A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.
Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.
Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:
O Lagarto e a Perdiz
Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:
- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].
O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:
-Levanta-te, lagarto, e fala.
O lagarto levantou-se e disse assim:
- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.
A perdiz replicou:
- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?
O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”
João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:
“A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.
Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)
Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.
Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:
“A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)
Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.
Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,
e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.
Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.
Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.
Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:
Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.
Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.
[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]
Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels, mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “…a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar.“ (24).
E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):
“Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)
Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.
[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]
Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.
[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]
Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.
[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]
Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?
São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
CICLO DE SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
DINÂMICAS DAS ARTES PLÁSTICAS EM MOÇAMBIQUE
O ARTISTA, O ESTADO E O MERCADO: UMA CONVIVÊNCIA ATRIBULADA
FILIMONE MEIGOS
(Departamento de Sociologia, UEM)
QUARTA-FEIRA, 01.04.2009,
ANFITEATRO 1501, FLCS
Resumo
Este texto reflecte sobre o fenómeno artes plásticas em Moçambique, estabelecendo as relações funcionais que ocorrem entre o artista, a obra de arte, os públicos e outros agentes legitimadores das artes plásticas moçambicanas. Analisamos o período que vai desde 1977 a 2007, estudando a arte a partir da relação incrustada entre o Estado, o Mercado e a Cultura, numa perspectiva da sociologia da arte, no contexto da pós colonialidade.
Num país onde a Sociologia é uma área científica relativamente nova, para não falarmos da quase inexistente sociologia da arte, esta abordagem faz sentido na medida em que o fenómeno artístico, por exemplo, está na base da acção do político (como fenómeno social) que se sobrepõem ao artista e seu respectivo campo, servindo-se deste para fins programáticos. Assumindo, por hipótese, que particularmente em Moçambique, o campo político tem primazia sobre qualquer outro, faz sentido estabelecer esta relação com a arte, captando as suas relações em termos de policy making. Por outro lado, a acção artísticacontribui para a renda do segmento societal dos artistas e, nalguns casos, quando se transforma em indústria cultural, contribui significativamente para o produto interno bruto (PIB). Para não falar do sentido simbólico da arte, e o que os artefactos artísticos representampara o entendimento do quotidiano moçambicano.
A relação entre o Estado, o Mercado e a Cultura é bem ilucidada pela teoria da incrustação (Granovetter,1985). Aplicar tal teoria ao campo artístico implica dizer que este se estrutura numa relação de interdependência funcional, que clama por uma compreensão e explicação multidisciplinar, particularmente da sociologia, que deve captar as dinâmicas que o enformam, numa perspectiva de pós-colonialidade. Por isso, urge compreender para explicar como se estrutura e se constrói o campo das artes plásticas moçambicanas, nesse quadro pós-colonial, este que não designa um conceito histórico ou diacrónico, mas antes um conceitoanalítico que reenvia às literaturas (artes plásticas no caso), que nasceram num contexto marcado pela colonização europeia: “No campo dos estudos e da instituição literários são ainda frequentes posturas (quem sabe, involuntárias?) mais ou menos paternalistas, que por vezes escondem sérios preconceitos de visão ainda subliminarmente imperial (e racial), e que condescendem no reconhecimento minoritário e periférico destas novas escritas (a área das artes plásticas também pode ser aqui incluída)” (Leite, 2004:24).
A perspectiva dos estudos pós-coloniais não só ajuda a discussão sobre os efeitos culturais docontacto Norte-Sul, entendido como países ditos desenvolvidos, e, em vias de desenvolvimento, respectivamente, como também propicia a reinterpretação da discursividade hegemónica e dominante do Norte, particularmente no campo das artes plásticas moçambicanas. Concomitantemente, somos remetidos para a afinidade entre osestudos culturais e pós-coloniais o que permite uma reflexão sobre a transmigração das teorias, sobre a relação entre o local e o global, assinalando uma análise das práticas culturais do ponto de vista da sua imbricação com as relações de poder. E, tal como diz Hall, “O “pós-colonial” seria um “discurso” epistêmico e cronológico, que não se trata apenas doposterior, mas de ir além do colonial.” (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sobrasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional,(HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p.124).
Portanto, participando das epistemologias do Sul, isto é, tendo em conta a produção do saber contra-hegemónico produzido nos chamados países em vias de desenvolvimento, reflectimos na senda iniciada por Said (1979) e Bhabha (2001) sobre a “invenção de outras culturas”. O objectivo é compreender e explicar esse complexo processo ambivalente e negocial que ocorre entre actores singulares ou colectivos, e entre a teoria e a pesquisa social, tal como nos assevera Palmary: “The relationship between social research, social theory,(…) and popular perceptions is complex. It is seldom (probably never) causal with one feeding nearly into the other and we cannot very easily anticipate how our research and theory will be used. For the social sciences to be necessary for the future this complexity needs to be grappled with more explicitly and we need to be able to adapt to, learn from, and influence popular discourses ”1 ( 2005:125). Por conseguinte, “what has been described here would strike the South not as modernist, but a post colonial, dilenma” (Chapman, 2006:9).
É esse dilema pós colonial que estrutura os artistas, as suas interacções e o seu meio que queremos captar com o presente estudo, uma vez que essa situação redefine tanto o colonizado quão o antigo colonizador, particularmente nas artes plásticas que, em últimainstância são o produtor e o comprador respectivamente. De facto, e no dizer de (Kane,1995) a complexidade da realidade social africana é feita da relação ambígua que o continente tem com a modernidade (entenda-se, todo o arsenal material e ideológico resultante do empreendimento colonial). Na verdade, e no dizer de Kasfir (1999), África como um todo digeriu o Ocidente. No entanto, prossegue, “na realidade a arte contemporânea em África foi construida através dum processo de “bricolage” à partir de estruturas e cenários pré existentes, donde, os géneros de arte precolonial e o colonial foram erigidos” Kasfir, 1999:9)2. Assim, a arte contemporânea africana é, na sua essência pós colonial, em termos de datas, atitude e hábitos, na medida em que ela revela esse contacto ambíguo e processual como moderno, por via da colonização. Quer dizer que, a arte contemporânea africana não pode ser explicada ou adequadamente descrita sem referência ao seu contexto histórico assente na modernidade perversa que a caracteriza. O acto da colonização, e seus efeitos estruturantes, como traço da modernidade e contemporaneidade africana, é um fenómeno a tomar em consideração quando nos referimos às dinâmicas das artes plásticas em Moçambique. Importa, pois, ter em conta essa realidade, esse quadro no qual o carácter ambivalente da experiência moçambicana de modernidade e colonialismo se insere e, presumo, avente hipóteses para a explicação de como os artistas moçambicanos produzem e definem o seu social.
1. A relação entre a pesquisa social a teoria social e as percepções populares é complexa. Raras vezes (provavelmente nunca) é causal e por isso, se torna difícil antecipar como a nossa pesquisa e a teoria serão usados. Para que as ciências sociais sejam pertinentes no futuro tal complexidade deve ser explicitada e nós devemos ter habilidade suficiente para adaptar, aprender e influenciar os discursos populares. (tradução minha).
2.A tradução livre é da minha autoria ir ver original pp 9 e colocar aqui
Mas neste seu breve livro de poemas “Vou-me Embora Ficando” (Lisboa, Instituto Piaget, 2001) é uma outra dimensão que se lhe desvenda, ainda que não totalmente desligada da reflexão de contornos científicos. Não lhe discuto os méritos poéticos. Ainda assim surge-me como um livro exemplar. Por lhe reconhecer, na sua linearidade, um carácter de espelho de um muito específico meio social e de uma era histórica que a este provocou e formatou, de tudo isto um breve mas acurado retrato. Ali se ouve o eco de tantas outras biografias vividas na complexidade identitária brotada da etapa nacional em Moçambique. E, em particular, das formas assumidas de “moçambicanidade” por um núcleo formado por jovens à época da independência, alguns de ascendência portuguesa como o autor, outros de outras e bem plurais ascendências. Neles o húmus identitário conteve uma dimensão telúrica, uma “africanidade” de reclamação biográfica e também poética, mas a qual foi ainda fermentada pela adesão, mais ou menos explícita, mais ou menos madura, a uma ideologia igualitarista, também esta envolvendo poeticamente o real: “Fico / aqui nasci cresci e trabalho / o que amo é aqui [...] Quero transformar transformando-me / quero ver florir o homem novo / e ser um deles“.
Mosca transparece esses percursos, gente que assumiu rupturas familiares e sociais (ou, talvez, que deixou os seus assumirem essas rupturas – a formulação depende do ponto de observação de quem as indexa), e nesse seguimento desde cedo assumindo responsabilidades administrativas, a sua juventude inexperiente esquecida na urgência imposta pela inexistência de quadros no pós-independência. Um mergulho no real, às vezes romanesco outras vezes dramático, um real então desejavelmente moldável sob preceitos bem determinados – e moralistas -, que tanto marcou as biografias, pelas acções e andares havidos mas também pelos efeitos triturantes impostos pela força desse mesmo real efectivo, sempre ele escapando-se ao quadro moral que se lhe quis impôr: “Um dia, disseram-me que tinha poder / acreditei / mandei / ordenei / parecia mesmo grande / apesar de pequeno [...] Concluí mais tarde que quem me mandava / não mandava / era mandado / nunca descobri por quem [...]“.
É assim o testemunho, pungente até, do longo e lento processo de des-encantamento, essa desilusão individual tão recorrente alhures mas que aqui assume constantemente a dimensão de uma desilusão ideológica – silenciado o projecto igualitarista o qual era, afinal, apenas a cor do projecto nacional. Uma dor individual como o processo é amiude sentido, uma dor de contornos éticos, e que em muitos assumirá uma recusa existencial mas não um despojamento identitário, ainda que este seja uma questão de recorrente discussão, até de conflitualidade (“… donde vens Tivane / Venho da terra / da minha mãe e do meu pai / Como eu / Não / o senhor vem de outra e é branco“), questionamento de imputação racial, claro, mas não só, produto da dimensão visível do círculos sociais: “Somos iguais [...] Não / não somos iguais / eu não tenho nada / e o senhor não sabe o que é nada“.
Deste longo processo, que acampa para além da experiência individual, é este livro arguta e sentida testemunha. Do estertor dos ideais face ao real, este bem menos moralista e moralizável do que era sonhado e foi pensado. Um estertor que é também, e até dramaticamente, o da recusa do hoje. Daí até à angústia do pró-exílio, algo sentido como exaustão, ainda que ele próprio recusando a negação. Entenda-se, uma dolorosa recusa não da identidade sonhada mas sim a da sua negação: “25 anos de ficar e não fico / não fico pelas mesmas razões que fiquei / já não vejo os horizontes da liberdade e justiça / foi uma miragem / Pretendia ser um do povo pasei a um da tribo / tentei lutar por ideais fiquei elite …”
Para além do livro e dos caminhos aí endereçados dizem-me que o autor, cumprido com todo o sucesso um longo programa académico no estrangeiro, regressou ao país. Que testemunho do futuro nos deixará?
Estão as águas subidas ainda que nestes dias descendo. Mas nelas sempre habita a promessa de mais o serem. Eu estou de regresso ao Zambeze, agora para outras águas, digo-me. (há noites em que à noite temo o abutrismo…)
“Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo”, um trabalho de Cristina Delgado Henriques, base da sua tese de doutoramento, foi ontem apresentado.Para quem quiser apreender um pouco mais sobre a utilização populacional do Maputo, e do como este vem sendo moldado nas últimas décadas – no seio, como frisa a autora, de uma radical desregulamentação implanificadora – aqui se deixa o sítio da autora, onde também abunda iconografia (mapas e fotografias) da cidade: Cristina Delgado Henriques.
Quarta-feira, dia 28 de Novembro, às 18 horas, no Instituto Camões, uma conferência: “Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo“, por Cristina Henriques, da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Mais um bom exemplo do regresso ao local para apresentar os frutos do trabalho realizado, neste caso inserido num amplo processo de doutoramento.
António da Costa Gaspar, Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas, Maputo, Organização para a Resolução de Conflitos (www.orecmoz.org.mz), 2003
Um estudo patrocinado pela Organização para a Resolução de Conflitos, “associação moçambicana vocacionada a prestação de assistência e advocacia na gestão pacífica e resolução colaborativa de conflitos.” (iv), actuante desde 2000, promovendo os direitos dos cidadãos e reduzindo “a violência conflitual através da criação de um ambiente harmonioso” (iv). Este trabalho procura identificar focos, causas e tipos de conflitos ao longo do país, sob uma abordagem, explicitamente assistencialista, e vem financiada pela ICCO (Organização Interclesiástica para Cooperação ao Desenvolvimento), a EED (Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento) e a DIAKONIA (organização não-governamental das Igrejas Livres da Suécia).
É um livro exemplar e daí o seu especial interesse: o ecoando os resultados de uma pesquisa de terreno transpira o caldo ideológico que a organizou: a anti-globalização (anticapitalista?) com o extremo conservadorismo do olhar sobre a realidade. Um conservadorismo moralista, entenda-se, que molda problemática, objectos e assumpções assumidas. Se olharmos o enquadramento evangélico patrocinador não surpreenderá, mas não é com olhar de denúncia que a ele me refiro. É que raramente em livro se encontram firmadas estas balizas da normatividade desenvolvimentista, de modo tão cristalino.
Na pesquisa transposta a livro concluiu-se que “Os principais focos de violência localizam-se, essencialmente, em locais de exercício da economia informal que servem de base de sobrevivência da maioria das famílias a viver nos centros urbanos e seus arredores (…) Estes factores, estão de alguma maneira, associados aos efeitos da liberalização económica e das politicas macro-económicas vigentes no pais. Os efeitos nefastos da globalização, igualmente, têm estado a influenciar a atitude e comportamento dos cidadãos residentes, tanto nas zonas urbanas, como das perurbanas.” (viii). Está explícito, os focos de conflito alojam-se na economia “informal” donde dela brotam – do que é ela, enfim, não se discute. Sabe-se que é fruto da liberalização/globalização e daqui concluo ser a conflitualidade social fruto da desestatização da sociedade – correlação indiscutida: economia “informal”=conflitos.
Entre as principais origens dos conflitos (p. 40) estão os factores económico-financeiros (p. 42) no seio dos quais avulta o adultério, que “semeia a instabilidade no seio das famílias e nas relações inter-familiares. … Por exemplo, em Boane, a pratica de adultério é mais comum entre os homens adultos e mulheres cujos maridos se encontram a trabalhar na Africa do Sul. A prolongada ausência destes homens e justificada como estando na origem destas praticas agravadas, em algumas situações, pela insustentável e crescente carestia da vida. (…) Como se pode depreender, a pratica de adultério por parte de certas mulheres deve-se, em parte, a procura de alternativas de sobrevivência face ao elevado índice do custo de vida. (…) Este cenário descreve uma das origens da prostituição infantil, o que acaba se tornando numa base de sustento de algumas famílias vulneráveis.” (46-47). Comentar? O adultério é cometido por mulheres. O adultério é fonte de conflitos por causa das práticas das mulheres. O adultério (numa população onde os homens são [e]migrantes) é causado pela pobreza das mulheres, já ela provocada pela liberalização e globalização. Para quem conhece a concepção popular de “adultério” a sul do Zambeze (sociedades patrilineares, tendencial mas diferentemente patriarcais) como sendo equivalente a “prostituição” (“putaria” nos portugueses locais) fica-se com a sensação de que a análise fica presa às concepções morais populares, assumindo a sua moralidade.
Outros factores de eclosão de violência são os sócio-culturais (p. 50). Entre eles estaria a poliandria “um fenómeno que consiste numa mulher possuir mais do que um marido. Felizmente não e ainda uma prática aberta e publicamente exercida no seio da sociedade moçambicana. (…) No entanto isso não impede que algumas mulheres “forcadas pela carestia de vida” se envolvam na pratica do adultério numa base permanente ou temporária com vários homens, o que e, por sua vez, uma prática condenável”. (51-52) [meu negrito].
A resolução da conflitualidade doméstica, a análise dos mecanismos do pluralismo jurídico e seus valores condutores é fundamental. O assistencialismo enquanto patrocinador e financiador das análises sociológicas não é, por si só, condenável. Mas o laço evangélico, consciente ou inconsciente, não implicará a mera reprodução de santos valores e boas intenções?
Universidade Eduardo Mondlane
Departamento de Arqueologia e AntropologiaSEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIACo-Esposas Desesperadas: A Ilegalidade da Poligamia na Nova Lei da Família
em Moçambique
CARMELIZA DO ROSÁRIO
University of Bergen, Faculty of Social Sciences, Department of Social AnthropologyQuinta-feira, 11/10/07, 10.00 horas
LOCAL: SALA CP 2501 Novo Complexo Pedagógico, Campus Universitário Principal
Um verdadeiro acontecimento editorial. O lançamento em Portugal do trabalho de Eduardo Medeiros “Os Senhores da Floresta. Ritos de Iniciacao dos Rapazes Macuas“. Medeiros aqui foi durante longo tempo (praticamente duas décadas) professor cooperante e hoje em dia ensina na Universidade de Évora.
Esta é uma pérola etnografica, e a sua edição, ansiada, acontece na editora Campo de Letras, com apoio do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Deixo ainda a nota do incompreensível atraso da Imprensa Universitária aqui – há cerca de seis anos que tenho fotocópia do “burro” do livro, o cujo nunca veio a ser editado. O autor numa sã e nada vaidosa atitude a querer editar no país da recolha (bem ao contrário de tantos antropólogos “relativistas” e “contestatários” que depois tudo se negam no santificarem hierarquias simbólicas por via dos nomes e pesos das respectivas editoras …) e a editora da universidade perdida em desmandos e atrasos. Há coisas que se torna necessário dizer.
Um abraço a Medeiros. E um alerta aos livreiros: encomendar, encomendar sempre.
E já nem digo da hipótese dos antigos empregadores de Medeiros o trazerem cá para apresentação do livro/trabalho.
Universidade Eduardo Mondlane
Departamento de Arqueologia e AntropologiaSEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA
Saber Prático de Saúde, Racionalidades
Leigas de Saúde em Portugal
LUISA FERREIRA SILVA
Universidade Aberta & Cemri Portugal
Juventude Responsável e Sexo Seguro em Moçambique: um estudo sobre o papel das identidades alternativas e noçoes de género na promoção de sexo seguro numa zona de elevado risco de HIV
CHRISTIAN GROES-GREEN
Mailman School of Public Health
Columbia University
Quinta-feira, 20/08/07, 10.00 horas LOCAL: SALA CP 2501
Novo Complexo Pedagógico, Campus Universitário Principal
Lido ao vento. O meu texto de apresentação do livro de Rafael da Conceição, “Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano. Construções no Mar, em Terra e no Ar …)”, lido hoje ao vento no campus universitário, e assim não ouvido nem pelo autor do livro, fica aqui.
“Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano, Construções no Mar, em Terra e no Ar…)”, novo livro de Rafael da Conceição, um texto sobre (antropologia d)a morte. Será lançado na próxima terça-feira, 18 de Setembro, pelas 10 horas da manhã. Na Universidade Eduardo Mondlane, campus universitário, anfiteatro 2501 do novo Complexo Pedagógico.
O livro será apresentado por Carlos Serra e por José Teixeira. E esta entrada serve também para vos convidar à comparência no momento.
A antropóloga portuguesa Ana Benard da Costa veio a Moçambique apresentar o livro “O Preço da Sombra. Sobrevivência e Reprodução Social Entre Famílias de Maputo“, proveniente do seu trabalho de doutoramento em Estudos Africanos, apresentado em Lisboa – já agora aproveito para saudar o inusitado da atitude, a maioria dos investigadores estrangeiros acaba por nunca vir apresentar in loco o fruto sistematizado e completo do seu trabalho.
A apresentação do livro acontecerá na próxima quarta-feira, dia 29 de Agosto de 2007. Às 18.00 horas, no Instituto Camões – Centro Cultural Português (na Av. Julius Nyerere, 720). A autora falará do seu trabalho e também da questão da reprodução e dissolução de valores familiares. O livro será apresentado por mim (a Ana é minha amiga e honra-me deste modo. Eu, corado, farei o melhor que puder).
Ana Bénard da Costa, O Preço da Sombra. Sobrevivência e Reprodução Social Entre Famílias de Maputo, Lisboa, Livros Horizonte, 2007
“Numa época em que as imagens de Africa, outrora exóticas, dos espaços virgens e dos mistérios das savanas e das selvas profundas, foram substituídas no imaginário dos ocidentais por estereótipos de pobreza, exclusão social, corrupção, guerra e violência, este livro revela-nos outras realidades, bem mais complexas e bem mais próximas de nós. Falando de famílias que vivem na periferia de Maputo e procurando saber como vivem e de que vivem, Ana Bénard da Costa penetra no interior dos seres humanos e nas suas relações sociais. Falando de outras famílias, Ana Bénard da Costa fala-nos também das nossas famílias e de questões universais que se relacionam com afectos, interesses, reciprocidades, oportunismo, identidades, religião, economia e de como tudo isso se interrelaciona num processo complexo e pleno de contradições nesta era de mudanças rápidas e de globalização.” - é o que conta a badana (bem, em registo electrónico não sei bem o que será a badana …). A ler, desde já.
Pede-me colega amiga para divulgar este “apelo a comunicações” e consequente realização evocando o 25º aniversário do assassinato, aqui no primeiro andar, de Ruth First.
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Moçambique no Contexto da África Austral e os Desafios do Presente:
Repensando as Ciências Sociais
(Conferência em memória de Ruth First, na passagem dos 25 anos do seu assassinato)
Centro de Estudos Africanos/Universidade Eduardo Mondlane
Maputo, 17 de Agosto de 2007
Apelo a apresentação de comunicações
Moçambique torna-se independente a 25 de Junho de 1975 e o Governo estabelece a sua política externa, definindo como uma das suas prioridades, o apoio não só aos movimentos de libertação africanos, com realce para a luta do Zimbabwe e Namíbia, mas também à luta dos povos oprimidos, com relevo para a luta do povo sul-africano contra o apartheid. No plano interno, a sua estratégia de desenvolvimento económico e social visava a criação de uma sociedade mais justa e igualitária. Estas opções conjugadas vão levar a um confronto aberto com a Rodésia e a África do Sul, mas vão também conduzir o país a uma situação política, económica, financeira e social extremamente difícil e conturbada.
A agudização de conflitos entre a África do Sul e os restantes países da região, a guerra civil e a difícil situação político-militar que se vive em Moçambique, são factores decisivos na busca de alternativas internas, depois dos acordos e parcerias regionais estabelecidas no quadro da SADCC e países da Linha da Frente. São claros exemplos desta situação o Acordo de Nkomati e as negociações com o FMI/Banco Mundial em meados da década de 80, e o seu desembocar no Plano de Reabilitação Económica em 1987. Nessa esteira, há também mudanças na arquitectura política interna que culminarão com a revisão da Constituição em 1990. A assinatura do Acordo de Paz em Outubro de 1992, põem formalmente fim à guerra civil, abrindo mais uma página na história do país.
O período pós-conflito traz novos desafios a Moçambique, nomeadamente: levar a cabo o difícil processo de reconciliação, criando condições de inclusão de todas as sensibilidades sociais e, assim, sarando as feridas da guerra; implementar e consolidar um sistema democrático multipartidário, tal como o previsto no Acordo Geral de Paz; e relançar o desenvolvimento social e económico em moldes novos, baseados na iniciativa privada e na economia de mercado. A estas questões podemos talvez acrescentar uma quarta, a da criação de condições para a integração do país na estrutura regional da África Austral, a SADC, segundo o calendário e os ritmos definidos.
As crises de pensamento decorrentes das grandes mudanças que ocorreram no mundo durante a última metade do século XX e início deste século levaram as Ciências Sociais a acelerar a sua reconceptualização, num esforço tendente a clarificar e redefinir o seu papel na sociedade. Hoje, mais do que nunca, se debate sobre a finalidade das Ciências Sociais e o seu papel na sociedade. Questiona-se, ainda, se elas proporcionam um aconselhamento sábio sobre problemas do presente; ajudam os seres humanos a interpretar o mundo que os rodeia para melhor agirem sobre o mesmo; e se contribuem para uma maior eficácia das decisões políticas e administrativas.
Desde os finais do século XX que se discute o surgimento de um novo modo de produção do conhecimento, e se defende que as pesquisas são desenvolvidas a partir da necessidade de resolver problemas práticos e não apenas de interesses cognitivos, como pesquisa básica. A ideia da multidisciplinaridade, introduzida entre as duas guerras, ganhou importância e legitimidade no pós-segunda guerra mundial, ao suscitar a necessidade de transpor as barreiras entre disciplinas em direcção a uma transdisciplinaridade e a uma heterogeneidade institucional crescente. Desta feita, tornou-se possível às universidades e outras instituições de pesquisa estabelecer interfaces com o governo, as ONGs e as empresas. Apesar dos constrangimentos por que passam as instituições de ensino superior nos últimos anos, se espera que as universidades e institutos de pesquisa, na sua relação com a sociedade, sejam capazes de definir novos domínios do conhecimento, fazer diagnósticos e trazer soluções no âmbito da sua responsabilidade social.
As Ciências Sociais em África têm contribuído para o estudo das novas relações de trabalho, novos processos educacionais e de produção de conhecimento, formas de violência, estrutura rural, emancipação feminina, novas formas de constituição de identidades individuais e colectivas, vários tipos de expressão das desigualdades sociais, entre um número incontável de temáticas. A cultura científica hoje, tornou-se uma importante dimensão constitutiva das sociedades contemporâneas, enquanto recurso e enquanto problema, na medida em que interfere com todos os domínios da vida social. O cientista social deve, assim, pautar as suas pesquisas por uma postura crítica, e independente, porque a ciência só se desenvolve num contexto de liberdade académica e autonomia universitária, já que não podemos continuar ignorantes da realidade social que nós próprios construímos.
Em Moçambique, do período da produção socialista à economia de mercado e ao processo de paz e reconstrução do país, a produção em Ciências Sociais e Humanas mostra-nos a marcada influência dos diversos desafios, transições e reformas que num período tão curto abrangeram Moçambique e o esforço levado a cabo para fazer diagnósticos e procurar respostas para os problemas existentes. Assim, o processo relativo à implantação de uma economia e uma sociedade socialistas, o impacto da guerra, a resolução de conflitos, o processo de paz e a construção de uma sociedade democrática, a pobreza, a questão da terra, mulher e género, línguas moçambicanas e várias outras problemáticas, e mais recentemente, as consequências dos impactos do HIV/SIDA e outras doenças endémicas, marcam a produção científica nacional. Não se pode de modo algum ignorar o contexto regional, onde a dominação económica sul-africana, o regime do apartheid e a nova África Austral pós-apartheid, bem como a dinâmica da cooperação, paz, segurança e políticas de integração regional, fazem também parte dos interesses dos investigadores em Ciências Sociais ao longo destes períodos.
Hoje, no nosso país, debatem-se assuntos relacionados com a pobreza, o desemprego, a exclusão social, a construção de democracias e da paz, a governação participativa, a segurança e a pandemia do HIV/SIDA. Os cientistas sociais Moçambicanos devem com as suas análises contribuir para a construção de uma democracia enraizada num conhecimento da realidade nacional, regional ou africana, na valorização da produção de conhecimentos locais, e por uma sociedade mais livre e justa.
Cabe-nos então reflectir como ultrapassar os obstáculos que vão para além das dificuldades em acesso a recursos, ou dependência de agendas, para repensar o papel das ciências sociais como um espaço por excelência de formação e de intervenção social.
“Moçambique no Contexto da África Austral e os Desafios do Presente: Repensando as Ciências Sociais”, é o tema de fundo em redor do qual nos propomos celebrar a memória de Ruth First, nos 25 anos do seu assassinato, no seu gabinete de trabalho no Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Trata-se não só de um tema estimulante, como desafiante. Por um lado, porque vai ao encontro do que foram os ideais de Ruth First e Aquino de Bragança, que utilizaram o trabalho académico para fazer o diagnóstico e procurar respostas para os problemas da região e do papel de Moçambique neste processo. Por outro lado, porque se vive presentemente um momento de crise em que se fazem não só interrogações constantes sobre o papel que as Ciências Sociais devem desempenhar no desenvolvimento nacional, mas também se questionam aspectos relativos à qualidade do ensino e da pesquisa científica.
O Seminário de um dia revisitará assim a história de Moçambique pós-independente no contexto da África Austral, tendo em vista discutir o papel das ciências sociais na procura de respostas aos problemas nacionais e regionais. O facto de se realizar sob os auspícios do Centro de Estudos Africanos, este seminário representa: i) por um lado, a homenagem que a UEM faz a Ruth First que desempenhou as funções de directora científica e investigadora do CEA, mas também uma homenagem a todos os cientistas sociais, que como ela, se empenharam na luta contra o apartheid e pela paz e progresso do continente; ii) por outro lado, e de forma simbólica, o papel que o Centro de Estudos Africanos desempenhou no “volte face”das ciências sociais no Moçambique independente, com realce para a sua função de diagnosticar e procurar respostas para os problemas nacionais.
O Comité Científico do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, convida assim todos os interessados em apresentar artigos a esta conferência, a submeterem um resumo breve variando entre 150 a 300 palavras, em linguagem clara e informativa, com uma indicação do conteúdo da apresentação e seu argumento principal. O resumo deverá ser apresentado em letra 12, formato Times New Roman, 1 espaço, e enviado até 30 de Junho de 2007, para o seguinte endereço: ruthfirstconferencia@yahoo.com.br
Até 15 de Julho, os participantes a este seminário serão informados sobre os resultados da selecção de resumos e receberão outras orientações relativas à apresentação das suas comunicações.
Um seminário ocorrido na última semana na Universidade Eduardo Mondlane, uma apresentação das pesquisas de cerca de 10 estudantes de vários departamentos, congregados por uma colega estrangeira, aqui em trabalho de doutoramento.
Confesso, ao ver o cartaz ia caindo para tras, de estupefaccao. Nao, nao pela gralha, muito dado a brejeirice, ainda para mais articulavel (exponenciada) com a formulacao de plural por via de prefixos, tipica das linguas do sul de Mocambique. Foi mesmo com a renomeacao da area. Em registo bloguista, que o ha, tudo bem, cada um como cada qual. Em registo academico? “Dr. Livingstone, I presume?”??
Lançamento do livro de Patrick Harries, Junod e as comunidades africanas: impactos dos missionários suiços na África Austral.
(confesso que a extensão do programa desanima um vulgar mortal – por que é que as coisas não são simples? – mas Harries e Junod justificam toda a atenção)
Data: 02 de Maio de 2007
Local: Anfiteatro do ISPU
Hora: A partir das 15h30
Programa:
1ª Parte
15h30 – Palestra do Prof. Doutor Patrick Harries – Henri-Alexandre Junod e o legado do conhecimento secular da cultura africana
2ª Parte
Lançamento do livro:
17h00 – Início da cerimónia de lançamento do livro do Prof. Doutor Patrick Harries Junod e as comunidades africanas: impactos dos missionários suíços na África Austral
a) Palavras de boas-vindas do Representante do ISPU assim como do editor Paulinas Editorial
b) Interlúdio musical
c) Considerações sobre o livro pelo Prof. Alberto Maquia
d) Palavra dada ao Prof. Patrick Harries
e) Interlúdio musical – Grupo Coral Madjahana
f) Lançamento do livro:
- Intervenção do Vice-Ministro da Educação e Cultura, Sua Excia Prof. Doutor Luís Covane
- Intervenção do Embaixador da Suíça, Sua Excia Thomas Litscher
g) Interlúdio Musical – Grupo Coral Madjahana
h) Considerações do Representante da Associação do Centro Junod
[Maria José Arthur, Margarita Mejia (orgs.), Reconstruindo Vidas: Estratégias de Mulheres Sobreviventes de Violência Doméstica, Maputo, WLSA Moçambique, 2006]
“No que respeita à violência doméstica contra as mulheres … goza de grande legitimidade social que lhe advém da ideologia familiar que concede ao homem chefe de família a prerrogativa do uso da força na resolução de conflitos conjugais e o direito de controle da sua esposa ou companheira, das suas actividades, do seu comportamento e da sua reprodução. Esta posição é reforçada ao nível local nos tribunais comunitários e em estruturas locais, pelos secretários de bairro e nas secções de assuntos sociais, que são as instâncias mais próximas a quem se recorre em caso de conflitos domésticos.” [7]
“Este livro com histórias de vida de mulheres sobreviventes de violência doméstica [Linda, Anabela, Gabriela, Júlia] é o resultado de um projecto ligado à segunda fase da pesquisa sobre Violência Contra as Mulheres, desenvolvido pela WLSA Moçambique, entre 2004 e 2005. Não se trata de confirmar os resultados da pesquisa, mas de “humanizar” o rosto da violência, mostrando que as vítimas são mais do que agentes passivos que sofrem um “destino” contra o qual não se rebelam. Pelo contrário, prentende-se mostrar mulheres com sonhos e projectos concretos que, mesmo quando impotentes, nunca deixam de resistir e de desenvolver estratégias de auto-preservação. É neste âmbito que o registo das biografias de mulheres e a construção das suas histórias de vida nos aparecem como um meio para ampliar a nossa compreensão sobre a maneira como se estruturam as relações sociais de género, as mudanças sociais e as formas pelas quais forças sociais mais vastas actuam no individual, modelando profundamente experiências subjectivas, revelando as múltiplas fontes de opressão e privilégio na vida das mulheres …. Não queremos falar de actos heróicos nem de grandes feitos, mas simplesmente de mulheres que tentam sobreviver.” [5-6]
Alfarrabistas de Maputo: Av. Mao-Tse-Tung, ao Café Estoril.
Ruy Duarte de Carvalho, A Decisão da Idade, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1977, 3ª edição [40 meticais]
Venho de um sul
vim de leste dimensionar a noite em gestos largos que inventei no sul pastoreando mulolas e anharas claras como coxas recordadas em Maio.
Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes confundidos na cor da crosta acúlea de um negro chão elaborado em brasa.
Paulus Guerdes (coord.), A Numeração em Moçambique. Contribuição para uma Reflexão Sobre Cultura, Língua e Educação Matemática, Maputo, Insituto Superior Pedagógico, 1993 [50 meticais]
[Numerais na língua Makonde - I (M. Viegas Guerreiro), A contagem entre os Makonde (M. Viegas Guerreiro), Numerais na língua Makonde - II (E. Mpalume & M. Mandumbwe), Numerais na língua Yao (Miguel Viana), A contagem entre os Yao (Manuel Amaral), Numerais na língua Nyanja (Missionários da Companhia de Jesus), Sentido numérico Cheua (A. Rita-Ferreira), Numerais na língua Nyungwe (Victor Courtois), Numerais em Makhuwa-Lóhmé, Cóti e Árabe (António Pires Prata), Numerais na língua Sena (J. Torrend), Numerais na língua Shona (Ndau) (D. Dale), Numerais na língua Tshwa (J.A. Person), Numerais na língua Chope (Luís Feliciano dos Santos), Numerais na língua Tonga e o "sentido matemático" (Henri Junod), Numerais na língua Changana (Armando Ribeiro), Numerais em Tsonga (Changana) (Bento Sitoe), Numerais na língua Ronga (José Quintão), Numerais na língua Swazi (D. Ziervogel), Numerais na língua Zulu (Clement Doke). E entre vários outros textos analíticos ainda de salientar Métodos Populares de Contagem em Moçambique (Abdulcarimo Ismael & Evaristo Uaila)]
Rafael da Conceição, Entre o Mar e a Terra. Situações Identitárias do Norte de Moçambique, Maputo, Promédia
O lançamento do livro decorrerá na próxima quinta-feira, dia 17 de Agosto, às 18 horas. No Centro de Estudos Brasileiros. A apresentação será realizada por João Paulo Borges Coelho.
“Partindo da História, tenta-se mostrar que, até pelo menos ao século XVI, as sociedades costeiras de Cabo Delgado se situam no espaço suaíli e que elas estão submetidas, principalmente, às grandes correntes de influência que atravessam o conjunto da África Oriental.
A partir do século XVI a história da expansão portuguesa vai ter incidências fortes sobre estas sociedades e cria novas dinâmicas que acentuam as singularidades e contribuem para distinguir estas sociedades do litoral do Cabo Delgado de outras situadas na costa oriental de África. Pelo papel que jogam nas trocas, as sociedades costeiras do Cabo Delgado constituem um vector de transformações – tanto económicas, como políticas e sociais – importantes do ponto de vista local e no prolongamento das suas relações com as sociedades continentais. Essa função de “povos intermediários” – geográfica e socialmente falando – dá-lhes um lugar único no dispositivo das trocas com o exterior. Mas convém assinalar também a sua autonomia relativa face às principais cidades árabo-suaílis (por exemplo, no século XVII) e, mais particularmente, em relação ao sultanato de Zanzibar (séculos XVIII e XIX). A história da colonização é, para as populações costeiras, uma história de um antagonismo secular, onde o factor religioso – aqui o Islão – assume um papel do primeiro plano. A principal consequência desta presença colonial europeias será a criação das premissas de um espaço “natural” para a criação do Estado-Nação em Cabo Delgado, cujas bases começam a constituir-se principalmente nos finais do século XIX e primeiras duas décadas do século XX.” (27)
Adenda: no Ideias de Moçambique a transcrição da breve apresentação do livro, realizada por João Nobre e distribuída pelo departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.
Eis o anúncio da publicação, que está para muito breve na Imprensa Universitária, do primeiro blook em Moçambique: o Diário de Um Sociólogo.
Saúdo, claro. E também porque Carlos Serra surge no bloguismo moçambicano como a hipótese de uma ruptura nas formas de utilização deste meio.
Durante bastante tempo o bloguismo moçambicano [ou algum do dedicado a Moçambique] (do qual tenho uma listagem algo abrangente na coluna de elos do velho Ma-Schamba, incluindo activos e descontinuados) estava algo delimitado. Com a óbvia excepção do Apassarado, do Eduardo White (infelizmente de muito curta duração) e, muito depois, do aqui inovador e inusitado registo brejeiro do Clube dos Malandros, os blogs mais perenes oscilaram entre dois pólos: o privilegiar da fotografia-mostra, de pendor turístico e até, quantas vezes, saudosista (algures escrevi sobre a angústia que me causa tanta fotografia institucional – pois há paisagens que são instituições! – legendada com os nomes de antanho); e a reflexão política, onde os textos apresentados passa(va)m pelo crivo de um controle de linguagem, até jargão, pela sua completude e coerência, ou seja almejando a “dignidade” linguística. Um pouco como a transposição para os blogs de uma linguagem considerada “correcta”, querendo a sacralização da palavra escrita quando pública, o afirmar da figura do opinador-intelectual pelo peso (literal) do discurso. Tem muito a ver com o “ambiente moral”, claro, mas também (e talvez acima de tudo) com a linguagem de jornal dominante, ainda que os jornais moçambicanos tenham vindo a mudar bastante de linguagem nos últimos anos, por força da sua diversificação e do surgimento de muitos novos cronistas e opinadores. E com isto significo, também, alguma modernização da retórica.
Exemplo disso são os textos presentes no Ideias Para Debate, um blog de participação plural normalmente inserindo textos densos. Lembro que no início do IpD me atrevi, em comentário, a discordar desta tendência (o Machado “faz o favor de ser meu amigo” [uma bela expressão que urge recuperar], uma amizade feita de uma recorrente discordância, o que então me deu alento para tal atrevimento).
Entenda-se, não contesto a pluralidade de formas de construir textos e reflexões, e portanto das formas de aparência erudita. No caso do IpD que muito aprecio ou noutros. Nem tampouco acho que há uma forma de blogar.
Mas esta “seriedade” in-blog colocava-me três pontos: os pressupostos da retórica densa, e a sacralização que se lhe associa. Mas, fundamentalmente, outro tipo de questões, que divido em duas alíneas: uma de pragmática, de logística – o espartilho do texto longo (“erudito”, completo, de tese) muito dificulta a prática bloguística (quem tem tempo? quem tem talento? quem tem verve?), surgindo então como um obstáculo “moral”, intelectual ao bloguismo como democratização da palavra pública; a outra, mais profunda, é que esse espartilho constrange o desenvolvimento de formas mais leves de escrever, ou seja de observar, pensar e opinar. E mais leve não sinónimo de mais superficial. Do apontar coisas esparsas, extractos, jogar com as induções. Em mero chavão, com laivos de pós-modernos.
A estas modalidades de escrita bloguísticas não as acho, portanto, algo ilegítimas. Mas penso-as aqui algo constrangedoras da utilização de blogs, produtores de “envergonhamento”. Indutores do fim de alguns blogs episódicos? Refreando o surgimento de outros? Não sei, nunca o saberei, apenas especulo. E certo que este raciocínio muito sofre com o surgimento do blog do André, ainda hoje o meu blog moçambicano preferido e causa externa do fim do ma-schamba velho (é assim que eu gostaria de blogar aqui, é aquilo que o ma-schamba velho falhou).
Mas com Carlos Serra as coisas são algo diferentes. Serra, catedrático e dono de obra académica vasta, tem nesse registo uma escrita dura, é o modelo do erudito aqui (o prefácio de Elísio Macamo à reedição dos “Combates pela Mentalidade Sociológica”, feito praticamente só em notas de rodapé é uma deliciosa glosa, em registo de humor-companheiro, ao estilo de Serra). Ou seja Serra surge no bloguismo com o capital sossegado quanto ao texto e à reflexão. E o facto de, sobre esse estatuto, surgir a “largar” extractos, ideias, frases, apelando às interpretações e entendimentos num código de rapidez e de aparente simplicidade (como é muito recorrente no bloguismo) associado a esse reconhecimento público que tem é um grande passo para o descontrangimento do exercício plural da palavra pública. Leve se se quiser. Profunda se se quiser. Ou não.
E nada pior do que um texto longo, de tese, para o saudar. Como este. Ao blog, à atitude. E ao blook.