Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.
Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.
Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.
Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.
Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.
Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.
Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.
É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.
A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.
O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.
É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!
Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.
De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.
Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.
Mulher 2
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.
Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.
O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.
Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!
Mulher 3
Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.
Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.
Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.
Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.
Mulher 4
Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:
Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!
Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…
Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!
Nota de pé de página
Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.
Velho como o bloguismo em Portugal (actividade que ali explodiu em 2003) é o tema do anonimato opinativo. Há quem ache óptimo, absolutamente justificado, que por ali andem embuçados a distribuirem caneladas a torto e a direito. Há até quem lhe chame, em delírio de patusquice (e com o beneplácito dos “experts” da matéria), de “heteronímia” – ou seja é gente em quem habita um outro “eu”, ou até vários, muito dados a defenderem o partido “A” vituperando aqueles menos adeptos desse mesmo partido. Depois, burilados os geniais posts, os ditos blogo-Pessoas ou blogo-Quadros re-engolem o tal heterónimo e deixam regressar o aprazível ortónimo (sim, há bloguistas com uma grande lata).
Fica aí o fado, para os adeptos dos embuçados. Para essa gente menor.
O nosso calendário encontra-se pejado de dias assinalados com festas e celebrações públicas e privadas. Algumas agradam-nos a todos cá em casa, outras somente a alguns do nós; há dias que nos deixam indiferentes e depois há aqueles dias que nenhum de nós gosta.
De longe, a celebração favorita cá de casa é o Natal. Neste pequeno agregado familiar de 8 pessoas e meia (incluindo o meu neto de dois meses e sendo a “meia”, a minha neta que nos bate à porta) alimentam-se os pequenos gestos tradicionais e consegue-se escapar, tanto quanto possível ao comercialismo vigente. Mas isto será matéria para outro post lá mais para o fim do ano.
Já o Ano Novo, tal como o Carnaval, encontra poucas simpatias por estas bandas; parece que nunca percebemos muito bem esta coisa da alegria com hora marcada e da folia por calendário.
A Páscoa é para nós um deleite de paganismo, com ovos pintados e grande refeição familiar de omelette em dias de pintura, e na confecção de amêndoas de chocolate, deliciosas e que a minha Mãe teima em manter como receita familiar exclusiva.
Algumas festas foram por nós importadas de outras partes e celebradas de forma intermitente, como as lanternas de S Martinho que deixámos em pousio quando as crianças cá de casa se tornaram adolescentes e que esperamos retomar quando na família tivermos novamente crianças que já não precisem de colo. Os magustos fazíamo-los quando vivíamos na província e caíram em desuso quando, depois de anos de diáspora, nos juntámos novamente por Lisboa. Outras festas deixaram de ser celebradas cá em casa por falta de quorum, como a festa das comadres e dos compadres e o Thanks Giving Day.
Um dia que nunca foi celebrado cá por casa foi o dia de hoje, o 13 de Fevereiro, pela simples razão de que nada havia para o assinalar. Mas uma mensagem que recebi hoje de manhã, suspeito, vai alterar para sempre a nossa relação com este dia. Chegou às 8:29. Dizia: “Já estamos no hospital e epidural já dada. Está tudo bem mas ainda demorado. Ligo quando houver mais novidades.” O remetente é o meu genro João. É a minha neta, ainda anónima, que nos bate à porta neste dia 13 de Fevereiro!
Cruzo o jornal Sol – na versão electrónica - e vejo a SIC na tvcabo. Depois vou ao Rol d’Elos do ma-schamba, seguindo a alfabética ordem – apalpar quais os ecos na longínqua pátria. Acho piada ao que tenho assistido nos últimos dias no bloguismo político português. A ala socialista (e não está só, que há até surpreendentes “companheiros de teclados”) alimenta duas ideias: os outros (a direita) não são democratas e como tal não se podem queixar. E, e é a ideia dominante, a de que na actualidade não há qualquer problema de liberdade, de expressão ou de imprensa (como exemplo paradigmático, Ricardo Costa jornalista na Sic Notícias disse no jornal das 12 que “Não há problema! É um disparate afirmá-lo. É um disparate manifestarem-se. E quando há problemas é por pressões económicas ou políticas. Que é o que agora aconteceu!” – foi minha impressão ou o tipo estava-me a chamar estúpido?).
Entenda-se, na mancha blogal socialista repete-se até à exaustão que não há qualquer problema de liberdade de imprensa/expressão: esse existia apenas no Estado Novo, em muitos isso assumindo um “no nosso tempo”, a tal autoridade biográfica que sempre surge quando não há mais argumentos, a exigência do respeito pelos “mais-velhos”. Nesse sentido é descabido qualquer protesto, inquietação, manifestação. A nenhum deles ocorre (será mesmo?) que em assim sendo em momento algum haverá justificação para protestar, opinar, manifestar sobre tantos assuntos que lhes são queridos: operários, colarinhos-brancos ou agricultores a protestarem contra as condições de trabalho que lhes são impostas? protestos contra o nível de vida, de grupos profissionais (de classes, se se preferir) ou da sociedade em geral? contra o tratamento dado às ditas “minorias” (mulheres, emigrantes, homossexuais, etc.)? contra o centralismo administrativo? contra o estado da Segurança Social? contra o estado, local ou geral, dos serviços de saúde? alunos ou professores (e seus familiares) contra o estado do sistema de educação? Pois em todas estas áreas (e em tantas outras), que foram nas últimas décadas alvos de protestos populares, quase-sempre acarinhados pela dita “esquerda”, há uma realidade incontornável: no tempo do Estado Novo (no “fascismo”) as situações sectoriais e gerais eram muito piores. E, no entanto, isso não implica uma inibição do protesto actual, ou a refutação da sua legitimidade ou propriedade. Tal acontece, tal é defendido apenas neste caso.
É interessante. É verdade que no meio desses blogo-socialistas (e seus agora “companheiros de teclados”) há gente que é mera funcionária do poder, anónima ou não. E que alguns outros teclam a troco de interesses (interesseiros ou interessados, o que são coisas bem diferentes). Mas para muitos, e penso em alguns velhos confrades bloguistas que imagino gente-gente, quero crer que ainda vão resmungando: quão difícil é ser socialista em tempos de tal califa.
Ah como eu gostava delas! Como me revia nas suas conversas! Como se pareciam comigo e com as minhas amigas quando em conversas de mulherio nos juntávamos…
Elas, claro, em Manhattan, com Starbucks nas mãos e Blahnicks nos pés; nós, na Benard, com calçado anónimo, bebíamos chávenas de Tetley (era o que havia, era o que havia). Mas falávamos todas do mesmo: homens, amor e sexo. Quem eles eram; onde paravam e o que faziam; como beijavam; eram bons na…? Sim, admito que trocávamos notas e que passávamos, a elas notas e a eles homens, umas às outras.
Ai, com esse não que andas a perder tempo; é só fachada! Esse? Hmmm, dei-lhe uma vez um beijo e não foi nada de especial… Aquele ainda tem muito que aprender; se tiveres pachorra… Tem cuidado que esse é um predador emocional! Não posso acreditar que ele te disse isso! Não vão acreditar com quem eu estive ontem e no que trago para contar!
E misturavam-se as ansiedades das etiquetas com o telefone e do que faço quando o vir outra vez?; do que acham que ele quis dizer quando…?; e das interrogações confudidas do já alguma vez estiveram com um que…
Continuávamos pela tarde fora em conversas de bravata a desfolhar proezas; ou em conversas de desgostos amargos, a sarar feridas com a raiva vingadora das amigas; ou em conversas de sonhos de vida eterna que nem as certezas delas conseguiam resguardar do descalabro que aí vinha. E todas nós nos revíamos na Carrie, na Miranda, na Charlotte e na Samantha. E tínhamos também o nosso Mr Right para mal dos nossos pecados; cada uma o seu, claro! Eu deleitava-me nessa cumplicidade que me acolhia depois das prolongadas ausências por terras alheias, onde via a série por atacado e com a qualidade dúbia dos videoclubes. Reconfortavam-me, davam-me um sentido de pertença depois de meses a ser estrangeira em mim. Deixavam-me entrar de mansinho no quotidiano não partilhado das outras e afastavam-me do que com elas não conseguia partilhar. Assim, estilo calçadeira de sapato para amizades interrompidas.
Cada uma tinha também a sua favorita e eu venerava a Samantha e os seus toy-boys! A verve com que ela os agarrava, usava e descartava! Aquilo sim é que era pinta! E ainda por cima era desbocada:
My name’s Samantha and I’m a loveaholic.
Well, I don’t know how you people do it. All that emotional chow-chow. It’s exhausting.
If we could perpetually do blowjobs to every guy on earth, we would own the world. And at the same time have our hands free.
Nós, e penso que muitas outras como nós, adorávamos o Sex and the City. Era como que uma afirmação da nossa emancipação e da nossa sexualidade; assim estilo flower-power finalmente casa com o Faubourg de Saint-Honoré. Para nós, foi o corte final com o mito da imagem em proporção inversa ao intelecto. Agora podíamos ser inteligentes, cultas e profissionais, mas também bonitas, depiladas, arranjadas e fúteis. Quase chorámos quando a série acabou! Chorámos pelo fim e por causa do fim. Onde é que já se viu! Não nos caíu bem que a palonça da Carrie andasse feita dama das camélias por Paris (embora o cenário fosse o adequado); que o palerma do Mr Right, depois de tudo o que lhe fez, fosse a correr com um ramo de flores (digam lá se há cliché mais piroso!) e a atolantada derrete-se que nem rebuçado em boca de bébé a começar a dentição! Valha-nos deus! Arruinaram anos, ouviram?, anos fabulosos com este fim serôdio!
Depois apareceu o filme. Fomos todas ver! Juntas novamente! Mais maduras agora, estabelecidas noutros sonhos e noutras heroínas. Com outras guerras para lutar. Mas unidas pela cumplicidade desses anos, lá nos metemos na calçada da memória e aí fomos nós. A desilusão do último episódio sagrou-se com o filme. Não que fossemos à espera de um fino recorte cinematográfico, mas ao menos UMA, UMA daquelas conversas fabulosas do estilo da Charlotte a descrever um loverboy não circuncidado: Tinha tanta pele que parecia shar-pei!
Não, o filme tinha sido depurado, sanitizado. O factor “mulher independente, desbocada e assertiva” tinha desaparecido e as nossas “meninas” nao passavam de donas de casa desesperadas em roupas de assinatura! Fomos defraudadas! E agora, juntando insulto a injúria, vem aí a sequela!
Falava aqui há dias o JPT nos Xutos para crianças na infantilização duma rebeldia geracional em favor da mercantilização de um produto com mercado descendente (quiçá esgotado?). Pus-me a pensar e agora pergunto-me, será que no Natal de 2020 a minha neta vai receber o Sex and the City 47, em versão capa rija?
Evolução do Índice da Liberdade 2002-2009, fonte: Freedom House, citada no Economist de 12 de Janeiro de 2010
por ABM (Cascais, 13 de Janeiro de 2010)
Confesso que nunca levei muito a sério isto de pessoas botarem de sua justiça na internet. Achava e acho alguma piada, mas pouco mais. Não sendo lá muito politicamente activo, gosto de história, de Moçambique, e de economia, e lia o Maschamba, sobre o qual agora não posso falar agora muito em termos de elogio senão lá vem o nosso Senador dizer que eu agora faço parte da conspiração maschambiana e que fica mal elogiar a casa.
Hoje há blogues para tudo e sobre tudo, desde sobre cuidar de rosas até sobre culinária regional. E nós aqui gostamos de falar de Portugal e Moçambique e o resto que nos dá na cabeça. Faz parte da riqueza da internet.
Mas há lugares onde a história é bem diferente, onde ter um blogue que fala de assuntos da vida desses lugares é estar na crista do combate por valores bem mais elevados do que o mero exercitar dos musculozinhos dentro da cabeça lá em cima enquanto se beberica um café com leite depois do jantar.
Wael Abbas é um homem que escreve um blogue sobre direitos humanos no Egipto. Com trinta e cinco anos de idade, ele não tem emprego daqueles que dá dinheiro, é solteiro e vive no Cairo em casa dos pais. Do que entendi, as suas únicas posses no mundo são um velho computador num quarto em casa dos pais e o seu blogue, onde ele, mais ou menos como o comum cidadão na maior parte da União Europeia, critica o governo do seu país e denuncia aquelas irregularidades próprias de regimes autoritários – violência, violações dos direitos humanos, abusos das autoridades, nepotismo ao mais alto nível, negociatas, etc.
Ontem e hoje, o serviço internacional da BBC transmitiu e re-transmitiu uma interessante entrevista (no programa Hardtalk) em que a magnífica Zeinad Badawi entrevistou Wael Abbas.
O Egipto faz parte daquela região efervescente a que chamamos o “Médio Oriente”. Desde que Anwar Sadat foi assassinado numa parada em 1979, reputadamente como vingança de ter feito um acordo de paz com Israel, o poder tem sido detido pelo seu vice-presidente, Mubarak.
Em Setembro de 2004 visitei o Egipto por duas semanas, o que incluiu um cruzeiro de uma semana pelo Nilo abaixo num daqueles paquetes delapidados dos tempos da Agatha Christie, cheios de velhotas inglesas reformadas que também se pareciam todas com a Agatha Christie, e umas visitas oportunas aos principais monumentos. Nas visitas programadas aos túmulos, que eram em geral às 4 da manhã por causa do calor, ficava na minha suite a dormir, o ar-condicionado no máximo enquanto as velhotas iam de expedição para os confins do deserto. Portanto a rainha Nefertiti vai ter que esperar até uma futura oportunidade.
Tirando a curiosa beleza da paisagem – invariavelmente sempre a menos de 5 minutos do majestoso rio Nilo – e as particularidades dos inenarráveis e milenares monumentos do antigo Egipto, achei o calor impressionante, a gente muita e muito pobre e o ambiente um pouco…controlado demais.
O Egipto é uma democracia um pouco como era a do Portugal de Salazar e de Caetano. Quase tudo é governo, tem o que o Fernando Lima chama (no contexto moçambicano) um “Partidão” daqueles mesmo grandes, tropas por todos os lados (lá se a tropa e a polícia não dá cabo de nós, dão os radicais islâmicos), cartazes gigantes com aquelas frases feitas de regime, fotos gigantescas do presidente com aqueles rejuvenescedores retoques cor de rosa nos bochechas e nos olhos, dando-lhe aquele ar de movie star made in Bollywood, e até têm um enorme museu sobre a Grande Vitória contra Israel na Guerra dos Seis dias em 1967” – que, se não me engano, perderam, contrariamente ao que dizia, em sete páginas, a revista de bordo da Air Egypt.
Tirando o Cairo, que é enorme e cosmopolita e que tem a sua Burguesia Residente, em média aquilo anda um bocado parado e parece que o negócio é o turismo, as negociatas e o import/export (hum, pensando bem nisso muito parecido com Portugal). Têm mesquitas como Portugal tem igrejas, só que do alto dos minaretes (alguns com inexplicáveis luzes néon que brilham na noite) têm uns gigantes alti-falantes que, não sei quantas vezes por dia fazem umas invocações à oração de tal maneira que acordam um morto. Especialmente a invocação das 4 da manhã.
Mas, apesar de eu não saber ler uma palavra de árabe, percebe-se que a informação ali é mais controlada que o dinheiro no banco. Fica-se com a impressão de que há uma linha oficial de discurso, e tudo o que sai fora disso é mais ou menos visto como hostil ao Estado, a Deus e ao Povo.
É neste contexto que Wael Abbas publica os seus textos num bloguezinho.
Que já chegou ao um milhão de visitantes.
Para além de falar de sexo, de religião e de política, esta numa óptica claramente crítica ao regime do Senhor Mubarak, o Senhor Wael sente que o que diz o seu blogue é, para além de um espaço de sanidade no que parece ser um mundo de loucos, um rasgo de consciência e de respeito pelos direitos do seu povo.
Talvez por isso, segundo ele, tem sido alvo da mais estapafúrdia perseguição por parte dos seus críticos, que incluem praticamente todo o estado egípcio e os seus afins.
O Wael diz que dorme em paz à noite.
Admito. Mas nestas circunstâncias, talvez fosse boa ideia fazê-lo com um olho aberto.
Como ele, há outros em países com contextos bem mais severos, como na China Inc, no Tibete, no Irão, Coreia do Norte, etc, onde escrever num blogue não é o exercício leve que aqui se pode crer que seja.
A todos, presto aqui a minha humilde homenagem.
E desta vez até alimento a vaga esperança de que os meus camaradas Senador e Baronesa assinem por baixo.
Para variar.
Para o exmo leitor ver a cara de Wael e um clip de três minutos da excelente entrevista, prima aqui.
[Marcello Caetano ovacionado no estádio de Alvalade, num Sporting-Benfica, no final de Março de 1974. Fotografia copiada do Dias Que Voam]
O bom de ter um blog colectivo é poder entrar em polémica interna (já que para a externa isto “foi chão que deu milho” …). Vem isto a propósito do ditirambo do ABM“The best of maschamba” e respectivos comentários. Onde há muita coisa com que discordo. E que me apetece aqui realçar pois ultrapassam a questão abordada.
1. O texto do ABM refere-se ao livro “Caderno de Memórias Coloniais“, de Isabela Figueiredo, autora do Novo Mundo (e anteriormente do O Mundo Perfeito). Ainda não li o livro em causa – soube da sua edição através do Francisco José Viegas e li a crítica de Eduardo Pitta, opiniões literárias que muito prezo, mas ainda não o comprei. Há alguns anos li o O Mundo Perfeito e fui, progressivamente, abandonando o seu convívio. Meu gosto, apenas. Entendera o conteúdo, cansei-me da escrita. Coisa normal que não tem que ser nem adjectivada nem explicada. Como é óbvio sem ter lido o livro, tendo uma longínqua memória de alguns textos (os quais, aliás, coligidos – e julgo que aumentados – em livro até poderão saber-me diferente) e agora apenas com algumas citações desgarradas, seja no Da Literatura seja no Jugular, procurarei nada dizer sobre o seu conteúdo nem sobre a sua forma.
Mas ocorre-me citar o Francisco José Viegas: “Isabela Figueiredo, neste livro, fornece uma das imagens possíveis, explosiva, comovente, em chamas. É bom ver que, finalmente, se pode falar livremente sobre África.”. É disso que se trata. Nos últimos tempos do ma-schamba por várias vezes o trio teclista e alguns dos prezados comentadores residentes temos falado do interesse, da necessidade, em produzir e recolher as memórias do período colonial. Nesse sentido não há as “memórias correctas”. A cada um as suas. Que se queiram assumir como absolutas, correctas, é inadmissível. Que as queiram assumir como inaceitáveis, é inaceitável. Assim a insurreição diante do livro, ainda por cima assente numa pequena nota crítica de Fernanda Câncio, parece-me algo apressada (vamos lá a ler o livro) e, fundamentalmente, em contra-corrente com o que, no meio das nossas divergências, aqui temos vindo a defender.
O ABM e comentadores acusam a autora de ser jovem quando saiu de Moçambique, o que invalidará as memórias. Ora o livro não é um texto histórico, factual. Nesse âmbito que interessa, ou seja o em que é que menoriza, que tenha ela saído jovem de Moçambique? Recordo uma outra bloguista que jovem saíu de Moçambique, e cujo livro memorialista não levantou essa questão: Isabella Oliveira, do Chuinga.
2. A questão de fundo parece-me ser de fácil identificação: a autora invoca o racismo dos colonos portugueses. Discutir a forma como o faz, repito-me, exigirá ler o livro (ou mergulhar nos seus blogs). Mas a questão fundamental não é essa: a questão relevante é a de auto-inteligibilidade, de auto-compreensão, no fundo a da construção das memórias de cada um. Dos que conheço (e dos que leio) a esmagadora maioria dos portugueses que viveram o período colonial em África assentam a sua percepção desse real numa tríade, mais ou menos difusa: teórica - a de uma simpática particularidade miscigenadora portuguesa (um digest de Gilberto Freyre, reavivado pela intelligentsia socialista lusófona do fim do milénio, profundamente herdeira do republicanismo colonial); histórica - a da inexistência de um verdadeiro racismo, ou de um racismo violento, no sistema colonial português (percepções assentes no memorialismo sobre as interacções infantis, juvenis, domésticas, sexuais, até escolares, mas nunca sistémicas); política – as ditaduras subsequentes às independências foram piores do que o colonialismo (concepção sempre recorrendo à quantificação do mal).
Apontar(-lhes) que o extraordinário mas datado trabalho de Freyre teve evoluções ou até propor(-lhes) que era acima de tudo um discurso afirmativo da superioridade civilizacional (e portanto do necessário primado na cena americana e mundial) do Brasil sobre os EUA? Não colhe. Afirmar(-lhes) que as ditaduras de Luís Cabral, de Agostinho Neto, a socioeconomia de guerra de Eduardo dos Santos, o totalitarismo de Samora Machel não são comparáveis, em termos de regime, da sua natureza, das suas constituintes, com o colonialismo? Não colhe. Afirmar(-lhes) que o regime colonial era racista, no seu sistema, na sua essência, e que um regime e um sistema só vivem pelos seus agentes, pelos seus indivíduos, ainda que estes diversificados na sua heterogeneidade individual e contextual? Nem (lhes) interessa.
Continuo a insistir. É importante ouvir a memória do tempo colonizado. A dos colonizadores, a dos colonos, a dos colonizados. Todos eles, na sua multiplicidade, na sua diferença, as constroem. Com resultados muito diversos.
3. O que eu concordo, e muito, é na inadmissibilidade, tantas vezes explícita e muitas outras implícita, de traçar um corte na sociedade portuguesa de então: a racista (fascista) colona, a longínqua oprimida metropolitana. Algo encetado logo no 1974, no preconceito português tardo-metropolitano contra os “retornados” e ainda recorrente. Está aí em cima, e não apenas para provocar, a fotografia de 31 de Março de 1974. Marcello ovacionado pelo povo de Lisboa. Não para negar, pura e simplesmente, a adesão do povo português à democracia e à paz (ou à paz e à democracia, inversão que o “fernãolopismo” encomiástico nunca admite). Mas para a matizar, complexificar.
E também na inadmissibilidade, porque desadequação, de entender “racismo” como uma universalidade e uma homogeneidade de práticas e concepções, seja in illo tempore seja nos tempos actuais. Muito menos como se uma “condição nacional”, um “pecado original particular”. A autora percorre esse caminho? (algumas citações deixam-no entrever). Simplifica o seu olhar, empobrece-o? Talvez assim seja, mas isso será coisa a discutir depois de lida. E reconhecendo que o seu interesse lhe vem exactamente da sua subjectividade, que extremada seja, e não apenas da sua factualidade – e com isto não nego o interesse de memórias assentes em factos, documentos mais literais. Apenas a elas não me restrinjo.
4. A este propósito o ABM critica a edição em livro de textos de blogs, com isso ironiza. Pois eu, pelo contrário, acho muito bem, nada tenho contra livros, nada tenho contra blogs. Nada tenho contra livros que geram blogs, nem blogs que geram livros. Há blogs e livros que são uma merda, outros nem tanto. Alguns são muito bons. E até já saíram livros imortais (blogs não conheço). Eu por acaso gostava de ter tido um livrito com textos do ma-schamba, até lhe dei um título: “Ao Balcão da Cantina“. Para oferecer aos amigos no Natal, para dar aos meus pais e restante família. Tudo autografado “com apreço, com amor, com amizade, com reconhecimento e gratidão, etc. e tal”, conforme os casos. Mas não pegou, paciência. Quando houver um mp3 para livros talvez aconteça.
5. A comentadora Sabine tem toda a razão – muito do que o ABM critica está espetado em textos antigos meus aqui metidos. É esta a piada de ter um blog colectivo que não é um instrumento político (ou de outra qualquer índole). Somos amigos que não concordamos em muita coisa. E partilhamos um blog (há um convidado que ainda não respondeu – e que grande reforço que ele seria/á?, há dois putativos colaboradores que estão com vergonha, ou enfadados?, se calhar até chegará mais gente, a ver vamos).
6. Ainda a este propósito o companheiro Carlos Gil foi colocar este texto no Jugular e acusa Fernanda Câncio de ter censurado essa inserção. Dois pontos: a) discordo completamente que se possa afirmar censura. Há anos que para aí pus qualquer coisa como ”o blog é a minha casa e só entra quem eu quero“. Isto dos blogs (mesmo um blog como o Jugular, que tem uma dimensão política-pública – eu acho-o um instrumento) não são orgãos de comunicação social. Assim sendo têm outras obrigações, outras exigências, outra “deontologia” (metaforicamente falando, claro). E neste registo seleccionar textos, seleccionar comentários é perfeitamente legítimo, normal, admissível. Nós aqui não o fazemos (mas também só temos comentadores amigos – o que deriva, é a minha opinião, do tom do blog. E da sua modesta dimensão quantitativa, claro), mas compreendo perfeitamente que isso seja feito alhures. E não só não acho censura como não condeno.
Mais, as razões aduzidas por Fernanda Câncio são aceitáveis. Dela nunca li trabalho algum, nunca a vi na televisão ou escutei na rádio. Li alguns, muitos poucos, textos em blog. Dela apenas ouço o que a vox populi diz (que tem um namorado; que é muito arrogante). Que ela não lhe queira (à tal voz …) ceder demonstra fibra – seria muito mais fácil dizer “sim, senhores e senhoras, sou a tal, mas vamos passar à frente” e a gente passado algum tempo nem ligava ao facto. Mas era uma cedência, a mulher acha que não temos nada a ver com isso e prefere manter o bruaáá sobre a sua vida afectiva do que ceder. Aqui entre nós só lhe fica bem. Apesar dos (meus) pesares … que são muitos. Ou seja, só isso é que lhe fica bem, qu’isto não está para salamaleques com os aparelhos socialistas, seus apaniguados, coniventes e (infelizmente, muito infelizmente) com os seus recém-cooptados. Ou por outra, nada me moveu contra a mulher de Bettino Craxi. Mas nunca aceitei que Mário Soares lhe fosse dar um abraço. Nem que Jorge Sampaio fosse abraçar Abílio Curto, desconhecendo até se este foi ou é casado. Ambos abraços em registos oficiais, nunca esquecer. O resto é nada. Ou, vendo bem, é tudo o que se vai vendo no meu país. Mas, na realidade, isto já nada tem a ver com o livro de Isabela Figueiredo.
Fiz ontem um post a queixar-me da chuva invernosa que lá fora caía e que me obstruía os pensamentos. Hoje, dois comentários juntaram-se e inspiraram-me para o que aqui fica. Ahhh (digo eu em suspiro deliciado) o Bom nunca perde qualidade!
Se eu mandasse no tempo, o Inverno eram duas semanas com neve para brincadeiras e para todos conhecermos o conforto de um chocolate quente à beira de uma lareira com cheiro de lenha. E chegava e acabava-se o frio.
Dizem-nos que havemos de arder no Inferno, mas no meu imaginário o Inferno é um mar de gelo e não de fogo. Um gelo que nem me permite pensar!
Chove lá fora e cá dentro, na minha cabeça, uma vez e outra, num mantra perpétuo, só ouço os velhinhos Supertramp. E porque mais nada me ocorre, mais vale então descarregá-los aqui….
Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.
Que não li.
Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.
Vamos por partes.
Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.
Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.
Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.
No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.
Ou ignora-se.
Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.
E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.
Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.
A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.
Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.
Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.
O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.
Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.
Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.
Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.
O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.
Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.
Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.
Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.
O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.
Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.
E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.
Vão à merda.
Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.
Olha lá, um billion em inglês é quanto em português? Um bilião, um milhar de milhão ou um milhão de milhões?, pergunta-me a voz aflita do outro lado do fio telefónico. Numa tentativa de dissipar a confusão que me invadia perguntei hesitante – Já foste ao google? Já, mas não ajuda! vem a resposta pronta e ainda mais aflita.
Aviso já que eu, que até dou opiniões sobre assuntos que desconheço quase na totalidade, não gosto de não saber. E ainda gosto menos de o admitir! Digo então do alto da minha prosápia, Espera aí que já te ligo; agora assim de repente, não me lembro. Pouso o telefone e ataco furiosamente o teclado do computador para ver se consigo finalmente clarificar o que tem andado tão nebuloso há já longos anos. Esta dúvida que me chegou via Marconi não é nova; há mais de uma década que me debato com ela e tinha somente uma vaga ideia de que significava coisas diferentes mais ou menos indiscriminadamente.
E fica aqui já revelada uma das minhas muitas idiossincrasias – não gosto de não saber, mas co-habito muito bem com a dúvida. Em minha defesa digo, porém, que para quem como eu tem dificuldade em conceber quantidades, a enormidade destas ordens de grandeza pouco significa. Quero eu dizer tanto não consigo conceber a grandeza de um milhar de milhão como a de um milhão de milhões. Enfim, coisas de menina …
Finalmente hoje percebi que não estava sozinha! Porque na realidade ninguém parece saber muito bem de que falamos quando encontramos um número expresso em billions. Senão vejamos:
Nos Estados Unidos, no Brasil e noutros países americanos (não especificados) um billion são mil milhões, isto é, um milhar de milhão – um 1 com 9 zeros
Mas em Portugal, o billion é um milhão de milhões – um 1 com 12 zeros
Ao que nós na Europa chamamos bilião, chamam os americanos (e provavelmente o Brasil e os tais países americanos por designar) um trilião – um 1 com não sei quantos zeros, mas devem ser muitos
Na Europa Ocidental, até 1948, a palavra bilião significava indiscriminadamente milhar de milhão e milhão de milhões (pelos vistos também não estou sozinha na dificuldade em conceber ordens desta grandeza!)
As línguas francesa, inglesa, italiana, alemã e holandesa, para acabar com esta confusão, inventaram mesmo uma palavra para designar o milhar de milhão – o miliard em francês e inglês e as respectivas variações nas outras línguas. Portugal aparentemente optou por não adoptar este conceito, pelo que se percebe agora talvez melhor os buracos nos orçamentos das obras, do Estado e noutros documentos económico-financeiros
Há ainda quem use o milhar de milhão e o milhão de milhões como equivalente ao billion americano, consoante se use a escala curta ou a escala comprida. Isto é, se a fonte do número não avisar que escala está a usar, ou de que país é oriunda, a gente pode interpretar como quiser.
Acrescendo a esta confusão milionária, temos ainda os diferentes sistemas de medição. Há pouco tempo quis comprar um suporte para o laptop, para poder trabalhar com ele no colo. Pergunta-me o vendedor com um ar entendido e eficiente E de quantas polegadas deseja? Ah, isto vende-se ao metro? arremesso eu em tentativa de humor para disfarçar a minha ignorância. Temos de 12, 13, 15 e 17 polegadas, responde ele sem sorrir. Ahhh, digo eu com cara de loura burra (geralmente resulta! Não percebo o fascínio pelas mulheres patetas, mas às vezes dá um jeitão) e isso é quanto em centímetros? Bem, apruma-se a postura do vendedor, isso já não sei! Acaba-se-me a presunção de burrice e riposto Mas pode saber não pode? Não tem ligação à internet aqui? Indica-me, com um breve aceno de cabeça, os computadores ligados à rede num dos lados da loja. E eu armada em exigente Então é só ir ver, não é? Do que é que está à espera? E lá foi ele, relutante (de certeza que não ganha à comissão!) indagar ao google os equivalentes métricos das polegadas (2.54 cm).
Mas se pensam os leitores maschambianos que estas coisas só se passam comigo em coisas triviais, enganam-se! Em 1999, uma sonda da NASA enviada a Marte despenhou-se porque uma das tabelas de dados para um componente essencial da sonda tinha os valores indicados em newtons (a unidade métrica de força), mas foram interpretados em libras-força (a unidade inglesa equivalente). O erro foi detectado demasiado tarde; ainda tentaram corrigi-lo, mas a sonda acabou por se despenhar, causando billions de prejuízos e um embaraço sem preço. Enfim, um verdadeiro momento Mastercard – Valor da sonda a Marte: 125 milhões de dólares. Queda da sonda em Marte: x billions de dólares. Embaraço causado: priceless!
As malas prontas e fechadas; vistos obtidos; bilhetes, confere!; passaportes, confere!; check-in on-line, já está!; beijos de boas-festas trocados com os que ficam; jantar de peru em antecipação familiar, comido e apreciado; mãe com cara de angina de peito, que usa sempre antes das partidas; e eu em jeito apressado alinhavo aqui uns votos festivos para os colegas maschambeiros e leitores maschambianos. Porque o destino é a Índia e porque estamos em tempos de globalização, a música que aqui deixo parece-me adequada: tema inglês ao ritmo indiano deixado por uma portuguesa num blog que se quer africano. Dificilmente poderia ser melhor!
No facebook é frenética a utilização da “aplicação” “Causas”. São às dúzias, o elogio dos percebes, a salvação dos golfinhos, a alimentação das crianças africanas, o apoio às ONG’s (normalmente católicas) e aos departamentos mais “descentralizados” da ONU, e até a vigorosos grupos anti-doenças cancerosas e respectivas metástases … Ser cidadão de corpo inteiro está agora ao nosso alcance, em troca de algumas dezenas de clics. É a cidadania-clic.
Acho muito bem. Existindo as redes sociais para prover à boa disposição é normal que a esta acedamos por via da solidariedade virtual. Nem acho inútil toda esta clicadela global – pois será que tudo no mundo terá que ser “útil”? Nem tampouco vejo a via clicante como perfídia alienante, afastando as pessoas da efectiva acção. Pois não creio que na ausência do cliquismo pró-boascausas as pessoas fossem actuar de um qualquer outro modo. Como tal, tudo bem quanto a esta “Age of Clic“!
Ainda assim há dias por lá resmunguei, cansado com os avisos para que apelasse ao presidente dos EUA para apoiar a causa tibetana durante a sua recente visita à China. Acontece que sou português, não tenho que andar a pedir ao presidente americano para tutelar as “minhas” causas e, muito menos, torná-lo meu representante. Nada tenho contra Obama – homem de mérito, bem acolitado pelos seus “directores de fé” (ainda que alguns um pouco racistas, e logo contra os brancos para meu azar), bom pai (as duas meninas lindas e muito bem educadas, discursando com qualidade na conferência democrática, uma profundidade política assinalável, bem para além do teleponto). E ainda por cima mulato – uma fantástica qualidade moral, intelectual e política, ainda que me pareça que o próximo presidente americano venha a ser um pouco mais pálino, coisa que não me encanta, digo-o. Nada contra Obama, repito, nem contra o seu país (pátria deste homem). Apenas não é o meu presidente, nem meu representante, coisa que a internetização multiplicada pela obamização tem feito esquecer a muito boa gente (ainda que haja por aí muita “pública obamice, privada ahmadinejadice“).
Pois logo essa minha recusa à cidadania-clic, um atrevimento “careta” vs “The Age of Clic”, implicou a convocatória. Somos cidadões do mundo (desta aldeia global, perdão, desta rede social), temos que agir como tal. A China é colonialista? Ocupa o Tibete? Cliquemos ao “nosso” presidente, “estamos juntos”. Recuso-me? Estou em défice.
Nas coisas da nossa freguesia, dos nossos representantes? Aí já não é preciso ser cidadão do mundo, utente da rede social, aliás eles são tão pouco influentes, para quê incomodá-los, incomodarmo-nos? A nossa junta de freguesia apoia declaradamente a ocupação do Tibete nosso vizinho? Não ligamos. Aliás, não clicamos.
Apenas votamos. Não no Obama. Votamos nestes nossos. E depois, todos lampeiros, vamos clicar alhures. Sem perceber que em cada clic menos somos.
Nunca o conheci pessoalmente mas retenho a imagem de alguém que Tomou Partido. Nisso explicitando um homem digno, de valores. Nesta coisa do bloguismo tornou-se-me companhia habitual, sempre o acompanhei, visível bloguista apaixonado. Agora a inesperada notícia da sua morte. Dolorosamente precoce. Jorge Ferreira foi, com toda a certeza, um homem que valeu.
(por AL fortemente apoiada em Stephen Francis & Rico, 15 Nov 2009) -
Penso que a tira da Madam & Eve que aqui se reproduz ilustra com o habitual humor mordaz o que ultimamente se tem sido discutido aqui na Maschamba sobre histórias e memórias. Que a proximidade a realidades intensamente vividas poderá fazer-nos bons contadores de histórias, mas não aguça necessariamente a análise crítica dessas mesmas vivências…
Não sei bem porquê, esta frase tem sido muito citada nos blogues portugueses e brasileiros estes dias.
Hum. Deve ser sindroma pós-eleitoral. Mas não sei se no Brasil houve eleições recentemente. Em Portugal definitivamente houve (em Moçambique também e é tudo o que se me oferece dizer) e já estão todos positivamente engasgados em escândalos e psico-drama do mais dramático. Qualquer coisa sobre escutas telefónicas, que agora andam muito na moda, tais como a intercepção de e-mails e a sua posterior divulgação por terceiros a quartos, para quintos julgarem e sextos sobre eles deambularem.
Enfim.
Claro que a minha história favorita de Eça – infelizmente falsa – relaciona-se com o episódio em que ele teria reclamado junto da companhia das águas de Lisboa sobre um corte de água, escrevendo uma nota ao seu presidente nos seguintes termos: “Excelentíssimo. Senhor: Vossa Excelência cortou-me a água. Gostaria de cortar algo a Vossa Excelência”.
Na realidade a carta que ele redigiu está aqui e não tinha bem essa simplicidade límpida.
Infelizmente para os visados, o ponto alto da minha semana foi a minha compra de um teclado novo para o computador portátil que utilizo, um daqueles exteriores que se ligam ao computador através de um cabo USB (USB – Universal Serial Bus, ou Autocarro Universal em Série) e que comprei no Staples Office Centre de Cascais City em saldo por 9 euros e 99 cêntimos. O teclado do portátil é lindo e funciona lindamente, mas é um teclado inglês, sem acentos e o cê de cedilha. Para colocar um acento eu tinha que fazer uma tal ginástica de sequência de carregamento de teclas que eu ficava tonto e acabava por errar. Ora para uma audiência selecta como a do Maschamba (por exemplo, tremo só de pensar no que a D. Vera diria se um dia escrevesse com os acentos todos ao contrário) eu tinha que fazer alguma coisa. Ainda pensei em fingir que era um estudante pobre na escola primária e pedir um desses computadores Magalhães com que o governo do Sr. Engenheiro Sócrates quer colocar Portugal na vanguarda do modernismo mas a minha amiga Lurdes Crespinda da Secretaria da Escola Primária disse-me que com 49 anos a coisa pareceria suspeita. Eu ainda tentei convencê-la dizendo “mas há ministros que já fizeram pior do que isso!”. Ao que ela respondeu que se eu fosse ministro que ela também faria, mas que eu não era.
[Joana Pimentel Teixeira na sua elegante residência]
Nas últimas semanas tenho ouvido, por repetidas vezes, amigos e conhecidos resmungarem contra o hábito que se vai generalizando de colocar fotografias de colectivos no facebook, sem qualquer limitação. Logo que alguém mostra uma máquina (ou um telefone) logo surge o enfadado “não vais meter isto no facebook“. Não se trata de ter algo a esconder, é mais um enfado, por que raio toda a gente que tem ligação (“é amigo”) com alguém que tem ligação com este vizinho de bar, restaurante, festa, vai saber que se esteve neste bar, nesta festa, neste restaurante, com quem, como, com que dança ou esgar sorridente. Não é um “direito à privacidade” nem um “direito à intimidade” reclamado, nem chega a tanto. É apenas um cansaço, que partilho totalmente, com a falta de charme que acompanha esta total falta de discrição. Pelo menos isto, quer mostrar aos seus amigos com quem esteve? Se acha isso realmente importante pelo menos tranque o acesso às fotografias apenas para os seus amigos. Tenho a decência mínima de cuidar das imagens que usa. É o mínimo “B”, como se diz quanto ao acesso às competições desportivas.
Por tanto ter ouvido, e por achar isto uma bimbalhice, pus um desabafo na minha conta facebook. Foi um ai-jesus de irritações: amigos e fb-amigos apareceram a acusar-me de recusar a democracia, de querer impor regras onde elas não existem (nem devem existir, quarentões agora-anarcas mas não antes), mandaram-me ler o Barthes, foi visto como um mariola a querer evitar que as pessoas sejam felizes, etc. e tal. Surpreende-me sempre a incapacidade de compreender os textos, principalmente aqueles curtos, sem arabescos e de vontade explícita, que o sistema de facebook permite.
Para que algum visitante menos constante não pense que isto é sisudez ideológica lembro o apontamento que fiz aquando do meu “cume biográfico”. E para alguns que fazem do FB um sítio porreiro de memorial, com fotos dos bons velhos tempos e dos actuais, e que aparecem agora a resmungar, como são meus amigos mesmo só dá vontade de lhes perguntar – o que é que é tão difícil de entender? Como é que nós, que fomos educados mais ou menos da mesma maneira (aquando éramos “cromos”), ficámos tão diferentes? Ou não ficámos, e é só uma questão de ler devagar e passar a mão sete vezes pelo teclado antes de começar a espingardar?
A 15 de Abril de 2009 deixei aqui: “Em Portugal três eleições neste ano – com efeitos no bloguismo, já e daqui em diante. A uma crescente industrialização bloguística (cada vez mais blogs colectivos, principalmente de jornalistas) soma-se a concentração “capitalista” – suprablogs dedicados à “questão política” (o blog de direita, o blog de esquerda, o blog das eleições, etc.), na prática uma despolitização da política. (…) se até a (…) lhe puxa o pé para a chinela desta forma realmente que grande desatino aí vem no bloguismo lusopolítico. O escarro. Burguês.
É evitá-lo até lá para a quadra natalícia. E então, se ainda houver blogs (S. Twitter o permita), refazer as listas de favoritos.”.
Enfim, estará na altura de reordenar as listas de favoritos. Para constatar que alguns dos velhos estão bem alquebrados por aquela partidite pandémica. Que lhes deixou chagas a teclado aberto.
As mudanças no bloguismo político português têm passado, nos últimos anos, pela entrada em blogocena de políticos mais-ou-menos estabelecidos e, em particular, de jornalistas (muito) alinhados. Mas fundamentalmente pelo facto de imprensa e partidos optarem pelo recrutamento nas hostes bloguistas.
Recente exemplo desse recrutamento, da voluptuosa atracção que o poder exerce sobre os bloguistas, é este caso de LNT [do A Barbearia do Senhor Luís (entre outros blogs)], que se apresta a assumir poderes na edilidade lisboeta. E aqui narra a história da sua ascensão.
Aqui vejo alusão ao texto do conhecido economista (e colunista) João César das Neves no Diário de Notícias: “Amizades Virtuais”. Uma série de generalidades, algo confusas e confusionistas, sobre a “inverdade” da “amizade” electrónica. Nada demais, equivalente em superficialidade a tanto do que se lê em blogs ou redes sociais, só que neste caso está no jornal (electrónico). Mas há mais.
A mim surpreende-me mesmo é que não pensando ainda por cima escreve e lhe pagam por isso. E, até, lhe pedem para escrever. Parvos inscritos nas redes sociais jornalísticas, não amigos mas sim “caros amigos”, “leitores”, do “senhor professor”. Mesmo que o docente não pense. Ou pense pouco.
Tal como a alguns leitores do ma-schamba durante o último mês tem-me sido muito difícil, e intermitente, o acesso ao blog – a TVCabo informa-me que o problema é do servidor (o tal apache), sendo a empresa estranha ao assunto. Acredito.
Com isso tenho clicado (e teclado) mais no Facebook, uma “rede social”, coisa agora muito em voga – na última semana a boa da Catarina Campos chegou à capa do vetusto Expresso a esse propósito.
É interessante ver o que ali se passa. Há quem o use como caixa de ressonância dos seus twitters – um irritante uso que apela ao já célebre botão “ocultar”, e que me aparece como a mais descarada das más-educações.
Há ainda quem o use como trampolim dos blogs – cada post metido cada facebookada! Não seria isso desagradável não fosse o caso dos posts referirem quase sempre o panorama événementielle do bruáá eleitoraliço português, basto cansativo ao comum do mortal, e ainda mais ao bloguista ali refugiado. Ainda para mais porque o Facebook tem um sistema de actualizações de blogs que permite a leitura voluntária de blogs, coisa aprazível e nada indigna, donde acarinhável.
Mas há quem use o Facebook de modo muito agradável, ou seja diverso do trampolim speaker’s corner bloguístico ao qual estamos (os blogadores) habituados. São os reencontros, as festas programadas (trampolim sim mas de convívios), o “lembras-te / lembram-se?” nas suas diversas manifestações, o “tomem lá atenção, que vou fazer isto ou vai acontecer isto”, coisas para lembrar no futuro. Ou seja, há gente que é capaz de ter diversos registos nas formas de “falar” com os outros.
Mas acima de tudo o que ali gosto é da capacidade de partilharmos o garimpo: “encontrei isto”, sobre nós, “vejam lá!”. Um desprendimento que não abunda no púlpito blogo-twiterístico. Deixo aqui alguns exemplos fantásticos desse partilhar arqueológico, desse comunicar, muito menos cagão-arrogante, perdão, menos doutoral – a gente ali é (somos) mais simples. Um que “piquei” do bom do Mário de Carvalho (também fan do Tofinho), outros que encontrei na troca de cromos com os “amigos”, algo encetado com o Francisco Valente.
[Saul Bellow, Uma Recordação Minha, Teorema, 2005 (2001), tradução de Rui Zink]
“Vastas organizações existem com o simples objectivo de captar a nossa atenção. Elas tecem planos engenhosos. Mordem-nos com dentadas que não duram mais do que alguns segundos. A nossa consciência é o seu mercado – é aí que elas se banqueteiam. Pensemos na consciência como um território recentemente aberta à colonização e à exploração ...” (10)
“O leitor moderno (ou espectador, ou ouvinte; vamos incluir toda a gente) está perigosamente sobrecarregado. A sua atenção é, para usar o jargão actual, “alvo” de forças poderosas. Detestaria ter de fazer uma lista destas forças, mas suponho que algumas terão de ser mencionadas. Muito bem, então: os gigantes das indústrias farmacêutica e automóvel, a TV Cabo, os políticos, os artistas, os académicos, os líderes de opinião, os vídeos porno, as Tartarugas Ninja, etc. A lista é entediante porque é um inventário do que é posto nas nossas cabeças dia sim, dia não. A nossa mente é uma arena, um campo de treino para toda a espécie de empresas, que a usam a seu bel-prazer. Certo, nós temos a liberdade de pensar os nossos próprios pensamentos, mas as nossas ideias independentes, admitindo que o sejam, têm de conviver com milhares de ideias e noções inculcadas por professores influentes ou propagadas por “líderes de opinião”, publicistas, comunicadores, colunistas, locutores, etc. Espíritos lúcidos (educados) são menos facilmente submersos por estas nuvens de gás opiniático. Mas ninguém está seguro.” (8-9)
“Em todos os campos somos forçados a requerer uma instrução especial, o auxílio de especialistas que nos ajudem a interpretar os factos aparentes com que somos empanturrados. Esta é, só em si, uma ocupação a tempo inteiro.” (9)
[Norbert Elias, A Condição Humana, Lisboa, Difel, 1991 (1985)]
“Por vezes é útil, para compreender melhor as questões da actualidade, afastarmo-nos delas em pensamento para depois, lentamente, a elas regressarmos. Compreendêmo-las, então, melhor. Pois quem se embrenha apenas nas questões do momento, quem nunca olha para além delas, é praticamente cego.” (13)