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Bilal e a alterglobalização: Le Vaisseau de Pierre

Um peculiar Verão, o dos bruxelenses. Famílias em vestes encaloradas, mangas curtas e calções, nós de camisolas e chapéus-de-chuva, nariz pingando. Unidos no parque, um festival de teatro infantil, mímicos, cantores e saltimbancos. Um número óptimo, um grupo saltimbanco, figuras monstruosas, em histriónico bailado pop-rock bilaniano puro. O delírio, um pouco assustado, dos miudos. E sorrisos progenitores. Também protectores.

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Logo mergulho nas bdrias. Recompro este “Le Vaisseau de Pierre” (Les Humanoides Associès, 2003), os inícios de Bilal (e Christin) lá em 1976. Há quanto tempo não o lia? E agora a fazer-me lembrar que foi Bilal a trazer a insuportável herança gótica (Druillet e quejandos) para a respeitabilidade do “bom-gosto” (oops).

E a delícia ideológica: aqui uma utopia anti-capitalista pura. Confrontando-se com a instalação de um gigantesco complexo turístico a aldeia piscatória e todos os seus ancestrais milenares

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(inclusive os monstruosos seres iniciais, raízes de menires, sempre incógnitos), acantonados no velho castelo (nas cercanias da anta) à guarda do merliniano cego, são transferidos, pedra a pedra, espírito a espírito, para uma América Latina (terra de indígenas que tocam flautas), regressando à paz equilibrada, ecológica, espiritual.

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Não ocorreu ao duo Bilal/Christin de então que o castelo (e a anta?), a aldeia edificada, e toda a sua gente viva e passada, fossem uma agressão gigantesca aos monstruosos seres e milenares ancestrais lá nas terras dos actuais flautistas? E ao ambiente dos actuais?

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Tal e qual como o novo hotel lá na terra afinal pré-bíblica deles?

Não se trata só de afirmar uma ontologia benéfica ao “bom povo” e suas raízes – um romantismo medievalista um pouco mais exótico, projectando o desconhecimento da história (não era o castelo o sítio dos enrugados e engordados donos da corveia e do direito de pernada?). Trata-se também de lhe associar, implicitamente, a ideia da tábua rasa exo-europeia.

Os primórdios da alterglobalização na sua vertente anti-industrialista, anti-capitalista.

Em suma? Diverti-me imenso no bailado bilaniano. E adorei reler o mestre. Que se lixem as interpretações. Eunucas.

Grande sim,

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mas não um Vassili Alexandrovitch Tchevtchenko.

[Enki Bilal, Pierre Christin, A Caçada, Meribérica, 1987 (1983!!!)]

Cinema Europeu cá

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Pois, Festival de cinema da União Europeia (“dia da Europa” oblige) no Centro Franco-Moçambicano. Pois, coisas a ver. Mas a não perder este, dia 10, terça, 17h e 20.30h.

Partie de Chasse, de Bilal

Prever (e até planear) o futuro é um desejo de quase todos, metafísicos, filósofos ou cientistas (a acreditar nesta tripartição). Desejo que de tão inalcançado se vai traduzindo em impossibilidade.Prova que é possível antever e que se o pode fazer de modo acurado e belissimo é este livro: Bilal e Christin em 1983, a perceberem que tudo ia mudar.