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Os motores de busca trazem tanta gente ao ma-schamba em busca do dockanema que mais vale deixar aqui a ligação para a página do evento: Dockanema.

Jornadas do Cinema Etnográfico


Inscritas nas actividades do Docknamena, uma organizacao em articulação com o Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM. Para além de antropólogos e historiadores mocambicanos as jornadas contarão com a participação das antropólogas cineastas Catarina Alves Costa (portuguesa) e Nadine Wanono (francesa).

Após o sucesso do primeiro Docknanema, no ano passado, arranca hoje a segunda edição do Festival do Filme Documentário em Maputo. De 14 a 23 de Setembro uma barrigada de cinema. Deve quem pode …

Irritou-me, sim, o filme com a guerra em Moçambique por fundo:” Creio que ele quis provar que, bem vistas as coisas, acabamos sempre por ter de entrar na ordem …”

(Baudelaire citado por Bourdieu, As Regras da Arte, Lisboa, Presença, 1996, p. 86)

Adicionando a este meu texto, sobre o “Jardim de Outro Homem”, de Sol de Carvalho:

“O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e díscipulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo.” (30-31) “Já vimos … que o eros, a sexualidade declarada ou dissimulada, pode impregnar as relações de poder entre Mestre e discípulo. O desejo de agradar ao Mestre, de “atrair o seu olhar amoroso” está tão presente no Banquete e na Última Ceia como em qualquer seminário ou lição particular. Quer se trate de ballet, de futebol ou de papirologia, as lições e sessões de treino são um híbrido complexo de amor e de ameaça, de imitação e de rejeição.” (87) “Eros e ensino são inextrincáveis. A afirmação é verdadeira antes de Platão e depois de Heidegger. As modulações do desejo espiritual e sexual, da dominação e da submissão, a interacção da inveja e da fé, são de uma complexidade, de uma delicadeza que desafia a análise exacta (…). Os componentes são mais subtis que a mera questão do género, que as demarcações entre homo e heterossexualidade, entre as relações convencionalmente consideradas lícitas e as proibidas com os mais jovens. As inversões de papéis ocorrem constantemente (…). A própria possesão física consumada é um aspecto secundário quando comparado com o acto de ensinar e tudo o que ele implica - essa asssustadora interferência na alma, no desenvolvimento, de outro ser humano. Um Mestre é o amante ciumento de uma potencialidade.” (117)

(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral).

Em “O Jardim de Outro HomemSol de Carvalho conta uma história em cinema. Mais do que isso, em tratando-se de cinema moçambicano, Sol tem uma grande vitória, escapa ao cinema quase etnográfico, aquilo da população na tela(genuína, claro, porque é população e portanto verdadeira, porque natural, não poluída, porque povo, ideologia que está sempre presente e que parece mal anunciar em tom crítico), a “representar”, não a representar mas a “representar” um colectivo (será meu deficit cultural, mas nunca vi nenhum filme que tenha posto burgueses a representar-se), coisa muito incensada, até esquecendo as décadas passadas sobre mediterrânicos a fazer bem coisas similares. Enfim, projectos ideológicos que vão obrigando a elogiar estopadas pueris - na recente estreia de “O Grande Bazar” atrevi-me a dizer do paupérrimo que aquilo era e fui alvo de zanga patrioteira dos meus circundantes. Que tinham toda a razão, decerto, pois logo o filme (mais a sua representação e argumento) foram premiados no estrangeiro. Enfim, tudo isto como catarse.

Sol fez um filme de cinema, contou uma história. No fim a acção acelera e aquilo complica-se um bocado (para mim, leigo, devido aos actores, nota-se o hiato entre Evaristo Abreu e as restantes envolvidas nas cenas finais), mas não seja por isso, vale bem a pena. Óptimo.

Fico, sinceramente, à espera de um novo passo, de um argumento sem causa - agora coitada da aluna, perseguida pelo professor conspíquo que não a classifica, impedindo-lhe o acesso aos estudos de medicina (ou seja, a fazer o bem - as burguesas de XIX tratavam das crianças, dos doentes e dos velhos; depois passaram a dedicar-se à enfermagem, o privado tornado público; depois à assistência social, e agora em tempos de igualdade, já são médicas. A ideologia do “género”, cega, fica contente), se ela “não se lhe entregar”, violência da qual se safa in extremis por um rebate de consciência, tudo apoiado por algumas mulheres: a professora boazinha, parece que francesa, noblesse oblige, a amiga, a avó, a irmã da amiga - uma guerra de sexos (a mais o malandro produtor de moda, Luís Sarmento, lúbrico em hotéis de 5 estrelas, e o outro professor a satisfazer-se na sala de professores). No fundo, um preto-e-branco onde apenas destoam, como gente, a mãe (a Magaia, que enche sempre) e o próprio professor, cujo desenho começa por ser complexo, como o são homens e mulheres, para acabar por ser um espantalho, simbolizando o mal. E assim se dedica o filme às mulheres moçambicanas que lutam …

Há assédio sexual nas escolas, e tal é muito denunciado. E um filme destes será uma boa propaganda contra tal. Ainda bem, e espero que tenha efeitos.

No resto, quanto ao cinema, ainda por cima porque sou professor, gostava muito mais de assistir a um filme sobre o erotismo entre as pessoas (e também entre alunos e professores, claro), o “vai-que-não-vai”, algo sobre as complexidades dos poços que somos. E sem dedicatórias.

Até lá hei-de rever este filme. Com agrado.

DOCKANEMA 2006 (PROGRAMA MUSICAL)

DOCKANEMA 2006 (PROGRAMA)

De 15 a 24 a decorrer em simultâneo no Centro Cultural Universitário, no Teatro Avenida, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no ISPU e no Matola 700. Aqui fica o programa dos 3 primeiros dias.

Sexta 15:

CCUEM -

18.30. - Abertura do Festival
- Junod 43’ (Moçambique) - Camilo de Sousa
- Ferro em Brasa 48’ (Moçambique)- Licinio Azevedo

Sábado 16:

CCFM -

14.30 – Master Class “ O Documentário como Dever de Memória”, Susana de Sousa Dias
16.00 – Natureza Morta 72’ (Portugal/França), Susana de Sousa Dias
18.30 - A Casa da Mãe 76’(África do Sul), François Verster
20.00 – O Milagre de Candeal 126’ (Espanha), Fernando Trueba

CCUEM

16.00 - Junod 43’ (Moçambique), Camilo de Sousa +
Ferro em Brasa 48’ (Moçambique), Licinio Azevedo

18.00 - Uma Fábrica Decente-90’(França/Finlândia), Thomas Balmès

TEATRO AVENIDA

18.00 - Bissau D’Isabel -52’ (Guiné Bissau), Sana Na N’hadaBatuque +
A Alma do Povo -52’ (Cabo Verde), Julião Silva Tavares
20.30 - Casa do Gilson, Nossa Casa -69’ (Brasil/Moçambique) Chico Carneiro

MATOLA 700

16.00 - A Negação do Brasil-92’ (Brasil) Joel Zito Araújo

Domingo, 17

CCFM

16.00 – MAHALEO 102’(Madagasacar), Cesar Paes
19.00 – “Além –mar” , As Folhas Sempre Regressam á Raíz, 52’ (Holanda), Ike Bertels
20.00 – Cruijff - En un Momento Dado - 91’ (Holanda) Ramon Gieling

CCUEM

16.00 - O Pesadelo de Darwin -107’ (França/Áustria), Hubert Sauper
18.00 - A Forma da Lua-92’(Holanda), Leonard Helmrich

TEATRO AVENIDA

18.00 - Um Sabor de Accra-20’ (Ghana), Ruth Ayisi/Matthieu Bron + Saudade em Dacar – 48’ (Senegal), Laurence Gavron + Mionga Ki Ôbo – Mar e Selva -52’ (S.Tomé), Ângelo Torres
20.30 - A Negação do Brasil-92’ (Brasil), Joel Zito Araújo

MATOLA 700

16.00 - O Milagre de Candeal 126’ (Espanha), Fernando Trueba
18.15 - A Casa da Mãe 76’(África do Sul), François Verster

1º Dockanema - Festival do Filme Documentário de Maputo


70 filmes entre 15 a 24 de Setembro próximos, uma organização da Ébano e da Amocine. (pressionar a imagem para tornar o texto legível)


Soube-o atrasado, foi agora aqui apresentado o documentário “Marrabentando. As Histórias que a Minha Guitarra Canta“, da autoria de Karen Boswall. Ancorado em duas histórias de vida, as dos músicos António Marcos e Dilon Djindji.

Lamentavelmente não tive conhecimento das projecções, primeiro no Gwaza Muthini em Marracuene, depois no Círculo na Mafalala, e ontem no obrigatório Franco-Moçambicano - muito boa onda, até nem subliminar, isto de não estrear o filme no cimento chic. Fica-se à espera do DVD, ou de uma futura projecção, para poder captar alguns percursos deste estilo. E expectante se o filme trará pistas para a polémica nacional sobre o estatuto da marrabenta, e seus efeitos na produção e recepção da música.