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Fevereiro 19th, 2010 — Eugénio Lemos, Livros Moçambique, Malangatana, Matias Ntundo

E o recente livro “Fábulas de Cabo Delgado” com imagens de Matias Ntundu, o célebre xilogravador de Cabo Delgado, acordou na estante este pequeno opúsculo que acompanhou uma exposição em Maputo, no longínquo 1982, do trabalho de Maya Zucher (a capa reproduz a sua xilogravura “Luz e Força”). Esta foi uma artista suíça que trabalhou em Moçambique sob os auspícios da Associação de Amizade Franco-Moçambicana desde 1979, tendo desenvolvido trabalhos de activismo cultural ( introdução e desenvolvimento de tapeçaria e xilogravura) em Cabo Delgado, Zambézia e Nampula. E foi nesse âmbito que se registou a iniciação da técnica da xilogravura nas cooperativas artísticas do Cabo Delgado – e é desse processo, bem como da sua articulação com a arte (então militante) da artista que o opúsculo trata. Conta com um texto introdutório de Eugénio de Lemos e Malangatana (muito provavelmente um dos iniciais textos comuns que viriam a tornar-se conhecidos sob o pseudónimo Rhandzarte) e com uma explanação da própria sobre o processo de ensino artístico, ligado à produção do “Homem Novo” – também por esse testemunho o texto surge hoje, na sua candura, como um documento interessantíssimo ainda que breve.
Mas para além disso traz-nos esta memória sobre o começo de uma prática artística que veio a tornar-se algo conhecida no país, em particular através da obra de Matias Ntundu e seus vizinhos artistas da aldeia de Nanbimba. Aqui deixo duas imagens particularmente significativas desse processo de transferência tecnológica, memória dos participantes e uma das primeiras xilogravuras moçambicanas.

“Os cooperativistas Leonardo Mário e José Tangawizi da Aldeia Comunal Nandimba, imprimindo as suas primeiras xilogravuras em Janeiro de 1982“

“A Terceira Xilogravura feita por Matias Ntundu Mzaanhoka – 1982″
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Fevereiro 17th, 2010 — Arte, Exposicoes, Malangatana, Reinata Sadimba
(por AL apressada)

Do nosso leitor Nuno Salgueiro Lobo vem-me a informação que a galeria lisboeta Influx Contemporary exibe actualmente uma exposição colectiva de artistas Africanos contemporâneos, oriundos de diversos países, incluindo Angola e Mocambique.
Pretende-se com esta exposição estimular um outro olhar sobre a Arte Africana:
A maioria das pessoas ainda associa a expressão ‘arte
africana’ às formas ‘tradicionais’, a chamada (erradamente)
de ‘arte primitiva’ ou tribal: objectos utilizados em cultos e
rituais ancestrais que encerram em si uma aura de
misticismo e espiritualidade. ‘Arte africana’ normalmente
significa ‘passado’.
Mas, as coisas em África mudaram muito entretanto…
Pelo que me foi dado ver no site da galeria, vale com certeza a pena dar um salto ao Lumiar.
Fevereiro 2nd, 2010 — Berry Bickle, Famós, Idasse, Jorge Dias, Malangatana, Shikhani, Sitoe, Ulisses Oviedo
Na galeria Kulungwana (na estação dos CFM) uma mostra colectiva organizada por Berry Bickle serve para assinalar o fim das férias, uma mescla heterogénea que bem merece a visita: Idasse, Shikhani, Sitoe, a própria Berry Bickle, Famós, Victor Sousa, Jorge Dias, Ulisses Oviedo e Malangatana. Gostei particularmente dos “rizomas” de Jorge Dias, um inteligente regresso às suas instalações, e da surpreendente (para ele excêntrica) obra de Sitoe.
Bem estava Malangatana, ali avisando que está de viagem até à Universidade de Évora, onde receberá o doutoramento honoris causa em meados deste mês. Apadrinhado por Marcelo Rebelo de Sousa, seu conhecimento bem antigo. Aqui fica a reprodução de um quadro dessa década

["Nu com Crucifixo", 1960]
Nota: Imagem reproduzida de Okwui Enwezor (org.), The Short Century. Independence and Liberation Movements in Africa, 1945-1994 (Prestel, 2001). Se pressionada aumenta, para melhor visibilidade.
Novembro 5th, 2009 — Malangatana

Amanhã, 6 de Novembro, a partir das 17 horas. Uma actividade na galeria Kulungwana (na estação de caminhos-de-ferro) com exposição fotográfica alusiva à “Marcha Mundial pela Paz e Não-Violência” e venda de serigrafias de Malangatana, relativas a esse evento.
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Outubro 16th, 2009 — Malangatana
Há alguns meses estive com Malangatana, uma bela sessão onde se viu o filme de Carlos Saura sobre Portugal. Ali em casa de gente amiga, e que nos soube receber, ele estava animado. Ainda que acabasse de sair da clínica, onde tinha sofrido um breve internamento, aprestava-se para partir para Portugal para esculpir: “coisa grande, meu menino!”, anunciou em voz cheia.
Agora tenho ecos do que andou ele a fazer por lá. No Estrada Poeirenta o António Oliveira apresenta o trabalho colocado no Barreiro,


deixa as fotografias e a descrição do monumento projectado pelo arquitecto espanhol Busquet e com desenho de escultura de Malangatana. Espero agora imagens em detalhe do que o velho mestre deixou pelo Barreiro. Porventura precisarei de lá ir – e eu nunca fui ao Barreiro.
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Outubro 9th, 2009 — Amália Rodrigues, História Moçambique, Malangatana

[Amália recebida no aeroporto por centenas de pessoas]
A evocação da visita de Amália a Moçambique desenvolveu-se em invocação. A minha boa amiga Amélia enviou-me estes preciosos recortes de jornal, relativos à digressão de Amália em 1969 [pressionados aumentam, possibilitando a sua leitura]. A diva do fado, estrela internacional, regressou a Moçambique duas décadas depois da sua última aparição. Veio como centro de uma delegação cultural, integrando o actor Jacinto Ramos e dois cavaleiros tauromáquicos, o que bem denota o conteúdo do arquipélago cultural identitário de então. Se é interessante, paralelamente, ver como a mutação sociocultural da democracia implicou a desvalorização da tourada como símbolo nacional e não de nenhum dos então célebres 3 “fs”, este facto torna explícita a dimensão de “representação”, donde de acto também político, da acção cultural em causa.

[notícia da recepção oferecida a Amália e restante delegação cultural pelo Governador-Geral Baltazar Rebelo de Sousa]
Nada mais sei sobre esta deslocação, apenas posso especular sobre o seu contexto – o de assumir a vitalidade económica da sociedade colona, a trazer a grande artista para uma digressão desta monta, a sua óbvia integração no espírito da época, o de fazer Amália calcorrear um território assim feito, explicitado, Portugal. E um Portugal pacífico, acolhedor da Diva. E, claro, a sua inserção no esforço de guerra português, a expressa vontade do ícone nacional de prestar apoio moral às tropas portuguesas aquando da sua actuação no Norte.
Mas num outro registo, mais conjuntural, apontar a presença do governador Baltazar Rebelo de Sousa, o homem do “colonialismo de rosto humano”, e inclusive a coincidência temporal, explícita no primeiro recorte, com a sucessão da partida de Marcello Caetano e a chegada de Amália. Vivia-se a “primavera marcellista”, terá sido esta uma “acção cultural interna” também propagando esse vector? Numa África onde, pessoa do seu tempo, Amália constata ”ainda me sinto mais portuguesa”.

[Anúncio do espectáculo de Amália em Maputo (Lourenço Marques), no pavilhão do Sporting]

[Amália visita e actua na casa de Malangatana, emparceirando com músicos locais]
Enfim, recortes que são verdadeiros documentos desse tempo, e não só pela forma da escrita jornalística: actuações em Maputo (Lourenço Marques), Beira, Chimoio (Vila Pery) – aqui “apadrinhando” a sua ascensão a cidade, facto civilizacional - e Nampula, com relatos do seu sucesso. A visita à Gorongosa – ex-libris turístico de então, mas também símbolo de uma “África natural”. E, pois há coisas/olhares que se mantêm, a deslocação/actuação a casa do grande Malangatana (já então, como sempre, acompanhado de Oblino) para uma sessão que hoje chamaríamos de “multicultural” (e onde estava, entre outros, a poetisa Glória de Sant’Anna, recentemente falecida).

[Amália em Nampula]

[Entrevista no Hotel Polana, acompanhada de Maluda e da jornalista radiofónica Manuela Arraiano, ambas oriundas de Moçambique]

[Amália na Gorongosa, depois de actuar na Beira e em Chimoio (Vila Pery)]
Adenda: breve memória de Amália em Nampula durante esta digressão, deixada no Petromax.
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Setembro 26th, 2009 — Chichorro, Ciro Pereira, Dito, Idasse, Malangatana, Mazula, Norberto Geraldes, Sitoe, Sérgio Veiga, Sónia Sultuane, Tinga
Interessante iniciativa, esta transposição para sítio informático da exposição colectiva Intersecções, que integra obras de Ídasse, Malangatana, Chichorro entre outros, uma iniciativa do Consulado-Geral de Portugal em Maputo (av. Mao-Tsé-Tung). Inaugurada há já um mês estará visitável até amanhã, domingo dia eleitoral. Mais uma boa acção da actual cônsul, Graça Gonçalves Pereira.
Adenda: esta exposição foi também objecto da realização de um blog, o Intersecções.
Março 28th, 2008 — Arte Moçambique, Malangatana
Março 6th, 2008 — Adelino Timóteo, Arte Moçambique, Literatura Moçambique, Malangatana

Desenhos de Prisão, de Malangatana exposta na Beira, no Centro Cultural Português, avisa o Beira-Amar.
E lançamento do livro Mulungu, de Adelino Timóteo, presumo que hoje. Para quando em Maputo (ou escapou-se-me?).
Adenda: dizem-se ser a primeira vez que Malangatana expõe individualmente na Beira. Incrível demora. Urge, então, o Norte.
Junho 8th, 2007 — Arte Moçambique, Malangatana

“Desenhos de Prisão“, exposição de Malangantana, apresentada na Fortaleza, possibilitando um bom catálogo (150 meticais). Produto de um trabalho de registo fotográfico, informático e (presumo, pois o texto não é absolutamente explícito) de restauro da obra de Malangatana, e no seu seio deste particular conjunto de desenhos produzidos nos calabouços de então.
Numa das alas da Fortaleza, está exposta uma selecção de desenhos desse conjunto. Impressiva e impressionante. O catálogo reproduz mais 93 desenhos, de prisão ou (alguns) alusivos a esse periodo. É desse conjunto excedentário que aqui reproduzo cinco, talvez menos denunciatórios do que os que foram expostos, mas porventura tão significantes – e a selecção apresentada denota uma hierarquização de temáticas que me parece linear.





Este trabalho (recuperação de obra, produção de exposição, produção de catálogo) resulta de um projecto da Fundação Mário Soares, com apoio da Fundação Ilídio Pinho. Registe-se, pois louvável. Bastante louvável, a intenção e a competência. Neste âmbito que a primeira página do catálogo integre um texto alusivo da autoria do patrono da Fundação surge natural, até obrigatório de costumeiro que é. Mas que o mesmo catálogo seja encetado por uma fotografia de Mário Soares de mãos dadas com Samora Machel parece descabido. Há deselegâncias que parecem oportunismo. E vice-versa. E, pior do que tudo, que desmerecem o meritório.
Março 9th, 2007 — Arte Moçambique, Gemuce, Malangatana
No Maos de Mocambique duas entradas sobre a exposicao colectiva “Sonata a Tres Maos” que Malangatana, Gemuce e Mieke Oldenburg apresentaram no Centro Cultural Franco-Mocambicano.
Deixo aqui a ligacao para quem nao viu possa ver algumas fotos das pecas entao apresentadas. E para recordar o meu espanto desse dia: “sonata a tres maos” como? Que composicao, que ideia, que criterio ali serviu para congregar? Nao ouvi a sonata, talvez por surdez minha. Mania de leitor, fui encontrar a resposta nao nos sons nem nas imagens, mas sim nas letras e logotipos do folheto alusivo. Ma vontade minha?
Julho 31st, 2006 — Literatura Moçambique, Malangatana
Malangatana, Vinte e Quatro Poemas, Lisboa, Instituto Superior de Psicologia Aplicada, 1996

[Bar Luso, 1963]
Exposição
As negras das lagoas
fazem exposição
de quadros nús e tristes
com os próprios corpos as artistas
pintam no fundo da parede de caniço
É uma exposição permanente
e uma galeria de quadros humanos
que se vendem na galeria livre
uma galeria mais que pública
inaugurada pelo primeiro que chegou
Os quadros adquiridos
são pagos no quarto da negra
depois de oferecer a sua carne
e o adquiridor nunca leva o seu quadro
fica para o outro Paraquedista

[Bacanal de Marinheiros Americanos, Portugueses e Sul-Africanos, s/d]
A Velha do Mercado Clandestino
Velha suja angustiosa!
com o ventre rasgado de fome
e de costelas amostrando os netos
e de olhos encovados temendo mulungo
assa o massaroque
na rua do Mbongolweni
Com o ventre vazio, vazio!
pede xicudu por um
e os negros descalços da Estiva
compram matando a fome
Velha da esquina do Mbongolweni!
de quimau roto e sujo
lábios queimados do vinho do Sr. Henrique da cantina
tripas comidas cruas
estragaram o ventre da Kokwana Mahatshasse
compradas no homem do burro
vendedor de tripas
Julho 31st, 2006 — António Sopa, Arte Moçambique, Livros Moçambique, Malangatana

Malangatana, Editorial Caminho, 1998

[A Viagem Secreta, 1960, óleo sobre unitex]
“Certos quadros aproximam-se dos primitivos catalães, outros das aparições macabras dos visionários holandeses e ainda outros são de um surrealismo involuntário, directo e mágico. Ele aparenta derivar dessa tradição sem jamais ter tido acesso a ela e sem qualquer ensinamento.

[A Última Ceia, 1961, óleo sobre unitex]
Ele é visitado por espíritos; certos quadros são alucinações, fragmentos de um inferno que já foi de Bosch. Malangatana tem um conhecimento profundo das razões subterrâneas dos homens o que, aliado à sua extraordinária visão formal, produz pintura de uma totalidade tão rara …”
(Pancho Miranda Guedes, Catálogo da 1ª individual, 1961; pp. 13 e 203)

[Sem Título, 1960, tinta-da-china sobre papel]
Cruzada há pouco a barreira septuagenária prepara o artista (e António Sopa) uma fotobiografia. Também por isso regresso agora a este álbum. Ficando com a certeza que, quase uma década após esta edição (2500 exemplares), poderia a Editorial Caminho organizar uma segunda edição. Agora abordando também este tempo decorrido. Incrementando a qualidade da impressão, não óptima ainda que não pecaminosa. E, fundamentalmente, fazendo acompanhar os textos deste livro (histórico o de Pancho Miranda Guedes, impressionista-panegírico o de Frederico Pereira) por outro(s) que possibilitem o enquadramento (crítico) do trabalho do artista. Que o merece.
Agosto 22nd, 2005 — Idasse, Malangatana

(Matalane, 21.8.05)
Agosto 22nd, 2005 — Malangatana

(Matalane, 21.8.05)
Janeiro 23rd, 2005 — Arte Moçambique, Malangatana

O Mural de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos, ali à frente do meu estaminé, reproduzido em postal da Universidade. E com meus desejos que o mural vizinho, realizado em 1998 por Bento Carlos Mukezwane, falecido no ano seguinte, e por Ciro Pereira venha a ter a mesma divulgação.Até pela merecedora memória do Bento.
Dezembro 22nd, 2004 — Arte Moçambique, Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Malangatana

Exposição
As negras das lagoas
fazem exposição
de quadros nús e tristes
com os próprios corpos as artistas
pintam no fundo da parede de caniço
É uma exposição permanente
e uma galeria de quadros humanos
que se vendem na galeria livre
uma galeria mais que pública
inaugurada pelo primeiro que chegou
Os quadros adquiridos
são pagos no quarto da negra
depois de oferecer a sua carne
e o adquiridor nunca leva o seu quadro
fica para o outro Paraquedista
(Malangatana Ngwenya, Vinte e Quatro Poemas, Lisboa, ISPA, 1996)
[também a propósito deste outro livro].