[Vasco Pulido Valente,A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]
Foi o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes Histórias de Portugal actuais (a de José Mattoso e a de João Medina) estão na longínqua Lisboa, fui reler o livro, a ver se me situo na efeméride. Mas nem tanto. Ainda assim entre algumas coisas retiro duas ideias, sendo a primeira a referência à lenda de Nossa Senhora de Fátima, a qual aqui transcrevo para alegria dos mais crentes, principalmente para os que já se afadigam na expectativa da próximas visita de Sua Santidade a Portugal, decerto que inscrita – de forma muito particular – nas comemorações do centenário da instauração da República. É uma longa citação mas vale a pena:
“Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.
Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.
Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (pp. 115-117)
E há uma segunda característica deste livro que fala comigo. Isto décadas depois de ter aprendido isso da “objectividade” e “subjectividade” no discurso das ciências sociais, suas fronteiras e namoros. É que o tom de Vasco Pulido Valente é – constantemente, e à excepção deste curto “… gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa horrorizava.” (p. 25) decerto inconsciente avatar de um certo “bom povo português” – de um enorme desprezo pelos agentes da história. Populares ou graúdos, políticos e anónimos, monárquicos ou republicanos de qualquer tendência, turba ou cáfila, é tudo gente “patética”, “miserável”, incompetente. São páginas e páginas de uma enorme superioridade do narrador, de uma enorme moralização (des-valorização) sobre o que (quem) fala. Ora aprendemos nós a desconfiar dos “engajados”, dos “exotizados” (então tontos antropólogos apaixonados pelos seus nativos – dantes – ou pelas suas minorias exploradas/discriminadas – hoje - é um festival constante) para cair na esparrela inversa? Ou seja, na mesma? Bah…! Vai o livro directamente para a fila de trás da estante – apesar da história da freguesia de Fátima.
Em 1967 Ruy Cinnati, que penso não ter sido um scholar da left-wing, escrevia assim como se em memória descritiva para o poema “O Signo Marcado (para uma voz e coro)“, publicado em “Manhã Imensa” (Assírio & Alvim, 1997 [1984]):
“Tenho em minha casa uma estátua de S. João Baptista, julgo que dos princípios do século XIX, passável de factura, embora um tanto adocicada: fruta do tempo. Tomei-a como se fosse S. João Evangelista e no texto mantenho-a com esse nome. Um amigo trouxe-me da América um tomahawak para turista, artesanato dos índios Cherokee, Smoky Mountains, Apalaches. Não tendo encontrado lugar mais apropriado para ele, coloquei-o na mão direita do santo. O tomahawak, ou a sua imagem-símbolo – é importante distingui-lo por causa da moral activa … – está carregado de recordações de infância, quando eu lia o Texas Jack, série de novelas para rapazes que qualquer capelista exibia à entrada da porta, entre os anos 20 e 30.” (p. 59)
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
A casa que protagoniza esta foto é uma casa de mulheres no País Dogon, Mali. Chama-se, mais propriamente, casa de menstruação por albergar as mulheres naqueles dias do mês em que são consideradas impuras; interditas, portanto, de confeccionarem comida, de fazerem tarefas domésticas e de se dedicarem à terra. Os homens estão estritamente proibidos de ver, tocar ou cheirar o sangue menstrual e nalgumas aldeias nem falam com mulheres menstruadas – acreditam que estes contactos fazem perigar a sua virilidade. Assim, as mulheres menstruadas juntam-se aqui, onde são tratadas e alimentadas pelas idosas pós-menopáusicas da comunidade, numa semana de merecido repouso.
Quando visitei a aldeia onde fica esta casa, cruzei-me com uma activista canadiana dos direitos da mulher. Horrorizada pela discriminação que tais casas representavam; pela demonização da mulher como fonte de mal; pela exclusão social despoletada por algo tão natural (visceral?) na mulher, dizia a quem passava por perto “C’est pas bien cette maison, hein? C’est pas bien pour les femmes!”… Os que por ali passavam olhavam-na com ar de quem está habituado a diatribes semelhantes e aquiesciam com a cabeça, naquele gesto de bondade que se tem para os loucos inocentes e seguiam o seu caminho num murmúrio quiçá equivalente ao nosso “pois, está bem…” Eu, talvez mais básica, pensei para comigo que bem que me teria sabido em certos meses ter sido excluída assim, para uma casa onde houvesse quem me tratasse a mim e aos meus filhos pequenos.
Caímos as duas, a Canadiana e eu, na mesma falácia – ela, a Canadiana, por ignorar as mercês deste tipo pontual de exclusão expressando juízos de valor de uma igualdade de cariz cultural; eu, por valorizar as mercês deste tipo pontual de exclusão ignorando os limites impostos pelo simples facto de se ser mulher. Celebrou-se ontem o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, com direito a uma declaração pelo Secretário-Geral da ONU. Confesso que discursos como a diatribe da Canadiana e a linha oficial da comunidade internacional e do politicamente correcto sobre o género me irritam particularmente. Mas a verdade é que:
uma em cada três mulheres é espancada ou forçada a ter relações sexuais, geralmente por alguém que lhe é próximo;
a violência é uma das principais causas de morte ou de deficiência nas mulheres entre os 15 e os 44 anos; a violação e a violência doméstica causam mais mortes neste grupo etário do que cancro, desastres, guerra e malária
as maioria das mulheres ainda enfrenta discriminação perante a Lei
Por isto, por ter nascido e crescido num ambiente relativamente igualitário, por ter filhas, por raramente me ter sentido discriminada por ser mulher, pelas mulheres discriminadas que conheço e porque a irritação causada pelo discurso da advocacia não nos deve cegar, aqui deixo este post.
Ao ver esta entrada da AL, retratando a sede do Sporting Clube de Timor, em Dili, anunciada naquele “paradoxal” leão vermelho (se nos referirmos à simbologia “original” da criação das associações desportivas pelas colónias portuguesas) não contive o riso.
Não tanto pelo leão vermelho, claro que agente motriz da primeira gargalhada. Mas todos os outros sorrisos têm-me vindo por via da imaginação. Pois um símbolo destes é um verdadeiro achado. Na indústria do “paperismo”, esse caldeirão condimentado de causas justas, jornalismo “informado” e exotic-dropping, que melhor se poderá arranjar? Está aqui o frontespício para uma colectânea de textos sobre o “pós-colonialismo” e a sacrossanta “hibridez” que nele é, ao que parece, ontológica. Quem tenha unhas que toque …. o sintetizador.
Interessante texto geral de Jordi Tomás e de Albert Farré, este um antropólogo espanhol com vasta experiência em Moçambique: “Os Estudos Africanos em Espanha. Balanço e Perspectivas. Não vou aqui discutir a pertinência da delimitação geográfica das ”áreas” de investigação, ”estudos africanos” é uma denominação delimitação criticável mas tem carta de corso. Registo o texto, tem um excurso histórico sobre esta área de actividade em Espanha e traça um quadro muito actualizado das tendências actuais e suas dinâmicas.
Noto que a gravação deste texto de 2009, com 77 páginas, é grátis.
[Maria da Conceição Pequito Teixeira, O Povo Semi-Soberano. Partidos Políticos e Recrutamento Parlamentar em Portugal (1990-2003), Coimbra, Almedina, 2009]
Uma boa altura para este livro. Que talvez justificasse também uma edição resumida. A parafernália académica, densa e rica de material empírico com que se apresenta, transporta-se para um texto de 764 páginas (a que se somam prefácio, bibliografia e anexos). Temo que a dimensão física do livro assim afaste leitores – não profissionais – da interessante argumentação. Sendo eu um não-profissional fiquei, e sem qualquer menosprezo, pelo prefácio, introdução, alguns breves capítulos e considerações finais. Ficam aqui algumas notas da minha leitura, em registo muito rápido (e da tal leitura incompleta). Apelando a que olhem para o livro (e para que não se assustem com o tamanho).
A questão indica-a de início Adriano Moreira, citando Popper: como se transformou o povo como agente semi-soberano, numa democracia que “deixa de ser uma forma de poder delegado pelo povo, para se converter numa forma de poder exercido pelos partidos e pelos políticos profissionais sobre o povo” (XII) e que fazer para tal impedir.
A autora lembra a inevitabilidade e a bondade da mediação partidária entre Estado e eleitorado nas democracias contemporâneas (não estamos diante de um registo anti-partidário). Mas confronta tal situação com a actual tendência para empresarialização partidária, a ascensão dos “empresas políticas” maximizadoras de benefícios, algo que procuram através da satisfação de exigências sectoriais e da criação artificial de necessidades (solicitações e reinvidicações) que lhes sejam conjunturalmente benéficas no mercado eleitoral.
O ponto de partida não é moral, não se trata aqui de um “denuncionismo” mais ou menos indignado. A autora procura abordar empiricamente os processos pelos quais os partidos portugueses se têm vindo a reger pela sua razão concreta de existência (as suas necessidades) em detrimento da sua razão abstracta (dimensões ideológicas e programáticas) inicial.
Ou seja, a desvalorização da dimensão programática deriva de dois factores: a crescente tecnicidade dos processos de decisão política e correlativa ascensão de uma tecnocracia aparentemente despolitizada (aparência que a autora não questiona); e também da funcionalidade interna dos partidos. E é esta a dimensão central da obra, um estudo aprofundado do funcionamento dos partidos portugueses, das suas formas de reprodução (recrutamento de elites, processos organizativos, metodologias financeiras), e dos corolários sobre os seus percursos.
Indicia a formação de veras “classes políticas”, por via da partidarização extrema do acesso ao parlamento, e como tal das retribuições daí advindas. Ou seja, quem ascende ao contexto económico-político parlamentar é o “profissional da política”, desta economicamente dependente. Mas dadas as estruturas fortemente centralizadas de recrutamento parlamentar (dependentes, com alguma excepção no PSD, das direcções centrais, donde com pouca repercussão das circunscrições representadas e do respectivo eleitorado), esta “classe política” surge com um perfil sociológico e biográfico peculiar. Por um lado provém de uma “carreira política de tipo convencional … uma participação na vida interna dos partidos prolongada e regular que, da entrada nos níveis mais baixos da hierarquia partidária – mediante uma aprendizagem mais ou menos longa e o apoio das bases e das estruturas dirigentes – permite aceder aos lugares de topo” (757).
Por um outro lado apresenta um ”perfil fortemente elitista da classe política parlamentar, o qual é confirmado pelo facto de os candidatos em posições elegíveis apresentarem características sociodemográficas, recursos partidários e políticos, mas também motivações e interesses, que os distanciam e separam claramente dos candidatos em lugares não elegíveis, os quais revelam atributos bastante mais próximos da população em geral do que do conjunto dos deputados eleitos.” (757), um conjunto elegível sociologicamente marcado “maioritariamente homens, com idades compreendidas entre os 40 e os 50 anos, com qualificações superiores – preferencialmente na área do Direito – com uma ocupação profissional principal não só associada a um estatuto socioeconómico privilegiado, mas também facilmente compatível com o exercício de funções políticas. Mas são também indivíduos oriundos de famílias com um forte índice de politização e de mobilidade cognitiva, que contrasta manifestamente com o que acontece ao nível da população em geral.” (757)
Estamos diante de “padrões e estratégias de recrutamento parlamentar” com uma “natureza profundamente fechada, autoreferencial, partidocrática“, “por certo responsável pelo crescente isolamento e distanciamento da classe política em relação à sociedade civil, como se de dois mundos ou realidades à parte se tratasse” (758), assente no recrutamento de indivíduos que “vivem somente da política e do seu exercício – no sentido socioeconómico … – bem como de pessoas que são seleccionadas, premiadas e promovidas pela actividade que desempenham dentro dos partidos e para os partidos, o que contribui não só para reforçar a dependência económica e política dos eleitos perante os directórios partidários – dos quais depende … a sua reeleição e a sua manutenção no cargo – mas também para aumentar os fenómenos de oportunismo e de clientelismo político-partidário.” (759), algo assente também no centralismo partidário, reflectindo falta de democraticidade interna dos partidos e causando a subordinação do parlamentarismo a uma mera expressão das direcções partidárias.
Nesse sentido conclui “o controlo dos partidos sobre os processos de selecção dos candidatos a deputados, bem como a forte presença de dirigentes partidários de topo no Parlamento, podem ser interpretados como um indicador de modernização e de institucionalização do sistema político – no sentido em que representam uma separação entre a esfera social e a esfera política -, … concluir também que tal fenómeno constitui um sinal inequívoco da acentuada deriva partidocrática da democracia representativa em Portugal” (759), em que partidos controlam o recrutamento dos parlamentares e o seu exercício, desvalorizando o mandato representativo individual.
É esta partidocracia que se vai constituindo como a matéria-prima do discurso anti-partidos no seio da população em geral, sendo que este discurso não é, como o foi em XX, acompanhado pela expressão de uma adesão ideológica a movimentos anti-democráticos. A autora insiste que a defesa da democracia multipartidária, e da sua imagem popular, implica o combate a esta tendência “fechada, oligárquica e autoreferencial” de recrutamento e funcionamento produzida (e que produz a) pela partidocracia. E que esse combate exige o incremento da democracidade interna dos partidos, de certa forma a disrupção das suas actuais metodologias de produção e reprodução de elites.
Lembrando que, no cerne desse renovar do funcionamento partidário, está o valor democrático. O de que o povo não é um agente semi-soberano das decisões fundamentais – e, logo de início, sobre aqueles que o representam.
“Fala-se de “indivíduos” e “sociedade” da mesma maneira que se fala de sal e pimenta ou de pai e mãe.”
“Do mesmo modo como antigamente as pessoas usavam fórmulas mágicas para curarem doenças cujas causas ainda não conseguiam explicar por um diagnóstico que correspondesse à verdade factual, servimo-nos hoje muito frequentemente de doutrinas mágicas como meio para a solução de problemas humano-sociais, sem anteriormente … nos termos esforçado por obter um diagnóstico. E palavras tais como “indivíduo” e “sociedade”, enquanto símbolos e senhas, desempenham nessas doutrinas um papel muito importante.“
[Norbert Elias, A Sociedade dos Indivíduos, D. Quixote, 1993, pp. 108-105]
São as vantagens de ter tido bons professores. Há um quarto de século tive um desses, excelente, que muito me ensinou – e bem mais do que na altura eu julguei ter aprendido – sobre história da antropologia. Nesses caminhos bem me lembro de uma sua intervenção a propósito de um então muito em voga “Sobre as Sociedades Pré-capitalistas” onde desfez – assim como quem não quer a coisa – essas conceptualizações/periodizações assentes nos “pré” e “pós”, coisas que, vim a sabê-lo, que por mais voltas retóricas que se façam assentam sempre em teleologias e essencialismos. Ou então, em não sendo mesmo o caso, não servem para nada.
Daí que quando ouço falar nessa moda perene do “pós-colonial” fico com os cabelos eriçados. E em verdadeiros roncos quando discorrem, doutorais (ou phdais), sobre a “ambiguidade” peculiar de tais “contextos”. Pois, raios os fulminem, qual o “contexto” [singular] onde não há “peculiares” “ambiguidades” [plurais]?
Vem isto a propósito de um “rascunho” de “post” que para aqui foi envelhecendo, dedicado à
exposição colectiva “Troca de Olhares” que foi apresentada no Instituto Camões – Maputo há um ou dois anos (acho que em 2007), uma produção do próprio Instituto Camões, com curadoria de Isabel Carlos integrando obras de Ângela Ferreira, Francisco Vidal, Maria Lusitano e Vasco Araújo, com algumas obras curiosas e outras nem tanto, mas apelando acima de tudo ao diálogo com a ideologia (falsa consciência, a la Marx) que ali as unia.
[Ângela Ferreira, "Portugal é Sensacional", Escultura, 1999]
Lembro-me de que na altura pouco apreciei o conteúdo – a obra acima reproduzida é o caso inverso – , nada gostei do texto introdutório do catálogo e menos da intervenção da curadora, a qual aqui acabou por reduzir o “chapéu de chuva” do “pós-colonialismo” a uma questão de calendarização/periodização. Vim para casa, reproduzi as imagens (estas) e imaginei-me, com esta desculpa, a agredir a tralha “pós-colonial”. O tempo passou, o saber escasseou, a memória e o interesse também, e o “rascunho” foi ficando para trás, aliás, lá para o fundo. E já nem me lembro do que queria então dizer e do que, do como, não tinha gostado.
[Ângela Ferreira, "Hortas nas Auto-Estradas (A Reforma Agrária)", 2006]
então vista como reflectindo a “pós-colonialidade”, sua encarnação iconográfica pois “o local para esta encarnação iconográfica não é de todo inocente: são as hortas plantadas nas bermas das auto-estradas, território de ninguém que os habitantes, nomeadamente de origem africana, dos subúrbios de Lisboa foram cultivando …” (Isabel Carlos, catálogo, p. 10), manipulação a la carte do real, mitificação que tanto me tinha irritado, olivalense crescido entre-hortas que sou.
Mas ainda bem que desde então nada escrevi. Pois nunca teria sido tão explícito” e eficaz como este Rei da Machamba. Para o texto e sua autora fica esta última foto.
[Norbert Elias, A Condição Humana, Lisboa, Difel, 1991 (1985)]
“Por vezes é útil, para compreender melhor as questões da actualidade, afastarmo-nos delas em pensamento para depois, lentamente, a elas regressarmos. Compreendêmo-las, então, melhor. Pois quem se embrenha apenas nas questões do momento, quem nunca olha para além delas, é praticamente cego.” (13)
Entre o polémico clic-assinado lançado por Vasco Campilho desafiando à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa ao PE e as diárias dezenas de “causas” que se recebem no facebook e no e-mail (contra o cancro, pelo caril de amendoim, contra o aquecimento global, em defesa da louça das Caldas da Raínha, pela sobrevivências dos jornais, etc.), vive-se hoje um frenesim de subscrições.
Quem é alguém, ou seja quem possui computador e tem profissão que se possa associar ao nome (nas petições nunca há trolhas, electricistas, motoristas, machambeiros ou afins, e só muito raramente surge um director) vai inscrevendo o nome aqui e ali, consoante os gostos, tendências e oportunidades, assim constituindo belas colecções de cromos de “causas” às quais apenas faltam – por enquanto – cadernetas informáticas [eu próprio lancei em tempos uma subscrição que não tendo obtido grande repercussão será hoje um "cromo difícil" de possuir, ou seja de comprovar assinatura própria em tempo apropriado].
Tudo isto me faz lembrar um texto escrito em 1965 por Norberto Bobbio (“Considerações sobre os manifestos dos homens de cultura dirigidos às autoridades políticas“, publicado neste Os Intelectuais e o Poder, Editora UNESP, 1996): “Não sei se em outras épocas históricas os intelectuais assinaram tantos manifestos como nesses últimos 20 anos. O manifesto acabou por se tornar, ironicamente, aos olhos de muitos, a forma típica do protesto dos intelectuais, do mesmo modo que a greve é a forma típica do protesto operário.” (p. 57)
Quarenta anos depois dessa já então inflacção não haverá dúvidas de que e a aliança da proliferação e do jocoso impõe e, simultaneamente, demonstra diferenças actuais. A proletarização dos encartados, o esvaziamento das formas de expressão colectiva.
“[Afrocentrism] in its stronger versions, which have appeared in recent years to be ascendant and to have arrogated the “Afrocentric” label to themselves, a far more cohesive, dogmatic and essencially irrational ideology becomes evident. It provides a direct analogue to the extreme forms of cultural nationalism, premised on beliefs about race, which flourished in nineteenth-century Europe. In this respect it reproduces all the essential features of (…) “ethnonationalism”; though there is (…) extreme vagueness over who or what exactly comprises the “nation” in question. Like nineteenth-century European ethnonationalism, or that evident among some 1930s Germans and 1990s Serbs, “strong” Afrocentrism is accompanied by a mass of invented traditions, by a mythical vision of the past, and by a body of racial pseudo-science, in this case much of it centred on grotesque ideas about the skin-colouring chemical melanin.
From all this follows extreme intellectual and cultural separatism, involving belief in fundamentally distinct and internally homogenous “African” ways of knowing and feeling about the world, ways which only members of the group can possibly understand. Even those who are apparently in-group members, by birth, ancestry or pigmentation, can be excluded from it on ideological grounds if they fail to accept the ideology’s doctrines; for such failure can be attributed, quite simply, to brainwashing by the dominant Eurocentric culture. Thus the belief system is insulated from the possibility of critique or falsification.
Outside of USA, such views have been gaining increasing salience in Britain, Canada, France (…); though it is striking and important that what Americans call Afrocentrism is not especially popular among continental and non-diasporic African intellectuals. It is perhaps more clearly recognized by many of them (…) [that] is largely a deviation or degeneration form the wider tradition of the politics of liberation: perhaps more an index of frustration than of progress.” (1-2)
[Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro. Oito Exercícios Sobre o Pensamento Político, Relógio d'Água, 2006]
Em 1957 Hannah Arendt escreveu “A Crise na Educação” procurando delinear as verdadeiras causas da crise que se anunciava no sistema educacional americano - a qual adivinhava que se estenderia ao mundo -, crise que considerava inserida na crise geral que se derramava “em todas as áreas da vida humana” no mundo moderno. Identificou três ideias-base sintomas dessa crise: o apartar do mundo adulto e do mundo infantil – resultante na absoluta tiranização dos “novos”, em paradoxal contradição com o anunciado desejo de os libertar da subordinação face aos mais velhos -, o primado da pedagogia “progressista”, “salganhada de coisas com sentido e de coisas sem sentido“.
E o processo de infantilização dos alunos, algo que considera como a a-politização do seu devir, algo “que encontrou a sua expressão conceptual sistemática no pragmatismo. Essa ideia-base é a de que se não pode saber e compreender senão aquilo que se faz por si próprio. A aplicação desta ideia é tão primitiva quanto evidente: substituir, tanto quanto possível, o aprender pelo fazer. [...] A intenção confessada não é a de ensinar um saber mas a de inculcar um saber-fazer.” (pp. 192-193)
Este homem passa décadas a ler isso da epistemologia, da metodologia. Mas não aprendo. As leituras não me resolvem a dúvida: um tipo desonesto com quem contacta, que aldraba a empiria que o rodeia, poderá ter análises sociais válidas? Um tipo que rouba o vizinho não manipulará, obrigatoriamente, o real (a amostra, se for disso caso) para embelezar as conclusões, arredondá-las ao gosto do freguês?
Gosto da indução, assente em minudências, ajuda a pensar, evita as grandes teorias [Grandes Narrrativas, chamaram-lhes]. Nisto lembro sempre um ilustre, para aí há uma década. Uma semana de trabalho bem paga, mais estadia e pocket money. Por inerência acompanhei-o, almoço e jantar, jantar e almoço, almoço e jantar. Nem uma menção de ir à carteira. Eu, até envergonhado com aquilo, a pagar do meu bolso. No fim, finalmente, segue para Mavalane. E eu a passar pelo hotel para que o recepcionista me avise, até atrapalhado: “doutor, tem uma conta no bar em seu nome” “O quê?”, “pois, aquele hóspede disse que o doutor viria pagar“, uma coisa de 60 dolares, uns whiskies com os amigos, o teixeira – que nem ali esteve – que os pagasse. Paguei, claro, tamanho o nojo. Académico.
Será isto o tal ponto de vista hermenêutico? Deste lamaçal sairão boas análises, a ler e ouvir?
E não só para perceber isso do Kosovo (agora em intervalo mediático), também para entender isso dos “tribalismos” omnicontinentais, será muito de visitar este pequeno e magistral “Vida e Morte dos Outros. A Comunidade Internacional e o Fim da Jugoslávia“, de José Cutileiro (Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2003) – as publicações do Instituto são muito mal distribuídas e não vale a pena ir à sede comprá-las, que aí é uma amostra do Estado no seu pior, o/a senhor(a) das vendas nunca está ou sempre foi almoçar ou já saiu ou está doente ou qualquer coisa assim. Mas o livro (tal como muitos outros do ICS) vale o esforço de ser procurado.
“Quanto menor fosse a percentagem de gente da principal nação, maior a fragilidade da entidade política a que aquela pertencia. Números para vários países da Europa referentes a 1964 mostram que só em dez de entre eles essa percentagem estava abaixo de 90% (Portugal tinha a mais alta: 99,7%). Dos quatro do fim da tabela – Checoslováquia, com 65,6 % de checos; URSS, com 54,8% de russos; Bélgica, com 52,9% de flamengos; e a Jugoslávia, com 41,9% de sérvios (já só 36,3% em 1981) apenas a Bélgica sobrevive ainda, escorada pela União Europeia.” (p. 24 – meu sublinhado)
Mais restrito a “questão jugoslava” José Cutileiro (aqui também na condição de informadissimo ex-coordenador da Conferência de Paz da Jugoslávia da Comunidade Europeia, em 1992) deixa algo hoje já sabido, mas durante bastante tempo muito esquecido:
“A guerra da Croácia é instrutiva por várias razões. Primeiro, porque foi causada pelo confronto de dois nacionalismos e não apenas por um deles, o que se aplica mutatis mutandis às outras guerras e guerrilhas da crise jugoslava. Segundo, porque durante os meses de guerra o medo recíproco se transformou em ódio recíproco – para os Croatas todos os Sérvios passaram a ser chetniks, para os Sérvios todos os Croatas passaram a ser ustase – e levou à prática de barbaridades pelos dois lados. (…) As duas regiões da antiga Jugoslávia sob administração internacional – Bósnia-Herzegovina e Kosovo – não são directamente comparáveis ao que era a Krajina entre 1992 e 1995, nem é fácil imaginar uma operação político-militar que os deixasse etnicamente puros. Mas levarão muito tempo, se lá chegarem, a poderem governar-se sem tutela da chamada “comunidade internacional“.” (p. 50)
Finalmente, e ainda que Cutileiro trace o complexo feixe de causas que provocaram todo aquele desenlace, convém lembrar dois desses vectores, pois ensinam bastante sobre este processo histórico e outros, passados e futuros:
“Na Europa, já vimos que a Comunidade Europeia julgara ingenuamente poder resolver a crise jugoslava, dedicando-lhe exortações, dinheiro, diplomacia e uma Conferência de Paz. Cada um dos grandes Estados membros, porém, tinha a sua agenda própria. A Alemanha fizera da independência da Croácia causa sua e cavalo de batalha“, (p.50)
arrastando os restantes países-membros dada a contemporaneidade com o processo negocial de Maastricht. E
“Em geral, na ex-Jugoslávia em crise e em guerra dos anos noventa, a Igreja Católica, tal como a Igreja Ortodoxa sérvia, não deu contribuições importantes para a paz.” (p. 50)
Adenda: muito gentil, Cristiana Bastos, actual responsável pela Imprensa do ICS, informa-me que as publicações do ICS podem ser adquiridas na página informática do organismo.
“Com uma esquerda destas, quem precisa da direita?” (76) “… os universitários “radicais” exigem … contam com o facto de os seus pedidos não serem satisfeitos: é assim que podem exibir hipocritamente a sua consciência radical oficial enquanto continuam a gozar da sua posição privilegiada.” (85)
(Slavoj Zizek, Bem-vindo ao Deserto do Real, Lisboa, Relógio d’Água, 2006. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira)
“O hino oficioso da União Europeia, que tivemos a oportunidade de ouvir durante diversos eventos políticos, culturais e desportivos, esse Hino à Alegria (Der Ode an die Freude) extraído do último andamento da nona sinfonia de Beethoven, é um verdadeiro “significante vazio” que pode ser utilizado seja para o que for. Em França, Romain Rolland elevou-o ao estatuto de ode humanista celebrando a fraternidade dos povos (a “Marselhesa da humanidade”); em 1938, foi a atracção do espectáculo das Reichmusiktage (“Jornadas de música do Reich”) sendo, mais tarde, tocada para o aniversário de Hitler; nos anos 70, podíamos ouvi-lo em honra da medalha olímpica de ouro quando as equipas participantes de Alemanha Oriental e Ocidental se reuniam numa só; o regime rodesiano de Ian Smith, partidário da supremacia branca, que decretou a independência no final dos anos 60 a fim de manter o regime do apartheid, fez dele o seu hino nacional. Até Abimael Guzman, o cabecilha do movimento ultraterrorista Sendero Luminoso, hoje encarcerado, mencionou o quarto andamento da nona de Beethoven quando o interrogaram sobre os seus gostos musicais. (…)
Mas antes de denegrir esse quarto andamento, antes de considerá-lo como uma peça musical “destruída pelo seu uso social”, tal como diz Adorno, lancemos um olhar para alguns pontos particulares da sua estrutura. A meio do andamento, depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado, que perturba os críticos desde a sua primeira interpretação …: o tom muda completamente no compasso 331 e, em vez da progressão solene do hino, o tema da alegria é retomado ao estilo da Marcia turca (Marcha Turca), uma música militar para instrumentos de sopro e percussões que os exércitos europeus foram buscar aos janízaros turcos; o estilo é o de uma parada popular e carnavalesca, o de um espectáculo zombeteiro (…). A partir daí, tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene; a cadência final, das mais estranhas, não soa nada a Beethoven, mais parecendo uma versão empolada de O Rapto do Serralho, de Mozart, combinando os elementos “turcos” com o fausto do espectáculo “rococó”. (E não esqueçamos a lição dessa ópera de Mozart: nela, a figura do déspota oriental é apresentada como a do verdadeiro mestre esclarecido). Assim, o final é uma curiosa mistura de orientalismo e de regressão ao classicismo do final do século XVIII, uma dupla retirada do presente histórico, uma confissão silenciosa do carácter puramente fantasmático dessa alegria da fraternidade universal. (…) E se tivéssemos domesticado de mais o Hino à Alegria, e se nos tivéssemos habituado de mais a considerá-lo como um símbolo de alegre fraternidade? E se fosse necessário examiná-lo com um novo olhar? (…)
Que o Hino à Alegria de Beethoven se tenha tornado o hino não oficial da Europa não deixa de ser irónico, ironia que reside evidentemente no facto de a causa principal da crise da União ser precisamente a Turquia…” (11-13)
“P: E quanto ao dualismo da escrita masculina por oposição à escrita feminina.?G.S. Nas melhores mulheres escritoras, está ausente. Seria impossível dizer onde está a “feminidade” numa página anónima de George Eliot ou de George Sand; talvez se deixe vagamente entrever nas Bronte; mas decerto que não em Jane Austen, que era muito simplesmente melhor do que qualquer outro escritor do sexo masculino. Não diferente, mas melhor: mais precisa, incisiva, cheia de humor, de espírito, irónica, condensada. Hoje as coisas são diferentes. Hoje, a questão deu lugar a uma causa, a uma vontade de desforra, a uma esperança eminentemente consciente. Há diferenças importantes, tenho a certeza. O que é muito triste, porque nunca há senão uma escrita boa e uma escrita má.” (141)
George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]
Tardia nota a propósito do 2ª Encontro de Escritores Hispano-Africanos, aqui realizado em Novembro, uma preguiçosa organização que colocou seis escritores e alguns académicos, e os persistentes assistentes, a discutirem durante quatro dias o assunto “Escrita Feminina”.
“… essa mitologia cultural europeia, com a sublimação da Grécia e a subalternização de Roma, resultando da complexa relação de nossos sucessivos presentes – o nosso também -, com um passado sempre outro na luz desses presentes, tem a sua lógica. Acrescente-se que essa sublimação do helénico em detrimento do latino – já presente na própria cultura romana – faz parte de um combate de outra ordem que a meramente cultural, que tem como objecto, explícito ou implícito, a imagem e o papel do cristianismo na história da civilização europeia. À latinidade ficará associada a catolicidade, na sua versão historicamente justa de romana. (…)
Quando, no século XIX, o germanismo se começa a impor, como discurso filosófico, filológico e cultural, surge então, como reflexo de área cultural em perigo – como hoje com a América – a ideia de defesa de latinidade e mesmo de uma romântica União Latina, sonho de poetas (Mistral) mais do que de historiadores e políticos. Essa ideia nebulosa não vai além da sua expressão folclórica, exalta a latinidade dos povos latinos, na Europa ou fora dela, como herdeiros e exemplo de um modo de ser, de certo modo de uma visão do mundo, de um gai savoir que, embora sem relação profunda com a visão de Nietzsche, reenvia para um certo paganismo provençal um culto das realidades solares e naturais que vale bem e mais do que o culto nórdico do progresso científico, em sua, do que se chamava então e ainda hoje “o materialismo” ou, na sua forma soft, o pragmatismo.”
(Eduardo Lourenço, “Digressão Sobre a Latinidade“, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente Como Mito, Lisboa, Gradiva, 2005, pp. 138-140)
“If somebody uses tradition as a way of limiting your choices, in a way that’s as racist as saying you have to sit at the back of the bus” (Anthony Davis, quoted in G. Lock, Forces in Motion: The Music and Thougts of Anthony Braxton, 1988)
[S. Howe, Afrocentrism. Mythical Pasts and Imagined Homes, London/N.Y., Verso, 1998, p. 1]
[Maria José Arthur, Margarita Mejia (orgs.), Reconstruindo Vidas: Estratégias de Mulheres Sobreviventes de Violência Doméstica, Maputo, WLSA Moçambique, 2006]
“No que respeita à violência doméstica contra as mulheres … goza de grande legitimidade social que lhe advém da ideologia familiar que concede ao homem chefe de família a prerrogativa do uso da força na resolução de conflitos conjugais e o direito de controle da sua esposa ou companheira, das suas actividades, do seu comportamento e da sua reprodução. Esta posição é reforçada ao nível local nos tribunais comunitários e em estruturas locais, pelos secretários de bairro e nas secções de assuntos sociais, que são as instâncias mais próximas a quem se recorre em caso de conflitos domésticos.” [7]
“Este livro com histórias de vida de mulheres sobreviventes de violência doméstica [Linda, Anabela, Gabriela, Júlia] é o resultado de um projecto ligado à segunda fase da pesquisa sobre Violência Contra as Mulheres, desenvolvido pela WLSA Moçambique, entre 2004 e 2005. Não se trata de confirmar os resultados da pesquisa, mas de “humanizar” o rosto da violência, mostrando que as vítimas são mais do que agentes passivos que sofrem um “destino” contra o qual não se rebelam. Pelo contrário, prentende-se mostrar mulheres com sonhos e projectos concretos que, mesmo quando impotentes, nunca deixam de resistir e de desenvolver estratégias de auto-preservação. É neste âmbito que o registo das biografias de mulheres e a construção das suas histórias de vida nos aparecem como um meio para ampliar a nossa compreensão sobre a maneira como se estruturam as relações sociais de género, as mudanças sociais e as formas pelas quais forças sociais mais vastas actuam no individual, modelando profundamente experiências subjectivas, revelando as múltiplas fontes de opressão e privilégio na vida das mulheres …. Não queremos falar de actos heróicos nem de grandes feitos, mas simplesmente de mulheres que tentam sobreviver.” [5-6]
“A vitória das revoluções liberais como a francesa e a portuguesa foi, a médio prazo, a vitória (aliás, pela continuidade) da centralização – nisso se distinguindo os regimes subsequentes dos modelos anglo-saxónicos. Este facto, rapidamente denunciado por vários doutrinadores, o mais célebre dos quais será Alexis de Tocqueville (1805-1859), deve ser, contudo, analiticamente compreendido. Para o nosso caso, Maria Helena da Cruz Coelho e Joaquim Romero de Magalhães elaboraram recentemente uma explicação global que devemos reter. A implantação de um quadro jurídico nacional de aplicação universal , consagrando (genérica e tendencialmente) a igualdade dos cidadãos perante a lei, passava forçosamente pela afirmação da supremacia do Estado sobre os particularismos locais, a supressão dos privilégios do Antigo Regime e a redução das autonomias municipais. Como já insistiam, na passagem do século XVIII para o XIX, os doutrinadores e os técnicos iluministas polarizados na Academia das Ciências, a constituição, os poderes e a actuação dos orgãos concelhios – dominados por oligarquias locais muito fechadas – atrofiavam o desenvolvimento de iniciativas individuais, prejudicavam o aproveitamento sistemático e ordenado do território nacional e acabavam por ser fortes travões ao progresso das próprias localidades.”
(“Fundadores e Símbolos de Fundação da Cultural Liberal”, pp. 15-16)
“Boaventura Sousa Santos: … Enquanto espaço, o espaço intermediário nacional foi sempre um espaço deficitário. Isto é: Portugal teve sempre um espaço social que foi transnacional, nas suas identificações, e teve um espaço local … E penso que isto criou uma característica muito particular para a cultura portuguesa: é que ela não tem conteúdo específico. O que caracteriza a cultura portuguesa é uma forma. E é por isso que perguntar se “Existe uma cultura portuguesa?” é uma pergunta desadequada. O que existe é uma forma cultural portuguesa. E qual é essa forma? É a forma de fronteira ou de contacto. A forma cultural portuguesa é a fronteira, e o estar numa fronteira … A cultura portuguesa é uma cultura de fronteira, não porque para além de nós haja um vazio, um no man’s land, mas porque de alguma maneira o vazio está do nosso lado. Isto é: nós somos, e no nosso trajecto histórico-cultural muitas vezes fomos, o outro: fomos o índio, fomos o selvagem. Portugal enquanto colonizador, foi emigrante. Os americanos, os puritanos quando foram para a América, nunca foram emigrantes; foram colonizadores. Os portugueses no Brasil foram colonizadores e foram emigrantes … Ora é isto que realmente cria esta adaptabilidade que nós tivemos e que advém do défice desse espaço intermédio, o que levou a identificações múltiplas, mas sempre precárias, sermpre torturadas, quer face à Europa quer face ao espaço que extravasa da Europa.”(28-29)
1 tese:
“Eduardo Prado Coelho: … Estou inteiramente de acordo em que os portugueses, transpostos para um outro espaço, em termos de imigração, como é o espaço francês, por um lado criam formas de participação na vida dos outros extremamente miméticas, extremamente eficazes, criando inclusivamente uma certa invisibilidade social. O português não é visível em termos de comunidade estrangeira, num outro espaço, numa outra comunidade. Mas, ao mesmo, a esse modo eficaz de participação, não corresponde um modo de compreensão efectiva, ou mesmo um desejo de compreensão do outro: é fundamentalmente uma técnica de defesa, é uma espécie de sageza defensiva.”(41)
1 Olhar:
“Maria de Lourdes Pintalsigo: … a presença de Portugal junto do Outro raramente nos levou a uma percepção da identidade desse Outro.“(31)
“Diogo Ramada Curto: Não resisto a citar Adolfo Coelho, para quem a ciência e a literatura oficiais constituiram sempre um objecto de denúncia, quando define esta literatura e esta ciência oficiais em função das sociabilidades intelectuais dos homens da sua geração. Diz-nos ele, a propósito de Alexandre Herculano e de Teófilo Braga: “Ao estado geral do espírito público, que se opõe ao bom êxito da sua obra (isto é, à obra de Alexandre Herculano), acresce a existência do que, sempre por convenção, chamaremos literatura e ciência oficial. Ou melhor, de um grupo de homens, muito menos militantes do que triunfantes, que têm o monopólio das admirações públicas, alcançado pelos seguintes processos: número um – elogio mútuo público; número dois -lisonja dos sentimentos e tendências do público (eu penso que aqui esta noção de público é claramente tocquevilliana); número três – grande superficialidade que põe o que eles escrevem ao alcance das mais obtusas inteligências; número quatro – erudição fragmentada e fradesca, ou então graça folhetinesca; número cinco – estilo profético e declamatório, banalidades de fundo, reconstruções históricas de papelão e cortiça, como presépios de Natal (ele dá como exemplo o Eurico e dramas históricos, como os de Mendes Real); número seis – poses académicas, exibições públicas nos botequins, teatros, Chiado, etc. Alexandre Herculano, apesar da sua História de Portugal, não seria entre nós coisa alguma se não fosse católico, isto é, não crítico, se não escrevesse “Ad usum Delphini”, se não fizesse a reputação como pedinte, se não desse jantares aos literatos e letrados na Ajuda, etc. etc.”
Ora isto levar-nos-ia muito longe, porque penso que é a partir justamente a análise destas formas de sociabilidade dos intelectuais que poderíamos controlar um pouco melhor determinadas áreas da produção do conhecimento e vigiá-las criticamente.”
“Na origem desses diversos totalitarismos, há uma paranóia: a de um racionalismo mórbido, que procura uma explicação última (raça, classe, lei do mercado) e que rejeita tudo o que não se submete a uma tal injunção. Para parafrasear Paul Valéry, direi que a procura da “profundidade” só pode resultar num “de profundismo” mortífero, de que esses cavaleiros de triste figura, que se erigem em “proprietários” da sociedade, são os protagonistas essenciais.
Dom Quixote da modernidade, eles têm o poder de dizer o verdadeiro e fazer o bem. E, por isso mesmo, consideram que têm legitimidade para perseguir a gaya scienza, o saber “inútil”, ou a maneira de ser irónica e desenvolta, muito mais inclinados a usufruir da existência, em gastarem-na, em vez de a contabilizarem. O politicamente, o filosoficamente, economicamente correcto deste fim de século talvez seja o último avatar, um pouco ridículo, dessa paranóia totalitária”. (112)