Gosto de ouvir rádio de manhã, enquanto me estou a arranjar na casa de banho. Tenho um velho rádio-despertador roufenho, empurrado para a reforma pelo telemóvel, mas que para o propósito funciona muito bem. Está sintonizado para a Antena 1, não por qualquer opção especial mas sim porque emperrou naquela estacão. Entretanto habituei-me a ouvir em pano de fundo os programas com intervenção popular.
Raramente retenho o que se vai passando. Além de meio ensonada, vou pensando no dia que começa e nas prioridades que vou estabelecendo ou revendo. De tal forma absorta que nem me irrito muito com as musiquinhas que passam. Se acordo bem disposta vou sorrindo com as inanidades que vou ouvindo; comovo-me com algumas intervenções; desculpo os disparates. Se acordo rabugenta não os ouço, escuto mas não ouço. Portanto, ouvir o meu rádio roufenho de manhã na casa de banho, é só lucro!
Muito raramente algo capta a minha atenção. Hoje, não sei bem a que horas, depois de andar a flanar pela casa numa preguiça sem hora enquanto bebia pausadamente a minha litrada de café, ouvi algo que me chamou a atenção. Trata-se da primeira tradução directa do latim para português (se bem entendi, pois só comecei a ouvir mais ou menos a meio) da primeira obra de Galileo Galilei. Sai esta semana que amanhã começa.
Tendo perdido metade da notícia, googlei e fiquei a saber que se vai chamar O Mensageiro das Estrelas e encerra o Ano Internacional da Astronomia, que esteve a cargo de Portugal, que comemorou os 500 anos das primeiras observações celestes feitas com um telescópio, precisamente por Galileu. É provavelmente notícia serôdia, mas para mim foi novidade e, sendo eu uma astrónoma diletante, apeteceu-me assinalar aqui esta publicação.
Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.
Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.
Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.
Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.
Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.
Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.
Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.
É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.
A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.
O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.
É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!
Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.
De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.
Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.
Mulher 2
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.
Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.
O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.
Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!
Mulher 3
Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.
Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.
Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.
Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.
Mulher 4
Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:
Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!
Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…
Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!
Nota de pé de página
Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.
Foi com uma colagem do meu amigo e pintor Miguel Barros que me estreei aqui no maschamba. Actualmente a morar em Angola o Miguel tem-se inspirado nas cores e nas paisagens angolanas, que lhe valeram quadros muito, muito belos. Estão agora expostos em Lisboa, na Fundação Sousa Pedro no Chiado ate dia 11 de Março. Não percam!
Joan Bardeletti, fotógrafo francês, ganhou o segundo prémio na categoria de Imagens da Vida Diária com esta fotografia chamada picnic de domingo, tirada em Moçambique.
O nosso calendário encontra-se pejado de dias assinalados com festas e celebrações públicas e privadas. Algumas agradam-nos a todos cá em casa, outras somente a alguns do nós; há dias que nos deixam indiferentes e depois há aqueles dias que nenhum de nós gosta.
De longe, a celebração favorita cá de casa é o Natal. Neste pequeno agregado familiar de 8 pessoas e meia (incluindo o meu neto de dois meses e sendo a “meia”, a minha neta que nos bate à porta) alimentam-se os pequenos gestos tradicionais e consegue-se escapar, tanto quanto possível ao comercialismo vigente. Mas isto será matéria para outro post lá mais para o fim do ano.
Já o Ano Novo, tal como o Carnaval, encontra poucas simpatias por estas bandas; parece que nunca percebemos muito bem esta coisa da alegria com hora marcada e da folia por calendário.
A Páscoa é para nós um deleite de paganismo, com ovos pintados e grande refeição familiar de omelette em dias de pintura, e na confecção de amêndoas de chocolate, deliciosas e que a minha Mãe teima em manter como receita familiar exclusiva.
Algumas festas foram por nós importadas de outras partes e celebradas de forma intermitente, como as lanternas de S Martinho que deixámos em pousio quando as crianças cá de casa se tornaram adolescentes e que esperamos retomar quando na família tivermos novamente crianças que já não precisem de colo. Os magustos fazíamo-los quando vivíamos na província e caíram em desuso quando, depois de anos de diáspora, nos juntámos novamente por Lisboa. Outras festas deixaram de ser celebradas cá em casa por falta de quorum, como a festa das comadres e dos compadres e o Thanks Giving Day.
Um dia que nunca foi celebrado cá por casa foi o dia de hoje, o 13 de Fevereiro, pela simples razão de que nada havia para o assinalar. Mas uma mensagem que recebi hoje de manhã, suspeito, vai alterar para sempre a nossa relação com este dia. Chegou às 8:29. Dizia: “Já estamos no hospital e epidural já dada. Está tudo bem mas ainda demorado. Ligo quando houver mais novidades.” O remetente é o meu genro João. É a minha neta, ainda anónima, que nos bate à porta neste dia 13 de Fevereiro!
Têm sido diversas as reacções à abertura do grupo maschamba no facebook, mas uma delas, bastante gratificante por acaso, tem sido a quantidade de sugestões que tenho recebido de amigos. Hoje foi a minha amiga Docha que me enviou fotos de táxis renováveis nas Filipinas com a legenda “era giro pores no maschamba“. São giros os veículos, com a carroçaria inteiramente construída em bambu num esqueleto de metal, montada num motoreco alimentado a óleo de coco!
Sendo de bambu, que volta a crescer depois de cortado, e alimentados a biodiesel produzido a partir do óleo de coco, produtos autóctones, não põem pressão acrescida no ambiente nem tampouco interferem com terras de cultivo. Além de que abrem espaço para a abertura de pequenas unidades industriais nas zona rurais onde a matéria prima abunda, apoiando ainda o desenvolvimento de artes tradicionais como as esteiras.
Como o bambu é leve e extremamente resistente, consomem relativamente pouco combustível e oferecem relativa segurança, embora dificilmente passassem os testes de segurança exigidos no mundo ocidental. Mas, hei!, que eu saiba as Filipinas não têm uma indústria automóvel a proteger, ou têm? Sendo leves, não necessitam de motores de grande cilindrada, pelo que nunca atingem velocidades que façam perigar a integridade dos passageiros. Dizem os entendidos que são ideais para estradas rurais e pequenos percursos em cidades congestionadas e poluídas.
Enfim, e só lucro! Uma boa ideia cheia de potencial.
Na Índia são as estradas tão vivas quanto os mercados – abundam rickshaws com taxímetro, sem taxímetro, com buzina de corneta, com colunas de alumínio, com flores, dobrando como transporte escolar, mas sempre, sempre agradáveis e arejados, permitindo cheiros, cores e sons, que entram desimpedidos; camiões pintados num requinte de enfeite; automóveis de que já só temos recordações; motas que só conhecemos de filmes… Junto ainda uma aqui da yourstruly encaixada por entre as muitas compras que pelo caminho se foram fazendo. E, como não podia deixar de ser, nem falta o elefante trabalhador!
Ah como eu gostava delas! Como me revia nas suas conversas! Como se pareciam comigo e com as minhas amigas quando em conversas de mulherio nos juntávamos…
Elas, claro, em Manhattan, com Starbucks nas mãos e Blahnicks nos pés; nós, na Benard, com calçado anónimo, bebíamos chávenas de Tetley (era o que havia, era o que havia). Mas falávamos todas do mesmo: homens, amor e sexo. Quem eles eram; onde paravam e o que faziam; como beijavam; eram bons na…? Sim, admito que trocávamos notas e que passávamos, a elas notas e a eles homens, umas às outras.
Ai, com esse não que andas a perder tempo; é só fachada! Esse? Hmmm, dei-lhe uma vez um beijo e não foi nada de especial… Aquele ainda tem muito que aprender; se tiveres pachorra… Tem cuidado que esse é um predador emocional! Não posso acreditar que ele te disse isso! Não vão acreditar com quem eu estive ontem e no que trago para contar!
E misturavam-se as ansiedades das etiquetas com o telefone e do que faço quando o vir outra vez?; do que acham que ele quis dizer quando…?; e das interrogações confudidas do já alguma vez estiveram com um que…
Continuávamos pela tarde fora em conversas de bravata a desfolhar proezas; ou em conversas de desgostos amargos, a sarar feridas com a raiva vingadora das amigas; ou em conversas de sonhos de vida eterna que nem as certezas delas conseguiam resguardar do descalabro que aí vinha. E todas nós nos revíamos na Carrie, na Miranda, na Charlotte e na Samantha. E tínhamos também o nosso Mr Right para mal dos nossos pecados; cada uma o seu, claro! Eu deleitava-me nessa cumplicidade que me acolhia depois das prolongadas ausências por terras alheias, onde via a série por atacado e com a qualidade dúbia dos videoclubes. Reconfortavam-me, davam-me um sentido de pertença depois de meses a ser estrangeira em mim. Deixavam-me entrar de mansinho no quotidiano não partilhado das outras e afastavam-me do que com elas não conseguia partilhar. Assim, estilo calçadeira de sapato para amizades interrompidas.
Cada uma tinha também a sua favorita e eu venerava a Samantha e os seus toy-boys! A verve com que ela os agarrava, usava e descartava! Aquilo sim é que era pinta! E ainda por cima era desbocada:
My name’s Samantha and I’m a loveaholic.
Well, I don’t know how you people do it. All that emotional chow-chow. It’s exhausting.
If we could perpetually do blowjobs to every guy on earth, we would own the world. And at the same time have our hands free.
Nós, e penso que muitas outras como nós, adorávamos o Sex and the City. Era como que uma afirmação da nossa emancipação e da nossa sexualidade; assim estilo flower-power finalmente casa com o Faubourg de Saint-Honoré. Para nós, foi o corte final com o mito da imagem em proporção inversa ao intelecto. Agora podíamos ser inteligentes, cultas e profissionais, mas também bonitas, depiladas, arranjadas e fúteis. Quase chorámos quando a série acabou! Chorámos pelo fim e por causa do fim. Onde é que já se viu! Não nos caíu bem que a palonça da Carrie andasse feita dama das camélias por Paris (embora o cenário fosse o adequado); que o palerma do Mr Right, depois de tudo o que lhe fez, fosse a correr com um ramo de flores (digam lá se há cliché mais piroso!) e a atolantada derrete-se que nem rebuçado em boca de bébé a começar a dentição! Valha-nos deus! Arruinaram anos, ouviram?, anos fabulosos com este fim serôdio!
Depois apareceu o filme. Fomos todas ver! Juntas novamente! Mais maduras agora, estabelecidas noutros sonhos e noutras heroínas. Com outras guerras para lutar. Mas unidas pela cumplicidade desses anos, lá nos metemos na calçada da memória e aí fomos nós. A desilusão do último episódio sagrou-se com o filme. Não que fossemos à espera de um fino recorte cinematográfico, mas ao menos UMA, UMA daquelas conversas fabulosas do estilo da Charlotte a descrever um loverboy não circuncidado: Tinha tanta pele que parecia shar-pei!
Não, o filme tinha sido depurado, sanitizado. O factor “mulher independente, desbocada e assertiva” tinha desaparecido e as nossas “meninas” nao passavam de donas de casa desesperadas em roupas de assinatura! Fomos defraudadas! E agora, juntando insulto a injúria, vem aí a sequela!
Falava aqui há dias o JPT nos Xutos para crianças na infantilização duma rebeldia geracional em favor da mercantilização de um produto com mercado descendente (quiçá esgotado?). Pus-me a pensar e agora pergunto-me, será que no Natal de 2020 a minha neta vai receber o Sex and the City 47, em versão capa rija?
Aqui há uns anos fui com a família passar o Natal e o Ano Novo a Veneza. Foi um mês maravilhoso de passeios pelas lindíssimas cidades medievais do Vale do Pó, de estreita co-habitação com história e cultura, igrejas, capelas, museus, músicas e concertos e também de um memorável almoço de Natal em Turim, com a família da minha amiga Clara. A título de curiosidade refiro somente que o dito pranzo constava de 14 pratos – 7 entradas e 7 pratos principais e assistimos a todos!
A noite de fim de ano foi em Verona e o 1 de Janeiro foi passado em Veneza, de concerto em concerto, seguindo a tradição italiana dos concertos de Ano Novo. Com o La Fenice fechado para obras, passaram-se os concertos desse ano para capelas e igrejas espalhadas pelas praças e ruelas de Veneza. Encheram-se as ruas (e os concertos) de famílias italianas em espírito festivo e com a cumplicidade que o hábito soe criar e que consigo carregavam copos, termos com vinho quente de especiarias ou champagne (sumos e chá para os mais novos ou mais velhos), em jeito de piquenique invernoso e nevado. Perdemos o esplendor do La Fenice mas ganhámos em ambiance!
No final do primeiro concerto percebemos a razão dos copos e bebidas: os concertos fechavam com a ária Brindisi da Traviata de Verdi e eram rematados com um brinde global de músicos e espectadores. E é assim que saúdo também aqui na maschamba o ano de 2010. Aqui o temos, pequenino ainda e novinho em folha, a estrear; agora vejam lá o que fazem com ele!
(por AL ainda em vigílias e sonhando com outros destinos) –
Confesso que 2009 foi para mim o que 1992 foi para a Rainha de Inglaterra, o que 2004 foi para Kofi Annan e o que 2007 foi para o Rei Juan Carlos – foi o meu Annus Horribilis! Não admira, portanto, que esteja tão contente de o ver chegar ao fim. Nem o facto de me encontrar numa galeria tão bem afiançada me tem consolado!
Assim, nesta vigília chuvosa obrigo-me a pensar, em jeito egoísta, nas coisas boas que me aconteceram em 2009 e que passo a enumerar:
o meu neto Benjamim em particular e a minha família em geral
as amizades que consolidei e as que iniciei
a minha estreia na maschamba
estar novamente solteira
ter conseguido comprar um dos meus livros favoritos assinado pelo autor
A lista é parca em quantidade mas excele em qualidade, pois foram todas coisas muito, muito boas que me aconteceram!
Ao revisitar memórias felizes constato que muitas delas estão associadas com África. Parece-me então que fica bem terminar este post com uma nota positiva, na forma de uma melodia agridoce, que muito me agrada e boas imagens me traz.
Fecho assim este annus horribilis na esperança de um Annus Mirabilis.
(por AL enregelada e meia aluada sob efeitos severos de jet-lag)
Depois de 24 horas de aviões e aeroportos eis-me em casa, aproveitando os efeitos do jet-lag para por em dia o que por aqui se tem passado na maschamba. Os pobres dos meus neurónios ainda baralhados com os fusos horários sentem-se agora mais apaziguados depois de duas horas de leituras deliciosas (perdoem-me o que pode soar a auto-elogio, mas as entradas e os comentários que acabo de ler merecem!). O meu Natal foi diferente e dará certamente algumas entradas na maschamba, mas para já aqui fica um pequeno apontamento natalício das ruas de Pangim.
Agora são as malas, ainda feitas, que chamam por mim.
Com grande pena minha não a conheci como gostaria de ter conhecido e poucas foram as memórias que comigo partilhou. Mas a riqueza das suas histórias e a frontalidade com que as contou são-me inesquecíveis.
Fruto do seu tempo e da sua época, enfrentava inimigos e críticos de peito aberto, acção em riste e palavra pronta. Não perdoou afrontas nem insultos, mas nunca fechou a generosidade a quem dela precisava. Indiferente à popularidade da causa, empenhava-se a fundo nela se nela acreditasse. Fiel a si mesma e aos princípios pelos quais viveu, nunca se rendeu a facilitismos nem se escondeu atrás de justificações ocas. Amou África; em África nasceu, viveu, lutou e morreu… mas foi Moçambique a sua grande paixão!
Não concordei certamente com muitas das suas opiniões, mas sempre lhe reconheci a coragem com que se bateu e a honestidade com que viveu. E por isso a admirei e por isso lhe criei amizade. Senhora de uma memória de elefante leva consigo uma história que fica por contar, deixando-nos a todos por isso mais pobres.
Pessoas há que parecem maiores que a Vida. Era assim a Lucinda Serras Pires Feijão…
A caminho de Timbuctu quase no fim do harmatão, surpreenderam-nos do nada em jeito de miragem. Aproximaram-se sem surpresa do LandRover verde escuro; assalaamu alaykum. Trocámos por um sorriso e um Shukran! a água fresca pelo ar condicionado. Despedimo-nos na trindade do gesto islâmico – do coração, com a palavra, no pensamento. Intemporalmente na rota do sal…
Esta noite tive que usar um computador diferente para verificar o meu correio e aproveitei para ver os comentários desportivos sobre o 1-0 que a equipa portuguesa de futebol extraiu dos visitantes bósnios.
Para encontar o endereço deste blogue, usei o Gúgele mas enganei-me. Os exmos leitores já se devem ter apercebido que o nome é Ma-Schamba, presumo que uma variação do termo “machamba”, que traduz uma área de terreno cultivada ou, hiperbolizando, uma fazenda.
Mas para variar enganei-me e, em vez do nome correcto, introduzi “mashamba”. Em fulminantes 0,1 microns de segundo, apareceram logo inúmeros resultados da minha “pesquisa” e logo fui dar a este Mashamba, que é a marca de um conjunto de empresas agrícolas sedeadas no Uganda e cujo objectivo é vender vegetais fresquinhos e acabados de colher aos mercados da Europa dentro de 36 horas do momento da respectiva colheita (bem lá se vão as emissões de CO2 para o lixo).
O site está magnificamente feito e recheado de informações sobre tudo e mais alguma coisa, inclusivé várias receitas para os alimentos que vende – como as bananas assassinas que se vêm lá em cima e que mais parecem mísseis Scud comestíveis.
Pareceu-me, pelos nomes dos “tops” das ditas cujas, que aquilo é um negócio que envolve nórdicos.
Porque hoje não tenho tempo para mais e para que, por entre afazeres acrescidos e híbridas responsabilidades da era da igualdade dos sexos e da confusão dos géneros, não nos esqueçamos que também somos mulheres.
Pouco se sabe sobre Seguro Ndabene, excepto que é um moçambicano que emigrou para o Canadá em 1984, ficou seis anos na cidade de Vitória e posteriormente trabalhou uns anitos nos Territórios de Noroeste, depois mudou-se para perto de Calgary, teve uns modestos empregos e ….fazia apostas na loteria. Hoje é casado, tem três filhos e vive na cidadezinha de Airdrie, perto de Calgary (onde para variar vivem montes de sul-africanos brancos que se piraram da África do Sul a partir dos anos 80 e onde no inverno faz um frio de rachar).
O que torna Seguro um caso curioso é que este moçambicano emigrado, como noticiou o jornal Edmonton Sun na sua edição de hoje, parece que tem tido uma sorte fora de vulgar nas suas apostas de lotaria.
É que nos cinco anos desde Outubro de 2004, o “nosso” Sr. Seguro ganhou na lotaria canadiana, os seguintes prémios: 1 milhão de dólares, 100 mil dólares, 57 mil dólares e mais 1.3 milhões de dólares.
E em Fevereiro deste ano ganhou mais um prémio, desta vez nada menos que 17 milhões de dólares.
Que, depois de uma breve disputa legal por parte de uns rassabiados quaisquer, recebeu.
Somando, isso dá cerca de 20 milhões de dólares.
Tudo em ganhos de lotaria. O que tornou o Sr. Ndabene numa celebridade no Canadá.
O que é refrescante é ler o pragmantismo e bom senso que este canadiano transplantado de Moçambique deixou transparecer na entrevista que deu e ainda a sua referência aos que, à sua volta, não têm nada.
Estatisticamente, e falando apenas em termos do jogo, este é o homem com mais sorte no mundo.
Que mais não fosse por ganhar esta quantia em cinco prémios de lotaria em cinco anos (ele diz que não há fórmula, é só jogar e mais nada) este senhor merece um telefonema de Armando Guebuza.
Para ver se ele traz alguma da sorte dele para Moçambique.
O vídeo do Out of Africa aqui postado pelo ABM trouxe-me à memória uma história engraçada e pouco conhecida.
O shooting do filme coincidiu no Quénia com a aprovação, pelo na altura Presidente Moi, da directriz das Nações Unidas que bania o comércio em marfim. O governo queniano tinha feito enormes apreensões de marfim e queria fazer uma qualquer demonstração pública e impressionante da sua destruição. Foi decidido fazer então uma enorme fogueira queimando as toneladas de marfim entretanto apreendidas. O Presidente Moi deveria aproximar uma tocha da enorme pilha, que deveria de imediato irromper em chamas altas e vigorosas, simbólicas do ímpeto anti-marfim.
Fizeram-se testes e ensaios, mas o marfim demora imenso tempo a começar a arder e tem uma combustão lenta e difícil. Assim, quando aproximavam a tocha da pilha-teste nada se passava durante uns minutos e depois lá surgia uma mísera coluna de fumo esbranquiçado e raquítico…
Foi então que alguém se lembrou que havia uma equipa de Hollywood a filmar algures no país e que seguramente dispunham de peritos em efeitos especiais. E assim foi! O filme era o Out of Africa, o ano de 1989. Neste ano de 2009 o que se elevou em fumo foram as restrições ao comércio de marfim, sem quaisquer efeitos especiais…
Estou de saída para mais uma (louca?) sexta-feira nesta paróquia de Lisboa, mas não quero deixar de partilhar uma pequena história. A propósito do ZPT dizer que eu sou homem…
Há uns anos andava eu lá para trás do sol posto, para os lados de Espungabera, a entrevistar mulheres ex-guerrilheiras. Eu, guiando o meu jeep 4×4 mais que necessário para fintar as picadas, 2 veteranos de guerra e uma intérprete feminina. Cumpridas as formalidades com o régulo e outros ilustres da comunidade, ofertados os presentes de bebida tradicional e capulana, pude então sentar-me no círculo de mulheres que me aguardava à sombra de uma árvore. Sentei-me numa pedra e, não querendo iniciar imediatamente a discussão, comecei por temas triviais, ainda com alguns homens por perto. Deixei a conversa fluir e não durou muito tempo a quebrar o gelo. Eventualmente elas falaram dos filhos e eu referi que também tinha filhos; na realidade, 2 filhas. Fez-se um silêncio confuso até que uma mais velha pergunta: “ Mais afenal tu és mulé? Tu tiraste filho?” Ao que um dos “meus” veteranos acorre para mais perto e exclama: “ Sim, mas a mana Ana é homem!”
Sem metodologia participativa e workshops enfadonhas foi assim explanada desta forma singela a (grande) diferença entre sexo e género.
E com esta história, para mim, divertida, vos deixo para um serão feliz.
Memoravelmente, fui há dias contactado pelo meu amigo CHA e a sua mulher, a excelente Odete, há uns dias, tendo ficado agendado um almoço em sua casa, situada num canto idílico da linda localidade de Galamares, por detrás da Serra de Sintra para quem vem de Cascais, chamado Les Charmettes.
O almoço, que durou seis horas entre divino repasto e muita conversa, foi ontem.
Para tal, tive que me meter no ABMobile e deslocar-me de Cascais para Sintra, para onde já não ia há bastante tempo.
Ora, para quem não conhece o local, havia uma excelente estrada pública que ligava Cascais (ao pé do Centro Comercial Cascais Shopping) a uma rotunda, à entrada de Sintra, que liga à estrada IC 19, que vai para Lisboa – e a Sintra.
A distância é cerca de sete quilómetros, o limite de velocidade entre 50 e 70 kms por hora. Faz-se bem.
Em boa verdade, a velha estrada ainda está lá. Só que, mercê do tesão desenvolvimentista, o neo-fontismo da Era Socratiana pós-Cavaquista, o que encontro quando chego onde eu pensava que estava a tal estrada para Sintra? nada mais nada menos que a entrada para uma fulgurante auto-estrada, novinha em folha, ainda a cheirar a novo, com três vias, limite de velocidade 120 kms por hora.
A nova auto-estrada A16. Vi qualquer coisa sobre isso na televisão mas com tanta estrada a ser inaugurada em tempo de eleições não sabia que era aquilo.
Curioso e algo impressionado, entro na nova via, acelero o ABMobile para 120 kms por hora. E nuns fulminantes três minutos e meio percorro os sete quilómetros.
Só que quando vejo ao longe o cartaz a anunciar a saída para Sintra, vejo também um sinal a anunciar… que tinha que pagar uma portagem.
Uma portagem? uma portagem? mas que brincadeira é esta? logo, vejo que a saída para Sintra estava depois da portagem. “Bolas”, pensei, já fui comido. Chateado, abrandei e aproximei-me da casota, onde estava uma daquelas meninas simpáticas, provavelmente com um Mestrado em Ciências Sociais que tinha que ganhar a vida.
Enquanto me aproximei, fiz algumas contas de cabeça. Bem, afinal quanto valia uma corrida de sete quilómetros e três minutos e meio na A16? Aahh.
Talvez um 25 cêntimos de euro. Não podia ser mais. Não era possível. Aquilo era ridículo. Qualquer dia neste país a gente paga portagem para tirar o carro da garagem. Cambada de comunistas reformados a armar em capitalistas.
Olhei para a menina e disse “bom dia, então que história é esta de portagem? quanto é?”
A menina olhou-me com um ar meio nervoso. “Noventa cêntimos”.
“NOVENTA CÊNTIMOS !?” Noventa Cêntimos, quase um euro, para andar três minutos e meio de Cascais até Sintra!? estão loucos? isto é um roubo !! que ladrões…”
A menina manteve-se calada.
“Ok. Está aqui um euro. Dê-me um recibo. Nada contra si, você só está a trabalhar aqui. Mas eu NUNCA MAIS passo por aqui. Mas onde é que está a velha estrada onde eu costumava passar sem pagar nada e que não era nada má? Não me diga que a mandaram abaixo.”
Afinal a auto-estrada A-16, como cada vez mais nesta terra, não era pública. Era uma concessão, algo muito na moda no Portugal moderno. Uma empresa obtém a concessão, o direito de a explorar durante um número de anos, enterra-se em dívidas e constrói aquilo, e em troca toda a gente que a usa paga-a, ao preço que lhes ocorre e que o governo assina logo por baixo. O princípio é nobre – excepto quando não há nenhuma alternativa, ou a alternativa de “nós povo” é um caminho de cabras aos zigue-zagues. Que, claro, é precisamente o que tende a acontecer quando aparecem estas “concessões” (que agradecem o favor de assim obrigarem o automobilista sensato a evitar perder a cabeça nas estradas “alternativas” e a pagar os seus usurários honorários.
Assim não vale a pena ser cidadão. Ou melhor, vale a pena quando apenas se se é rico.
Mas se eu fosse rico viveria em Mónaco, Manhattan ou Jupiter Island, não em Cascais. Lá há estradas muito melhores e não se paga metade dos impostos que se pagam aqui.
A Sra Dra menina deu-me o recibo e os 10 cêntimos de troco e explicou-me que concordava perfeitamente comigo e que a velha estrada ficava um quilómetro para a esquerda e que se podia usar.
“Mas quando vim para cá os velhos acessos desapareceram e na rotunda só vi sinais para esta auto-estrada” (Portugal está-se a tornar numa verdadeira “rotundocracia” rodoviária).
Ela explicou que havia uma (obscura) estradazinha escondida à direita da estrada que dizia “Linhó” e que essa estradazinha ligava à velha estrada que ligava Cascais a Sintra.
Acelarei o ABMobile e saí da auto-estrada, sentindo-me perfeitamente roubado e ludibriado.
Para gozo do exmos leitores Maschambianos, o recibo do que paguei está no cimo deste texto.
Nos meus tempos de residência nos EUA, era obrigatório os operadores das estradas concessionárias a) meterem uma placa em todas as entradas das suas estradas a anunciar que aquilo era a pagar, e b) as municipalidades indicavam as estradas alternativas.
Neste caso, a velha e excelente (e free) estrada para Sintra pura e simplesmente desapareceu do mapa.
Crápulas. Todos eles.
Eu sei o que alguns dos exmos leitores estão a pensar: “mas, ABM, 90 cêntimos é troco. Não faz muita diferença. Um gelado custa 2 euros.”
Talvez. mas não é assim que eu penso. E neste caso, pelas razões explanadas, ainda pior.
Quando saía da estrada, danado, ainda pensei: “bolas, agora só faltava mesmo era despedirem o Paulo Bento do Sporting”.
Há dias o meu amigo Miguel Barros, Africanista recente mas já viciado, postou esta sua foto no facebook. Despertou-me a memória vívida de um fim de tarde mágico em Benguerua, sentada na areia ainda morna da praia à espera do dhao que nos vinha buscar. Eram assim as cores do nosso céu de então; o ar doce e manso, o mar adormecido em efeitos de seda. Deitados na proa do dhao, cruzámos a baía embalados pelo arrufo da água no casco, só quebrado pela conversa do vento com as velas. O matiz de cores foi-se esbatendo para dar lugar à luz ocre da lua que nascia. Lá à frente, a Ponta de S Sebastião, ao nosso lado deslizou Magaruque; cresciam os coqueiros que bordam Vilankulos. Tempo e espaço cristalizados num momento perfeito e que nada se atrevia a perturbar. Já perto da vila começaram os tan-tans dos pescadores, a pastorearem o peixe para o redil dos baixios, onde a maré vazia os deixaria encurralados e presa fácil. Da margem, o ocasional ulular de uma mulher. Acostámos em frente à casa, numa magia de verbo sufocado e palavras supérfluas.
Viajei já por quase todo o mundo mas memórias vívidas assim só as tenho de África, continente excessivo e (mal) amado. Aqui deixo uma para estreia no Maschamba, uma carta de amor, ridícula como se querem as cartas de amor. África, África minha, a minha África…
por ABM (Alcoentre, domigo, 25 de Outubro de 2009) -
Ao referir a rádio em duas recentes crónicas, e ainda nomes e a psicose de mudar os nomes e o que isso significa e implica, descobri umas coisas interessantes que gostava de explanar aqui.
A primeira é que tenho poucas dúvidas que, pese a ditadura, o colonialismo, a opressão e essa desgraça toda (ainda é muito politicamente incorrecto falar das muitas coisas boas que faziam a vida de muitos dos que ali viveram) eu creio que da melhor rádio que se fazia em língua portuguesa em qualquer parte do mundo nos anos 60 e 70 era em Moçambique. Constatei isso facilmente quando anos depois comecei a vaguear pelo mundo. Retrospectivamente, podemos dizer que foi uma irónica benesse do sistema. Hoje há teses inteiras sobre o papel da rádio no sistema, na colonização, etc – até tentei descarregar uma há bocado mas como tinha que pagar eu….preferi poupar e permanecer ignorante. É assunto para blogue mas não está nos top 20 da minha atenção cosmológica, confesso.
Eu refiro-me à qualidade do que eu ouvia quando miúdo, nada mais. Hoje já sei que havia lá gente muito boa e que as instalações são excelentes, ainda hoje são espectaculares. Eu se mandasse punha já o pessoal da RM num edificio novo, restaurava o edifico e fazia daquilo um hotel de charme, com useu da rádio e tudo. Os terrenos das antenas de onda curta parece que já foram despachados para um mega-centro comercial, apartamentos, etc. É o progresso, presume-se.
O Rádio Clube de Moçambique tem uma longa e interessante história, que se pode encontrar um pouco por aqui e ali na internet, desde os seus primórdios até ao seu sucedâneo (apesar do corte radical) a actual Rádio Moçambique, que há já algum tempo transmite uma programação meio chôcha na internet, ou melhor, em vez de transmitir para os moçambicanos cá fora e o pessoal que quer coisas moçambicanas, re-transmite alguma da programação local, o que dá um efeito um pouco deslocado. Mas hão-de lá chegar quando perceberem que a rádio pela internet é onde está o negócio.
Talvez mais interessante seja o caso peculiar da LM Radio, que segundo os registos que li trasnmitiu de 1966 ate 12 de Outubro de 1975. Diga-se em bom rigor aquilo quase nada tinha que ver com Moçambique por assim dizer, para além de transmitir de Lourenço Marques para todo o Sul da África e cujo mercado alvo era o segmento jovem do mercado sul-africano. Isto porque a pelos vistos muito mais careta SABC, tão governamentalizada então como hoje, só transmitia uma estranha dieta boer conservadora que pelos vistos as pessoas pagavam para não ouvir. A LM Radio transmitia 24 horas por dia, sete dias por semana, em onda média, o que significa que à noite podia escutar-se com qualidade (in)decente desde Cape Town até à vizinha Joanesburgo. A estação A de Lourenço Marques saia do ar antes da uma hora da manhã e a partir daí só se podia ouvir a estação B, que transmitia em inglês e afrikaans (ou africânder, no AO), com os intervalos de uma senhora a dizer em português (com um daqueles vigorosos fados atrás) a dizer que aquilo estava a transmitir de “aqui Portugal Moçambique”.
Pelas minhas experiências pessoais mais recentes de escutar os testemunhos de toda uma geração de brancos sul-africanos que hoje estão na casa dos 40 aos 60 anos de idade, aquilo era um caso sério de popularidade. No entanto, a única coisa que aquilo tinha de “moçambicano” (na versão antes da independência) era que a sigla da estação traduzia as iniciais da capital moçambicana, que transmitia a partir dessa cidade e que era talvez o segmento de negócio mais rentável do Rádio Clube. O que não era de descurar: Lourenço Marques (para os Maschambianos incautos, re-baptizada hoje de Maputo) era um dos destinos favoritos dos turistas sul-africanos e uma importantíssima fonte de receita e do desenvolvimento da então nascente indústria turísitca moçambicana. Moçambique estava a construir uma marca forte neste negócio de lazer e passeio, sendo os turistas sul-africanos (como hoje) o mercado mais próximo, mais cativo e mais natural para Moçambique. O facto do nome da estação ser o que era, transmitir de onde transmitia, e o seu conteúdo, dava uma certa aura mágica e de prazer nas mentes dos sul-africanos – pois não consigo arranjar outra explicação para a impressão que permaneceu nas memórias de tanta gente, que viam em LM uma espécie de Las Vegas europeia perto das suas fronteiras, radicalmente diferente das suas vidas plácidas nas zonas “brancas” onde viviam em relativo conforto. Ainda hoje todos falam das LM prawns – e eu que vivia lá devo ter comido camarões não mais que meia dúzia de vezes até chegar aos 15 anos…
Naturalmente que, para os revolucionários da Frelimo recentemente chegados de Dar-es-Salaam em 1975, com bazookas e Ak47 e de fato militar verde escuro, imagino que a presença nos estúdios da nascente RM de meia dúzia de jovens locutores sul-africanos a transmitir rock and roll para os meninos e as meninas teenagers da Joanesburgo do famigerado apartheid devia dar um episódio digno de um filme do Cantinflas. Misericórdia e revolucionariamente, o novo Departamento de Trabalho Ideológico da Frelimo, pela pena do seu expoente, Jorge Rebelo, rapidamente “orientou” que eles se pirassem dali para fora. A última emissão, com uma fleugmática despedida de Peter da Nóbrega, ocorreu em 12 de Outubro de 1975, já com o caminho preparado para a inauguração de uma estação semelhante em território sul-africano, a Radio Five, que começou a transmitir o mesmo tipo de programação às 5 da manhã do dia seguinte, nas mesmas frequências de onda média anteriormente utilizadas pela defunda LM Radio.
Para minha surpresa – ou talvez não – recentemente um grupo de investidores creio que sul africanos, olhando desta vez para o muito lucrativo segmento de mercado sul africano branco que escutava a velha LM Radio, e que agora tem entre 45 e 65 anos de idade, repescou de alguma forma a marca e a aura anterior. Formou uma nova LM Radio, desta vez significando uma menos abrasiva Living Memory Radio, (sim porque saudosismo naquelas paragens ainda suscita suspeitas de reaccionarismo colonial racista fascista) que – surpresa – já está a transmitir o que agora são canções antigas, dos anos 60 e 70, a partir de Maputo, em FM na cidade mas trambém através da internet.
Não sei até que ponto este projecto terá sucesso, nem o que quer dizer isto de a estação se basear em Maputo. Maputo já não é Lourenço Marques, a África do Sul já não é o que era. E aparentemente muita da aura associada à velha estação derivava da popularidade dos seus locutores, cujos nomes (John Berks, David Davies, Gary Edwards, Frank Sanders, Robin Alexander, George Wayne, David Gresham e outros) eram bem conhecidos na África do Sul. E que já morreram ou estão noutra.
Mas pode ser que vingue. Pela a minha parte, desejo-lhes muita sorte.