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O regresso de Aurélio Furdela depois do “De Medo Morreu o Susto” (AEMO, 2003), que então logrou o Prémio Revelação de Ficção da Associação de Escritores Moçambicanos,

um conjunto de pequenas histórias, os costumes em registos jocosos, e alguns bem sacados

[ “- Senhor, chegou mais um! – avisou uma voz, quase metálica, de xipoku mesmo.
- De que morreu? – perguntou Satã, sem olhares a desperdiçar para a minha maltratada figura.
- De Sida, meu Senhor.
- Esses tipos já estão a atingir os limites do exagero. Mande-o aguardar, até chegar a ajuda que pedimos ao inferno do ocidente: não temos mais lenha para estes gajos
.” (A Minha Morte)]

e de “Gatsi Lucere” (AMOLP, 2005), também premiado (Prémio Revelação de Teatro Associação Moçambicana de Língua Portuguesa/Instituto Camões),

obra que valeu aqui rara polémica nos jornais, entre o autor e Rogério Manjate, sobre as suas qualidades dramáticas, mas logo decaindo para as querelas pessoais. Confesso que desta última publicação nada gostei (e muito me surpreendeu tal prémio), diante das armadilhas do texto histórico, potenciadas pelo tom enfático da oralidade e, talvez mais do que tudo, pela estranha decisão de colocar os circundantes do mwenne mutapa (Monomotapa) de então lutando por uma peça escrita, ou seja num registo que se quis realista projectando literacia numa sociedade ágrafa, um total anacronismo que me pareceu completamente involuntário.

Agora este “O Golo Que Meteu o Árbitro” (AEMO, 2006), sete brevíssimas crónicas de costumes, a propósito do desporto, aparente colectânea (depreende-se, não está explícito no livro) de textos publicados no jornal desportivo “Desafio” (infelizmente não datados). Registo jocoso, de novo, sensível ao gosto popular “Coisa conseguida, pois, daí até ao final do torneio, Fernando Coto contou oito golos marcados, com o coto!”, atribuível aos potenciais leitores do jornal, aqui e ali um pícaro que me faz associar, talvez indevidamente, ao seu mestre local, o desenhador Zimba.

Feiticeiro: Agradeço os votos que me faz diante dos espíritos. Mas porque mandou chamar-me assim, com tanta urgência, Gatsi Lucere?

Mambo: Para que seja garantida a continuidade da extensão do meu domínio sobre alguns vassalos que contra mim se rebelam, solicito os préstimos da tua magia.

Feiticeiro: Sugere que faça cair sobre os seus inimigos os malefícios da minha arte?

Mambo: Não. O castigo que pretendo para esses traidores é outro. A esses lacaios que, empaturrados pelo tributo que me roubam, ousam sublevar-se contra o meu poder, quero uma morte bem sofrida: uma morte a ferro e fogo!

Feiticeiro: Mas como o posso ajudar nesse desejo?

Mambo: Preparando-em com extrema brevidade umas duas bilhas e meia de dore-re-simba.

(…)

Feiticeiro [em jeito de conclusão]: Em troca da vida, Gatsi Lucere! Da vida…Se obrigares aos mineiros a tomar esse doro, eles encontrarão a morte em menos de sete semanas.

Mambo: Isso é o que pesa menos na minha consciência, feiticeiro. Agora pesa-me o ouro que não terei se esses servos continuarem vivos depois desse tempo.

Feiticeiro: E, a julgar pela quantidade de doro que me pede, é extenso o número de mineiros que tenciona sacrificar.

Mambo: Todos os dias nasce capim novo para alimentar o gado.

(…)

[Aurélio Furdela, Gatsi Lucere]