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Carlos Alberto


Deste “Recordações de Lourenço Marques”, livro de fotografias de Carlos Alberto Vieira (Lisboa, Alêtheia, 2005) sobre a Lourenço Marques colonial (imagens recolhidas entre 1945-1975), já o Eduardo Pitta disse de sua justiça. Um álbum pobremente editado. (Convém mesmo ler o texto de EP). Apenas sublinho o penoso que é ler o seu preâmbulo, redacção chorosa que desmerece o património fotográfico que se lhe sucede.
Ainda assim o livro chegou às livrarias, está aí à venda, e justifica-se. Uma memória da cidade e de um grande fotógrafo. A Lourenço Marques branca ali deixada. E, assim, também memória de um olhar. Delimitado e delimitador. Coisa do seu tempo? Decerto, mas se então total espartilho do fotógrafo se hoje dos actuais organizadores, apenas “recordando”, não o sei.

Em 167 páginas (as fotografias não estão nem datadas nem numeradas) realça-se a total ausência da outra Lourenço Marques, a não-branca. Do “todo o resto”, como se então insignificante, sobra esta (pobre) fotografia e uma vista aérea de um trecho de caniço. Mas também muito pouco surge para além do registo do centro típico, paisagístico, monumental. Ou seja, a cidade-burguesa, o cerimonial oficial, o cartaz turístico/identitário, muito “aqui também é Portugal” - tudo isso é interessante, muito interessante mesmo, fundamental para quem quer conhecer ou recordar. Mas terá sido só isso que Carlos Alberto recolheu na cidade? Onde andarão fotos de Malhangalene ou Alto-Maé, p.ex.? Pois assim a sociedade branca (e o seu urbanismo) está também ausente do livro - é uma recorrente cosmética, a sociedade colonial como se homogénea: o idílico colono, em tons “africanos”, desprovido de conflitos, hierarquias e diferenças. Elucidativo da lente. Repito, se de então se de hoje fico na dúvida. Esta causada pelos estreitos critérios de selecção de fotografias e/ou por inexistência de texto explicitando que critérios assumidos e enquadrador, tanto da obra do fotógrafo como da agora selecção realizada.

A não perder a nota de Eduardo Pitta sobre “Recordações de Lourenço Marques”, o álbum póstumo de Carlos Alberto Vieira.

Praça

Em comentário recente a IO, amiga da casa, dizia que apesar da sua memória afectiva de Lourenço Marques e da sua Sé não gostava da Praça.

Pois…ei-la, no seu estilo magestático, o ritual do Império. Ao cimo o então Palácio da Câmara Municipal (hoje Conselho Municipal), a seu lado a Igreja protectora, no centro Mouzinho, a enigmática personagem que a necessidade de mito tornou Conquistador. Ali altaneiro protegendo a Baixa (então coração) da Cidade - o Marquês de Pombal em África, impossível não associar.

Tudo isto olhando o braço de mar e, para lá, a terra dos Tembe.

Hoje Mouzinho repousa, digno, ao fundo da avenida, no centro da Fortaleza pastiche. E a Praça leva o nome de Independência.

[Fotografia de Carlos Alberto, retirada de Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]