Agora que espero Invictus, de Clint Eastwood a angústia assalta-me. Coisa da idade, a descrença. Essa que me leva a duvidar (a desesperar?) de que ali cumprirei as minhas expectativas. Pois não poderiam elas ser mais altas. Como?, se se trata do modelo de realizador (o homem que sempre alumia), do melhor dos políticos (e dos homens?), do maior dos jogos?
Por isso vou acalmando a expectativa na companhia deste magnífico livro, que mão muito amiga me trouxe há algum tempo e que vivamente recomendo:
[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem com Passado, Lisboa, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]
Nele uma bela entrevista a Clint Eastwood (realizada por Nicolas Saada e Serge Toubiana), um conjunto de suas declarações sobre vários dos seus filmes (seleccionadas pela organizadora do livro), uma excelente “cinebiografia” do mestre também da autoria de M.J. Madeira (“O Contador de Histórias”), a sua cinematografia. E múltiplas fotografias. E ainda sete outros textos – os quais ainda não terminei – dedicados a Eastwood, e que chegam com a autoria de Manuel Cintra Ferreira, Fabien Gaffez, João Bonifácio, Vasco Câmara, Kent Jones, Luis Miguel Oliveira, Joana Ascensão (neste último caso um belíssimo texto em fotogramas) . Edição da Cinemateca, quem não tem o livro (nem as minhas maravilhosas amigas ofertadoras) faça o favor de ir lá comprar.
Um telefonema matinal de Portugal, um cinéfilo agradecimento mas com lamento incluso, a ABC daquele lado expressando-me as saudades, até ânsia, do hipnotizador tema musical do “Terceiro Homem”, e nisso concordo eu. Então está aqui. E nem foi preciso “dizer a frase”.
O outro dia a bater teclas para aqui de repente lembrei-me dos relógios de cuco de “O Terceiro Homem” (Carol Reed, 1949). Um maravilhoso soco contra o “politicamente correcto” (avant la lettre) saído da boca e da mente de Orson Welles, pois a tirada não estava no argumento original do filme protagonizado por Joseph Cotten mas que Welles abrilhantou. As maravilhas do youtube trazem-nos a casa:
Para quem não se lembre (ou nunca o tenha visto) o filme provém de uma história escrita por Graham Greene, a qual ascendeu a livro: O Terceiro Homem (aqui a edição portuguesa, Europa-América, 1977, tradução de Ana Maria Sampaio). E tendo-me lembrado da história lá fui mais uma vez reler o livro.
Já o sabia mas é sempre bom recordar isso. Este é um bom exemplo a utilizar contra os literatos furiosos que dizem ser um livro sempre melhor do que o filme que origina. Neste caso – como em tantos outros, onde nem atentamos no livro original, ali escondido no genérico – um pequeno livro originou um grande filme (é certo que com a ressalva que o texto foi escrito em função do filme): nele não está a espantosa Viena negra pós-guerra do filme nem tampouco a personagem do vilão tem a densidade e a verve, a crueza, que no filme adquiriu e a este deu fama.
Ainda assim é Greene, a culpa e a redenção como hipótese. E a falsa moralidade, um pouco. O protagonista Rollo Martins é um modesto escritor de policiais (um pouco um alter ego desvalorizado de Greene) que chega à Viena do pós-guerra, chamado por Lime o seu idolatrado amigo de juventude (Welles no filme). Para descobrir não só que este é um criminoso como apenas o quer usar, usando-se do apelo a uma afinal falsa amizade. Assim Rollo, e em nome de uma causa justa (Lime trafica medicamentos escassos), acaba por o matar. No fundo levado pela descoberta de não ser amado (amizado, seria melhor dito, mas não há em português). Onde está a culpa? A imoralidade? Com toda a certeza que em Rollo, inocente-sem-o-ser, aparente braço da justiça. E está tudo no princípio do livro, encapotado num ”Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós” (23). Depois é uma história sobre o despeito, o ciúme entre homens.
Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía
por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).
Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.
Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.
E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.
Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.
Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.
Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.
Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.
Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.
Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.
Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.
Ok, então o filme.
Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.
Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.
Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.
No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.
O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.
O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).
No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.
Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.
O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.
Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.
Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.
Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.
Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.
O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.
Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.
Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.
Seria Vasco da Gama all over again.
Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.
Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.
Nos comentários desta entrada aqui se discutiu, leve-leve, o olhar cinematográfico sobre o mundo colonial. E por coincidência logo de seguida revi este
delicioso Bhowani Junction (1956) – e vejam as imagens seguintes, porventura recordem-nas. O que me fez lembrar os entre-comentários aqui acontecidos, e alguma acidez com que um olhar crítico (ou seja, tentando analisar) sobre o acto cinematográfico foi recebido.
A obra foi filmada no Paquistão, adaptação do livro Bhowani Junction, de John Masters, oficial do exército colonial britânico. Livro que nunca li e como tal é-me impossível traçar o que no filme deriva da sua adaptação, feita por Sonya Levien e Ivan Moffat, dois argumentistas veteranos de Hollywood. Sendo dedicado ao final do Raj britânico, centra-se na história da mestiça anglo-indiana Victoria Jones (Ava Gardner), integrada nos serviços administrativos do exército, e dos conflitos identitários (afectivos) que a situação política lhe provoca. Ou seja, o cenário do filme é a ascensão da independência mas é um cenário motriz da complexidade da personagem, as suas deambulações não são mera ilustração, pretexto, dos eventos narrados … Assim, e para além da presença (e que presença!) da semi-deusa Ava Gardner, o que o torna interessante é o exemplificar da complexidade que pode (podia) haver no acto cinematográfico sobre o contexto colonial.
Por um lado como o cenário é construído pelo olhar anglófilo. A narração do fim do regime colonial é ancorada nos episódios ligados ao conflito que originaria a formação dos estados da Índia e do Paquistão – e é muito interessante ver, ainda que com os cuidados necessários face ao comparativismo selvagem, que o olhar britânico sobre a descolonização na Índia tanto se centra no conflito hindu-islâmico (neste caso mesmo tantas décadas passadas), um implícito sobrevalorizar da “ordem” anterior (colonial) assim evocada, algo muito similar a tantos discursos portugueses sobre os conflitos pós-independências africanas. É notória a ligação ao discurso inaugural sobre as ocupações, então (e demoradamente) anunciadas como “guerras de pacificação”. Ou seja, uma visão do colonialismo entendido como “pacificação” dos locais e dos nativos, imersos num hobbesiano mundo a ser ilustrado pela civilização. E, obviamente, do seu final como o da despacificação nativa, a erupção dos díspares (e irracionais) conflitos.
Mas ainda mais significante quanto à “marca do olhar” que encena a obra é o contraste apresentado entre os mundos psicológicos em confronto – nesse sentido a cena crucial (que está no trailer abaixo) é a do sit-in na estação de caminhos-de-ferro, onde é notório o contraste entre a fleuma “máscula” (segundo o arquétipo), racional, britânica simbolizada no protagonista coronel Savage (Stewart Granger), e no seu culto do individualismo meritocrático, mas também presente nos próprios indianos que com ele ombreiam – obviamente “disciplinados” corporal e psicologicamente, “assimilados” às posturas correctas – e a excitação histérica do lider independentista, não só “feminina” mas também obscurantista, enredado nos preconceitos de casta, desvirtualizadores do valor “indivíduo”. Esta é uma oposição estruturante no cinema de então, basta atentar na quantidade de histéricos – quantas vezes dionísicos – “mexicanos” do mundo “western” vergados ao peso dos pilares apolíneos wasp’s, aka cow-boys. Para os pouco crentes na presença desta dicotomia estruturante do universo cinéfilo atentem na quantidade de vozes em falsete das personagens masculinas não wasps ao tempo da Velha Hollywood.
É um trivialidade dizer que George Cukor foi um cineasta de mulheres, exponenciando as habilidades das suas actrizes. Também deste Bhowani Junction se poderá dizer isso, Ava Gardner ascende ou, pelo menos, mantém-se no panteão no qual reina desde essa era. Se cinquenta anos depois podemos vê-la já com uma distância que permite reconhecer um tipo de representação de época (contextos …), algum do que aquilo que em português se define como “over-acting”, dela provém ainda um encanto avassalador – seja no avatar exótico de caqui british colonial, seja no do igualmente excêntrico sari hindu – que presumo à época ter sido absolutamente arrebatador.
Mas não se trata de um passeio da actriz, uma passerelle de sedução. A personagem tem uma evolução provocada pelo processo descolonizador. A desordem política implica a desordem afectiva de Victoria Jones (Ava Gardner), a explosão da sua sensualidade e a complicação da sua afectividade, um processo até tardio (ela já é um pouco velha, como lhe dirá a episódica sogra sikh). Sensualidade e afectividade que são vistas como processos identitários, nunca reduzidos ao melodramático. E é este o interesse do final, que vai para além dos maniqueísmos, caricaturas ou paternalismos que navegam outras obras.
Victoria é uma figura de charneira, um interstício colonial. Sem pureza rácica e pedigree social, filha de um ferroviário - salientando a imagem do proletariado colonial como produtor da mestiçagem. Objecto social de assédio por parte da elite colonial – a tentativa de violação sofrida, climax do filme, às mãos de um oficial britânico não é escudada num qualquer desvario psicológico deste último. O coronel Savage explicita mesmo que era prática essa violência sobre as “raparigas euroasiáticas”. Nesse sentido a convulsão política de então despoleta um feixe afectivo e sensual em torno de Victoria e nela mesmo.
O desordenar político, e os conflitos que daí ocorrem, retiram-na da relação certa, do casamento “endogâmico” – com outro mestiço, pois este excessivamente “anglófilo”. E projectam-na numa tentativa de reinstalação identitária, num casamento sikh, uma ruptura identitária, uma desordem crassa, do qual foge durante a própria cerimónia matrimonial (a parte menos conseguida do filme). E rompe de novo com a ordem prescrita ao envolver-se com o seu comandante, Savage (Stewart Granger) – “que artigos do regulamento acabámos de violar?”, perguntará ela – que lhe trará a sedimentação da identidade britânica – ainda que ele próprio quase um “pied-noir“, bisneto de militar do exército da Índia, tem o estatuto social e a pureza rácica que acalmarão as angústias, as desordens de Victoria. Factores que não serão suficientes, pois ela rompe a relação no fim, no happy ending. Fica a busca, no local.
[Para quê este texto? Pois, quando se vê os flamingos, a "África" do "bwana", em particular das décadas recentes, o espectador pode torcer o nariz. Porque já houve filmes, certo que de época, certo que com olhares muito marcados, mas que exploraram muito mais a complexidade das relações coloniais. Não como documentos, sim como cinema (vá lá, abusivamente, até como literatura). Ou seja, bem para além dos Oscares e da "bela fotografia" um espectador pode patear. Ou encolher os ombros, enquanto cospe o milho duro das pipocas.]
“Queria sobretudo proteger-me dos quadros dos estúdios e das suas eternas discussões. Têm sempre tantas ideias sobre a forma como se devem fazer os filmes. (…) Quando estamos ligados a um estúdio, temos que aturar uma enorme quantidade de pretensos especialistas, que não sabem grande coisa do cinema, nem da sua história. Os jovens quadros da indústria não conhecem um décimo dos filmes de que lhe falamos, de pequenos filmes ou até de filmes médios. (…) Essas pessoas, os quadros, os que decidem, só se preocupam com o presente. Não sabem nada de história. Mas como é que se pode trabalhar no presente se se ignora o passado? Isso não impede de fazer coisas, de filmar imensos filmes … que até podem ter êxito, com um pouco de sorte. Mas acho que se perde muito ignorando tudo o que está para trás.” (42)
[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem Com Passado, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]
CICLO DE CINEMA DOS PAISES DA LINGUA ALEMÃ (ALEMANHA, AUSTRIA, SUÍÇA)
10 a 14 de Novembro no Cine-Teatro Avenida, Maputo. 25 a 29 de Novembro no ArtCafé, Beira
(entradas gratuitas)
Este é um ciclo a não perder.
A VIDA DOS OUTROS (DAS LEBEN DER ANDEREN), de Florian Henckel von Donnersmarck (Drama, 2006, 137 min). Legendado em português.[Prémio do Filme Alemão 2006, Prémio do Filme da Baviera 2006, Prémio do Filme Europeu, 3º Prémio na categoria dos melhores filmes estrangeiros na atribuição dos Óscares de 2007]
Maputo: Terça-feira, 10/11 às 18:30 seguido de um cocktail
Beira: Quarta-feira, 25/11, 18.30 h
Sinopse: Berlim Oriental, meados da década oitenta. Como interrogador da Stasi o capitão Gerd Wiesler é colocado no encalço de George Dreyman, director de teatro, sobre quem recai a suspeita de infidelidade. O que começa como um mero caso de rotina, torna-se o ponto de viragem na vida de Wiesler. A imersão em “A Vida dos Outros” – no amor, literatura, liberdade de pensamento e de expressão – mostra a Wiesler o quão pobre é a sua própria existência e se lhe abre a consciência para um mundo, até então desconhecido, ao qual tem cada vez menos chances de escapar. Este drama distancia-se de quaisquer vínculos nostálgicos retratando mais intimamente a perda do individuum num sitema totalitário.
Sinopse: Jenny, uma jovem de 21 anos de idade, nunca evitou nenhuma disputa. E, por isso mesmo, a jovem assassina, deve cumprir uma pena de prisão. Já que as suas mãos tanto podem ferir os guardas, a ponto de levá-los ao hospital, como também tocar divinamente Schumann, ela terá que receber aulas da severa professora de piano Traudel Krüger. Apesar de Jenny descarregar agora toda a sua raiva sobre a co-prisioneira entre ambas perssiste, pelo menos, um elo de ligação: o amor à música.
Sinopse: Irina, uma Call Girl russa, chega a um fabuloso país alpino no qual ela começa a acreditar incondicionalmente. Através de um advogado sombrio e sua namorada, ela é introduzida a uma clientela cada vez maior de representantes de empresas, governo, militares e medias. Na longíqua Rússia, o clã familiar acompamha a ascensão de Irina. Comprometida como “informante”, Irina cai num denso labirinto..Vítima de chantagem, ela inventa histórias duvidosas sobre seus clientes. Confrontada com a ameaça de extradição, ela aciona, por mero mal-entendido e com a mais completa ignorância das conseqüências, o Alarme Berezina que fora planeado, há muitos anos atrás, por uma organização patriótica. E a vida de Irina dá uma inesperada reviravolta, em conjunto com o país inteiro.
Sinopse: Viena,1931: Fanny Ebner, filha de um Instrutor da Polícia, conhece Ma Yunlong, um funcionário da Polícia chinesa que participa numa formação em Viena. Esta aproximação, tímida no início, transforma-se num grande romance. Mesmo com a grande paixão as diferenças culturais são enormes e difíceis de serem ultrapassadas. Contra a vontade dos pais, Fanny viaja para China para casar-se com Ma, partilhando uma vida difícil devido às diferenças políticas e culturais. O Filme baseia-se numa história verídica.
Sinopse: Depois de uma campanha de panfletos na Universidade de Munique, em 1943, os irmãos Hans e Sophie Scholl – membros do grupo de resistência Rosa Branca, são presos. Durante vários dias são Interrogados e, finalmente, condenados à morte pelo Tribunal Nazista. Seus pais não têm a possibilidade de intervir no processo mas transmitem-lhes coragem e fé cristãs durante a despedida. A atitude corajosa de Sophie Scholl custa-lhe a sua vida e a de seus colegas que são decapitados.
Uma magnífica sexta-feira à noite revendo este “”White Hunter, Black Heart” de Clint Eastwood. E compreendo que nos filmes dele (até naquele “Madison County”) fico feliz, suspendo todo o juizo crítico. Ora, não é isso o amor?
É mesmo um mundo diferente, este onde se pode ver estes dois filmes de Fritz Lang em pleno youtube. É só ligar os trinta e cinco bocados (18+17) e ir clicando …
Depois do mero plágio Match Point, que tudo prometia de decadência final apesar do brilho “clean” (e da louraça da moda), a surpresa de um excelente filme de Woody Allen: Cassandra’s Dream (porquê a parva tradução “O Segredo de Cassandra”?). Podemos ser agentes do mal e nisso sobreviver? Para mais, se necessário fosse, prova da grandeza do realizador: Colin Farrell é o canastrão da sua geração hollywoodesca e aqui, às mãos de Allen, segue actor. Fantástico Pigmalião!
De Paul Verhoeven, cineasta bem tarimbado na indústria americana, o que se nota no ritmo do bastante premiadoZwartboek. Integrado no Ciclo de Cinema Europeu, uma organização da delegação da União Europeia, uma boa já tradição. Apresentação com uma originalidade: título na língua original (diferentemente de todos os outros) fugindo ao “Livro Negro” da versão inglesa ou ao “A Espiã” (???) brasileiro. Afirmação linguística da delegação holandesa?
Filme de aventuras na II Guerra Mundial, coisa já rara hoje. Argumento com algumas coisas engraçadas – a traição no seio da resistência holandesa; as diferenças ideológicas dentro desta; o anti-semitismo patente nesse movimento; a baixeza do revanchismo pós-libertação. E algumas parvoíces pueris, típicas da cosmologia cinéfila americana (“o amor tudo pode”): o importantíssimo responsável das SS que, afinal bom homem, se torna pacifista muito pela influência do seu amor pela bela judia espia (ou agora terei que dizer “espiã”?) e pelo seu par de seios – muito ostentado, e cuja beleza confirmo ser capaz de fazer vacilar alguns princípios ideológicos.
Bem, mas para quê tamanho destaque e pormenor a um filmezito de guerra? Lá segue a história, contada em modalidade de analepse. E que finda com o regresso ao momento presente da protagonista, correndo com a sua família para o abrigo no kibbutz sob os silvos do alarme e os sons das bombas de um ataque. A sensação de continuidade, de ausência de alguma ruptura é enorme, mensagem sublinhada por se tratar do final, em forma de reticências … Completa manipulação: o inimigo é o mesmo, a vítima perene.
E “fim”! Ainda estou eu a murmurar “filhos da mãe” e a sala, pejada de cidadãos holandeses (cooperantes, diplomatas, suas famílias), naturalmente ali a verem o “seu” filme, rompe em aplausos. A um filme de 2006! Sem nenhum participante na sala (vá lá, se o tivesse). Mandam uma tralha ideológica destas, já vista, e toca de aplaudir. Paroquianos. Provincianismo nacionalista.
Depois, cá fora, os comentários. “Porreiro”, “bom filme”, “agradável”. Claro, funciona. Pelos vistos.
É (quase)Natal e os bloguistas ficam bem dispostos e trocam cadeias de passatempos. Agora é o Lutz do Quase em Português que me desafia a mostrar cinco filmes de que tenha gostado. Há muitos, claro, e a lista variaria consoante o momento. Escolho cinco dos filmes que me marcaram mesmo. Não será uma lista de excelências, mas sim uma lista de experiências. Alguns já referi quando aqui deixei a minha deprimida autobiografia na véspera dos meus quarenta anos.
2. A Queda do Império Romano de Anthony Mann. O filme será uma vera pepineira, se revisto, típico filme histórico de Hollywood. Mas lembro-me de o ver, menino de 8 anos no Monumental, tarde de cinema com a minha mãe. E da espantada e profunda sensação de algo diferente. Era esta senhora. E ainda é.
3. The Magnificent Seven, de John Sturgess. Verão de 1972, São Martinho do Porto. Estou a passar férias com o meu irmão João, mulher e bebé. Tenho 8 anos. Eles saem à noite para ir ao cinema e ficamos em casa (o único ano em que ficámos na casa perto da cancela do caminho-de-ferro) com a(s) empregada(s?). De súbito ele volta, que o “filme é para 10 anos” e eu, pequenino “mas só tenho 8 anos” e ele sorrindo, que não faz mal. Não me esquecerei da excitação, do entusiasmo, aquilo de ir ao cinema à noite. E do pasmo diante de tão soberba cowboiada. Aliás tudo isso volta quando revejo o filme.
4. Solaris, de Andrei Tarkovski. Eu tinha dez ou onze anos. Mas não era a única criança. Os meus pais levaram-me ao Caleidoscópio ver o filme, na outra sala estava o 2001. Ali se anunciava que era a oposição entre a ficção científica socialista (Lem e Tarkovski) e a capitalista (Clarke e Kubrick), e havia corrida aos filmes. Sem qualquer dúvida, era o país que era uma criança, não só eu. Lembro-me que me apertavam os sapatos e, muito, daquele abismo. Alguma coisa devo ter transparecido, já não me levaram ao 2001, que só vi adolescente.
5. Apocalypse Now, de F.F. Coppola. Desde a adolescência psicotrópica, influenciável pelo “Charlie don’t surf”. Sem precisar de versões extensas …
Há já mais de um ano que muito se falou na Ilha de Moçambique da realização ali da super-produção cinematográfica Toussaint Louverture. Azáfama, entusiasmo, alguns investimentos privados (pequenos em termos absolutos, importantes para quem os fez) na expectativa de receber tamanha actividade, sonhos de lucro e de divulgação. Depois, infelizmente, tal não se concretizou. Lamentos, causas anunciadas, que os americanos tinham medo da malária, receavam a hipótese de um tsunami, que não havia condições logísticas, que o governo não teria facilitado. Enfim a frustração económica e existencial deu azo a múltiplas tentativas de explicação.
Afinal razões mais explícitas terão sido causa de tal desenlace. Danny Glover e Hugo Chavez, belos espíritos encontrados pelos vistos, e 20 milhões de USD dados pelo governo chaveziano para a realização do filme – por lá.