Archive for the ‘Bloguismo’ Category

The Clash

Sexta-feira, Agosto 27th, 2010

Na passada semana aqui ficou um texto sobre o bloguismo português que correspondeu a um simpático convite do Pedro Correia, do Delito de Opinão para colocar naquele blog um texto. Trago-o agora para aqui, mania de ter arquivo próprio e também para que alguém hipoteticamente interessado e a quem tivesse escapado o possa ler:

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou – o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do “o que dizer a estes tipos?” – os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores. Um imigrado treme nessas coisas, devo meter um requebro semi-tropical?, uma ponte inter-continental?, um daqui “estamos juntos”? um voo rasante sobre o onde vivo?. Ou restrinjo-me à parca política lusa, também ela habitual no DO ainda que felizmente nada monopolista? E nessa hesitação, até pobreza, é o cidadão que convoco, sai-me texto sobre o aí, o aí da política. Esse aí que há anos vou sabendo fundamentalmente por via dos blogs – se exceptuarmos a fértil actividade futebolística. Então boto sobre blogs, esse “espelho da nação”, pelo menos para alguns – que nesse blogocentrismo não serei o único emigrante, sei-o bem por anos de entre-bloguismo.

Longe vão os anos 2003-4 onde a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que que lhe ia na alma, tempos onde se afirmaram alguns manitus da opinão livre, desassombrada (idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial destruidor do anacletismo nacional). Os tempos foram passando e o colectivismo (nada liberal, diga-se) veio a impor-se no bloguismo, as grandes congregações bloguistas tornaram-se um must, na dita “esquerda” e na neo-dita “direita”. Então o motor dessa agregação chamava-se blogómetro, que os sonhos de teclistas lisboetas (e, vá lá, portuenses) eram o de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira do papado bloguista. Formaram-se e reformaram-se ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando os respectivos profetas. Era engraçado, naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa – entenda-se, vivo num país [Moçambique] cuja grande revolução da actualidade é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes “africanas”, a evangelização e a coranização (coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daqueles funcionários públicos tão dependentes do senhor secretário de estado do momento?). In-blog, chegado a casa, era quase como estar lá na rua, nos distritos (no mato, dizem os de fora), ouvindo o “alá é grande” “deus nosso senhor tudo pode” e essas coisas. Claro que aí Zizek ou Hayek (ou Hayeck?, para recordar a mais profunda discussão teórica de quase uma década de bloguismo em Portugal) eram os profetas ministrados – enquanto uma minoria, aquela burguesia que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria, falava em Blair como reencarnação do bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu o weblog.com.pt e o blogómetro perdeu alguma panache. Ainda por cima ninguém – nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo. Para se retirarem – num dos mais (ou mesmo “o mais”?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha – no dia seguinte a ultrapassarem o sitemeter abruptal. Mas pelo menos tiveram o efeito (o mérito?) de apear o blogo-top como meta-mor.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando. Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da “sua majestade” de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, de quando em vez, entrezangas prenhes de inter-links, cheias de sub-textos e private angers, tudo isso em crescendo de alinhamento que neles cada vez mais suava o agendismo. O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, vai-se à missa in-blog para se reafirmar as certezas quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão parece não perder audiências [fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere ...] mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados [e até o Eládio Clímaco e a Ana Zanatti] não percebem que a obesidade advém via google search: quanto mais “arquivos” tens para trás mais gente te chega ao engano, é o verdadeiro teorema bloguístico.

E ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos “Lisboa” muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam (“eu jantei com A, ele existe” “eu ensinei X a blogar, e em minha casa” e, um must, “eu tirei esta foto a V que por acaso se percebe mal na foto mas – estão a ver? – ele existe“), um “quem” “são” “esses” “alguns” que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal “Lisboa”, sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou inpró-nomeação julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da net, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes pós-bloguismos do youtube/facebook, gente com nome e de fotografia espetada no “perfil”. Enquanto o tal pacote “convicto” não imigra para cá, trazendo o “remoquismo” que lhe é alma, andamos noutra, a “gostarmos” uns dos outros, Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a meter. The Clash, hoje:

(um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e Gandula Blog 2005, atribuídos pelo ma-schamba – então blog individual. Aqui ficam as ligações para quem os quiser recordar.)

Entretanto depois de escrever o texto reli este “O Fim da Blogosfera”, de Paulo Querido, já velho texto (tem dois anos, nestes tempos isso é fóssil). Tem o interesse de ali referir o grupo “A” de blogs portugueses (uma elite – ao nível do seu reconhecimento, não estou a valorizar ou desvalorizar -interactuante), grosso modo é sobre esse meio de bloguismo político que acima falo.

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O Presente da Internet (e do bloguismo)

Sábado, Agosto 21st, 2010

Para leitores de blogs (e não só) e não só para esses será interessante esta Dissertação sobre a Internet … de Paulo Querido, habitualmente neste “Certamente”. Um primeiro texto (promete sequelas) sobre tendências de escrita e leitura na internet, sobre tendências de propriedade e apropriação na internet. E claro sobre o “destino” da produção in-blog. Chamo em particular a atenção dos visitantes em Moçambique, quase de certeza menos habituais leitores do Paulo Querido e dado que “entre nós”* há muito pouca reflexão sobre as tendências actuais deste mundo comunicacional. [E nesse sentido, ainda que sendo já antigo, será interessante visitarem o seu texto o fim da blogosfera (2008), que não fala apenas de blogs mas sim das práticas de produção e consumo na internet]

*evito relativizar o significado de “entre nós” aplicado exactamente a este local transfronteiriço internético. Um “entre nós” onde há correntes e pólos de leitura, fica assim suavemente delineado.

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The Clash

Segunda-feira, Agosto 16th, 2010

O Delito de Opinião foi gentil e convidou-me para nele colocar um texto. Entreguei uma evocação de outros tempos bloguísticos em Portugal intitulada “The Clash”. Está aqui. No texto lembro os prémios Gandula Blog 2004 e Gandula Blog 2005, atribuídos pelo ma-schamba (então blog individual) e aqui ficam as ligações para quem os quiser recordar.

Abaixo fica uma invocação:

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Blogspot ou WordPress: sobre o melhor sistema para blogs

Domingo, Agosto 15th, 2010

Contributo para uma reflexão sobre o melhor sistema para o bloguismo.

[Imagens reproduzidas do catálogo "Viva a República", uma publicação da Comissão Nacional para as Comemorações da República com Luís Farinha como comissário]

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Monumento ao Bloguista Desconhecido

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

- mas não anónimo …

[Excerto de obra de Barthélémy Toguo ("Liberdade Quando o Povo"), exposta nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian]

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Polanski, o escritor-fantasma

Terça-feira, Julho 27th, 2010

Para quem vive com saudades de cinema sentar-se diante de O Escritor Fantasma, de Polanski é uma delícia. Não tanto pela óbvia, e sumptuosa, canelada que resume o argumento – ao qual pouco ligaremos. Pois o que conta mesmo é o ambiente que o velho continua a gerar nos seus filmes. Bem diferente do rame-rame da “indústria”, bem diferente do rame-rame da “arte”.

Ali no King também o bom de encontrarmos e trocarmos memórias com um bloguista sempre legível agora a convocar-nos para o seu novo Da Casa Amarela, sítio que será obrigatório para quem segue o cinema. Ou seja, coisas do “xenon”. Abraço do casal.

Adenda:

Lesto o Francisco Valente envia-me a memória do dito Xenon. Aqui fica, para mais tarde nos lembrarmos, agora que se avizinha o edifício de 11 ou mais andares, chaminé de mini-multiplex.

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Um emigrante de visita à pátria (amada)

Domingo, Junho 20th, 2010

Pois é, dentro de bem pouco visitarei por breve período a amada pátria. Afectos de família, algumas compras, alguns proto-cinquentões antigos amigos, se ainda pacientes para uma mesa comum. E o conhecimento in loco das grandes questões nacionais, essas que enchem os blogs portugueses: uma tal de nigella, que anseio conhecer,tamanho o impacto anunciado; os bloguistas anónimos, que colhem grande aceitação nos bem pensantes. Sobre estes sei já, ainda que cá longe, qu’entre eles não consta el-rei de Portugal. Ainda que alguns lhes beijem as manápulas. Essas com que teclam, diligentemente, a sua cobardia.

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Auto-censura

Quinta-feira, Maio 13th, 2010

Acabo de reler um livro de autoria de uma das minhas mais queridas amigas, daquelas identitárias (“eu, jpt, sou quem sou porque sou amigo dela, a ela o devo“). Tal como da primeira vez uma enorme incomodidade, como é possível que pense ela assim (e são coisas profissionais)? Estou a ler, desde ontem, um outro livro de um amigo meu, querido, tanto que já me tomaram como seu filho. Um mesmo grau de incomodidade, ainda que de diverso conteúdo, como é possível que pense ele assim?

Venho para o blog, um “scanner” das capas, e porrada abaixo? Nada disso. Passo à frente, o que é a discordância diante do afecto? Nada mesmo.

Compreendo assim todos esses bloguistas socialistas portugueses (gente que se encontra aqui, que o ma-schamba pratica a reciprocidade de elos [com a excepção histórica de um blog fascista, do blog do escravista Pedro Arroja e do blog da anti-semita Ana Gomes]) que tenho visitado nos últimos dias. Por razões que bem percebo não se têm dedicado muito ao blogar ou, pelo menos, a discutirem as (esperadas) inflexões do governo português – falam, quando falam, do Papa (lá está, o jeito que deu), do Benfica, do vulcão. Quanto ao resto, quanto à desonestidade demagógica do PS, assobiam para o lado – ou, como diz um bloguista amigo (até meu co-bloguista no Olivesaria), “não me apetece falar de política” apesar do enorme apreço que têm por Socrates e companhia. Estou, e isso agora compreendo, solidário com eles, pois a gente faz auto-censura quando, afinal, não gosta do que os nossos velhos, antigos, queridos fazem ou fizeram.

Mas não estou solidário com aqueles que, há alguns meses, foram enfileirar-se no PS, seus novos-amigos, a troco de umas prebendas ou de umas causas fracturantes (prebendas não pessoalizadas). Esses são meros traidores. Ao país. Gente desprezível, que troca o bem-comum pelo pouco dos interesses pessoais ou particulares. E sabem (ou saberão, “o jpt escreveu isto de ti”) que é deles que falo. Não só da actriz de Paris, não só dela.

E convém não esquecer, quando amanhã vierem falar de outra coisa qualquer, ciência, futebol, amor, poesia. O intelecto é ético. E um traidor é sempre um rasteiro traidor. Não é credível. Nunca. Seja lá o assunto sobre o qual …. traia.

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Freirices

Segunda-feira, Maio 3rd, 2010

(por AL relativamente contente)

"imagem 'roubada' a pagina do clube de fas de Mocambique no Facebook"

Já referi aqui no comentário a um post do ABM que a visita do Presidente Guebuza a Portugal me passou (literalmente) ao lado. Não  que, comigo, tal coisa seja difícil de acontecer, mas foi assim mesmo. Vejo hoje na página do Facebook do clube de fãs de Moçambique, que a visita já deu frutos na forma de acordos de cooperação assinados entre os dois países e muito do agrado de todos.

Em relação à cooperação portuguesa tenho sempre sentimentos mistos. Quando em reuniões internacionais,  as propostas portuguesas eram-me embaraçosas e acolhiam geralmente olhares depreciativos. Embaraço meu devido não tanto aos programas e projectos apresentados, mas sim pela forma como eles eram propostos. As raízes do luso-tropicalismo parecem calar fundo na nossa alma lusa! Lembro-me de um ‘plano de desenvolvimento nacional’ totalmente elaborado nos gabinetes em Lisboa por ‘técnicos e peritos’ que nem um pé puseram no país que pretendiam ‘desenvolver’ e que o representante da cooperação portuguesa teimava em defender com o argumento que ‘ele gostam de nós e nós entendemo-nos. Não há necessidade de deslocar equipas até cá, nem de fazer consultas, porque nós sabemos o que eles querem’. O plano era de tal forma detalhado que incluía mesmo pormenores de carácter político, tais como a forma de descentralização e composição do governo local, a língua nacional, lei eleitoral, etc!

Outro tesourinho deprimente foi uma conferência em Chatham House em Londres, onde o orador português defendia a ‘relação especial’ de Portugal com as suas ex-colónias, tendo mesmo chegado a invocar o tal dito de que Deus fez o branco e preto e o português fez o mulato, para justificar essa relação especial. O chibalo, o xamboco e outros mimos afins do regime colonial tapados assim pela proezas do macho luso e do ‘somos marinheiros, somos albuquerques’.

Mas por outro lado, pondo de lado o discurso luso-tropical, as propostas da cooperação portuguesa pareciam-me bem mais honestas que a maioria. Apresentavam-se nuas, despidas de hipocrisias e chavões (ditos) humanitários; não se escondiam atrás de putativos ideais de desenvolvimento; não invocavam as altas esferas morais que se usam para tapar preconceitos; não disfarçavam o interesse de promover empresários portugueses ( ainda que de dúbia reputação) e as tecnologias portuguesas (sejam elas quais forem). Parecia-me, que a diferença fundamental entre a cooperação portuguesa e a dos outros países residia sobretudo no grau de sofisticação do discurso; na capa de verniz; no menor grau de exigências feitas ao país receptor. O paternalismo condescendente estava ali, sem subterfúgios de cariz moral tão típicos de muitos ditos programas de desenvolvimento ou cooperação. Assim um bocado como a China, só que com menos dinheiro.

Neste caso particular, agrada-me que se estreitem os laços entre os dois países; gosto muito de Moçambique e agrada-me pensar que o país e as suas gentes podem beneficiar com estes acordos. Espero que beneficiem com eles!


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“Dar Música”

Segunda-feira, Março 29th, 2010

Há alguns anos, e por via de leitores do ma-schamba, chegaram-me convites para o Orkut. Depois,e pela mesma via, foi o hi5. Sempre fui renitente. Depois, e já por via de companhias de balcões, foi o facebook. E com este, talvez por influência de quem mo apregoou, já abri conta militante. Há fanáticos, há adversários, há menosprezadores. Não sei bem porquê. Isto das “redes” é como foi o telefone e muito depois (e há tão pouco tempo) o e-mail. Servem para comunicar e um tipo tem e usa como quer – declarações de princípios sobre o assunto, acaloradas ou não, são puras parvoíces. No meu caso tenho usado o facebook como um trampolim para o blog. E para (re)apanhar, (re)acompanhar, as velhas amizades – coisa óbvia de velho imigrado. Mas agora, nos últimos tempos, e um pouco por influência do velho amigo co-mpanheiro destas coisas (e de rabujice) e, ele sim, grão-bloguista, o Apenas Mais Um, percebi o sumo disto da “rede social”, seja facebook seja outra qualquer. Andamos, ando eu pelo menos, embevecidos a “dar música” aos outros, a encontrar uma ou outra canção, música, trecho, a recuperar aquele “dar música” do calão lisboeta dos 1980s, o então sinónimo de “tanguear”.

Sim, “dar música”, enlear, engraçar, rodear, embeiçar, seduzir se se conseguir – sim, se calhar para quem já não o consegue fazer doutro modo. Mas isto porque a grande rede social, a mina de apreços e gostos, de comunhões e (re)apreços, de pontes e de “sem-merdas”, um whisky juntos, uma cerveja ou até fanta, décadas atrás até um charrito se houvesse, e havia imenso, às vezes até um “chega práqui” mais junto, é mesmo o youtube. O resto, e blogs também, é nada! Pronto, quasi-nada. Vaidade só. Quasi-vã, como bem sabemos.

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Estórias da História

Sábado, Março 13th, 2010

(por AL alertada por Luís Galvão) -

Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.

Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.

Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.

Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.

Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.

Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.


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À Mulher Desconhecida

Segunda-feira, Março 8th, 2010

(por AL em homenagem da mulher) –

Mulher 1


Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.

De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.

Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.

Mulher 2


Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.

Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.

O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.

Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!

Mulher 3


Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.

Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.

Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.

Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.

Mulher 4


Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:

Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!

Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…

Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!

Nota de pé de página

Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.


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Ha festa na maschamba!

Domingo, Março 7th, 2010

(por AL em jeito de aniversário)

Um flashmob bollywoodesco ao MVF pelo seu aniversário! Parabéns Miguel!


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Os embuçados

Terça-feira, Fevereiro 23rd, 2010

Velho como o bloguismo em Portugal (actividade que ali explodiu em 2003) é o tema do anonimato opinativo. Há quem ache óptimo, absolutamente justificado, que por ali andem embuçados a distribuirem caneladas a torto e a direito. Há até quem lhe chame, em delírio de patusquice (e com o beneplácito dos “experts” da matéria), de “heteronímia” – ou seja é gente em quem habita um outro “eu”, ou até vários, muito dados a defenderem o partido “A” vituperando aqueles menos adeptos desse mesmo partido.  Depois, burilados os geniais posts, os ditos blogo-Pessoas ou blogo-Quadros re-engolem o tal heterónimo e deixam regressar o aprazível ortónimo (sim, há bloguistas com uma grande lata).

Fica aí o fado, para os adeptos dos embuçados. Para essa gente menor.

jpt


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Os dias do ano

Sábado, Fevereiro 13th, 2010

(por AL em antecipação)

O nosso calendário encontra-se pejado de dias assinalados com festas e celebrações públicas e privadas. Algumas agradam-nos a todos cá em casa, outras somente a alguns do nós; há dias que nos deixam indiferentes e depois há aqueles dias que nenhum de nós gosta.

De longe, a celebração favorita cá de casa é o Natal. Neste pequeno agregado familiar de 8 pessoas e meia (incluindo o meu neto de dois meses e sendo a “meia”, a minha neta que nos bate à porta) alimentam-se os pequenos gestos tradicionais e consegue-se escapar, tanto quanto possível ao comercialismo vigente. Mas isto será matéria para outro post lá mais para o fim do  ano.

Já o Ano Novo, tal como o Carnaval, encontra poucas simpatias por estas bandas; parece que nunca percebemos muito bem esta coisa da alegria com hora marcada e da folia por calendário.

A Páscoa é para nós um deleite de paganismo, com ovos pintados e grande refeição familiar de omelette em dias de pintura, e na confecção de amêndoas de chocolate, deliciosas e que a minha Mãe teima em manter como receita familiar exclusiva.

Algumas festas foram por nós importadas de outras partes e celebradas de forma intermitente, como as lanternas de S Martinho que deixámos em pousio quando as crianças cá de casa se tornaram adolescentes e que esperamos retomar quando na família tivermos novamente crianças que já não precisem de colo. Os magustos fazíamo-los quando vivíamos na província e caíram em desuso quando, depois de anos de diáspora, nos juntámos novamente por Lisboa. Outras festas deixaram de ser celebradas cá em casa por falta de quorum, como a festa das comadres e dos compadres e o Thanks Giving Day.

Um dia que nunca foi celebrado cá por casa foi o dia de hoje, o 13 de Fevereiro, pela simples razão de que nada havia para o assinalar. Mas uma mensagem que recebi hoje de manhã, suspeito, vai alterar para sempre a nossa relação com este dia. Chegou às 8:29. Dizia: “Já estamos no hospital e epidural já dada. Está tudo bem mas ainda demorado. Ligo quando houver mais novidades.” O remetente é o meu genro João. É a minha neta, ainda anónima, que nos bate à porta neste dia 13 de Fevereiro!


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