[Hugo Pratt, Mino Milani, Sandokan. Le Tigre de Malaisie, Casterman, 2009]
O Sandokan de Pratt foi-me uma bela surpresa pois desconhecia a sua existência. Lamentavelmente inacabado, pois obra abandonada e perdidos os originais no início da década 1970 quando parira Pratt a “Balada do Mar Salgado” e depois se metera a dar vida ao Corto pelos quatros cantos do seu mundo. Ficou assim interrompido este Sandokan, cujos traço e tom são evidentemente dessa época, gloriosa. Uma pena, pois quero acreditar que se apenas interrompida a obra teria sido terminada em tempos posteriores, tão adiantada se apresentava. Aliás, a história do desaparecimento das pranchas e sua posterior descoberta, já após à morte do autor, narrada na introdução do livro, parece excessivamente rocambolesca. De qualquer forma mostra o estatuto de “arte menor” que a BD teria ainda nesses tempos - 40 e tal pranchas de Pratt, então já um autor de renome, perdidas assim nos escombros de uma revista?
Este Sandokan é espantoso. Vigorosamente orientalizado, novidade então nas representações das célebres aventuras, sendo a obra anterior à série televisiva infanto-juvenil que viria a popularizar o herói sob o fenotipo de Kabir Bedi, mas a questão vai bem para além do mero aspecto. Em Pratt Sandokan, o supra-sumo do herói romântico aventureiro de Salgari, aparece como um consciente resistente anti-colonial – e não o era também Cranio, pacientemente sob as ordens do “Monge” aguardando a sua hora, e a do seu pan-povo, na “Balada do Mar Salgado”,
Extrema ainda a representação de Yanez, o português que Salgari postou junto a Sandokan, seu amigo dilecto – e não deixa de ser significante que em finais de XIX para Salgari o mais “transitável” dos europeus fosse um português. Aqui se Yanez aparece com os traços fisionómicos que em Pratt são os do seu Corto (e dele próprio), tem ainda a sua portugalidade extremada – onde foi ele representado como aqui?
Um livro que caminhava para fabuloso. E assim ficou.
Desde o início da minha puberdade, com o icónico Jonathan na Tintin semanal, que Cosey me acompanha – uma companhia ao ritmo das suas narrativas, lentas, pausadas, vivendo no espaço longo. Talvez por isso só agora compro e leio este Orchidea (Witloof, 2003 [1999]). Para ser surpreendido nisto de mais de três décadas depois Cosey continuar a tocar no que mais fundo me passa na vida, anseios, sonhos e medos. Assim mesmo. Isto exactamente no momento – juntos, a mão no ombro. Coincidência? Ou o coseyiano destino?
A comemoração dos cinquenta anos de Astérix e Obélix ["O Aniversário de Astérix e Obélix. Álbum de Ouro"] é mais uma triste vez a confirmação do seu estado de orfandade. Apesar da já provecta idade. Uderzo convoca os resistentes asterixianos que insistem em ler o que vai saindo, uma paixão serôdia que mal vai resistindo às constantes desilusões, já velhas de décadas. E, dizem os serviços de vendas (aka marketing e jornais), vai incrementando as vendas a números nunca alcançados pelos verdadeiros “àlbuns de ouro” (os escritos por Goscinny e, justiça seja feita, alguns dos primeiros que fez a solo), o que deixa adivinhar gentes que chegam a este “asterix” sem nunca terem lido o Astérix.
Desta vez o autor vai ao baú e dele retira várias personagens dos álbuns anteriores, chamadas para ilustrarem a festa de aniversário, uma piscadela de olho aos fiéis. Elas por ali passam, mais ou menos paisagem. De resto nada se passa, pormenores desgarrados, sem qualquer consistência (mesmo um velho texto de 1966 de Goscinny sobre as “férias gaulesas”, uma glosa aos Guias Michelin, é algo menor e aqui surge metido à força). E um conjunto de pastiches, de quadros célebres e situações, apenas para encher vinhetas, sem mesmo humor. Tudo paupérrimo, ao nível dos últimos álbuns ou ainda pior.
É uma tristeza, Uderzo não tem respeito nem por Goscinny nem por ele próprio, nem pelos seus leitores. Pior do que tudo, não tem qualquer respeito pelos indefectíveis gauleses. É pior do que um romano, nem sequer teme a poção mágica.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
No passado domingo, 29 de Novembro, o meu amigo Asterix e o seu “brada” Obelix comemoraram os seus quinquagésimos aniversários. E eu nem uma palavra lhes enviei, uma indesculpável distracção. Mas que não significa menos afecto. Daqui seguem grandes abraços para os dois, com toda a amizade e admiração. E muita gratidão, reconhecido pelo tanto que têm feito por mim nos últimos 41 anos. Verdadeira família, como tenho comprovado nestes últimos dois anos, tão gentis tios da minha Carolina têm sido.
É uma amizade profunda, de convívio sempre querido – ainda que por vezes a vida, essa ditadora, nos afaste um pouco no quotidiano. Mas “estamos juntos“. E estaremos, em particular dentro de algum tempo - pois a eles me juntarei nos próximos meses nessa grande aventura “Asterix no País do Arco-íris“.
Uma acção dupla, em iniciativa conjunta BCI e Instituto Camões, a apresentação dos TOPs 50 de 2008 e 2009 do concurso World Press Cartoon (acesso a informação e aos vencedores). Hoje inaugura-se a dedicada a 2009, na galeria do Instituto Camões (av. Julius Nyerere). Amanhã inaugurar-se-á a relativa a 2008 na Mediateca do BCI (rua Joaquim Lapa). Ambas estarão disponíveis até 12 de Dezembro.
[Nicolas Dumontheuil, Le Landais Volant (1 - Conversation avec un Margouillat), Futuropolis, 2009]
A não perder estas aventuras de um viajante gascão por terras africanas. O desenho é conservador mas o argumento é de uma excelência corrosiva, pontapeando os complexos de culpabilidade europeus. Inteligentemente hilariante.
Momento feliz, naquele à loja Camillo Alves, cruzamento da Mao-Tsé-Tung com a Kim-Il-Sung, trio toponómico hiper-significante, acabo de encontrar esta raridade – em mau estado, é certo, mas a colmatar um desaparecimento: “No Tempo do Farelahi“, o segundo álbum de banda desenhada publicado por João Paulo Borges Coelho, publicado pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, em 1983.
Obra de juventude, narra as campanhas de Mouzinho de Albuquerque no norte de Moçambique, entre a Ilha, seu poiso, e os xeicados suaílizados, focos de resistência à ocupação portuguesa. Para fruir. Também para captar algo da história do país. E do universo ficcional de JPBC, o qual regressa recorrentemente na ficção que produz.
[Goscinny, Uderzo, Asterix. La Zizanie, Dargaud, 1967]
Ela (enquanto ele lhe lê): “Pai, o livro cheira a mil novecentos e qualquer coisa …”
(e ele “hã?!”, a pensar “já?!”, e ela “é velho o livro, vê, o papel cheira a qualquer coisa … estranha” e ele a deixar-se, “hã?!” estupefacto com este já.)
Volume inicial de uma série que já vai no terceiro, premiado em Angouleme 2006 como melhor primeiro álbum. Uma delícia, no desenho e na visão de uma África mundo (algo autobiográfica, a argumentista é uma costamarfinense), sem os clichés miserabilistas ou poéticos habituais quando se narra “áfrica”. A vida de Aya e suas amigas, no seu final da adolescência, em Yopougon, subúrbio de Abidjan em finais de 1970.
Os namoros – literalmente “às escuras” nas bancas deste bazar feito nas noites poético “Hotel das Mil Estrelas” -, as festas de bairro, os muito explícitos jogos de sedução, os “tios” mais-velhos, no atrevimento de recusarem a idade, uma narrativa risonha daquele mundo que é também para além dele.
E as ingenuidades, as estratégias de cada uma, entre a vertigem da festa e a perspicácia em que tantas buscam marido que dali as tire. E Aya na escola com afinco querendo fugir ao futuro “Série C“: “cabeleireiro, costura, caça ao marido“, que lamenta em seu torno. Mas opção própria, apresentada sem puritanismo, quase como mera casmurrice.
Uma absoluta jóia. A acompanhar nos episódios entretanto publicados.
Will Eisner está para além dos adjectivos, mas como falar dele sem os usar? Este Fagin le juif (Delcourt, 2004) é um livro extraordinário. Artisticamente é sumptuoso – poderia ser de outro modo? Sendo a obra um diálogo crítico com “Oliver Twist”, o mundo de Dickens, tão gráfico ele próprio, é eisnerizado de um modo tal que somos brindados com um universo coerente mas que reclama uma dupla paternidade. Enriquecedora. Só por este exemplo máximo do mundo de Eisner o livro é imperdível.
Mas há mais. Eisner reentra em Oliver Twist, convocando o próprio Dickens à liça. E nisso desmonta os preconceitos anti-semitas carregados pelo autor. Pois este, arquétipo da inquietação com a ”questão social”, fonte de tanta denúncia literária, jornalística e filosófica da injustiça social, enredava-se no preconceito prejudicial (passa a aparente redundância) face aos judeus, estigmatizados nesta personagem “Fagin”. Assim demonstrando a hierarquia das preocupações sociais de então. E, como Eisner diz, até pela penetração na literatura infantil que “Oliver Twist” veio a ter (sua desvalorização no senso comum?), assim contribuindo para reprodução continuada de estereótipos racistas. Dickens homem do seu tempo? Não só, pois ele próprio evoluindo a sua concepção, disso consciente, como o mostraram as suas tentativas de retrabalhar a figura de Fagin, o velho judeu, em edições posteriores de Oliver Twist (tentativas infrutíferas, dado o enorme sucesso inicial da obra, obstando à sua substituição). Nisso, porventura, indiciando também alguma mudança à época das concepções sobre judeus nos meios letrados britânicos.
Mas na limpeza que Eisner faz não há traço do mero correctismo. Há um recontar da história, olhando-a de outro modo, olhando os contextos de formação dos indivíduos, não como desculpabilizadores/desresponsabilizadores (o que é isso da “culpa”, da “responsabilidade”?) mas como enquadradores das opções e dos percursos. Assim longe do essencialismo dickensiano (de que a personagem Twist é exemplo máximo), um atender aos contextos, à gente formada nas circunstâncias. Para além do aparente bem e mal. Gente boa e má, não boa ou má.
Óbvio se torna que é também produto (como não o poderia ser?) de uma visão sociologicamente muito mais rica do que a que lhe é um século e meio anterior – assim ficando exemplo de como a leitura racialista, racista, essencialista, é acima de tudo uma leitura ignorante, iletrada, ainda que tantas vezes treslida.
Já tinha referido a minha descoberta de RG, a série de Pierre Dragon e Frederik Peeters, um excelente policial realista, algo sublinhado pelo facto do co-argumentista Pierre Dragon ser pseudónimo (individual?) de um (?) polícia no activo, o que ajudará à consistência do argumento. Agora trouxe o segundo volume RG. Bangkok-Belleville [Outra recensão aqui] (Gallimard, 2008).
Deixo duas ligações para recensões pois enfatizam duas vertentes a elogiar: por um lado uma arte narrativa excelente, pela qual também nos é deixada uma Paris nada estereotipada. Por outro há uma densidade psicológica na galeria dos polícias, bem para além do comum.
Não sei se a série está traduzida em português. Mas se não há público para isto que público haverá para banda desenhada?
É também o peso, em particular das edições de capa dura, que inibe a aquisição e importuna o transporte transcontinental de todo este Ernie Pike (Casterman), de Hugo Pratt e Hector German Oesterheld. Veio o tomo 4 dos cinco que julgo publicados.
Polémica ultrapassada sobre a sua autoria – o reconhecimento do papel autoral de Oesterheld não foi imediato nas edições europeias – fica o importante: pequenas histórias de guerra (a II Mundial, a da Coreia), heróis soldados anónimos, gente que afinal não é tão má como o poderia ser, alguns explorados que não são tão bons como tantos os gostam de pintar. Poesia de paz em caminhos muito únicos. O de haver algo de humano, portanto inesperado, nesses que se encontram em situações limites.
Depois há um interesse suplemantar. A recusa da teleologia daqueles que vêm a obra de Pratt como um caminho para chegar a Corto. Vale por si mesmo.
Ou seja, a exigir novas remessas destas capas duras.
“É verdade que eu provenho de uma família fascista, mas não sinto qualquer incómodo por isso, e nunca o ocultei. E na minha infância, à parte alguns milhares de dissidentes, todos os italianos eram mais ou menos obrigados a aderir ao fascismo, mesmo os sindicatos, para poderem existir, tinham de reclamar-se dele. Por isso eu não vou ter vergonha porque aos sete anos, desfilei na Praça de São Marcos atrás de cem tambores que marcavam a cadência com uma camisa negra e um lenço azul. Não podia então ter consciência da palhaçada da situação. Depois, apercebemo-nos que tínhamos sido manipulados, que alguns de nós tinham morrido para nada. Houve, está claro, quem trocasse a camisa fascista para se tornar “partiggiano” no bom momento, ao passo que aqueles que se bateram com afinco foram muitas vezes mortos, mas sem se renegar.
É fácil dar lições a posteriori, mas nos anos trinta o imperialismo era coisa corrente: o colonialismo inglês aplaudia um filme como Os Três Lanceiros do Bengala e o Império colonial francês achava-se então no apogeu, autocelebrando-se cheio de boa consciência. E para a criança que eu era, o fascismo era uma abertura para o mundo exterior, ajudo-me em particular a cortar o cortão umbilical com a minha mãe. O mundo fascista deu-me a possibilidade de sair da minha família, de ter camaradas, de encontrar raparigas, pois o fascismo, com um objectivo natalista, decidira favorecer as relações entre os jovens dos dois sexos. Eu próprio sou, aliás, um resultado dessas campanhas. Não, eu não chegarei ao ponto de dizer que devo a vida a Mussolini. .
-As suas recordações da guerra perseguem-no?
-Sim. Alguns acontecimentos marcaram-me para sempre. Mas não tenho remorsos. Fui sem querer implicado em situações que me escapavam, e parece-me que a minha atitude foi coerente. Aconteceu-me disparar sobre pessoas, mas há momentos em que se é levado a fazê-lo. (…) Talvez tenha morto alguém, talvez não. Espero que não, mas repito, não sinto arrependimento. Era preciso disparar para manter os ditos inimigos à distância. (…)
Claro que a guerra é um disparte, mas o problema é que por vezes é preciso fazê-la, ou que por vezes nos vemos obrigado a fazê-la. É sempre uma fatalidade e uma má solução.”
- “Cultura ou culturas”, singular ou plural, pois se a sua cultura é singular, é precisamente porque ela é plural (…) ao passo que a maior parte das pessoas só possuem um certo tipo de cultura – cultura universitária, de massas, esotérica, da sua classe social – a sua cultura é a síntese de todas as essas culturas que normalmente se excluem.
- É certo que abordei os tipos de cultura que referiu, e outros mais, como a cultura militar. Essa possibilidade de passar de uma cultura a outra parece-me mais frequente – e talvez mais fácil – nas pessoas que, como eu, são em parte autodidactas. O ideal parece-me consistir em ter professores que nos ensinem as bases, e depois fazermos nós próprios as pesquisas, em total independência relativamente às ideias dominantes nos meios oficiais. Na minha concepção, alguém que seja culto é necessariamente eclético: se apenas conhece o universo cultural a que pertence Kingsor ou aquele a que pertence King Kong, não é verdadeiramente culto.” [201]
Olhando as ideologias modernas. E da liberdade de falar de mulheres::
“- É verdade que sempre tive amigas entre as prostitutas, e esse quadradinho com Esmeralda é uma espécie de homenagem às putas. Penso que teria gostado de Thaís, a amante de Alexandre Magno.” [257]
“Os contactos físicos entre homens nunca me atraíram, mesmo apresentados como expressão de uma cumplicidade viril … aí então, acho uma parvoíce machista. (…) Eu considero a homossexualidade uma variante particular da sexualidade, atestada desde a Antiguidade, e evidentemente o lugar ocupado pela homossexualidade nos mitos e nos heróis da Grécia antiga interessa-me. Penso, por exemplo, na amizade intensa entre Aquiles e Pátroclo, que, dada a mentalidade da época, acompanhava provavelmente uma relação homossexual. E como Aquiles tinha uma escrava favorita, Briseida, podemos imaginar, debaixo da tenda, umas situações interessantes … Pergunto-me também o que um homem invulnerável como Aquiles poderia sentir sexualmente. Talvez Pátroclo e Briseida lhe fizessem umas coisas no calcanhar! Deviam formar um belo trio. Agamémnon acabou por roubar Briseida a Aquiles, mas devolveu-lha depois da morte de Pátroclo.” [254]
- “Qual poderia ser a sua religião?- A procura. Eu procuro a verdade, mas sei que nunca a atingirei completamente. Se um dia chegasse à conclusão de que a alcançara, deveria achar que não era possível, que algo me havia escapado e que tinha de prosseguir. Qualquer pessoa que acredite deter a verdade é potencialmente perigosa – e essa é a razão principal por que desconfio de todos os que professam uma religião. No que a mim diz respeito, creio nunca ter atingido a verdade, nem sequer a minha verdade. A verdade é inatingível, o mais que podemos é ter a esperança de nos aproximarmos dela. É este o meu próprio dogma. Se tenho uma religião, é a da procura, da procura que tende para a Verdade.”
O problema em Hermann é que passaram quarenta anos desde que começou a desenhar o Comanche de Greg, arquétipo (literalmente falando) do “western”. E por mais esplendor gráfico que Hermann apresente as suas personagens são, desde então, sempre pálidos estereótipos. E os enredos nunca daquela densidade. Assim, e por mais injusto que isso seja, o leitor compara (once a Red Dust, always a Red Dust).
Daí a pouca empatia com este Dario Ferrer de Afrika (Éditions du Lombard, 2007 [1993]), o eterno hermannesco desajustado, envelhecido mercenário, agora ecologista desamparado, vítima de um mundo que já não quer aceitar. A maturidade como crescente recusa, de si-próprio e de vós-outros. Figura anti-herói constante, que na galeria recorrente só nos traz o excêntrico item de ser careca.
Mas acima de tudo a desilusão com a tal “Afrika” que ele anuncia, uma constante desistência cognitiva europeia, o “k” de “isto é Afrika”, um não-west de oportunidades, um sim-south de desorganização e ingerências, um factor “k” na equação de uma selva de trevas. Daí ao suicidário Ferrer nem um passo vai. Simplicidade de olhar.
Para além do esplendor gráfico – o que sempre vale no olhar de Hermann – é isso que fica.
Um peculiar Verão, o dos bruxelenses. Famílias em vestes encaloradas, mangas curtas e calções, nós de camisolas e chapéus-de-chuva, nariz pingando. Unidos no parque, um festival de teatro infantil, mímicos, cantores e saltimbancos. Um número óptimo, um grupo saltimbanco, figuras monstruosas, em histriónico bailado pop-rock bilaniano puro. O delírio, um pouco assustado, dos miudos. E sorrisos progenitores. Também protectores.
Logo mergulho nas bdrias. Recompro este “Le Vaisseau de Pierre” (Les Humanoides Associès, 2003), os inícios de Bilal (e Christin) lá em 1976. Há quanto tempo não o lia? E agora a fazer-me lembrar que foi Bilal a trazer a insuportável herança gótica (Druillet e quejandos) para a respeitabilidade do “bom-gosto” (oops).
E a delícia ideológica: aqui uma utopia anti-capitalista pura. Confrontando-se com a instalação de um gigantesco complexo turístico a aldeia piscatória e todos os seus ancestrais milenares
(inclusive os monstruosos seres iniciais, raízes de menires, sempre incógnitos), acantonados no velho castelo (nas cercanias da anta) à guarda do merliniano cego, são transferidos, pedra a pedra, espírito a espírito, para uma América Latina (terra de indígenas que tocam flautas), regressando à paz equilibrada, ecológica, espiritual.
Não ocorreu ao duo Bilal/Christin de então que o castelo (e a anta?), a aldeia edificada, e toda a sua gente viva e passada, fossem uma agressão gigantesca aos monstruosos seres e milenares ancestrais lá nas terras dos actuais flautistas? E ao ambiente dos actuais?
Tal e qual como o novo hotel lá na terra afinal pré-bíblica deles?
Não se trata só de afirmar uma ontologia benéfica ao “bom povo” e suas raízes – um romantismo medievalista um pouco mais exótico, projectando o desconhecimento da história (não era o castelo o sítio dos enrugados e engordados donos da corveia e do direito de pernada?). Trata-se também de lhe associar, implicitamente, a ideia da tábua rasa exo-europeia.
Os primórdios da alterglobalização na sua vertente anti-industrialista, anti-capitalista.
Em suma? Diverti-me imenso no bailado bilaniano. E adorei reler o mestre. Que se lixem as interpretações. Eunucas.
Felizmente tal aconteceu, sob a excelsa forma deste Le Haddock Illustré. L’ Intégrale de Jurons du Capitaine Haddock, de Albert Algoud (Casterman, 1991) – sobre o qual em tempos transcrevi um recorte de 1992. Do livro se poderá dizer que mais vale tê-lo tarde do que nunca. E será de assinalar um belo prefácio intitulado “De l’ insulte considérée comme un des beaux-arts“, que assim culmina: “Grâce à lui, décrochés de leur usage convenu, arrachés à la routine, les mots sont lancés en un jubilatoire et baroque volée de bois vert qui leur redonne une vigueur surprenante. C’ est en pòete inspiré que le Capitaine restitue aux vocables leur valeur sonore, forge des métaphores inattendues, mitraille par rafales d’ images éclatantes“. (12)
Sobre este surpreendente feixe de afirmações será interessante – ainda que não prove nenhum argumento – ler este
Stassen, Louis Le Portugais (Aire Libre, 2006), um melodrama sobre a ingenuidade, dedicado a um juvenil grupo de junkies, putas e pequenos-ladrões, cujo protagonista é um “emigrante de segunda geração” (para falar nos termos dos investigadores referidos) -
Luís, filho de portuguesa, Vanhuis que quer ser Da Casa, que se encanta e encanta a namorada, puta de origem africana, com o seu onírico, Portugal mitificado e desconhecido, para raiva (uma raiva realista – “t’as rien de portugais”) de Rachid, o seu parceiro de origem magrebina.
Riqueza de ser alvo de empréstimos, conheço este Deogratias de Jean-Philippe Stassen. Belíssimo na forma. Rude no desenho da gente. O caso do Ruanda.
Do argumento oscilo entre o apreço pelo canino das personagens, o monstro que nelas habita, e o desagrado pelos laivos de “remorso de homem branco”. Este a aparecer no confronto com o missionário afinal nada casto, assim na sua hipocrisia feito corruptor. Mas também no militar, lúbrico desrespeitador. E feito guia do genocídio. Surpresa pelo papel desta denúncia dos europeus na economia ficcional, dedicada ao período do genocídio, o must do morticínio mundial.
Ou seja, uma ânsia anti-europeia, imputando responsabilidade pela decadência humana e pelo próprio genocídio aos (pós)colonos – neste caso “record” de intensidade sanguinária o autor afirma que “só os brancos perguntam essas coisas” (grupo étnico de pertença), coloca a protagonista prostituta como originalmente vitimizada por outro europeu, os padres fornicadores das jovens raparigas (deixando entrever uma idade maior para as relações sexuais no seio da população circundante), e finalmente coloca os grupos activos na matança sob as ordens de um francês.
Para além de um olhar autocentrado (etnocêntrico: interessa-lhe acima de tudo como é que “os seus” se comportam alhures, e como se afastam das “boas normas” recomendáveis) o que o livro afirma (distraidamente) são dois argumentos fundamentais: a perenidade (necessidade?) do papel líder do europeu; a inferioridade da capacidade malévola do ruandês (africano). Assim cristalizando o racismo, afirmando a a superioridade branca: “povo” (raça, pois no fundo é disso que se fala) mais líder, mais corruptor, mais mau. Mais homem, não é assim?
Ou seja, um belo livro mas com as armadilhas da demagogia bem intencionada. Claro que, assim mainstream da mentalidade “bem pensante” europeia, ganhou o Prémio Goscinny. Decerto que não apenas pelo belo desenho. Mas pela sua conformidade com o dominante racismo de esquerda na bela Europa.
Ainda assim, o melhor é semicerrar a mente e ler. É bonito.
Baseado no romance autobiográfico que Anne Sibran – aqui argumentista – Bleu Figuier dedicou ao próprio pai.
É talvez a sensação de ser já um pied-noir (ou, melhor dizendo, um pós-pied-noir), é talvez por constantemente ouvir o letal “já lá não te adaptarás” que tão tocante me é a história da decadência deste senhor Mercadal, pobre homem no fluxo, feito mera e inútil sobrevivência,
a quem a História retirou da sua Argel encerrando-o num sítio Paris onde nada mais é do que uma minudência desadaptada, ridícula e ridicularizada. E da óbvia dor, carinhosa, com que a filha o assim vai descobrindo.
As coisas que se aprendem (em casa). Numa já velha revista Selecções BD (Maio 200, nº 19, 2ª série) descubro que, afinal, Hugo Pratt foi um dos que desenhou o Major Alvega, um episódio “O Ouro Precioso” [Battler Britton and the Wagons of Gold] até publicado em Portugal, no saudoso Falcão (nº 417).
Eis a fantástica junção de ícones: o valente ribatejano Major James Eduardo de Cook e Alvega (vergonhosamente conhecido na pérfida Albion por Battler Britton) por Hugo Pratt.