.J. Madeira (“O Contador de Histórias”), a sua cinematografia. E múltiplas fotografias. E ainda sete outros textos – os quais ainda não terminei – dedicados a Eastwood, e que chegam com a autoria de Manuel Cintra Ferreira, Fabien Gaffez, João Bonifácio, Vasco Câmara, Kent Jones, Luis Miguel Oliveira, Joana Ascensão (neste último caso um belíssimo texto em fotogramas) . Edição da Cinemateca, quem não tem o livro (nem as minhas maravilhosas amigas ofertadoras) faça o favor de ir lá comprar.

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Quando o Telefona Toca

Quinta-feira, Fevereiro 4th, 2010

Um telefonema matinal de Portugal, um cinéfilo  agradecimento mas com lamento incluso, a ABC daquele lado expressando-me as saudades, até ânsia, do hipnotizador tema musical do “Terceiro Homem”, e nisso concordo eu. Então está aqui. E nem foi preciso “dizer a frase”.


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