Recebo em casa o Jornal de Letras, edição de 28 de Julho. Contém um interessante dossiê sobre literatura de viagens (não está disponível no sítio), questões a 16 escritores sobre quais os seus livros de viagens preferidos. Cada um apontou cinco e a redacção do jornal compôs uma selecção de 15 livros dedicados a cada um dos continentes, um pouco enviesada para a literatura portuguesa actual, mas isso não lhe tira mérito. É interessante, procurar o que foi apontado, descobrir alguns, lembrar outros. Nessa minha busca noto que infelizmente ninguém lembrou este majestoso livro de Frei João dos Santos, “Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente“, dedicado na sua maioria à zona do Zambeze no final do século XVI. O autor, missionário de então, era um espantoso observador, o livro um prodígio de olhar e de narrativa, incontornável na história do pensamento português. E é um manancial para a leitura da história social deste país. Tudo isso não obsta a que esteja relativamente esquecido e seja de difícil acesso.
A edição que possuo é da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, publicada em 1999. Tem introdução de Manuel Lobato, e notas dele próprio e de Eduardo Medeiros. Uma preciosidade. A ver se aparece recomendada no próximo período de férias no hemisfério norte. E (re)editada num dos do sul.
Num recanto de uma livraria lisboeta (no King) descubro alguns exemplares desta revista, a qual desconhecia.O nº 5 da “Ur. Cadernos da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa“, dedicado a “Cidades Africanas“. Publicada em Maio de 2005 (12 euros). Um maná para nós, interessados – profissional ou afectivamente: tem mais de 20 artigos sobre a matéria. Artigos de Cristina Delgado Henriques, Pancho Miranda Guedes, José Forjaz (e ainda uma sua entrevista concedida a Isabel Raposo), e tantos outros nomes com obras reconhecidas sobre a matéria, José Manuel Fernandes, Maria Clara Mendes, Ilídio do Amaral, Isabel Raposo, etc. Apesar da já antiguidade da revista (5 anos), valerá com toda a certeza um mergulho atento.
Depois o resmungo. Este tipo de revista não esgota, aliás as académicas custam a fazer circular. Esta, como tantas outras, foi publicada com o apoio de instituições estatais. Entre elas o IPAD (instituto português de apoio ao desenvolvimento, a chamada “cooperação”). Com toda a certeza este apoio implica a recepção de exemplares (é a prática usual). Mas estes não são distribuídos, perdendo-se assim a possibilidade de divulgar os trabalhos dos especialistas, por esse modo criando possibilidades de diálogo e, até, de trabalho comum. Nem distribuição de exemplares – há alguma lógica de apoiar isto e não o anunciar/distribuir nas faculdades de ciências sociais com as quais se tem “cooperação”? -nem tampouco a divulgação da publicação (via internet, via delegações nos países com os quais o instituto trabalha). Nada, dá-se o apoio financeiro e pronto, está concluída a função. Passam-se os anos e não muda a atitude. É, entenda-se, falta de gosto no que se faz. Nada mais.
Organizado por Carlos Serra ocorrerá amanhã no Centro de Estudos Africanos (campus da UEM) este encontro dedicado aos desmaios das alunas da Escola Secundária de Quisse Mavota, esse acontecimento que tem apaixonado a opinião pública nacional. E, muito em particular, convocado a atenção dos estudantes universitários. Para quem não esteja ao corrente avanço pequeno resumo: na referida escola, situada nos subúrbios maputenses, tem ocorrido (ocorreram?) uma série de desmaios nas alunas locais. Os acontecimentos ecoaram na opinião pública, tendo logo surgido algumas explicações. Tive conhecimento de duas: a) os espíritos dos antepassados locais (Mabjaias) estariam a atacar as alunas dado que a escola (e a cerimónia de inauguração) evoca (e invoca) uma Mavota (Mahota?), a qual ali havia sido mera “cunhada”/”nora”; b) um surto anémico entre as alunas – opinião a qual estou certo que agita uma concepção de “anemia” bem menos literal do que o mero termo indica. Entretanto as instâncias oficiais já patrocinaram um sacrifício local (uns cabritos, acho) para apaziguar os espíritos – ainda que o régulo local fosse adepto da versão da “anemia” (claro, se aderisse à estrita causalidade cosmológica aceitaria que o seu estatuto de mediador espiritual fosse posto em causa).
A atenção que o caso despertou saltou para os orgãos de informação e para os blogs. Carlos Serra tem dedicado várias entradas ao caso (cerca de 15 já, mas não as agrega em categorias pelo que se torna fastidioso aqui elencar a totalidade das ligações) e também Patrício Langa o tem feito, reproduzindo os textos que Elísio Macamo dedicou ao assunto e publicou no Notícias. É aliás Langa que me provoca esta superficial entrada.
Também eu fui convocado a expressar a minha opinião. Quatro turmas, cerca de 180 estudantes de antropologia, exigiram a minha opinião sobre o caso dos desmaios suburbanos. E é importante referir isso, mesmo a esta modesta escala é necessário recordar (em particular a Patrício Langa, resmungando contra a vertigem opinativa) que os especialistas foram convocados e que se lhes torna difícil o silêncio. No meu caso, e ainda que em registo universitário, por isso menos crédulo, a imagem do docente que “não sabe” é sempre (auto?)sofrida – como evitar a tentativa de explicação?. E como tal tentei safar a (parca) reputação, expressando a minha opinião. Que resumo em dois pontos: a) antes de botar faladura convirá ir ao local (coisa pouco do agrado geral, acho), importante mensagem para os aprendizes de … críticos. E depois reflectir (tempo, tempo, tempo); b) que muito mais interessante do que as causas dos desmaios (nem eu nem os colegas antropólogos – e não falo das outras disciplinas – somos detectives nem tampouco médicos) seria/será interessante ler e ouvir o que dizem os nossos colegas. Ou seja, os “desmaios de Quisse Mavota” são um momento interessante para entendermos e criticarmos os discursos dos especialistas sobre o país. E não tanto para sabermos por que raio as miúdas se atiram para o chão.
Como tal é o momento de lermos o que Serra, Macamo, Langa (nas introduções e na apoio reprodutor) e outros estão a dizer. Acima de tudo é muito interessante atentar em duas dimensões ali sempre inclusas: o “iluminismo” (mais explícito em Macamo, mais encastrado em Serra); e a tresleitura (apressada?) sobre o discurso da antropologia (idem, com muito particular incidência nesta entrada de Macamo (ocorre-me dizer-lhe que o melhor da antropologia no Moçambique recente, de Geffray a Harry West diz exactamente o contrário do que o prestigiado sociólogo lhe imputa). A questão de fundo não radica na refutação, normal e na qual qualquer um de nós concorda, do “culturalismo” que massifica uma “população” atávica (esse é o discurso exo-antropológico). A questão de fundo não radica na refutação do discurso mediático (e político), palco das pressas auto-legitimadoras.
A questão de fundo, pelo menos aquela que me interessa referir aos meus alunos, é que os sociólogos moçambicanos continuam a descurar a leitura da antropologia. E a investir contra gigantes numa paisagem onde nós vemos … moageiras. São os desmaios das razões disciplinares.
Que fazer?, caros alunos. 3 coisas: a) ir ao local e pensar devagar; b) ler os sociólogos, que temos muito a aprender com eles; c) deixar cair os “iluminismos”. Até porque são estes que nos fazem “desmaiar”.
Este é o primeiro número da nova série (a terceira) da Índico, a revista das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). Que passou a ser editada por Nelson Saúte, o qual logo a tornou algo distinta. Se a série anterior era muito capaz, enquanto mera revista de bordo, o novo formato eleva a Índico à revista cultural moçambicana, com toda a certeza a coleccionar (assinar?, ou a ir pedir às delegações da LAM?), algo que muito faltava no país. Veja-se este primeiro número, que surge com artigos evocando o mundial de futebol que o vizinho albergará e o trigésimo aniversário da companhia, neste caso com texto de José Luís Cabaço. Mas depois, e para além de alguns textos de ocasião sobre destinos turísticos, surge o núcleo duro. Luís Bernardo Honwana revelando-se como surpreendente fotógrafo. E textos de Eduardo White, Marcelo Panguana, Mia Couto, Nelson Saúte, Paulina Chiziane, Júlio Carrilho, Ungulani Ba Ka Khosa, uma selecção nacional das letras moçambicanas. E um cuidado, sempre discutível mas cuidado, roteiro da capital. Para além de escaparates dedicados à edição livreira e musical, bem como aos ateliers de artistas plásticos.
A desejar bons mares e bons ares à Índico. Para que assim se mantenha.
Está disponível a última edição Gazeta do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade Eduardo Mondlane. Para além das informações contidas realce para uma interessante entrevista com Ana Loforte dedicada ao percurso da Antropologia no Moçambique independente.
A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.
Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.
Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:
O Lagarto e a Perdiz
Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:
- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].
O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:
-Levanta-te, lagarto, e fala.
O lagarto levantou-se e disse assim:
- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.
A perdiz replicou:
- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?
O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”
João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:
“A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.
Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)
Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.
Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:
“A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)
Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.
Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,
e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.
Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.
Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.
Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:
Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.
Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.
[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]
Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels, mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “…a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar.“ (24).
E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):
“Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)
Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.
[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]
Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.
[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]
Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.
[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]
Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?
São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
CICLO DE SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
DINÂMICAS DAS ARTES PLÁSTICAS EM MOÇAMBIQUE
O ARTISTA, O ESTADO E O MERCADO: UMA CONVIVÊNCIA ATRIBULADA
FILIMONE MEIGOS
(Departamento de Sociologia, UEM)
QUARTA-FEIRA, 01.04.2009,
ANFITEATRO 1501, FLCS
Resumo
Este texto reflecte sobre o fenómeno artes plásticas em Moçambique, estabelecendo as relações funcionais que ocorrem entre o artista, a obra de arte, os públicos e outros agentes legitimadores das artes plásticas moçambicanas. Analisamos o período que vai desde 1977 a 2007, estudando a arte a partir da relação incrustada entre o Estado, o Mercado e a Cultura, numa perspectiva da sociologia da arte, no contexto da pós colonialidade.
Num país onde a Sociologia é uma área científica relativamente nova, para não falarmos da quase inexistente sociologia da arte, esta abordagem faz sentido na medida em que o fenómeno artístico, por exemplo, está na base da acção do político (como fenómeno social) que se sobrepõem ao artista e seu respectivo campo, servindo-se deste para fins programáticos. Assumindo, por hipótese, que particularmente em Moçambique, o campo político tem primazia sobre qualquer outro, faz sentido estabelecer esta relação com a arte, captando as suas relações em termos de policy making. Por outro lado, a acção artísticacontribui para a renda do segmento societal dos artistas e, nalguns casos, quando se transforma em indústria cultural, contribui significativamente para o produto interno bruto (PIB). Para não falar do sentido simbólico da arte, e o que os artefactos artísticos representampara o entendimento do quotidiano moçambicano.
A relação entre o Estado, o Mercado e a Cultura é bem ilucidada pela teoria da incrustação (Granovetter,1985). Aplicar tal teoria ao campo artístico implica dizer que este se estrutura numa relação de interdependência funcional, que clama por uma compreensão e explicação multidisciplinar, particularmente da sociologia, que deve captar as dinâmicas que o enformam, numa perspectiva de pós-colonialidade. Por isso, urge compreender para explicar como se estrutura e se constrói o campo das artes plásticas moçambicanas, nesse quadro pós-colonial, este que não designa um conceito histórico ou diacrónico, mas antes um conceitoanalítico que reenvia às literaturas (artes plásticas no caso), que nasceram num contexto marcado pela colonização europeia: “No campo dos estudos e da instituição literários são ainda frequentes posturas (quem sabe, involuntárias?) mais ou menos paternalistas, que por vezes escondem sérios preconceitos de visão ainda subliminarmente imperial (e racial), e que condescendem no reconhecimento minoritário e periférico destas novas escritas (a área das artes plásticas também pode ser aqui incluída)” (Leite, 2004:24).
A perspectiva dos estudos pós-coloniais não só ajuda a discussão sobre os efeitos culturais docontacto Norte-Sul, entendido como países ditos desenvolvidos, e, em vias de desenvolvimento, respectivamente, como também propicia a reinterpretação da discursividade hegemónica e dominante do Norte, particularmente no campo das artes plásticas moçambicanas. Concomitantemente, somos remetidos para a afinidade entre osestudos culturais e pós-coloniais o que permite uma reflexão sobre a transmigração das teorias, sobre a relação entre o local e o global, assinalando uma análise das práticas culturais do ponto de vista da sua imbricação com as relações de poder. E, tal como diz Hall, “O “pós-colonial” seria um “discurso” epistêmico e cronológico, que não se trata apenas doposterior, mas de ir além do colonial.” (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sobrasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional,(HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p.124).
Portanto, participando das epistemologias do Sul, isto é, tendo em conta a produção do saber contra-hegemónico produzido nos chamados países em vias de desenvolvimento, reflectimos na senda iniciada por Said (1979) e Bhabha (2001) sobre a “invenção de outras culturas”. O objectivo é compreender e explicar esse complexo processo ambivalente e negocial que ocorre entre actores singulares ou colectivos, e entre a teoria e a pesquisa social, tal como nos assevera Palmary: “The relationship between social research, social theory,(…) and popular perceptions is complex. It is seldom (probably never) causal with one feeding nearly into the other and we cannot very easily anticipate how our research and theory will be used. For the social sciences to be necessary for the future this complexity needs to be grappled with more explicitly and we need to be able to adapt to, learn from, and influence popular discourses ”1 ( 2005:125). Por conseguinte, “what has been described here would strike the South not as modernist, but a post colonial, dilenma” (Chapman, 2006:9).
É esse dilema pós colonial que estrutura os artistas, as suas interacções e o seu meio que queremos captar com o presente estudo, uma vez que essa situação redefine tanto o colonizado quão o antigo colonizador, particularmente nas artes plásticas que, em últimainstância são o produtor e o comprador respectivamente. De facto, e no dizer de (Kane,1995) a complexidade da realidade social africana é feita da relação ambígua que o continente tem com a modernidade (entenda-se, todo o arsenal material e ideológico resultante do empreendimento colonial). Na verdade, e no dizer de Kasfir (1999), África como um todo digeriu o Ocidente. No entanto, prossegue, “na realidade a arte contemporânea em África foi construida através dum processo de “bricolage” à partir de estruturas e cenários pré existentes, donde, os géneros de arte precolonial e o colonial foram erigidos” Kasfir, 1999:9)2. Assim, a arte contemporânea africana é, na sua essência pós colonial, em termos de datas, atitude e hábitos, na medida em que ela revela esse contacto ambíguo e processual como moderno, por via da colonização. Quer dizer que, a arte contemporânea africana não pode ser explicada ou adequadamente descrita sem referência ao seu contexto histórico assente na modernidade perversa que a caracteriza. O acto da colonização, e seus efeitos estruturantes, como traço da modernidade e contemporaneidade africana, é um fenómeno a tomar em consideração quando nos referimos às dinâmicas das artes plásticas em Moçambique. Importa, pois, ter em conta essa realidade, esse quadro no qual o carácter ambivalente da experiência moçambicana de modernidade e colonialismo se insere e, presumo, avente hipóteses para a explicação de como os artistas moçambicanos produzem e definem o seu social.
1. A relação entre a pesquisa social a teoria social e as percepções populares é complexa. Raras vezes (provavelmente nunca) é causal e por isso, se torna difícil antecipar como a nossa pesquisa e a teoria serão usados. Para que as ciências sociais sejam pertinentes no futuro tal complexidade deve ser explicitada e nós devemos ter habilidade suficiente para adaptar, aprender e influenciar os discursos populares. (tradução minha).
2.A tradução livre é da minha autoria ir ver original pp 9 e colocar aqui
Mas neste seu breve livro de poemas “Vou-me Embora Ficando” (Lisboa, Instituto Piaget, 2001) é uma outra dimensão que se lhe desvenda, ainda que não totalmente desligada da reflexão de contornos científicos. Não lhe discuto os méritos poéticos. Ainda assim surge-me como um livro exemplar. Por lhe reconhecer, na sua linearidade, um carácter de espelho de um muito específico meio social e de uma era histórica que a este provocou e formatou, de tudo isto um breve mas acurado retrato. Ali se ouve o eco de tantas outras biografias vividas na complexidade identitária brotada da etapa nacional em Moçambique. E, em particular, das formas assumidas de “moçambicanidade” por um núcleo formado por jovens à época da independência, alguns de ascendência portuguesa como o autor, outros de outras e bem plurais ascendências. Neles o húmus identitário conteve uma dimensão telúrica, uma “africanidade” de reclamação biográfica e também poética, mas a qual foi ainda fermentada pela adesão, mais ou menos explícita, mais ou menos madura, a uma ideologia igualitarista, também esta envolvendo poeticamente o real: “Fico / aqui nasci cresci e trabalho / o que amo é aqui [...] Quero transformar transformando-me / quero ver florir o homem novo / e ser um deles“.
Mosca transparece esses percursos, gente que assumiu rupturas familiares e sociais (ou, talvez, que deixou os seus assumirem essas rupturas – a formulação depende do ponto de observação de quem as indexa), e nesse seguimento desde cedo assumindo responsabilidades administrativas, a sua juventude inexperiente esquecida na urgência imposta pela inexistência de quadros no pós-independência. Um mergulho no real, às vezes romanesco outras vezes dramático, um real então desejavelmente moldável sob preceitos bem determinados – e moralistas -, que tanto marcou as biografias, pelas acções e andares havidos mas também pelos efeitos triturantes impostos pela força desse mesmo real efectivo, sempre ele escapando-se ao quadro moral que se lhe quis impôr: “Um dia, disseram-me que tinha poder / acreditei / mandei / ordenei / parecia mesmo grande / apesar de pequeno [...] Concluí mais tarde que quem me mandava / não mandava / era mandado / nunca descobri por quem [...]“.
É assim o testemunho, pungente até, do longo e lento processo de des-encantamento, essa desilusão individual tão recorrente alhures mas que aqui assume constantemente a dimensão de uma desilusão ideológica – silenciado o projecto igualitarista o qual era, afinal, apenas a cor do projecto nacional. Uma dor individual como o processo é amiude sentido, uma dor de contornos éticos, e que em muitos assumirá uma recusa existencial mas não um despojamento identitário, ainda que este seja uma questão de recorrente discussão, até de conflitualidade (“… donde vens Tivane / Venho da terra / da minha mãe e do meu pai / Como eu / Não / o senhor vem de outra e é branco“), questionamento de imputação racial, claro, mas não só, produto da dimensão visível do círculos sociais: “Somos iguais [...] Não / não somos iguais / eu não tenho nada / e o senhor não sabe o que é nada“.
Deste longo processo, que acampa para além da experiência individual, é este livro arguta e sentida testemunha. Do estertor dos ideais face ao real, este bem menos moralista e moralizável do que era sonhado e foi pensado. Um estertor que é também, e até dramaticamente, o da recusa do hoje. Daí até à angústia do pró-exílio, algo sentido como exaustão, ainda que ele próprio recusando a negação. Entenda-se, uma dolorosa recusa não da identidade sonhada mas sim a da sua negação: “25 anos de ficar e não fico / não fico pelas mesmas razões que fiquei / já não vejo os horizontes da liberdade e justiça / foi uma miragem / Pretendia ser um do povo pasei a um da tribo / tentei lutar por ideais fiquei elite …”
Para além do livro e dos caminhos aí endereçados dizem-me que o autor, cumprido com todo o sucesso um longo programa académico no estrangeiro, regressou ao país. Que testemunho do futuro nos deixará?
Estão as águas subidas ainda que nestes dias descendo. Mas nelas sempre habita a promessa de mais o serem. Eu estou de regresso ao Zambeze, agora para outras águas, digo-me. (há noites em que à noite temo o abutrismo…)