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Abril 5th, 2009 — Arte Moçambique, Jorge Dias, Mudaulane
(mais “rascunhos”)
Os meses iniciais de 2008 foram um período particularmente activos no campo dasa artes plásticas. Momento marcante de uma rara “descentralização”, de uma exo-maputização, foi a apresentação da Zoologia dos Fluxos, de Jorge Dias, na Beira.
Marcante foi também a aparente colectiva “Dois Percursos Multi-culturais: o tempo … já não tem tempo“, onde se procurava congregar a (presumo que) primeira apresentação do trabalho de Frederico Morim com o de Celestino Mudaulane.

Digo “aparente colectiva” pois foi uma exposição que trazia alguns dos habituais problemas de tantas das mostras colectivas que têm vindo a ser feitas. Dois artistas que em nada dialogavam, apenas uma justaposição em paredes e peanhas contíguas. Seria (será) melhor começar a chamar a tais eventos uma “paralela” de artes plásticas.
O interesse de lembrar tal evento será ainda o de o usarmos para reflectir nas armadilhas do “multiculturalismo” que surgia em título – o cujo, na prática mas não na vontade organizativa, com toda a certeza integrando então os programas político-culturais do Ano Europeu do Multiculturalismo, implicita o irredentismo das “formas culturais”. Com efeito a incomunicabilidade entre obras e artistas terá sido produto dos incidentes biográficos dos autores, um porventura indisponível para maior envolvimento, um outro apresentando uma verdadeira individual.
Mas o que ficou na memória, para além dos artistas, foi o “multiculturalismo” ideológico a gerar a incomunicação. Algo que até sociologicamente se denotava, como o mostrou o tipo de público que aderiu à exposição, bem delimitado.

[Frederico Morim]
O que tivemos então foi um contexto bem “pop” de Frederico Morim, artista proveniente do mundo (e de dimensões estéticas) da publicidade,

[Celestino Mudaulane]
paralelamente a uma obra de Celestino Mudaulane, porventura o grande escultor actual em Moçambique, ali a ensaiar novos caminhos na sua cerâmica – os quais, honestamente, muito me desiludiram.
A última memória, bem para além dos artistas. O facto de Mudaulane ter apresentado uma obra e à sua revelia terem sido colocadas duas outras obras suas (dois desenhos). Na altura, e ainda hoje, isso levantou-me a estrutural questão, incidindo sobre o grau de autonomia (e, como tal, de responsabilização) que os artistas locais vão tendo face aos galeristas.
Pouco, como isto o demonstrou. E, pelos vistos, tal diminuição estatutária é aceite. Natureza oblige?
Abril 4th, 2009 — Anésia Manjate, Arte Moçambique, Gemuce, Ivan Serra, Jorge Dias, Mudaulane
E por referir “rascunhos” de posts que foram ficando para trás. Este é uma memória de uma exposição colectiva, já com um ano, realizada com artistas ligados ao Movimento de Arte Contemporânea. Aconteceu na Associação Moçambicana de Fotografia, por ocasião da visita do presidente português, em Março de 2008.
O meu objectivo era o de discutir a sua pertinência e a adequação do formato à lógica do Movimento. E ainda, e num outro registo de questionamento, o da adequação à sala disponível. Questões que prescreveram, claro. Fica a memória.

Uma exposição colectiva organizada pelo Movimento de Arte Contemporânea (Muvart), sob curadoria de Jorge Dias. Abaixo fotografias de obras (algumas já anteriormente apresentadas outras então inéditas) de Jorge Dias, Celestino Mudaulane, Ivan Serra, Gemuce e Anésia Manjate, respectivamente.





Setembro 2nd, 2005 — Mudaulane
Mudaulane (Celestino Mondlane) com uma exposição individual, cerâmica e desenho, no Instituto Camões. Do passado 31 de Agosto até 10 de Setembro.

Para mim, leigo, Celestino Mondlane ceramista escultor é do mais excitante que tem surgido em Moçambique, esculturas avassaladoras, um sobre-humano que não lhe advém apenas das dimensões, mescla de grotesco e irónico, o horror e o amor.

["O Grito da Madrasta", argila, 2005; pormaior reproduzido do desdobrável que acompanha a exposição]
Ali, e imagino pois não o conheço, também se agita um cosmos sempre dito tradicional, um mundo mitológico feito actualidade num olhar tão especial. Olhar e mãos a seguir, com entusiasmo. Pois únicos.

(“Embondeiro“, argila, 2005)
Coloco aqui uma outra obra do artista, a espantosa “Mesavana (A Velha Feiticeira)” [argila, 1,95 m, 2004], actualmente apresentada na exposição da Bienal TDM, ainda que neste caso a reprodução do catálogo (um bom catálogo, diga-se) não faça minimamente justiça à intensidade da escultura.

E permito-me imaginar também o quão interessante seria vê-lo trabalhar outros materiais, pedra ou metal. Sem desvalorizar a cerâmica, apenas projectar desafios para tamanho artista. Quem sabe? um dia.
Finalmente, esta exposição, vibrante ainda assim, está muito prejudicada pois duas esculturas, “as melhores” segundo o próprio Mudualane, partiram-se durante o transporte. Para mais alguns desenhos não foram apresentados, devido a atrasos no emoldurar.
Esta infeliz situação levanta outros tipo de questões, sobre o papel das galerias aqui, sobre o envolvimento que assumem (ou não) na produção deste tipo de actividades. No fundo sobre a sua tendência para surgirem como meros espaços-receptáculos de obras.
Mas isso são coisas a desenvolver noutra altura. Agora é altura de olhar o mundo deste homem.