Entries Tagged 'Ciências Sociais Moçambique' ↓
Abril 16th, 2008 — Antropologia, Ciências Sociais Moçambique
SEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA
PODER, PRAZER E GARRAFAS: PISTAS PARA A LEITURA DO 5 DE FEVEREIRO E DOS LINCHAMENTOS
Paulo Granjo
Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa
Comentarista convidado:
Carlos Serra
Centro de Estudos Africanos, Universidade Eduardo Mondlane
Sexta-feira, 18/04/2008, 9 h.
LOCAL: SALA 206, 1º Andar F.L.C.S., Campus Universitário
Março 19th, 2008 — Ciências Sociais Moçambique
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE - D.A.A.
SEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA
GLOBALIZAÇÃO E AUTORIDADE ISLÂMICA EM MOÇAMBIQUE
LIAZZAT J. K. BONATE
Centro de Estudos Africanos - U.E.M.
Sexta-feira, 21.03.2008, 9 h.
LOCAL: sala 206, 1º andar F.L.C.S. (campus)
Março 16th, 2008 — Antropologia, Ciências Sociais Moçambique
Notícia de um encontro de Antropologia, a decorrer em breve.
Novembro 29th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique, Maputografia

“
Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo”, um trabalho de
Cristina Delgado Henriques, base da sua tese de doutoramento, foi ontem apresentado.
Para quem quiser apreender um pouco mais sobre a utilização populacional do Maputo, e do como este vem sendo moldado nas últimas décadas - no seio, como frisa a autora, de uma radical desregulamentação implanificadora - aqui se deixa o sítio da autora, onde também abunda iconografia (mapas e fotografias) da cidade: Cristina Delgado Henriques.
Novembro 25th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Quarta-feira, dia 28 de Novembro, às 18 horas, no Instituto Camões, uma conferência: “Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo“, por Cristina Henriques, da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Mais um bom exemplo do regresso ao local para apresentar os frutos do trabalho realizado, neste caso inserido num amplo processo de doutoramento.
Novembro 15th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Um caso, que não será de fazer cair o prédio Pott, mas que é desagradável. A Imprensa Universitária que vem trabalhando pior do que o que seria desejável (e o menor dos defeitos não será o de não distribuir os livros que edita) deu em auto-plagiar-se. Podemos encolher os ombros e dizer que não é muito grave que o departamento gráfico de uma editora reutilize ideias gráficas que lhe são dadas por um autor publicado? Talvez. Reduzimos tudo a descuido e pronto.Mas sendo uma imprensa universitária, aqui mesmo ao lado, com que cara é que amanhã nós professores vamos dizer aos alunos para não mergulharem na internet em busca de trabalhos para plagiar? Não, não é descuido. É atitude. Condenável, em particular por ser cá em casa.
Novembro 7th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
António da Costa Gaspar, Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas, Maputo, Organização para a Resolução de Conflitos (www.orecmoz.org.mz), 2003
Um estudo patrocinado pela Organização para a Resolução de Conflitos, “associação moçambicana vocacionada a prestação de assistência e advocacia na gestão pacífica e resolução colaborativa de conflitos.” (iv), actuante desde 2000, promovendo os direitos dos cidadãos e reduzindo “a violência conflitual através da criação de um ambiente harmonioso” (iv). Este trabalho procura identificar focos, causas e tipos de conflitos ao longo do país, sob uma abordagem, explicitamente assistencialista, e vem financiada pela ICCO (Organização Interclesiástica para Cooperação ao Desenvolvimento), a EED (Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento) e a DIAKONIA (organização não-governamental das Igrejas Livres da Suécia).
É um livro exemplar e daí o seu especial interesse: o ecoando os resultados de uma pesquisa de terreno transpira o caldo ideológico que a organizou: a anti-globalização (anticapitalista?) com o extremo conservadorismo do olhar sobre a realidade. Um conservadorismo moralista, entenda-se, que molda problemática, objectos e assumpções assumidas. Se olharmos o enquadramento evangélico patrocinador não surpreenderá, mas não é com olhar de denúncia que a ele me refiro. É que raramente em livro se encontram firmadas estas balizas da normatividade desenvolvimentista, de modo tão cristalino.
Na pesquisa transposta a livro concluiu-se que “Os principais focos de violência localizam-se, essencialmente, em locais de exercício da economia informal que servem de base de sobrevivência da maioria das famílias a viver nos centros urbanos e seus arredores (…) Estes factores, estão de alguma maneira, associados aos efeitos da liberalização económica e das politicas macro-económicas vigentes no pais. Os efeitos nefastos da globalização, igualmente, têm estado a influenciar a atitude e comportamento dos cidadãos residentes, tanto nas zonas urbanas, como das perurbanas.” (viii). Está explícito, os focos de conflito alojam-se na economia “informal” donde dela brotam - do que é ela, enfim, não se discute. Sabe-se que é fruto da liberalização/globalização e daqui concluo ser a conflitualidade social fruto da desestatização da sociedade - correlação indiscutida: economia “informal”=conflitos.
Entre as principais origens dos conflitos (p. 40) estão os factores económico-financeiros (p. 42) no seio dos quais avulta o adultério, que “semeia a instabilidade no seio das famílias e nas relações inter-familiares. … Por exemplo, em Boane, a pratica de adultério é mais comum entre os homens adultos e mulheres cujos maridos se encontram a trabalhar na Africa do Sul. A prolongada ausência destes homens e justificada como estando na origem destas praticas agravadas, em algumas situações, pela insustentável e crescente carestia da vida. (…) Como se pode depreender, a pratica de adultério por parte de certas mulheres deve-se, em parte, a procura de alternativas de sobrevivência face ao elevado índice do custo de vida. (…) Este cenário descreve uma das origens da prostituição infantil, o que acaba se tornando numa base de sustento de algumas famílias vulneráveis.” (46-47). Comentar? O adultério é cometido por mulheres. O adultério é fonte de conflitos por causa das práticas das mulheres. O adultério (numa população onde os homens são [e]migrantes) é causado pela pobreza das mulheres, já ela provocada pela liberalização e globalização. Para quem conhece a concepção popular de “adultério” a sul do Zambeze (sociedades patrilineares, tendencial mas diferentemente patriarcais) como sendo equivalente a “prostituição” (”putaria” nos portugueses locais) fica-se com a sensação de que a análise fica presa às concepções morais populares, assumindo a sua moralidade.
Outros factores de eclosão de violência são os sócio-culturais (p. 50). Entre eles estaria a poliandria “um fenómeno que consiste numa mulher possuir mais do que um marido. Felizmente não e ainda uma prática aberta e publicamente exercida no seio da sociedade moçambicana. (…) No entanto isso não impede que algumas mulheres “forcadas pela carestia de vida” se envolvam na pratica do adultério numa base permanente ou temporária com vários homens, o que e, por sua vez, uma prática condenável”. (51-52) [meu negrito].
A resolução da conflitualidade doméstica, a análise dos mecanismos do pluralismo jurídico e seus valores condutores é fundamental. O assistencialismo enquanto patrocinador e financiador das análises sociológicas não é, por si só, condenável. Mas o laço evangélico, consciente ou inconsciente, não implicará a mera reprodução de santos valores e boas intenções?
Outubro 7th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Universidade Eduardo Mondlane
Departamento de Arqueologia e Antropologia
SEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA
Co-Esposas Desesperadas: A Ilegalidade da Poligamia na Nova Lei da Família
em Moçambique
CARMELIZA DO ROSÁRIO
University of Bergen, Faculty of Social Sciences, Department of Social Anthropology
Quinta-feira, 11/10/07, 10.00 horas
LOCAL: SALA CP 2501
Novo Complexo Pedagógico, Campus Universitário Principal
Setembro 28th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Um verdadeiro acontecimento editorial. O lançamento em Portugal do trabalho de Eduardo Medeiros “Os Senhores da Floresta. Ritos de Iniciacao dos Rapazes Macuas“. Medeiros aqui foi durante longo tempo (praticamente duas décadas) professor cooperante e hoje em dia ensina na Universidade de Évora.
Esta é uma pérola etnografica, e a sua edição, ansiada, acontece na editora Campo de Letras, com apoio do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Deixo ainda a nota do incompreensível atraso da Imprensa Universitária aqui - há cerca de seis anos que tenho fotocópia do “burro” do livro, o cujo nunca veio a ser editado. O autor numa sã e nada vaidosa atitude a querer editar no país da recolha (bem ao contrário de tantos antropólogos “relativistas” e “contestatários” que depois tudo se negam no santificarem hierarquias simbólicas por via dos nomes e pesos das respectivas editoras …) e a editora da universidade perdida em desmandos e atrasos. Há coisas que se torna necessário dizer.
Um abraço a Medeiros. E um alerta aos livreiros: encomendar, encomendar sempre.
E já nem digo da hipótese dos antigos empregadores de Medeiros o trazerem cá para apresentação do livro/trabalho.
Setembro 18th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Lido ao vento. O meu texto de apresentação do livro de Rafael da Conceição, “Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano. Construções no Mar, em Terra e no Ar …)”, lido hoje ao vento no campus universitário, e assim não ouvido nem pelo autor do livro, fica aqui.
Setembro 16th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique

“Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano, Construções no Mar, em Terra e no Ar…)”, novo livro de Rafael da Conceição, um texto sobre (antropologia d)a morte. Será lançado na próxima terça-feira, 18 de Setembro, pelas 10 horas da manhã. Na Universidade Eduardo Mondlane, campus universitário, anfiteatro 2501 do novo Complexo Pedagógico.
O livro será apresentado por Carlos Serra e por José Teixeira. E esta entrada serve também para vos convidar à comparência no momento.
Agosto 31st, 2007 — Antropologia, Ciências Sociais Moçambique
Dois textos fora de blogs.
Agosto 23rd, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
A antropóloga portuguesa Ana Benard da Costa veio a Moçambique apresentar o livro “O Preço da Sombra. Sobrevivência e Reprodução Social Entre Famílias de Maputo“, proveniente do seu trabalho de doutoramento em Estudos Africanos, apresentado em Lisboa - já agora aproveito para saudar o inusitado da atitude, a maioria dos investigadores estrangeiros acaba por nunca vir apresentar in loco o fruto sistematizado e completo do seu trabalho.
A apresentação do livro acontecerá na próxima quarta-feira, dia 29 de Agosto de 2007. Às 18.00 horas, no Instituto Camões - Centro Cultural Português (na Av. Julius Nyerere, 720). A autora falará do seu trabalho e também da questão da reprodução e dissolução de valores familiares. O livro será apresentado por mim (a Ana é minha amiga e honra-me deste modo. Eu, corado, farei o melhor que puder).
[Agradecendo o eco]
Julho 12th, 2007 — Ciências Sociais, Ciências Sociais Moçambique, Literatura, Literatura Moçambique
Palmira F. da Silva, do De Rerum Natura, José Carlos Matias, no O Sínico e o FNV do grão-blog Mar Salgado desafiam para que aqui bote das minhas últimas leituras. Como leio vários livros ao mesmo tempo não sei bem a ordem das conclusões (e abandonos). Mas aqui vai(ão) resposta(s), com agradecimentos pela curiosidade. E como foram várias os desafios junto às respostas requeridas a lista das prendas e compras de primeiro dia em Lisboa:
Narrativas, Crónicas, Memórias:
1. Niassa (Francisco Camacho): um “southern” inofensivo, até aprazível se em zapping;
2. O Aprendiz (Miguel César): as memórias de um moçambicano de ascendência portuguesa, com ênfase na adesão pós-independência. Imenso interesse pelo empenho emocional, mas nulo em (auto)análise - o que só lhe incrementa o interesse (releitura);
3. O Fio das Missangas (Mia Couto): tenho imensas dificuldades na leitura do autor, o que muito vai para além do respeito, simpatia e admiração pela pessoa, e pela sua coragem moral (e até física). Daí o ter-me atrasado na leitura deste pequeno livro, obra formalmente menor. Mas que é uma surpresa - muito contrariamente à imagem que tantos têm de Mia esta colecção de pequeníssimos contos é pura provocação, suaves como o exigem as provocações eficientes. A ler e a recomendar.
4. Aventuras de um Nabogador (Onésimo Teotónio Almeida) - o habitual gosto de vida do autor, agora com um toque pícaro (para mim) surpreendente; sou fã (ou fan?).
5. Avenida Paulista (João Pereira Coutinho): cronista célebre em Portugal após a minha saída, e dado que não leio os jornais da terra desperta-me curiosidade. Há tempos tinha aqui comprado o “Vida Independente”, que me deixou francamente desiludido, incompreendendo do seu sucesso - ou antevendo que já estou eu demasiado longe para aderir. Este conjunto de textos é bem mais interessante, talvez porque “para fora”. Mas o tom é algo recorrente, parece-me que as gerações anteriores tiveram maiores idiossincracias.
Narrativas com rodapés:
1. Comunidades Imaginadas (B. Anderson) - relendo um já clássico sobre nacionalismos;
2. A Diferença (Michel Wieviorka) - outra releitura profissional (e também para aferir as tralhas sobre os multiculturalismos, que servem para tantas blogosuperficialidades);
3. Marxist Modern. An Ethnographic History of the Ethiopian Revolution (D.L. Donham) - uma fabulosa (e invejável) história etnográfica da “revolução” etíope. Imperdível.
4. A Persistência da Raça (Peter Fry) - Fry é interessantíssimo a falar das comparações entre os colonialismos inglês e português, muito para além das tropelias intelectuais marxistas dos 60s em diante. E é crucial no anti-correctismo em linguagem antropológica. Mas acima de tudo neste livro tem um artigo que me é fetiche - cristalino ali o paradoxo do antropólogo opinativo. Obrigatório ler, para nunca repetir.
5. Junod e as Sociedades Africanas. Impacto dos Missionários Suíços na África Austral (Patrick Harries) - um livro competentissimo, sobre o ambiente de formação científica na Suíça oitocentista, sobre o caldo moral e científico que construíu a antropologia tardo-oitocentista. E sobre a obra espantosa deste “pai fundador” da Antropologia e seus fantásticos trabalhos etnográficos nos actuais Moçambique e África do Sul.
Prendas recebidas à chegada:
1. Ana Martins, O Nono Brasão - livro publicado pela filha (14 anos) de uns queridissimos amigos (dela seria “tio” se nós fossemos pirosos arrivistas). A partilhar o orgulho pela cria que medrou;
2. Lewis Wolpert, The Unnatural Nature of Science
3. Rogério Ribeiro, Desenho
4. Mark Twain, Contos Satíricos
5. Carlos Gil, Xicuembo
Compras de primeiro dia:
a. narrativas:
Fiódor Dostoiévski, Gente Pobre
Fiódor Dostoiévski, A Submissa e Outras Histórias
Samuel Butler, Erewhon
Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra dos Porcos
Eduardo Pitta, Cidade Proibida
Luís Carmelo, Máscaras de Amsterdão
Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil
Tolstoi, Anna Karénina
b. narrativas com rodapés:
Emmanuel Levinas, Da Evasão
Rui Bebiano, O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60
José Policarpo, Cardeal Cerejeira (fabuloso)
Luís Carmelo, Anjos e Meteoros. Ensaios Sobre a Instantaneidade
Pascal Bruckner, A Euforia Perpétua. Ensaio Sobre o Dever da Felicidade
Michel Foucault, É Preciso Defender a Sociedade
S. M. Eisenstadt, Múltiplas Modernidades
Amartya Sen, Identidade e Violência
Nota: como estes desafios já foram de algum tempo não os vou reproduzir, pode ser que já estejam fora-de-moda. Mas se algum dos leitores habituais do ma-schamba quiser assumi-los será um prazer - sejam bloguistas activos (de blog próprio montado) ou passivos (então deixem aí nos comentários, eu subi-los-ei a texto).
Junho 19th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique, Livros Moçambique

[
Bazarketing, de
Thiago Fonseca, Maputo, Ndjira, 2004]
Bazarketing: “a palavra marketing vem de market que significa mercado. Mas, quando esse Mercado ainda não existe, e se comporta como um Bazar, que outro nome se poderia dar? Isso mesmo, Bazarketing!”
Um muito interessante livro de um dos mais bem sucedidos publicitários moçambicanos, o homem da “Golo”, ao que consta de linhagem do ofício, o seu avô terá sido fundador da agenda - não estou certo desta informação, não conheço o autor, mas é sempre bela esta ideia do mester de família.
Um livro sobre publicidade e marketing em mercados emergentes, a colher a atenção dos profissionais. Mas também de quem quer olhar Moçambique, neste caso quais as imagens e produtos se querem transmitir e vender, no hoje e para o futuro. E de como se procura realizar tais tarefas, espelho de como se compreende o país. E nele se actua.
Entre outros quero realçar dois pontos, abordados no livro. A afirmação, fruto de uma reflexão prática, da necessidade de um olhar local, livre dos modelos conceptuais, estéticos e práticos importados, dos padrões julgados “elevados” “produtivos”, que antes se diziam “civilizados”: aqui se defende, sobre os louros de sucesso anterior, o “Bazarketing e o Pensamento Local”, o “Pense localmente. Actue localmente.”, um saber que afirma, eficiente e reflexivo, “Os enlatados versus o Bazarketing”. Não resisto a citar:
“Enquanto o mundo pretende demonstrar que as pessoas estão cada vez mais iguais, a verdadeira oportunidade está em reconhecer que, na verdade, estão e são cada vez mais diferentes e únicas.”
As estratégias de marketing que funcionam no 1º mundo não funcionam necessariamente num mercado emergente. É como um Rolls Royce ou um Ferrari. São óptimos. Mas não foram desenhados para as nossas estradas, cheias de buracos. Aqui funciona melhor um 4X4. Esta adequação é a diferença entre marketing e bazarketing.” (37-38)
Parece óbvio? Assim escrito parecerá, mas o que realmente se passa no enorme resto é a constância do pensamento exportador, de modelos, práticas e valores. Pensamento preguiçoso, indigente. E falhando, falido. Mas que fica bem em casa, pois não ofende sensibilidades e sofás lá do “norte” (esse que se sabe não ser geográfico, claro está).
Não falo apenas em publicidade/marketing, dos quais pouco (ou nada) percebo. Estou mesmo a aproveitá-lo, extrapolação para referir as opiniões/actuações na política, na economia, na organização social, nas relações culturais (então sobre isto…).
E como é refrescante ler isto, preto no branco, proveniente de um discurso empresarial e pró-empresarial, esse que exige intelecto a actuar. E assim não o impedindo de pensar.
(E, já que isto é blog, há por esses caminhos bloguistas tanto excitadozinho vociferando contra um tal de “relativismo”-papão sobre o qual nada sabem que conviria ler umas páginas sobre publicidade moçambicana. Para se lhe poder dizer, em caso de paciência suficiente, que se o alter-ismo pode ser muito irritante o auto-ismo deles é nada)
Um segundo ponto, e este mais problemático. Estamos a ler sobre o moldar de um mercado, dos indivíduos. É explícito o desafio posto ao(s) publicitário(s). Em Moçambique os indivíduos ainda não são indivíduos-consumidores, estão virgens de “marcas”, são quase uma tábua rasa quanto a afectos face aos signos estatutários, as “nike” e “gilletes” que os demarcam e denotam. Para o profissional acredito que seja apaixonante o desafio, o de criar vínculos deste tipo, reproduzíveis a longo prazo.
Para o leitor fica um documento sobre a produção não apenas desses vínculos entre produtos e consumidores, mas sim da produção de necessidades, valores, práticas (de consumo). Mediadas por nomes, o dos clientes - fornecedores. Na prática estamos a falar da produção de indivíduos. Assim. Consumidores induzidos e balizados.
Enfim, um caminho. Muito discutível, também.
Para memória aqui deixo imagens de duas campanhas institucionais, belissimamente desenhadas (se eficientes já não sei, não tenho dados): a mais violenta, violentissima mesmo, campanha dedicada à luta contra o Sida, e uma fantástica (e recente) sobre a prevenção da malária.


À margem do livro, mas por ele lembrado, é sempre interessante recordar que quem menos interroga os efeitos profundos da publicidade é quem mais absolutiza o “indivíduo”, o retira destes processos de formação e produção, quem o vê livre e igual no mercado. Leve ideologia. Mas poderosa. Talvez mesmo por ser tão leve, nada custa a carregar.
[entrada repetida, metida a 8 de Fevereiro de 2005 no Ma-schamba do weblog. Porque o vou citar dentro de umas entradas …]
Junho 5th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Pede-me colega amiga para divulgar este “apelo a comunicações” e consequente realização evocando o 25º aniversário do assassinato, aqui no primeiro andar, de Ruth First.
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Moçambique no Contexto da África Austral e os Desafios do Presente:
Repensando as Ciências Sociais
(Conferência em memória de Ruth First, na passagem dos 25 anos do seu assassinato)
Centro de Estudos Africanos/Universidade Eduardo Mondlane
Maputo, 17 de Agosto de 2007
Apelo a apresentação de comunicações
Moçambique torna-se independente a 25 de Junho de 1975 e o Governo estabelece a sua política externa, definindo como uma das suas prioridades, o apoio não só aos movimentos de libertação africanos, com realce para a luta do Zimbabwe e Namíbia, mas também à luta dos povos oprimidos, com relevo para a luta do povo sul-africano contra o apartheid. No plano interno, a sua estratégia de desenvolvimento económico e social visava a criação de uma sociedade mais justa e igualitária. Estas opções conjugadas vão levar a um confronto aberto com a Rodésia e a África do Sul, mas vão também conduzir o país a uma situação política, económica, financeira e social extremamente difícil e conturbada.
A agudização de conflitos entre a África do Sul e os restantes países da região, a guerra civil e a difícil situação político-militar que se vive em Moçambique, são factores decisivos na busca de alternativas internas, depois dos acordos e parcerias regionais estabelecidas no quadro da SADCC e países da Linha da Frente. São claros exemplos desta situação o Acordo de Nkomati e as negociações com o FMI/Banco Mundial em meados da década de 80, e o seu desembocar no Plano de Reabilitação Económica em 1987. Nessa esteira, há também mudanças na arquitectura política interna que culminarão com a revisão da Constituição em 1990. A assinatura do Acordo de Paz em Outubro de 1992, põem formalmente fim à guerra civil, abrindo mais uma página na história do país.
O período pós-conflito traz novos desafios a Moçambique, nomeadamente: levar a cabo o difícil processo de reconciliação, criando condições de inclusão de todas as
sensibilidades sociais e, assim, sarando as feridas da guerra; implementar e consolidar um sistema democrático multipartidário, tal como o previsto no Acordo Geral de Paz; e relançar o desenvolvimento social e económico em moldes novos, baseados na iniciativa privada e na economia de mercado. A estas questões podemos talvez acrescentar uma quarta, a da criação de condições para a integração do país na estrutura regional da África Austral, a SADC, segundo o calendário e os ritmos definidos.
As crises de pensamento decorrentes das grandes mudanças que ocorreram no mundo durante a última metade do século XX e início deste século levaram as Ciências Sociais a acelerar a sua reconceptualização, num esforço tendente a clarificar e redefinir o seu papel na sociedade. Hoje, mais do que nunca, se debate sobre a finalidade das Ciências Sociais e o seu papel na sociedade. Questiona-se, ainda, se elas proporcionam um aconselhamento sábio sobre problemas do presente; ajudam os seres humanos a interpretar o mundo que os rodeia para melhor agirem sobre o mesmo; e se contribuem para uma maior eficácia das decisões políticas e administrativas.
Desde os finais do século XX que se discute o surgimento de um novo modo de produção do conhecimento, e se defende que as pesquisas são desenvolvidas a partir da necessidade de resolver problemas práticos e não apenas de interesses cognitivos, como pesquisa básica. A ideia da multidisciplinaridade, introduzida entre as duas guerras, ganhou importância e legitimidade no pós-segunda guerra mundial, ao suscitar a necessidade de transpor as barreiras entre disciplinas em direcção a uma transdisciplinaridade e a uma heterogeneidade institucional crescente. Desta feita, tornou-se possível às universidades e outras instituições de pesquisa estabelecer interfaces com o governo, as ONGs e as empresas. Apesar dos constrangimentos por que passam as instituições de ensino superior nos últimos anos, se espera que as universidades e institutos de pesquisa, na sua relação com a sociedade, sejam capazes de definir novos domínios do conhecimento, fazer diagnósticos e trazer soluções no âmbito da sua responsabilidade social.
As Ciências Sociais em África têm contribuído para o estudo das novas relações de trabalho, novos processos educacionais e de produção de conhecimento, formas de violência, estrutura rural, emancipação feminina, novas formas de constituição de identidades individuais e colectivas, vários tipos de expressão das desigualdades sociais, entre um número incontável de temáticas. A cultura científica hoje, tornou-se uma importante dimensão constitutiva das sociedades contemporâneas, enquanto recurso e enquanto problema, na medida em que interfere com todos os domínios da vida social. O cientista social deve, assim, pautar as suas pesquisas por uma postura crítica, e independente, porque a ciência só se desenvolve num contexto de liberdade académica e autonomia universitária, já que não podemos continuar ignorantes da realidade social que nós próprios construímos.
Em Moçambique, do período da produção socialista à economia de mercado e ao processo de paz e reconstrução do país, a produção em Ciências Sociais e Humanas mostra-nos a marcada influência dos diversos desafios, transições e reformas que num período tão curto abrangeram Moçambique e o esforço levado a cabo para fazer diagnósticos e procurar respostas para os problemas existentes. Assim, o processo relativo à implantação de uma economia e uma sociedade socialistas, o impacto da guerra, a resolução de conflitos, o processo de paz e a construção de uma sociedade democrática, a pobreza, a questão da terra, mulher e género, línguas moçambicanas e várias outras problemáticas, e mais recentemente, as consequências dos impactos do HIV/SIDA e outras doenças endémicas, marcam a produção científica nacional. Não se pode de modo algum ignorar o contexto regional, onde a dominação económica sul-africana, o regime do apartheid e a nova África Austral pós-apartheid, bem como a dinâmica da cooperação, paz, segurança e políticas de integração regional, fazem também parte dos interesses dos investigadores em Ciências Sociais ao longo destes períodos.
Hoje, no nosso país, debatem-se assuntos relacionados com a pobreza, o desemprego, a exclusão social, a construção de democracias e da paz, a governação participativa, a segurança e a pandemia do HIV/SIDA. Os cientistas sociais Moçambicanos devem com as suas análises contribuir para a construção de uma democracia enraizada num conhecimento da realidade nacional, regional ou africana, na valorização da produção de conhecimentos locais, e por uma sociedade mais livre e justa.
Cabe-nos então reflectir como ultrapassar os obstáculos que vão para além das dificuldades em acesso a recursos, ou dependência de agendas, para repensar o papel das ciências sociais como um espaço por excelência de formação e de intervenção social.
“Moçambique no Contexto da África Austral e os Desafios do Presente: Repensando as Ciências Sociais”, é o tema de fundo em redor do qual nos propomos celebrar a memória de Ruth First, nos 25 anos do seu assassinato, no seu gabinete de trabalho no Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Trata-se não só de um tema estimulante, como desafiante. Por um lado, porque vai ao encontro do que foram os ideais de Ruth First e Aquino de Bragança, que utilizaram o trabalho académico para fazer o diagnóstico e procurar respostas para os problemas da região e do papel de Moçambique neste processo. Por outro lado, porque se vive presentemente um momento de crise em que se fazem não só interrogações constantes sobre o papel que as Ciências Sociais devem desempenhar no desenvolvimento nacional, mas também se questionam aspectos relativos à qualidade do ensino e da pesquisa científica.
O Seminário de um dia revisitará assim a história de Moçambique pós-independente no contexto da África Austral, tendo em vista discutir o papel das ciências sociais na procura de respostas aos problemas nacionais e regionais. O facto de se realizar sob os auspícios do Centro de Estudos Africanos, este seminário representa: i) por um lado, a homenagem que a UEM faz a Ruth First que desempenhou as funções de directora científica e investigadora do CEA, mas também uma homenagem a todos os cientistas sociais, que como ela, se empenharam na luta contra o apartheid e pela paz e progresso do continente; ii) por outro lado, e de forma simbólica, o papel que o Centro de Estudos Africanos desempenhou no “volte face”das ciências sociais no Moçambique independente, com realce para a sua função de diagnosticar e procurar respostas para os problemas nacionais.
O Comité Científico do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, convida assim todos os interessados em apresentar artigos a esta conferência, a submeterem um resumo breve variando entre 150 a 300 palavras, em linguagem clara e informativa, com uma indicação do conteúdo da apresentação e seu argumento principal. O resumo deverá ser apresentado em letra 12, formato Times New Roman, 1 espaço, e enviado até 30 de Junho de 2007, para o seguinte endereço: ruthfirstconferencia@yahoo.com.br
Até 15 de Julho, os participantes a este seminário serão informados sobre os resultados da selecção de resumos e receberão outras orientações relativas à apresentação das suas comunicações.
Junho 5th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Memória de Africa: um sítio com 189 000 referências de obras sobre Africa de língua oficial portuguesa. Um louvável projecto, um trabalho insano. A não perder. Fica na coluna dos elos, à direita.
Maio 17th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique

Um seminário ocorrido na última semana na Universidade Eduardo Mondlane, uma apresentação das pesquisas de cerca de 10 estudantes de vários departamentos, congregados por uma colega estrangeira, aqui em trabalho de doutoramento.
Confesso, ao ver o cartaz ia caindo para tras, de estupefaccao. Nao, nao pela gralha, muito dado a brejeirice, ainda para mais articulavel (exponenciada) com a formulacao de plural por via de prefixos, tipica das linguas do sul de Mocambique. Foi mesmo com a renomeacao da area. Em registo bloguista, que o ha, tudo bem, cada um como cada qual. Em registo academico? “Dr. Livingstone, I presume?”??
Honestamente, nem quero acreditar.
Maio 3rd, 2007 — Ciências Sociais Moçambique
Maio 1st, 2007 — Antropologia, Ciências Sociais Moçambique
(texto modificado, acrescentado)
Sei que é um bocado hermético o que deixo a seguir, acho que nem aqueles que assim visados, e que aqui visitam, o perceberão. Portanto, um texto inútil: mas irrita-me a patrimonialização das relações - está inscrita no português, e nada subterrânea, “o meu amigo”, “o meu tio”, “o meu vizinho”. Mas não é só por via disso que isto surge. Agitar as amizades (”nossas”) ou conhecimentos (”nossos”), afixá-la/os, como mero património é desagradável. Como marcador identitário, como estratégia identitária, é repelente. Não moralmente repelente, mas sim intelectualmente.
Vai esta repelência intelectual (não moral, repito, que para isso há bem pior) também associada a quem se demarca por um sítio. Por quem usa os locais calcorreados como se seus, por quem patrimonializa os territórios - claro é que não falo de propriedade fundiária. Aqui ainda por cima não escondido pelo uso de português, pois o “meu local x” é ênfase rara, caímos quase sempre no “eu sou de ..” ou no “eu estou em …”. Mas isso não impede o uso dos sítios como distinção, estratégia patrimonial. Tudo isto culminando nuns “eu que ando por X, vejam, e que sou amigo de Y”.
Nessa ânsia patrimonial, publicitando, suportando-se, nos “amigos deles” “nos locais deles”, óbvia é a coisificação do que (momentaneamente) os rodeia. Sempre me interrogo, na tal ânsia de ascensão assim tornando, reduzindo, em coisas havidas as gentes e os contextos que cruzam, como os podem compreender? Pois logo se impõe o que na academia se chama reificação, e no vulgo fussanguice. Enfim, seja qual for o nome dado resta uma mera estratégia incompreensiva. Por mais louros que recolha.
Diz-se disto name-dropping, quando se trata de aspirantes às elites urbanas. Mas também, e é disso que aqui falo, há essa gente que vai nesse caminho no bico-dos-pés mas por outras vias, e que assim acaba a hastear o resto real que diz seu como exótico, mostrando-se-nos nele. Uma mera estrategia ascencional assim via “exotic-dropping“. Aí cai a repelência. Fica, meramente, o ridículo. Que me envergonha.